Aquella mascara
I
A dôr transforma-te! Estás desconhecido. Já não tens o entendimento e a vivacidade dos dias da tua alegria. Que desastre repentino te deu essa immobilidade do espanto? Desfolharam-se tão cedo as flores da tua primavera; estão desbotadas as rosas de tua face, extincto o fogo d'esses olhos, que davam alma a tudo quanto dizias. A tua alma expandia-se, mostrava-se franca, como a verdade; illuminava-te o rosto, como um sol rutilante na immensidade tranquilla do mar. Eras exaltado, febril no que sentias; cada palavra tua era o ésto de uma paixão latente. Tinhas o segredo da fascinação, a magnanimidade do heroe, e a impenitencia do ergotista; eras a um tempo seraphim e demonio, podias transportar ao setimo{166} céo, ou atirar ao barathro a mulher que te seguisse. Tinhas a consciencia da força e rias-te de todas as mulheres, não te affligia o amor. Ainda era cedo para pensares n'isso, se é que se pensa quando nos atiramos á luz que nos deslumbra. Comparavas a sociedade a um oceano revolto, e só tinhas em vista levar o teu baixel a porto seguro; a estrella que te guiava, a monção fagueira que desfraldava aos pontos do céo a tua vella branca que havia de ser, a não ser o amor? O amor era um pequeno movel para ti; a ambição dava-te maiores impulsos, querias ser grande e dominar, absorver os outros. De facto tinhas em ti um poder assimilador, reduzias os outros a ti. No meio dos caprichos da tua individualidade altiva, mostravas grandes verdades. Eras todo sensualista, cercavas a vida de prazeres, mas só d'aquelles que te proporcionavam os recursos infinitos da intelligencia. Para ti a arte era mais do que todas as sciencias do mundo, era a synthese suprema das faculdades do homem, porque é pela arte que elle adquire a consciencia de si. A acção justa, não a conhecias pela harmonia dos principios eternos da justiça, era preciso sobretudo que fosse capaz de produzir uma obra de arte. Todas as tuas posições eram esculpturaes, podiam-se reproduzir no marmore; não era a affectação que te levava a este estudo, eram as tuas idéas da eurythmia, a necessidade de completar as expressões de tua alma no movimento exterior que mais as significasse. Áquelles{167} que não comprehendiam isto, que se riam e violavam os encantos da plastica, chamavas-lhes Verna, um nome insultante, com que mostravas a sua incapacidade para sentirem o bello. Dotado d'esta serenidade impassivel que tem o homem verdadeiramente superior, ás vezes não sabia porque deixavas um instante de ser bom; não se te dava de sacrificar os outros com tanto que te engrandecesses. Parecia um egoismo revoltante. Tu não professas a egualdade. Os Verna existem, para que entulhem a valla em que o heroe poderia cair. Isto é assim. Já vês que te conheço. Para que te escondes agora? Porque me não contas a anciedade de todas as tuas dôres! Eu sou incapaz de te humilhar com a minha compaixão. Se te custa, não me digas tudo, deixa-me adivinhar, presentir o mais; temos em tudo a necessidade do indefinido. As grandes dôres são como as lagrimas; são mais ardentes á medida que se represam.
—Eu tenho vergonha de te não haver descoberto ha mais tempo o labor mysterioso que se tem operado em minha alma. Amo! Esta palavra diz tudo. A minha agonia provém do meu orgulho; é um golpe que dóe sempre, eternamente, que me faz ser máo, vingativo, e me dá força para esmagar os outros. Em mim o orgulho é o movel de todos os grandes sentimentos, é elle que me pôde fazer mais do que homem. Tu sabes perfeitamente a minha vida; tem sido até hoje um combate incessante; a aura pequena{168} que me cerca, o favor e a consideração que tenho tem sido uma conquista infatigavel, como aquelles combates sangrentos da velha tactica nas minas e contraminas das fortalezas. Detestei a familia em que nasci porque foi a primeira que me humilhou e me queria egualar. Não imaginas que esforços inauditos para conseguir uma diminuta independencia á custa de um trabalho insano, o trabalho da intelligencia, que ninguem reconhece, que se não paga. Depois, vêr-me envolvido na alta sociedade, ter de competir e de mostrar-me forte, não querer que ninguem adivinhasse a minha indigencia! Não sabes, o que é voltar alta noite do ruido de uma grande festa e atirar-se um homem de cansado a cima de uma enxerga alastrada em uma mansarda lobrega, depois das mais brilhantes ovações, depois de ter aspirado o perfume quasi celestial da gloria. Quantos n'aquella noite não invejariam a minha transfiguração, sem saber que o Thabor por onde subia era semeado de cardos que me ensanguentavam. De um dia para o outro me vi cercado de gloria; fallava-se em mim, queriam vêr-me, estava em moda, era recebido como principe, festejado, seguido. Explicavam a distracção continua que me tornava alheio a este culto perenne, pelo extasi da alma, pela abstracção continua do espirito pairando entre o céo e a terra. Não era assim. Lembrava-me o passado, a miseria e o abandono do dia de hontem, e doía-me o contraste. A gloria só por si era pouco, não me saciava. Queria bastante{169} gloria, mas para dal-a. Tinha necessidade de encontrar uma pessoa no mundo que vivesse da minha vida. Para amar tinha os typos da minha phantasia, desenhava-os a meu capricho, como queria, puros como Ophelia, dedicados como Griselidis, minhas, minhas como la Belle au bois dormant. Mas os dias corriam sem novidade de impressões, e os typos archangelicos que me