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Claridades do sul

Chapter 97: *DEDICATORIA*
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About This Book

A lyrical collection that alternates exaltation and meditation, using sunlight, mythic and religious images, and vivid natural scenes to examine vitality, mortality, and moral tension. Several poems contrast heroic or sacred language with decay and hypocrisy, questioning faith, passion, and social decline while giving voice to grief and defiance. Others linger on rural labor, seasonal cycles, and intimate landscapes, offering mystic longing and consolation through the sensuous textures of sound, color, and memory.

*A MUSA VERDE*[1]

     Il apellait l'absynthe sa «muse verte»
     (Les derniers bohémes)

     Io vidi gia al cominciar del giorno
     La parte oriental del ciel tutta rosata.
     (Dante. Purg.)

Infelizes!—os sujos, verdes limos,
Que vezes não tem visto os afogados!…
Corações tantas vezes sobre os cimos
Do Ideal! e que o Vicio tem marcados!

Quem os leva por esses vis atalhos
Do Desespero, Fome e Suicidio,
E ao verde absintho e aos sordidos baralhos!
—Elles que leram Dante, Homero e Ovidio?

Quem os conduz?—A vil fatalidade
É quem os leva ás perfidas ciladas?—
E é tal secreta e livida deidade
Quem lhes esmaga os craneos nas calçadas?

Quem pois os empurrou, um dia—e disse:
—Aquece o Alcool… mais que o Paraizo!—
E nas cavadas faces da velhice
Gelou-lhes sempre, imbecilmente, o riso?

—Quem foi? Quem é que arrasta, eternamente,
A velha e a nova geração que perde
O seu calor, seu sangue, febrilmente—
Aos braços infernaes da Musa Verde!?

A Miseria—a irmã velha do Peccado,
—E o Luxo, o Mal!—tão negros conselheiros!
São quem os faz, no asphalto abandonado,
Ver apagar, com dia, os candieiros?…

Ou será, tambem,—goso triste insano
Da alma escura!—e nova podridão
Do homem de hoje, blazé como um tyrano:
—De se sentir boiar na perdição?!

*IDYLIO D'ALDEIA*

    Oh! que harmonia!
      Cadente s'esvoaça pela fresta
      D'um visinho postigo!
    (Hostia d'ouro)

Não sei que ha que me impelle
Para o teu escuro olhar!…
É mais branca a tua pelle,
Do que o linho de fiar!

É tua boca um botão,
E o teu riso a lua nova;—
Quem me dera ter na cova
Os ais do teu coração!

Mal podes saber o gosto
Que tive da vez primeira
Que te avistei, ao sol posto,
Debaixo d'esta amoreira!

Desde esse dia, andorinha!
Desde essa tarde infeliz,
Fiquei preso da covinha
Que fazes quando te ris!

Não sei que ha que me impelle
Para o teu escuro olhar!…
É mais branca a tua pelle
Do que o linho de fiar!

A minha alma não descança;—
Morra o sol, ou surja a aurora,
Só tu me lembras creança
De cabellos côr d'amora!

A tua doce ignorancia
Tão cheia de singelesas
Faz todas as almas presas
Como as perguntas da infancia!

Tu és como um pomo d'ouro,
E o vivo sol que me alegras;
—Amo mais teu rir sonoro
Do que a voz das toutinegras!…

Quando eu fôr a enterrar,
N'algum dia, ao pôr do Sol,
Quero levar por lençol
Só a luz do teu olhar!

……………………………………

—Mas tu só vives cantando!—
E ao vir da fonte com agoa,
Mais sentes que estou penando,
Mais te ris da minha magoa!

Ah! nunca eu tivesse o gosto
Que tive da vez primeira
Que te avistei, ao sol posto,
Debaixo d'esta amoreira!

*CARTA ÁS ESTRELLAS*

Ninguem soletra mais vossos mysterios
Grandes letras da Noute! sem cessar…
Ó tecidos de luz! rios ethereos,
Olhos azues que amolleceis o Mar!…

O que fazeis dispersas pelo ar?!…
E ha que tempos ha já, fogos siderios,
Que ides assim como uns brandões funereos
Que levaes o Deus Padre a sepultar?!

Ha que tempos, dizei!—Ha muitos annos?…
E, com tudo, astros santos, deshumanos,
A vossa luz é sempre clara e egual!

Ha muito, que sois bons, castos, brilhantes!…
—Mas, tambem… ó crueis! sempre distantes…
Como dos nossos braços o Ideal!

*NA FOLHA D'UM LIVRO*

Uma é a forma ideal do triste anjo vencido,
—A outra, a doce luz diaphana da manhã!
E entre ellas chora e diz meu coração perdido:
—Em mim vencerá Deus, ou ganhará Satan!?

*OS BRILHANTES*

Não ha mulher mais pallida e mais fria,
E o seu olhar azul vago e sereno
Faz como o effeito d'um luar ameno
Na sua tez que é morbida e macia.

Como Levana… esta mulher sombria
Traz a Morte cruel ao seu aceno,
O Suicidio e a Dôr!… Lembra do Rheno
Um conto, á luz crepuscular do dia.

Por isso eu nunca invejo os seus amantes!
—E em quanto hontem, gabavam seus brilhantes,
No theatro, com vistas fascinadas…

Tortura das visões… incomprehensiveis!
Em vez d'elles, cri ver brilhar—horriveis
E verdadeiras lagrimas geladas!

*O ASTROLOGO*

Quem tem ouvidos que ouça.

Quem tem ouvidos que ouça, e o velho mundo
Que o aprenda de cór, pois que o que digo
È fructo d'um estudo egregio e fundo
Como a sciencia d'um Chaldeu antigo!

A Terra ha muito que é um charco immundo,
Vencida eternamente do Inimigo,
E ha muito lhe prevejo um fim profundo,
E um terrivel e tragico castigo!

Ora, hontem á noute, fui a um monte
Muito alto—e eis que avisto no horisonte
Dez signos, como em longa proscissão…

E esses signos, a mim que sou vidente,
Tinham formas de lettras, claramente,
—E n'essas lettras li DESTRUIÇÃO.

QUARTA PARTE

MYSTICISMO

*DEDICATORIA*

Este livro é dos poetas
E mais de vós—pombas minhas!
—Podeis-me ler, violetas!
—Podeis-me ler, andorinhas!

