PERDIDO
Quando ouviu ao longe, no campanario da freguezia, bater meia noite, entreabriu de mansinho a porta da choupana e escutou por longo tempo. Nem um sussurro!... Tudo dormia áquella hora.
Saiu e, pé ante pé, com a enxada ao hombro, approximou-se da aldeia, que tinha de atravessar.
Tudo era em silencio; apenas, muito ao{64} longe, junto á fonte, uma rã solitaria coaxava tristemente.
A lua no minguante alumiava com uma serenidade triste umas trinta ou quarenta casas, dispostas no fundo do valle, ao acaso, entre os choupos da beira do riacho e os ultimos pinheiros da matta, que descia pela encosta em pujante vegetação sombria.
Pelas fendas das portas mal cerradas, ouvia-se por vezes o profundo ressonar compassado dos homens de trabalho. Então parava de ouvido á escuta, olho á espreita, com um pé para deante, o outro para traz, posto de bico, prompto para a retirada. E, quando tudo outra vez cahia no primitivo silencio, tornava a caminhar devagarinho, sempre cauteloso, sobresaltado, de olhar desconfiado, como se fosse commetter um crime.
Grossos rolos de nuvens pardacentas, com largas nodoas escuras, onde a lua, n'uma carreira seguida, mergulhava enchendo o campo de trevas, começaram deixando cair{65} grossos pingos d'agua sobre a rama dos pinheiros.
O vento soprava rijo do sul e toda a serra soltava gemidos dolorosos, fantasticos, em meio do sussurro da folhagem.
Á medida que a encosta se ia elevando, cerrava-se mais e mais o pinhal. A chuva engrossára, e por entre as ramas mal coava um ou outro raio de luar, iriando, como perolas transparentes, as gottas d'agua, que tremeluziam no extremo das agulhas.
Era no alto da serra que o seu thesoiro junto pouco a pouco, desde tantos annos, fôra escondido. Vinha augmental-o n'aquella noite, vinha palpal-o, tomar-lhe o peso, tendo como unicas testemunhas de prazer tamanho o céo de temporal e os pinheiros a gemerem.
*
* *
Subitamente estacou. Na clareira, ao meio do pinhal, era a choupana do guarda. Ouvira um chôro de criança e uma voz triste de mulher a cantar.{66}
O avarento approximou-se pé ante pé.
—É fome que o pequeno tem, dizia a mulher com a voz cheia de lagrimas, interrompendo o canto. Se eu não comi!... Seccou-se-me o leite.
E chorava.
Aquella mulher pedira-lhe esmola na vespera. Pedira-lhe esmola!... Tinha fome, dizia. E elle?... Tinha frio. E elle? O filho definhava-se, desde que o marido d'ella adoecêra. Pedira-lhe esmola, como se lhe fôra possivel, a elle, dar um pedaço da sua alma. Era idiota a mulher!
Mas ao som d'aquella voz estremeceu, porque ella, doida, offendida pela recusa, desgrenhada, d'olhos injectados, chamára-lhe ladrão, assassino, pondo-lhe os punhos cerrados ao pé da cara.
—Hão de tudo roubar-te um dia, e tu, cão, has de chorar, em cima da cova onde escondeste o dinheiro, esfregando a cara na lama,... ladrão!
E só a idéa de poder um dia ser assassinado,{67} roubado, que vinha a dar na mesma, fez-lhe passar pela espinha um calafrio, que lhe erriçou todos os pelinhos do corpo.
Afastou-se da chóça, para longe afugentar aquella idéa soturna; mas poucos passos andára, quando lhe pareceu ouvir o rachador, com uma voz fraca de tisico, entrecortada pela tosse, pronunciar-lhe o nome.
Novamente estacou e ficou-se boquiaberto, respirando a custo, de ouvido á escuta, sentindo bater accelerado o coração.
Calára-se tudo na chóça e apenas por vezes o vento arrastava pelo pinhal fóra uns tristes gemidos de criança, já falta de forças e farta de soffrer.
Tentariam aquelles roubal-o?
E estremecendo, cheio de susto, deitou a correr pelo pinhal fóra, deixando o vento levar-lhe o chapéo esboracado e remoinhar-lhe nas longas farripas grisalhas, largando aos bocados nos tojos e nas silvas os tristes farrapos que o cobriam, escorregando na caruma, agarrando-se aos pinheiros, que sacudidos{68} o encharcavam, a correr, a correr por ali fóra, até ao alto da serra, onde se deixou cahir extenuado ao pé d'um enorme pinheiro manso, sêcco, que sobre um rochedo escalvado atirava para o ar os longos braços de espectro.
Era ali o seu thesoiro.
*
* *
Longo tempo ficou estirado, de bruços, sobre os fetos humidos, arquejando longamente. Depois, creando animo, mostrando força inacreditavel em corpo tão franzino, com os braços osseos erguendo alto a enxada e deixando-a depois cair com um esforço, que lhe arrancava do peito cavado um gemido a cada enxadada, começou a cavar, a cavar, até que finalmente o ferro bateu de encontro ao ferro.