cercavam, que evocava dos abysmos da imaginação ardente desamparavam-me como as filhas do Rei Lear. Lembras-te do quadro gigante traçado pela audacia de Shakespeare, quando o velho pae, com as cans fluctuando ao vento da tempestade, no inverno, caminha desolado no seu abandono? As filhas da minha imaginação desamparavam-me e o tedio da alma era o deserto glacial em que me via perdido. Eu sentia em mim bastante fogo, muita vida, para dal-a a quem viesse compassiva e não soubesse mesmo confessar o seu amor. Havia de interpretar cada olhar, como uma aurora que se abre, cada sorriso como uma cataracta de luz que nos envolve e nos confunde no infinito. Creara um longo sonho de amor, bello, bello, quanto sabia que era impossivel realisal-o no mundo. Por fim convenci-me tanto da verdade que o julgava possivel. Conheces estes sonhos dos nevoeiros do norte; quando a ondina se confunde na cerração, e o desejo vehemente de vel-a, de abraçal-a, começa pouco a pouco a dar-lhe fórma, a vestil-a de realidade, até que um dia se sente nos braços d'aquelle que a trouxe um momento{170} á existencia pelo ardor da aspiração? Foi como encontrei a mulher que primeiro me fallou de amor. A confiança d'ella fez-me grande. Disse-me que não queria a minha gloria; que antes me queria obscuro para ter de amar só a mim. Deixei-me levar por aquellas palavras que eram uma musica celeste; quando já não podia resistir a mim mesmo, o orgulho atacou-me de frente.
Disse-lhe então que era impossivel o amor entre nós. Rica, bella, não podia ser amada desinteressadamente, ao menos diante do publico. Tinha vergonha que dissessem que a amava pela fortuna que possuia; esmagava-me esta idéa vil do senso commum. Desde esse instante procurei combater-lhe o sentimento puro que me revelara. Descobri-lhe uma rival, com quem ella, apezar de todos os encantos, não poderia competir, que a deixaria na sombra a estiolar-se, emquanto se aureolava de luz, se dava á adoração de todos; era a Arte, a Arte! Quando lhe descobri esta atrocidade do egoismo, em vez de desmaiar e desfallecer como aquella ingenua e timida donzella que se prostra ante a magestade olympica de Goethe, repellida pela sua rival a Arte, que a lançou fóra do seu templo, pelo contrario se enlaçou a mim com uma candura infantil, despreoccupada, beijou-me em delirio, segredando-me com uma voz que se coava por mim, que me vencia: O que é a Arte sem a realidade! Depois disse-me com a voz languida, frouxa, impensada como a melodia de uma harpa eólia: «Eu bem{171} sei que não tenho uma belleza que deslumbre; nem ella existe senão para exprimir algum sentimento. O que agora se passa em mim é uma verdade, é por isso que as outras me chamam bella. Se eu tivesse uma correcção de fórmas como um marmore antigo, tinha medo, sabia que não era amada por mim, que me adoravam os contornos da plastica. Gosto mais de ser como sou, posso ser amada com mais verdade.» Sentia-me mais do que Deus; elle nunca teve uma adoração assim; tinha vontade de precipitar o tempo, e chamar-lhe minha. O amor ia crescendo de dia para dia. Diante da mulher que eu sonhara, era preciso mostrar-me grande para merecel-a. «Eu bem sei que a minha familia hade combater o nosso amor; que importa! Tenho medo de não poder luctar. Se me violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o teu amor.» É impossivel! Nunca. Essas palavras na bocca de qualquer eram infames, abjectas; ditas por ti, são uma dôr funda, a abnegação de quem não sabe resistir. Eu pensava em alcançar uma posição social á custa de todos os esforços; depois iria pedir a sua mão de esposa. O successo está em não precipitar o tempo. Confiava na minha vontade inabalavel. N'um instante desampararam-me todos os planos de felicidade; vi-me só! Não sei mesmo a quem accuse. Seria por força minha, se eu podesse ser infame. Ninguem mentiu. Perdi-a para sempre; entre nós ergue-se o impossivel. Eu nunca duvido{172} do seu amor; mas de que me serve agora, que é já realmente de outro homem? Não sabias que estava já casada? Não sei como explicar isto! Ella tinha um primo, o unico herdeiro de um titulo, das grandes riquezas de sua familia. Era a ultima pessoa que restava, rachytico, infesado, com a doença hereditaria, que foi levando um após um os seus irmãos. Voltara de uma viagem pela Europa; elle mesmo chegara a esquecer-se do praso fatal que lhe estava imposto pela doença. Apaixonou-se pela prima, pediu-a, dizendo que não queria deixar extinguir-se o nome de sua casa. Accederam immediatamente. A victima innocente não pôde resistir a estes combates domesticos, de todos os dias; deixou-se levar, como o cordeiro do sacrificio. Vi-a pela ultima vez no carro com o noivo; senti-me pequeno e envilecido, parece que me enterrava pelo chão. Depois não tive coragem de apparecer. Temia os epigrammas dos outros. O orgulho é o meu maior algoz; devora-me como um cancro. Sinto-me máo, com vontade de esmagar os outros, não comprehendo a generosidade. Este desgosto fez uma alteração profunda em minha vida; nunca mais posso fallar verdade, porque me mentiram no momento mais santo da vida. Sinto-me com a imbecilidade do assombro, estou estupido; sou um involucro vasio, abandonado pela borboleta; como uma concha atirada do fundo do mar immenso a uma praia deserta. Apossa-se de mim um desespero insoffrido ao lembrar-me que ainda{173} sou criança, e que tenho de arrastar uma vida erma de todas as esperanças.
