NA BIQUEIRA
Ella tem uns olhos azues tão bonitos!... Mas se eu vi! Elle a olhar para cima... e ella a fazer signaesinhos com o lenço!... Vi; ninguem m'o veio dizer... Fui eu que vi!
E estas cartas que me escreveu! Talvez em nenhuma fale verdade. Esta ultima é toda mentira com toda a certeza. Quando a escreveu, já foi depois de ter polcado com elle... E chama-me seu anjo a infame!
Como póde um homem baixar até morrer{162} por uma mulher assim! Morrer, sim, está resolvido... vou matar-me.
Meu pobre pae, coitado! Sempre com tantos sacrificios por minha causa! O que dirá, quando souber que me suicidei? Pobre velhinho! É capaz de morrer de desgosto! Tinha vontade de lhe escrever; mas não tenho animo. Nem animo nem papel. Gostava de me despedir... O resto do papel ainda o gastei a escrever áquella desgraçada!
Ah! mas vou afinal vingar-me!... Hei de atribular-lhe a vida com remorsos!
Custa-me tanto morrer!... Dizem que só os cobardes é que se matam. E eu acho que é preciso ter animo, muito animo!
Mas está decidido.
Vou morrer enforcado... Dizem que não doe nada... Mas morrer! Quem foi que disse que não doe? Aqui está a corda. Exactamente do tamanho preciso para que, de manhã, quando ella abrir a janella, me veja pendurado, em frente dos seus olhos, na biqueira do meu telhado.{163}
É preciso não hesitar... Infame! Mas que mulher tão infame! E tem uns olhos tão bonitos!... Que besta... o outro!
Bem! agora ponho-me a chorar! São saudades de meu pae!
Aquella biqueira tentou-me. É de zinco, parece muito forte, algum tanto virada para cima.
Vamos.
Está frio cá fóra... Chovisca... A noite é escura!...
Ali estão as janellas do quarto d'ella, d'onde tanta vez olhou para mim, d'onde tanta vez me falou e me atirou beijos com as pontinhas dos dedos!... Que mentira! Agora faz o mesmo ao outro!
Está frio! Será bom vestir o sobretudo... Assim estou melhor, mais conchegado... para morrer!
Cá estou outra vez a chorar!
Ámanhã, quando abrires as tuas janellas, has de ver, mesmo em frente, o meu corpo, baloiçando-se ao vento soturnamente.{164}
O peor é se fico com a lingua de fóra... É tão feio uma lingua de fóra! Eu fico tão feio!... E os olhos...! Os olhos d'um enforcado...!
Mas está decidido, está decidido. O enforcado é o mais limpo dos suicidas.
Se não fosse o medo já lá estava. Um suicida é um valente!
Atemos a corda. Mau! o telhado escorrega...! Se eu cahisse lá abaixo!... Só pensal-o me arripia todo!
D'ali é que ella erguia os olhos tanta vez para a minha trapeira!
Devagar... Assim.. Parece-me que o laço está bem dado... Quasi que não vejo com as lagrimas... Está bem dado, está; está seguro.
O melhor é descer pela corda, e depois, lá em baixo, quando tiver chegado ao fim, metto o pescoço no laço, segurando a corda, devagarinho, muito devagarinho... e deixo apertar.
Como é triste morrer assim tão novo, tão{165} cheio de vida!... Morrer!... Chega a ser estupido...! porque afinal eu tinha um futuro talvez brilhante... Um praticante de pharmacia... Morrer assim tão novo!
Mas como isto faz chorar!
Está frio!
Ella dorme...! Se adivinhasse...!
Não pensemos mais n'isto. Sejamos homem!
Devagarinho...!
Estou suspenso sobre o abismo! Uma altura de cinco andares...! Sinto um frio na espinha...! Se as mãos se me escapassem...!
Não me despedi bem do meu quarto. Devia de voltar para cima. Afinal fui ingrato com elle. Tive ali momentos bons.
A corda dá-me cabo das mãos. Devo estar quasi na ponta... Cá está o laço. Estou mesmo, mesmo em frente das janellas. Se me baloiçasse um bocadinho, tocava-lhe com a ponta do pé nos vidros.
Punhamos o laço ao pescoço. Foste tu,{166} mulher devassa, que me fizeste esta gravata!... Agora deixemos apertar devagarinho.
Apre! É aspera a corda!
É horrivel morrer-se assim! Se ella me visse, se arrependesse e me salvasse!
Já tenho os braços cançados...! Que tentação de voltar para cima!
Morrer...! Mas é uma desgraça!... uma tolice!
Hein? Que é isto? Pareceu-me sentir estalar o zinco da biqueira!...
Talvez fosse engano... Mas o melhor é voltar... verificar...
Não, não é engano, que horror! Estalou, é certo. Ao mais pequeno movimento estala e dobra! Se verga demais, o laço escorrega e eu esmigalho-me lá em baixo nas pedras da calçada!
Quem me ac...!
E se ella apparece á janella?
Doem-me os braços, já não posso mais!
Mas então é certo!... Mas então vou{167} morrer! Mas não quero, d'essa morte horrivel não quero!
E não poder subir...! Talvez com um esforço grande, apoiando os pés á parede... Mas o zinco estala cada vez mais, dobra-se todo...!
Se eu batesse as palmas ao guarda nocturno...? Mas como? Para bater as palmas seria preciso largar a corda... Se me pudesse segurar com uma só mão, despir-me com a outra e bater as palmas no...