Então afastou a terra, ajoelhou, debruçou-se com avidez sobre a cova, metteu-lhe dentro as mãos, e, arquejante, fazendo um{69} esforço supremo, com um ah! de victoria, puchou a si o cofre, que, rolando no chão, produziu um som criador do extasis.
Riu-se alto, enlevado. Depois ergueu-se e com a manga da jaqueta limpou o suor que lhe escorria pela testa.
Ali estava o seu thesoiro!... Seu!
E olhava para o cofre, com ternura, sorrindo-se com uma lagrimasinha no olho, abaixando-se para sopesal-o.
Queriam roubal-o talvez! Abraçava-se ao dinheiro, com o olhar luzente d'uma fera, sentindo nas entranhas uma coragem enorme para defendel-o, como nunca loba defendeu um filho.
Podia alguem ter desconfiado do logar onde o escondêra... Era muito noite ainda teria tempo de sobra para leval-o d'ali. Felizmente não lhe escasseavam forças. Querido thesoiro da sua alma, junto moeda a moeda!
E, outra vez deitado sobre o cofre, abraçava-o, beijava-o, como se outra alma lá{70} dentro houvesse de perceber a d'elle; pedia-lhe, cheio de ternura que não se deixasse roubar, que era vida, sangue de seu coração!
Os pinheiros humidos tornavam balsamica a atmosphera. Os raios obliquos da lua quebravam as sombras das arvores nos troncos das outras e as sombras das copas bailavam, fantasticas, sobre os fetos molhados.
E elle ali, tão sósinho com seu thesoiro! Havia tanto que lhe não punha os olhos!
Sentando-se n'uma pedra, approximando o cofre, com um esforço enorme, fez girar a tampa nos gonzos ferrugentos e queixosos.
O luar, entre dois farrapos de nuvens, encheu o cofre de faiscas d'oiro. E o avarento, em extasis, fechou os olhos, como encandeado por tanta luz!{71}
*
* *
O vento cessára de repente e no instante em que o temporal tomou fôlego, um grito de dôr, estridulo, repetido ao longe, ainda mais dolorosamente, pelo ecco da montanha empinada, partiu da choça do rachador.
Eram elles com certeza!... Eram os ladrões!
Ergueu-se abraçado ao thesoiro, tranzido de medo, suando frio. E depois, espavorido, deitou a fugir, esbarrando nos pinheiros, deixando a carne nos esgalhos, cahindo, agarrado ao cofre, sobre os seixos agudos, e levantando-se logo para correr outra vez, correr sempre, para fugir do grito, que, ameaçador, o perseguia.
E toda a noite durante, andou fugido, em correrias pelo pinhal, já nem sabia por onde. E o sangue e o suor corriam-lhe pela cara.
Quando o luar começava esmorecendo,{72} ajoelhou, meio desfallecido, e com as unhas agudas, recurvas, abriu uma cova funda, onde, com esgares de doido enterrou o dinheiro, longe, muito longe, d'onde estava d'antes. Tapou tudo e, por instincto de precaução, puxou-lhe os fetos para cima. E abalou outra vez.
Era manhã quando chegou a casa extenuado, esfarrapado todo, com os cabellos agarrados ás faces gotejando sangue, ardendo em febre. Deixou-se cahir no catre nojento.
O dia rompia sereno. O vento abrandára e só por detraz da serra é que as nuvens azuladas sombreavam intensamente o fundo da paizagem, em que destacavam alvejantes as casarias. O sol erguia-se esplendido, enchendo os campos de joias scintillando no escrinio de verdura. A aldeia acordára n'um banho de luz, cheia de bulicios, de cantos de gallos e risos de crianças. Pelas chaminés subia uma columnasinha de fumo azulado, transparente, que a enchia do cheiro{73} bom, alegre, do pinho queimado nas lareiras, aquecendo os almoços.
*
* *
Quando o homem voltou a si, depois de muitas horas de cruel delirio, apenas intervallado por curtos somnos cheios de pesadelos, um pesadelo ainda lhe pareceu a lembrança confusa de toda aquella noite agitada.
Viu-se percorrendo o pinhal immenso, que gemia e dançava lugubremente, estorcendo-se no temporal como um condemnado na fogueira. Lembrou-se do grito que o perseguira. E logo se viu sujo de sangue, com as unhas despegadas do sabugo, o corpo cheio de nodoas negras, os joelhos escalavrados.
Mas onde enterrára o seu oiro?
Passava a mão pela testa, apertando as fontes, tentando recordar o sitio, a forma d'algum pinheiro, o caminho que seguira. Sentou-se no catre, rasgando com as unhas{74} lascadas a carne magra do peito, tremulo, suando frio.
Levantou-se e atravessou a aldeia aos bordos, com a vista desvairada, a bocca torta, ameaçando com a mão de esqueleto as mulheres sentadas ás portas das casas, vigiando os pequenos, que brincavam no riacho, tostando ao sol os ventresinhos redondos e as cabecinhas loiras.
E o pinhal até onde a vista se alongava sombreava os montes por ali fóra! Ali estava o seu thesoiro, ali debaixo d'uns fetos, cujas hastes se abriam á sombra d'uns pinheiros, fetos e pinheiros todos eguaes n'aquella immensidade!
