WeRead Powered by ReaderPub
Contos cover

Contos

Chapter 16: O Ninho d’Aguia
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

The collection gathers concise, vividly observed short narratives that probe the lives of marginalized urban characters through episodes of vice, poverty, and encounters with death. Stories combine sharp irony, grotesque humor, and detailed sensory description to render taverns, cemeteries, and domestic squalor with unsparing realism. Recurrent motifs include mortality, social hypocrisy, and the small cruelties of daily existence, while the prose shifts between satirical bite and melancholic reflection. Arranged as discrete vignettes, the pieces vary in perspective and tone but cohere in their attention to character, atmosphere, and moral ambiguity.

O Ninho d’Aguia

Na tarde anterior dirigira-me ao montado, cahia a noite. Uma contemplação profunda fazia-se em torno e o campo adormecia. Sobre as arvores, o céo concavo tinha laivos rosa, como sorrisos tristes de boccas que exhalam o ultimo adeus. Longe, por entre os caules seculares dos azinhaes e carvalheiras, uns acharoados de incendio ardiam em apotheoses fulgidas, sobre que os braços do arvoredo desenhavam em negro fórmas de estranhos esqueletos. Cahiam a prumo, d’uma banda e outra, fórmas de granitos aridos mostrando nos reconcavos e na profundeza lobrega dos barrancos, os primeiros phantasmas da noite com os seus capuzes de sombra derrubados na fronte, e um escorregamento de passadas mysteriosas—como de ronda sinistra que desemboca na quietidão d’uma viella, no silencio da noite velha. Ao centro do abysmo, a vereda serpenteava, corcovando a sua fita saibrenta por entre agglomerações bruscas de basalto e grés vermelho, d’onde os matagaes irrompiam como hirsutos cabellos d’uma cabeça decepada. Por sob a vegetação aggressiva dos espinheiros e zambujaes, uma linha d’agua corria, fazendo murmurios timidos de segredos trazidos de fraga em fraga—e essa queixa contínua e chorosa das gotas cahindo manso, acrescentava uma nota saliente á symphonia em surdina dos vegetaes adormecidos e dos ultimos ninhos em rumor. O montado começava d’alli a subir pelo irregular das collinas. Não podia enganar-me na marcha. Tinham-me dito—vaes pela vereda, chegas ao cotovêlo da rocha, á esquerda, sobes a encosta.

—É a ultima azinheira, tronco direito e vermelho, com a cortiça descascada. Leva corda para subires. Olhas para cima, aproximas-te sem fazer ruido, ouve bem—sem fazer ruido! Dás com o ninho logo. Quando a noite se fecha, a aguia chega, azas abertas, vôo circular e gritinhos alegres de boa ménagère que volta, com o dia ganho e um reptil no bico curvo, para os pequeninos esfaimados.

Eu decorára todo este itinerario, promettendo não esquecer a menor cautela, iria devagarinho, muito devagarinho, sem chapéo, descalço mesmo, olhando para cima e em direitura á azinheira de tronco vermelho e nú de cortiça. Tinha então doze annos, era rubro e selvagem, de grenha fulva, os dentes pequeninos e ralos, muito brancos, que erriçavam de gumes o meu riso escarlate e feroz—de korrigan vingativo. Achavam-me o orgulho de um rei e a pouca educação de um herdeiro presumptivo. Era de poucas palavras, vinham-me ao sol alegrias colossaes que transbordavam de mim como o rufo de um tambor extravasa da caixa de ar; todos os meus musculos amplos e duros na contracção, contornados nas linhas altivas de um athleta imberbe, amavam a lucta e se tonificavam na carreira. Passára até alli n’uma herdade, entre boiadas de que uma mansidão poderosa se abala glorificando a força, á rabeira dos arados, plena liberdade monteza, onde o homem regula as pancadas do seu coração pelo palpitar tranquillo da grande natureza que desabrocha em evohés hilariantes. Manhã nada já eu estava a pé, sentado á banca da cozinha com os ganhões da herdade, diante da açorda patriarchal que o alho impregna de odores vermifugos. Vestia como elles a camisola de lã, o largo chapéo de borla e os grossos sapatos cardados do agricultor, pião na algibeira, uma cicatriz transversal na testa, de pedradas antigas. Era imperioso e adorado; de resto abusava, dizia sempre—quero porque quero! Quando eu dormia, minha mãi ia beijar-me, e d’uma vez acordando sob um d’esses beijos, que são como nymphêas albas cahidas no marmore das epidermes frias, voltei-me e disse-lhe enraivecido:

—Os homens não se beijam, apre!

Queimava em podendo, as bonecas de minha irmã, gostando de a vêr chorar e de a fazer soffrer para me rir depois.

—Bem feito! Bem feito!

D’uma vez bateram-me. Em quanto eu berrava, o gallo cantando, fazia apotheose da postura recente de uma gallinha amarella, que desposára. Fui-me a elle e torci-lhe o pescoço.

—Para não mangares commigo. Toma!

A eira, diante do monte da herdade, era em plano inclinado, dura e polida, sem hervas. Deitava-me no cimo e vinha rolando até baixo. Nunca conseguiam trazer-me limpo—que tinha um odio insoffrido pelos fatos novos e pelos peitos engommados, considerando a gravata um traste inutil, de que me servia para amarrar chocalhos ao pescoço das ovelhas. Só annos depois acreditei que o mundo que eu não conhecia, o outro, fazia d’essa tira de sêda uma fronteira e perigosa—por muito infestada pelo contrabando.

N’esse dia, mal deram cinco horas e me apanhei fóra da escóla, deitei caminho do montado. Tinha á cintura uma corda de linho com azelha, para subir á arvore, e no bolso uma navalha de podar com gume de fouce. Todas as precauções foram por mim empregadas. Ao dobrar da rocha, descalcei os sapatos e tirei o chapéo. Metti a navalha no peito e desenrolei da cintura a corda. Depois, resolutamente dirigi-me á azinheira. Lá estava o ninho, era enorme e construido sobre tres pernadas robustas—como sobre os tres dentes de uma forquilha. Eu nunca vira coisa igual, a fallar sinceramente. Tinha o feitio oval de um berço e ficava tão alto, tão alto que fazia vertigens. Era preciso subir até lá. Atirei a laçada á primeira bifurcação do tronco, icei-me.

Depois, escarranchado na pernada mais solida joguei com o laço ás ramarias superiores e fui subindo. Á medida que me elevava, a ascensão entrava a difficultar-se: as folhas em tufos compactos prendiam-me os cabellos, os ramos oscillavam sob o peso do meu corpo, e de quando em quando soavam estalidos ameaçadores. Mas via já bem o ninho d’aguia. Primeiro havia um alicerce de quatro ou cinco ramos de sobro, cruzados; depois um leito de folhas seccas e pequenas hastes; sobre o leito, folhas macias de trevos, de tamuges e fenos—e forrando delicadamente o estojo, uma colcha de pennugens brancas que a aguia arrancava do peito, nos seus transportes de mãi. Com insano trabalho cheguei-lhe ao pé. Pulava-me o coração no peito, como um pinto no ovo de que nasceu, e qual não foi a minha alegria ao vêr aconchegadas no ninho, uma de encontro á outra, adormecidas e tremendo de frio, duas aguiasinhas implumes, disformes ainda mas de vigorosas proporções! Cerrára-se de todo a noite. Um claro luar com reflexos metallicos atravessava as vaporisações do arvoredo penetrando-as de uma poeira lucida de atomos scintillantes. Nas faias da ribeira, os rouxinoes faziam jogos floraes, arremessando-se os sonetos mais rhythmicos; o veio crystallino dos regatos ia contando ás folhagens humidas dos balseiros e canaviaes, uma lenda antiga de fadas azues e thesouros maurescos, narrativa muito em segredo, entre murmurios de beijos que ao longe mansamente se perdiam.