Mas nem sei o que penso! Não posso suster-me só com um braço... Sinto faltarem-me as forças!... E se ella abrisse a janella e me visse n'essa posição ridicula?
Agora é que é certo! agora é que tenho de morrer!... E ninguem, ninguem me salva!
Tenho as mãos a arder; não posso mais. Quem me dera ter animo para gritar!...
Ainda que queira subir já não posso... E o zinco verga cada vez mais, ao mais pequeno movimento!{168}
Parece-me que sinto passos...! É preciso estar muito quieto...! Valha-me Deus! O laço já correu um bocadinho...
Os passos approximam-se... É uma patrulha!
Ó camaradas!... camaradas!... Pchiu!...
Não são ladrões que tenho em casa, não senhor. Não vêem que estou pendurado?... Acudam depressa!... O zinco está todo dobrado! Depressa!... Sim, senhor, acompanho-os á esquadra.
E o laço a escorregar!...
Depressa! A porta lá em baixo está aberta.
É só preciso arrombar a cá de cima.
Tolice! Porque não a deixei eu aberta tambem?
E se alguém me quizesse acudir?
Os passos approximam-se...
Graças a Deus!... está a porta arrombada!
Acuda! acuda depressa!
Obrigado camarada!... Não ponha o pé no zinco!...{169}
Meu Deus!
Ó meu pae, coitadinho!
Que horror!
Ella tem uns olhos azues tão b...!{170}
{171}
REQUIEM AETERNAM
Todas as tardes, quando o azul no alto do céu começava a desmaiar, ou já a enlutar-se nas pregas, pouco a pouco, serenamente accumuladas pela neblina da noite, recolhia a casa, aos solavancos sobre as pedras da calçada, a carruagem das velhinhas.
Espantosa, de grandes rodas espessas, ferragens desconjuntas, tecto esboracado, tinta bexigosa, puxavam-a dois cavallos brancos,{172} magros, muito magros, de joelhos grossos, orelhas cahidas, choutando sem brio, coxeando dolorosamente, com um ar de philosophos sem ração a caminho da morte.
Atraz saltava a carruagem com um tinir de ferragens, soturno como um ranger d'ossos em dança macabra. E eu encostava aos vidros da janella a testa ardendo com febre, para ver a passagem d'aquellas duas velhinhas sympathicas, irmãs decerto, gemeas talvez, tão eguaes, com os cabellinhos bracos alisados sobre as testas enrugadas, as boccas reentrantes, os olhinhos apagados, tremulas, encolhidas como passarinhos com frio, com os mesmos fatos de luto, o mesmo ar tranquillo, o mesmo sorriso de bondade. Macrobias á espera que a morte viesse n'um beijo perfumado cerrar-vos para sempre os olhos, como devieis soffrer, cabeceando, sacudidas, empurradas brutalmente uma contra a outra pelas mollas duras, aos safanões das sob-rodas da calçada! Boas velhinhas, minha paixão unica, minha esperança d'um{173} dia inteiro, quando eu vivia isolado com a minha melancolia, n'aquella casa onde o vento soprava tristezas, onde o sol nunca entrou e onde as corujas riam de noite!
O cocheiro, um velho muito velho, corcovado, segurando tremulamente as redeas, com as mãos pousadas sobre os joelhos, conservava um certo ar de casa nobre, apezar da nodoa esverdinhada, que se alastrava nas costas da sobrecasaca, e do chapéo de furta-côres, pequeno, de abas largas, arrombado, sem pêllo, com um velho galão todo oxidado, velho, muito velho, d'outros tempos muito melhores.
Que volta misteriosa dava todos os dias aquella carruagem, que ás tardes ali passava trepando pela calçada? D'onde vinham, para onde iam, em que palacio ou castello arruinado moravam as boas velhas? Quem eram? Nunca o soube.
E era talvez por isso que as amava tanto. Architectava historias fantasticas a respeito d'ellas, da carruagem, do cocheiro, dos cavallos,{174} e, quando por fim ouvia o rodar pesado e o tinir das ferragens, sentia o coração pulsando rapido, a respiração difficil, um calor nas faces, como se em vez da decrepitude a caminho do cemiterio, fosse uma primavera cheia de flores e de mocidade, que ali passasse em grande aureola de luz, em nuvem subtil de perfumes.
Creio que as velhinhas, n'uma doce, apagada recordação de galanteios havia muito passados, adivinharam o meu amor, e olhavam para mim, risonhas, fazendo renascer faiscas nos olhos côr de cinza, que um sorriso bordava com ondas de preguinhas por cima das rugas! E eu, com a testa encostada ás vidraças, via desapparecer a carruagem fantastica, emquanto a noite descia lentamente e, muito desafinados, piavam lá no alto, em doidas correrias, os negros andorinhões.
Boas, santas velhinhas, benza-vos Deus!
A calçada subia em linha recta, tendo por fundo o céu ainda vermelho, áquellas horas.{175} A carruagem levava uns cinco minutos até chegar ao alto, e lá em cima, esfumada pela distancia, com as grandes rodas salientes, tombadas para fóra, similhava uma grande borboleta negra, que a descida precipitava na rutilante fogueira do pôr do sol.
*
* *
Pouco depois accendiam-se no céo muito pallido as primeiras estrellas. Então um doido, que morava no rez do chão, começava a uivar sinistramente e pela casa espalhava-se um cheiro intenso, um fumo suffocante d'ervas, que a irmã queimava por conselho d'uma bruxa, entre rezas plangentes, arrastadas, de arrelia.
