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Contos Paraenses

Chapter 41: II
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About This Book

A collection of short stories set in the Pará region that sketches everyday life and encounters between locals and newcomers, combining vivid natural description with anecdotal episodes. The pieces foreground tropical landscapes, riverine scenes, and sensory detail while following conversational, reflective narrators whose reminiscences and small adventures reveal local customs, personal ambitions, economic ventures, and erotic tensions. Tone shifts between wry humor and gentle irony, and prose balances luxuriant depiction of flora and fauna with compact, character-driven vignettes.

Historia incongruente

Ao dr. Franklin Tavora

I

Desde alguns dias andava triste, apprehensivo e taciturno o coronel Fonseca.

A paizagem alegre que cercava a fazenda já não tinha o poder de evocar-lhe aos labios aquelle seu antigo sorriso prazenteiro, com que todas as manhãs saudava o nascer do sol, da janella do seu vasto quarto.{110}

As pessoas da casa andavam escrutando o motivo d'aquella transição subita no animo do velho. As conversas a meia-voz no copiar, á hora da sesta não traziam nenhum resultado elucidativo d'aquellas tristezas sem causa apparente. Todas as interrogacões, que os olhares apresentavam, iam embotar-se na fria reserva do ancião, que persistia n'um silencio desanimador.

E não havia razão para andar assim tristonho o coronel Fonseca: a fazenda progredia, graças ao magnifico tempo que, havia dois annos, reinava, o gado engordava e todos os vaqueiros viviam contentes, com disposição para o trabalho.

O Thiago, filho unico do coronel, não reparara ainda n'aquellas concentrações do pae. Vivia todo entregue a uma paixão tão ardente como sincera, para ligar attenção a qualquer coisa que se passasse em outra parte que não fosse no proprio coração.

E a Venancia, a formosa donzella que todos os dias obrigava-o a ir á villa proxima, bem merecia aquella dedicação egoistica, porém desculpavel.

Filha de um velho fazendeiro, era ella d'uma bondade proverbial e d'uma honradez reconhecida, sem precedentes de macula. Trabalhadora, vivia a cuidar dos irmãosinhos mais novos que ella, a fazer-lhes a roupa, a apaparical-os, a rodeal-os de cuidados, interessando-se muito pelo bem-estar physico do todos aquelles pequeninos sêres{111} a ella confiados pela mãe, na occasião de morrer.

Entretanto, quem podesse perscrutar a alma do coronel, veria com pasmo que era justamente o amor do filho a origem das suas tristezas.

É certo: Fonseca sentia grande contrariedade em ver que o Thiago de dia para dia mais se ligava de amizade á Venancia da villa, como á rapariga chamavam os da fazenda. E quem se approximasse da maqueira do coronel, quando elle dormia os seus curtos somnos nocturnos, poderia muitas vezes ouvil-o pronunciar estas palavras:—"É impossivel similhante casamento!"

II

Uma tarde, quando o coronel Fonseca, encerrado no quarto, escrevia ao seu correspondente da capital, appareceu-lhe o Thiago, dizendo-lhe que necessitava falar-lhe com urgencia.

O velho estremeceu, prevendo talvez{112} que o filho ia acercar-se d'um assumpto ao qual elle fugia ha muito tempo.

Foi a fazer um violento esforço sobre si mesmo que murmurou:

—Fala quando quizeres.

Thiago sentou-se na beira da rede e guardou silencio por momentos.

O velho Fonseca olhava para elle com as palpebras escancaradas em uma expressão de curiosidade e pavôr. Tremia ligeiramente, com os nervos todos irritados.

—O diabo da gotta quer visitar-me! pensou.

No entanto, Thiago enxugava o pescoço com o lenço e começava em seguida:

—Meu pae, o negocio a respeito de que venho falar-lhe é importante de mais, para que eu estrague tempo e palavras em rodeios desnecessarios. Vou ser breve, mesmo porque estou morto por saber qual será a resposta de meu pae.—Desejo casar-me.

Conteve o coronel um gesto de indignação e disse, mostrando indifferença.

—Pois casa-te, rapaz. Eu não me opponho.... Contanto que seja a moça escolhida merecedora de ser tua mulher....

—Oh! se tal é a condição que apresenta, posso affiançar-lhe que brevemente me casarei. Bôa e séria, meiga e honesta, trabalhadora e cheia de dedicação, creio que poucas moças como ella encontrei no Pará durante os seis annos que lá estive a estudar no seminario e no lyceu.{113}

—Felicito-te, por isso, disse ainda o coronel, sentindo fortes dôres nas fontes, com o coração accelerado, porém a affectar tranquillidade.—Mas então quem é a rapariga?

Thiago sorriu indizivelmente,—com uma beatifica expressão de intensíssima felicidade no semblante, e exclamou:

—É a Venancia da villa, a minha querida Venancia!

O velho ergueu-se impellido pela commoção. Suppondo tal acção um meio de que o pae servia-se para testemunhar-lhe a sua acquiescencia, Thiago ergueu-se tambem e correu a abraçal-o.

