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Contos Paraenses

Chapter 22: II
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About This Book

A collection of short stories set in the Pará region that sketches everyday life and encounters between locals and newcomers, combining vivid natural description with anecdotal episodes. The pieces foreground tropical landscapes, riverine scenes, and sensory detail while following conversational, reflective narrators whose reminiscences and small adventures reveal local customs, personal ambitions, economic ventures, and erotic tensions. Tone shifts between wry humor and gentle irony, and prose balances luxuriant depiction of flora and fauna with compact, character-driven vignettes.

Noite de finados

A Manoel P. de Carvalho

O cemiterio de Santa Isabel estava cheio de visitantes, todos vestidos de preto, caminhando compassada e vagarosamente por entre as sepulturas. Eram oito horas da noite sob um céo trevoso como a tristeza d'aquellas pessoas que ali se recordavam com saudades pungitivas dos parentes e amigos para sempre occultos debaixo da terra, sobre a qual compridas filas de vélas accêsas lançavam uma claridade intensa, que ia esbater-se ao fundo, na escuridão do mattagal.{56}

O ar estava impregnado do perfume das flôres—piedosamente depostas em cima das sepulturas por mãos amigas,—e do cheiro mystico da cêra queimada.

Ao longe, á direita da ermida, uma banda de musica executava plangentemente uma funeralesca marcha em tom menor, cujas maviosidades lugubres faziam suspirar as velhas beatas,—aspirando a uma outra vida desconhecida, além d'aquelle firmamento negro, no logar onde a omnipotencia incondicional da Divindade lhes parecia dominar em toda a sua magestade.

Entretanto, de espaço a espaço, grandes ondas de povo invadiam o cemiterio. Este, áquella hora, mal podia contel-as; porisso, as pessoas que receiavam um atropello, saíam enfadadas, murmurando indecencias.

Á porta, do lado exterior, cocheiros desboccados conversavam livremente com as pretas sentadas em frente das bandejas de doce allumiadas pelas lanternas que estavam sobre a baeta encarnada. Mendigos repellentes, de vestes sujas e mal cheirosas, plangiam supplicas, tentando demover em seu favor a caridade dos visitantes piedosos.

Alguns vadios encostados a um rico mausoleu de marmore assetteavam olhares torpemente libidinosos ás moças que entravam seguidas de suas mamães, n'um{57} andar assustadiço e saudando um ou outro conhecido com um meneio de cabeça. Mais adeante, n'um canto escuro, uma roliça mulata, com o vestido muito decotado, murmurava amabilidades a um preto de physionomia horrenda empertigado n'um fato novo e com a cabeça coberta por um descommunal chapéu alto. Como contraste, não muito longe, estava uma senhora pobremente trajada, com os cotovellos pousados á grade ferrugenta d'uma sepultura mal allumiada por duas vélas em castiçaes de vidro.

Dos olhos d'ella, que estavam fixos em uma corôa de perpetuas rôxas, corriam lágrymas, que das faces resvalavam-lhe para as delgadas folhas do capim que vegetava entre as junturas dos azulejos desbotados....

Era sem duvida alguma viuva que pagava á memoria do finado marido alguns annos de amorosa e suavíssima coabitação na terra...

Á esquerda, contemplando uma photographia em miniatura encerrada em negro caixilho e suspensa ao centro da cruz d'uma sepultura pequenina e toda coberta de jasmins, trevos, japanas e madre-silvas, via-se uma senhora de cabellos grisalhos, immovel, calada—como evocando passadas scenas de prazer—sem ouvir as plangencias da orchestra, que proseguia no funeral tristonho....{58}

O céo, no entanto, enchera-se d'uma luz suave e esbranquiçada. Grandes nuvens escuras retalhavam-se no azul-ferrete do firmamento, para as bandas da cidade. Um vento frio e murmuroso como um soluço d'almas penadas fazia farfalhar a matta proxima, causando arrepios de mal-estar ás supersticiosas moças que estavam no cemiterio.... Agora calára-se a orchestra.

Subira um prégador para um pulpito armado ao ar livre, sob uma arvore de grande côma sombria, e recitava em voz cavernosa e com largos gestos tragicos, uma homilia contristadora sobre a transitoria felicidade mundana e a perenne bemaventurança celestial.

As mulheres,—mães, filhas, esposas,—que o ouviam, ficavam caladas, muito sérias, com os olhos grandemente abertos fixos em seu rosto bronzeado; no intimo, porém, no fundo da consciencia, levantavam um brado de maldição áquella felicidade que lhes roubára a companhia dos entes queridos e amoraveis.

Um homem de cabeça encanecida, que vagueava levando pela mão uma creança de tenra edade,—um lindo e pallido orphãosinho,—voltou-lhe costas nervosamente, soluçando, e fugiu para junto de um pobre tumulo tranquillo, em cuja grade se lia este lancinante poema de uma só phrase:—Á minha esposa....

No céo, as nuvens afastavam-se, evolavam-se{59} como alegrias fugitivas ou prazeres expulsos, erguiam-se n'uns grandes rendilhados phantasticos de miragens variadas.

A lua appareceu, como uma saudade enorme e cruciante, n'uma serena magestade tumular, que impoz vago soffrimento ao coração de todos. Os brandões e vélas perderam o brilho, ficaram como pyrilampos lantejoulando os sepulchros sob o luar diaphano, a cuja claridade continuava o pregador a recordar a omnipotencia de Deus.

Os bonds estacionados na praça encheram-se de passageiros. Minutos depois seguiam pela estrada da Independencia, replectos de homens, de senhoras tristes, com physionomias de soffrimento.

Chegando ao largo de Nazareth, apearam-se muitos homens. O largo estava illuminado festivamente, cheio de adornos alegres. Era aquella noite a penultima da festa annual.

Então, os mesmos homens que estavam rendendo ha poucos minutos uma saudade á memoria de um amigo, d'um irmão, d'um pae, desciam agora ao centro da festa popular, procuravam as conversas ruidosas, invadiam as casas de jogo,—propellidos pela fascinação demoniaca e terrivel da roleta!{60}
{61}

Rio abaixo

(Ao dr. Gaspar Costa)

A canôa seguia mansamente, per si só, impellida pela correnteza.

Sentado á prôa, fumando n'um cachimbo de longo taquary, o caboclo fitava com o olhar indolente os altos e esguios assahyseiros e as longas folhas das bananeiras d'um verde-claro alegre, beijados pelos ultimos raios do sol, que escondia-se por traz da ilha das Onças.