Pessimista bilioso, mal com a vida, fugira de parentes e de amigos, e ali vivia isolado, merencorio, cheio de azedumes, n'aquella rua onde os casebres em ruinas se alinhavam tristemente, com vidros esverdeados, telhados cheios de corcovas, paredes desaprumadas,{176} com ervas crescendo junto aos muros em que as osgas aqueciam ao sol os dorsos escamosos.
E dava-me bem n'aquella paizagem cuja musica harmonisava com as minhas queixas, n'aquelle scenario que havia procurado e emfim descobrira, onde arrastava as minhas preocupações, os meus desvarios, na prisão voluntaria que escolhera e me era cara á força de melancolica, que eu amava porque me era hostil.
Ao meu odio pela gente e pelas coisas, uma só coisa escapára—aquella carruagem a desconjuntar-se, pyrilampo nas trevas da minha noite, nota suavissima no concerto da minh'alma.
Tão egual era sempre a dôr que me atormentava, tão parecidos rodavam meus dias, que o verão passou, sem que, olhando para traz, eu pudesse ver na estrada, que andei triste, o marco d'uma alegria, d'um aspecto novo, d'uma miragem na vida.
Aquelle amor, aquella quasi paixão, que{177} ao principio as velhinhas me haviam inspirado, esse mesmo sentimento purissimo affligia-me agora, á medida que o sentia crescer.
O tempo fôra passando, e os cavallos cada vez choutavam menos, coxeavam mais, mais brancos, mais tisicos, mais dolorosamente meditabundos; o cocheiro mais corcovado, um pouco descahido na almofada, deixava pender o chicote; a carruagem tinha na frente umas tiras de papel sobre um vidro rachado; cordas, a que todos os dias se juntava um nó, ligavam os arreios; as velhinhas tinham menos palhetas doiradas no olhar, quando me sorriam. E já me sorriam como a pessoa conhecida, que occupasse na vida d'ellas o logar em que moravam na minha, o que augmentava a minha tristeza.
Agora, cada vez que lá no alto da calçada se afundava a carruagem, ficava scismando se teriam desapparecido de uma vez todos os meus sonhos, tudo—que era sómente aquillo—quanto á vida me prendia.{178}
O verão, muito lentamente, assim foi rodando, até que vieram as primeiras chuvas.
Que tarde turbida e melancolica! Se não viessem...! E de tanto pensar n'ellas, vi qual era sua pousada na minh'alma. Se não viessem...! Dia immenso em que, cheio de inquietações passeei pelo quarto até entontecer, approximando-me da janella a cada instante, vendo apenas na solidão da calçada a chuva a cahir, a cahir, rio enorme, que se despenhava até lá abaixo, rolando barrento, cheio de espuma, quebrando-se, saltando sobre as pedras arrancadas, bi-partindo-se lá no fundo, desapparecendo na curva e galgando as escadinhas, onde se precipitava em cascata, com uma bulha monotona...
O doido, a quem a meia escuridão d'aquelle dia exacerbára a furia, torcia-se, berrava como um possesso; e logo de manhã espalhou-se pela casa o tal cheiro que eu detestava, de alfazema queimada, de alecrim e d'outras ervas com que o demonio embirra.{179}
Dia immenso, que me parecia não dever acabar!
Na minha imaginação exaltada via, como de então para cá vi sempre, um ente unico n'aquella carruagem, com as donas, os cavallos, o cocheiro, como se uma só alma os animasse a todos, não podendo desligal-os, abstrahir d'uns para só pensar nos outros.
O dia vinha descendo e, ancioso, sentindo pelo ser fantastico que me fazia pulsar o coração, aquelle fervoroso amor, que os encarcerados dedicam ás vezes a uma formiga, a uma aranha, a uma plantasinha qualquer, com as unhas cravadas na carne do peito, tive uma das mais doidas alegrias da vida, quando senti sobre a lama que se alastrava de lado a lado, o rodar lento, abafado, por que suspirava semi-doido.
Os cavallos gemiam, suavam, lançando pelas ventas baforadas densas. As sob-rodas, occultas pela lama e que o cocheiro não evitava, cego pela chuva que o zurzia, faziam cambalear o trem como um ebrio. E{180} lá dentro mal pude avistar, atravez dos vidros embaciados, as velhinhas que sorriam.
Abri a janella para as ver desapparecer. Julguei que nunca chegassem ao alto. O cocheiro com um gesto afflicto brandia o chicote; os cavallos pegavam-se, ajoelhavam na lama; as molas estalavam.
Chegaram finalmente. Disse-lhes um adeus maguado. E emquanto a noite descia, sentado junto da janella, parecia-me ver, como n'um sonho, a carruagem fugindo, fugindo, por uma estrada que não acabava nunca, levando no tejadilho, de pé, como os anjos dos coches de enterro, a figura da morte. E a chuva cahia, cahia, e a noite embrulhava-se n'um véo muito negro, cheia de frio.
*
* *
Nunca mais as vi.
Passaram-se mezes. Na terça feira de entrudo uns mascarados bebados, que desciam pela calçada, traziam adiante aos pontapés,{181} em grande troça, um chapéo de furta-côres, pequeno, de abas largas, arrombado, sem pêllo, com um velho galão todo oxidado, velho, muito velho...
Boas e santas velhinhas!
Requiem æternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis.{182}
{183}
AS ESTRELLAS DO CEGO
Noite de Natal.