Mas o velho, fazendo um lento signal com o braço estendido, paralysou-lhe a vivacidade do movimento e murmurou, tremendo todo:

—Attende-me, Thiago, meu filho! Ha muitos annos que sei de teus amores com a Venancia. Grandes motivos, que talvez conhecerás um dia, impediam-me de favorecer a esses amores, assim como inhibiam-me de oppôr-me a elles desassombradamente. Fingí ignorar tudo, na esperança de que os annos lançassem o tédio sobre as vossas almas captivas uma da outra por aquillo que eu pensava ser o enthusiasmo pela novidade. Com immensa dôr verifiquei o meu engano, porquanto foste fiel á tua palavra, do mesmo modo por que Venancia o foi á sua. Isto seria uma grande{114} felicidade se não fosse uma enorme desgraça. Quer dizer, seria um apreciavel penhor da tua ventura por vir, se o objecto da tua paixão fosse qualquer outra mulher, que não a Venancia..... Olha, Thiago, sem procurares inquirir qual o verdadeiro e imperioso motivo que assim me fórça a magoar-te o coração, esquece essa rapariga, deixa de visital-a, ausenta-te de Marajó, vae para a capital, ou para o Rio de Janeiro, ou para qualquer cidade longinqua, onde julgues ser-te facil achares uma mulher a quem possas offerecer a mão....

—Mas porquê, meu pae? interrogou Thiago assombrado, com o coração oppresso debaixo d'uma tristeza incalculavel, sentindo que as palavras do pae minavam-lhe o edificio da felicidade por tantos annos construido com um profundo amor expurgado de malicia.

—Porque assim é necessario,—redarguiu o velho, n'uma vehemencia de gesto e de entonação.

—Pois fique sabendo que, se não explicar satisfactoriamente a causa de similhante opposição, só tomarei as suas palavras como originarias d'uma razão que a edade torna vacillante e digna de piedade!—bradou Thiago já fóra de si, ferido n'essa grande porção de egoismo que todo o homem tem comsigo.

—Ingrato, murmurou o velho, deixando-se{115} caír sentado e chorando copiosamente.—Pois assiste á morte do teu coração, visto assim o desejares: ouve-me!

Pela janella aberta, via-se o vastíssimo campo do lado oeste da fazenda, coberto d'uma vegetação uniforme de capim crestado pelo sol. Vitellos saltavam ás cabriolas e grandes bois mansos, muito gordos e vagarosos, pastavam tranquillamente os fios de curto capim secco, abanando as longas caudas n'um compassado movimento automatico. Ao longe, um toiro preto, perfilado e sério, olhava para a linha escura do horisonte, entretido em lamber as ventas lustrosas de ranho com a flexivel lingua côr de cinza de charuto. Um cheiro almiscarado d'erva sêcca e de excremento de boi subia até ao quarto. Vaqueiros zangarreavam n'umas flautas campestres, muito rudimentares, feitas de talos de mamãoseiro. Urros melancholicos de vaccas chamando pelas crias casavam-se com essas faceis melodias bucolicas, vibravam pelo espaço em propagações suaves que, dilatando-se cada vez mais, perdiam-se no ar como um suspiro flebil de extrema ternura. E da linha do horisonte, que recortava-se muito distante sobre o azul escuro do ceu, levantava-se vagarosamente a noite, magestosa e tranquilla em sua imponencia seductora.

O velho enxugou as lágrymas e começou a falar.{116}

III

—Como sabes, tinhas dois dias quando tua santa mãe nos faltou. Até agora não sei como possivel me foi resistir a essa desgraça, que eu a principio reputei capaz de tirar-me a existencia. Tres annos passei encerrado n'este quarto, sem visitar as nossas fazendas, sem receber ninguem, apenas gozando em tuas innocentes caricias um pallido reflexo d'aquelles grandes affagos que a tua idolatrada mãe fazia-me constantemente. Passados esses tres annos, comprehendi que o teu futuro exigia-me impozesse silencio á minha dôr, e cuidasse de nossos bens, para dar-te uma bôa educação e, depois da minha morte, fazer-te herdeiro de uma riqueza sufficiente á tua manutenção. Saí, pois, do quarto, pedindo mentalmente á alma de tua mãe tomasse este sacrificio como feito por amor de ti e, por consequencia, por amor d'ella. Negocios meus exigiam que eu fizesse frequentes viagens á villa, onde, ha vinte e tres annos, isto é, quando tinhas cinco, encontrei-me com uma senhora amazonense, mulher d'um velho amigo meu, fazendeiro em Chaves e morador da villa. Essa senhora era o retrato{117} vivo de tua mãe. Por um phenomeno de impressionismo,—sem o querer, sem o sentir—fui-me enlevando das graças d'ella, até chegar ao ponto de pensar que tua bôa mãe tornára á vida e volvêra a amar-me como d'antes!

Quando eu ia á villa, hospedava-me em casa d'esse antigo companheiro. Tal convivencia maior augmento deu ao meu amor, que transformou-se em grande paixão, toda enthusiasmos e vehemencia. As fazendas de Chaves faziam com que o marido d'ella se ausentasse muitas vezes da villa, deixando-me ao lado da mulher que.... poupa-me a vergonha de communicar-te que.... titubeou o coronel, muito triste, com os olhos mareados de lágrymas, a arfar do peito e a contrahir o rosto n'uma visivel agonia causada pelos remorsos.