—Eu bem sei que não mentes, que não é imaginaria a tua dôr. Basta olhar para a tua face; tem empanado o brilho da mocidade; é como um lago que vae perdendo a limpidez, e que as bafagens mornas evaporam. Eu queria saber consolar-te sem te humilhar. Bem sei que é muito difficil. Não achas a minima distracção onde os outros encerram todos os seus prazeres. Deixa que a tua indifferença te leve. A mulher que amaste é hoje condessa, e abre os seus salões aos amigos que festejam os annos de seu marido. Vem commigo. É um baile de mascaras. Ninguem te póde descobrir; eu apresento-te como um amigo intimo. Tu precisas cauterisar essa agonia. Vem vestir-te.
II
Pela volta das onze horas da noite os dois mascaras foram introduzidos na sala do baile. Era mais vivo o estridor das walsas; as côres deslumbrantes, as pedrarias, os reflexos da luz, a confusão e o delirio, os pares enlaçados n'um volteio frenetico, tornavam communicativa, convulsa tamanha alegria. Entraram desapercebidos, sob dominós singelos. Debaixo de uma mascara de setim ninguem sabia que andava escondido um grande desgosto; a mascara servia mais para{174} não deixar ver aos outros aquella tristeza funda que não era para ali. Ia pelos salões olhando, seguindo, como quem caminha nas trevas. Cada vulto que passava, gracejando, rindo distraído, parecia-lhe uma larva errante n'um páramo deserto. Tanta mulher bella, tantas palavras de amor, vibradas tremendo, e nem uma sombra leve de verdade. Como os homens se alegram quando sabem que estão entre si a mentir!
N'essa noite a condessa estava arrebatadora de encanto; acabara de tirar a mascara n'esse instante, e o calor que lhe afogueava a face dava-lhe uma côr lasciva, de endoudecer; o cansaço, os labios entre abertos, que estavam como a pedir beijos, tornavam-na languida, voluptuosa como a huri mais ideal dos sonhos do propheta. Caiam-lhe algumas tranças desprendidas no fragor da dança, sobre os hombros alabastrinos, como n'uma travessura, como os cabellos de uma odalisca que se alevanta do banho embalsamado e tépido. Uma das rosas da sua grinalda caiu casualmente no chão. O olhar mais ardente e expressivo de uma mulher, não podia ser tão fatal como a queda d'aquella rosa. A mascara de setim aproximou-se mysteriosamente e ergueu-a do chão. A condessa seguiu-a vagarosamente com a vista, e esperava que a flor lhe fosse restituida. O mascara escondeu-a em si, e confundiu-se nos grupos que se cruzavam. Ninguem deu por isto. Depois a orchestra rompeu com as notas estridentes e repentinas de uma contradança.{175}
—Digna-se V. Ex.ª dar-me a honra de ser meu par?—disse o mascara de setim aproximando-se levemente da condessa.
—Com tanto que diga para que escondeu a rosa?
—Se escondi a flôr, temia que a calcassem aos pés. Custava-me tanto vêr esmagada a imagem mais triste de minha alma.—Apenas proferidas estas palavras com a voz abafada e tremula, a condessa ergueu-se de subito, hesitando se deveria ouvir uma confidencia que a compromettia; o mascara de setim deu-lhe o braço e foi collocar-se ao fundo da sala diante do seu vis-a-vis, triumphando d'aquella irresolução.
—E o que pretende fazer d'essa flôr?
—Guardal-a.
—A sua determinação leva-me a perguntar quem lhe deu direito para tanto?
—Não devo dizel-o.
—Ordeno!
—Não é justo satisfazer todas as indiscrições, principalmente quando...
—Complete a phrase.
—A ingenuidade de criança...