Dava trindades o sino da aldêa—e as aspirações pairavam n’aquelle calado ar, em que as borboletas reaes saltitavam traçando sinas de mulheres predestinadas. A lua na tela do céo esmaiado, lembrava com as suas ranhuras, a mascara da Comedia no panno de uma opera-comica, que a luz da ribalta illumina. Ergui os olhos—acabava de ouvir um grito. Vi a aguia pairar um momento por sobre a minha cabeça, de azas abertas, cujas remiges em cutelo sifflavam como as vélas de um moinho em actividade. Depois aquelle vulto negro desceu perpendicularmente, raivoso da minha audacia e estendendo o bico de gumes curvos, para me ferir. Agarrado á corda dei um salto abandonando o ninho, e fiquei suspenso da arvore um instante, a dez metros do chão pedregoso e batendo os dentes de terror. Que fazer? A corda por curta, não chegava ao chão. Deixar-me cahir era morrer. De repente porém, a enorme pernada deu um estalido secco, houve um attrito de folhas e lentamente vim baixando. Quando pousei no chão, com os dois filhos da aguia no peito da camisola e a navalha nos dentes, senti um prazer sem limites. Tinha destruido uma felicidade e praticado a façanha de subir á azinheira, sem outro auxilio mais que o de uma pequena corda nodosa e fina. Levaria os implumes para a herdade e creal-os-hia com carne e sangue fresco, de cordeiro. E elles cresceriam, alcançando as poderosas fórmas dos paes—bico adunco e corneo, a terrivel garra contractil, symetria elegante nas azas, que um jogo muscular movimenta com inexplicavel destreza. E pertencer-me-hiam, estariam na gaiola por minha vontade, comeriam se eu quizesse. Esta idéa de ter alguem sob a minha obediencia encheu-me de orgulho. Podia fazer mal sem ter medo das queixas que arrancasse. E vinham-me tendencias para opprimir, para espicaçar, para expôr á tortura. Tambem meu pai me batia! Que soffressem! Na azinheira, a aguia ia de ramo em ramo, soltando a cada investigação inutil, o seu grito melancolico. Corria as arvores proximas, voejava quasi á flôr do terreno, batendo com as azas nos tojaes da selva, e indo em todos os sentidos como allucinada. Depois abriu as azas horisontalmente com um pulo, susteve-se nas pennas como n’um pára-quedas, e com firmeza cortou o ar obliquamente, subindo á região das nuvens. De quando em quando, na calada do campo morto, o seu grito de mãi roubada ouvia-se na escuridade—como o silvo de um barco em perigo que pede soccorro.


A minha paixão d’aquella noite foram os filhos da aguia.

Persistia na idéa de creal-os—de os fazer gente, dizia eu. Tinham os olhos quasi fechados, com uma orla amarella e a nictitante espessa, meio descida. O pescoço nú offerecia um desenho esguio, andavam de rojo, dando pequenos gritos em busca da pennugem quente da mãi. Metti-lhes á força miolos de pão pelo bico, que elles bolsaram escancarando a guéla com carantonhas de uma graça infinita. Em seguida servi-lhes agua, mas recusavam tudo, os biltres, e se os deixava um momento punham-se a girar de cabeça alta, á procura do aconchego que não sentiam. Minha irmã que apesar do mysterio em que eu envolvia as minhas operações, conseguira espreitar o que eu fazia, trouxe-me então a idéa de metter as aguiasinhas debaixo da gallinha que na capoeira chocava os ovos que fôra pondo.

—Ella pensa que são já pintainhos, e as aguias vão crescendo, crescendo... E dás-me a mais pequenina, sim?

—Dá!... uma figa.

