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Claridades do sul

Chapter 62: III
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About This Book

A lyrical collection that alternates exaltation and meditation, using sunlight, mythic and religious images, and vivid natural scenes to examine vitality, mortality, and moral tension. Several poems contrast heroic or sacred language with decay and hypocrisy, questioning faith, passion, and social decline while giving voice to grief and defiance. Others linger on rural labor, seasonal cycles, and intimate landscapes, offering mystic longing and consolation through the sensuous textures of sound, color, and memory.

*MISERIA OCCULTA*

Bate nos vidros a aurora,
Vem depois a noute escura;
E o pobre astro que ali móra,
Não abandona a costura!

Para uns a vida é d'abrolhos!
Para outros mouta de lyrios!
Bem o revelam seus olhos,
Pisados pelos martyrios!

Miseria afugenta tudo!
Miseria tem dons funestos!
Quem é que gaba o velludo
D'aquelles olhos honestos!…

Ninguem seus olhos brilhantes
Descobre n'essas alturas…
E aquellas formas tão puras,
E aquellas mãos elegantes!

Sempre á costura inclinada!
Morra o sol ou surja a lua
Nunca vi descer á rua
Aquella loura encantada!

Aquelle lyrio dobrado
Por que assim vive escondido!
Eu bem sei!—não tem calçado!
E é muito usado o vestido!

Por isso não tem porvir
Morrerá virgem e nova,
E aguarda-a bem cedo a cova…
Que eu bem a ouço tossir!

Miseria afugenta tudo!
Miseria tem dons funestos!
Quem é que gaba o veludo
D'aquelles olhos honestos!

Pobre flor desfalecida
Tão nova e ainda em botão!
Como teve estreita a vida,
Terá estreito o caixão!

*LISBOA*

     Cette ville est au bord de l'eau; on dit qu'elle este batie en
     marbre…
     (Baudelaire)

De certo, capital alguma n'este mundo
Tem mais alegre sol e o ceu mais cavo e fundo,
Mais collinas azues, rio d'aguas mais mansas,
Mais tristes procissões, mais pallidas creanças,
Mais graves cathedraes—e ruas, onde a esteira
Seja em tardes d'estio a flor de larangeira!

A Cidade é formosa e esbelta de manhã!—
É mais alegre então, mais limpida, mais sã;
Com certo ar virginal ostenta suas graças,
Ha vida, confusão, murmurios pelas praças;
—E, ás vezes, em roupão, uma violeta bella
Vem regar o craveiro e assoma na janella.

A Cidade é beata—e, ás lucidas estrellas,
O Vicio á noute sae ás ruas e ás viellas,
Sorrindo a perseguir burguezes e estrangeiros;
E á triste e dubia luz dos baços candieiros,
—Em bairos sepulchraes, onde se dão facadas—
Corre ás vezes o sangue e o vinho nas calçadas!

As mulheres são vãs; mas altas e morenas,
D'olhos cheios de luz, nervosas e serenas,
Ebrias de devoções, relendo as suas Horas;
—Outras fortes, crueis, os olhos côr d'amoras,
Os labios sensuaes, cabellos bons, compridos…
—E ás vezes, por enfado, enganam os maridos!

Os burguezes banaes são gordos, chãos, contentes,
Amantes de Cupido, avaros, indolentes,
Graves nas procissões, nas festas e nos lutos,
Bastante sensuaes, bastante dissolutos;
Mas humildes crhistãos!—e, em lugubres momentos,
Tendo, ainda, crueis saudades dos conventos!

E assim ella se apraz n'um somno vegetal,
Contraria ao Pensamento e hostil ao Ideal!—
—Mas mau grado assim ser cruel, avara, dura,
Como Nero tambem dá concertos á lua,
E, em noutes de verão quando o luar consolla,
Põe ao peito a guitarra e a lyrica violla.

No entanto a sua vida é quasi intermitente,
Afunda-se na inação, feliz, gorda, contente;
Adora inda as acções dos seus navegadores
Velhos heroes do mar; detesta os pensadores;
Faz guerra a Vida, á Acção, ao Ideal—e ao cabo
É talvez a melhor amiga do Diabo!

*A SESTA DO SENHOR GLORIA*

É no fim do jantar. Deram tres horas
No bom relogio antigo dos avós,
E o senhor Gloria pega n'uma noz
Com um ar de quem trata com senhoras.

A casa de jantar toda pintada
E o estuque cheio d'aves, de paysagens,
De nymphas, prados, d'aguas, de boscagens,
Tem uma forma antiga e recatada.

D'involta com seus goles de Madeira
A senhora digere o seu café;
E ao lado, um filho rubido de pé
Parece um pregador sobre a cadeira.

No collo da matrona dorme um gato
No melhor somno commodo do mundo,
Em quanto em baixo um cão grave e profundo,
Contempla uns restos que inda estão n'um prato.

O senhor Gloria falla, chocarreiro,
Do seu cunhado Aleixo de Miranda;
Lá fóra, um papagaio n'um poleiro
Diz cousas aos burguezes, da varanda.

Com um ar meio comico e boçal
Um sisudo creado atraz, de pé,
De vez em quando falla menos mal;
—O senhor Gloria aspira o seu café

Muito tempo assim ficam n'esse estado
De santa somnolencia e beatitude,
Mais que assás conhecido da Virtude
Quando tem digerido e bem jantado.

No entanto o senhor Gloria, olhos dormentes,
Contempla na parede os bons pastores,
Confidentes fieis dos seus amores,
—Que outrora hão já sorrido aos seus parentes

Duas pastoras fallam com poesia
N'uma vereda d'alamos annosos,—
E isto accorda-lhe os tempos virtuosos
Que a hora do jantar era ao meio dia!

Bellos tempos—pensa elle—de virtude!
De gloria, amor, coragem, fé ardente,
De longas procissões, e de saude,
De singelesa e paz—vida contente!

E o senhor Gloria aqui, n'um travesseiro
Deita a cabeça, de pensar prostrado;
—O papagaio ri no seu poleiro,
—E a senhora sorri para o criado.

*FARÇA TRISTE*

     Je suis son pére.
     (Flaubert)

Ninguem diria ao certo a edade que teria!
Era um velho devasso e histrião—bom guia
Para mostrar de noute, aos baços candieiros,
As casas de bordeis aos velhos estrangeiros.