—Emfim,—disse com energia e, desta feita, dando expansão ao pranto,—o resultado d'essa criminosa, d'essa infame e baixa paixão, foi o nascimento d'uma menina, que o meu velho amigo ingenuamente suppoz ser sua filha....

—E essa menina é... Ve..nan..cia?—inquiriu Thiago com os olhos arregalados, os cabellos crispados, as mãos fechadas fortemente, sentindo fraquejar-lhe o espirito ao embate de tamanha commoção.

—Sim, Thiago, sim, é Venancia, fructo da minha infamia, a filha do crime, a filha d'um amigo traidor e d'uma esposa miseravel{118} que não soube resistir á minha tentação! É Venancia, a mulher com quem te queres unir pelo.... casa...mento! É tua irmã, insensato!...

E caíu redondamente para traz, agitado nas convulsões da gotta, da sua molestia habitual, ao mesmo tempo que o filho rolava sobre a rêde de maqueira, fulminado pela morte, que providencialmente o livrou d'uma vida que d'ahi em deante só poderia ser de tormentos e angustias indiziveis.{119}

A licção de "Paleographo"

A Heliodoro de Brito

I

A escrava Josepha teve, n'aquelle dia, um grande sentimento. Sua alma confrangeu-se toda, ante-soffrendo as trêdas amarguras do largo e profundo golpe que breve teria de receber-lhe o amantíssimo coração de mãe.—O commendador Pereira de Castro, que d'ali a dias seguiria para a Europa, de concomitancia com toda a familia, annunciara-lhe a sua resolução{120} de levar comsigo a pequena Isaura, a sua querida filha, a mulatinha amimada, cria de casa, prenda favorita de todas as pessoas d'aquella abastada familia actualmente em vesperas de viagem.

E ella, a mãe extremosa, que só vivia do tenro affecto suavíssimo da filha, na tenebrosa passividade do seu captiveiro,—não obstante a bondade com que era tratada por todos,—teria de ficar no Pará, separada do pequenino ente que deslaçava-lhe o espirito em fulgidas chiméras de loiras phantasias, em meio ao triste vegetar da sua existencia!

Uma dôr profunda empolgou-lhe tyrannamente a alma e seus olhos, outrora privados de lágrymas sob o látego inclemente do seu primeiro senhor, antes de ser vendida ao velho Pereira de Castro, verteram largo pranto silencioso por toda a noite passada em claro após a declaração ouvida pela manhã.

Só a lembrança de tão rude separação fazia-a soffrer tanto; o que não seria a crua realidade?

Mas o commendador, ao vel-a concentrada e soluçando a furto, no dia seguinte,—com os olhos, mudamente cheios de quérulas expressões, fitos na rapariguinha,—acercou-se-lhe paternal e, com a voz molhada de benevolencias, consolou-a a meio.

—Que se não affligisse, ponderou. A pequena voltaria com elle e com a familia,{121} d'ali a annos. E com quanta vantagem para ella! Promettia trazer-lh'a instruida, educada, elegante e feliz,—uma verdadeira senhora. Até ella, Josepha, se arrependeria então da sua tolice actual, porque reconheceria os beneficios que tinham querido fazer-lhe á filha. Pois não era certo que todos ali tratavam-n'as tão bem, á mãe e á filha e que esta era tida menos como uma ingênua do que como se, realmente, fosse originaria do casamento d'elle commendador com sua esposa? Confiasse a Josepha em seus senhores e o futuro mostrar-lhe-ia com exuberancia a justeza do seu proceder.

Estas palavras acalmaram um tanto a febricitante agonia da escrava. Eliminal-a, porém, d'alma, era impossivel, que não póde um coração de mãe deixar que a sorte, em qualquer de suas innumeraveis manifestações, lhe roube o ente dilecto por excellencia, sem estalar todo nos loucos frémitos delirantes da mais intensa dôr.

II

A familia do commendador Pereira de Castro seguiu viagem e, com ella, a pequena Isaura.{122}

Josepha, a escrava, transportada ao cumulo das grandes e mudas afflicções, não pareceu viver desde a partida da filha. Viam-n'a as outras escravas atravessar calada os aposentos desertos, alheiada de tudo, olhando em frente, como se divisando estivesse nos curtos longes do horisonte limitado uma visão, só para ella creada, a attrair-lhe poderosamente o olhar, a absorver-lhe todas as forças vivas do espirito e da razão.

Mas um dia, trez annos depois, o socio do commendador mandou chamal-a ás pressas. Acudiu indifferente, sem mau modo nem solicitude na expressão do rosto, como quem está acostumado a pensar e agir por vontade de outrem.

O socio e procurador do velho Castro entregou-lhe, a sorrir, uma carta. Bateu desusadamente o coração da preta. Aquelle papel não poderia ser senão da sua Isaura: o commendador, de tempos a tempos escrevendo ao socio, pedia-lhe sempre informasse á Josepha estar a filha d'esta com saude, muito desenvolvida e bastante adeantada nos estudos. Segurou a carta a tremer, e ficou-se a olhar longamente aquelle homem, que sorria-lhe docemente, compadecidamente.