—Diga tudo.
—É irresponsavel pelo passado.
—Não comprehendo!—Retorquiu a condessa fitando a mascara, procurando em vão surprehender debaixo d'ella quem seria capaz de fallar assim. Um mixto de terror e de curiosidade embaraçava-a, não sabia o que devia fazer. Depois{176} de alguns instantes de silencio, disse quasi em lagrimas:—Tenho medo de si! Oh dê-me essa flôr.
—Nunca!
—Exijo!—tornou a condessa com a voz sumida, sentindo-se dominada pela fascinação do desconhecido.
—Aqui está a rosa,—disse o mascara tirando do seio a flôr quasi murcha.—É impossivel entregal-a. Eu posso exigir mais em paga d'ella. Posso exigir tudo! É uma promessa inviolavel como o juramento. Um dia a mulher que eu amava, no extremo de sua vertigem e loucura por mim, prometteu ir até onde eu estivesse, e ahi entregar-se-me, se soubesse que eu tinha a vida contada por instantes, e havia de saír d'este mundo sem abraçal-a ao menos uma só vez como minha. Os desgostos têm-me devorado lentamente a existencia; presinto a cada instante em mim a frieza do sepulchro, e não soube ainda erguer a voz e reclamar a promessa fatal. Nem eu a quero! Bastou-me ouvil-a para antecipar no mundo todas as venturas do empyreo. Deseja a rosa ainda?
—O senhor dilacera-me!—volveu a condessa com a voz dorida, e com uma delicadeza inexcedivel.
—Se a flôr que deixou cair está cheia de espinhos! Não me atrevo a entregal-a. Dou pela rosa a unica idéa que me podia fazer persuadir que ainda vivo! É uma troca generosa! Acceita? Um dia a mulher que eu amava, conheceu a desegualdade{177} da nossa posição, disse-me, de um modo que só ella saberia dizer sem macular a ingenuidade de sua candura:—«Se me violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o meu amor!» Seria uma infamia vir lembrar-lhe uma palavra proferida no momento mais exaltado da paixão, para perdel-a por um capricho. Não vale essa promessa. Agora ainda quer a flôr?
—Oh, não! não!—accudiu a condessa represando as lagrimas que lhe inundavam os olhos scintillantes.—Eu não sei o que quero agora! Ninguem podia fallar-me assim a não ser... Fale-me, eu estou conhecendo esta voz! É impossivel que não seja! Não sabe como é horrivel esta incerteza. Não o julgo capaz de atraiçoar-me! Erga uma ponta da mascara, deixe-me vêl-o, a mim só, e fico descansada.
—Eu não podia atraiçoal-a, nem mentir-lhe. Sou quem imagina; vim para vêl-a pela ultima vez, porque me sinto acabar; estão contados os dias da minha vida; passo com as folhas d'este inverno. Bem o conheço, e resigno-me. Não pensei que o primeiro amor que se tem na vida poderia ser tão funesto.
—Oh, não falle assim, que me mata! Eu tenho remorsos de não ter luctado mais tempo; não tive culpa; minha familia quiz a minha infelicidade. Eu amo-o porque não sabe accusar-me. Quero vêl-o! já que não é possivel mais. Tire por um instante a mascara. É o que ouso pedir-lhe.{178}
—Eu tenho medo de arrancar a mascara; está pregada com o suor frio que me escorre da fronte. Para que me quer vêr? Estou tão demudado! Não sou o mesmo. Deve ter horror de mim; estou quasi esqueleto.
—Por um instante só! quero vêl-o, afaste um pouco a mascara.—N'este instante a condessa voltou a face de aterrada. Contemplou de relance os estragos que uma dôr lenta fizera sobre as faces tão animadas que primeiro reflectiam os seus primeiros rubores. Fez um esforço inaudito para suster-se; a mascara de setim deu-lhe novamente o braço e foi sental-a no mesmo logar onde tinha caído a rosa da grinalda; depois segredou-lhe umas palavras de abnegação e bondade:
—Esta rosa é a primeira que hade reflorir sobre o meu sepulchro.—E saiu; a noite ia remota; os alvores da madrugada luctavam com as luzes baças das salas, o acordar da natureza com o ruido vertiginoso da festa; o tedio e o cansaço traziam a desanimação, como acaba sempre o baile mais esplendido.
III
Apezar da impertinencia de rachytico e da estupidez vinculada na sua descendencia, o conde tratava perfeitamente sua mulher. A causa d'este respeito provinha da desegualdade, da força de intelligencia, da graça com que ella se tornava interessante{179} para todos. Admiravam-n'a, e esta veneração reflectia-se um pouco sobre o marido. O conde sentia que sua mulher lhe dava a importancia que não tinha por si, e respeitava-a tambem.
