O rabequista
Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade
levantaram uma igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira
dos músicos.
As rosas mais vermelhas e os lírios
mais cândidos enfeitavam o altar. O vestido da santa era de
filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro, feitos pelo melhor
ourives que havia na cidade. A capela estava constantemente cheia de
peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria um pobre
rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha sido
muito longa, estava cansado, e já no seu alforge não havia pão
nem dinheiro no bolso para o comprar.
Assim que entrou na
capela, começou a tocar na sua rabeca com tal suavidade, com tanta
expressão, que a santa ficou enternecida ao vê-lo tão
pobre e ao escutar aquela música deliciosa. Quando terminou, Santa
Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos de
ouro, e deu-o ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando,
cantando, chorando, correu à loja dum ourives para lho vender. O
ourives, reconhecendo o sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e
levou-o à presença do juiz.
Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado à morte.
Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam
lastimosamente, e o cortejo pôs-se em marcha ao som dos cânticos
dos frades, que ainda assim não chegavam a dominar os sons da
rabeca do condenado, que pedira, como última graça, o
deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao último momento. O
cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam suplicou o
triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua
derradeira melodia.
Os padres e os chefes da escolta
consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos pés da santa, e
debulhado em lágrimas começou a tocar. Então o povo,
maravilhado e aterrado, viu Santa Cecília curvar-se de novo, descalçar
o outro sapato e metê-lo nas mãos do infeliz músico.
À vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o
rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente
prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
Os pêssegos
Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pêssegos
magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos,
extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria.
À noite o pai perguntou-lhes:
—Então
comeram os pêssegos?
—Eu comi, disse o mais velho.
Que bom que era! Guardei o caroço, e hei-de plantá-lo para
nascer uma árvore.»
—Fizeste bem, respondeu
o pai, é bom ser económico e pensar no futuro.»
—Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a
mamã ainda me deu metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.»
—Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade não
admira; espero que quando fores maior te hás-de corrigir.»
—Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço
que o meu irmão deitou fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro,
que era como uma noz. Vendi o meu pêssego, e com o dinheiro hei de
comprar coisas quando for à cidade.»
O pai meneou
a cabeça:
—Foi
uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos cálculo.
—E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego?
—Eu,
meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho, ao Jorge,
que está coitadinho com febre. Ele não o queria, mas
deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.
—Ora bem,
perguntou o pai, qual de vós é que empregou melhor o pêssego
que eu lhe dei?
E os três pequenos disseram à uma:
—Foi o mano Eduardo.
Este no entanto não
dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos arrasados de lágrimas.
A urna das lágrimas
Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito
linda, a quem adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela
um só momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a
sofrer, adoeceu e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as
noites e os dias, sem repousar um momento, à cabeceira da filha,
julgou endoidecer de mágoa e de saudades. Não comia, não
fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
acabrunhada, chorando no mesmo sítio em que a filha tinha morrido,
abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua
querida filha, sorrindo com uma expressão angélica e
trazendo nas mãos uma urna, que vinha cheia até às
bordas.
—«Oh! minha querida mãe, disse-lhe
ela, não chores mais. Olha, o anjo das lágrimas recolheu as
tuas nesta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas lágrimas
correrão sobre mim, inquietando-me no túmulo e perturbando a
minha felicidade no paraíso.
A pequenina desapareceu, e
a mãe não tornou a chorar para a não afligir.
Reconhecimento e ingratidão
Os vossos filhos serão para vós como vós
tiverdes sido para vossos pais. E é natural. As crianças vêem
diariamente o que fazem seus pais, e imitam-nos. Justifica-se desta
maneira o provérbio que diz,—que a bênção
ou a maldição dum pai cai sobre a cabeça de seus
filhos, terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que
merecem ser meditados.
Um príncipe, passeando no campo,
viu um pobre homem, que andava muito satisfeito, a lavrar a terra. Pôs-se
a conversar com ele. Depois de algumas perguntas, soube que o campo não
pertencia ao homem, mas que trabalhava nele mediante um salário de
doze vinténs por dia. O príncipe, que para as suas despesas
de administração e representação necessitava
de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, como se vivia
com doze vinténs diários, andando-se ainda por cima
satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:
«Gasto diariamente comigo a terça parte dessa quantia;
outro terço é para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas
economias.»
Era um novo enigma para o príncipe.
Mas o alegre camponês explicou-lho deste modo.
«Reparto
quanto ganho com os meus velhos pais, que já não podem
trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não têm força
para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na
minha infância; e espero que os segundos não me abandonem,
quando os anos tiverem pesado sobre mim.»
O príncipe,
ouvindo isto, quis premiar o honrado camponês; encarregou-se da
educação de seus filhos; e a bênção que
lhe deram os seus velhos pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua
vez, rodeando igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais
terna dedicação.
Mas posso desgraçadamente
citar-vos outro filho, que procedeu duma maneira tão indigna com
seu velho pai doente e aleijado, que este teve de pedir que o levassem
para o hospital da misericórdia. O filho ingrato recebeu com
alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde foi conduzido ao
hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse muito pobre,
decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como última esmola,
um par de lençóis, para cobrir a palha que lhe servia de
leito. O mau filho escolheu os lençóis mais usados, e disse
ao seu pequeno, de dez anos de idade, que os fosse levar a esse velho
rabujento. Mas notou que a criança ao partir tinha escondido um
dos lençóis a um canto, atrás da porta.
Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque
fizera aquilo.
«Foi, respondeu a criança
desabridamente, para me servir mais tarde deste lençol, quando pela
minha vez te mandar também para o hospital.