—Anda, vae, disse elle; é uma carta de tua filha.... escripta por ella propria.

Escorreram lágrymas jubilosas dos olhos da escrava. Uma alegria sem fim dava-lhe{123} precipitados pulos ao coração. Conservou-se, todavia, immovel deante do branco, e olhava para elle, como desejando dizer-lhe alguma coisa.

Elle pareceu comprehendel-a:

—Queres que a leia?

—Sim, sinhô, respondeu Josepha, entregando-lhe apressada a carta e preparando-se para ouvil-a, para saborear-lhe o gosto transcendente dos sentidos, a divina musica ignorada das dôces palavras escriptas pela mão infantil da filha.

O socio do Castro leu:

 

MINHA QUERIDA MÃE,

Escrevo-lhe de Paris, onde estou aprendendo n'um collegio e d'onde lhe envio milhares de beijos n'esta carta, a primeira que por meu punho escrevo, para lhe contar, se podesse, as muitas saudades que tenho da minha santa mãe e o grande desejo que sinto de estudar muito, para voltar depressa para onde está a mãesinha do meu coração. Ante-hontem fiz dez annos e o meu protector offereceu-me uma bonita penna d'ouro, dizendo-me que com ella deveria escrever-lhe esta carta, minha boa mãe. Tenho passeado muito e gostado immenso d'esta bella cidade, onde o meu{124} prazer seria completo se a senhora aqui estivesse junto da sua filha.

Abençôe-me e receba mil beijos que lhe envia

 

ISAURA.

Paris, 30 de dezembro de 1887.

 

Josepha chorava, soluçando, quando ouviu o nome que rematava a carta,—simples linhas banaes, cheias de phrases feitas, possuidoras, comtudo, do grande merecimento de virem de parte da sua querida Isaura.

III

Era o dia 13 de maio de 1888. As ruas do Pará tinham festiva apparencia, transbordando de povo rejubilado pelo conhecimento da lei que extinguira a escravidão no Brazil. Cruzavam-se no ar o esfusiamento de grandes girandolas de foguetes e o écco ingente de milhares de vozes bramindo{125} enthusiasmadas louvores e vivas em honra ao glorioso successo. Galhardetes e corêtos erguiam-se pelas ruas. Bandas marciaes diffundiam no espaço alegres harmonias de cálidos hymnos excitantes.

Da casa do commendador Pereira de Castro correram para a rua todos os pretos, afim de lhes ser dada a parte a que tinham direito no geral regosijo.

Alguem ficou, todavia, indifferente aos sons exteriores do contentamento publico. Uma preta deixou-se estar na cosinha e espreitava agora para todos os lados, temendo fossem surprehendel-a.

Quando teve a certeza de estar bem só, esboçou nos roxos labios um sorriso espiritualisado e, tirando do seio um velho Paleographo, abriu-o nas primeiras paginas murmurando commovida:

—Vamo' estudá a licção. Nhô Manduca, disse que p'r'ó mez que vem já posso lê a carta da minha filhinha. Quando chega esse dia, meu Deus?

E curvou a cabeça para o livro, na obstinação das grandes vontades vencedoras.{126}
{127}

Ao soprar á véla

Ao Sr. José Feijó d'Albuquerque

I

Ás 8 horas da noite, quando chegou o marido, veiu a Candida, a saltar alegremente, recebel-o á porta da varanda, arrastando a longa cauda rendada do penteador de cambraia branca.

Quanto se demorára elle! .... Porque não voltou mais cedo? A sua Candinha já sentia tantas saudades!.... Elle não imaginava o que era estar uma pobre mulher mettida em{128} casa, durante uma tarde inteira, sem ter a seu lado o esposo querido, o seu idolatrado amigo!....

E affagava-o amorosamente, fazia-lhe cafunés pelo alto da cabeça, causando-lhe uns arripios sensuaes pelas costas, eriçando-lhe os cabellos dos braços e pernas.

Que não podera vir mais depressa,—objectava o marido, sentando-se n'uma poltrona e cofiando o negro bigode sedoso, com um olhar de concupiscencia para a mulher.—Bem esforços fizera, mas inutilmente. Encontrara-os a jantar, ainda no começo; teve de esperar no jardim por espaço de meia hora, brincando com as creanças, para entreter-se. Os pequenos são altamente endiabrados: sujaram-lhe as calças brancas com as mãos gordurosas.... Depois, tinha ido para a sala, falar ao dr. Martins e á mulher.

—E acceitaram?—interrogou a Candida, saltando para as pernas do marido, a rir muito, com os labios abertos lindamente, frisando-se graciosos e mostrando os pequeninos dentes alvos como o jasmim.

—Qual! Responderam-me que não cediam a escrava por dinheiro algum, maximè sabendo que nós a desejavamos para a libertar. Aquella gente está cada vez mais negreira! Emfim, escolhe-se outra qualquer, comtanto que seja o dia de teus annos digna e liberalmente solennisado por mim. Continuemos, porém. Estava eu disposto a{129} saír, bem arrufado com o dr. Martins, quando chegou o Quirino, o velho Quirino, aquelle sujeito vermelhudo, cuja cabeça está mais limpa de cabellos que os teus joelhos....