A alegria com que ella andava! Sentia-se mãe, tinha vontade de amar. Dera-lhe Deus um filho, uma alma para o seu amor. Parecia-lhe que ao beijal-o, ao tel-o sobre os joelhos, se esquecia de tudo, de um passado feliz, de uma união forçada, do vasio da existencia, mesmo d'aquella noite ligeira, em que contemplou as ruinas que fizera, e que lhe deixou recordações pungentes, infinitas. Depois, a lembrança do passado amor, o primeiro, o puro, o intimo, vinha unir-se a esta idéa risonha de ser mãe, que a fazia esquecer-se de tudo! Pobre mãe! O conde preoccupava-se apenas com a existencia de um herdeiro. Era o que bastava. Almas vis que destroem o que ha de mais santo na vida pelo interesse mercenario! Doente, no seu amor a mãe sentia-se cada vez mais compassiva; lembrava-lhe a rosa que lhe tinha caido do cabello, o cavalleiro que lhe fizera a despedida para o sepulchro, e esta saudade começou vagarosamente a influir, a exercer uma acção mysteriosa sobre o feto. Não é estranho este phenomeno maravilhoso em physiologia. O segredo da callipedia das mães gregas consistia em contemplar estatuas admiraveis cuja belleza se reflectia depois nos filhos.
Passados mezes veiu á luz a criança. O conde{180} andava louco com o nascimento do filho. Á medida que os traços da physionomia se iam precisando, a criança parecia-se menos com o conde; elle começou a observar isto. Não se atrevia a fazer uma accusação. Era impossivel. Depois as desconfianças tomaram corpo em sua alma, quando viu que a creança se parecia muito, muito com o rival, que preterira. Com a malignidade acintosa de achacado, foi torturando com esta atrocidade a tranquilidade de sua esposa. Ella, quanto mais se refugiava no passado, tanto mais via o filho represental-o diante dos seus olhos. Não sabia defender-se; a innocencia não se preoccupa com argucias, não quiz resistir, e deixou-se vergar pela dôr. Foi a definhar-se lentamente no soffrimento mudo d'esta impia injustiça. Assim a rosa que refloriu sobre um sepulchro que impensadamente abrira, veiu cahir desfolhada pelas virações da tarde sobre a terra fresca que acabava de a cobrir.{181}
A rosa de Sáron
(POEMA EM PROSA)
I
Era noite; o som do sino corrido ecoára pela Judiaria; emmudeceu como se as passadas lentas de um convidado de pedra troassem no meio das risadas de um festim. A alegria e o ruido do trabalho suspenderam-se; os mesteiraes e homens de officio fecharam as portas; os christãos, odiando a raça maldita, separaram-se, deixando-a ao medo da noite. Então na pequena casa do judeu accende-se a luz do lar; cansado de receber insultos durante o dia, de vêr em roda de si a vileza e a traição, a lei e o fanatismo a ameaçal-o, esquece por um instante os planos da sua industria, os recursos com que produz o ouro e os capitaes com que hade comprar a sua segurança, e entra no fóco mais intimo da familia. Entra prostrado;{182} banha-lhe o suor as faces, traz o desgosto pintado na fronte encanecida, vem afadigado das longas migrações, amedrontado pelos terrores das grandes crises do estado; ao asylar-se no remanso da casa, entra como o errante do deserto em um oásis desconhecido; o semblante tranquillo da esposa lembra-lhe o typo de Esther, da Sulamite, de Débora, da Sibylla palestiniana, e abraça-a com a sofreguidão com que umas fauces resequidas se dessedentam em uma nascente viva. Vêm depois os filhos, debruçam-se-lhe dos hombros, prendem-se-lhe ás pernas, enlaçam-se em volta do corpo, e n'essa hora o judeu sente-se outra vez forte para todas as luctas, para todos os opprobrios, para todos os vexames, com alma para affrontar a miseria e o queimadero. Falla das tradições de Israel, da sua migração através dos seculos, da terra promettida, e do Messias, não o idolo papal que se impõe pela fogueira, mas a boa nova da egualdade e da liberdade humana.
II
Na Judiaria, habitava um velho negociante de joias e pedrarias; quando algum potentado casava, mandava sempre ali escolher o presente de noiva, a compra de corpo, o dom da manhã. Elle tinha as pérolas das mais lindas do fundo do mar; as rochas mais encantadas do Oriente{183} tinham entregues ao joalheiro os brilhantes facetados da agua mais limpida; topazios, esmeraldas, adereces, diademas, nunca o thesouro da Senhoria de Veneza reuniu riquezas de tanto gosto e primor. Viera de Hespanha, no tempo da grande expulsão dos judeus por Fernando e Isabel; o facho de Torquemada allumiou-lhe o caminho de Portugal, terra da tolerancia e da paz. O clima, o ár, a doçura do céo, lembram-lhe o Oriente; elle ama como filho a boa terra luzitana. Voltava do trabalho á hora do sino corrido; deixava o thesouro que faria a inveja de bastantes thronos, mas vinha vêr outro thesouro, o mais querido, e extremecido—uma filha de quinze annos. Chamava-lhe o bago das vinhas de Engadhi; chamava-lhe a Rosa das campinas de Sáron, irmã gemea da filha de Jephté, pura como Débora, deslumbrante como a Sulamite.