Encontravam-o sempre a errar, imbecilmente;
Era alto, magro, hostil, e dava-se á aguardente—

Tinha um certo tremor em todo o corpo—o vinho
Dava-lhe um rir constante; tinha o sorrir mesquinho
E dubio que nos faz arrepiar mau grado;—
Fôra mendigo e actor, ladrão, bobo e soldado.

Tinha os habitos vis e as farças de caserna,
Ninguem sabia mais os casos de taberna;
Como era magro, esguio, e alto como um cypreste
Dobrava para o chão; o sopro do nordeste
Fazia-o tiritar; tinha os labios fendidos,
E uns oculos azues e linho nos ouvidos.

No entanto segue o Mal varios e negros trilhos!
O livido truão tinha mulher e filhos
Esfomeados, nus, amados com paixão;
Por elles fôra tudo:—actor, bobo e ladrão.

Quando voltava á noute, as lividas creanças
Rotas, velhas da fome, ella soltas as tranças,
Desfeita, emmagrecida, esqualida, doente,
Faziam-o chorar a vida e a aguardente.

Injuriava Deus. Elle é sublime e augusto,
Bello celeste, bom; dizem-o grande e justo,
E habita são, feliz, de soes agasalhado,
Em quanto os mais tem fome, e que elle acabrunhado

Era velho e ladrão! Tinha accessos, delirios,
E apostraphava o Ceu hermetico aos martyrios,
Abraçava a mulher e os filhos, e de novo
Saia;—d'esta vez, voltava com um roubo!

Quando voltava então, os prantos da alegria
Tornavam-os boçaes,—e o pão era uma orgia!

A mulher tinha um rir alegre e natural,
E elle magro e faminto, exhausto, machinal,
Chorava como um pae; tinha olvidado o inferno,
A misería, a desgraça; era boçal e terno;
Tinha um ar virtuoso e angelico; os pequenos
Cansados de soffrer a fome, o frio, ao menos
Sabiam comer bem! Eram emfim felizes!
Não rojavam na terra a devorar raizes!
Comiam-lhe o seu pão! Custara-lhe trabalho!
Coitados! sempre assim, sem pão nem agasalho!
Era uma vida atroz, ingrata vil, escura!
Não tinham de comer, não tinham cobertura!
Tossiam tanto á noute!—Ah! Deus era um ingrato!

E os prantos em roldão cahíam-lhe no prato.

*MADRIGAL DA RUA*

Ó irmã das açucenas!
Meu coração é um horto,
Semeado de mais penas
Que as chagas d'um Christo morto.

Tanto é ver-te o meu desejo!
Tanto em mim poder conservas!
Que eu creio se não te vejo
Já ser debaixo das hervas!

……………………………………

Debaixo d'essas janellas
Sempre crueis e fechadas,
Hontem á noute, ás estrellas,
Deram-me quatro facadas!

Mas nenhuma fez no peito
O mal,—que por minha cruz!
Os teus olhos me tem feito
Dando facadas de luz!

TERCEIRA PARTE

CARTEIRA DE UM PHANTHASISTA

*ANTES DE ABRIR A CARTEIRA*

Aqui leitor socegado!
Velho burguez d'outras eras!
Depõe o livro de lado;
—Não leias estas chimeras!

Não corras esta carteira
Meu velho amigo sem dentes!
Em quanto geme a chaleira
Sonha em teus mortos parentes!

Mas vós amigos dos sonhos
Doces mysticas violetas,
Castos selvagens tristonhos,
E solitarios poetas!…

Que amais as tristes paysaygens
E as cousas mysteriosas,
A longa chuva, as viagens,
E as melodias nervosas.

Nas longas noutes d'outono
Que o vento varre a poeira,
E a chuva bate—sem somno!—
Folheae esta carteira!

*A NOUTE DO NOIVADO*

O primeiro conviva, em punho a taça,
Ergueu-se lentamente, e com voz rouca,
Bradou: Amigos! consenti que faça
Uma saude á Morte—a velha louca!

A minha historia é triste e muito pouca!
Eu como vós, sou filho da desgraça,
Amei uma só vez. Que mimo e graça!
Oh que pé andaluz! que olhar, que boca!

Na noute do noivado—ouvi, devassos!
Beijei-a doudamente entre meus braços,
E atirei-a no mar, tremula e nua!

Ninguem não mais a gosará um dia!
Repousa ali a minha noiva fria,
Guardada pelo olhar frio da lua!

*A TORTURA DAS CHIMERAS*

     Les édifices eloquentes…
     Balzac

Quantas vezes, nas noutes pluviosas,
Ou nas limpidas noutes estrelladas,
Como espectros de espinhos e de rosas—
Erguem-se em nós as cousas apagadas!

Que vezes, n'esta vida positiva,
—N'esta comedia lugubre moderna—
Se eleva a outra esphera nobre e viva
Nossa alma mais poetica, mais terna!

Os contornos das cousas despresadas,
Um fundo triste, um muro, umas ruinas
Um mosteiro, um luar—nas almas finas
São como umas celestes madrugadas.

Quem não terá jamais sentido um dia
As gostosas torturas do mysterio
Surgindo, ao fundo, a mystica elegia
D'um nevado luar n'um cemiterio!

Sim, nestes climas lucidos do Sul,
Tão propenso ás visões sentimentaes
E ás chimeras—quem não terá jámais
Tido a cruel melancholia azul?

Sim, quantas vezes n'uma tarde bella,
Á dorida eloquencia d'um castello,
D'um muro, não pensei nos Ceus, n'aquella
Que eu podia partir como um cabello!

Nuvens distantes, rubras, singulares,
Formas vagas… neblinas pardacentas,
Velhos musgos… azul… cousas nevoentas
Sois causas de phantasticos pesares!

Quem não terá scismado em suas magoas
E amado as cousas mysticas, celestes,
Por um luar calado sobre as aguas
E um choroso sol posto entre os cyprestes!

No entanto sonhos vãos que nos prendeis
Qual prendem velho muro as verdes heras…
—É tempo brancas pombas que deixeis
Os laranjaes e as ruas das chimeras!