Terminára a missa. Repicavam sinos e o povo descia alegre os degráos em ruina da larga escadaria.
A noite era cheia de estrellas, luzes d'altar immenso sob o immenso docel de velludo azul. O céo muito frio parecia rir-se, a piscar os olhinhos alegres.
Ainda nos eccos da alta abobada em berço{184} resoavam os ultimos cheios do orgam do convento. Pela porta aberta de par em par, onde a multidão se acotovelava á sahida, vinha de dentro da egreja um perfume religioso de flores, de fumo de incenso, de cera queimada.
O altar reluzia ao fundo, e as luzes inquietas enchiam de zig-zagues rutilos as lentejoulas e os fios de seda nos mantos bordados da Santa Familia e na colxa de damasco do berço pequenino, em que o Menino Jesus dôrmia.
Tocavam sinos, e os repiques, como foguetes, subiam pelo ar denso da noite fria, entre a algazarra do povo, massa escura caminhando pela noite escura. A larga frontaria da egreja, comida pelo tempo, abafada n'um velho tapete de musgo, sobresahia no céo em mancha muito negra, d'onde jorravam feixes luminosos, ondas de harmonias, luz e canticos de triumpho.
Um pequeno desceu a escada levando um cego pela mão.{185}
Iam fechar-se as portas. Sahiam os ultimos devotos.
O cego era um velho corcovado, tremulo, com a face cheia de rugas crusadas, como um pedaço de papel amachucado. Os olhos sem luz voltava-os para o céo, meneando a cabeça constantemente, como se procurasse... o quê? E sorria. Dava a mão ao petizinho e descia os degraos tacteando-os com o pé.
—Ainda mais um, avô... E outro... E outro.
Fechou-se a egreja. O candeeiro da esquina mal alumiava o adro.
E o cego sorria e afagava a mão do pequeno.
O povo espalhou-se pela ruas. Eram como estilhaços de alegria por toda a cidade.
Vinha a gente descendo pelos beccos angulosos, pelas travessas em declive rapido. E parecia que todos levavam n'alma um pedaço de luz d'aquella noite em Belem cantada nos evangelhos, da alegria d'aquella{186} musica ouvida no templo, quando os sinos repicaram e o côro entoou o Gloria in excelsis! Todos falavam, todos riam, muitos cantavam. Era a ceia prompta em casa, era o dia seguinte todo elle inteirinho de descanço!
Noite de Natal! Noite de Natal!
E eu fui por ali abaixo tambem, atraz do cego.
O pequenito teria oito annos. Loiro. D'olhos azues. Olhava para as estrellas a rirem lá em cima.
Os olhos tinham a côr do céo, e o que n'elles brilhava tanto podia ser o reflexo das estrellas como a luz placida da sua almasinha.
Caminhavam os dois por ali abaixo e conversavam. Á voz tremula do velho replicava compassadamente o pequenino. E o que elle dizia com a sua vozita infantil, linda como um trinado, devia de soar aos ouvidos do avô ainda como um cantico, como se um anjo d'aquelles, que haviam aos pastores annunciado a vinda do Senhor, houvesse{187} ficado na terra; porque o cego continuava sorrindo, e, a descer pelos beccos escuros e tortuosos, afagando a mão do netinho, fitava os olhos condemnados ás trevas lá em cima, lá muito em cima, d'onde vinha aquella luz toda, que alegrava os olhos da criança.
Conversavam os dois contentes. Eu ouvia bocadinhos do que diziam, palavras soltas, por onde, mais ou menos, reconstituia a conversação.
Esperava-os em casa a mãe do pequeno, filha do cego. Os dois levavam fome. A mulher ficara em casa fazendo a ceia. E ao velho ouvi dizer, uma ou duas vezes, gulosamente:
—A canja.
E o pequeno:
—Degráo, avôsinho.
E o cego, muito attento, vagarosamente, tacteava o degráo com o pé, afagando a mão do neto, cantarolando.
Pelos beccos, pelas travessas, sob os arcos{188} dos pateos irregulares, cheios de sombras, disseminara-se a gente. Iamos agora sós, nós trez, n'aquelle caminho.
Ouviam-se ainda passos ao longe, eccos de vozes, uma ou outra guitarra em lojas fechadas, onde brilhavam as frinchas das portas; de quando em quando, um bater de palmas ao guarda nocturno, passos correndo, um tinir de chaves. Um gallo cantou n'uma trapeira.
—É tarde, disse o velho.
Caminhavam mais depressa agora.
E eu ia andando atraz d'elles, sem saber bem porquê, atrahido talvez pela doçura do quadro, pelo encanto do grupo, pela meiguice das vozes, por ver tanta alegria onde tanta miseria se cuidava, tanta paz nas almas, onde tanta dôr devia de suppôr-se.
Passei-lhes adeante. Esperei junto de um candeeiro. Queria ver-lhes ainda uma vez os rostos.
O cego continuava a olhar para o céo, meneando a cabeça. O pequenito ao lado,{189} agora que na rua tinham acabado os tropeços, olhava para onde olhava o cego.
A cabelleira loira, toda em anneis, não lhe cabia dentro do chapéo e cahia-lhe, revolta, pela testa, ao longo das faces, pelas costas.
Era lindo, lindo! E o cego, que o não via, continuava a sorrir!
Deixei-os passar adeante.
A rua alargava-se entre casarias irregulares. Caminhavam mais á vontade agora, mas tinham-se calado. Culpa talvez da minha indiscrição.