III
O pae entrara para casa; veiu a filha abraçal-o quasi á porta. Se o bom do velho não recearia que lhe descobrissem essa flôr escondida! Esperava-o a tranquillidade do lar; os risos e folguedos das outras crianças faziam-lhe esquecer os apupos e maldições da gentalha. Jogral de um povo rude, o lar tornava-o um patriarcha, um levita, sacrosanto como Moysés descendo o Monte{184} do Senhor. Sentou-se de cansado. Tinha perto de si o Guemára; ao lado vem assentar-se a filha, Ebla, assim chamada do nome da Lua, como conta o velho Livro de Enoch. Ebla fallou-lhe:
—Nunca mais tornaremos a vêr Sião, e os tumulos dos prophetas? nem escutaremos o susurro dos nossos rios?
O pae, emquanto as outras crianças brincavam, poisou o dedo sobre o verso do Guemára, volveu-lhe um sorriso doloroso.
—Virgem do côro das donzellas de Sião, os nossos filhos continuam a nossa existencia na terra; assim como o castigo vem dos paes sobre a cabeça dos filhos, o Senhor tambem recompensa nos filhos os bens que os paes tiverem merecido. Ha quantos seculos andamos longe de Sião bemdita; eu sinto que os meus não pisarão o solo da terra promettida; mas vejo-te ao meu lado, como a flôr que brota de uma ruina; eu não poderei entrar na Cidade dos prophetas, serei como Moysés no alto do Abarim; mas o Senhor deu-me uma esperança, fez-te nascer em meu lar, filha. Assim o fanatismo e a atrocidade me não arranquem a vida. Uma noite, eras tu ainda pequenina, em Toledo; a noite ia escura e carregada, chovia, cruzavam-se os raios. Soôu na Judiaria uma voz sinistra: Ás onze horas do sino da Cathedral, a hora em que deviamos abraçar a religião de Christo, seriamos lançados nas fogueiras das praças ou abandonar para sempre a formosissima{185} terra de Hespanha. Os meus thesouros lá ficaram, e dei-me por feliz em trazer-te commigo. Portugal anda entregue ás descobertas e aventuras do mar; os odios de raça ainda cá não tinham sido exaltados pela classe dos tonsurados. Trouxe-te ao collo, e tu me deste animação e alento na fugida.
—Ó meu pae, accudiu Ebla, passou hoje pela nossa porta uma cigana, cantando romances e siguidilhas de Hespanha, e pedi-lhe para ella cantar...
—E que ouviste? interrompeu o judeu aterrado.
—Ella contou-me que el-rei D. Manoel vae em breve casar com a filha de Fernando e Isabel a Catholica, e que ella só acceita a mão de esposo com a condição de desterrar para sempre os judeus para fóra de Portugal. E acompanhava a noticia com a cantiga castelhana:
Ea! Judios
á enfardelar!...
los Reyes mandan
passar la mar.
O velho judeu ficou assombrado; fechou o Guemára, e repousou a cabeça sobre o livro. De repente sentiu-se eccoar pela Mouraria o som secco e repetido de uma matraca, e de espaço a espaço, a voz do pregoeiro das justiças, bradar:
«Ordem d'el-rei para os judeus de Lisboa se apresentarem na alvorada com uma dança judenga,{186} guisos, touras e guinolas, para irem receber o séquito da nova rainha. Soffrerá pena de morte o que levar armas comsigo. O rabbi da Judiaria irá na frente das dansas.»
Debaixo das janellas do velho judeu soaram estas palavras. O canto da cigana revelado pela filha lembrou-lhe um presagio funesto.
—Patriarcha no lar e truão nas ruas! cumpra-se o destino a troco da paz.—E levantou-se com o aspecto venerando de sacerdote magno, e foi sacudir a sua vestimenta de guisos, procurar a palheta, emquanto esperava o toque da alvorada.