Outra vez, arquejante, mal sustendo-se nas pernas, trepou e desceu encostas, procurando pegadas, querendo lembrar-se, serenar, passando a mão pela testa com gestos de desespero, como tentando arrancar do cerebro a loucura, que, pouco a pouco, o invadia!{75}
*
* *
Quasi noite foi dar á choça do rachador.
Lembrou-se então que d'ali partira o grito que o amedrontára e, escumando de raiva, atirou-se contra a porta, berrando:
—Ladrões! Ladrões!
No meio do quarto estava a criança deitada sobre uma caminha de fetos, pallida, mirrada, as mãosinhas de cera atadas sobre o peito com uma fita velha de seda roxa.
E o pae e a mãe, ao lado do cadaver do filho, choravam mansamente.
O avarento parou no limiar da porta, alumiado pelo ultimo vislumbre da razão.
Recuou instinctivamente e foi cahir sobre um grande molho d'achas, dizendo palavras desencadeadas, com os olhos esgaseados, doido de todo e para sempre.
E por deante d'elle passavam bandos alegres de pintasilgos fugindo para os ninhos, levando nos bicos os farrapos da jaqueta, que elle deixára nas silvas do pinhal, em{76} quanto os gaios contentes, aquecendo-se ao ultimo raio de sol d'aquella tarde de primavera, soltavam, pulando de ramo em ramo, grandes gargalhadas ironicas.{77}
AD ASTRA
Quando o tio Bernardo, deitando o barrete de pelles para o lado, começava a apontar para o tecto as nuvens de fumo do negro cachimbo de gesso, escusado era falar-lhe; só rosnava em resposta um dito de mau humor ou, quando muito, um disparate. Estava pensando no Brazil, no seu Brazil, como lhe elle chamava.
E era tratar de não fazer bulha, emquanto{78} elle, sorrindo para os florões do tecto, recordava scenas da mocidade, temporaes vencidos pelo arrojo, amores de mulatas, muito ouro ganho n'um só bafejo da sorte.
—O tio Bernardo está no Brazil, diziamos nós baixinho.
E, quando o cachimbo se lhe apagava, olhava para nós a rir, sacudindo a cinza na unha rugada e negra:
—Cá me embarquei eu outra vez! Demonio de tabaco! Este diabo vem de lá... Não sou capaz de fumal-o sem que logo me ponha a sonhar... Estava pensando agora...
E começava uma historia por nós ouvida mil vezes. Eu e minha irmã sahiamos nos bicos dos pés, e elle concluia-a, dirigindo-se a minha mãe, que sentada na poltrona de tabúa, já sem feitio, pouco a pouco adormecia serenamente.
É com lagrimas nos olhos que, depois de tantos annos, me recordo d'esses tempos.{79}
A nossa casa era a mais risonha de toda a villa.
Ainda me alegra relembral-a, no alto dos rochedos, sobranceira ao mar. Muito pequena, mas sempre muito caiada, davam-lhe certo ar as gelosias verdes das janellas. Tinha em volta uma cercadura de ninhos, e todas as manhãs, no verão, acordava ouvindo cantar as andorinhas.
No inverno era mais triste. Quando havia temporal, as ondas salpicavam os vidros e minha irmã pequenina, assustada como um pardal, escondia a cabecinha loira debaixo do chaile de minha mãe, que, sentada á lareira, lembrando-se do marido e do filho mais velho, que andavam sobre as aguas do mar, resava o credo em cruz.
Não eramos dos mais infelizes; nunca soube o que era miseria. Depois que o tio Bernardo chegou, houve até sempre, lá em casa, um certo luxo, uma certa despreoccupação pelo dia seguinte.
É que o tio, além de vir dono d'um cahique,{80} trazia comsigo uma caixinha de ferro cheia até cima de muito boas libras.
Meu pae, que viera com elle como piloto, pouco tempo se demorou comnosco.
O tio Bernardo disse-lhe, uma noite, depois da ceia:
—Olha, irmão; o que ali está... (e apontava para a tal caixinha) o que ali está chega-me para aqui poder acabar socegadamente os meus dias. Sabes que mais? Dou-te de presente o cahique. Não tenhas cuidado na mulher e nos filhos. O teu mais velho tem quinze annos; que vá comtigo. Vai, e sê tão feliz, como eu fui.
Era sina de todos—o mar. Os mais desgraçados eram pescadores; os outros quasi todos partiam para o Brazil; alguns voltavam pilotos, alguns commandando por sua conta; eram os mais felizes. Alguns tambem... nunca voltavam.
E era a lembrança d'estes que tornava tão triste a lareira nas longas noites de inverno, quando uivava o temporal.{81}
*
* *
Um dia parti para a escola um bocado mais cedo que o costume, porque no quintal do padre prior, tinha visto uma figueira deitar por cima do muro, para o lado do caminho, um dos ramos todo cheio de figos brancos, tentadores.