Faziam ecco no silencio da noite os nossos passos sobre a calçada, na rua deserta.
Pararam. O velho bateu cinco argoladas á porta de uma casa esguia, com grades de madeira nas janellas cheias de vasos. Passados poucos segundos, ouviu-se a pancada violenta do trinco puxado com força desde lá de cima.
O cego e o pequeno desappareceram na escuridão da escada. A porta bateu com estrondo.{190}
Ouvi ainda o velho cantarolando, emquanto subia. Pouco a pouco a voz sumiu-se. Encostei o ouvido á fechadura: uma bulha de passos apagando-se, mais e mais, a cada volta da escada; uma voz muito alegre—devia de ser a da mãe do pequeno recebendo-os—palavras que não percebi... E fechou-se lá em cima uma porta.
*
* *
Então passei para o outro lado da rua e fiquei-me a olhar para aquella casa.
Era noite de Natal, noite de festa, noite cantada pelos poetas. Talvez as cordas da minh'alma vibrassem ainda em unisono com os cantos d'aquellas vozes tão devotas, singelamente entoados por detraz das grades do côro, hymnos muito simples ao Deus Menino nascido.
No céo de immaculada pureza as estrellas vibravam raios de luz intensissima. Fazia frio.{191}
E eu quedava-me a olhar para aquella casa, tão pobresinha, tão velha, tão escura, tão cheia de flores d'alto a baixo!
Uma janella no telhado illuminou-se.
Começava a ceia do velho. Eu reconstituia o grupo dos trez: a mesa encostada á parede na trapeira muito baixa, o velho aspirando os perfumes da sopa, a terrina sobre a toalha muito branca, o pequeno defronte do avô, e a mulher a sorrir-lhes, ouvindo-lhes as historias, o throno, o presepio, a missa, o canto das freiras, a vinda por ali abaixo a horas mortas, a minha perseguição.
E o pae do pequeno? Ah! sim, esse tambem lá estava... Pois quem trabalha para sustentar a alegria n'aquellas almas?... Santa familia!
Que deliciosa ceia! Que paz tranquilla! Que boa noite de Natal!
Tanto falava o cego na canja, rua fóra, pela mão do pequeno! Quem não tem olhos, tem melhor paladar.{192}
E o pequeno como devora! É que é tarde e não costuma estar de véla áquellas horas! Comprida manhã terá na cama. Já os olhitos se lhe começam a fechar.
E o pae e a mãe a rirem, contentes de os verem assim!
Que boa noite de Natal!
Fitára os olhos na janella, não sabia d'ali apartal-os. Tambem eu agora olhava para cima, como ainda agora o pequeno para as estrellas, o cego não sei para onde.
Porque olhava o cego para o céo?
Tornou o gallo a cantar. Ouvi-o, ao longe, mais alegre, como quem já adivinha a madrugada.
Ha quanto tempo estava eu ali? Porque olhava para aquella trapeira?
Encaminhei-me vagarosamente para casa.
Havia tantas estrellas no céo! Como era linda a noite de Natal! Como tinha razão o pequenito dos cabellos loiros de olhar para as estrellas! Que quantidade de luz! Tantas! Tantas!... Talvez o pequeno se lhe{193} mettesse em cabeça de contal-as! Houve uma, quando vinhamos pela travessa abaixo, que passou correndo, deixando um rastro muito longo... Era como a estrella dos Reis Magos. Que luz não tinham os olhos do pequenito! E o cego sorrindo ao pé d'elle, com os olhos tenebrosos postos no céo! Porque? É que se lhe voltavam para lá os olhos d'alma, é que na alma tinha elle mais luz do que o pequeno nos olhos.
E vejo-os ainda a descerem pelos beccos, o velho meneando a cabeça, o pequenito a dar-lhe a mão? Degráo, avôsinho? ambos com os olhos no céo, a estrella a correr...
Que lindas estrellas vê o cego!{194}
{195}
OS NETOS
Andavam todos pasmados, a falar baixinho pelos cantos.
O D. Affonso parecia outro!
Se fosse um Affonso qualquer!... mas o Dom, o quarto, o do Salado!... Quem jámais o vira assim de olhar tão doce na sombra do supercilio carregado, de riso tão lhano sob as enormes barbas patriarchaes, honradas entre as mais honradas dos affonsinos?{196}
O Coelho, que, havia muito, andava tramando o crime, até disse baixinho ao Pacheco:—«Ali ha coisa!» O Pacheco já a farejára, olha quem! E entretanto, o D. Affonso, todo fóra dos eixos costumados, dizia graças, quando passava alguma dama a rojar sedas na peugada da linda Inez.
Ia seu caminho o drama tenebroso. Tanto haviam feito, que já tinham escangalhado o socego da que depois de morta foi rainha. E o sceptro, sobre que tão famigerados heroicos havia de bordar o Dr. Ferreira, parecia pesar nas mãos do monarcha menos do que se fôra de pechisbeque, talvez tanto como de papelão doirado.
É que n'aquella noite...
O homem tinha um fraco: pelava-se pela canja!
Elle em pessoa comprára a gallinha, uma ave amarella, que era uma belleza, gorda, anafada... Depois de muito regatear, e por ser a elle, D. Affonso, é que a saloia a vendêra por seicentos e vinte! Um rico pedaço de{197} toucinho, um bom naco de prezunto, o bello chouriço, cheirinhos, arroz da melhor tenda... Ora adeus! Um dia não são dias. Aquella noite de Natal havia de ser falada!