E é tempo que as torturas assassinas
Que nos rasgam melhor do que um punhal,
—Bem o sabeis mãos brancas, pequeninas!
Vos não junteis miserias do Ideal!

*TARDE DE VERÃO*

Trepam-lhe pelas janellas
Jasmins, cheirosas serpentes,
E soltam-se as bambinellas
Em pregas indifferentes.

Os lyrios que são uns ais
Suspiram melancholias;
Riem quadros sensuaes
Nas largas tapeçarias.

Satyro ri nas florestas
Niobe soluça magoas,
E escuta-se entre as giestas
A voz rythmica das agoas.

E á luz dubia dos occasos
Ensanguentados do Sul
As camelias dos seus vasos
Olham voltadas o azul.

Lá dentro das gelosias
Volteiam como desejos,
Perfumes, melancholias,
Como saudades de beijos.

Jaz ao pé do seu bordado
Um cofre de filigrana,
E um mandarim espantado
Com olhos de procelana.

Uma violeta esfolhada
Chora um amor n'um jardim.
Uma vareta quebrada
Ri n'um leque de marfim.

Nadam no quarto perfumes
D'oleos, pomadas cheirosas,
Um collar mostra os seus lumes;
Voam aves gloriosas

N'um album perto olvidado
Ha uns idyllios d'amores,
E ao pé d'um Christo chagado
Morrem nas jarras flores.

Mas, pasmada alheia a tudo
Junto d'um missal já velho,
Uma masc'ra de velludo
Olha idiota no espelho.

Olhos vasios d'espanto,
Olha, olha, nada vê,
Ri-se uma Venus a um canto,
E um cravo murcha-lhe ao pé.

…………………………………… …………………………………… …………………………………… ……………………………………

Assim eu sou moço velho,
E em minha alma, ó minha amada!
Como a masc'ra no espelho
Eu olho e não vejo… nada!

*NA CABECEIRA D'UM LEITO*

Quando as tuas mãos inermes
Forem em cruz sobre o peito,
E que te roam os vermes
Ó corpo branco e perfeito!

E sejas cheia de terra
Boca cheia de risadas,
Chora este amor que me aterra…
Pelas noutes estrelladas!…

*MADRIGAL EXCENTRICO*

Tu que não temes a Morte,
Nem a sombra dos cyprestes,
Escuta, Lyrio do Norte,
Os meus canticos agrestes:

…………………………………… …………………………………… …………………………………… ……………………………………

Tu ignoras os desgostos
D'um coração torturado,
Mais tristes do que os soes postos,
Ou de que um bobo espancado!

Eu bem sei, ó Musa louca
Que não conheces a magoa…
E tens um riso na boca
Como um cravo aberto n'agua…

Eu bem sei… bem sei que ris
Dos meus madrigaes modernos.
Sem cuidar, ó flor de liz!
Que hão de chegar-te os invernos!

Que nos corre a Mocidade,
Qual folha verde do val,
E ha de vir-te a tempestade,
Ó branco lyrio real!

Que has de ser como a açucena
Varrida pelo nordeste…
E os prantos da minha pena
Que hão de regar teu cypreste!

Que ha de a terra agreste e dura
Servir-te de ultimo leito…
E a pedra da sepultura
Quebrar teu corpo perfeito!

E has de, emfim, ser devorada
Na fria noute, entre os bichos…
Ó tu que andas adorada,
Como as santas sobre os nichos!…

—Eu bem sei que te não does
Do meu coração ralado,
E fazes aos rouxinoes
Parodias sobre o teclado.

Que amas ver—como n'um drama,
O meu coração ferido,
Como um gladiador de fama,
Sobre um theatro vencido.

—Ah! mas eu que já estou velho…
Carcomido como a Cruz…
Digo adeus ao ceu vermelho…
E ás boas tardes de luz!

…………………………………… ……………………………………

Adeus, adeus, ó Amor!
Sinistra farça divina,
Mais sonoro que o tambor
De bohemia bailarina!

Adeus, adeus, ó outomno!
Vão-se as folhas amarellas!…
Sinto-me cair de somno,
Olhando para as estrellas!

Sigam todos os meus rastros!…
Andei errado o caminho!
E sinto-me ebrio dos astros
Como um bebado de vinho!

Adeus, adeus rola amada!
Não chores a minha viagem…
Vou hospedar-me no Nada,
Como na boa estalagem!

Adeus, adeus, Mocidade!
Já chega o inverno do Mal!…
Vae despir-te a Tempestade
Nevado lyrio real!

Chegou a noite fechada!
Adeus tardes das janellas!
—Pintai-me agora no Nada
Sobre as tristes aquarellas!

*AQUELLA ORGIA*

Nós eramos uns dez ou onze convidados,
—Todos buscando o gozo e achando o abatimento,
E todos afinal vencidos e quebrados
No combate da Vida inutil e incruento.

Tocava o termo a ceia—e ia surgindo o alvor
Da madrugada vaga, etherea e crystallina,
A alguns trazendo a vida, e enchendo outros de horor,
Branca como uma flor de prata florentina.

Todos riam sem causa.—A estolida batalha
Da Materia e da Luz travara-se afinal,
E eram já côr de vinho os risos e a toalha,
—E arrojavam-se ao ar os copos de crystal.

Crusavam-se no ar ditos como facadas;
Escandalos de amor, historias sensuaes…
—Rolavam nos divans caindo, ás gargalhadas,
Sujos como truões, torpes como animaes.

Um agitando o ar com risos desmanchados,
Recitava canções, farças, Hamlet e Ophelia;
—Outro perdido o olhar, e os braços encruzados,
De bruços, n'um divan, roia uma camelia!

Outros fingindo a dôr, fallavam dos ausentes,
Das amantes, dos paes, com gritos d'afflicção,
—Um brandia um punhal, com ditos incoherentes;
—Outro sobre um sophá ladrava como um cão.

Era um delirio atroz de risos pelos ares!
—Ah! mas eu, que só quero a paz dos vegetaes,
Feliz! então feliz! matava os meus pesares
N'aquelle ocio imbecil da pedra e dos metaes!