IV
Lisboa tumultuava em festa immensa; arcos e flôres, salvas de artilheria, estandartes, musicas, annunciavam o dia da chegada da infanta D. Isabel, mulher do monarcha Venturoso. Já se sentia o estrépito do cortejo real; pelas portas da cidade vem entrando as dansas dos mesteiraes. Primeiro, vinha a Folia, com gaitas e pandeiros á velha portugueza, dansando em volta de um tambor; trazem guizos nos pés, cantam letrilhas de folgar e sainetes galantes; os guizos dos artelhos no reteninte som confundem as coplas. Com gentil ademan no ár volteiam lenços acenando. Vinha depois a Carraquisca, a dansa dos barqueiros e mareantes dos galeões do Tejo; trazem{187} andando um balanço que imita um bambula dos pretos, aprendido lá nas conquistas. Vae passando a Cativa, uma outra dansa de agrilhoados mouros, bailando aos modos da Salé, vão confessando preito á nova rainha. Já vem perto a Gitana, toda feita de ranchos de raparigas vestidas de variegados pannos, cintos de ouro e vermelho; voam-lhes as roupagens com o vento cruzando facas entre si, ao doce baylo da Mourisca, que os sentidos fez perder com a trisca dos volteios. Eis que chega tambem a Dansa judenga! Os apupos do povo alevantaram-se furiosos chamando-lhes traidores; as vaias e as pedradas eram pelo ár sem conto; a plebe desenfreada atira-se de roldão sobre a judenga ao entrar da cidade, e abafam as queixas dos opprimidos com risadas. Vinha na frente o velho Rabbi, dirigindo a guinola e toura, quando um malvado lhe arrepella as barbas brancas. Os olhos do veneravel velho chamejaram de indignação e vergonha; levantou a palheta de bobo que bamboava nos ares, e descarregou-a na cabeça do atrevido, com a mesma altivez de animo do velho Consul da cadeira curul. O villão cahiu por terra e lá ficou calcado aos pés da multidão que se atropellava e ruía furibunda sobre a desgraçada dansa judenga. O velho Rabbi fugiu a todo o custo; a multidão precipita-se apoz elle; gritando, chamando-lhe réfece assassino. A noite vinha descendo, e protegido pelas sombras do crepusculo se ia livrando dos golpes que lhe atiravam.{188} O velho ia quasi exhausto, a turba que o perseguia ia rareando apoz elle; já poucos o seguiam; mais um esforço, e ficaria salvo; as pernas parecem falhar-lhe, falta-lhe o ar; sente vontade de atirar-se ao chão e deixar-se retalhar. Mas um raio de luz e de vigor lhe atravessou o espirito; lembrara-se de Ebla, de sua filha!
Ia o velho Rabbi a entrar já na Judiaria, estava quasi á porta de casa quando um dos poucos populares que ainda vinha atraz d'elle lhe deitou a mão. Inesperadamente veiu-lhe um soccorro imprevisto; um donzel do séquito do principe Dom Affonso, e que andava ainda triste com a morte do seu joven amigo, sentiu um impulso do bem e defendeu o velho judeu. Desembainhou a espada e os populares retiraram-se. O Rabbi bateu á porta; abriram. Á luz de um candil viu o moço cavalleiro a cara mais linda de nazarena, os olhos mais languidos que não teria a Sulamite; o sorriso mais puro, a graça, a meiguice, a expressão de Quirub. Que contraste! na rua o genio do mal a seguil-o, em casa o anjo da candura a allumial-o, a inspirar-lhe serenidade.
O velho Rabbi vinha ensanguentado e roto; ao receber o abraço de Ebla tirou-lhe do pescoço um colar de perolas, e veio dal-o ao desconhecido. O moço cavalleiro beijou-o, e tornou-o a entregar.
—Quem és, que te mostras tão generoso e cavalleiro? perguntou o Rabbi.{189}
—Dom Tello; e adeos!
O moço cavalleiro perdeu-se na sombra da noite; ai d'elle se a essa hora entrasse em casa do judeu; a lei era implacavel; condemnava-o á pena do fogo.
O velho Rabbi sentou-se offegante, com a cabeça encostada aos hombros da filha. Quiz começar a fallar-lhe mas as lagrimas e os soluços irrompiam frequentes. Alfim, pode ligar as palavras e contar-lhe o succedido.
—Oh meu pae; parece que os nossos desastres não acabaram aqui. Hoje passou rente á gelosia uma cigana, e parou a cantar, e dizia que el-rei D. Manuel casando com a infanta de Castella, a primeira promessa do seu dote era tirar aos judeus os filhos de menos de quatorze annos, e baptisal-os á força, e matar os mais velhos e pol-os fóra de Portugal...
—Filha, é o céo que manda esse aviso; tu foste a minha providencia.
E desceu a um subterraneo da casa, e lá se entreteve sósinho dispondo as suas riquezas para a hora da expulsão.
Ebla ficára por instantes só; revolvia na mente o dito da cigana; nas cantigas a cigana dissera-lhe mais cousas: Que um cavalleiro moço e formoso a adorava; que por ella seria capaz de abandonar a religião em que nascera e seguil-a até aos confins do universo. E que se um dia visse um moço trigueiro, de bigode preto e olhos vivos, faiscantes, era D. Tello, aquelle que a{190} adorava. Ebla atou na mente esta lembrança; lembrou-se que Tello, o moço cavalleiro acabava n'esse instante de salvar o pae. Nasceu-lhe na alma um amor repentino; veiu-lhe uma vontade de vêl-o, de lhe fallar; notou a generosidade de não acceitar mas beijar o collar de pérolas. Solícita e a medo assomou á gelosia; a luz do candil reflectiu-se fóra, através das grades da adufa. Sentiu uns passos na rua, depois uma voz mansa e suave que proferiu no silencio da noite:
—Ebla!