E, por debaixo dos longos bigodes brancos, brancos de neve, El-rei lambia os beiços.
Chovia a potes.
O drama terrivel, a mais calamitosa tragedia da historia patria, ia-se pouco a pouco desenrolando.
Inez lamentava-se. Os horrificos algozes haviam-a trazido ante o rei. Eram tres judeus de calvario de semana santa, muito capazes de dar sete pesadêlos a quem não estivesse prevenido. Muito cabello, muita sobrancelha, muita barba, vozes de tyrannos. Ella erguia para o céo cristalino os olhos piedosos, attentava nos meninos cheios de somno, falava ao avô cruel nas brutas feras e nas aves agrestes, na mãe de Nino e nos irmãos que Roma edificaram; queria ir fosse lá para onde fosse, para a Scythia fria{198} ou para a Lybia ardente, comtanto que a tirassem d'ali. Era de partir os corações! Mas aquelles patifes, de punhaes desembainhados, sanhudos, faziam esgares!
E a desditosa amante do Principe, entre soluços e lagrimas, pensava:—Que demonio tem hoje o D. Affonso?
O rei só via a canja, os olhinhos da gordura, o arroz muito branco... E arregalava o olho e abria a venta!
Ah! que delicioso quadro! Que lhe importavam a linda Inez de rojo a seus pés, as iras do filho apaixonado, a politica do reino, as Hespanhas, os Castros?
Uma trapeira, que, toda envolta em arroz de telhado, era como um ramalhete, n'uma rua estreita, escura, tortuosa, para lá lhe tugia o pensamento. Em volta d'ella cantavam pardaes todas as manhãs, e o sol mal nascia, pintava-lhe os vidros como se fossem pedras preciosas, rutilantes. Tanta paz lá dentro, tanto riso de creanças!
Noite de Natal muito fria. Ih! como chovia{199} lá fóra! Cantava a agua, cahindo em jorros das biqueiras sobre as pedras das calçadas. Como estavam lamacentas as ruas, cheias de poças! O vento do sudoeste arrastava pelo céo as nuvens desgrenhadas, e chovia sem descanço.
Lá dentro da trapeira, tanta luz, tanta alegria!
Noite de Natal! A toalha resplandecia muito branca sobre a velha mesa herdada dos avós, um nadinha coxa e remendada. Era um velho traste amigo, n'aquella noite todo enfeitado para a festa. O candeeiro, entornando sobre a alvura do linho um circulo de luz aconchegador, fazia faiscar as laminas das facas, estriava com fogo os cabos muito limpos das colheres. O pão, ha pouco vindo do forno, ainda fumegava embrulhado na flanella, e seis guardanapos engommados ostentavam formas caprichosas, em cima dos pratos: pombinhas, leques, romãs abertas.
Lá dentro, na cosinha, riam as crianças.{200}
A mais pequenina, uma gorducha rosada e muito loira, fechava os olhos cançadinhos de somno, teimando em não querer deitar-se, que havia com as mais velhas de assistir á grande festa.
E a panella a chiar e o vinho a aquecer e o quebrar das nozes!
Vá lá um homem ralar-se com a politica do reino, ter consciencia de sua altissima missão, comprehender o direito divino, recalcar no coração a piedade e ser cruel contra o proprio filho meio louco de amor e que a dôr tornaria completamente louco, contra os infantes seus netos, contra a formosa fidalga chorosa, que deixava espalhar pelos hombros os fartos cabellos pintados de loiro!
—Pois sim, cantem, pensava elle.
E respondia tão distrahido, tão fóra do sentimento, que todos, pasmados, diziam:
—O D. Affonso... ali ha coisa!
Corriam-lhe pelas faces uns arripiosinhos, impaciencias perceptiveis sob as enormes barbas todas brancas, fazendo-lhe tremer as{201} azas do nariz e os cantinhos das fartas sobrancelhas.
O filho, o D. Pedro, com voz de trovão, arrancava do peito as ultimas exclamações e afastava-se a largos passos para ir pegar em armas. A côrte, attonita, afflicta, corria para a vasta janella rendilhada para ver o desgraçado amante atravessar os pateos, chamar os seus, com elles dispor a vingança. Era então que o velho heroe do Salado, desgraçadinho, cheio de lagrimas na voz, com o coração dilacerado, deante do corpo inanimado da linda Inez, havia de soluçar altissimas philosophias sobre a vaidade das vaidades, o peso d'aquella corôa sobre as cans, d'aquelle sceptro nas mãos decrepitas.
—A canja, a canja! pensava elle.
E ainda o ecco murmurava os últimos gemidos d'aquelle diabo de tragedia, e já o D. Affonso galgava a quatro e quatro os degráos da escada, sem corôa, sem sceptro, sem barbas, respondendo ao contra-regra,{202} que o chamava para ir agradecer os applausos da claque:
—Vão para o diabo!
E, meia hora depois, que alegria!
Quando chegou a casa, em volta da mesa, a filha, o genro, os tres netinhos, todos a cantarem o hymno da carta:—Tchim! Tchim!... Taratatchim! Taratatchim!
Que bem que cheirava a canja!
Aquella noite de Natal havia de ser falada!{203}
A BURRINHA BRANCA
Meu avô tinha uma burrinha branca, que parecia um macho.