O fato novo do sultão
Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário
todo o seu rendimento.
Quando passara revista ao exercito,
quando ia aos passeios ou ao teatro, não tinha outro fim senão
mostrar os seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como
se diz dum rei: Está no conselho; dizia-se dele: Está-se a
vestir. A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças
à quantidade de estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá
um dia dois larápios, que, dando-se por tecelões, disseram
que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não só
eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas além
disso os vestuários feitos com esse estofo, possuíam uma
qualidade maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e
para todos aqueles que não exercessem bem o seu emprego.
—São vestuários impagáveis, disse consigo o
sultão; graças a eles, saberei distinguir os inteligentes
dos tolos, e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso desse estofo!»
E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada, para que pudessem começar
os trabalhos imediatamente.
Os homens levantaram com efeito
dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver
absolutamente nada nas lançadeiras. Requisitavam seda e oiro fino a
todo o instante; mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando
até à meia noite com os teares vazios.
—«Preciso
saber se a obra vai adiantada».
Mas tremia de medo ao
lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E,
apesar de ter confiança na sua inteligência, achou prudente
em todo o caso mandar alguém adiante.
Todos os
habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e
ardiam em desejos de verificar se seria exacto.
—Vou
mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão;
tem um grande talento, e por isso ninguém pode melhor do que ele
avaliar o estofo.
O honrado ministro entrou na sala em que os
dois impostores trabalhavam com os teares vazios.
—Meu
Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, não vejo
absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões
convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os
desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
olhava, mas não via nada, pela razão simplicíssima de
nada lá existir.
—Meu Deus! pensou ele, serei
realmente estúpido? É necessário que ninguém o
saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que
não vejo nada, isso é que eu não confesso.»
«Então que lhe parece?»
perguntou um dos tecelões:
—«Encantador,
admirável! respondeu o ministro, pondo os óculos. Este
desenho... estas cores... magnífico!... Direi ao sultão que
fiquei completamente satisfeito.»
—«Muito
agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e
mostraram-lhe cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe deles uma
descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir
depois repetir tudo ao sultão.
Os impostores
requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; precisavam-se
quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no bolso, é
claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam sempre.
Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funcionário,
homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu
a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não
via nada.
—Não acha um tecido admirável?»
perguntaram os tratantes, mostrando o magnífico desenho e as belas
cores, que tinham apenas o inconveniente de não existir.
—Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois
não serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito!
mas deixá-lo, não o deixo eu.»
Em seguida
elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração
pelo desenho e o bem combinado das cores.
—É duma
magnificência incomparável, disse ele
ao sultão. E toda a cidade começou a falar desse tecido
extraordinário.
Enfim o próprio sultão
quis vê-lo enquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de
pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois honrados funcionários,
dirigiu-se para as oficinas, em que os dois velhacos teciam continuamente,
mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de espécie alguma.
—Não acha magnífico? disseram os dois honrados
funcionários. O desenho e as cores são dignos de vossa
alteza.»
E apontaram para o tear vazio, como se as outras
pessoas que ali estavam pudessem ver alguma coisa.
—Que
é isto! disse consigo mesmo o sultão, não vejo nada!
É horrível! serei eu tolo, incapaz de governar os meus
estados? Que desgraça que me acontece!» Depois de repente
exclamou: «É magnífico! Testemunho-vos a minha satisfação.»
E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear,
sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu séquito
olharam do mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem ver coisa
alguma, e no entanto repetiam como o sultão: «É magnífico!»
Até lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia
da grande procissão. «É magnífico! é
encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e
a satisfação era geral.
Os dois impostores foram
condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecelões.
Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro,
trabalhando à luz de dezasseis velas. Finalmente
fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-no com umas grandes tesouras,
coseram-no com uma agulha sem fio, e declararam, depois disto, que estava
o vestuário concluído.
O sultão com os
seus ajudantes de campo foi examiná-lo, e os impostores levantando
um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram:
«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia
de aranha; é a principal virtude deste tecido.»
—Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
—Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larápios,
provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.»
O sultão
despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois
a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do
espelho.
—Como lhe fica bem! que talhe elegante!
exclamaram todos os cortesãos. Que desenho! que cores! que vestuário
incomparável!»
Nisto entrou o grão-mestre
de cerimónias.
—Está à porta o
dossel sobre que vossa alteza deve assistir à procissão,
disse ele.»
—Bom! estou pronto, respondeu o sultão.
Parece-me que não vou mal.»
E voltou-se ainda uma
vez diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os
camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo
confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçá-la.
E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a gente na rua e
às janelas exclamava: «Que vestuário magnífico!
Que cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguém
queria dar a perceber, que não via nada, porque isso equivalia a
confessar que se era tolo. Nunca os fatos do sultão tinham sido tão
admirados.
—Mas parece que vai em cuecas», observou
um pequerrucho, ao colo do pai.
—É a voz da inocência,
disse o pai.
—Há ali uma criança que diz
que o sultão vai em cuecas.
«Vai em cuecas! vai em
cuecas!» exclamou o povo finalmente.
O sultão
ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era verdade.
Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até
ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
imaginária.
Boa sentença
Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge
uma quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil réis
de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um
honrado camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro,
e disse:
—Deviam ser oitocentos mil réis, que foi
a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu
amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis de alvíssaras:
estamos pagos por conseguinte.»