Na pôpa, debaixo d'uma tolda de palha d'ubim, estava o senhor moço, abanando-se{62} com uma ventarola de pennas vermelhas, ao lado da senhora moça, que espreitava para fóra, por um dos pequenos postigos lateraes. A seus pés, dormitava o cão Mururé, com um pedaço de lingua escarlate caída para o lado esquerdo, entre os dentes meio visiveis.

O cheiro acre da marezia saturava a tolda. Periquitos gritavam nos mattagaes da ilha proxima; cantos sonoros de passaros chegavam até á embarcação, n'uma suavidade docemente melancholica, que fazia sorrir de alegre ternura os dois viajantes.

—Que bonita paizagem, Antonio!

—É certo! Razão tinha eu dizendo-te que gostarias immenso da viagem.

—Quando chegamos ao sitio?

—Ás 9 horas, isto é, d'aqui a tres ou quatro.

—É pena chegarmos tão cedo!

—Dizes bem: vamos tão contentes....

E beijaram-se n'um impeto de prazer extraordinario.

O caboclo, que, por acaso estava a olhar para elles desde alguns momentos, voltou o rosto, embaraçado, sentindo queimar-lhe as tostadas faces um ardor de sangue equatorial em ebulição. Puxou do cachimbo demorada fumaça, para tranquillisar-se.

Os outros, os dois recem-casados,—porque Antonio e Luiza eram noivos: tinham-se matrimoniado quinze dias antes,—experimentavam, debaixo da tolda, uma sensação{63} de ineffavel bem-estar ao verem-se n'aquelle magestoso socego, sobre o Tocantins, dentro da embarcação. Felicitavam-se mutuamente,—com o olhar cheio de caricias,—por haverem podido esquivar-se á vida agitada que levavam em Belém, sempre rodeados de visitas, cujas conversações banaes, nullas, pouco interesse lhes davam. Mas agora,—como iriam viver felizes durante aquella quinzena de fuga, em a tranquillidade bucolica da roça, sosinhos, passeiando sem companheiros importunos, ao longo do rio, tirando caranguejos da lama, lavando reciprocamente as mãos na agua azulada e murmurosa dos igarapés!.... E que festas fariam á hora do jantar, comendo peixinhos pescados por Luiza, e pacas, roliças de gordas, caçadas pelo Antonio nas mattas do sitio?!....

Suggeridas pelo sopro de socego que parecia rodeal-os no meio do rio, estas idéas levaram-n'os a conversar animadamente, risonhamente, sem attenderem a que o sol não mais vibrava os lategos luminosos no dorso da corrente, e que, portanto, poderiam sair para o centro da canôa, afim de gozarem da viração fresca e cheirosa que agitava n'um movimento descompassado as velas mal colhidas ao mastro.

Sempre assentado á prôa, fumando sempre no cachimbo de longo taquary, o caboclo{64} olhava agora para o poente, como confidenciando mentalmente com o sol, que deixára um rastro avermelhado no céo, onde agrupavam-se em desordem nuvemzinhas côr de nácar, violetas, azuladas, plumbeas, côr de perola. Do lado opposto, levantava-se a noite, n'um andar manso, mathematico, extinguindo a pouco e pouco o crepusculo bruxoleante.

O gorgeio dos passaros cessára na ilha das Onças, que já tinha ficado atraz, a longa distancia; só chegavam á canôa os compassos em andante do canto de um carachué que saudava a noite d'uma pequena ilha, rente á qual passou a embarcação.

—Vê ahi no meu relogio que horas são, José, ordenou Antonio ao caboclo.

—Seis e trinta e oito, sinhor.

—Oh! então saiámos d'aqui, filha, vamos tomar fresco.

Vieram para fóra.

Luiza soltou uma exclamaçãosinha, sonora como um soneto de Paulino de Brito, engraçada como uma satyra de Julio Cezar, com a sua voz d'um timbre argentino como um filete de agua morna caindo n'uma banheira d'oiro lavrado:

—Ah!—fez ella.

E deixou-se ficar de pé, encostada ao hombro do marido, extasiada, em frente ao pittoresco panorama que apresentava-se-lhe aos olhos.

Largo em aquelle sitio, achamalotado{65} pela brisa, o rio abraçava numerosas ilhotas rasas, cobertas d'uma vegetação opulenta, que esbatia-se n'uns tons escuros, quasi indecisos, no limite do horisonte. Um socego de tabernaculo reinava por toda a parte, sob o azul ferrete do céo, onde as estrellas começavam a scintillar como as pedras preciosas d'um manto de rainha antiga. Nem uma nuvem occupava n'esse instante um espaço do firmamento. Ao longe, á direita da terra firme, tremulava uma pequena luz. A agua do rio, no fim da vasante, esgueirava-se pelo costado da canôa n'um murmurio dolente. A súbitas, na solemnidade do silencio, resoou um grito d'ave nocturna.

—Accende a lanterna, José,—disse Antonio ao caboclo, que obedeceu logo, voltando depois á sua posição habitual na prôa, fumando.

Antonio e Luiza tinham-se assentado sobre a mala que havia no centro da embarcação, entre dois paneiros de farinha sobrepostos, e uns grandes jarros com roseiras florídas.

Como tivesse refrescado o vento, Luiza sentiu frio, estremeceu. O marido foi á pôpa buscar um chale, cobriu-lhe com elle os hombros, conchegando-lh'o muito ao pescoço, amoravelmente.

Depois sentou-se ao lado d'ella. Era profunda a escuridão. Do logar em que achavam-se, apenas viam na prôa um ponto vermelho{66} como um carbúnculo: o tabaco a arder no cachimbo do caboclo. Este se tornára invisivel na densidade das trevas.

Antonio e Luiza sentiram-se bem n'aquella solidão: entraram a conversar baixinho, muito unidos, de mil cousas que lhes compunham o passado de tão agradaveis recordações. Era para ambos uma innarravel felicidade poderem pairar, assim a sós, das peripecias do curto namôro, dos longos annos que elle passou a amal-a silenciosamente, das emoções e impaciencias do dia do casamento, quando approximava-se a hora em que o parocho de Sant'Anna teria de unil-os.

Soltavam risadinhas indiscretas, acariciavam-se com amor, com delicias, n'uma excitação dos sentidos. Um movimento instinctivo,—inconsciente, talvez; cheio de affecto e volupia, com certeza,—uniu-lhes os labios n'um prolongado beijo de paixão, vibrante como um côro juvenil.

Ouvindo-o, o velho caboclo estremeceu, mudou de posição.

Poz-se a pensar nas passadas e saudosas épocas da sua felicidade, fruída com a finada mulata, a quem tanto queria, no meio da vegetação selvatica e cheia de grandiosidade das florestas amazonicas...