*OS DEUSES MORTOS*

(Á memoria de J. M. Fernandes)

Parce diis

Eu nunca os insultei!… Se estão emfim vencidos
Silencio! Cubra luto a natureza inteira!
Nuvens dillacerae os pallidos vestidos!
Verte gotas de sangue, ó flor da larangeira!

Onde estaes, onde estaes!—Extactica palmeira,
Viste acaso passar os grandes foragidos?
Onde estão Zeus Jesus?! Velhos cedros erguidos!
Nuvens, ventos e mar, guardae sua poeira!

Deixae-os descansar!—Luzentes mariposas,
Cuidado! não piqueis o coração das rosas!
Lavrador cava a Terra, a Terra, devagar!…

Silencio! Orpheu, Jesus, dormem no seu mysterio!
—A Natureza é toda um vasto cemiterio!
Eu nunca os insultei!—Deixae-os repousar!

*DEBAIXO DAS HERVAS*

Podesse ir eu comtigo que m'encantas
Como um vinho, no pó da terra dura,
Dormir ambos na mesma sepultura,
Entre os braços das hervas e das plantas?

Dormir no mesmo leito, e a mesma cova
Sentir os nossos pallidos abraços,
De noite, quando branca nos espaços,
Nas hervas desmaiasse a lua nova.

E aquellas tristes cousas que disseram
Os meus olhos nos teus, adormecidos,
Dizel-as outra vez, já confundidos
Na poeira d'aquelles que morreram.

Sentir, meu bem, de novo, as tuas tranças,
Com que tu tantas vezes me vestiste,
Enlaçarem-me ainda, á hora triste,
Em que os astros reluzem como lanças.

E entre as hervas da terra, e os acres cheiros
Dos cyprestes, dizer as cousas mil
Que diziamos, ó triste! quando abril
Fazia colorir os teus canteiros.

E debruçada estavas á janella
Nas horas religiosas do Poente,
Como a mãe que anciosa e docemente,
Espreita no horisonte a amada vella.

E quando íamos depois as nossas magoas
Contarmos, pelo espesso das folhagens,
Cabellos desmanchados nas aragens,
E entre as vozes das folhas e das aguas.

E todas essas cousas que me dizes,
Quando estás debruçada na costura,
E que inda nunca ouviu a terra dura,
E que chorar fariam as raizes!

E eu quizera que o lenho do cypreste,
—Marco escuro da terra que nos come!
Enlaçado tivesse o nosso nome,
Como um lenço bordado que me déste!

…………………………………… …………………………………… ……………………………………

Podesse ir eu comtigo, que m'encantas
Como um vinho, no pó da terra dura,
Dormir ambos na mesma sepultura,
Entre os braços das hervas e das plantas!

*A UMA VOZ CELESTE*

A. C. de Carvalho

Na noute que passou
O Christo no Calvario,
Um rouxinol cantou
Sobre a Cruz, solitario.

Os trigueiros soldados,
E os lyrios de Salem
Perguntavam pasmados
—Que voz canta tão bem?

Como sentindo os males
Das suas proprias penas
Vergavam-se nos calix
Chorando as açucenas.

Choravam os caminhos,
Os dados, os cilicios,
A grinalda d'espinhos,
E a esponja dos supplicios.

Choravam os sem luz,
E os rijos peitos bravos,
—Começavam na cruz
A vacillar os cravos.

Pelo tranquillo espaço
Paravam as estrellas,
E o vagaroso passo
As mudas sentinellas.

E os peitos deshumanos
Resentiam mudanças;
—Deixavam os Romanos
Escorregar as lanças.

E a noute ali ficou…
Assim lembrando o Ceu!
—Quando Jesus morreu,
Do lenho emfim voou.

Ora eu mulher! que creio.
Que a Vida sae das lousas,
Eu que nos astros leio
E adoro a alma das rosas!

Que sei que o que hoje existe
Foi nuvem, flor, cypreste…
E escuto essa voz triste
A tua voz celeste!

Eterno visionario,
E adorador do Sol…
Creio que no Calvario
—Cantaste, rouxinol!

*Á POMBA QUE VOOU*

Foste-te, ó luz das solidões amenas!
Ó grandes olhos tristes, ideaes!
—Partiste, casta pomba d'alvas pennas,
Em procura dos lucidos pombaes!

……………………………………

Tu estás hoje entre as hervas e as poeiras,
Ou cheia de celestes claridades!
Ó doce irmã das rolas companheiras!
Por ti ouço chorar as larangeiras!
E de luto vestirem as saudades!

Ah! quantas vezes, n'este mar d'escolhos,
Comtemplando o azul duro e sem fim…
E os pés ensanguentados nos abrolhos,
Eu nas estrellas creio vêr teus olhos
Que estão chorando lagrimas por mim!

Teu corpo está talvez, dilacerado
Entre as plantas escuras e as raizes!..
E, ah! que vezes talvez, n'um ai cortado
Não me terá teu seio immaculado
Entre as hervas bradado—Não me pizes!

Por isso vou curvado para o chão
Com medo de pizar-vos, tranças bellas!
—E ah! quantos, como eu, tambem irão,
Correndo o mundo atraz d'uma illusão,
Ou soletrando as mysticas estrellas!

……………………………………

Foste-te luz das solidões amenas!
Ó grandes olhos trístes divinaes!…
—Partiste, casta pomba d'alvas pennas
Em procura dos lucidos pombaes!

*TRISTISSIMA*

N'um paiz longe, secreto,
Lendaria ilha affastada,
Jaz todo o dia sentada
N'um throno de marmor preto.

No seu palacio esculpido
Não entram constellações;
Os tectos dos seus sallões
São todos d'ouro polido!

Nas largas escadarias
Sobem vassallos ao cento,
De noute suluça o vento
N'aquellas tapeçarias.

E pelas largas janellas
Fechadas, sempre corridas,
Ha flores desconhecidas
Que não olham as estrellas.

Na dextra segura um calix,
—Calix da Dôr e da Magoa!
Onde está contida a agoa
E o sangue dos nossos males!

Pelas florestas sosinhas
Escuras, sem rouxinoes,
Erram chorando os Heroes,
E as desgraçadas Rainhas.

Seguida, á noute, de servas,
Caminha, em cortejo mudo,
Rojando o negro velludo
De seu cabello nas hervas.