O bom camponês, que
nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia
contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que,
vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:
—Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro
encontrou um alforge apenas com setecentos: Resulta daí claramente
que o dinheiro que o último encontrou não pode ser o mesmo a
que o primeiro se julga com direito. Por consequência tu, meu bom
homem, leva o dinheiro que encontraste, e
guarda-o até que apareça o indivíduo que perdeu
somente setecentos mil réis. E tu, o único conselho que
passo a dar-te, é que tenhas paciência até que apareça
alguém que tenha achado os teus oitocentos mil réis.
Os animais agradecidos
Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um
homem a quem perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha.
Este respondeu:
—«Senhor: eu sou um desgraçado,
um miserável; nasci no vosso reino, e chamo-me Ingratidão.»
—«Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei,
tomava-te ao meu serviço.»
O nosso homem prometeu
ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a palácio,
deu tais provas de habilidade, mostrou-se tão esperto e tão
solícito, que o rei afeiçoou-se-lhe de tal modo, que o
nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua
casa. Deslumbrado por uma fortuna tão rápida, o seu orgulho
desde então não conheceu limites; maltratava os inferiores,
e não tinha compaixão dos desventurados.
Ora, na
vizinhança do palácio havia uma floresta cheia de animais
selvagens e perigosíssimos. O intendente mandou aí fazer por
toda a parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras,
caindo dentro, pudessem ser agarradas. Um
dia que o intendente atravessava a floresta, ia tão absorvido pelos
seus pensamentos orgulhosos, que se precipitou ele mesmo dentro duma das
covas.
Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo
poço; caiu depois um lobo e em seguida uma enorme serpente, de
aspecto horroroso. O governador, ao ver-se em tão extraordinária
companhia, ficou tão horrorizado, que lhe embranqueceram os
cabelos; e toda a esperança de salvação lhe parecia
inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, ninguém o vinha
socorrer.
Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem
extremamente pobre, chamado António, que todos os dias ia rachar
lenha à floresta, para ganhar o pão necessário
à sua mulher e aos seus filhos. António também lá
foi nesse dia, como de costume, e pôs-se a trabalhar não
longe da cova em que caíra o intendente, cujos gritos de aflição
não tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem
era que estava ali.
—«Sou o governador do palácio
do rei, e, se me tirares daqui, prometo encher-te de riquezas; estou em
companhia dum leão, dum lobo e duma enorme serpente.»
—«Eu, respondeu o lenhador, sou um miserável
jornaleiro, não tendo para sustentar a minha família, mais
que o produto do meu trabalho; bastava um dia perdido para me causar um
grande desarranjo; vê lá pois, se cumpres a tua promessa?
O intendente continuou:
—«Pela fé que
devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te
que cumprirei a minha palavra.»
Confiado nisto o rachador
de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda muito comprida, que
deixou correr dentro do abismo. O leão atirou-se a ela, e
suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era o
intendente.
Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu
salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora à procura de
jantar, porque tinha fome.
António deitou outra vez a
corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o governador, enganou-se,
porque era o lobo; à terceira vez subiu a serpente; foi necessário
fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este não perdeu
tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o palácio. O
jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o que se tinha
passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes
promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o
pobre homem bater à porta do palácio. O porteiro
perguntou-lhe o que queria.
—«Faça-me o
favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente que o
homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar.»
O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e
exclamou:
—«Vai dizer a esse homem, que eu não
vi ninguém na floresta; que se ponha a andar, porque o não
conheço.»
O porteiro voltou, e repetiu o que o
governador lhe tinha dito.
O pobre homem tornou para casa mui
descorçoado, e contou à
mulher a odiosa perfídia de que tinha sido vitima.
A
mulher disse-lhe:
—«Tem paciência; o sr.
intendente estava hoje decerto muito ocupado, e foi talvez por isso que te
não pôde receber.»
Estas palavras sossegaram
o rachador que outra vez nutriu esperanças.
Na manhã
seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo à porta do palácio.
Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos ásperos, que não
tornasse ali a aparecer, quando não ver-se-ia obrigado a empregar
meios violentos. A mulher ainda desta vez procurou consolá-lo:
—«Experimenta terceira e última vez, disse-lhe
ela, talvez Deus o inspire melhor. E se assim não for, ainda que te
custe, não penses mais nisso.»
No dia seguinte o
bom do homem voltou à carga; e tendo o porteiro consentido à
força de suplicas em anunciá-lo ainda ao governador, este
encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre homem
duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do chão.
A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um burro, pôs-lhe
em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis meses a
curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair dividas para
pagar ao médico. Quando finalmente tinha recobrado algumas forças,
voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha. Apenas lá
chegou, apareceu-lhe o leão, que ele tinha ajudado a sair do poço.
O leão conduzia um burro diante de si, e este
burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O leão,
vendo António, parou e inclinou-se diante dele com um ar de
respeitoso agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho,
fazendo-lhe sinal de que ficasse com o jumento. António doido de
alegria levou o animal para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.
No dia seguinte, voltando de novo à floresta, apareceu-lhe o
lobo, que o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o
quanto lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluída, e
tinha carregado o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente,
que ele tinha tirado do fôjo, e que trazia na ponta da língua
uma pedra preciosa, em que brilhavam três cores,—o branco, o
preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao pé do rachador de
lenha, deixou cair a pedra junto dele, e depois dando um salto desapareceu
no matagal. António levantou a pedra, examinou-a por todos os
lados, para ver que propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter
com um velho, afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os
astros. Este, assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande
quantia. António respondeu-lhe que a não queria vender, mas
simplesmente saber se seria boa.
O velho respondeu:
—«São três as virtudes desta pedra: abundância
contínua, alegria imperturbável e luz sem trevas. Se alguém
ta comprar por menos dinheiro do que vale, tornará imediatamente
para a tua mão.»