O mestre, ou porque desejasse lisongear o tio Bernardo ou porque na verdade eu me atirasse ao estudo um pouco mais que os outros, quando ao domingo, depois da missa, nos encontrava a passear na Praça, nunca deixava de me dizer, tocando-me com dois dedos na cara:
—Ah! que se o tio quizesse... havias de ir longe.
Eu não sabia bem o que elle queria dizer com aquelle ir longe. Lembrava-me logo do Brazil. Mas porque motivo eu e não os outros?
N'aquelle dia, quando já de vara na mão{82} me dispunha a roubar quatro figos ao prior, ouvi de repente a voz de meu tio. Senti um calafrio pela espinha.
—Olá, rapaz! que andas por ahi a mariolar, em vez de ires direito para a escola?
Voltei-me todo assustado e vi-o á janella do prior, que, felizmente para mim, desatou ás gargalhadas.
—Espera ahi que te quero falar.
Esperei, mas quando chegou ao pé de mim, apesar de elle nunca me ter batido, com as duas mãos tapei as orelhas e a nuca.
O tio Bernardo poz-se a rir.
—Não tens vergonha...!
Começou andando ao meu lado muito depressa. Ás vezes parava limpando o suor.
—Sabes o que vou fazer? perguntou-me. Vou ver se o teu mestre diz verdade. Quero um dia assistir á escola.
Tremeram-me as pernas. Se ainda depois de me ter apanhado a roubar os figos, me fosse ver a atrapalhar-me á pedra! Fiz a promessa d'uma véla de cera á Senhora dos{83} Milagres e, com mais alguma confiança, entrei na escola e fui pedir a bençam do mestre.
Chegámos um nadinha tarde. Estava o Patricio á pedra.
O tio Bernardo fez um signal para que ninguem se incommodasse e sentou-se ao pé do professor. Eu caminhei gravemente para o meu logar.
O Patricio, coitado, que estenderete!
Parece-me ainda estar a vel-o com as calças de quadradinhos, remendadas, muito curtas, a barriguinha muito redonda, o que lhe dava um aspectosinho grave, a camisa de panno cru aberta sobre o peito, e dois bocados de ourelo a servirem de suspensorios. Com as mãos nas algibeiras, os olhos muito injectados, e as azas do nariz a tremerem, ouvia contendo o mau genio, a rabecada do mestre.
Não foi nunca dos mais felizes, coitado! Por ali ficou sempre. Tem quatro ou cinco medalhas ao peito e todos os dias a fome em casa.{84}
—O senhor... disse o mestre apontando para mim.
Ergui-me e, pegando no giz, acabei com desembaraço a conta, que tanto atrapalhava o Patricio.
—Muito bem. Tire a prova dos nove. É o que eu digo, murmurou, quando acabei. Has de ir muito longe.
O tio Bernardo pediu ao mestre que me fizesse mais algumas perguntas. A todas respondi com muito animo e desembaraço.
—D. Affonso Henriques, o Conquistador, D. Sancho I, o Povoador, D. Affonso II, o Gordo...
A historia toda.
—Muito bem. Pode sentar-se.
O tio levantou-se, dizendo-me:
—Estou contente comtigo, rapaz.
E sahiu.
Ao jantar reparei que o tio Bernardo e minha mãe deviam de ter falado a meu respeito. Apenas eu abria a bocca, olhavam um para o outro e tossiam com certo ar{85} misterioso. Minha mãe teve alternativas de alegria e de tristeza.
Quando a via rir, pensava:
—O tio falou-lhe na lição.
E, quando a ouvia suspirar, lembrava-me dos figos. Se ella soubesse...!
Quando o jantar acabou, o tio Bernardo chamou-me e disse-me:
—Ouve cá. Tu tens uma cara seria e o teu mestre, que deve ser n'isso entendido, diz que aqui dentro tens mais alguma coisa do que os outros.
E batia-me com os nós dos dedos na cabeça.
Eu estava radiante de alegria.
—Além d'isso tens os pulsos muito fraquitos, e isso é o diabo para um homem do mar.
A conversação tomava de repente para mim um caminho inesperado. Se os pulsos eram fracos, e isso era o diabo para um homem do mar, que me importava o que o mestre dizia que eu tinha dentro da cabeça?{86}
Olhei para minha mãe. Minha mãe sorria.
—Ainda agora, continuou meu tio, estive a conversar com o padre prior a teu respeito. Aquillo é que é vida, meu filho: padre!
—Não quero! respondi, dando um murro em cima da mesa. Não quero ser padre.
—Ninguem te obriga, rapaz. Ha outras vidas tão boas ou melhores até. Medico, por exemplo.
—Não quero!
E, desviando os olhos para o lado da janella, vi lá onde o céo vai dar um beijo no mar, uma velasinha alvejando, que me pareceu do meu partido e a gritar-me lá de longe:
—Fazes muito bem. Não queiras ser medico, não queiras ser padre. Olha para mim. Cá dentro vai a ventura!
—Pois não queiras! gritou meu tio.
E começou a passear pelo quarto, puxando grandes fumaças.
Eu, espantado do meu atrevimento, tinha{87} baixado tristemente os olhos e, muito amuado, coçava a cabeça.