Quando nos mandaram deitar ás oito horas, tudo estava feito—a gallinha consentira em adoptar os dois orphãos e a coisa ia bem! Não pude dormir em toda a noite com a idéa nos pequenos. Se a gallinha os picasse, se os deixasse cahir do cesto!... Os gatos lançar-se-hiam furiosos contra esses dois desamparados e devoral-os-hiam, rosnando.—Applicava o ouvido: se ouvisse chiar saltava logo da cama. Quanto tempo levariam a crescer? Um mez ou dois—estavamos a quatorze. E contava pelos dedos—era tanto tempo ainda! Mandaria fazer um carro, que os filhos da aguia puxariam. E com que inveja ficariam os rapazes da escóla, vendo-me arrebatado pelos volateis, como esses deuses que representava o Manual Encyclopedico! No dia seguinte, ergui-me cedissimo, havia estrellas ainda. E mesmo descalço fui, pé ante pé, até á capoeira, para investigar do que havia. Os moços na eira, faziam já girar os bois na retraçagem dos calcadouros, e ouvia-se na altura o angelus vibrado pela cotovia. Acocorei-me devagarinho ao pé do cesto, estendendo as duas mãos ao longo da palha.

A gallinha dera signal, e cheia de colera, as pennas alvoroçadas, precipitou-se contra mim á bicada, implacavelmente, até me fazer sangue. Ás apalpadellas percorria a cama de palha em que os ovos se aninhavam; achára apenas uma das aguiasinhas. Diabo!...

Então, sem medo já que dessem por mim, corri a abrir a lucarna, e o dia entrou, humedecido pela neblina cheirosa da manhã. Estava apenas uma aguia, era certo!... Dei um berro de novilho marcado a ferro candente, que resoou por toda a casa. Queria a outra aguia por força, por força, por força! Queria-a, então? Queria a porque queria! Era minha, tinha-a eu achado, então? E como ninguem dava resposta entrei ao pontapé a tudo, ebrio de uma raiva sanguinea. E n’um formidavel choro rolava-me pelo ladrilho todo nú. Todo o meu grande desejo era que me attendessem e viessem todos surprehendidos, saber o que havia. A voz de minha mãi chamava pelas criadas; entrei a sentir nos quartos ruidos bruscos de sapatos que se arrastam e saias que se enfiam, á pressa. Já gritava menos, conseguira o meu fim, tinha incommodado e mettido susto a todos de casa. Era bastante! Agora, iriam todos procurar a minha aguia, haviam de m’a encontrar por força, ou arranjar-me outra novasinha em folha, como aquella. Apre!

Quando de repente me chegou o grito da mãi roubada, grito brusco e quasi surdo, como se o coasse uma larynge extincta. Toda a noite o ouvira, ora perto ora distante, e sempre com uma nota de ira impotente e supplicação desprezada, na tenebrosa calada do matagal. Fui para a lucarna instinctivamente attrahido, á escuta. Era um grito intermittente, primeiro muito fraco e repetido, como de alguem a gemer—gri! gri! gri!—; após, subitamente, essa voz dilatava-se, enrouquecia, fazendo quasi um bramido. Uma mulher não expressaria melhor a angustia, o desespero e a morte. Córava o oriente como uma epiderme sadia traduzindo a commoção d’um beijo; nas moradas dos ninhos, entre decorações de folhagens e caricias de poetica doçura, as familias de passaros, de melros, de pintasilgos, rolas e poupas, chilreavam felizes e singelas, deslumbradas na irradiação do céo.

Só ella, a aguia, ia chamando embalde pelos seus, através a vastidão egoista do ether, em que a vibração luminosa ondulava, e apunhalada no seu unico amor como essas crueis imperatrizes, que Deus castiga no unico ponto vulneravel da sua alma.

Com os olhos alongados, via-a rastejar á flôr do sólo, pelas chapadas e penhascos, extenuada e rouca, despregando as azas obliquas, de enormes remiges em cutelo, como tectos de lares despovoados pela assolação da morte.

—Coitadinha! dizia eu commovido. Coitadinha!...