Sómente ao vel-a passar
Ficam as almas surprezas;
—Ha todo um mar de tristezas
No abismo do seu olhar!

*IDYLLIO TRISTE*

(A Léon de La vega)

Olha! sinto-me exhausto
Pomba da minha vida!
Eu serei o teu Fausto,
Sê minha Margarida!

Deixa que o alegre ria
Alma que me estremeces!
Que ruja fóra a orgia
Os prantos, as kermesses!

Vamos a colher rosas,
Rola dos meus carinhos!
Pelos brancos caminhos
Nas noutes luminosas!

Sob esta curva azul
Amemos, bem amada!
Na torre levantada
Que gema o rei de Thule!

Que o mundo chore e gema
Em quanto o Tempo dura!
Da nossa noute escura
Façamos um poema!

Deixa na roca os linhos
Pomba dos meus amores!
E aos sabios e aos doutores
Os livros e os cadinhos!

E aos tristes, aos ascetas
As grutas, os cilicios,
E a esponja dos supplicios
Aos labios dos poetas!

Nas noutes estrelladas,
Amemos solitarios!
Deixemos as estradas
Que levam aos Calvarios!

Olha! sinto-me exhausto
Pomba da minha vida!
Eu serei o teu Fausto,
Sê minha Margarida!

*A UM LYRIO*

(A. A.)

Conta como é que existe
A tua vida á luz,
Lyrio mais casto e triste
Que os olhos de Jesus!

Quando nasceste, flor?
Quem te arrancou do chão?
Gérou-te occulto amor
De morto coração?

Ó lyrio delicado!
Ó lyrio branco e fino!
Talvez fosses creado
N'um seio femenino!

Escuta ó lyrio amado!
A flor confunde os sabios…
Talvez fosses os labios
D'aquella que hei amado!…

Talvez fosses seus dedos!
Seus olhos innocentes…
—Conta-me os grãos segredos…
Profundos das sementes!…

O morto que se enterra
Leva as paixões secretas?…
Dize, se sob a terra,
Se amam as violetas!

Ouviste aves chorosas,
E o mar nos seus delirios?
—Quem é que pinta as rosas?
—Quem é que veste os lyrios?

Já viste alguma estrella?
Viste uma lua nova!
—Abriste n'uma cella?
—Floriste n'uma cova?

O que é que mais desejas
De tudo quanto existe?
O amor?—O que é que invejas
Bom lyrio branco e triste?!

Ó vil sorte mesquinha!
E eterno desejar!
—Invejas a andorinha
Que vôa pelo ar!?

*A UMA ANDORINHA*

Nas brisas da tardinha
Pára teu vôo um pouco;
Ouve um poeta, um louco,
—Escuta-me andorinha!

Um pouco deixa os ninhos;
Attende as vãs loucuras,
—Tambem nas sepulturas
Vôam os passarinhos!

Nem sempre o azul ethereo
Quaes flexas vão cortando,
—Tambem riem, voando,
No chão do cemiterio!

Lavam os pés rosados
Nas urnas funeraes;
—Tu, mesmo, nos telhados
Moras das cathedraes!

Não fujas d'um poeta,
Que ha nuvens mais sombrias!
—Tu já moraste uns dias
No nicho d'um propheta!

Por tanto, tu que adoras
A primavera e o Sul,
Dize-me,—no alto azul,
Quem faz sempre as Auroras!

Quem dá tintas vermelhas
Ao Sol poente que arde?
—Quem coze as nuvens velhas,
E accende o astro da tarde?

Os campos dão renovos
Tambem, n'outras espheras?
—Quem faz as primaveras?
—Quem faz os astros novos?

Quem faz a ave-flor?
Quem tinge o temporal?
—Quem faz a pomba, côr
Do lyrio virginal?

No Sol ha violetas,
E rios, campos, vinhas?
—Dize, se nos planetas?…
Tambem ha andorinhas…

E tu que mais almejas?
Tens sol, astros e ninhos—
Tens tudo o que desejas…
—Luz, grãos, pelos caminhos!

Ó triste ambicionar!
Ó santo e vão delirio!
—Talvez, ó filha do Ar
Quizesses ser um lyrio!

*ENTRE OS ARVOREDOS*

     Calma silentia lunae.
     (Virgilio)

Recordas-te essa noute, ó bella desgostosa!
Que nós andámos sós e tristes divagando,
Entre as folhas e o vento, o vento leve e brando.
Aos lividos clarões da lua silenciosa?!…

Callados e atravez da grande sombra escura
Dos cerrados pinhaes e augustos castanheiros,
Como as almas leaes e antigos companheiros,
Unidos a gemer a mesma desventura!

E eu sentia-te, ó grande e triste Abandonada!
Em meu seio verter as tuas fundas maguas,
Ao rythmo trivial e nitido das aguas,
E á alva e fina luz da hostia levantada!

E andámos a gemer a nossa dôr intensa,
E abrindo os corações, os langidos segredos,
Aos ais soltos no ar dos grandes arvoredos,
E ás vastas afflições da natureza immensa!

Que dôr assim será?—Que dôr será egual!
Á quella immensa dôr? ó pallida vencida!
N'aquella natureza augusta e condoida,
E áquella branca luz, mais fria que um punhal!…

……………………………………

Ah! nunca mais virá, ó branca desgostosa!
Aquella vez que nós andámos divagando,
Entre as folhas e o vento, o vento leve e brando.
Aos lividos clarões da lua silenciosa!…

*CONFISSÃO A UMA VIOLETA*

Eu confesso-me a ti, doce flor delicada!
Recolhida, modesta, e sol da singeleza,
Das vezes que atravez da verde natureza
Fiz soar com orgulho a bulha do meu nada!

Em vez de amar a vida humilde, chã, callada,
Do sabio estoico e são, exemplo d'inteireza,
Quantas vezes cuspi no Justo e na Belleza;
E cri-me o Fogo e a Luz da géração creada!

Orgulho! orgulho vão! Vaidade e mais vaidade!
Como disse o rei sabio e justo á claridade
Dos astros da Judea e ao gyro dos planetas!…

Feliz de quem como eu ri das Academias!
E estuda as novas leis e as grandes Theorias
Nas folhas femenis e meigas das violetas!

*A SUA CAMARA*[2]

No ar calado e bom da camara fechada,
Como um ninho d'amor, casto e silencioso,
Um grande cravo branco ergue o caule cheiroso,
N'uma jarra de jaspe, antiga e cinzelada.

