WeRead Powered by ReaderPub
Contos para a infância / Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro cover

Contos para a infância / Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro

Chapter 33: A boneca
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A compilation of short tales selected for young readers that combines folklore, moral fables, and imaginative episodes. Narratives range from a grieving mother who pursues Death through symbolic landscapes to reclaim her child—encountering personified forces and tests of sacrifice—to a youngster who leaves home in search of fortune and meets helpful and obstructive creatures. The pieces vary in tone from darkly cautionary to humorous and instructive, often using vivid imagery, talking plants and animals, and simple moral dilemmas to illustrate themes of parental love, perseverance, and the consequences of choices. Stories are arranged for oral or early reading, with episodic plots and clear resolutions.

João e os seus camaradas


Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso, possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou o gallo, e disse-lhe:

«O que é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, ou toda com a minha maldição?»

«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no mundo eu quereria a tua maldição.»

«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te abençôe.»

E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.

«Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a afogar-me.»

«Espera, respondeu João.»

E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o quadrúpede do atoleiro.

«Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te posso ser util, aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»

--«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha vida.»

«Queres tu que eu te acompanhe?

«Anda d'ahi.»

E puzeram-se a caminho.

Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.

«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa te for prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»

«Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»

«Queres que te acompanhe?»

«Anda d'ahi.»

Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar lastimosamente.

Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango.

--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser util. Aonde vaes tu?

--«Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.»

--De boa vontade.

Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um gallo na bocca.

«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.

E no mesmo instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente disse a João:

--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?»

--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?

--«De boa vontade.»

--Então anda. Se te cançares, empoleira-te no jumento.»

Os viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro. Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma quinta, nem uma cabana.

--«Paciencia, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a dormir ao ar livre; além d'isso a noite está socegada, e a relva é macia.»

Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o cão e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo empoleirou-se n'uma arvore.

Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou a cantar.

--«Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque é que estás a gritar?»

--«Porque já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a luz da madrugada, que vem rompendo?»

--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é d'uma lanterna. Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto da noite.»

Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez dos campos, até que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo, d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasphemias horriveis.

--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem é que está lá dentro.»

Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam alegremente, sentados a uma mesa principesca.

--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este porteiro. Á sua saude!»

--«Á saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.

E d'um trago despejaram os copos.

João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:

--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»

O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao peitoril d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o gato á cabeça do cão e o gallo á cabeça do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do gallo.

--«Agora, bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»

No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando cada vez mais; os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo precipitadamente por uma porta falsa.

João e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um excellente jantar, e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na cavallariça, o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e o gallo n'um poleiro.

Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.

--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão humida, disse um d'elles.»

--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.»

--«E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.»

--«E o que é mais lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das gavetas.»

--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão.

--Bravo! exclamaram os ladrões.

E poz-se a caminho.

Já não havia luz na casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se para o fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as garras. Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas.

--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!»

Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do chão.

Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.

--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.

--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que o trago n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta, um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a sovella. Logo depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras. Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não acreditam, vão lá, e experimentem.»

--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.»

Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excellentemente, e partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos, com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram á porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com uma libré esplendida, meias de seda, calções escarlates e cabello empoado.

Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.

--Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se embora?»

--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castello far-nos-ha um bom acolhimento.

--Fóra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os meus cães de fila.»

--Perdão, só um instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite passada a porta do castello?»

O porteiro córou. O conde que estava á janella, disse-lhe:

--Ó Bernabé, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.

--Senhor, replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui eu que abri a porta aos seis ladrões.

--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?

Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos cançados do caminho.

--Ficae certos que sereis bem tratados.

O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés á cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e disse-lhe:

--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»

João acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.



O rabequista


Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.

As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro, feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge não havia pão nem dinheiro no bolso para o comprar.

Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca com tal suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vel-o tão pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa Cecilia abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o ao pobre musico, que tonto d'alegria, dançando, cantando, chorando, correu á loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado á morte.

Chegára o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim não chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como ultima graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento. O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam supplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua derradeira melodia.

Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lagrimas começou a tocar. Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de novo, descalçar o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente prestar-lhe as mais honrosas homenagens.



Os pecegos


Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos, extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. Á noite o pae perguntou-lhes:

--Então comeram os pecegos?