—Deixa-te de tolices....

—Agarraram-me para um solo manhoso, que durou até agora, e isso mesmo porque levantei-me e saí á viva força!.... Agora,—concluiu sorrindo,—aqui tem você o seu Roberto, cheio d'amor e paixão, disposto a matar as saudades da sua mulherzinha com um longo beijo ruidoso, a querer-lhe muito, a fazer-lhe as vontades todas!..

Sempre sentada sobre as pernas d'elle, Candida semi-cerrou os olhos n'uma vertigem lubrica, e estendeu para a bocca de Roberto os seus labios frescos e perfumados d'esse olôr exquisito e bom, peculiar ás mulheres que se tratam.

Mas ergueram-se de subito, n'um enleio: apparecera á porta que dava para o corredor o moleque Euzebio, com o bule de chá....

II

Depois do chá, Roberto accendeu um charuto, foi buscar um livro e, accommodando-se{130} n'uma grande voltaire, poz-se a ler. Ficou a Candida defronte d'elle, a miral-o.

Vinha do jardim uma brisa cheia de perfumes, sacudindo as luzes dos dois bicos de gaz encerrados em globos de crystal finamente lavrado. Com os cotovellos sobre a mesa, o rosto de mento saliente e narinas afflantes descançando nas palmas das mãos, Candida continuava a olhar para o marido com uma expressão extranha, suave, repassada de ternuras dulcíssimas.

Parecia lançada á contemplação da propria felicidade. Era justamente aquillo que, annos antes, phantasiára a sua sonhadora imaginação de burguezinha estragada pelos mimos de seus paes extremosos e pacóvios: viver honesta ao pé de um marido bonito e de bom coração; estar sempre junto d'elle, para o consolar em todos os desgostos, rir com elle nas horas de alegria, ser-lhe sempre de uma fidelidade irreprehensivel e, sobretudo, contemplal-o a todo instante, silenciosa, longamente, envolvel-o nas sentimentaes suavidades do seu enlanguescido olhar de creoula amoravel! Nunca sentira-se tão feliz como depois de seu casamento com o Roberto, havia quasi dez mezes. Nem uma só contrariedade tivera após aquella noite commovente, em que recebeu o primeiro beijo do noivo no silencio de uma discreta alcôva toda cheia de flôres, rendas, fitas e perfumes! E com{131} que alegria, com que assomos de risonha infantilidade não ficou, na manhã immediata, quando leu no Diario de Noticias as linhas seguintes, que decorou á força de as repetir baixinho?—"Uniram-se hontem á noite em matrimonio, na egreja de Nazareth, o Sr. Roberto da Silva Pereira, honrado commerciante da nossa praça, e a Exma. Sra. D. Candida Annunciada Seixas, filha do nosso amigo sr. Pandolpho Seixas, proprietario abastadíssimo. Foram padrinhos os srs. Silvino Cunha e Anthero de Mendonça e suas exmas. consortes. Aos jovens conjuges desejamos o mais ridente porvir enaltecido das felicidades a que têm jus por seus dotes distinctissimos." Ficou a nadar em jubilo, toda desvanecida por ver o nome nos jornaes, commovidíssima pela lembrança de que, áquella hora, a cidade inteira estava sabedora da realisação de seus intimos desejos de moça apaixonada!.... D'ahi em deante começaram a viver como dois anjinhos, como ella queria. Roberto era sempre de uma delicadeza affectuosa e séria para com a sua Candinha, que tambem, valha a verdade, contribuia, segundo seu poder, para tornar-lhe suave e alegre a vida. Ella achava impossivel que duas pessoas que se amaram quando noivas brigassem depois de casadas por dá cá aquella palha... Entretanto, assim acontecia ás vezes. Ahi estava, mesmo no Pará, a d. Clotilde que, no dizer das más linguas, era uma jararaca{132} para o marido. O Pedro de Andrade, esposo da d. Estephania, era outro: passava a vida pelas casas de jogo, embriagava-se e, ao chegar ao domicilio, esbordoava a mulher que era mesmo uma dôr de coração! Mas com ella assim não succedia, graças a Deus! O Roberto era pontual como um cobrador á hora de recolher ao lar: ás 5 da tarde mandava fechar o armazem, tomava o bond e vinha logo para junto d'ella, de onde não se arredava senão ao outro dia pela manhã, afim de ir novamente para o trabalho. Havia de continuar sempre assim tal norma de vida: ella conhecia de mais o genio do marido para receiar qualquer mudança futura. Agora, principalmente, ia o Roberto ficar preso pelos beiços, com a importante noticia que ella tinha para lhe dar. Era verdade! fazia-se necessario contar-lhe tudo... Porém como? A vergonha apertava-lhe a garganta assim que ella abria a bocca para falar... Mas hoje diria, estava resolvida! Quando? agora?—Agora não; deixal-o com a leitura, que está tão entretido.... Mais logo, quando se fossem deitar. Oh! como ficaria satisfeito o Roberto! Que prazer para elle!... para elle, que era tão lindo, tão bom, tão amado!....