—Lá no collegio, tens tempo de sobra, para te resolveres, disse meu tio porfim, parando deante de mim. Ámanhã vais comigo para Lisboa.
Lisboa!
Soou-me o nome aos ouvidos como palavra magica.
Lisboa! Ia partir para Lisboa, que nunca tinha visto, mas cujo só nome me despertava na imaginativa sonhos encantadores, prodigios de riqueza, mansões de fadas!
Ergui a cabeça, tão cheio de alegria, que até me puz a rir de rijo!
Olhei para minha mãe. Coitadinha, chorava.
—Vamos, disse o tio, batendo-me com a mão no hombro. Vai vestir o teu fatinho preto, que tens que despedir-te desta gente!
Lisboa! Lisboa!
Eu bem via as lagrimas da minha mãe,{88} mas este grito da minh'alma calava-me o coração.
Fui despedir-me do mestre-escola que, adeante de todos, me deu um valente abraço, dizendo-me:
—Continua assim, meu rapaz. Sic itur ad astra!
Eu, muito envergonhado, para fazer alguma coisa, bafejava a palla do bonnet e limpava-a depois á manga da jaleca.
Ficou-me o latinorio no ouvido. Annos depois encontrei-o... Boa vontade não te faltava, querido mestre!
Á noite, depois da ceia, o tio Bernardo julgou dever discursar.
—Quando ás vezes me esqueço para ahi horas inteiras a fumar cachimbo, vocês põem-se a rir e dizem: «Lá está o tio Bernardo no Brazil!...» Pois bom é que saibas, antes que o aprendas á tua custa: nem tudo são rosas na vida. E no mar os espinhos são muitos. A gente volta, chega a casa, esquece tudo. Quantas vezes o diabo não{89} levou a cardada! O que passou, passou; olha a gente para traz e só vê aquillo de que tem saudades: por isso nunca falo de fomes, de privações, de perigos... Não te dê desgosto não ser homem do mar. Andar sobre as ondas é tentar a Deus.
Não sei que mais me disse ainda o tio Bernardo para me provar que, desde que eu voltava costas ao Oceano e marchava para Lisboa, era o ente mais feliz do mundo. Bem lhe dispensava o sermão. Já me via homem, voltando para a terra, de relogio e breloques, apertando na praia, depois do banho, as mãosinhas das senhoras, fumando o meu charuto, tratando o administrador por tu e o prior por você.
—Agora, rapaz, vai deitar-te e pede a bençam á tua mãe.
Então, não sei porquê, senti de repente um nó na garganta e eu, que tão pouco me lembrára d'ella, foi a soluçar que lhe cahi nos braços. Ella apertou-me contra o peito, muito, muito, até me fazer doer, e dando-me{90} um beijo muito longo, disse-me um adeus tão sumido, tão sumido que quasi o não ouvi.
No dia seguinte, ao romper da manhã, eu e o tio Bernardo, ambos na almofada da diligencia, partiamos caminho de Lisboa.
*
* *
Quando, depois de bacharel e de muito tempo gasto a escrever cartas e procurar empenhos, consegui finalmente ser admittido como amanuense nos proprios nacionaes, telegraphei a minha mãe, ou que na resposta me participou a chegada de meu pae.
Não se calcula a alegria com que parti.
Havia trez annos que não via o querido velho, que só de longe em longe vinha a Portugal matar saudades.
Estavamos então no principio do inverno e um denso nevoeiro espalhava-se sobre o mar. Ainda longe da villa, já ouvia o sino{91} da Senhora dos Milagres tocando afflictivamente para indicar o porto aos que andavam fóra.
—O José Sacrista, coitado, disse-me o cocheiro, tem o filho lá no mar e desde hontem de manhã que está agarrado á corda do sino.
Foi talvez o nevoeiro, ou foi aquelle sino tão afflicto, ou talvez dó do sacrista, que fez com que me apeasse da diligencia, levando oppresso o coração.
No caminho de casa encontrei o mestre-escola que me veio abraçar todo tremulo, cheio de brancas, abordoado a uma bengala.
—Parabens, muitos parabens. Eu bem te dizia.
Não pude deixar de sorrir-me.
—Que pena, continuou, vires em occasião tão triste!
—O que?
—Não sabes?... Valha me Deus! O tio Bernardo...
—Morreu? perguntei ancioso.{92}
—Não, felizmente ainda não. Venho de lá agora. Mas está tão mal...
Não ouvi mais e desatei a correr. Estavam todos reunidos no quarto do tio. Quando entrei, abriu os olhos e disse:
—És tu! ainda bem que vieste. Deu-me o caruncho. Tinha pena de morrer sem tornar a vêr-te. Já sei que estás amanuense. Sou um homem rude, não sei o que isso é; mas deve ser... muito! Foste longe.
Esteve um momento calado, respirando a custo, e depois continuou:
—O teu irmão foi menos feliz. Nasceu forte, foi para o mar. O teu pae já está farto de andar por esses oceanos e deu-lhe o cahique.