E um suspiro profundo, traduzindo uma saudade dolorosíssima, respondeu áquelle{67} beijo nascido de duas bôccas amantes no silencio de tão linda noite paraense.

Entretanto, a canôa seguia mansamente, rio abaixo, impellida pela correnteza.{68}
{69}

Ao despertar

Ao sr. A. R. d'O. Gomes

Nem tudo o que luze é ouro.
          PROVERBIO POPULAR.

I

A alcova nupcial em noite de noivado.

Um perfume suave de flôres volita invisivelmente pela atmosphera da peça, exhalando-se dos grandes vasos de porcellana, onde as rosas variegadas em côres desabrocham opulentas, reflectindo-se nos espelhos e como espiando curiosas para o leito de alvas cortinas{70} discretamente cerradas... Uma lámpada com vidros baços, côr de leite, esparze branda luz em torno, sem crepitação, n'uma solenne impassibilidade, que dá certo ar magestoso ao silencio do recinto.

Dois pares de pantufos de sêda branca escancaram as cavas como n'um bocejo, sobre a fina alcatifa azul, aos pés da cama.

Em cima do leito, abandonada, a grinalda de flôres de larangeira repousa meio escondida sob um lenço de fina baptista com um monogramma bordado.

Ha quinze minutos que a noiva penetrou no quarto, muito pállida e trémula, seguida pela madrinha, e atirou sobre aquella cadeira preguiçosa o elegante espartilho e o corpinho de labyrintho....

Ha quinze minutos a joven Paula, toda transida ante os mysterios que se lhe antolhavam na vida que ia começar em breve, deixou-se escorregar pelos finos lençóes e descançou a bella cabeça de paraense morena, em cima do travesseiro macio como a flôr do algodoeiro....

E ha dez minutos apenas que o seu noivo, o seu querido Alfredo, entrou a passos leves, amoroso, cheio de grandes anceios, com os labios contrahidos n'um leve rictus de satisfação, de ventura.

Dez minutos antes, elle descerrara as cortinas que se fechavam n'uma pudicicia, e murmurara baixinho, todo emocionado:

—Permittes?....{71}

E agora, emquanto elles dormitam, amorosamente enlaçados, sonhando felicidades paradisíacas, um perfume suave de flôres volita pela atmosphera da peça, exhalando-se dos grandes vasos de porcellana, onde as rosas multicores desabrocham opulentas, reflectindo-se nos espelhos e como espiando curiosas para o leito de alvas cortinas discretamente cerradas.

II

O casamento realisado n'aquelle dia fôra o epilogo de um longo namoro de seis annos, muito abundante em peripecias interessantes, como indisposições subitas, brigas e malquerenças de alguns mezes por causa de nonada, e, depois, de repente, pela influencia de não sei que espirito benefico, pazes feitas com abundantes expansões apaixonadas, reconciliações ternas e carinhosas, que os prendiam temporariamente n'um enlevo.

O pae de Paula era um velho capitalista retirado dos negocios, brazileiro obeso e rubicundo a destillar suor e essa satisfação{72} do homem rico que vive contentíssimo da sorte.

Creara para a filha um ideal—um casamento com um bacharel. Similhante aspiração, incontestavelmente modesta, fizera o velho procurar certa roda, para a frequentar, quando a filha chegou aos 15 annos. Viuvo,—a mulher morrera-lhe de parto, ao dar á luz um ente rachítico, inviavel,—deixava a filha nos salões e ia procurar as mesas de jogo, para encurtar o tempo.

Assim andaram os dois, por espaço de muitos mezes, em verdadeira peregrinação á cata de casamento, quando, afinal, a sorte quiz attendel-os e appareceu-lhes na fórma de um elegante mancebo, que dias antes chegara de Pernambuco, sobraçando o pergaminho que lhe conferia o titulo de bacharel em direito. O dr. Alfredo sentiu-se captivo das graças de Paula. Aquella cutis morena e avelludada; os olhos d'ella,—duas bólas d'onix engastadas em amendoas de jaspe, sombreadas por longos cilios sedosos;—os longos cabellos d'ébano, ondeando-se-lhe pelas espaduas de farta carnação; aquelle bonito torso de opulentos seios na apojadura da juvenilidade;—tudo n'ella prendia-lhe o enamorado espirito em os laços d'uma paixão tão sincera quanto profunda. Mas, sobretudo, o que mais o encantava, aquillo que mais o arrebatava a grandes êxtases gososos, debuxando-lhe nos labios um sorriso espiritualisado e{73} prenhe de beatitude, eram os alvos dentes que perlavam as carminadas gengivas d'ella, quando Paula fitava-o sorrindo, com duas covinhas sobre as faces, bem junto ao rosto d'elle, como desejando magnetisal-o.

Uma tarde, após haver contemplado os dentes da noiva por muitas horas, foi para casa com a alma perfumada pelo prazer e tão enthusiasmado sentiu-se, que sentou-se á secretária e entrou a fazer uma poesia,—elle que jámais fizera versos!—uma poesia em que abundavam as palavras—seductora virgem, divinal espirito archangélico, em uma terrivel mescla d'enormes pés quebrados, com grande escandalo das regras formuladas por A. Feliciano de Castilho.

Finalmente, chegou o almejado momento do enlace matrimonial.

Preparando-se afim de ir para a egreja, Alfredo só pensava nos dentes da noiva, n'esses bellos dentes muito brancos e pequenos que tanto o encantavam.

E phantasiava um capricho, cuja lembrança era sufficiente para lhe dar ao corpo agradaveis tremores e arripios: a si mesmo promettia que o primeiro beijo que désse á mulher seria nos dentes, bem no meio da bocca!

Afinal, aquelles dentes eram uma obsessão para Alfredo. Para qualquer parte que volvesse os olhos, parecia-lhe avistar os dentinhos de Paula sorrindo-lhe amoravelmente,{74} incitando-o a uma tentativa agradavel de roubo de um ósculo. O colete, que elle enfiava n'esse instante, assumia a apparencia de uma dentadura mordendo-lhe nos hombros, perto dos quaes pulsava o coração, arfando em anhelos. E, quando o padrinho appareceu entre as coiceiras da porta, para lembrar-lhe que já era tempo de ir para a egreja, estava tão abstracto da vida regular, tão concentrado em suas phantasiosas meditações, que abraçou-o commovido, murmurando:

—Que bella dentadura, que tens!

III

Na egreja e á ceia opipara que seguiu-se á ceremonia religiosa em casa do velho pae de Paula, durante a longa e—para elle,—enfadonha conversação subsequente na sala, sob a claridade dos muitos candelabros, Alfredo só pensava na dentadura da noiva, enterrado n'uma poltrona, com a fronte meditativa, que fazia os convidadas murmurarem baixinho, ao ouvido, com um sorriso eloquente por traz do lenço amarrotado{75} na palma da mão, opiniões em nada favoraveis á sua reputação de sobriedade em assumpto de succo de uva....