Tudo isto pensava ella, continuando a fitar o esposo n'um enlevo apaixonado.{133}

III

De tempos a tempos, desviando a vista do livro para sacudir a cinza do charuto, Roberto fitava a mulher, sorrindo bondosamente. Surprehendida, a Candida pendia para o peito a formosa cabeça, disfarçava fingindo ler n'um livro que estava sobre a mesa. Em seguida, quando calculava que o marido continuava na leitura, tornava a pregar no rosto d'elle o seu ardente olhar, como se desejasse cobril-o com toda a vehemencia da paixão.

Ouvindo soarem no sino de Sant'Anna as 10 horas, Roberto fechou o livro.

—Vamos dormir?—propoz.

Candida estremeceu e levantou-se.

O moleque veiu fechar as portas e janellas e apagar o gaz.

No entanto, haviam os dois penetrado na pequena alcôva. Em cima do velador, uma véla côr de rosa ardia n'um castiçalzinho de porcellana de Sévres com pinturas allegoricas de Amores alados e Chiméras volitantes. No centro, uma causeuse de setim azul estava cheia de laços, corpinhos de renda, brochuras esparralhadas, n'um abandono adoravelmente dissymétrico. Vidros de perfumarias com rôlhas de crystal{134} reluziam em cima do toucador de jacarandá, lançavam scintillações cambiantes ao espelho inteiriço do grande guarda-roupa que havia no meio de uma das paredes lateraes.

Ao fundo erguia-se a cama,—pudicamente occulta entre as rugas de um cortinado de labyrintho finíssimo, suspenso do tecto por uma passadeira doirada.

Levantava-se d'aquella cama um quê de evaporação de felicidade inenarravel, que penetrava no espirito dos dois esposos pelos sentidos do olfacto e da vista. Parecia-lhes acharem-se deante do tabernaculo de seu amor, do altar de sua existencia feliz e encantadora. Para Candida, sobretudo, ella tinha uma importancia transcendental: evocava-lhe uma recordação agri-dôce, que fazia-a sorrir bondosamente depois de nove mezes de agradabilíssima co-habitação conjugal....

Quando iam deitar-se, Candida enlaçou a cabeça do marido com os braços descobertos,—mal vestida, apenas velada por uma curta camisinha de cambraia enfeitada de rendas do Ceará.

Roberto beijou-lhe as carnes, aspirando-lhes os mornos effluvios,—essas queridas exhalações de mulher amada,—n'um enlanguescimento concupiscente.{135}

—Olha, murmurou ella conservando-se na mesma posição, beijando-o na testa.—Quero dar-te uma noticia muito bôa....

—Qual é?—perguntou Roberto estreitando-a nos braços.

—Tenho tanta vergonha!....

Esta exclamação pronunciou-a Candida desprendendo-se do amplexo do marido e dando um pulo para o leito.

—Anda, fala, menina, que tolice é essa?

—Então apaga a luz, primeiro; póde ser que ás escuras eu me sinta mais animosa! ....

Roberto soprou a luz da véla e disse deitando-se:

—Agora....

Candida ficou por um momento silenciosa, afagando a fronte do marido com as pontas dos frios dedos trémulos. Depois, a subitas:

—É que,—murmurou com umas brégeiras risadinhas reprimidas,—é que eu.... estou grávida!

Um beijo sonoro, prolongado, ardente como o fogo dos grandes amores,—o beijo com que o esposo tenta revelar a indizivel alegria de vêr convertido em realidade o seu mais persistente anhelo,—respondeu áquella confissão prazenteira, na propicia escuridade da alcôva matrimonial....{136}
{137}

No baile do commendador

Ao sr. Ulderico Souza

Desculpe, mas descreio, doutor, da sinceridade das suas palavras!

E a bella Arcelina tapou os rubros labios, entreabertos em zombeteiro sorriso, com as rendas finíssimas do seu leque amarello-canario, de varetas de madreperola.

—E porque, não me dirá? insistiu o doutor Machado, debruçado sobre a cadeira da interlocutora, a settear-lhe os seios semi-visiveis com um ardente olhar vibrado{138} atravez o crystal do monóculo petulante.

—Porque—?, respondeu ella, com uma curta gargalhada de chasco, a fital-o bem na menina dos olhos, falando-lhe por cima do hombro esquerdo, polvilhado de rescendente velutina; porque.... a vida é uma boa mestra, doutor, e eu tenho recebido d'ella bem duros, bem crueis exemplos!

—Apezar de ser tão nova assim?

—A vida não escolhe discipulos entre aquelles que apresentam a cabeça encanecida. Bem ao contrario, parece que aos moços dá, por vezes, preferencia, como compensando-os de não terem o discernimento preciso para bem conhecer e evitar os revezes da sorte.

—Mas—é maravilhoso tudo quanto estão a dizer-me os seus divinos labios com a musica angelical da sua voz, minha adoravel senhora! Se já não sentisse por sua pessôa—e pelo seu espirito—este indomavel affecto de que falei-lhe ha pouco, penso que deveria experimental-o agora—e bem profundamente!—depois de ouvir-lhe tão razoaveis e inesperados conceitos.

