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Contos para a infância / Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro cover

Contos para a infância / Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro

Chapter 35: Querer é poder
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About This Book

A compilation of short tales selected for young readers that combines folklore, moral fables, and imaginative episodes. Narratives range from a grieving mother who pursues Death through symbolic landscapes to reclaim her child—encountering personified forces and tests of sacrifice—to a youngster who leaves home in search of fortune and meets helpful and obstructive creatures. The pieces vary in tone from darkly cautionary to humorous and instructive, often using vivid imagery, talking plants and animals, and simple moral dilemmas to illustrate themes of parental love, perseverance, and the consequences of choices. Stories are arranged for oral or early reading, with episodic plots and clear resolutions.

Inconveniente da riqueza


Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma quinta, e bateu á porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.

--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite? Não se havia de arrepender.»

E accrescentou:

--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a trabalhar?»

--Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser perseguido por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto não nos fica nada, e não sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus quizer!»

Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão pelos olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e disse-lhe:

--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.»

Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e approximou-a do trigo.

--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a tudo!»

Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se, de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.

--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te enriquece.»

Dito isto desappareceu.

E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto como a egreja.

O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais absoluta.



Querer é poder


--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira.

Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.

--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas vezes--Quem procura sempre encontra, e quem porfia mata caça. Tomei uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.

O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.

O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:

--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia, pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha.

O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a resar.

Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.

--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»

--Encontrar um diamante que caiu ao rio.»

--Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»

Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha do rei.



Qual será rei?


Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia pertencer, não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.

Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse posto de pé contra um muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle alvo, seria o escolhido para successor.

Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defuncto. O principe soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos atirariam peór, e que por conseguinte seria elle quem viria a reinar.

O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais alegre do que o outro principe.

O terceiro varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar melhor.

Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mãos as flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas longe de si, e desatou a chorar:

--«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jámais consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus proprios filhos!»

Os grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais digno.



Os tres véos de Maria


O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve. Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de seda tão bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em cima.

Este véo branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.

O segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, sem amparo, na casa triste e abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas lagrimas.

O véo negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de Jesus no convento da Ave-Maria.

O terceiro véo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.

Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou no paraizo.



Os pequenos no bosque


Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos para o bosque que encontremos lá toda a especie de lindos bichinhos, que não fazem outra cousa senão brincar, e nós brincaremos com elles.»

Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar, disse-lhes:

--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a outra já não está solida.»

--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»

--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu ninho.»

--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a minha toilette

E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo a saltar e a tagarellar, tambem não queres brincar comnosco?»

--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas, aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios, tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»

Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um pintasilgo, em cima d'um ramo.

--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»

--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga, que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora, preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»

Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.



O chapellinho encarnado


Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do chapellinho encarnado.

A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:

--Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»

--Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»

Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita, que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.

--Bons dias, chapellinho encarnado.»

--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»

--Onde vaes tão cedo?»

--A casa da minha avó que está doente.»

--E levas-lhe alguma cousa?»

--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe dar forças.»

Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.»

--É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito grandes, e no jardim ha muitas nozes.»

--Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»

--O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita, visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma que fizesse bem a minha avó.»

--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.

--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»

E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.

Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»

--É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»

--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»

Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.

Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter fechada.

O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.

--Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»

--É para te ouvir melhor, minha filha.»

--E porque estás com uns olhos tão grandes?»

--É para te vêr melhor.»

--E para que estás com os braços tão grandes?»

--É para te poder abraçar melhor.»

--E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão agudos?»

--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e vê o lobo estendido na cama.

--Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.»

Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e saltou para o chão, gritando:

--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!

A avó saiu também contentissima por ver outra vez a luz do dia.

O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador metteu-lhe então duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a neta para verem o que se ia passar.

Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e affogou-se.

O caçador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado prometteu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o prohibisse.



Os cinco sonhos


Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva numerosa, perseguiu um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, que, apesar da ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só então que viu que estava só, tendo a sua côrte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões. Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe quizeram logo contar.

O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:

--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabeça.»

--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»

--E eu que estava pondo o seu manto.»

--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do meu pescoço aquella pesada cadeia d'ouro, da qual está pendurada a sua trompa de caça.»

--Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar tudo, e mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço senão uma cousa, é que me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caça.»

Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido d'um moribundo deve ser respeitado.

Carlos Magno levou á boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou d'ella sons tão fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé d'elle.

--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser enforcados diante d'este casebre.»

E o sonho realisou-se immediatamente.



A egreja do rei


Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só elle, e mais ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e substituido por o d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar pôr o seu nome na inscripção, e de novo foi substituido pelo da pobre mulher; á terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou então que lhe trouxessem a mulher á sua presença:

--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem fosse com o que fosse para a edificação d'esta egreja; vejo que não cumpriste as minhas ordens.»

--«Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas ordens, apesar da magua que sentia por não poder offerecer o meu pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas à construcção da egreja.»

--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na inscripção do monumento, disse-lha o rei.»

Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na lapide da egreja o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.



O valente soldado de chumbo


Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que attitude marcial, d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos! A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!» que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo lugar, e já não havia chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros não estavam mais firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e é este o que precisamente nos interessa.

Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos salões. Á volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia poeticamente n'um pedaço d'espelho que fingia um lago, onde nadavam pequeninos cysnes de cêra. Tudo isto era encantador, mas não tanto como uma menina que estava á porta, e que era tambem de papel, vestida com um lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou que, como elle, não tinha senão uma perna.

--Ali está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma grande fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No entantanto preciso conhecel-a.»

Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a elegante dançarina, que estava sempre n'um pé só, sem perder o equilibrio.

Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas e saltos mortaes, o lapis traçou mil arabescos phantasticos n'uma louza, emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar. Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a dançarinasinha. Ella no bico do pé, e elle n'uma perna só, a espreital-a.

Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza.

--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro sitio.»

Mas o soldado fez que não ouvia.

--Espera até ámanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»

No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta enterrada entre duas lages.

A creada e o rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!» tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois do aguaceiro passaram dois garotos.

--Olà! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o navegar.»

Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro.

De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a escuridão como na caixa dos soldados.

--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas vezes maior.»

D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do cano.

--Venha o teu passaporte.»

Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e gritando ás palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o parar, façam-n'o parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»

Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente. Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para elle, como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.

O barco, depois de ter andado á roda durante muito tempo, encheu-se d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a agua passou por cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo, pensou na gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:

--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»

O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi devorado por um grande peixe.

Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro.

O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia, e alguem exclamou:

--Olha um soldado de chumbo!»

O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na barriga d'um peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso. Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que acontecem cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina sempre de perna no ar. O soldado de chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria derramado lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella, ella olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.

De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.

O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais que uma pequena massa informe.

No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha ennegrecido.



João Pateta


João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.

--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»

--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais esperto.»

Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que as não perdesse.

--Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»

--Então, João, onde estão as agulhas?»

--Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não podem estar em sitio melhor.»

--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»

--Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.»

Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.

A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas.

--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam outro.»

--Está entendido, respondeu João.»

Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.

--Queres seis tostões por essas gallinhas?»

--Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro preço, mas que esperasse o segundo.»

--E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.»

--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.»

Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma experiencia, e disse-lhe:

--Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»

--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»

--Quanto queres por esse carneiro?

--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.

--Quatro mil réis?»

--É o preço mais elevado?»

--Pouco mais ou menos.»

--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada.

--Quanto?»

--Dez tostões:»

--É menos, respondeu timidamente o João.»

--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não ha um preço mais elevado.»

--Tem rasão. É seu o carneiro.»

Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou comprar cousa alguma.



Branca de Neve


Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de vez em quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão, distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.

--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros como este ébano.»

Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha, que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos extraordinario. Era tão formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho magico dizia-lhe:

--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no mundo?»

--És tu, respondia o espelho.»

No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais formosa. Tinha apenas sete annos, e já ninguem a podia ver sem ficar maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu espelho, disse-lhe:

--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no mundo?»

--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»

A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dôr aguda, como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela innocente Branca. Não podia socegar nem de dia, nem de noite. Para satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe:

--Quero quo Branca desappareça. Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o coração.»

O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança chorava e lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella não tinha feito mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o coração de Branca á rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo é tão bella como eu.

A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.

Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.

Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo que tinham gente em casa. Um d'elles disse:

--Quem comeu o meu pão?»

E os outros successivamente:

--Quem pegou no meu garfo?»

--Quem comeu o meu caldo?»

--Quem bebeu o meu vinho?»

E emfim um d'elles:

--Quem está ahi deitado na minha cama?»

Reuniram-se todos á roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz das lanternas viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente, e affastaram-se sem fazer bulha, para a não accordar. Branca no dia seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si aquelles sete anões das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura, que não tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste historia, e os anões disseram-lhe:

--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?»

--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.»

Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias. Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.

Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, e disse-lhe:

--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda que ha no mundo?»

E o espelho respondeu:

--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que modo? Uma manhã partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu á porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas joias?»

Os anões tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no cesto, esqueceu-se das suas promessas.

--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao pescoço.»

Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.

--Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira não era outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, não deixes entrar aqui ninguem, quando não estivermos em casa.»

Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:

--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no mundo? Responde.

E o espelho respondeu:

--És tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou ás sete montanhas, e bateu á porta da cabana.

--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á janella, e respondeu:

--Vá-se embora, aqui não entra ninguem.»

--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. Já viu outro tão bonito?»

Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a porta.

--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o na cabeça.»

Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.

Á noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria. Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.

No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio. Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu como antecedentemente.

--Ah! é preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.

Vestiu-se de camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»

--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»

--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar ninguem, nem compro coisa alguma.»

--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão bonita, quero dar-lhe uma.»

--Obrigada, não posso acceitar.»

--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu fulminada.

--Ahi tens, para castigo da tua formosura.»

Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e perguntou-lhe:

--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»

E o espelho respondeu:

--És tu, és tu.»

--Até que emfim!»

Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não podiam acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquillo, as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quizeram enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de cristal, e escreveram em cima. «Aqui jaz a filha d'um rei;» puzeram o caixão n'uma das sete montanhas, e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais pequena alteração.

Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar á caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lh'o cedessem, fosse por preço que fosse.

--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixão, que é o nosso thesouro.»

--Então dêem-m'o, já não posso viver sem contemplar este rosto de mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me façam isto.»

Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:

--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»

E o espelho respondeu:

--Branca é mais formosa que tu.

A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes fossem descobertos, que morreu de repente.

Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores.



A rapariguinha e os phosphoros



Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer d'elle um terço para o seu primeiro filho.

A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido compradores, e por isso não apurára cinco réis.

Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?

As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.

Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia, porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo.

A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma pontita de phosphoro consumido.

Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de si a parede fria e tenebrosa.

Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem sumptuoso.

Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo um longo rasto de fogo.

--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»

Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.

--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.

Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.

Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios... morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se, disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua velha avó no dia do Anno Novo.



O primeiro peccado de Margarida



Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.»

Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.

Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.

E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.

N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho, á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento.

Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.

O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das mãos.

Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, perguntou-lhe:

--Qual é o caminho da cidade?»

Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com um sorriso estranho e diabolico.

N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de Margarida, e pediu-lhe uma esmola.

Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado.

O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda disfarçado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.