—Que te parece o gajo, hein?—diziam.—Pois isso é lá cousa que se faça? Embebedar-se no dia do casamento....

—Que escandalo!

—Grande c.... O que elle merecia eu bem sei.

E seguiam por esta norma os commentarios—todos reçumando idéas gordurosas e indecentes.

Quando retirou-se o derradeiro convidado, Alfredo suspirou de contente, muito lisongeiado pelas felicitações que lhe foram feitas, com acompanhamento de expressivos beliscões pelos braços e nas gordas bochechas. Afinal, somente faltava-lhe descartar-se do velho sogro que, impassivel como um abbade após a ceia, fumava a um canto, affagando com amortecido olhar a fumaça do charuto, além de forcejar por combater a força dos vapores alcoolicos que lhe subiam ao cerebro, em razão do abuso que antecedentemente fizéra das bebidas, á mesa, quando brindára, com exuberante vehemencia de gestos e linguagem, ao chefe politico do partido e ao Manoel{76} do Rosario, o commerciante que não trepidava em tomar-lhe dinheiro a juros de 30%, nas occasiões de aperto....

 

Que elle, Alfredo, devia, e com muita razão, sentir a impaciencia espicaçar-lhe as costas,—ponderou de repente o sogro, sorrindo malicioso;—que não se enfastiasse, porém, visto como ainda lá estava na alcova a madrinha de Paula, a preparar-lhe a toilette. Era natural aquillo tudo, elle bem sabia como eram essas coisas, porque tambem por ellas havia passado.... Que bom tempo aquelle e que bella noite de hymineu elle tivéra nos braços da sua Sancha, uma odivellense tentadora como um demonio formoso!.... Coitadinha! quantas saudades lhe fazia a evocação da memoria da esposa! Como tinham vivido felizes, n'uma pacata amizade inalteravel, abundante em amorosidades agradaveis e interminas! Que elle, dr. Alfredo dos Anjos, devia tratar de imital-o, para fazer a felicidade d'aquella creaturinha innocente e sem defeitos physicos ou moraes que d'aquelle dia em deante devia ser sua mulher. Que a poupasse, que lhe não desse trabalho em demasia para não a fatigar: o dóte d'ella unido ao dinheiro que elle tinha, poderia porpocionar-lhes uma existencia descuidosa nos braços d'uma indolencia salutar propicia á gordura....

E entrava em demoradas considerações{77} a respeito da bôa vida,—como sectario da vadiação, que era.

Appareceu n'esse instante a madrinha, despedindo-se logo, pretendendo recolher-se ao quarto que lhe fôra destinado para passar a noite em casa dos noivos.

Alfredo não quiz ouvir mais: ergueu-se de salto, deu um abraço ao velho e correu á alcova pensando sempre, cada vez com maior insistencia, nos bellos dentes de Paula.

IV

A alcôva nupcial na manhã seguinte ao dia do casamento.

Pela janella deixada entreaberta, um raio de sol penetra na peça e vae beijar as rosas de varias côres que, emergindo de grandes jarros de porcellana, pendem as frontes fanadas, receiosas de se mirarem aos espelhos, como invadidas por um pudor, em razão dos amorosos ruidos que durante a noite inteira sairam, por intermittencias de longos socegos, d'aquella cama honestamente encoberta pelos discretos{78} refolhos das cortinas cerradas. Ao longe, no quintal, gallos cantam alegremente, cumprimentando o sol e fazendo a côrte ás gallinhas, que cacarejam esgaravatando o chão.

E um como effluvio de ventura evóla-se pelo aposento....

E a luz da lampada de vidros fôscos diminúe de intensidade, bruxolêa palpitante, ameaçando extinguir-se....

Em cima da commoda, a grinalda de flôres de larangeiras occulta-se mais debaixo do lenço de custosa cambraia, como envergonhada, ou como enxugando n'elle as lágrymas que o espirito da Pureza houvesse porventura derramado sobre suas pétalas inodoras....

Aos pés da cama, perfilados sobre a fina alcatifa azul, os pantufos de sêda branca escancaram as cavas, n'uma expressão de abhorrecimento pela demorada immobilidade, n'uma expressão de appello aos pés que devem calçal-os.

De repente sae do leito um suspiro mais profundo, o bocejo de quem desperta. E o cortinado descerra-se um pouco, para dar passagem ao joven noivo, em cujos labios se desenha um franco sorriso de satisfação intima. E lá dentro, na meia sombra que as rendas projectam, dorme ainda a formosa Paula, semi-núa, no inconsciente despudor de um somno que foi agitado...

Alfredo olha para todos os lados, muito{79} contente e risonho. Ao ver o raio de sol que beija-lhe as plantas, estremece de jubilo, gosando a sua ventura n'um devaneio de grande felicidade por vir.... Mas de subito, estarrecido, confuso, muito pállido e crispando as mãos, entra a tremer todo, com as feições demudadas, os cabellos arrepiados na cabeça encandescida!

Á cabeceira do leito, sobre o elegante guéridon de jacarandá, estava uma dentadura patenteiando um céo de bôcca postiço e acinzentado, feito de massa!.....

E aquella monstruosidade era de Paula, elle bem a conhecia pelos pequeninos dentes eguaes e perfilados correctamente....

Então, sentindo enormes dôres em todo o sêr, com o espirito prostrado pela emoção violentíssima, Alfredo cambaleou, soluçando, e foi caír á beira do leito, lavado em lágrymas, a murmurar n'um gemido:

—Estou roubado, estou roubado!{80}
{81}

Poemetos em prosa

I
Bidinha

A Mucio Javrot

Aquelles versos terníssimos, d'uma inspiração ideal e faceira, haviam-lhe feito comprehender que o poeta amava-a. Sem o sentir bem, ella começou a amal-o, a amal-o tambem.... Quando, por acaso, encontrava-o em casa da prima, córava, julgava soffrer e gosar a um tempo e entrava a fital-o amoravel{82} e longamente, com essa persistencia abstracta dos verdadeiros extases apaixonados....

O poeta conheceu não ser indifferente áquella moça tão pállida, tão triste, cujo olhar tinha os fluidos voluptuosos das paixões ardentíssimas...