Havia extinto em mim as ultimas scentelhas;—
Julgava achar-me só n'aquelle phrenesim,
Não sentia pungir as minhas magoas velhas,
Feliz! muito feliz!—ah! descansava emfim!

Repousava a final da pallida batalha,
Espalhava-se em mim o grande esquecimento;
Cuidava achar-me emfim cingido da mortalha,
Ou minhas cinzas já dispersas pelo vento.

Quando um d'elles então—n'uma ironia rude,
E erguendo-se de pé, na vasta confusão,
Com um rir bestial ergueu uma saude
Áquella que tornou-me em cinza o coração!…

……………………………………

—Ah! seu nome cruel, de subito lembrado,
De novo reabriu todas as minhas magoas!
E desfeito, de pé, senti-me transmudado,
Como um morto trazido á praia pelas aguas!

E como o morto errante ás luas silenciosas,
Ao vento, aos temporaes, ás algas das marés,
Trazendo inda a visão das noutes tempestuosas,
—Todos calou o horror da minha pallidez.

E em lagrimas bradei, então:—Ó Infelizes!
Imbecis! histriões! heroes do Soffrimento!
Como haveis de fechar as vossas cicatrizes,
—Se nem aqui deixaes matar o pensamento?!

*O VISIONARIO ou Som e Côr*

(A Eça De Queiroz)

Eu tenho ouvido as simphonias das plantas.

Eu sou um visionario, um sabio apedrejado,
Passo a vida a fazer e a desfazer chymeras,
Em quanto o mar produz o monstro azulejado
E Deus em cima faz as verdes primaveras.

Sobre o mundo onde estou encontro-me isolado,
E erro como estrangeiro ou homem d'outras eras,
Talvez por um contacto ironico lavrado
Que fiz e já não sei talvez, n'outras espheras.

A espada da Theoria, o austero Pensamento,
Não matou ainda em mim o antigo sentimento,
Embriagam-me o Sol e os canticos do dia…

E obedecendo ainda a meus velhos amores,
Procuro em toda a parte a musica das côres,
—E nas tintas da flôr achei a Melodia!

II

       J'ai vu les Espréces et les Formes,
    j'ai vu l'Esprit des Choses.
    (Balzac Seraphita)

Bem sei que a planta engana e a Natureza mente,
E que a flexa do Sol nos pode assassinar,
Que a Peste torna o azul sereno e resplendente,
E que a pérola sae das infecções do Mar!

Tudo é Materia e Força e lei omnipotente!
E em quanto o lyrio incensa e azula-se o luar,
Impassivel talvez, em baixo, surdamente,
A terra cria a flôr que me hade envenenar.

Bem sei! mas, na floresta immensa das Theorias,
Eu amo divagar ouvindo as melodias
Que as plantas musicaes dão aos astros e aos Ceus.

Ah! eu vejo Jesus no coração das rosas!
Só eu, ouço as leaes flores melodiosas!
E o lyrio é para mim a hostia onde está Deus!

III

     O vermelho deve ser como o som d'uma trombeta….
     (Um cego)

Allucina-me a Côr! A Rosa é como a Lyra,
A Lyra pelo tempo ha muito engrinaldada,
E é já velha a união, a nupcia sagrada,
Entre a côr que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, ás vezes, brota a flôr que não inspira,
A trivial camelia, a branca enfastiada,
Muitas vezes no ar perpassa a nota alada
Como a perdida côr d'alguma flor que expira!

Ha plantas ideaes d'um cantico divino
Irmãas do oboé, gemeas do violino;
Ha gemidos no azul, gritos no carmezim!

A magnolia é uma harpa etherea e perfumada!…
E o cacto a larga flor, vermelha e ensanguentada,
Tem notas marciaes, sôa como um clarim!

IV

Mas aquella que adoro, a hieratica duqueza,
Nobre como as reaes senhoras de Brabante,
Como a hei de pintar egual e semelhante,
Se não ha Som nem Côr em toda a Natureza!

Seu collo tem do lyrio a rigida firmeza,
Seu amor é um ceu catholico e distante;
Mas a luz do olhar sonoro e radiante
Eleva como a Côr, sôa como a Belleza!

Nunca lhe ousei fallar, nem sei, se amor lhe inspiro;
Mas quando emfim morrer, então como um suspiro
Meu seio florirá, em vez do meu amor…

N'uma flor que porá talvez sobre a janella—
Uma flor rubra e negra, em forma d'uma estrella,
—Como uma symphonia obscura de terror!

*MADRIGAL FUNEBRE*

     Na mortalha alheia não temos mais que fazer
     Bernardim Ribeiro.

     To die to sleep.
     (Shakspeare)

A ti que os meus ais resumes
Estas quadras dolorosas,
Corpo inundado em perfumes,
E de pomadas cheirosas:

…………………………………… ……………………………………

A mim custa-me a morrer,
—Não por que esta vida valha;
Mas porque sei que heide ter
Teu coração por mortalha.

E, depois d'estes abrolhos,
Hei de ter a valla escura
Do teu peito, e esses teus olhos
Coveiros da sepultura.

Não terei pompas de pasmos,
Nem a estatua que lastíma;
E hão de mandar pôr-me em cima
Uma cruz dos teus sarcasmos!

E para que a morte atteste
Epitaphio de bocejos,
—E ao pé erguido um cypreste,
Nascido dos meus dezejos.

E ao ouvires as enxadas
No que morreu sem confortos,
Serão tuas gargalhadas
As ladainhas dos mortos.

E então ali que me rôa
O verme dos teus olvidos,
E não tenha uma corôa
E os teus cabellos fingidos.

…………………………………… …………………………………… ……………………………………

Ó filha vã de Magdala!
Quanto cadaver desfeito
Não tens lançado na valla
Voraz e fria do peito!?

Quantas crenças enterradas!
E que mortos, sem capellas,
Sem pombas, nas madrugadas,
Nem os prantos das estrellas!

*DEBAIXO D'UMA JANELLA*

A Batalha Reis

FAUSTO E MEPHISTOPHELES

FAUSTO

Nas noutes brancas de lua
É que se abrem as janellas!
Vem vêr meus olhos escuros
A sementeira d'estrellas!

Quem me dera a mim que fosse
Para te poder fallar,
O teu peito uma janella
E o meu amor o luar!