—Devéras?

—Por certo.

—Oh! é muito amavel....

—Digo a verdade.

—E, todavia, continuo a descrêr...

—Faz muito mal!

—Porquê?{139}

—Ah! já faz perguntas?—Porque quem confessa descrença em similhante assumpto, deseja crêr, ou, pelo menos, não quer descrêr...

—O que redunda no mesmo. Errou, porém, estabelecendo até mim a regra geral, doutor. Difficilmente se engana a mulheres como eu, convença-se. O mundo tem sido para mim uma grande eschola, sr. dr. Machado. Lições bem rispidas tenho recebido n'elle, para agora, sem discrepancia das suas opiniões, fazer que o sr. acredite nas suas proprias illusões phantasiosas. Pois que! Persuade-se acaso de que jámais poderei tomar ao sério as banalidades da confissão que me cantou ha instantes o seu lyrismo? Estará o sr., effectivamente, tão enamorado de si mesmo, que se julgue irresistivel, fatal? Vaidade sem razão, doutor!

—Como é cruel, minha senhora!

—Não sou cruel, não, cavalheiro: sou justa apenas. E porque sympathisei inexplicavelmente com o sr., é que desejo trabalhar para extorquir-lhe do espirito esse orgulho desarrazoado que lhe embota o sentimento.—Permitte-me a liberdade d'uma franqueza?

—Ora essa! Porque não?...

—Muito bem: pretendo matar-lhe n'alma o seu illimitado.... pedantismo.

—Como diz?

—Ouça bem: o—seu—illimitado—pedantismo.{140}

—E.... mas....

—Olhe, sente-se aqui, a meu lado—Assim. Conversaremos com tranquillidade, emquanto essa quadrilha d'Offenback absorve todas as attenções da sala. Escute-me.

Eu era menina, dez annos apenas, uma simples creança insignificante. Seriam nove noras da noite. A chuva caía sem parar desde que anoitecêra; uma triste chuva hibernal, que dava arripios intercadentes, sob a luz oscillante do gaz. Estavamos ao serão, reunidos na varanda, umas dez pessoas: eu, minhas duas irmãs, algumas escravas, e uma preta velha, muito velha e alquebrada, que o trafico da escravatura arrancara aos sertões africanos para transplantar no Brazil.

Costuravam umas, outras faziam rendas. Eu e minhas duas irmãs brincavamos a vassourinha, formando circulo sobre a mesa, em torno da qual trabalhavam as escravas.

De repente, um silencio operou-se na varanda inteira e nós interrompemos o brinquedo, ao tempo que as raparigas erguiam as cabeças, detinham no ar a mão que empunhava a agulha, ou descançavam{141} cautelosas os bilros sobre as almofadas onde pregavam-se as rendas incipientes.

A velha Eufrasia annunciára que ia contar uma historia da cabanagem, o que era o sufficiente para lhe hypothecarmos a mais absoluta tranquillidade. Porque, fique desde já sabendo, a Eufrasia era auctoridade na materia! A sua narração tinha alguma coisa de lugubre, de compungente, de parceria com certo tom veridico e muito expressivo na concatenação dos factos e na flagrancia da nota, ou épica ou bucólica, de que pretendia occupar a attenção dos ouvintes.

Todos aconchegaram-se mais, fitando os olhos da velha, illuminados d'uma fulguração estranha, que parecia o reflexo derradeiro dos bellicosos tempos de que ella ia tratar.

Estabelecido o mais completo silencio, tanto quanto era possivel obter-se com o ruido da chuva a desabar nas telhas,—a bôa preta começou a referir a pequena historia que passarei a expôr á sua attenta bondade, succintamente, para o não enfastiar com imprudentes delongas.

Da outra banda do rio, á margem esquerda d'este mesmo Guajará que róla suas{142} turbidas aguas aos pés de Belém, uma roça havia, n'aquelle tempo,—em 1835,—que era o abrigo d'uma simples familia de modestos caboclos agricultores: pae, mãe e um filho, rapaz esbelto, no pleno vigor d'uns 20 annos sadíos e bem desenvolvidos.

Viviam todos na mais lata felicidade que poderiam almejar em sua simplicidade mediocre de lavradores remediados. A farinha da sua roça era a mais afamada na praça de Belém e a seriedade com que tratavam negocios tinha-lhes aberto largo crédito em casa do seu correspondente na cidade.

O rapaz, Aniceto, andava de casamento justo com a Thomazia, uma rapariga da margem opposta do rio, moradora n'um sitio quasi fronteiro á roça. Pelo São João deveriam vir á capital da provincia, effectivar perante um padre a mais persistente aspiração que em peitos amazonicos jámais palpitou e que dava-lhes, na sua só lembrança, uma como ebriedade olympica de soberanas venturas transcendentes.