Voam aromas bons no ar tranquillo e molle;
Algumas flores vão morrer nas jarras finas,
—Elle sereno vê, nas rendas das cortinas,
Silencioso morrer na sua gloria o Sol!

Todas morrem ao pé, só elle altivo é bello,
No seu vaso de jaspe, entre as demais existe,
—Como um rei infeliz n'um ultimo castello,
Com seu ar virginal e com seu modo triste!

Cheio de vida ainda, idyllico, ideal,
Talvez lamente o amor, na sua jarra d'agua!
—Mysteriosa flor!—que caprixosa magoa
O virá a pender na haste virginal?!

Talvez lamente o Sol—a luz vermelha viva?
O sol que vae morrer—o bello agonisante!
Talvez que chore a lua—a lua pensativa!
Que lhe venha lavar a alvura soluçante!

Quem foi a branca mão—olympica, divina,
A mão macia, ideal—traidora—que o colheu?
Que o foi roubar á terra, um dia, e que o prendeu
Na fria solidão d'aquella jarra fina?

E foi roubar ao amor, aos cantos, ás folhagens,
Á bondade da luz—ás noutes meigas bellas,
Exilado do sol, e orphão das paisagens,
O cravo virginal—viuvo das estrellas?!

Mysteriosa flor! a sua extranha magoa
A ninguem o dirá seu calix pensativo,
E a morrer—morrerá, calado, firme, altivo,
E nobre como um rei, na sua jarra d'agua!

…………………………………… …………………………………… ……………………………………

Lá fora morre o sol, como um desgosto humano,
Voam aromas bons no ar quente e calado;
Vae-se esvaindo a luz, e triste, e socegado,
Vê-se um jasmin morrer em cima d'um piano.

Nas paredes estão, nas preciosas telas,
Pintados menestreis, pastoras e guitarras,
Debruçam-se os jasmins nas grades das janellas,
E os lyrios, como uns ais, morrem nas finas jarras.

Tudo agonisa ao pé, n'aquella solidão!…
—Solidão de mulher distincta e perfumada!
Cuja pelle é talvez mais fina que a pomada,
E as farinhas d'Italia e as sedas do Industão!…

…………………………………… ……………………………………

Tudo agonisa ao pé,—só elle altivo e bello,
No seu vaso de jaspe entre as demais existe,
Como um rei infeliz n'um ultimo castello,
Com um ar virginal e com um modo triste!

E no entanto talvez a mystica amorosa,
—A noiva a dona d'elle, occulta uma outra magua
No morto coração, mais morto que uma rosa,
E do que elle amanhã na sua jarra d'agua!

*HORA MYSTICA*

     Hour of love
     (Byron. Parisina.)

Do pôr do Sol áquella luz sagrada,
Eu perdia-me… ó hora doce e breve!
Meu peito junto ao seu collo de neve,—
—N'uma contemplação vaga e elevada!

Nossas almas s'erguiam, como deve
Erguer-se uma alma á Luz afortunada;
Do mar se ouvia a grande voz chorada;
—Palpitavam as pombas no ar leve!

Eu então perguntei-lhe, baixo e brando:—
Em que mundos de luz é que caminhas?…
Que torre está tua alma architetando?…

—Ella travando as suas mãos das minhas,
Me disse, ingenua, então:—Estou scismando
No que dirão, no ar, as andorinhas?!

*JUNTO DO MAR*

Que vezes viajando no Passado,!
—Nas horas das torturas das Chimeras—
—Meu bem!—scismo nas limpidas espheras,—
Junto do verde mar lento e chorado!

N'esses astros talvez já habitámos,
—N'outros tempos mais santos e felizes!
E, ó nuvens! bem sabeis se entre as raizes
Dos mortos, para os soes nos elevámos!

Talvez que ali tambem fomos romeiros
Sedentos do Ideal—sem o encontrar!
—Melhor vós o sabeis, castos luzeiros!
Ó chorosa e sonora alma do Mar!

Talvez ali tambem—riste, amorosa…
Cantando entre as torturas assassinas!…
Como as rosas que tapam d'uma lousa
As vãas escuras inscripções latinas!

Talvez tam bem choraste nos caminhos…
E alegre riste, ás virações contrarias,
Como, ó meu bem, ao sol, os passarinhos
Riem dentro das urnas funerarias!

Talvez! quiçá! Talvez!—Ó Mar eterno!
Tu que és sonoro e minas os rochedos,
Duro sombrio, esguedelhado e terno…
Como a rabeca cheia de segredos!…

Tu que sabes d'antigas desventuras,
E que sabes chorar!… que és musical!…
Dize se encontras mais amargo sal
Do que os prantos das nossas amarguras!

E comtudo que és tu… mar lastimoso!
Guardando como o avaro um vão thesouro!…
Sempre vago, cruel, mysterioso…
—Senão d'um mundo extinto um longo choro!

E o que são essas vozes laceradas,
E, ó gigante! essas vastas convulsões,
Senão… senão… mortaes lamentações
De cidades e egrejas sepultadas!

Que blasphemías! que choro vem do fundo
Do teu peito tão largo e descontente!
—São talvez das galés do Novo Mundo,
Ou dos ricos navios do Oriente!

Quem tem na voz suspiros mais convulsos,
E mais duros e lugubres lamentos
Do que á tormenta, e aos desgrenhados ventos…
—O mar cheio de medos e soluços?!…

E quem como elle assim nos dá confortos…
Ou balsamos leaes, desconhecidos,
Alento e amor aos corações vencidos,
—E quem mais e melhor falla dos mortos!

…………………………………… ……………………………………

Por isso eu irei —ó Mar eterno!
Triste e , escutar-te entre os rochedos…
Duro, sombrio, esguedelhado e terno,
—Como a Harmonia cheia de segredos!…

*DOENTE*

Podesse eu junto a mim—eternamente!—
Sentir roçar, meu bem! o teu vestido
E ó ventura! o teu bafo enfebrecido,
Teu doce olhar e o teu sorrir doente!

Caia do monte o cedro! a grande molle!
Que feneça a herva prata lá no val—
Que me importa!—e qual é meu grande mal
Que morra o cedro, e a planta s'estiole!…

Mas tu, meu bem! mais bella que a herva prata
Banhada pelo orvalho transparente…
Não quero que te vás de mim, ingrata,
—Nem teu olhar, nem teu sorrir doente!