E, não sei bem porque, fugiu-lhe: passou um mez sem ir á casa da prima da Bidinha, para não vel-a. Depois, de si proprio envergonhado, lá foi e encontrou-a, mais pallida ainda.... e com os olhos,—aquelles tentadores, faiscantes olhos eloquentes,—mais, muito mais bonitos... Teve pena d'ella: n'um momento em que ficaram sós na sala,—onde rescendia o perfume d'um ramo de resêda posto n'um jarro em frente ao retrato d'uma velha senhora de fronte enrugada e olhar suave—declarou-lhe amal-a desde muito, intensamente.

Ella, a Bidinha, a pállida donna do álbum que recebêra aquelles ternissimos versos, d'uma inspiração idéal e faceira, sorriu, estremeceu e murmurou apenas quasi inintelligivel som.

D'ahi em deante, a felicidade uniu-os sempre em amorosos colloquios nocturnos, em aquella mesma sala.

*
*      *

Tempos depois, teve o poeta de fazer uma viagem. Os protestos de mutua fidelidade{83} foram longos, como longa deveria ser a ausencia. Dando-lhe o aperto de mão de despedida, quasi desfallece a Bidinha, tal foi a angustia que atravessou-lhe o coração!

*
*      *

Por um artificio da sorte, o poeta esqueceu-se da encantadora creança a quem jurara amor perante o retrato da velha senhora de fronte enrugada, emquanto rescendia na sala o perfume d'um ramo de resêda.

Ella esperou-o durante mezes, durante annos.... Oh! lancinante dôr das longas espectativas!... Espera-o ainda....

Á tarde, quem fôr ao pequenino quintal da casa d'ella, poderá vel-a sentada sob um grande jasmineiro estendido ao longo de vasta latada,—com o olhar suave e tristemente fito nas paginas d'um album, soluçando baixinho palavras de saudosa recriminação.

Aquelles versos terníssimos, d'uma inspiração idéal e faceira, haviam-lhe feito comprehender que o poeta amava-a!...{84}

II
Paraphrase ossianica

A Frederico Rhossard

Ó bella, ó seductora Malvina, sae do teu refugio nocturno, desce do rochedo sinistro onde o vento-norte ruge em torno de ti. Acerca-te de mim.

Inflammados sulcos os phantasmas dos mortos traçam sobre as nossas torrentes. Ouço-os passar no meio dos turbilhões e suas vozes fanhosas são os unicos sons a perturbar o magestoso socego das trévas.

Ó tu, cuja mão branca e delicada desferia melancholicos gemidos nas harpas de{85} Lutha, tenta ainda consolar-me com teus hymnos poeticos e dolentes. Desperta essas cordas adormecidas, canta, ó Malvina, e reaviva o meu genio, cuja chamma foi sopitada pelos annos implacaveis.

Vem a mim, ó Malvina gentil, na obscuridade d'esta longa noite que entristece-me. Porque privaste-me da meiguice de teus cantos! Quando o regato cae na colina e róla, depois do furacão, sob a luz radiante do sol, o caçador escuta-lhe com prazer os suaves murmurios, sacudindo a humida cabelleira.

Assim a tua sonorosa voz, Malvina, encanta o amigo dos finados heróes. Infla-se meu peito; o meu coração palpita. Delinêa-se a meus olhos o passado. Vem, ó Malvina, não divagues mais no meio das ténebras!{86}

III
O parocho da aldeia

Ao Padre Dr. Leorne Menescal

É a providencia da pobre aldeia aquelle joven sacerdote de tez morena e olhar carinhoso como um conselho de Jesus.

A sua parca mesa está sempre ás ordens dos mendigos, a sua porta aberta sempre aos viajantes, a sua bôcca incessantemente murmura consolações ás pessoas que soffrem.

Muitas vezes, alta noite, vão chamal-o para ministrar os socorros da religião a algum enfermo, em qualquer das aldeias{87} que formam a serrana freguezia. Então, levanta-se ás pressas, monta a cavallo e lá vae montanhas fóra, a galope, ladeando tenebrosos precipícios, sob a chuva, tiritando de frio, impassivel como um heróe e contente comsigo mesmo, sentindo-se alegre por ir cumprir um dos mistéres que lhe impõe a sua profissão, tão bem comprehendida por sua bella alma!

Nada o assusta, nada o intimida, pois tem a certeza de que todos aquelles montanhezes simplorios amam-n'o sinceros e respeitam-lhe os conselhos de paz e bondade.

Quando começou o movimento abolicionista na Fortaleza, o recto sacerdote arvorou-se em defensor dos escravisados na sua modesta parochia da serra de Baturité. Em poucos mezes, graças a seus esforços e á illimitada sympathia que a todos inspira, as aldeias sob o seu vicariato não tinham um sêr captivo: todos eram eguaes!

Quando sae de casa, encaminhando-se á pequena egreja, cuja torre branca de neve lança-se para o firmamento no alto de verdejante collina, as creancinhas, que bricam ás portas das casas, acodem a beijar-lhe a mão e as mães saudam-n'o respeitosas, balbuciando uma benção....

Aos domingos, á prédica do Evangelho, vi-o, por differentes occasiões, fazer com a uncção de sua palavra, que as lágrymas borbulhassem nos olhos dos assistentes. Domina-os a todos com o seu irreprehensivel{88} modo de viver, fertilíssimo em bons exemplos.

Nada possue: dá tudo aos necessitados, sem ostentação, naturalmente!

Ah! bemdito sejas tu, Providencia da pobre aldeia, ó caritativo sacerdote de tez morena e olhar carinhoso como um conselho de Jesus!....{89}

IV
Ao Sol
[2]

A Fernando A. da Silva

Ó tu, que rolas por cima de nossas cabeças, resplandecente como o escudo de nossos paes; d'onde saem os teus raios, ó sol? D'onde vem a tua luz? Caminhas em tua magestosa formosura. Vendo-te, escondem-se as estrellas no firmamento; pállida e fria, a lua afoga-se nas ondas do occidente. Ficas sosinho, ó sol: quem poderia acompanhar-te o curso?{90}

Caem os carvalhos das montanhas; as proprias montanhas são minadas pelos annos; o oceano eleva-se e abaixa-se alternadamente; a lua eclipsa-se no fundo dos céus; só tu és sempre o mesmo.

Alegras-te sem cessar em tua brilhante carreira. Quando o mundo está sombrio pelas tempestades, quando o trovão ribomba e vôa o raio, saes radiante do meio das nuvens e ris do furacão!

Mas, ai! em vão brilhas para mim! O velho bardo já te não vê os raios, quer fulja a tua doirada cabelleira entre as nuvens do oriente, quer trema ás portas do poente a tua luz bruxoleante.

Mas talvez, como eu, só possuas uma estação e teus annos terão um termo: virá talvez um dia em que empallideças no meio da carreira e a aurora proxima em vão esperará o teu regresso.