Uma voz (cantando dentro)

As estrellas mais brilhantes,
Entre as outras as primeiras,
São os prantos de Maria
E o suor das Oliveiras.

MEPHISTOPHELES (cantando n'uma guitarra)

O nosso bom arcebispo
Perdeu a sobrepeliz,
Uma vez em casa de…
São cousas que o povo diz.

FAUSTO

Eu era um rei poderoso,
Sem legiões, nem castellos,
Tendo a corôa de teus braços,
E o manto de teus cabellos!

Meu amor, são os teus olhos,
Mais negros que a noute escura,
Dous trigueiros assassinos
Cavando-me a sepultura!

A voz (cantando)

Os rubins são umas pedras
Feitas de pingos de luz,
Foram as gotas de sangue
Dos roxos pés de Jesus.

MEPHISTOPHELES

Escrevi o meu amor
No muro do coração,
N'uma noute de relento,
Com teus olhos de carvão!

FAUSTO

Por que estaes, soes, encobertos,
Ó tristes olhos amenos!
Receias ó minha esquiva!
Não te crestem os serenos?

A voz (cantando já ao longe)

Quando subiu ao Ceu Christo
Depois da paixão da Cruz,
Subiu por vós, ó estrellas!
Que sois escadas de luz!

MEPHISTOPHELES

Eu deixarei, ó trigueira,
D'amar tuas tranças negras,
Quando mandarem os sapos
Sonetos ás toutinegras.

FAUSTO

Fecharam-se as violetas
E dormem as andorinhas;
A mim ha muito que o somno
Desertou das noutes minhas!

Ó bem amada das almas,
Tão avara de carinhos!
Acaso nos teus canteiros
Sómente crescem espinhos!

(affastam-se e vão de braço dado,)

MEPHISTOPHELES (ao longe)

O nosso bom arcebispo
Perdeu a sobrepeliz
Uma vez em casa de…
São cousas que o povo diz!

*A SELVAGEM*

Ás vezes, como os grandes phantasistas,
Sinto o desejo intenso das viagens…
E ir sosinho habitar entre os selvagens,
Como n'um ermo os asperos trapistas.

As grandes, vastas, limpidas paysagens,
Que sabem vêr os immortaes artistas…
Teriam novos tons, novas imagens,
Longe do mondo avaro e as suas vistas!

Com uma virgem—flor d'essas montanhas—
Entre os mil sons das arvores extranhas,
Dos coqueiros, bambus… fôra feliz!…

Dormiria em seus braços nus, lustrosos;—
E ouviria, entre uns beijos voluptuosos,
Tintinar-lhe as argollas do nariz!

*A LANTERNA*

O sabio antigo andou pelas ruas d'Athenas,
Com a lanterna accesa, errante, á luz do dia,
Buscando o varão forte e justo da Utopia,
Privado de paixões e d'emoções terrenas.

Eu tambem que aborreço as cousas vãs, pequenas
E que mais alto puz a sã Philosophia,
Ha muito busco em vão—ha muito, quem diria!
O mais cruel ideal das concepções serenas.

Tenho buscado em balde, e em vão por todo o mundo;
Esconde-se o ideal no sitio mais profundo,
No mar, no inferno, em tudo, aonde existe a dôr!…

De sorte que hoje emfim, descrente, resignado,
Concentrei-me em mim só, n'um tedio indignado,
E apaguei a lanterna—É só um sonho o Amor!

*ULTIMA PHASE DA VIDA DE D. JUAN*

(AMOR DE COSINHA)

     Afinal D. Juan vinha, hoje, a morrer d'uma indigestão.
     (Palavras d'um grande realista)

Cançado de vãos fogos de Bengalla,
Como Pansa odeei o Pensamento,
E abandonei os ideaes de salla
—Pelo amor da cosinha succulento!

E os meus fortes desejos sensuaes,
—Desejos que hão de dar na morte escura!—
Soluçam só—ó deuses immortaes!
Só pela ama d'um florído cura.

Ella é o forte e esplendido ideal!
Seu cabello é mais fino do que o ouro,
E a sua voz mais bella que o metal,
E os cantos catholicos do côro.

Os seus labios vermelhos e discretos
Lembram romãs das cercas clericaes,
E os seus olhos sombrios são mais pretos
Do que o latim escuro dos missaes!

Se, acaso, o mundo nota-lhe alguns erros,
Compensa-os para mim com bons presuntos;
Os olhos d'ella fazem mais defuntos,
Dos que o padre acompanha nos enterros!

Fugiu de mim a vã melancholia!…
Ella é franca e alegre como a vinha…
E em quanto o padre está na sachristia
Eu devoro-lhe as aves na cosinha.

—Mas, hontem, que gosando o seu amor
Dormia, santamente, entre seus braços,
Bateu, tragicamente, o bom prior,
E a escada rangeu sob os seus passos…

O coração pulsou-me acelerado;
Ella estacou trémula e suspensa….
Mas levou-me a um sitio agasalhado,
—E dormi toda a noute na dispensa.

*A ULTIMA CEIA DE FALSTAFF*

Nunca mais me permitte a sorte crua
Que ande ás portas batendo tresnoutado,
Vae morrer em beco, abandonado,
O maior bebedor que olhou a lua!

Dos braços da creada seminua
Nunca mais rolarei sobre o telhado;
E, ao relento, encherei, com passo errado,
De lettras cabalisticas a rua.

Vae morrer, morrer sim, por seus castigos,
O estomago que foi mais forte e cheio,
Que na Paschoa ceiou com Satanaz…

Cae o rival dos bebados antigos!
Ó toneis immortaes abri-lhe o seio!
—São-me fataes as ceias de goraz!—

*FALSTAFF MODERNO*

In vino veritas

Quando eu morrer, ninguem lerá no craneo
      Se eu fui mouro ou judeu,
Se presava o cognac ou o Madeira,
      Que soffrer foi o meu!

Ninguem dirá se era trigueiro ou louro,
      Se eu fui Pope ou Camões,
E os sabios não dirão, coçando a calva,
      A côr dos meus calções.

Não saberão dizer se foi a pipa
      O hotel em que vivi,
E se fazia sol ou aguaceiros
      No dia em que nasci.