Olhei para meu irmão. Estava herculeo. Uma barba negra, muito espessa, descia-lhe até meio do peito. Um pesado grilhão de oiro cahia-lhe do pescoço até ao ventre redondo. Meu tio fitou por um instante em mim os olhos já embaciados, e sorrindo:
—Olhem que mãosinhas! Não vivias no{93} mar dois dias. Tive rasão. Emfim, graças a Deus, fiz todos felizes.
Fechou os olhos e esteve assim por muito tempo, arquejando. Quando tornou a abril-os, procurou-me com a vista:
—Tenho pensado muito em ti... Como é o latinorio do mestre?
Não sabia o que elle queria dizer... Depois lembrou-me de repente.
—Sic itur ad astra.
—Ad astra, ad astra! repetiu machinalmente.
E, com os olhos vidrados fitando os florões do tecto, ficou-se a sorrir, como se Deus o houvera levado para um Brazil ideal.{94}
{95}
O VENTURA
Quando começou de namoro com a Maria Eduarda, ainda não havia carreiras de vapor. Faziam apenas concorrencia aos catraeiros de Belem os omnibus immensos da Companhia, que de meia em meia hora passavam, chocalhando por aquella estrada fóra até ao Pelourinho, uns vinte passageiros, a seis vinténs por cabeça.
A vida de barqueiro não era então das{96} peores; e o José da Anastacia com o seu bom genio constante e o sorriso obsequiador, em que mostrava os dentes amarellados pelo tabaco, quasi da côr do rosto requeimado pelas soalheiras do Tejo, conquistára as sympathias de muitos, que preferiam o bote d'elle e a viva conversa do algarvio, á velocidade pacata dos churriões da Companhia.
Era vel-o quando, por exemplo, tinha de transportar até ao Terreiro do Paço a familia do Conselheiro, azafamado, logo desde manhã, lavando o bote, arranjando o toldo, remendando a bandeirinha portugueza, dadiva das meninas, e que fluctuava lá no alto, no angulo da véla, com mais donaire e, com o ser pequena, com mais orgulho que a bandeira branca de cruz vermelha d'uma náu da India.
O Conselheiro, muito amigo d'elle, nunca lhe chamava senão o Ventura. Tinha-lhe ficado a alcunha. E bem a merecia, quando sentado ao leme, com a mão junto aos sobrolhos{97} e os olhos piscos por causa do sol, todo cheio de si e do seu barco, sorria satisfeito, vendo a bandeirinha a fluctuar lá em cima, e a prôa do bote, um pouco tombado, riscar o espelho azul, em que as ondas só lá muito longe se encarneiravam, nas Bailadeiras, junto ao Pontal de Cacilhas.
E os véos azues das filhas do Conselheiro esvoaçavam alto, erguidos pelo vento.
Á volta, como não havia pressa, preferiam vir a remos. O José, para entreter, contava historias e fazia reflexões, que as meninas approvavam, meneando lentamente a cabeça, sentadas uma de cada lado do barco, fitando os olhos nas margens do Tejo que deslisavam lentamente. E elle, fincados os pés no banco deanteiro, de mangas arregaçadas, deixando ver os musculos possantes dos braços cabelludos, duros como seixos e palpitando com o esforço, sorria n'uma felicidade santa e levantava compassadamente os remos, d'onde cahiam enfiadas de{98} perolas, que os ultimos raios do sol cravejavam de pontos luminosos.
A Anastacia, uma velhinha, que morava n'uma agua furtada, quasi ao cimo da Calçada da Ajuda, benzia-se reconhecida cada vez que o José entrava em casa, atirando para cima da mesa os ganhos do dia; e, pegando na cabeça do filho com ambas as mãos, enterrando os dedos rugosos na basta grenha emmaranhada, beijava com ancia, mil vezes, sobre os cabellos seccos e duros, o amparo querido da sua viuvez.
Elle, um homemzarrão com vinte e tantos annos, adormecia, logo depois da ceia, com a cabeça reclinada no collo da mãe, cançado, mas feliz, contente n'aquelle ninho.
—José, vamos, acorda, dizia ella, dobrando o serão, quando na torre da Boa Hora batiam vagarosamente as dez.
O José levantava a cabeça e passava a mão pela nuca, cheio de somno.
—Que é isso homem? Põe-te em pé, pedaço de mandrião!{99}
Com os olhos meio cerrados, encandeado, dirigia-se então para o quarto, murmurando:
—Sua bençam, minha mãe.
E não pediam a Deus senão um futuro de dias assim.
*
* *
Pelos fins de outubro, uma tarde, o José lembrou-se de deitar por ali fóra, até Monsanto.
Ia passeando devagarinho.
O vento soprava do noroeste. Ao meio dia tinha dado aquella volta, e o José achava-lhe geitos de querer saltar para a barra. Quando chegou ao cimo da serra, viu o Bugio rodeado de espuma e as ondas cahindo d'alto, lá por detraz, ao pé da Costa.
Diabo do inverno! Começava cedo.
O sol descia. O José parou um bocado a vel-o mergulhar na espuma.