Regosija-te, portanto, ó sol, na força da tua juventude! A velhice é triste e abhorrecida: parece-se com as tíbias claridades da lua, as quaes perdem-se entre nuvens dilaceradas pelo vento norte, quando este semeia ao longe as estevas murchas, quando o humido nevoeiro envolve a collina e o viajante transido tirita nos caminhos desertos....{91}

[2] Vertido de Ossian.

V
Remember

A Paulino de Brito

I

Não tens então no peito a minima raiva contra mim?—perguntei-lhe admirado, fitando-a todo commovido pelo prazer das recentes pazes.

—Não! confirmou a rir, sacudindo a loira cabecinha tentadora, onde os loucos anneis dos seus cabellos tremulavam faceiros, n'uma opulencia, n'uma prodigalidade de adoraveis effluvios fascinadores. E toda a sua pequenina pessoa,{92} delicada e meiga, parecia desabrochar as florescencias gentis das suas graças, dos seus divinos dotes triumphantes em meio á pujança da invejavel mocidade!

—Pois bemdita sejas tu, candida e pura, amada e amante virgem, que tanta bondade tens n'alma, quantas são as seducções capitosas do teu bello rostinho, coroado d'esses loiros cabellos, cujos anneis, loucos e faceiros, tremulam opulentos, em adoravel prodigalidade de fascinadores effluvios!—retorqui arrebatado em grande enthusiasmo, attraíndo-a castamente para mim, n'um impulso de gratidão, ainda todo commovido pelo prazer das recentes pazes.

E assim ficou justificado e perdoado o meu primeiro atrevimento, que manifestara-se no roubo d'um beijo,—d'um pequenino beijo fugitivo,—áquella bemdita virgem, candida e pura, cujo delicado corpo como que desabrochava as divinas graças triumphaes em gentis florescencias de invejavel juventude pujante!

As rosas pareceram agitar-se nos verdes ramos, espreitar maliciosas esse enthusiasmo da minha amante virilidade em face das seducções capitosas de tão bello rostinho!..

II

Mas anoitecêra de todo. A latada que nos abrigava com os seus floridos jasmineiros{93} rescendentes maior escuridão communicava á parte do jardim onde haviamos feito pazes, após o intemerato roubo de um beijo colhido nos rubros labios mádidos da minha pequenina amante fascinadora.

Um silencio embaraçador enleiava-nos em tíbia indecisão. A loira cabecinha d'ella descansava indolente no meu hombro, com os lindos anneis undiflavando-se-lhe tranquillos, concentrados, ao longo das correctissimas espaduas.

E uma tentação chegou-me a súbitas, sob a latada que abrigava-nos com seus rescendentes jasmineiros floridos, entre o silencio enleiando-nos embaraçadoramente em tíbia indecisão.

Já tinha-se curvado a minha fronte para a loira cabecinha a descançar-me no hombro, indolente e concentrada, e um desejo de intemerata relapsia assaltava-me poderoso, induzindo-me a colher novo beijo,—um fugitivo beijo pequenino e casto,—nos humidos labios da minha gentil e tentadora amante.

Ella, porém, de salto ergueu-se, vibrante e nervosa, rapida e precavida. Uma das mãos subiu-lhe célere á altura da cabeça, ameaçadoramente. Bateu o pésinho, n'uma expansão de enfado incipiente....

—Se reincidir, não perdôo mais!—exclamou, avisando-me, com a voz ainda repassada de toda a indolente volúpia de pouco antes e fugiu-me das mãos extendidas{94} nervosamente, mais rapida que esses doces momentos de goso que me concedeu, emquanto descançava a fronte no meu hombro, com os formosos anneis da adoravel cabecinha louca undiflavando-se-lhe tranquillos pelas correctíssimas espáduas.

Deixei-me ficar, triste e concentrado, sob a perfumosa latada, em meio á escuridão, recordando o prazer das jubilosas pazes feitas após o roubo de um beijo,—do primeiro beijo, pequenino e casto,—aos ardentes labios mádidos da minha bemdita virgem.

E as rosas pareceram agitar-se nas verdes ramas invisiveis quasi, n'um recolhimento compadecido, lamentando a inutilidade da minha juventude em face do capricho d'aquella pequenina cabeça loira, de triumphantes graças capitosas, que só admittira e perdoara o meu primeiro atrevimento... ainda tão innocente e retrahido!...{95}

O preço das pazes

A J. A. Pinto Barbosa

I

O meu amigo Ernesto accendêra um charuto, concertára o pince-nes sobre o espirituoso nariz arrebitado; accommodou-se melhor na vasta poltrona, muito fôfa, em que estava sentado deante de mim e começou:

 

—Pois vou referir-te o grande caso a que ha pouco alludi, á mesa, sem poder contar-t'o inteiro, pela importuna presença d'aquellas senhoras.{96}

Afigura-te ao espirito, meu amigo, a mulher mais bellamente divina e mais divinamente fascinadora que possa existir: alta, esbelta, de corpo dotado de umas adoraveis redondezas triumphantes; cutis morena, avelludada; olhos negros e brilhantíssimos,—como duas caçoilas de mysteriosos philtros embriagadores;—cabellos muito pretos e ondeados, rescendentes a bôa olencia de selvática baunilha; um donaire, uma soberania inteira de magestoso porte e fidalga apresentação captivante, capaz de enleiar-nos em toda a série de crimes que ao humano pensamento é dado formular em dias de tôrvas reflexões e sinistras ebriedades peccaminosas: uma revelação pasmosa, um exemplar perfeitíssimo da mulher-unica, da mulher-incomparavel, o archétypo da elevação dos dotes, a civilisada manifestação das nossas lendárias yáras amazonicas! E, a par de tudo isso, um espirito cultivado, uma illustração perfeita de erudita, conversas seductoras borbulhando entre uns dentes alvíssimos, pequeninos e eguaes, feitos de puro marfim, d'uma alvura de leite, engastados em formoso coral, brilhante como os róseos labios humidos da microscópica boquinha sombreada d'um leve buço,—o complemento da seducção, o requinte da tentadora volupia d'aquelle delicioso ser. Imaginaste? Pois bem; assim era a Marócas, a esposa do altivo general Bandeira,{97} velho quinquagenario d'elevada riqueza materialisada em appetitosas centenas de contos de réis, depositados nos principaes bancos do Brazil.