António ficou muito
contente com esta resposta, agradeceu ao
velho da ciência maravilhosa, e correu a contar à mulher a
sua felicidade. Como se imagina, graças à virtude da famosa
pedra, não lhe faltaram daí em diante, nem honras nem
riquezas.
Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas
prosperidades, mandou chamar António, e mostrou-lhe desejos de
adquirir o precioso talismã.
António, vendo que
semelhante desejo era uma ordem, respondeu:
—«Devo
prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me não for paga
pelo que vale, tornará ela mesma para o meu poder.»
—«Hei de pagar-ta bem, disse o rei.»
E
mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã,
António achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo
isto disse-lhe:
—«Torna a levá-la ao rei
imediatamente; não vá ele persuadir-se que lha furtaste.»
O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou à presença
de sua majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
preciosa.
—«Mandei-a meter com todo o cuidado
dentro dum cofre de ferro, fechado com sete chaves, disse o rei.»
António mostrou-lhe então a jóia preciosa, e o
rei ficou extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha
adquirido semelhante tesouro.
António contou-lhe tudo
que tinha havido, a ingratidão do governador e o reconhecimento dos
animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu intendente, e
disse-lhe:
—«Homem
perverso, com justo motivo te puseram o nome de Ingratidão,
porque és mais falso e mais pérfido que os animais ferozes,
e pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será
feita. Dou a António as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje
mesmo, o castigo de seres enforcado.»
Admiraram todos a
sentença do rei, e António desempenhou as suas altas funções
com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido
para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos gloriosos.
O ermitão
Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa,
deliberou retirar-se a uma gruta solitária para se consagrar
inteiramente ao trabalho da sua salvação. Jejuando sempre,
orando, ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca
da ideia de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos anos, uma
noite lembrou-se de que já tinha merecido um lugar glorioso no paraíso,
e podia ser contado entre os santos mais notáveis.
Na
noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:
—Há no mundo um pobre músico, que anda de porta em
porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as
recompensas eternas.
O ermitão, atónito, ao ouvir
estas palavras, levantou-se, agarrou no seu bordão, foi em busca do
músico e mal o encontrou disse-lhe:
—Irmão,
diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e
penitências te tornaste agradável a Deus.
—Ora,
respondeu-lhe o músico, abaixando a cabeça, santo padre, não
zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e
quanto a orações não as sei, pobre de mim, que sou um
pecador. O que faço é andar de casa em casa a divertir os
outros.»
O austero ermitão continuou a insistir:
—Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda,
praticaste algum acto de virtude.»
—Em verdade não
poderia citar nem um só.»
—Mas então
como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido loucamente como os que
exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente o teu património
e o produto do teu ofício?»
—Não; mas
um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham
sido condenados à escravidão para pagar uma dívida.
Essa mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa,
protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuía para
resgatar a sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia
encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não teria
feito outro tanto?»
A estas palavras o ermitão pôs-se
a chorar, e exclamou:
—Nos meus setenta anos de solidão
nunca pratiquei uma obra tão meritória, e apesar disso
chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu não passas dum pobre músico.»
Carlos Magno e o abade de S. Gall
Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de
S. Gall, preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta
da abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enérgicos
e activos, e o abade era indolente. Além disso o imperador tinha
mais dum motivo de queixa contra ele.
—Bons dias, senhor
abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à sua esclarecida
razão três perguntas, às quais terá a bondade
de me responder daqui a três meses, contados dia a dia, em sessão
solene do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu
valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao
mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
rev.ma vier à minha presença, pensamento que deve
ser um erro. Trate de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás
deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num
burro com a cara voltada para o rabo.»
O abade não
sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores
mais famosos pela sua ciência, não
lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época
fatal aproximava-se; já não faltava senão um mês,
já não faltavam senão semanas, e afinal só
dias. O abade, que noutro tempo era gordo e anafado, estava magro como um
esqueleto. Perdera o sono e o apetite. Andava errante nos bosques
lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.
—Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro!
Está doente?»
—Estou, meu caro Félix,
estou muito doente.»
—Oh! meu rico amigo, eu lhe
darei alguma erva que o possa curar.»
—Infelizmente
não são ervas que eu preciso, mas resposta às minhas
três perguntas.»
—É então
latim?»
—Não, não é latim, senão
os doutores tinham-me arranjado tudo.»
—Visto que não
é latim, queira v. rev.ma dizer-me o que é: minha
mãe era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.»
Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor atirou
com o barrete ao ar, e disse-lhe:
—Se é apenas
isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.ma pode
continuar a engordar; mas para isso é necessário que eu
vista o seu hábito.»
Quando chegou o dia, o pastor
disfarçado com o hábito do abade de S. Gall, foi introduzido
na sala onde o imperador presidia o conselho imperial.
—Então,
senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar
a chave do enigma? Vamos lá a ver
a primeira pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?»
—Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por
trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, só
um dinheiro menos.»
—Bravo, senhor abade, a
resposta é hábil, e na realidade não posso deixar de
me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda pergunta, não há
de ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá a ver:
quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?»
—Senhor,
se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir
constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro
horas.»
—Decididamente, v. rev.ma
é um grande finório, e desta vez, confesso-me vencido; mas a
terceira, não dessas à que se responde com suposições.
Quem lhe há de dizer o que eu estou pensando, e como me há
de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor
abade.»
—Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou
o abade de S. Gall; está enganado, porque eu sou o seu pastor.»
—Mas então tu é que deves ser o abade de S.
Gall, e desde já o ficas sendo.»
—Não
sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor, peço-lhe
outra coisa.»