Começou soprando mais rijo o vento, e, quando o sol desappareceu, fechava o horizonte{100} uma lista negra, franjada de oiro, que ameaçava engrossar.
Pois paciencia! Felizmente lá estavam na gaveta as economias do verão. Todos os annos havia inverno e na casa d'elle nunca houvera fome, graças a Deus.
E o José levou a mão ao barrete.
Sentia-se feliz, não tinha cuidados, o dinheiro entrava-lhe pela porta dentro; teria até demais, se fosse a comparar, porque a elle nada lhe faltava e a muitos faltava tudo.
Lembraram-lhe então certas historias. Aquella mulher a quem uma vez alugára o bote, porque a encontrára a chorar no Largo. Tinha deixado os filhos sósinhos em Caparica e estava ali com um vintem na algibeira; e elle alugára-lhe o bote pelo vintém, que acceitára, porque não queria envergonhal-a. E outra vez que elle se escondeu para o Conselheiro o não ver e alugar o bote ao tio Matheus, que havia dois dias não trabalhava e tinha a filha doente em casa, a tossir,{101} a tossir, e elle sem dinheiro para lhe comprar o caustico?
Havia tanta pobreza!
Elle nada lhe faltava e até na algibeira trazia quasi sempre uns cobres, para o que desse e viesse.
E como levava sede, entrou n'uma taberna e pediu dois decilitros.
O taberneiro tinha sahido. Foi a filha quem veiu servir.
O José ficou um pouco enleado a olhar para a rapariga, quando esta lhe trouxe o copo trasbordando, deixando cahir no pires de barro grosso, branco, riscado de azul, um pouco de vinho em que ella molhava a unha do pollegar.
Para o gosto d'elle nunca vira mulher assim!
Levou a mão ao barrete, e disse com a sua educação costumada:
—Muito obrigado.
E ficou-se a olhar para ella, um pouco apatetado, querendo falar e não lhe occorrendo{102} nada, sentindo como que um nó na garganta e um véo no entendimento, que o apouquentavam.
Era uma rapariga alta, magra, de cabellos castanhos muito finos, muito compridos, separados no alto por uma risca estreita, mostrando o casco branquissimo; a orelha pequenina; o nariz perfeito apesar d'uma pequena quebra; a bocca um quasi nada grande, com o beiço interior saliente, e uns olhos azues escuros, que entonteceram o José, quando n'elles demorou os seus.
Do outro lado do balcão, de mangas arregaçadas, um pouco enleada tambem pela ingenua admiração que percebia causar áquelle homem, lavava os copos n'um alguidar de zinco posto em cima d'um mocho, e collocava-os depois na prateleira de pinho pintada de azul, virando para o ar os fundos, onde, como aureolas, se alastravam grandes nodoas roxas rebeldes á limpeza.
A noite vinha-se approximando. A taberneira raspou um fosforo na prateleira e, desviando{103} a cara dos fumos do enxofre, accendeu o candieiro de petroleo.
—Muito boa noite, disse.
—Boa noite, respondeu o José, erguendo-se um pouco.
E nunca musica para elle valêra aquella voz.
O vento fóra soprava rijo e o ramo de loiro á porta raspava na parede.
O José levantou-se e abriu o saquinho d'algodão. Com voz sumida pediu por favor dois charutos cortados e pagou, levando a mão ao barrete, sem se atrever a mais palavra.
Por toda a estrada veiu pensando na rapariga. Trazia-a indelevelmente fixada na memoria, e até nas mais pequenas particularidades, uns signaesinhos espalhados pelo nariz e um outro sobre a palpebra um pouco mais accentuado.
E repetia mentalmente, muito enlevado, as unicas palavras que lhe ouvira:—«Muito boa noite. Muito boa noite.»{104}
*
* *
A mãe extranhou-o. Em vez de adormecer para ali, depois da ceia, como costumava, pregou os olhos no tecto, e ficou-se a mascar um bocado de charuto, a mascar, ora serio, ora sorrindo a alguma imagem que entrevisse, como quem faz castellos no ar, que os vê cahir de repente e logo erguerem-se mais alto. Nem sequer reparou nos olhares prescrutadores que a mãe, de vez em quando, lhe lançava por cima dos oculos.
Mas de repente a pobre Anastacia deu-lhe o coração um baque. E ella que nunca se lembrára d'aquillo! Pois não era certo que tarde ou cedo havia de acontecer?
E com um fundo suspiro de saudade pelo bom tempo que passára, murmurou com os olhos embaciados:
—Queira Deus que seja para bem.
O José encarou-a, despertado por aquella voz.{105}
Ergueu-se e approximou-se da janella, que abriu.
O vento soprava do sudoeste. Ao longe a barra roncava medonhamente. Grossas cordas d'agua entraram no quarto.
—O inverno! disse elle, fechando a janella.
A velha encolheu os hombros.
E depois, com certo ar malicioso, já conformada:
—Ainda agora para ti começa a primavera!
*
* *
Pouco tempo durou.