Mais depressa em mim vôe ave agoureira…
E que o sepulcro avaro me abra os braços,
Não veja herva crescer apoz meus passos,
—E me maldiga a flor da larangeira!

Mais depressa em meu leito morra o somno,
Não brilhem mais no ceu constellações,
Que as folhagens me lancem maldições,
—Nem hajam fructos para mim no outomno!…

Mais depressa que a vinha que conforta
Me negue a sua sombra!—Noute e dia
Não luza para mim luz de Alegria,
—E que a Tristeza durma á minha porta!…

Por que tu, se te vaes—no teu lençol
Levarás, doce riso dolorido!…
Como uns fios pegados n'um vestido,
Todos os raios d'ouro do meu Sol!

E, em tudo, julgarei vêr teu vestido,
No mar, na estrella azul, nos ceus; em tudo;
—E quando, acaso, a fronte erguer do estudo
Faltar-me-ha o teu riso dolorido!

Por que tu tens disperso em meu caminho
O teu sorriso triste… ah! triste, e puro…
—E abrigarei depois… um odio escuro,
Mais rude do que um cardo, ou que um espinho!

E não mais, nada me ha de consolar!…
Nem a Estrella da tarde mensageira,
Nem o Amor, nem a flor da larangeira,
—Nem a sombria musica do Mar!…

…………………………………… ……………………………………

Ah! podesse eu, meu bem! o teu vestido
Sentir roçar por mim—eternamente!
E, ó ventura! teu bafo enfebrecido,
Teu doce olhar e o teu sorrir doente!…

*N'UM CEMITERIO*

     Surgite mortui.
     (Apocalypso)

     Invideo quia requiescunt.
     (Palavras de Luthero no cemiterio de Wormo)

Mortos! eu vos invejo!—As frias lagens
Cobrem-vos, hoje, os corações desfeitos!…
As brancas pombas vôam n'esses leitos…
E as meigas aves gemem nas folhagens!

A Natureza enflora os vis defeitos…
Ri nas estatuas, urnas, nas imagens!..
E, ahi emfim, contentes, satisfeitos,
Vós descansais das lugubres viagens!…

Mas comtudo, no inverno, á triste Morte,
Talvez seja mais duro o vento norte!…
E vos gele inda mais os ossos nús!…

Em quanto nós—ingratos! descuidados!—
Vos deixamos chorar, abandonados,
A poeira dos mortos feita luz!

*DESPEDIDA AO SOL*

Adeus, adeus, ó Sol! grão moribundo
Tão amado dos mysticos amantes!
Vae dourando inda os ninhos e os mirantes
E os sinceiraes, o Mar, o velho mundo!

Vae! vae! ó astro lyrico! no fundo
Das aguas apagar-te!… Os teus instantes
São curtos, coração largo e profundo!
Mas da minha amargura semelhantes!
E, no entanto, astro de fogo, astro tyrano!
Se a tua chaga é funda, no Oceano
Todo o teu sangue ali podes lavar!…

Mas eu recalco, ó Sol! meu mal no seío…
Peja-me o pranto e a magoa!… e até receio
Que os ais da minha dôr vibrem no ar!

QUINTA PARTE

HUMORISMO

*ARANHA*

N'um sonoro theatro antigo da Alemanha,
D'um violino aos ais, banhada de luz viva,
Surgia d'um covil uma grotesca aranha,
Dos banquetes do Som habitual conviva.

O ser sombrio e obscuro, ó meu amor! não priva
Da adoração do Bello, a adoração extranha!
E assim se embriagava a escura pensativa
Da lyrica emoção que nossa alma banha!

Mataram-a uma vez. Não mais a pobre amante
Da Musica, surgiu áquella luz brilhante;
Foi-lhe o velho theatro a sua sepultura…

Assim preso tambem pela attracção que choro,
—Não te rias cruel! Ó idolo que imploro!…
Tu és o Violino e eu sou a aranha escura!…

*NOVA BALLADA DO REI DE THULE*

N'um paiz nada visinho…
Em Thule até mui distante,
Houve outr'ora um rei farçante,
Um rei amigo de vinho.

Quando sua amante fiel
Mimosa e cheia de graça,
Morreu, deixou-lhe uma taça
Que semelhava um tonel.

Era tamanha a grandeza
Da taça que nada iguala!
—Ficava sempre ao esgotal-a,
El-rei debaixo da mesa.

Quasi sempe ao lusco-fusco,
De noute, até horas mortas,
Folgava, as pernas já tortas,
Este rei velho e patusco!

Em noute d'agreste vento,
Na sua mais alta torre,
Pensando em que tudo morre,
Tratou do seu testamento.

A sua amisade céga
Legava a todos dinheiro,
E a seu filho e seu herdeiro
Seu reino, seu povo… e a adega.

Da sua amisade em prova
A todos dava uma graça,
Só aquella enorme taça
Levava o rei para a cova!

Um dia, os altos barões,
Fez juntar para uma orgia,
N'uma sala, onde dormia
As suas indigestões.

E ali, depois de libar…
Passados curtos momentos,
Começou a vêr, aos ventos,
Os seus castellos dançar.

Assoma, trocando o pé,
De taça em punho, á janella,
Mas n'isto, tropeça… e ella
Vae levada da maré…

E afunda-se… mas tal revéz
Tomba o rei morto de magoa!
—Era esta a primeira vez
Que a taça se enchia d'agua!

*PHANTAZIA D'UM ABORRECIDO*

Eu vivo só das multidões distante,
E tenho um tom solemne grave e emphatico,
Amo Flaubert, Gostavo Droz e Dante,
Sou mysanthropo, hysterico e limphatico.

Sou phantastico, altivo, e caprixoso,
E tenho uns paradoxos meus protervos…
E entre elles conto um livro volumoso…
Em que explico o Remorso pelos nervos.

…………………………………… ……………………………………

Ás vezes vou pensando, ó tranças negras!
Quebrados, sensuaes olhos celestes!
Que has de ainda, entre as plantas verde-negras,
Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

E n'esses braços lisos, indolentes,
Hão de os vermes travar a escura guerra,
Hão de infundir pavor, inda, esses dentes,
E de beijos fartar-te a immunda terra!