Então fiquei entorpecido n’um constrangimento profundo e singular, que nunca tinha experimentado. Sentia na guéla o embaraço inexprimivel, que é nas crianças o prologo do choro, do grande choro soluçado e inconsolavel, sob que a alma germina em bons impulsos e leaes dedicações, como na terra se abrem as flôres primaveraes, sob o influxo das primeiras chuvas.

Antes que viessem surprehender-me corri a vestir-me, e resoluto, os olhos cheios de lagrimas e a corda á cintura, voltei a buscar depois a aguiasinha. Minha irmã chamou-me, soluçava.

—Olha, morreu!... disse-me toda afflicta, mostrando-me o cadaver da outra aguia, que durante a noite, com mil precauções tinha ido roubar ao cesto.

—Por isso achei falta, gritei colerico, batendo o pé. E aos urros, crescendo contra ella de punhos cerrados, dizia-lhe golfando improperios:

—Maldita! Má! Peste! Nosso Senhor ha-de castigar-te, deixa estar.

Ai de mim! Na capoeira, a gallinha raivosa, reconhecendo o outro engeitado á luz da manhã, acabava de o matar á bicada, lançando-o fóra do cesto.

Então desatei a chorar. Nunca fôra tão desgraçado, nunca!... Nem quando me davam açoites com o chinelo, o que estava debaixo da cama de meu pai, a rir-se de mim pelo buraco ignobil da tomba. E agora, que fazer?

Metti no seio da camisola os dois engeitadinhos mortos, e a correr atravessei a eira, sem dar bons dias a ninguem. O dia começava. Rasgando as escuridões em que se envolvera, o panorama sahia das nebrinas dissipadas a golpes de sol aqui e além, nas cristas dos outeiros. Desci a correr a ladeira do monte, pendores suaves d’onde o olhar abrangia para todos os lados, perspectivas do mais bello matiz, montados, restolhos de searas, regatos orlados de choupos e faias, mais para além, hortejos alegres onde chiavam noras e se espiralava o fumo dos casaes, vinhedos sem fim bordando sinuosidades bucolicas, brancas ermidas pousadas nas montanhas, e perdendo-se na serenidade esfumosa do horisonte, povoações que na luz iam fazendo mais e mais nitidos os seus delineamentos. A paizagem tinha agora uma nitidez de gravura. As aldêas sorriam para o noivado da natureza em festa, em quanto d’uma banda e outra, grandes massas de arvoredo abriam destaques surprehendentes.

Iam tranquillamente pelos terrenos ceifados, os carneiros dos rebanhos, alongando o pescoço, a fofa corpulencia tufada da lã patente em camas de espiraesinhas miudas.

Alguns velhos guias experientes e graves, de focinho erguido, a grossa cornadura em anneis de diametros crescentes, toda enrolada como o arripio da cabelleira de um dandy, chocalho pendente por corrêas de couro crú, a orelha inquieta, olhavam vivamente o largo, bebendo os sons e procurando-lhes a origem solicitos, como quem tem sobre si a responsabilidade da tribu e o futuro dos pequeninos. Acima da redondeza das ancas de alguns, cabritinhos fulvos, de grandes orelhas horisontaes, uma meiguice candida na vista, erguiam-se a prumo furando caminho, as maxillas entreabertas, por onde se escapava um queixume tenuissimo—mé! mé!—alguma coisa como os rudimentos da cartilha do rebanho. Varios preguiçosos, estacados a meio da corrente mergulhavam o focinho na agua, bebendo. Poucos tinham já passado, e cortavam a dente as gramineas alastradas nas barranceiras. O velho cão descança, n’uma postura séria de patriarcha, em quanto nas meias tintas dos planos secundarios, o pastor de manta ao hombro e polainas encarquilhando na grossa tromba dos sapatos cardados, tinha o seu ar pasmado de montanhez, olhando a catarata de ouro fundido que o sol jorrava do nascente, n’uma apotheose de causticas vivas—olhar em que se estagnava a silenciosa doçura triste dos olivaes cinzentos e se reflectia a concepção pantheista de um Deus amantissimo, que fecunda os trigos das searas, preside ás crias e vem de noite, mansamente, com o seu capuz de estrellas derrubado para diante, lançar a benção ao gado que dorme, inoculando no sonho do pastor o esmalte de um sorriso de ceifeira, vermelho como as cerejas humidas de junho.