Se, apoz a douda orgia, o meu enterro
      Pela manhã, sair,
Tu virás á janella bocejando,
      E em coifa de dormir.

E não conseguirás verter um pranto
      Do terno teu setim,
Em quanto os gordos padres irão lentos,
      Ressonando em latim!

Os annos jogarão com os mais craneos
      E o meu magro esqueleto
Uma especie de jogo das caveiras
      Dos coveiros d'Hamleto!

Ninguem, mulher, dirá que funda magoa
      Minou meu coração!
E eu mandarei pôr, por epitaphio!
      —Maldita indigestão!—

Mas que ideas tão negras! O que importa
      Rôa a terra mais um!
Depois da morte! o nada. Ó minhas lagrimas
      Não me estragueis o rhum!

*NA RUA*

Veijo-a sempre passar séria, constante,
—Ás vezes, inclinada na janella,—
Tranquilla, fria, e pallido o semblante,
Como uma santa triste de capella.

Seu riso sem callor como o brilhante
No nosso labio o proprio riso gella,
E ella nasceu para chorar diante
D'um Christo n'uma estreita e escura cella.

Seu olhar virginal como as crianças
Jamais disse do amor as cousas mansas;
Jamais vergou da Força ao choque rude.

Abrasa-a um fogo divinal secreto!— eu sinto, mal a avisto, ao seu aspecto, O brio intenso e negro da Virtude.

*PHANTASIAS DA LUA*

     Terret, lustrat, agit proserpiua, Luna, Diana, Ima, supernas,
     feras, sceptro, fulgore, sagitta.
     (Distico de Hieronim)

Hontem fui atravez dos arvoredos,
—Os bons carvalhos épicos rugosos!—
Com ella, como dous novos esposos,
—E a lua então contou-nos mil segredos!—

Ella vinha estreitada contra mim—
E atravez das veredas seculares,
Dava a lua umas sombras singulares
Á sua alva botinha de setim!…

Não haviam estatuas nas veredas,
—As estatuas crueis entre as ramagens!—
E ouvia-se o ranger das suas sedas
Sobre as folhas,—segindo-a como uns pagens.

Tremia todo unido contra o meu,
Como uma ave, seu braço palpitante;
E era vago, qual musica distante,
O azul nocturno mistico do Ceu.

De vez em quando unia contra a minha
A sua mão mais branca que um cyrio,
E como um casto amante uma rainha
Seguia atraz do seu vestido um lyrio.

As fontes tinham agoas de brilhantes;
E em quanto a sua voz vibrava em mim,
Eu fitava seus olhos avidos, amantes,
Na sua alva botinha de setim.

Ella é fragil e timida. Ama as rosas,
Crê nos sonhos, visões, nos malmequeres,—
E chora com as musicas nervosas
Como as debeis e mysticas mulheres.

No entanto mais ninguem do que eu receia
Seus pobres, frageis nervos delicados!
Ninguem mais me seduz do que a sereia,
Correndo a mão fransina nos teclados!

Iamos assim fallando d'escudeiros,
Paladins, lendas, dramas, toda a escura
Edade media, em quanto na espessura,
Os rouxinoes cantavam nos loureiros.

Mas eis que pára… e diz-me de repente,
Cravando-me o olhar tragico sublime,
—Mata-me um dia!—E eu li, perfeitamente,
—Em seus olhos azues o amor do Crime!—

Mata-me tu! cruel! disse-lhe eu rindo,
E em quanto o seu olhar errava em mim,—
E enterra-me depois n'um sitio lindo,
—N'um loureiro que cresce em teu jardim!

Minha alma ali será perto da tua,
Como as almas irmãs, branca sereia,
E tremerei nas folhas, pela lua,
Ao sentir teus pésinhos sobre a areia!

Manda pôr o meu corpo em sitio lindo,
Debaixo d'um loureiro, em teu jardim;
Meu bem! Mata-me tu! disse-lhe rindo:—
Ensanguenta as botinhas de setim!

…………………………………… …………………………………… …………………………………… ……………………………………

E eis aqui como em noutes amorosas
Nestes bons climas callidos do Sul,
Produz sonhos, chymeras monstruosas,
A triforme immortal—a lua azul!

*O SELVAGEM*

A Silva Qinto

Eu não amo ninguem. Tambem no mundo
Ninguem por mim o peito bater sente,
Ninguem entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitario, inerte e mudo,
—Passividade estupida das Cousas.

Fechei, de ha muito, o livro do Passado
Sinto em mim o despreso do Futuro,
E vivo só commigo, amortalhado
N'um egoismo barbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos crueis indifferentes,
Meu peito é um covil, onde, ás escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguem. Saio sómente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguem me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram á lua…

*O AMOR DO VERMELHO*

(Nevrose d'um Lord.)

A idéa de teu corpo branco amado,
Belleza esculptural e triumphante,
Persegue-me, mulher, a todo o instante,
—Como o assassino o sangue derramado!

Quando teu corpo pallido, e brijado,
Abandonas ao leito—palpitante,
Quem jámais comtemplou em noute amante,
Tentação mais cruel, tom mais nevado?!

No emtanto—duro, excentrico desejo!
—Quisera as vezes que a dormir te vejo
Tranquilla, branca, inerme, unida a mim….

Que o teu sangue corresse de repente,
Fascinação da Côr!—e extranhamente,
Te colorisse pallido marfim!

*A UM CORPO PERFEITO*

Nenhum corpo mais lacteo e sem defeito
Mais roseo, esculptural e femenino,
Pode igualar-se ao seu, branco e divino
Immovel, nù, sobre o comprido leito!—

Nada te eguala! O ferro do assassino
Podia, hoje, matal-a, que o meu peito
Seria o esquife embalsamado e fino
D'aquelle corpo sem rival, perfeito.

Por isso é muito altiva e apetecida;—
E o goso sensual de a vêr vencida
Ha de ser forte, extranho e singular…

Como o das cousas dignas de castigo;
—Ou d'um amante sacerdote antigo,
Derrubando uma deusa d'um altar.

*CARTA AO MAR*

     Ó ondas fugitivas!…
     (Camões)

Deixa escrever-te, verde mar antigo,
Largo Oceano, velho deus limoso,
Coração sempre lyrico, choroso,
E terno visionario, meu amigo!