Comprehende agora, depois do que tenho vindo a dizer-te, emquanto a azulada fumaça d'este charuto caprichosamente descreve espiraes no espaço, como poderia amal-a o esposo, vendo-a tão nova, a seu lado, toda entregue a seu amor,—desde os timidos beijos assustadiços repentinamente dados, ás vezes, no vão de qualquer janella dos aposentos desertos de enfadonhas testemunhas, até ao completo desnuamento arrepiado e perfumoso, muito encolhido e cálido, que apresentava-lhe na mysteriosa liberdade pacifica da recatada alcôva, alta noite, com a sua elevada estatura de lyrio a erguer-se, entre neves de rendas, diffundindo aromas que sabia embriagadores, irresistiveis.

Uma fascinação, aquella dupla existencia de accendrado amor. Mutuos caprichos eram satisfeitos com afan, com orgulho, como quem dedica-se a todos os sacrificios para conquistar uma estima á força de constantes provas de louvavel desinteresse.

Confesso não ter ainda visto a repetição d'aquella invejavel existencia d'affectuoso enlevo,—elle no declinar da vida, ella em toda a maravilhosa florescencia dos seus vinte e cinco annos. Passava horas inteiras a contemplal-os, absorto na admiração d'essa{98} alheia felicidade que fazia-me venturoso,—tanto é certo que uma perfeita harmonia de suave existencia rica de affectos possue o dom de espalhar ao redor de si um como jubiloso transbordamento do seu excesso.

Muitos annos haviam já passado, desde que o matrimonio os uniu, quando Marócas fizéra o seu decimo quinto anniversario,—e nem um só instante o arrependimento lhes chegára de se terem para sempre ligado por um prematuro enlace sacramental: era a sua vida actual como a fiel reproducção do dia em que, pela vez primeira, acordando na penumbra da discreta alcôva, deram-se, entre dois beijos pouco ousados ainda, o amoravel tratamento de esposo.

Verdadeiramente admiravel, não achas?

II

Mas houve um dia em que a primeira nuvem d'uma indisposição fluctuou, soturna e lugubre, no bello ceu, puramente azul, da tranquilla felicidade jubilosa de ambos.

Foi uma verdadeira desgraça suscitada{99} por um capricho desarrazoado da formosa mulher do general. Elle tivera o arrojo de negar-se,—pela primeira vez, é certo,—a satisfazel-o, e a Marócas soffrera em cheio no coração a dureza da áspera repulsa. Longos fios d'interminaveis lágrymas deslisaram-se-lhe dos grandes olhos tentadoramente languidos, pisando-os com força, circulando-os das roxas manchas tristonhas que têm os infelizes habituados ao pranto.

Mas esta manifestação de fraqueza apenas algumas horas durou,—emquanto o velho general, encerrado no seu quarto particular, trilhava a passos desmarcados o soalho, já meio arrependido da quasi brutal violencia com que resistira ao serpentino ataque fascinador da idolatrada esposa.

Depois veiu a reacção, em seguida á crise hysterica dos abundantes prantos silenciosos. Uns assomos de magestosa indignação, muito concentrada e muda, chegaram-lhe por fim, segredando-lhe mentalmente duros meios de infligir ao marido memoraveis ensinamentos de justas represalias.

E a Marócas prometteu elevar-se acima de si propria, ser tão rispida como brutal havia sido o incivil do general.

Ai, meu caro amigo! Foi severa a licção! O pobre general Bandeira mais d'uma vez sentiu-a espicaçando-o, quando o despeito da Marócas, ao fim da primeira semana, obrigava-o ainda a passar as noites sosinho{100} em seu quarto,—n'uma triste solidão de viuvez frigidissima...

Tentou o velho militar soffrer a dura necessidade, resistir-lhe com valentia, refreal-a dominada no fundo de seu sêr. Seria possivel que não tivesse a força de vencer-se, elle, o illustre soldado de quem tanto temiam os paraguayos, annos antes, nas selváticas solidões onde o nosso exercito ferira tão sanguinolentos combates contra as guerrilhas do valente Lopez?

Mas, pouco depois, aquellas enthusiastas resoluções enfraqueceram, como cae uma véla, enrugada e palpitante, ao longo do mastro, ao faltar-lhe subitamente o preciso bafejo galerno de murmurosa brisa.

O general desejou capitular, ne extrêmo das forças. Um arrependimento, cujo peso a necessidade tornava insupportavel, chegou-lhe após essas momentaneas resoluções de superiores resistencias... impossiveis n'aquelle pobre e velho espirito d'homem tolamente embeiçado pelas captivantes graças da mulher.

Com effeito, capitulou.

Uma noite, quando os corredores abandonados não repercutiam mais os passos das escravas e uma luz baça côava-se pelos fôscos vidros de lampadas discretas, saíu cauteloso da sua alcôva e, com o coração a pulsar violento, dirigiu-se ao quarto da mulher.

Á porta, parou, indeciso.{101}

Um rumor d'agua revolvida vinha pelo intersticio das folhas de madeira entre-cerradas, em mescla a um suave aroma de japana e mangerona sensualmente esmagadas em opoponax, diluidas na doce tepidez da agua.

Marócas tomava o costumado banho da noite, com a porta aberta, na simples ingenuidade descuidosa da sua tranquilla innocencia de mulher que em nada de mau pensa.

Quiz o velho retroceder, porventura ruborisado do passo que estava dando. Sem o desejar, espreitara pela frincha da porta, e um bello corpo, feito d'ámbar e leite, emergia da banheira, no meio do quarto, vaporisando a tépida emanação subtil das suas frescas, rosadas carnes bellamente seductoras e deliciosamente juvenis.

Um desejo brutal incendiou-lhe o sangue, ao tempo que as narinas, afflando precípites, aspiravam com vigor o aroma das excitantes plantas. Empurrou a porta, correu para junto da mulher e lançou-se-lhe aos pés, choroso, supplicante, todo caricias e doces palavras bondosas, impetrando o perdão, solicitando um armistício, pedindo pazes selladas com a ardencia d'uma deliciosa e suprema compensação!

Ella, porém, a Marócas, impassivel e impertubavel—ao tempo que envolvia-se toda em fino lençol de transparente cambraia, n'um gracioso rubor de impeccavel{102} donzella,—estendeu o braço para a porta e, mostrando-lh'a, disse ao general estarrecido:

—Retire-se, cavalheiro! Seja digno de mim, conquiste-me, se quizér apparecer n'este quarto no caracter de esposo idolatrado.

E elle teve de saír,—ao reconhecer a impossibilidade de persistir n'uma resistencia, que só poderia ser-lhe prejudicial.

III

O velho Bandeira, nos dias subsequentes, dava-se a perros para descobrir um meio bastante forte, pelo qual podesse alfim rehabilitar-se perante a mulher, sem, todavia, encontrar um expediente, que triumphantemente o salvasse da terribilíssima colisão.