Correndo através do montado cheguei á ribeira, que pude salvar n’um pulo de lobo, e sem me deter entrei a trepar a pedregosa encosta, na direitura do ninho. Faziam-se alli accumulações selvaticas de tojeiros e silvados, cabeças de rochedos pardacentos, espinhaes de luxuriante amplitude, que tolhiam o passo a quem ia. E aquelle recanto plutonico e brusco desenhava-se n’uma como penumbra de floresta, que de cima cahia filtrada pelos amontoados da folhagem. Deixára de ouvir a aguia, e era pungente o socego d’aquella região, equiparado ao orpheon gigantesco de volateis, que na planicie entoava o poema symphonico da manhã. Por duas ou tres vezes ergui a voz para insufflar a vida nos echos do desfiladeiro. De rocha em rocha quando muito, o echo repetia a ultima syllaba, n’um murmurio timido como rezado á roda de um feretro, e morria.

Pela montanha, troncos penitentes e negros, orando de braços abertos. Nos pegos da ribeira, as reticulações verdenegras dos limos deixando evolar a putrilagem das febres más. Silencio abrazado, pesando.

Quando cheguei ao ninho arquejava. E antes de erguer a vista sobre elle, detive-me um instante, olhando á roda com um terror sombrio que o remorso envenenava. Se a aguia désse commigo podia matar-me á bicada. E teria razão—ai de mim!

Estava sósinho. Não se via d’alli o monte já. De repente, casualmente, sem mesmo querer, dei com a aguia que de cima do ninho abria as azas, e sobre mim estendia o seu pescoço avido. Fiquei tremendo ante a raiva silenciosa que paralysava a terrivel rainha. Ella ia de certo formar vôo e cahir sobre mim, para dilacerar-me com as suas garras de tres gumes implacaveis de uma vingança cruel.

Olhamo’-nos por tempo. As azas da aguia abriam os seus leques enormes de varetas curvas. A immobilisação porém continuava e o pescoço permanecia cahido á borda do ninho. Veio-me a idéa de que podia estar morta. Atirei-lhe com uma pedra—a mesma indifferença.

Sem querer saber de mais, desenrolei a corda e atirei-a á primeira pernada da arvore. Quando attingi a altura do ninho, pude olhar bem de perto a aguia agonisante, que um fremito vago percorria. Era poderosa e magnifica, de enormes azas pardacentas, cujas fortes remiges se aguçavam como punhaes, na ponta. Estava de bruços sobre o ninho, como se quizera aquecer o peito de encontro aos froixeis alvinitentes em que os filhinhos tinham visto a primeira luz. A cabeça um pouco chata descahia adiante n’um bico de bordos dentados, e sobre a iris de oiro, a nictitante ia descahindo na sombra da agonia, como um apagador sobre a luz do cirio paschal.

A aguia morreu n’esse dia, á mesma hora em que as outras aves voltavam cantando aos ninhos, para dormir com a prole. Por muito tempo, cruzando o montado atraz dos rebanhos de meu pai, pude vêr nos cimos da azinheira gigante, suspenso o berço-tumulo, a que o esqueleto da aguia fazia guarda, dia e noite, de azas estendidas, branquejando na sombria folhagem da arvore. E vinham-me então remorsos, que fôra eu o assassino d’aquella dynastia real!


Vai completar-se um anno que a tua filha desceu á cova, ó minha mãi! E vendo-te curvada no teu luto, pobre mulher envelhecida de lagrimas, sublime por toda uma vida de abnegação sem exemplo, para mim fico pensando, que deve ser cruel o Deus que tu adoras, se nunca teve remorsos de haver roubado tambem—o Ninho d’aguia.

1881—Villa de Frades.