Era branca e lustrosa como um cotãosinho de serralha, esbelta, com as mãosinhas muito finas, viva, com as orelhitas muito curtas. Uma estampa.
Quando o avô sahia n'ella, não havia general em campo de batalha que mais garboso se apresentasse. Tic-tic!—lá iam os dois pelos caminhos. Vinham as mulheres ás portas e era um côro:{204}
—Benza-te Deus, burrinha!
É que tinha uns modos que prendiam o olhar de todos.
Homens havia que embirravam com o avô, por causa d'aquella fortuna, e diziam ao vel-os:
—Raios os partam!
Mas o velhote não cuidava de mulheres, despresava invejosos e só pensava na burra.
Chamava-se Pomba, pomba por dentro e por fóra, tão branquinha d'alma como de pêllo.
Muito meiga, quando o avô lhe levava a ração, esfregava n'elle a cabeça, mexia as orelhas e dava ao rabo, que é o modo por que os burros fazem festas á gente. O avô dava-lhe beijos.
Por todas essas aldeias, nunca vi gato nem cão, animalzinho mais querençudo.
Assim passaram muitos mezes de muita paz e socego.
Lá o nosso visinho sapateiro é que se mordia de inveja. De amarello que era fez-se verde, de magro um trinca-espinhas. Era{205} dono d'um cavallinho lazão, coxo, pelludo, calçado de tres pés e bebendo em branco.
Pois ainda queria comparar o diabo do homem!...
Ora isto da malha branca da testa correndo pelo focinho até ao beiço é de mau agoiro. Diziam os moiros que os cavallos assim marcados tinham na cabeça a mortalha do cavalleiro. Até onde seja verdade não sei; mas vi mais d'uma vez o lazão aos coices nas estrellas e o sapateiro no chão com as costellas amolgadas.
Pois, apezar d'isso, só para fazer rabiar o avô, dizia que não trocava!...
A Pomba era um apetite. Invejavam-lhe ovelhas a mansidão.
O avô calava-se, porque bem conhecia o sapateiro. Ria-se, sem que ninguem desse por isso, que eram tantas as rugas na cara, que mais uma menos uma não fazia differença. Onde se lhe conhecia a alegria era nos olhos, uns olhitos pequeninos, já sem côr.{206}
A burrinha a trote,—tic-tic!—e elle:
—Bons dias, visinho!
Então o cavallicoque escanzelado, muito malcreado, tinha o máu sestro de rinchar.
O avô não gostava do atrevimento; mas que havia de fazer senão conformar-se com o namoro desaforado de quantos quadrupedes na terra havia? Era a linda cabecinha branca apontar entre os humbraes da cocheira e logo cada zurro de repicaponto, que, fosse a Pomba como certas mulheres, seria a aldeia um céo aberto.
Ella, muito dengosa,—tic-tic!—olhava para todos de soslaio, mas nenhum encarava de fito.
Eu levava-a muita vez a pastar. E, como o avô não queria que ella perdesse um só ponto da reputação, dizia-me sempre:
—Não percas o animalzinho de vista. Não deixes de pear a burra.
Nem o mais pintado se lhe havia de chegar, que eu tinha sempre o olho n'ella e nunca as peias me haviam esquecido.{207}
Entretanto chegou o mez de abril e toda a charneca se encheu de flores, desde as copas mais altas dos sobreiros até ás ervinhas, que se escondem envergonhadas debaixo das moitas.
A burrinha abria muito as ventas, respirando o ar fresco da madrugada, que cheirava a alecrim e a rosmano, que nem eu sei encarecel-o! Os estevaes eram todos em flor e a charneca parecia um mar todo elle verde e branco, quando o vento cursava por essas mesas fóra.
Ella gostava de ouvir os passarinhos, que até parece que os entendia. Não ha como máus exemplos. Andava azougada e o avô inquieto.
—Peia-me a burra, dizia sempre.
Iam tamanhos desaforos pela aldeia...! Mas quem havia de pensar...?
*
* *
Ora, por esse tempo, a Pomba fez quatro{208} annos, o que é tambem a primavera na vida dos burros.
Uma certa manhã, o sol, depois de trez ou quatro dias de choviscos, appareceu de repente limpo de nuvens e com tanta luz, que as abelhas embebedaram-se todas. Era um zunir lá pelos ares, que até dava alegria á gente. E lá em baixo no montado, ao pé do rio, ainda os rouxinoes se não tinham calado, já os trigueirões andavam cantando. Era dia de festa tanto na terra como no céo!
Ora um homem póde ser marréca, aleijado e feio como eu sou, ha coisas que lhe vão direitinhas á alma.
Larguei a burra no ferregial e fui-me deitar debaixo da figueira.
Dizem que o sol, quando nasce, é para todos; porque não havia de haver uns raios para mim? Tanta moça boa na aldeia e eu estropiado, sem me atrever...
Puz-me a olhar para aquelles montes, d'onde o sol vinha a subir. Um moinho ao longe bracejava, com as velas muito brancas,{209} que mal se viam no céo todo em volta cintado de côr de sangue. Zuniam as abelhas, cantavam os passaros, e o cheiro das flores, em que me tinha deitado, trepava-me á cabeça. Fechava os olhos encadeados com a luz do céo e punha-me a sonhar. O sol appareceu por detraz do monte, correu uma aragem, as florinhas do rosmano curvaram-se, escondendo-se na troca dos beijos. Passaram no ar duas borboletas brancas, uma atraz da outra, e pelas ervas andavam gafanhotos aos saltos. Eu pensava em muita coisa junta e cantarolava baixinho uma cantiga, que tinha ouvido de longe, n'um baile da véspera:
Qual a distancia e a lonjura
Onde o sentido caminha,
Onde é que elle vai parar,
Isso ninguem adivinha.