Presentes, fez-lhe, e muitos e valiosíssimos: sêdas, joias e finas pedrarias em todo o Pará não houve, que logo as não comprasse profusamente, para amimar a caprichosa Marócas, reclusa em forte baluarte de duras reservas embaraçadoras. Nada{103} conseguia, senão augmentar o proprio desespero, em que tambem dissolvia-se uma pontinha de enrubecida vergonha, pela capitulação a que estava a sujeitar-se, com toda a mesquinhez das pequeninas baixezas.

Um caso fortuito, porém, veiu livral-o d'apuros, quando o soffrimento pesava-lhe já como a brutalidade esmagadora d'um bloco de granito atado aos hombros desformados de mísero anão corroído por toda a série das enfermidades secretas.

Aconteceu que, n'aquelle mesmo tempo, fôra o general Bandeira convidado para examinador de mathematicas, durante os exames da commissão especial da delegacia geral da instrucção secundaria do municipio da côrte,—essa creação absorvente e desconchavada, que tira toda a força autonómica dos nossos lyceus provincianos, reduzindo-os ás simples e modestas proporções de insignificantes escholas de primórdios scientificos e litterarios, destituidos do mínimo valor perante as academias superiores do Imperio...

Mas dispensemos esta tirada pedagógica, meu excellente amigo, e continuemos na exposição dos acontecimentos que prometti referir-te.

O general acceitára e convite com extraordinario gaudio do delegado especial, a quem eram familiares os inflexiveis rasgos de rude catonismo do Bandeira. Disposto a{104} conservar as suas tradições de severo examinador, preparava-se para dirigir-se ao Lyceu, no dia marcado, quando—oh! admiração!—appareceu-lhe no quarto a mulher, a Marócas, arrastando um longo penteador de batista, ornado de finas rendas sobre o cólo, por cima das mais appeteciveis redondezas túrgidas que é possivel imaginar.

Trémulo, o velho, que n'esse mesmo instante havia accendido um charuto, esqueceu-se do lado em que lhe transmittira a luz do phosphoro e enterrou-o desgeitosamente na bocca, em sentido opposto áquelle de que deveria servir-se para fumar satisfactoriamente.

O contacto do fogo na lingua obrigou-o a dar enorme pulo, que estabeleceu entre elle e a Marócas uma distancia consideravel.

A Bandeirinha sorriu do ridiculo do acontecimento; mas, cravando logo os dentes nos diminutos labios vermelhos como papoulas, conservou a necessaria seriedade e acercou-se mais do marido, reconquistando o espaço que approximava-a d'elle.

Depois, disse, estendendo-lhe um cartão de visita:

—Váe hoje examinar mathematicas, general?

—Vou... sim...

—Pois então, este moço irá fazer exame por mim...

—?...{105}

—Ouviu...?

—Sim.

—Veja lá como se porta. As mathematicas não são o meu forte. Eu não estou muito habilitada.

E, sem attender ao general, que tentava protestar por aquelle assédio, por similhante reclamação de um escandalo impossivel á sua severidade, a bella Marócas fugiu a correr nos bicos dos pés, arrastando a cauda do penteador, diffundindo no quarto um cheiro innominado de roupas brancas, essencias boas e rijas carnes feminís e jovens.

IV

Chegando ao Lyceu, o general consultou furtivamente o cartão que lhe entregara a mulher:

Antonio da Silva Larangeira{106}

Encaminhou-se ao grupo de examinandos e perguntou pelo sr. Larangeira. Apresentou-se-lhe um rapazelho espigado e pallido, de cabellos á quirirú, olhos arregalados e unhas sujas, orladas de escoriações na derme. Que era elle proprio, sim senhor. E uma vóz fanhosa, cheia de bajulações servilíssimas, resmoneou a pequena phrase affirmativa, solicitando ali, em sua exaggerada affabilidade, a complacencia do examinador.

O general voltou-lhe costas, com a garganta apertada pela commoção, mal resistindo ao desejo de esbofetear sem clemencia aquelle vadio que tivéra o arrojo de ir apadrinhar-se com a sua Marócas, para induzil-o ao crime d'uma indignidade—arrastal-o a quebrar os seus votos de severa justiça de indomavel rispidez com os estudantes.

D'ahi a pouco, foi chamado ao exame oral o sr. Larangeira, cuja prova escripta não poderia ser peor. Escusado é dizer-te que o pequeno espesinhou a sciencia com toda a coragem d'um preparatoriano ignorante. Como, porém, desempenhava ali as altas funcções de representar a bella Marócas, á falta de Minerva, o general deu-lhe boa nota e muito empenhou-se para que a indulgencia dos demais examinadores salvasse da guilhotina o infeliz.

Ao regressar a casa, encerrava-se o general em seu quarto, quando appareceu-lhe a esposa, sempre seductora e rescendente{107} a gratos perfumes finíssimos, Couro da Russia, e jasmim do Cabo.

—Então?—perguntou ella meio-rindo.

—Approvado, affirmou o general deixando pender a cabeça, desfallecido,—talvez envergonhado da sua fraqueza, córando porventura de não haver opposto resistencia á tentação.

—Oh! bello! bello!—gritou a Marócas, lançando-se-lhe ao pescoço, beijando-o com frenesi, apresentando-lhe á flor do rosto—á ponta do nariz—os lindos pomos entumecidos, alvejando sob o fino tecido das rendas que ornavam o penteador sobre o peito.

Elle abriu os braços, recebeu-a como dentro de si proprio, n'um grande amplexo nervoso—a manifestação penultima do seu intensíssimo desejo de reconciliar-se com a mulher.

Ella impellia-o, devagarinho porém incessantemente, para o sofá perfilado junto á secretária do general, acarinhando-o com o olhar, com a voz, com os labios estendidos em titubeante murmurio voluptuoso.

Mas o velho deteve-se de repente, como transformado em estatua. Immovel, silencioso! So as palpebras tremiam-lhe precipitadamente. Afinal, duas grossas lágrymas escorreram-lhe dos olhos, muito grandes, muito lentas.

—Que tens? inquiriu ella, assustada,{108} beijando-o sobre uma orelha, amimada e tentadora, infantilisando a voz, que logo tomou dulcíssima harmonia.

—Penso que muito caras custaram-me estas pazes, meu amor. Um escandalo, aquella approvação!

—Ah! volveu ella, abraçando-o com força, reconquistando-o, reconduzindo-o para o sofá, espiritualisada de prazer, sorrindo extranhamente.

E após um instante empregado em oscular a fronte encanecida do esposo,—caíndo ambos para o sofá hospitaleiro—murmurou-lhe ao ouvido, entre um rugeruge de roupas:

—O que é bom custa caro!{109}