Das bandas do poente lamentoso
Quando o vermelho sol vae ter comtigo,
—Nada é mais grande, nobre e doloroso,
Do que tu,—vasto e humido jazigo!

Nada é mais triste, tragico e profundo!
Ninguem te vence ou te venceu no mundo!…
Mas tambem, quem te poude consollar?!

Tu és Força, Arte, Amor, por excellencia!—
E, comtudo, ouve-o aqui, em confidencia;
—A Musica é mais triste inda que o Mar!

*A LENDA DAS ROSAS*

No principio eram mais doces os olhares
      Socegados de Deus!
Era mais verde o manto destes mares
      E mais azues os ceus!

Não tinha nuvens este sol na rota,
      Nem tormentas o Sul,
Nem era, como o olhar d'um idiota,
      Impassivel o azul!

Não choravam no val escuros casos,
      Á noute, os tristes ventos!
Nem eram como hoje, nos occasos,
      Os ceus sanguinolentos!

Deus não tinha vibrado ainda o açoute
      A gerações inteiras,
Nem o Christo suára a longa noute
      No Jardim d'Oliveiras.

Não andavam os tristes miseraveis
      Torcendo os braços nùs!
Nem erravam na treva, inconsolaveis,
      Os expulsos da Luz.

E não haviam sangue ainda chorado
      Os santos nos desertos,
Nem no craneo do morto esverdeado
      Inda lyrios abertos!

Não pisava inda um pé selvas umbrosas
      E florestas bastas,
Os mares eram mansos!—sempre as rosas
    Eram brancas e castas!

Não era côr de sangue assim vestida
      Inda a rosa vermelha,—
Nem o ceu tinha a côr desvanecida
      D'uma tunica velha.

……………………………………

Toda uma noute, a Mãe primeira errante
      E todo um dia andou!
Da noute a branca luz de diamante
      Os passos lhe guiou.

E abandonavam seus pombaes as pombas
      Seguindo-a pela estrada!…
E o mar dizia ao vento: Por que zombas?
      Pobre mãe desgraçada!

E as montanhas choravam;—pois poderam
      Prantos de mãe fendel-as!
E toda a noute pelo ceu correram
      Mais tristes as estrellas!

E o mar tinha uma voz dorida, como
      Na noute do Salem,
E quando o sol nasceu em rubro assomo
      Arrastava-se a Mãe!

E perguntava ao vento: Onde está elle?
      —Quem o meu filho viu?
E o vento respondeu:—Não sei d'Abel!
      E o mar, ao fim, carpiu!

E arrastava-se assim no fim do dia—
      Já quando toda exangue,
—Uma roseira avista que tingia
      A côr rubra do sangue:

Então dorida estatua,—hirtos os passos,
      Ai de mim! ai de mim!
Gritou, convulsa a Mãe, torcendo os braços,
      «Aqui passou Cain!»

No principio eram mais doces os olhares
      Socegados de Deus!
Era mais verde o manto destes mares
      E mais azues os ceus!

E a Rosa era só branca, pura, exangue;
      —Pois que como hoje assim
Não corrêra sobre ella ainda o sangue
      Que derramou Cain!

*NO ENTERRO D'UM CORAÇÃO*

(A Betencourt Rodrigues)

Vaes a enterrar nas hervas verde-escuras,
Na fria terra, ó santa, que devias
Não ter roçado estas paixões impuras,
E estas lepras,—irmã das cotovias!

Vaes a enterrar sob as folhagens frias,
—Vóz alegre, rir cheio de doçuras!
Ó lindo coração! que só te abrias
Para a dôr das alheias amarguras!…

Vão-te levar á terra, ó casto e amado!—
Mas olha!—os vegetaes tem mais cuidado
Dos seios virginaes do que a paixão!…

Adeus, triste!… Adeus peito amante e ardente!
—Quem me déra comtigo, juntamente,
Ir tambem a enterrar, ó Coração!

*A JOVEN MISS*

     Tocar que impio se atreve!..
     (Flores do Campo)

Ella é tão loura, lyrica, franzina,
Tão mimosa, quieta, e virginal,
Como uma bella virgem d'um missal
Toda dourada, e preciosa e fina!

Não ha graça mais casta e femenina
Do que a d'ella! Seu riso angelical
Cria em nós todo um mundo de moral,
Melhor que tudo o que Platão ensina!

Por isso; e pela sua castidade,
Deve ser goso intenso, na verdade,
Sentir fundir-se em nós seus olhos regios!..

E o goso de a beijar trémula, amante,
Deve ser quasi extranho!—e semelhante
Ao de fazer terriveis sacrilegios.

*O DOENTE ROMANTICO*

Eu sei que morrerei, discreta amante,
Antes do inverno vir; mas, lentamente,
Quero morrer á tua luz radiante,
Como os tisicos á luz do sol poente!

Sou romantico assim! O tempo ardente
Das chimeras vae longe! Vão, constante,
Morrerei crendo em ti… e o azul distante
Olhando como um sabio ou um doente!…

—Mas, eu não preso a tarde ensanguentada…
Nem o rumor do Sol!—quero a calada
Noute brumosa junto do Oceano…

E assim, sem ai nem dôr, entre a neblina,
Morrer-me, como morre a balsamina,
—E ouvindo, em sonho, os ais do teu piano.

*QUADRA D'UM DESCONHECIDO*

Eu morrerei, ó languida trigueira!
Sem sentir teus cabellos sobre mim,
Coroado dos lumes da poncheira,
Sobre o chão immoral d'um botequim!

*EM VIAGEM*

Ia o vapôr singrando velozmente
O verde mar antígo e caprixoso,
Á rude voz do capitão Contente,—
Um rubro homem do mar silencioso.

Demandava a Madeira,—a ilha bella,
A patria excelsa e celebre do vinho,
A viagem foi curta; e no caminho
Intentei relações com Arabella.

Arabella era a lyrica ingleza,
Loura, pallida e fragil como um vime,
Que traz sempre a sua alma meiga presa
D'algum amor profundo, mas sublime.