--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei de plantal-o para nascer uma arvore.»

--Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.»

--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.»

--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira; espero que quando fores maior te has de corrigir.»

--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á cidade.»

O pae meneou a cabeça:

--Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.

--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?

--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho, ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.

--Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego que eu lhe dei?

E os três pequenos disseram á uma:

--Foi o mano Eduardo.

Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos arrazados de lagrimas.



A urna das lagrimas


Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades. Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido, abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos uma urna, que vinha cheia até ás bordas.

--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.

A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não affligir.



Reconhecimento e ingratidão


Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes. E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos, terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem ser meditados.

Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O principe, que para as suas despezas d'administração e representação necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:

«Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas economias.»

Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o d'este modo.

«Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos tiverem pesado sobre mim.»

O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.

Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito. O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto, atraz da porta.

Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo.

«Foi, respondeu a creança desabridamente, para me servir mais tarde d'este lençol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital.



O fato novo do sultão


Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento.

Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao theatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Está no conselho; dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças á quantidade d'estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá um dia dois larapios, que, dando-se por tecelões, disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não só eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos aquelles que não exercessem bem o seu emprego.

--São vestuarios impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles, saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso d'esse estofo!»

E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada, para que podessem começar os trabalhos immediatamente.

Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras. Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando até á meia noite com os teares vasios.

--«Preciso saber se a obra vae adiantada».

Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E, apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente em todo o caso mandar alguem adiante.

Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.

--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um grande talento, e por isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o estofo.

O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam com os teares vasios.

--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, não vejo absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, olhava, mas não via nada, pela rasão simplicissima de nada lá existir.

--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? É necessario que ninguém o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»

--«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:

--«Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei completamente satisfeito.»

--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma descripção minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois repetir tudo ao sultão.

Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam sempre.

Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funccionario, homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não via nada.

--Não acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente de não existir.

--Mas que diabo! eu não sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois não serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o deixo eu.»

Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo desenho e o bem combinado das cores.

--É d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sultão. E toda a cidade começou a fallar d'esse tecido extraordinario.

Emfim o proprio sultão quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de especie alguma.

--Não acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho e as cores são dignos de vossa alteza.»

E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam podessem ver alguma cousa.

--Que é isto! disse comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível! serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça que me acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnifico! Testemunho-vos a minha satisfação.»

E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto repetiam como o sultão: «É magnifico!» Até lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnifico! é encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era geral.

Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecelões.

Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio, e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido.

O sultão com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores levantando um braço, como para sustentar alguma cousa, disseram:

«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha; ó a principal virtude d'este tecido.»

--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.

--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios, provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.»

O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do espelho.

--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos. Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»

Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.

--Está á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á procissão, disse elle.»

--Bom! estou prompto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»

E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.

E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a gente na rua e ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber, que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.

--Mas parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do pae.

--É a voz da innocencia, disse o pae.

--Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas.

«Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.

O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda imaginaria.



Boa sentença


Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.»

O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:

--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus oitocentos mil réis.



Os animaes agradecidos


Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este respondeu:

--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miseravel; nasci no vosso reino, e chamo-me Ingratidão

--«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu serviço.»

O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se tão esperto e tão solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa. Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então não conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos desventurados.

Ora, na visinhança do palacio havia uma floresta cheia d'animaes selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.

Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O governador, ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança de salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, ninguem o vinha soccorrer.

Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para ganhar o pão necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem lá foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção não tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava ali.

--«Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma enorme serpente.»

--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não tendo para sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se cumpres a tua promessa?

O intendente continuou:

--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que cumprirei a minha palavra.»

Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão atirou-se a ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era o intendente.

Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.

Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o governador, enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre homem bater à porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.

--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»

O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:

--«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na floresta; que se ponha a andar, porque o não conheço.»

O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.

O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou á mulher a odiosa perfidia de que tinha sido victima.

A mulher disse-lhe:

--«Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e foi talvez por isso que te não pôde receber.»

Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.

Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á porta do palacio. Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que não tornasse ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado a empregar meios violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:

--«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais n'isso.»