—Não tens mais que falar.»
—Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.»
Carlos Magno não era homem que faltasse à sua palavra.
A boneca
Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma história—a
história duma boneca!
Não há muitos anos,
mas ainda não era a Cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a infância
folga por entre maciços de flores e sob o sorriso do sol, sem que
lhe enegreça o espírito a vista dos dois monumentos, que a
meu ver simbolisam as duas mais horríveis calamidades, que podem
aniquilar um homem—o hospital e a cadeia!—ainda não há
muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
feira, divertindo-me a meu modo.
Cansado das inúmeras
figuras, que tinha visto passar por aquela espécie de lanterna mágica,
dispunha-me a dar por findo o espectáculo, quando novos personagens
me chamaram a atenção.
Eram os meus vizinhos ricos.
Aqui é preciso uma rápida explicação.
Das famílias da minha vizinhança, só conheço
três.
Qual destas três famílias será
mais feliz?...
Pelo que tenho notado, não têm que
invejar umas às outras.
São
todas felizes; cada qual a seu modo.
Vi, pois, chegar os meus
vizinhos ricos.
Parou o carro, o criado saltou da almofada e
veio, de chapéu na mão e dorso ligeiramente curvado, abrir a
portinhola; o meu vizinho saltou, tomou nos braços a filhinha e depô-la
no chão, e oferecendo, em seguida, a mão à esposa,
para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e com a menina para a barraca
onde eu estava.
Não havia ali segredo a surpreender.
Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
parecia agradecer àquela formosa criança a manifestação
de qualquer desejo.
No fim de meia hora possuía a minha
pequena vizinha com que fazer a felicidade de dez crianças menos
abastadas.
Tinha o necessário para montar completamente
a casa duma boneca... rica.
Faltava apenas a dona da
casa—a boneca.
Todo risos e atenções, o
lojista apresentou o que tinha de melhor.
Depois de muita
hesitação e de, já com os olhos, já com a voz,
consultar a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma
magnífica boneca de dois palmos de altura, com cabelo em bandeaux
e olhos azuis.
Uma boneca como as outras: cabeça e colo
de massa, corpo de pelica recheada, braços e pernas de pau.
Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribo de crianças,
que fazem o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por
chefe um honrado sapateiro.
Alguns
deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem anjos, caídos
do céu sobre um monte de lama.
São os meus
vizinhos pobres.
A segunda compõe-se de marido,
mulher e filha, e ocupa a casa imediata.
É como se
costuma dizer, gente que vai muito bem com a sua vida.
A
filha que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e
carnudas, cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que
resistem à pressão.
São os meus vizinhos
remediados.
A terceira é a dos meus vizinhos ricos.
Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito
nas listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
estado—nada falta àquela ditosa gente!
Compõe-se
igualmente de marido, mulher e filha.
Que formosa criança!...
Terá oito anos.
Franzina e pálida, com os cabelos
negros, os olhos grandes e cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos
de dedos compridos e esguios, terminados por unhas duma cor de rosa
transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz namorado—provavelmente
ainda a crescer—que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir
de beijos.
Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este
mudou todas aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para
dentro do carro.
A boneca teve a honra de ser transportada pela
aristocrática criança.
Saí
dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadíssimas
considerações, sugeridas pela quase indiferença, com
que aquela menina recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.
Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras
raparigas da mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de
pano, horrível artefacto português, em que os olhos são
representados por dois pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de
retrós cor de rosa, a boca por outro de fio vermelho, e os cabelos
por flocos de lã preta!
Quando cheguei a casa, já
na dos meus vizinhos remediados não havia luz.
Na dos
meus vizinhos pobres, o pai batia a sola, cantando ao som de três
assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
provocavam os ralhos da mãe.
Quando, no dia seguinte,
cheguei à janela, seriam onze horas da manhã.
Na
rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do sapateiro; na
casa imediata não se via ninguém—estava a pequena na
mestra; no palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla
pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionária fazendo
rodar, com auxílio duma linha, uma magnífica caleche
descoberta, puxada por cavalos brancos.
Dentro da caleche
pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
—«Aí
está a tua caricatura, minha feiticeira!...»—disse eu
de mim para mim. «Ensaias nas
bonecas o que vês no mundo a que pertences!... Estás a
aprender a copiar... Sempre este mundo!...»
Retirei-me da
janela.
Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma
cena.
A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia
em que se vestia três e quatro vezes!
Ao que eu, porém,
achava mais graça, era ao respeito com que a dona a tratava!
Chamava-lhe sr.a D. Luísa; dava-lhe excelência;
sustentava finalmente com a boneca um destes diálogos de senhoras
da alta sociedade, em que se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.
Um dia,—estava eu de costas voltadas para a janela dos meus
vizinhos ricos—ouvi um grito de susto.
Era devido
a um acidente, a que está sujeito quem anda de carro.
Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da
janela.
O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a
vítima; vendo, porém, que a ferida havia forçosamente
de deixar cicatriz, e lembrando-se de que só lhe bastava querer,
para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la
com despeito à rua, quando mais perto de mim bradou voz tímida
e suplicante:
«Não atire!... Dê-ma.»
Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não
dera fé até então.
Assim invocada, a
menina rica franziu levemente as
sobrancelhas e lançou um olhar de rainha para o sítio donde
vinha a súplica.
Vendo uma criança, pouco mais ou
menos da sua idade, serenou e, encolhendo os ombros, respondeu:
—«Já não presta!... Está esmurrada!...»
—É o mesmo!... Dá-ma?...—bradou a outra,
cujos olhos brilhavam de cobiça.
—«Dou...»—volveu
a rica, encolhendo novamente os ombros.