Uma noite, o José sentou-se tristemente á prôa do bote e remou devagar para o largo. Chegado a meio do rio, deixou os remos e, traçando a perna, fincando a barba no punho cerrado, deixou ir o barco na corrente. Poz-se a olhar, sem as ver, para as mil luzes, que no quadro sobre as nodoas escuras dos navios brilhavam como lentejoulas{106} no panno negro dos caixões. Estava triste o José naquella noite.
E quando reparou, á pôpa do barco, na alcunha d'elle—Ventura—pintada em grossas letras brancas sobre uma variegada rosa dos ventos, sorriu amargamente e murmurou com ironia:—Ventura!
O bote arrastado pela vasante passou para além da Torre, e o José perdeu de vista os pontos luminosos do quadro. Apenas, ao longe, avistava um candeio baloiçando-se sobre a facha projectada, tremeluzente.
Que tristeza aquella!
O bote corria para a barra e começava saltando na crista das ondas. Fazia frio, e o Ventura encharcado, tremia.
De repente, o candeio desappareceu. Então o José ergueu-se, pegou novamente nos remos, virou o bote, começou a remar com força para o lado de Lisboa, arquejando, como a fugir d'um perigo. Mas de novo deixou cahir os braços, em grande prostração, e a cabeça inclinou-se-lhe sobre o peito. O{107} bote virou devagarinho e continuou em seu caminho fatal.
O farol do Bugio circulava lentamente, e a luz fixa da Torre de S. Julião parecia examinal-o com uma grande curiosidade idiota, nunca satisfeita. O bote passou entre os dois faroes.
As ondas marulhavam de encontro ás bordas do barco, e a musica d'ellas era triste como o coração do Ventura.
E fôra o Conselheiro, o seu melhor amigo, quem lhe enterrára o primeiro espinho!
Ao principio corrêra tudo menos mal. Muitos tinham medo do vapor, e mais que todos o Conselheiro.
—Nada! dizia elle ao Ventura, batendo-lhe com a mão no hombro. Estes progressos são muito bons, mas cá para mim não servem. Um bello dia...
—Zaz!... Pum!... concluia José, rindo muito e imitando com os braços um grande fogo de vistas, que era a caldeira a rebentar.{108}
E, dez dias depois, o José cumprimentava-o com o seu melhor sorriso, e o Conselheiro passava cheio de pressa, afogueado, levando as filhas a reboque, muito coxas com as botas curtas, fazendo todos signaes desesperados com os chapéus de chuva para o vapor que apitava, prompto a largar.
Bem lhe tinha dito o pae da Maria Eduarda:
—Muda de vida, José, ou prégo-te a peça.
E, como o José não mudava de vida nem a caldeira rebentava, tinham pregado a peça ao Ventura.
Foi n'um dia em que o catraeiro, pelo maior dos acasos, tinha ganho dois tostões. E, em vez de os entregar á mãe, foi á loja da esquina comprar um collar de contas para levar á namorada.
—Está cá, menina Maria? perguntou da porta com o coração a bater.
—Sahiu, respondeu lá de dentro a voz do pae. Queres-lhe alguma coisa?{109}
—Nada, respondeu.
E ficou encostado á porta, esperando a noiva.
Lá dentro o taberneiro virava na frigideira as sardinhas que aloiravam, bailando e cantando uma cantiga festiva no azeite a ferver.
E o Ventura á porta apertava na mão a caixinha das contas, e tinha fome.
—Olá, seu Manuel Joaquim, disse entrando alegremente na taberna um cocheiro de grandes melenas oleosas, repuxadas para diante das orelhas, cara escanhoada, chapéu de capa d'oleado deitado para traz. Já vieram as senhoras?
—Ainda não, mas não podem tardar. A pequena disse á mãe que haviam de voltar cedo por você cá vir... Seu maroto!...
—Ó seu Manuel Joaquim!... Eu cá dou-lhe a minha palavra...
—Mau! mau!
E, largando as Sardinhas, chegou-se ao pé do cocheiro e disse-lhe ao ouvido:{110}
—Olhe que a ceia está prompta e tenho ali uma pinga...!
O Ventura á porta, envergonhado, sem se lembrar de os matar a ambos, escondia o pé descalço atráz da perna nua e torcia nas mãos o barrete de lã esboracado.
E logo voltando, n'um desespero, atirou ao chão a caixa do collar. E as contas de vidro foram adiante d'elle saltando por longo tempo, fazendo uma bulha alegre de gargalhadinhas trocistas.
E a mãe áquella hora tinha fome...! E fôra talvez a fome que a matára!
Lá estava enterrada na valla dos pobres, lá muito longe, por detraz d'aquelles montes, que a lua a nascer, espargindo uma baça claridade, azulava docemente.
Estavam fóra da barra, o mar estava picado e o Ventura tremia.{111}
*
* *
No dia seguinte, ao amanhecer, foi encontrado, meio desfeito, para além de S. Julião, um bote abandonado, que tinha á poppa escripto n'uma variegada rosa dos ventos o nome do Ventura.
E quando soube da triste nova, emquanto aos olhos das filhas subiam saudosas e sentidas lagrimas, o Conselheiro, gravemente, lembrando-se do pouco tempo que durára a primavera do José, citou as rosas de Malherbe.{112}
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