Teu rir sem labios meterá assombros
—Ó tu que fazes rastejar as lyras!
E serão ossos nús teus lisos hombros,
Costumados ás leves cachemiras.

Que vezes scismo, assim quando tu passas,
E eu estou fumando ás portas dos cafés,
E que insultas as lepras e as desgraças,
Coberta de velludos e plaquets!

E eu penso ó corpo esculptural, perfeito!
Ó corpo de Phryné cheio de graça!
Que has de ainda ser putrido e desfeito,
E tomar-te azotato de potassa!

E não terás então, ó minha impura!
Serenadas debaixo das janellas,
E escondida no pó da sepultura
Terás medo dos olhos das estrellas!

Hontem, rojando estofos ruidosos,
Inclinada e indolente sobre o braço,
Comtemplavas com olhos cubiçosos,
As contorsões e saltos d'um palhaço.

E eu suffocando dentro os meus anhelos,
Soluçava d'amor, ó crua filha,
E exaltava-me o olor dos teus cabellos,
Onde escorrem perfumes de Manilha.

Mas eu heide vingar-me, ó tranças negras!
Ó cansados, mortaes olhos celestes!
Quando fores, nas plantas verde negras,
Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

Quando morreres, meu botão d'um dia!
Açucena que puz no peito o abrir!
Farei da tua tez fina e macia
Um prosaico barrete de dormir!

Farei da tua trança azevichada
Um cachenez, por causa dos catarros
E será no teu craneo, ó minha amada!
Que eu deitarei as pontas dos cigarros!

D'essa carne farei abertas rosas
Que enganarão as brancas borboletas!
E teus olhos, em jarras preciosas,
Olharão, como duas violetas.

Farei da boca um cravo, que no fraque
Porei sempre que saia de passeio…
E mandarei fazer um almanak
Na pelle encadernado do teu seio!

Forrarei as paredes do meu quarto
Com tuas longas cartas de namoro…
E ali passearei de illusões farto,
Como o avaro no meio do seu ouro!

E então tu serás minha, ó tranças negras!
Quebrados, sensuaes olhos celestes!
Quando fores, nas plantas verdes negras,
Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

*EL DESDICHADO*

Ninguem póde dizer que soffro ou tenho;
Eu não amo a princeza da Golconda,
Nem da prisão livral-a é meu empenho,
Qual paladim da Tavola Redonda.

E sinto-me ir minando; um mal extranho
Que ninguem sabe, e vista alguma sonda,
Me mata lentamente, como um lenho
Que vae levando, mar em fóra, a onda.

Todas as tardes fujo ao sol poente;
Recolho cedo a casa, e durmo quente,
E a Medecina já me desengana…

E o meu mal é d'amor, e a minha amada…
Uma Chineza ideal, que vi pintada
N'uma taça de chá de porcelana!

*A VALENTINA DE LUCENA*

Eu tambem já em tempos não distantes,
Fiz versos sensuaes e namorados,
Aos occasos de luz ensanguentados,
E á meiga e boa lua dos amantes.

E escrevi pelos albuns elegantes
Idyllios em papeis assetinados,
E, como a luz dos ponches inflammados,
Fiz odes ideaes e extravagantes.

Mas hoje emfim mudei, e inda ha bem pouco,
A diva por quem choro e vivo louco,
—A flor, a flor ideal das maravilhas…

A minha deusa de cabello preto…
Pediu-me, rindo, a graça d'um soneto,
—E eu mandei-lhe uma caixa de pastilhas!

*PHANTASIAS*

Tenho, ás vezes, desejos delirantes
De a todos te roubar, meu lyrio amado!
E levar-te, em um vôo arrebatado,
Aos paizes phantasticos, distantes.

Á India, China ou o Iran, e os meus instantes
Passal-os a teus pés, grave e encrusado,
N'um tapete chinez, avelludado,
Com flores ideaes e extravagantes.

Nossa vida seria, ó pomba minha!
Mais leve do que a aza da andorinha…
E, nas horas calmosas, eu e tu…

Olhando o mar sereno, o mar unido,
Comeriamos os dois arroz cosido…
Emballados n'um junco de bambu!

*A BIOGRAPHIA DE SATAN*

Fragmento

Eu vou contar a grande lenda escura
Do fulminado tragico da Luz!
Seu antigo esplendor e sorte dura
Quando andava entre os povos da Escriptura,
E comprava os juizes de Jesus.

Elle é o Velho Mal, o Orgulho, o Enfado,
E sómente Satan é um pseudonymo;
É o auctor do Remorso e do Peccado,
O morcego da Biblia, e o cão damnado
Que espancava de noute S. Jeronymo.

No tempo em que era bello, grande e forte,
Fez a guerra dos astros contra Deus;
Tem-lhe sido incostante e varia a sorte!
—Andava roto e pobre por Francfort
Nos bairos tortuosos dos Judeus.

Ó anjo expulso, triste e escarnecido,
Que foste mais fulgente do que o dia!
Deus adorado em Delphos e em Gnido!
Ah quem mais do que tu terá soffrido,
E teve essa ideal melancolia!

Já Vier contra ti perdendo o tino,
Fez dos seus crús pamphletos um açoute;
Fez-te sonetos, lubricos o Aretino,
E S. Thomaz contou o teu destino,
E as aventuras célebres da noute.

Quem dirá os espinhos que cingiste!
Quem pesará teu calix de agonias!
E quantos longos seculos carpiste
Aquella luz que cae maguada e triste,
Ó grão crucificado d'ironias!

Eu sei que hoje estás morto ou retirado,
Ó corvo escuro e mau do firmamento!
E que andavas no mundo envergonhado,
Já doentio e calvo, e desdentado,
E que era o teu catarrho a voz do vento!

Tu foste sabio, confessor e medico
Nos tempos, legendarios, medivaes…
Tu eras visionario, vão, prophetico…
E o mocho que adejava escuro e tétrico
Nos conventos, egrejas, cathedraes…

Eu sei que foste tu que, um dia, impuro,
Tentaste a castidade de Rachel!
Em Delphos desvendavas o futuro…
E cheio d'um pavor tragico e escuro,
Deixaste envenenar-te Daniel.

Em Sodoma, na noute derradeira,
Tentas as filhas sensuaes de Loth!
Fazes de Roma toda uma fogueira!…
E és tu mesmo que escolhes a figueira
A Judas, natural d'Iscarioth.