E, caminhando para o
canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da vizinha, que
tremia, receosa de que aquele tesouro fosse despedaçar-se nas lajes
da rua.
Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para
exigir nova boneca; a outra, para mostrar à mãe a que ela
ainda não podia acreditar, que fosse sua!
Por espaço
de meses foi a boneca a principal ocupação da nova dona.
A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro
vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excelência!
Chamavam-lhe sr.a D. Ana; falavam-lhe de arranjos domésticos,
do desmazelo da criada, da missa das almas, de coisas finalmente,
completamente estranhas para ela!
E a desgraçada perdia
as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azuis; mas o que mais a
desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais escura:
parecia uma nódoa, um estigma!
Nos primeiros tempos,
enquanto durou o vestido, que trouxera no
corpo, ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.
Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, fitas
velhas, rendas amareladas, chapéus impossíveis, viessem
contrastar com a elegância do vestido. Dava ares de se ter equipado
ao acaso, na loja duma adeleira.
Mas o vestido foi-se tornando
velho; desapareceu o brilho, e com ele as ondulações do moiré,
até que, um belo dia, vi a boneca vestida de cassa—-no
Inverno!—xaile e manta na cabeça.
Muito mal lhe
ficava aquilo!... Àquela boneca custava-lhe de certo o ver-se tão
mal arranjada.
Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e
balbuciei:
—É justo!... Cada qual segundo as suas
posses.»
Por esse tempo, entrei em relações
com o meu vizinho sapateiro.
O honrado homem soubera, que eu me
queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a
primeira ocasião, para me pedir desculpa.
Vendo-me
conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de
nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave
risco de sofrer as consequências da sua travessa familiaridade.
Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma pequenita
de onze anos, com quem simpatizei logo à primeira vista.
Chama-se Maria.
Por um destes acasos da Providência, que
parece às vezes comprazer-se em
criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.
Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do
sapateiro, fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.
E
bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, porque havia
verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta
é a minha Maria!»
E tinha razão!
Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo era.
—É quem vale à mãe!...—acrescentou
o velho.»—Ali, onde a vê, faz o serviço duma
mulher!... Há seis meses, quando a minha santa esteve doente—bem
pensei que não arribasse!—a pequena era quem cozinhava e
olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem!?... Olhe que
aquela pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao pé
da mãe! Foi preciso eu obrigá-la, que ela não a
queria deixar!...»
E o desvanecido pai enxugou, com a
manga da camisa, uma lágrima, que, havia muito, hesitava sobre se
sim ou não se devia despenhar.
Fazia gosto ver aquela
pequena com o seu vestidinho de chita escura e a cabeça coberta por
um lenço branco.
Desde que o pai me deu tão boas
informações da rapariga, nunca mais passei por defronte da
porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias à pequena.
Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma
boneca deitada nos joelhos.
—Eu
conheço aquela boneca!...—disse eu de mim para mim.
E, não podendo resistir à curiosidade, bradei:
—Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...
Foi
ali a menina da vizinha!—respondeu a pequenita, corando de prazer.
Era escusado dizer-mo.
Maria pegara na boneca e voltara-a
de face para mim. Não podia duvidar... Era ela; lá estava a
mancha, o estigma cada vez mais visível na fronte.
De
tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com ela.
—Quem te viu e quem te vê!...—pensava eu.
Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha
podiam apanhar, que tratos que sofria a desgraçada!
Roçada
por aquelas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia, empregada
como péla, submetida a torturas, era, ainda assim, singularíssimo
o aspecto da triste!
Dava ares duma duquesa que, por
necessidade, houve sido levada a fraternizar com o povo.
A mísera
mudara mais uma vez de nome!...
De sr.a D. Ana
passara a ser sr.a Rosinha e tratavam-na por vossemecê.
Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e lenço
na cabeça.
Era um prazer para mim o escutar as
conversas, que Maria sustentava com a boneca.
Esta, umas vezes,
representava o papel de mulher casada, e Maria, encarregando-se de
perguntar e responder por ela, obrigava a pobre boneca a lastimar-se por
estar tudo tão caro, por haver falta
de trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que
mais familiares eram à pequena.
Outra vezes passava a
boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, mandavam-na buscar água
à fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a
despedir.
Já o leitor vê que, apesar da bondade
Maria, deixara de ser feliz.
Iam longe os bons tempos em que
ela, rica, morava no palácio vizinho!
Desmaiada de
cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim
dos lábios, a boneca não prometia longa duração.
Foi este pelo menos, o prognóstico que fiz a última
vez que a vi, tentando em vão agradar à última dona
que o seu destino lhe dera.
Coitada!... Bem longe estava de lhe
imaginar o fim!
Um dia chovia a cântaros!—o
enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, espadanava em cachão para
cima dos passeios, arrastando na passagem mil imundícies.
Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e
olhava melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto ouvi
um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto...
Um objecto, arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço
voando, e foi cair no leito do enxurro...
Olhei... Era a
boneca!...
A mísera, arrastada pela água, vogou
rua abaixo até esbarrar numa pedra; mas o redemoinho envolveu-a,
e, depois de a fazer girar três ou
quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a
pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir
sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na
passagem!
Será pieguice, será o que o leitor
quiser; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.
Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado à
vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
—Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?
—Não
fui eu...—balbuciou a pequena, chorando.—Foi ali o Joaquim!...
—E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...
—Ora!...—respondeu
o garoto com enfado.—Ora!... Estava velha... e feia!...
Curvei a cabeça ante aquela razão, e segui o meu caminho.
Pobre boneca!