No dia seguinte o bom do homem voltou á carga; e tendo o porteiro consentido á força de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este encolerisado atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do chão. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leão, vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico.

No dia seguinte, voltando de novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha tirado do fôjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em que brilhavam três côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho, afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este, assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia. Antonio respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se seria boa.

O velho respondeu:

--«São três as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria imperturbavel e luz sem trevas. Se alguém t'a comprar por menos dinheiro do que vale, tornará immediatamente para a tua mão.»

Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da sciencia maravilhosa, e correu a contar á mulher a sua felicidade. Como se imagina, graças á virtude da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em diante, nem honras nem riquezas.

Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman.

Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:

--«Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me não for paga pelo que vale, tornará ella mesma para o meu poder.»

--«Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.»

E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã, Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto disse-lhe:

--«Torna a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se que lh'a furtaste.»

O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou á presença de sua magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra preciosa.

--«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro, fechado com sete chaves, disse o rei.»

Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido semelhante thesouro.

Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu intendente, e disse-lhe:

--«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de Ingratidão, porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres enforcado.»

Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos gloriosos.



O ermitão


Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os santos mais notaveis.

Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:

--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.

O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:

--Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e penitencias te tornaste agradavel a Deus.

--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a divertir os outros.»

O austero ermitão continuou a insistir:

--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum acto de virtude.»

--Em verdade não poderia citar nem um só.»

--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente o teu patrimonio e o producto do teu officio?»

--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa, protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»

A estas palavras o ermitão poz-se a chorar, e exclamou:

--Nos meus setenta annos de solidão nunca pratiquei uma obra tão meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu não passas d'um pobre musico.»



Carlos Magno e o abade de S. Gall


Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall, preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e activos, e o abade era indolente. Além d'isso o imperador tinha mais d'um motivo de queixa contra elle.

--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a bondade de me responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão solemne do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. rev.ma vier á minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada para o rabo.»

O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores mais famosos pela sua sciencia, não lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal aproximava-se; já não faltava senão um mez, já não faltavam senão semanas, e afinal só dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e anafado, estava magro como um esqueleto. Perdèra o somno e o appetite. Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.

--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»

--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»

--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»

--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta ás minhas tres perguntas.»

--É então latim?»

--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»

--Visto que não é latim, queira v. rev.ma dizer-me o que é: minha mãe era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»

Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o barrete ao ar, e disse-lhe:

--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.ma póde continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu habito.»

Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o habito do abade de S. Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho imperial.

--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?»

--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por trinta dinheiros, sua magestade vale á justa vinte e nove, só um dinheiro menos.»

--Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não posso deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda pergunta, não ha de ser tão facil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?»

--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro horas.»

--Decididamente, v. rev.ma é um grande finorio, e d'esta vez, confesso-me vencido; mas a terceira, não d'essas á que se responde com supposições. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»

--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está enganado, porque eu sou o seu pastor.»

--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas sendo.»

--Não sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor, peco-lhe outra cousa.»

--Não tens mais que fallar.»

--Peço a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.»

Carlos Magno não era homem que faltasse á sua palavra.



A boneca


Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma boneca!

Não ha muitos annos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o espirito a vista dos dois monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades, que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não ha muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da feira, divertindo-me a meu modo.

Cançado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo, quando novos personagens me chamaram a attenção.

Eram os meus visinhos ricos.

Aqui é preciso uma rapida explicação.

Das famílias da minha visinhança, só conheço tres.

Qual d'estas tres familias será mais feliz?...

Pelo que tenho notado, não tem que invejar umas ás outras.

São todas felizes; cada qual a seu modo.

Vi, pois, chegar os meus visinhos ricos.

Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou, tomou nos braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e com a menina para a barraca onde eu estava.

Não havia ali segredo a surprehender.

Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que parecia agradecer áquella formosa criança a manifestação de qualquer desejo.

No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a felicidade de dez crianças menos abastadas.

Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca... rica.

Faltava apenas a dona da casa--a boneca.

Todo risos e attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.

Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar a mamã, a gentil creança acabou por escolher uma magnifica boneca de dois palmos d'altura, com cabello em bandeaux e olhos azues.

Uma boneca como as outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica recheada, braços e pernas de páu.

Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribu de crianças, que fazem o martyrio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado sapateiro.

Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem anjos, caidos do céo sobre um monte de lama.

São os meus visinhos pobres.

A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa immediata.

É como se costuma dizer, gente que vae muito bem com a sua vida.

A filha que terá dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas, cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à pressão.

São os meus visinhos remediados.

A terceira é a dos meus visinhos ricos.

Casa nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do estado--nada falta áquella ditosa gente!

Compõe-se egualmente de marido, mulher e filha.

Que formosa criança!... Terá oito annos.

Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e esguios, terminados por unhas d'uma côr de rosa transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos.

Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas aquellas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do carro.

A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criança.

Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadissimas considerações, suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina recebèra brinquedos, que representavam um par de moedas.

Que contraste com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã preta!

Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos remediados não havia luz.

Na dos meus visinhos pobres, o pai batia a sola, cantando ao som de tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar, provocavam os ralhos da mãe.

Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas da manhã.

Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na casa immediata não se via ninguem--estava a pequena na mestra; no palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma linha, uma magnifica caleche descoberta, puxada por cavallos brancos.

Dentro da caleche pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.

--«Ahi está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!... Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»

Retirei-me da janella.

Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.

A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se vestia tres e quatro vezes!

Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a tratava!

Chamava-lhe sr.a D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma.

Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos ricos--ouvi um grito de susto.

Era devido a um accidente, a que está sujeito quem anda de carro.

Voltára-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janella.

O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo, porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais perto de mim bradou voz timida e suplicante:

«Não atire!... Dê-m'a.»

Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra fé até então.

Assim invocada, a menina rica franziu levemente as sobrancelhas e lançou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.

Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, encolhendo os hombros, respondeu:

--«Já não presta!... Está esmurrada!...»

--É o mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de cubiça.

--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros.

E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse despedaçar-se nas lages da rua.

Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a outra, para mostrar á mãe a que ella ainda não podia acreditar, que fosse sua!

Por espaço de mezes foi a boneca a principal occupação da nova dona.

A pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia! Chamavam-lhe sr.a D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente estranhas para ella!

E a desgraçada perdia as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma!

Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo, ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.

Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, fitas velhas, rendas amarelladas, chapéos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira.

Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle as ondulações do _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça.

Muito mal lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o vêr-se tão mal arranjada.

Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei:

--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»

Por esse tempo, entrei em relações com o meu visinho sapateiro.

O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra a primeira occasião, para me pedir desculpa.

Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.

Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze annos, com quem sympathisei logo á primeira vista.

Chama-se Maria.

Por um d'estes acasos da Providencia, que parece ás vezes comprazer-se em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.

Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro, fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.

E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, porque havia verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a minha Maria!»

E tinha razão!

Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo era.

--É quem vale á mãe!...--accrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o serviço d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e olhava pelos irmãos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi preciso eu obrigal-a, que ella não a queria deixar!...»

E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que, havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.

Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a cabeça coberta por um lenço branco.

Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias á pequena.

Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca deitada nos joelhos.

--Eu conheço aquella boneca!...--disse eu de mim para mim.

E, não podendo resistir á curiosidade, bradei:

--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...

Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, córando de prazer.

Era escusado dizer-m'o.

Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não podia duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel na fronte.

De tempos a tempos, nas raras horas de descanço, Maria entretinha-se com ella.

--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu.

Ás vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que tratos que sofria a desgraçada!

Roçada por aquellas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia, empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim, singularissimo o aspecto da triste!

Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a fraternisar com o povo.

A misera mudára mais uma vez de nome!...

De sr.a D. Anna passara a ser sr.a Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.

Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.

Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com a boneca.

Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que mais familiares eram á pequena.

Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a, mandavam-n'a buscar agua á fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a despedir.

Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára de ser feliz.

Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho!

Desmaiada de côres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim dos labios, a boneca não promettia longa duração.

Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi, tentando em vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.

Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!

Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem mil immundicies.

Eu estava á porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto, arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no leito do enxurro...

Olhei... Era a boneca!...

A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo até esbarrar n'uma pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!

Será pieguice, será o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.

Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:

--Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?

--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...

--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...

--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e feia!...

Curvei a cabeça ante aquella razão, e segui o meu caminho.

Pobre boneca!