Uma vez por semana, aos sabbados, a pequena montaria do joven caboclo rasgava, cheia de vigor, o claro seio do rio e transportava-o rejubilado á pequenina casa da venturosa amante sitibunda de mirar-lhe as suaves transparencias do olhar e ouvir-lhe a incomparavel meiguice das longas falas singellas e apaixonadas.{143}

Horas inteiras, de intensíssimo contentamento, eram as que passava ao lado da rapariga, a tecer com ella o gracioso dibuxo da sua risonha existencia por vir, quando, a sós no copiar, de mãos entrelaçadas e o olhar perdido ao longe, nas aquosas sinuosidades esbatidas nas sombras do fundo, compraziam-se em acastellar illusões, n'umas inflorescencias de amplas phantasias admiraveis.

Similhante existencia, parecia abençoal-a o ceu, na sua clemente bondade rejubilada pelo edificante espectaculo de tão acrisolada paixão.

Mas houve um dia em que a sorte,—sempre inclemente e cynica, doutor!—pareceu querer zombar da voz geral, corrente a respeito d'aquella invejavel bonança de duas vidas felicíssimas.

A cabanagem assolava esta parte da provincia. As aguerridas guerrilhas dos revoltosos percorriam sanguisedentas povoados e roças, buscando e fazendo victimas por toda a parte, com o desabrimento impudico da mais ousada barbaridade.

Em taes condições, a casa dos paes de Thomazia não poderia escapar á visita dos desalmados. Esta foi subjeitada á mais torpe violencia que se póde intentar contra uma donzella, e os paes da rapariga, por haverem querido dissuadil-os da infamia,—após assistirem á perpetração selvática do attentado sem nome, soffreram inermes a{144} pena ultima, dependurados, um defronte do outro, em dois galhos de sombrosa sumahumeira!

Escaparam ao rábido furor dos revoltosos Aniceto e seus paes, que embrenharam-se precavidos nos profundos recessos da floresta. De sua casa haviam presenceado o que passava-se na róça fronteira e nem um só momento o rapaz, aquelle mesmo namorado férvido da vespera, sentiu um assomo de correr a vingar o ultrage a que tinham-lhe submettido a noiva! Admire que sinceridade a d'aquella paixão, doutor, dias antes apresentada em labiosas florituras de phantasticos arremessos idyllicos! Que grande coração, o d'aquelle homem!

Fugiu, poltronamente, cheio de medo, sem um remorso que, exprobrando-lhe a indignidade, propellisse-o a ir morrer no sitio onde haviam insultado a sua noiva,—sem ir arrebentar os miólos de um dos abjectos infames, ainda mesmo quando tivesse a certeza de ser feito pedacinhos pela tropa dos sicarios!

Annos depois, quando estabelecera-se a pacificação na provincia, a Eufrasia encontrou-o em casa, muito satisfeito e cynico, a viver na companhia de torpe mulata animalisada por uma vida de largas materialisações soezes e gordurosas.

Ainda podia rir, ainda tinha canções para zangarrear ao som do cavaquinho!{145}

Lá defronte, porém, a roça, tão florescente d'antes, convertera-se em mattagal e a infeliz Thomazia,—apatetada e envelhecida, coberta de andrajos e chorosa,—tinha simplesmente, como testemunha da sua desgraça, uma creança inconsciente, um filho que dentro d'ella semeára a hedionda selvageria dos revoltosos.

*
*      *

Calou-se a bella Arcelina, offegante e ruborisada. Vibrando toda de emoção, teve um momento de silencio empregado em fitar longamente o rosto do dr. Machado. Depois, abrindo o leque amarello-canario, agitando-o vagaroso, com uma certa magestade de soberana vencedora, perguntou sorrindo ironica:

—E crê, depois d'isto, que eu acredite na existencia d'um só homem sincero e verdadeiramente amante, capaz de effectuar todas essas palavrosas mentiras que o sr. cantarolou p'ra 'hi?{146}
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NOTAS

A CONVALESCENTE.—Achava-se impressa a folha contendo esse pequenino croquis ousadamente dedicado ao sr. dr. Alvares da Costa, quando s. s.ª levado por intrigas vis e a proposito de algumas phrases a seu respeito externadas por mim n'um estudo critico das Primeiras Rimas, de João do Rego, rompeu commigo, n'um artigo sobremódo aggressivo, todo pessoal e rancoroso.

Não quiz, então, riscar o nome que a amizade gostosamente inscrevera em uma das paginas do meu livro e hoje, para provar-lhe a minha lealdade, apresento-a tal qual m'a deu o prélo, antes do inesperado desabrimento de s. s.ª

 

QUE BOM MARIDO!—Este conto, regeitou-o, em dezembro de 1885, o Diario de Belém, declarando-o{148} immoral. Entretanto, esse mesmo exaggerado zelo entibiava-se lamentavelmente quando os jornaes do sul... e a tesoura davam-lhe ensejo de estampar as moralíssimas "grivoiseries" de Catulle Mendès... É o caso mais flagrantemente pífio de criterio e coherencia que tenho conhecido!

No dia seguinte, A Provincia do Pará publicava esse trabalho.

 

HISTORIA INCONGRUENTE.—Foi publicada n'A Arena essa narração, em 1887: ainda existia o infortunado homem de letras a quem tive a honra de dedicar o meu trabalho e do qual recebi, por esse motivo, lisonjeira carta muito affectuosa e benevolente.{149}