Inconveniente da riqueza
Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia,
foi surpreendido pela noite à entrada duma aldeia. Procurou dum
lado para outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas
estavam já todas fechadas, não se via nem um raio de luz
através das janelas, tudo estava adormecido. Apenas no fim dum beco
se ouvia o barulho do mangual com que se bate o trigo, e nesse sítio
havia uma pequena luz. Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé
do muro duma quinta, e bateu à porta. Foi um camponês que lha
veio abrir.
—Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me
dar agasalho por esta noite? Não se havia de arrepender.»
E acrescentou:
—Visto que já todos estão
deitados, para que é que você está ainda a trabalhar?»
—Ora, respondeu o camponês, soube ontem à noite
que ia ser perseguido por um credor desapiedado, se lhe não pagasse
amanhã o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o
pouco trigo que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha dívida.
Depois disto não nos fica nada, e
não sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus
quiser!»
Ao dizer isto o camponês limpava o suor da
testa, e passava a mão pelos olhos arrasados de lágrimas. O
Senhor teve dó dele, e disse-lhe:
—«Não
desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te havias
de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.»
Pegou na
candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e aproximou-a do
trigo.
—Que vai fazer? disseram assustados os
trabalhadores, vai deitar fogo a tudo!»
Mas no mesmo
instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se, de cada espiga,
desceu uma chuva de grãos prodigiosa. À vista dum tal
milagre os camponeses maravilhados caíram de joelhos.
—Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, serás
recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te
enriquece.»
Dito isto desapareceu.
E a chuva
dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão
alto como a igreja.
O camponês pagou as suas dividas,
comprou terras, e construiu uma bela casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso
e altivo com os pobres. Ele e seus filhos adquiriram costumes perdulários,
tanto e tanto fizeram, que se arruinaram, e, como tinham sido maus nos
tempos em que eram ricos, ninguém os ajudou na sua miséria.
Uma noite o velho camponês, que bebera enormemente, entrou no celeiro, e, recordando-se do milagre que o
enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. Agarrou na
candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a casa
e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miséria mais
absoluta.
Querer é poder
—Quem procura sempre encontra, diz um velho provérbio;
quero ver por experiência, disse um dia um rapaz, se esta máxima
é verdadeira.
Pôs-se a caminho, e foi
apresentar-se ao governador duma grande cidade.
—Senhor,
disse-lhe ele, há muitos anos que vivo tranquilo e solitariamente,
e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas vezes—Quem
procura sempre encontra, e quem porfia mata caça. Tomei
uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.
O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.
O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante
uma semana, sempre com a mesma vontade inabalável, até que o
rei ouviu falar o rapaz da sua louca pretensão. Surpreendido com
uma ideia tão extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o
rei:
—Que um homem distinto pela hierarquia, pela
coragem, pela ciência, pensasse em casar com uma princesa, nada mais
natural. Mas tu, quais são os teus títulos? Para seres o
marido de minha filha é necessário
que te distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
extraordinário. Ouve. Perdi há muito tempo no rio um
diamante dum valor incalculável. Aquele que o encontrar obterá
a mão de minha filha.
O rapaz, contente com esta
promessa, foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava
a tirar água com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois
de ter assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a rezar.
Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e
receando que chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.
—Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»
—Encontrar um diamante que caiu ao rio.»
—Então,
respondeu o velho rei, sou de opinião que lho entreguem, porque
vejo qual é a têmpera da vontade deste rapaz; mais fácil
seria esgotar as últimas gotas do rio, do que desistir da sua
empresa.»
Os peixes deitaram o diamante no balde do
rapaz, que casou com a filha do rei.
Qual será rei?
Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter
designado o sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia
pertencer, não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais
digno.
Resolveram além disso que o cadáver do rei
fosse posto de pé contra um muro, e que o príncipe que
acertasse melhor com uma flecha naquele alvo, seria o escolhido para
sucessor.
Começou o mais velho. Esticou a corda do arco,
apontou durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a mão
esquerda do defunto. O príncipe soltou grito de alegria, cuidando
que seus irmãos atirariam pior, e que por conseguinte seria ele
quem viria a reinar.
O segundo acertou em cheio na cara do rei,
soltando um grito ainda mais alegre do que o outro príncipe.
O terceiro varou o coração de seu pai, e os seus
gritos de triunfo quase que chegavam ao céu, porque lhe parecia
impossível acertar melhor.
Quando chegou a vez do quarto
filho, tiveram de lhe meter nas mãos as flechas e o arco: mas,
desde que olhou para o alvo, arrojou as
armas longe de si, e desatou a chorar:
—«Oh! meu
pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais consolar-me de
ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus próprios
filhos!»
Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no
rei, como sendo o mais digno.
Os três véus de Maria
O primeiro véu de Maria era dum linho mais alvo do que
a neve. Bordara-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de
flores de seda tão bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham
pousar-lhe em cima.
Este véu branco só o trouxe
uma vez, no dia da sua primeira comunhão.
O segundo véu
de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que sua mãe
lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e abandonada.
Era bordado de perpétuas roxas, como as dos sepulcros de mármore,
e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas lágrimas.
O véu negro só o trouxe uma vez,—no dia em que
se tornou esposa de Jesus no convento da Avé-Maria.
O
terceiro véu era feito dum retalho do azul celeste, bordado de
estrelas, e perfumado com aromas suavíssimos.
Foi o seu
anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou no paraíso.
Os pequenos no bosque
Um dia três pequenos iam juntos para a escola, e
disseram uns aos outros, que não havia nada no mundo mais
aborrecido que estudar: «Vamos para o bosque que encontraremos
lá toda a espécie de lindos bichinhos, que não fazem
outra coisa senão brincar, e nós brincaremos com eles.»
Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga
e da abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar,
disse-lhes:
—Brincar? Preciso construir com estas ervas
uma ponte nova, porque a outra já não está sólida.»
—Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões
para o Inverno.»
—Eu, disse dali a pomba, tenho
muitas coisas que levar para o meu ninho.»
—Eu,
disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda
hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
minha toilette.»
E tu, lindo regato, disseram os
pequenos desertores, que passas o tempo
a saltar e a tagarelar, também não queres brincar connosco?»
—Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês
então imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de
dia, não descanso nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens
e aos animais, às colinas, aos vales, aos campos e aos jardins.
Tenho que apagar os incêndios, tenho que fazer mover as forjas, os
moinhos, as serralharias. Nem hoje acabara, se lhes quisesse contar o que
tenho que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou
com muita pressa.»
Os pequenos, desconcertados,
puseram-se a olhar para o ar, e viram um pintassilgo, em cima dum ramo.
—Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar
connosco?»
—Nada que fazer? vocês estão
a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas
para comer. Tenho além disso que tomar parte no concerto dos
passarinhos, tenho que alegrar o operário com o meu chilrear, e
tenho que adormecer as crianças com uma outra cantiga, que à
noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora, preguiçosos,
ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incomodar os
habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»
Os pequenos aproveitaram a lição, e compreenderam que
o prazer só é legítimo, quando é a recompensa
do trabalho.
O chapelinho encarnado
Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade,
a quem sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da
avozinha, que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar à
neta, deu-lhe um dia um chapéu de veludo vermelho. A pequenita
andava tão contente com o seu chapéu novo, que já não
queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do
chapelinho encarnado.
A mãe e a avó moravam em
duas casas separadas por uma floresta de meia légua de comprido.
Uma manhã a mãe disse à pequenita:
—Tua
avó está doente, e não pôde vir ver-nos. Eu fiz
estes doces, vai levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não
quebres a garrafa, não andes a correr, vai devagarinho e volta
logo.»
—Sim, mamã, respondeu ela, hei-de
fazer tudo como deseja.»
Atou o seu avental, meteu num
cestinho a garrafa e os doces, e pôs-se a caminho. No meio da
floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita, que nunca vira lobos,
olhou para ele sem medo algum.
—Bons
dias, chapelinho encarnado.»
—Bons dias, meu
senhor, respondeu delicadamente a pequena.»
—Onde
vais tão cedo?»
—A casa da minha avó
que está doente.»
—E levas-lhe alguma coisa?»
—Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho
para lhe dar forças.»
Diz-me onde mora a tua, avó,
que também a quero ir ver.»
—É perto,
aqui no fim da floresta. Há ao pé uns carvalhos muito
grandes, e no jardim há muitas nozes.»
—Ah!
tu é que és uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu
gostava de te comer.» Depois continuou em voz alta:—Olha, que
bonitas árvores e que lindos passarinhos. Como é bom passear
nas florestas, e então que quantidade de plantas medicinais que se
encontram!»
—O senhor, é com certeza um médico,
respondeu a inocente pequenita, visto que conhece as ervas medicinais.
Talvez me pudesse indicar alguma que fizesse bem a minha avó.»
—Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta
também, e aquela.» Mas todas as plantas que o lobo indicava,
eram plantas venenosas. A pobre criança, queria-as apanhar para as
levar a sua avó.
—Adeus, meu lindo chapelinho
encarnado, estimei muito conhecer-te. Com grande pena minha, tenho de te
deixar para ir ver um doente.»
E pôs-se a correr em
direcção da casa da avó, enquanto que a pequerrucha
se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.
Quando o lobo chegou à porta da
velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó não se podia
levantar da cama, e perguntou: Quem está aí?»
—É o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a
voz da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»
—Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás
a chave.»
Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada
a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ela costumava usar,
deitou-se na cama.
Pouco depois entrou a pequenita, assustada e
admirada de encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó
a costumava ter fechada.
O lobo tinha posto uma touca na cabeça,
que lhe escondia uma parte do focinho, mas o que lhe ficava descoberto era
horrível.
—Ai! avozinha, disse a criança,
porque tens tu as orelhas tão grandes?»
—É
para te ouvir melhor, minha filha.»
—E porque estás
com uns olhos tão grandes?»
—É para
te ver melhor.»
—E para que estás com os braços
tão grandes?»
—É para te poder abraçar
melhor.»
—E Jesus! para que tens hoje uma boca tão
grande e uns dentes tão agudos?»
—É
para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se
à pobre pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e
começou a ressonar muito alto. Um caçador que passava por
acaso, perto da casa, e que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre
velha está com um pesadelo, está
pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.» Entra, e vê o
lobo estendido na cama.
—Olá, meu menino, diz ele:
há muito tempo que te procuro.»
Armou a sua
espingarda, mas parando logo: Não, disse ele, não vejo a
dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o animal
com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a
barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e saltou para o chão,
gritando:
—Ai! que sítio medonho onde eu estive
fechada!
A avó saiu também contentíssima
por ver outra vez a luz do dia.
O lobo continuava a dormir
profundamente, e o caçador meteu-lhe então duas grandes
pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a neta
para verem o que se ia passar.
Decorrido um instante o lobo
acordou, e como tinha sede, levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar
ouvia as pedras baterem uma na outra, e não podia compreender o que
aquilo era; com o peso, caiu no lago, e afogou-se.
O caçador
tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta.
A velha sentia-se remoçar, e o chapelinho encarnado prometeu não
tornar a passar na floresta, quando sua mãe lho proibisse.