Foi elle que abrasou na carne, um dia,
A tribu sensual de Benjamin!
Prégou na cathedral d'Alexandria;
Era pae d'um senhor de Normandia…
Foi amigo de Nero e de Cain.

Ia tentar o asceta á sua cella
Nos claustros escuros do Occidente;—
Aos Magos escondeu nos céus a Estrella…
E andava disfarçado em sentinella
Guardando o Justo, o Bom, e o Resplendente.

Ao homem tinha uns odios velhos, tragicos…
E era elle, o que andava entre as pelejas!…
Corrompeu os conselhos areopágicos;
E fazia roubar pelos seus magicos
As hostias consagradas nas egrejas.

Fazia distrair a S. Clemente
Com a bulha invisivel de corceis;
E era elle, nas horas do poente,
Quem apagava as luzes, de repente,
Quando oravam nos templos os fieis.

Tomava, ás vezes ordens e a tonsura…
E benzia as prostradas povoações;—
Fazia a voz então austera e dura,
Explicava os segredos da Escriptura,
E cantava entre as lentas procissões…

Dava n'um tom dogmatico uma idéa,
E vinha discutir com S. Thomaz;
Iniciava os sábios da Chaldêa,
E nos biblicos tempos da Judea
Andava a intrigar Christo com Caiphaz.

Tem no rosto o descor d'um fulminado;
—Era mulher nas lendas monacaes;
Outras vezes gigante e corcovado,
E vagava no mundo disfarçado,
Como os deuses nas formas d'animaes.

Nas regiões serenas, luminosas,
Encontram-se inda os seus lucidos rastros?…
Ó constellações felizes, piedosas…
Inda, ás noites, choraes silenciosas
A grande lucta biblica dos astros?…

Nasceu nas doces, puras regiões?…
—Ah quem onde dirá nasceu Satan?!…
—Nasceu entre as demais constellações?
—Commandava as flammantes legiões?…
E seria seu pae Leviathan?…

N'esse tempo do exilio as penas mestas
Jupiter não soffrera inda proscrito;
Apis não inventára suas festas…
Não errava inda Pan pelas florestas,
E não ladrava Anubis no Egypto.

Pára aqui, n'este ponto, a humana vista!…
—Quem sabe se do velho Cahos nasceu?…
Só quando contra Deus a lança enrista,
É que segundo, o eleito, o Evangelista…
Não se acha mais o seu lugar no Ceu?…

*AGUA FURTADA D'UM ORIGINAL*

(A Fernandes Costa)

Eu moro altivo é só n'uma trapeira,
Onde as pennas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia á soalheira…
E onde passa dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!

Como na era feliz das serenadas,
As graves castellãs nos seus balcões,
E gothicas varandas recostadas…
—Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procissões!…

Professo o culto só do far niente
Deitado, todo o dia, num colchão…
Na posição immovel d'um vidente…
Fumando o meu cachimbo, eternamente,
Com os tranquillos modos d'um sultão.

Ó filhas do spleen malfadadas
Vãs poesias sem razão nem senso!
Ó sebentas do estudo empoeiradas,
E tristes quaes sultanas despresadas,
A quem o grão senhor não deita o lenço!…

E vós teias d'aranhas inquietos
Tecidos, onde o sol brilha e seduz!…
Ó Musas que inspiraes os meus sonetos!
Qual foi o deus, ó astros dos meus tectos!
Que vos creou ao seu fiat lux!?

Sois vós que me escondeis, qual caracol,
E servís de cortina e bambinellas…
Quando eu declamo involto n'um lençol,
E as visinhas que estão tomando o Sol
A espreitar-me se põe entre as janellas!…

Ali tenho um cachimbo de cigano
Sobre uns versos que fiz a uma Felicia…
E onde puz um retrato de Trajano,
Dentro d'um casacão diluviano,
Soffrendo como Cesar de calvicia!

Nas paredes estão phrases symbolicas,
E aqui e ali borrados a carvão:
Uma Venus com ar de grandes colicas,
Um santo d'umas barbas apostolicas,
E dous frades jogando o bofetão!

Mais ao pé, tenho as cartas de namoro,
E uma Biblia mui velha onde no fim…
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d'ouro…
Tendo n'um grande pé chinello mouro,
E vestido com ar de mandarim!…

Defronte ri sinistra uma caveira,
A que puz uns bigodes com cortiça…
E d'um truão a loura cabelleira…
E me acompanha a rir da vida inteira
Como um Marte do Papa ajuda á missa!

Ao lado mora-me um visinho manco
Que faz dos sinos unico regallo…
E gosa da união d'um saltimbanco,
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noute canta como um gallo.

Defronte uma visinha costureira,
Doce lyrio que treme a um vento vario…
Que canta a manhã toda e a tarde inteira…
E tem deixado cá para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canario!…

Toda a noute o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!…
Imita o som dos sinos indescretos…
E canta, n'uma voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhaço!

E assim eu vivo só n'uma trapeira…
Onde as pennas das pombas deixam rastros…
Exposta todo o dia á soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!

*BILHETE D'UM ESTUDANTE*

D'aquelle esguio telhado
—Onde tu sabes que eu moro,
Eu acho os astros d'um ouro
Já bastante mareado!

Nenhum d'elles val a trança
Dos teus cabellos compridos!
Por isso meu peito lança
Ao teu telhado gemidos!

Se eu fosse Deus, minha amada!
—Dar-te-hia Satan m'esfólle!—
Uma cartinha fechada,
Servindo de lacre o Sol.

Mas sou um predio em ruinas,
—Não tenho nada commigo,
Sou um deus feito mendigo,
Que tomo o sol ás esquinas.

Divago roto e contente!…
—Odeio um lente—e o Philyntho!
E sob este azul clemente,
Triumpho alegre e faminto!

Meus deuses são Vico e Dante!—
E gosto, no meu caminho,
Encontrar Minerva amante,
E as Musas cheias de vinho.

Como um barco sem amarra,
Navego, turgidas vellas,
E desafio as estrellas,
Á noute, sobre a guitarra!

E a cabello louro ou preto—
—Fragillidades do barro!
Envio sempre um soneto
Na mortalha d'um cigarro!

Erro sem norte e sem tino!
—Ninguem m'estende o seu braço!
Quer-me por força o destino
Comendador ou palhaço!