Ora os versos que eu cantava, a burra tambem os sabia. Tinha-me esquecido peal-a{210} e, quando voltei a mim, não vi da burra nem rastos!
E ali fiquei eu, não sei que tempos, como um simplacheirão, de queixos cahidos e mãos a abanar, sem achar uma idéa que me allumiasse, sem ver remedio de vida, a tremer das furias do avô.
Depois, muito cosido com as paredes, fui até á cocheira. Talvez a Pomba tivesse tomado o caminho de casa.
O avô, satisfeito como um gato ao borralho e descançando em meu cuidado, assentára a barba sobre o peitilho, e no pateo, sentado no banco de pedra, dormia ao sol.
A burra não estava.
Fui para a charneca. Onde via esteva pisada, procurava achar um rasto. Levava n'uma palhinha a medida certa da ferradura; mas as poucas horas de sol n'aquella manhã tinham endurecido a terra.
O sol foi subindo e até ao meio dia andei leguas. O coração batia-me tanto, que me fazia doer. Não parei. Ia á doida, sem destino.{211} Bateram na villa ave-marias. Dei por mim a quatro leguas da aldeia. Calaram-se os passaros; as papoilas das estevas enrolaram-se para dormir; anoiteceu, e eu deixei-me ficar toda a noite na charneca, a tremer de susto e de frio. Toda a santa noite um mocho piou e eu pensei na coça que me esperava. Se não fosse a marréca, tinha fugido para assentar praça. Uma d'aquellas só pela fortuna! E toda a noite tive nos ouvidos a mesma cantiga... Mas quem podia adivinhar...?
Era quasi madrugada, quando cheguei a casa.
Mal o avô me avistou, bateu-lhe o queixo como em terçãs, e até os beiços se lhe fizeram brancos.
—E a burra? perguntou.
Por felicidade, n'essa altura, a Pomba entrou no pateo, a passo, de orelha muito murcha, como quem traz peso na consciencia.
Foi o que me valeu. Eu, que tanta praga durante a noite lhe rogára, tive até vontade—palavra!—de{212} desatar aos beijos á minha salvadora.
Mas já o avô a tinha agarrado. O desgosto não lhe havia feito esquecer o costume, pelo contrario, e uma melhor matadella de bicho tornava-o ainda mais terno.
O que elle disse á burra! O que elle lhe disse!
*
* *
Mas embora o velho perdoasse, o mal estava feito. Breve d'isso se convenceu. Primeiro foram apenas suspeitas, passados dias uma certeza.
O avô andava envergonhado. Já, quando passava em frente da porta do sapateiro, não largava chalaças para a loja. O caso tinha sido falado. Isto de más linguas na aldeia!... O avô parecia-lhe que a honra da burra tinha o que quer que fosse com a honra d'elle. D'antes sempre cantando—tiro-liro-liro!—andava matuto agora. «Quem seria?...{213} Vão lá saber!» Nasceu-lhe um odio enorme a todas as cavalgaduras a quem pudesse attribuir a desgraça. Desafogava comigo e dava-me bofetadas, cada vez que dizia «não a peaste!» O asno do moleiro era amarello com uma cruz nas costas e tinha fama de requestado. Nunca mais o poude ver. Contra todos tinha uma pedra no sapato e, quando o lazão rinchava, dizia:—«Desavergonhado!» Mas não desconfiava d'elle. Tão feio!...
Quiz ver se a Pomba se trahia. Quando passeava pela aldeia na burrinha, ia-lhe sempre observando qualquer gestosinho das orelhas. E ella muito seria... tic-tic!...
*
* *
Uma madrugada vim dar parte ao avô de que havia mais um machinho na cavallariça.
Nem sequer acabou de engolir o copinho de aguardente e atravessou como doido o pateo.{214}
Um macho! Um macho!... Mas então quem?... quem?
A luz da alvorada mal coava pelos intervallos da telha vã, cobertos de teias de aranha, onde se baloiçavam palhas. Foi preciso que eu accendesse a candeia.
Como a Pomba enternecida lambia o filhinho!
Era um machinho lazão, muito feio, calçado de tres pés, bebendo em branco.
Quando o avô lhe não deu ali um estupor, é porque já não morre.
O caso, é claro, fez bulha, ainda mais do que o primeiro.
Eram quasi dez horas da manhã, quando o avô, que se fôra encostar na cama, ralado pelo desgosto, ouviu uma voz alegre, que lhe gritava:
—Parabéns!
Veio á porta furioso e mostrou o punho ao sapateiro, que se afastava, rindo, a chouto, no lazãosinho coxo, pelludo, calçado, dos trez pés e com a tal malha de máu agoiro...{215}
Ora o que desconsolou o avô foi o que me deu alegria para a vida. Aquillo do cavallicoque animou-me, porque a burra estava despeada e foi até onde muito bem lhe pareceu. São gostos. Pobrinho d'uma figa n'alma, no corpo e na algibeira, vivi desde então com uma esperança.
*
* *
Quando o marrequita acabou de contar a historia, a Caetana que andára servindo os freguezes, poz-se vermelha... vermelha...
—Até mais logo, disse elle, sahindo.
O diabo do marreca tinha sorte!
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