O londrino, o Antony d'esses amores,
Era um rubro e excentrico burguez,
Mais amigo do bife que das flores,
—A extravagancia de chapeu inglez,

Seu olhar dubio, incerto e traiçoeiro
Tinha visões de sangue derramado
Em toda a parte; ao todo um ex-banqueiro,
—Um calvo, velho amigo do Peccado!

Nunca o olhar fitava em sitio certo;—
Vogava ás vezes só no tombadilho,
Com um comprido e merencorio filho,
E ninguem viu-lhe um riso franco e aberto.

Punha, ás vezes, no mar o olhar sombrio;
E ao vento, a fita branca do chapeu
Dir-se-hia a vella triste d'um navio
De naufragos, n'um lugubre escarceu!

—Mas comtudo, a ingleza, a triste amante
Com seus longos e louros caracoes,
Fitava ás vezes no azul distante,
Seus olhos divinaes como dous soes.

E, mau grado andar languida, doente,
Ser branca, loura, e fragil como um vime…
—Um sabio lêra-lhe a attracção ardente
Pelas virís fascinações do crime.

*NOUTES DE CHUVA*

Eu não sei, ó meu bem, cheio de graças!
Se tu amas no Outomno—já sem rosas!—
A longa e lenta chuva nas vidraças,
E as noutes glaciaes e pluviosas!

N'essas noutes sem luz, que—visionarios—
Temos chymeras misticas, celestes,
E scismamos nos pobres solitarios
Que tiritam debaixo dos cyprestes!

Que evocamos os liricos passados,
As chymeras, e as horas infelizes,
Os velhos casos tristes olvidados,—
E os mortos corações sob as raizes!

N'essas noutes, meu bem! em que desfeito
Cae o frio granizo nas estradas,
E tanto apraz, sonhando, sobre o leito,
Ouvir a longa chuva nas calçadas!

N'essas noutes, electricas, nervosas,
Todas cheias d'aromas outonaes,
Que a tristeza tem formas monstruosas
Como n'um sonho os porticos claustraes.

Noutes só em que o sabio acha prazeres,
—Tão ignorados dos crueis profanos!—
E em que as nervosas, mysticas mulheres,
Desfallecem chorando nos pianos.

N'essas noutes, meu bem! é que os poetas
Tem ás vezes seus sonhos mais brilhantes,
Folheam suas obras predilectas…
—E evocam rostos… e visões distantes!

*IDYLIO MERIDIONAL*

Sem ti, vejo o meu futuro
Um horto cheio d'abrolhos!—
Ah não me deixem teus olhos
Por este caminho escuro!

No inverno, as candidas aves
Abandonam os pombaes,
Meu bem, teus olhos suaves
Não me desterrem jámais!

Quando á tarde o ceu flameja,
Junto de ti encostado,
Que vezes, não tenho inveja
Da agulha do teu bordado!

Eu quizera a toda a hora
Cantar-te, ó sol os meus dias!
Como os sonetos que á Aurora
Enviam as cotovias.

Ó labios que pedem beijos!
Ó brancas mãos delicadas!
Voam a vós meus desejos
Quaes pombas ensanguentadas!..

Ó rival das açucenas!
Nenhum punhal faz no peito
As chagas que me tem feito
Essas tuas mãos pequenas!

E, comtudo o amor só dura
Entre as lagrimas da magoa,
—Como uma violeta escura
Que se morre á mingoa de agoa!

Um horto todo d'abrolhos
Sem ti será meu futuro!—
Ah! não me larguem teus olhos
Por este caminho escuro!

*DUAS QUADRAS DE DIOGENES NO ALBUM DE LAIS*

Quando no meu o teu olhar se esquece,
A minha alma, mulher! é como um urso
Que dança pelas feiras, e obdece
Ao magro saltimbanco e ao seu discurso.

E os meus velhos desejos violentos
Soluçam—hystriões esfomeados!—
Como os gatos noturnos, friorentos,
Que miam lamentosos nos telhados.

*A CAMELIA NEGRA*

    Por isso vos espera
    O dia da vingança!
    (Souza Caldas)

Como as urnas das rosas mal fechadas,
Cujos aromas boiam no poente,
Quando passas nossa alma aspira e sente
As sensações das ilhas ignoradas.

E o teu cabello, ó lubrica serpente!
Rescende todo a unguentos e a pomadas,
Como as mumias que habitam no Oriente,
Debaixo das pyramides sagradas.

Mas que te serve e val tanta fadiga,
Ó pó doirado e vão? e o mundo diga:—
Meu leito, meu pomar de sensações!!

Se o vento que hoje o teu sorrir perfuma
Na tua cruz soluçará:—Mais uma
Dos monstros maternaes das gérações!

*A ULTIMA SERENADA DO DIABO*

No tempo em que elle, nas lendas,
Era amante e cortezão,
Jogava, e tinha contendas,
Cantava assim em Milão:

…………………………………… …………………………………… ……………………………………

Ó flores meigas, ó Bellas!
Para prender os toucados,
Eu dar-vos-hia as estrellas:
—Os alfinetes dourados!

Só pelo amor quebro lanças!—
A Rainha de Navarra
Enleou um dia as tranças
No braço d'esta guitarra!

Sou um heroe perseguido!…
Mas inda ha luz nos meus rastros;
A lança que me ha ferido
Foi feita do ouro dos astros!

Mas um dia, ó bem amadas!
Eu tornaria ás alturas…
Subindo pelas escadas
Das vossas tranças escuras!

O amor que em meu peito cabe
Não conta diques, ó bellas!
Só minha guitarra o sabe,
E aquellas velhas estrellas!

Ó batalhas amorosas!
—Era d'aventuras cheia!
Ó brancas noutes saudosas
Que eu andei pela Judea!

Ó flores apetecidas!
Livros escriptos com beijos!
Ó brancas aves fugidas
Dos jardins dos meus desejos!

Não me deixeis no abandono
Ó tristes olhos leaes!
Como as pombas, no outomno,
Que abandonam os pombaes!

Que fosse eu crucificado
N'alguma bem alta Cruz!…
—E vos tivesse a meu lado,
Como vos teve Jezus!…

Esses olhos me consomem!…
Mas, Mulher, da lucta ao cabo,
Se perdeste o antigo Homem…
—Tu matarás o Diabo!