*Postscriptum.*

Desculpa-me, flor amada!
—Ó minha Musa divina!
Não fui hontem á escada,
Por que empenhei a batina!…

*A LADY*

Aquella que me tem agora, presa
Minha alma, meus sentidos, meus cuidados,
E me faz sonhar sonhos desmanchados,
É uma altiva, uma olympica ingleza.

Nunca typo ideal de mais pureza
Vi nos gothicos quadros mais presados,
Seus dôces olhos castos e velados
Tem um ar, infinito, de tristeza.

Tem uns gestos de deusa que caminha,
Fronte grega, e um ar grande de Rainha;
E umas mãos, como as ladys de Van Dick.

Segue-a sempre um lacaio, e tristemente,
É por ella que eu morro, lentamente…
E ponho no bigode cósmétique.

*DEDICATORIA D'UM LIVRO*

A Ti, a quem, eu, sempre, em meus idyllios,
    Sublimo, em phrases ternas…
Te dedico, eu, vergonha dos Virgilios!
    Estas rimas modernas.

Para que, minha fama, inda hoje escura,
    A tua boca espalhe,
Ao lel-as, no intervallo da leitura
    Das obras de Terrail.

E as guardes na gaveta, onde costumas
    Guardar os teus velinos…
Entre os frascos, essencias, mais as plumas,
    E os novos figurinos.

Que possam occupar teus pensamentos
    Meus lyricos ensaios!…
E, ó meu bem! lhes concedas os momentos
    Que dás aos teus lacaios

E vejas quanto em mim é aviltante
    O amor das fórmas tuas…
Que me faz baixo, vil e semelhante
    Aos histriões das ruas.

A Ti, que com teu rir sempre me animas
    A sagrar-te em meus motes,
Dedico eu estas modernas rimas
    Para os teus… papelotes.

*HUMORISMO MYSTICO*

(Ao Dr. Thomaz de Carvalho)

Quando eu morrer, se acaso inda presares
Aquellas nossas digressões antigas
Ao verde campo, e as joviaes cantigas
Da aldeia inda apagar os teus pezares…

Se, acaso, inda a giesta, o rosmaninho,
A larangeira e o grande muro branco…
Te lembram… e te vaes sentar no banco
Ás tardes… junto ás tilias do caminho!…

Se, acaso, aquelle nome solitario
Que eu fui gravar um dia no pinheiro,
Vinha descendo o sol… como um guerreiro
Cheio de sangue… atraz do campanhário…

Se, acaso, aquelle nome o tronco duro
Inda o guardou fiel!… e a larangeira!…
E eu não passei por este val escuro
Como uma ave lugubre e estrangeira!…

Se acaso inda te lembra d'esse, a quem
Tanta vez tu vestiste com as tranças!…
E á cova em que eu jazer vier alguem
Sem ser as meigas pombas e as creanças!…

Se acaso aquelle fogo em que te abrasas
Inda não se apagou!… nem o encanto!…
—Mais que a ideal palpitação das azas,
Ser-me-ha doce, meu bem! ouvir teu pranto!

E n'essa cova então bella e dourada,
—Como a nossa união antiga e calma!
Colhe tu uma flor branca e raiada…
—Que n'essa flor te enviarei minha alma!

Toma cuidado n'ella… Ali se encerra
O que amaste!… e, ah! não vás como as mulheres
Curiosas d'amor, lançando á terra
As folhas virginaes dos malmequeres!…

Planta-a dentro d'um vaso predilecto…
Entre os outros, á luz… sobre a sacada…
E eu gosarei como um praser secreto,
Sentindo a tua mão pequena e amada!…

Será esse o meu goso derradeiro!…
O meu sol, meu azul, o meu espaço!…
E ao sentir-me regar pelo teu braço…
Lembrar-me-ha o teu osculo primeiro…

Lembrar-me-ha a giesta, o rosmaninho,
A larangeira e o grade muro branco…
—E quando iamos fallar no velho banco,
Ás tardes… junto ás tilias do caminho!

*O CANNIBAL*

(A C. Verde)

Tenho, defronte, uma visinha loura
Cuja carne alva, fina e setinosa,
Faz lembrar, quando á tarde o sol descóra,
A côr humana pallida da rosa.—

Não é fragil, nem debil, vaporosa,
Como as virgens mortaes que a luz não doura,
Antes é forte, esbelta e a voz sonora,
—Tranquilla e altivamente magestosa!

Nasceu formada assim para os amores;
E o modo com que rega as suas flores,
Na varanda, a sorrir, não tem rival!…

Ao vel-a os D. Juans baixam a falla!…
—Mas quanto a mim… quisera devoral-a
Com a fome imbecil d'um cannibal!

*ROMANTISMO*

Quando ergue o transparente da janella,
Ou que o seu quarto se innundou de luz,
Eu amo vel-a seductora e bella
—Longos cabellos sobre os hombros nus!

Oh como é bella! e como fico a olhar
Dos seus cabellos desatando a fita!…
Lembram-me as virgens que do austero ermita
Vinham as noutes d'orações tentar!

Oh como é bella! Tem na luz do olhar
Quaes violetas quando as fecha o somno,
Não sei que doce ou languido abandono,
Não sei que triste que nos faz scismar!

Como eu a espreito, palpitante o seio,
Como eu a sigo nos seu gestos vários…
N'aquelle quarto, aquelle ninho cheio
Da doce voz dos joviaes canarios!…

Como eu quisera ser nos sonhos d'ella
Um rei das lendas, o fatal D. Juan,
Pirata mouro em galeões á vella,
Com minaretes sob o ceu do Iran!

Como eu quizera—e que vontade intensa!—
Só pelo brilho d'essa longa trança!
Ser cavalleiro d'invencivel lança,
Ou rei normando d'uma ilha immensa!

Como eu quizera, no seu pensamento,
Ser o rei bardo no rochedo duro,
E ambos fugindo, recortar o vento,
Sobre a garupa d'um cavallo escuro!

Se me morresse, que comprido choro!…
Como vergára sob a cruz da Malta!
Como eu deitara a minha taça d'ouro
Por causa d'ella d'uma torre alta!…

……………………………………

E assim por ella fico preso, em quanto
O sol s'esconde no occidente triste,
Um cravo murcha n'uma jarra, a um canto,
—E as aves vôam debicando o alpiste!