Estes sons entraram na alma da donzella; e obedecendo á fascinação d'aquella voz, lançou a cabeça de fóra. Viu na sombra um vulto, que a irradiação lhe illuminou como a imagem vaga descripta no cantar da cigana. Aquella voz, como vibrada por um verdadeiro amor, disse-lhe com o imperio de uma vontade irresistivel:
—Vem.
Ebla desceu em cabello, e sentiu-se envolver em um abraço apaixonado, vehemente, expressivo. Era a primeira vez que sentia o amor. Deixou-se levar sem saber porque, nem para onde.
N'aquella noite, com as festas do casamento de el-rei D. Manuel, as portas da Judiaria ficaram abertas. Ebla e D. Tello afundavam-se na escuridão da noite, quando entra na Judiaria um tropel immenso de homens de armas e de cavallo; ia na frente o alcaide da justiça. Ao som de uma matraca restabelecera-se o silencio, e pela{191} escuridão sombria e soturna da Judiaria soava uma voz sinistra, como de sentença:
«Pregão d'el-rei D. Manoel, para os judeus, ao toque da alvorada, embarcarem para fóra de Lisboa, sob pena de morte.»
A palavra morte accendia na multidão um enthusiasmo frenetico que apupava, ameaçava e esbravejava cantando entre risos alvares:
Ea! Judios
á enfardelar!...
los Reyes mandan
passar la mar.
Áquelle grito sinistro, toda a judiaria se levantou em pezo; do fundo do seu subterraneo saiu o velho Rabbi, solicito, temeroso, mas constante. Ouviu proferir a sentença ominosa. Chamou por sua filha, e foi accordar as outras crianças que dormiam; a mulher voltou apressada do pé dos thesouros. Tornaram a chamar por Ebla; o grande ruido das ruas e da multidão nada deixava perceber. Chamou por Ebla com uma afflicção de morte; viram a porta aberta; multidão de gente que tripudiava, lançando fogo ás casas. O velho pae parecia um leão ferido.
—A maldição d'esta raça caiu inteira sobre mim. Perdi tudo ao levarem-me essa filha. A minha condemnação, a minha morte para salval-a. Se ha no mundo alguma força superior, que seja o destino das cousas, Jahvé ou Jesus, acaso ou as potencias do inferno, conjuro tudo{192} sacrifico-lhe a minha vida, a minha sorte pelo apparecimento d'Ebla. De que vale todo esse ouro e pedrarias se perdi Ebla; levaram a minha joia de mais valia, e com ella todas as esperanças e alegrias da minha vida...
Era incomportavel a dôr do velho; ia continuando, frenetico, doido; queria fazer-se christão para procurar a filha, quando eccoou de novo a voz do alcaide da alta justiça:
«Soou agora o toque da alvorada; o incendio lavra já na Judiaria!—Ao embarque, ao embarque nos galeões do Tejo, ou a morte á escolha.»
O velho Rabbi saiu com sua mulher e dois filhos pequenos, levados em tropel confuso e lamentos para o Tejo, aonde se enchiam os galeões de Hollanda, e resoava o ecco lugubre:
los Reyes mandan
passar la mar.{193}
Os quatro filhos d'Aymon
(CONTO DO CERCO DO PORTO)
Havia tres dias que o Marechal Solignac desembarcara no Porto com alguns soldados belgas; com elles entrara tambem para dentro do cêrco um terrivel inimigo—o cholera-morbus. Aos tiphos, que já devastavam a cidade, veiu ajuntar-se essa nova desolação, para tornar mais completo o triumvirato da morte. De cem pessoas, atacadas diariamente, succumbia um terço. A fome ia conduzindo ao desespero, porque, além das forças inimigas, desde janeiro que os vendavaes bloqueavam a barra. Á falta de carne, os doentes eram sustentados a sôpa de bacalhau; os caldos eram temperados com assucar e aguardente, as camas eram desfeitas para sustento dos cavallos, e, além dos preços dos generos encarecerem,{194} os mercieiros vendiam falsificações doentias, taes como de azeite e oleo de linhaça, ou de manteiga e sebo. Era preciso luctar com a fome, e em fevereiro começou a distribuir-se uma sopa economica, de um quartilho de caldo de feijão com arroz e farinha de trigo; no primeiro dia acudiram trezentas pessoas, ao segundo dia subiram já a setecentas as rações. Emfim, desde a perda do reducto do Monte de Crasto, que Solignac apenas conservou oito horas, as condições de resistencia da cidade tornaram-se desesperadas; derrotado o marechal, na sua tentativa de assalto ao Castello do Queijo, em 24 de janeiro, a consequencia desastrosa fez-se logo sentir. O inimigo comprehendeu que, fechando a barra do Porto, venceria o cêrco pela fome. Para isso fortificou quasi toda a costa, e levantou a terrivel bateria de Serralves, que cortava toda a communicação com a Foz. Pelo seu lado, os liberaes reforçaram o reducto da Senhora da Luz e occuparam immediatamente as alturas do Pastelleiro e do Pinhal. Mas a resistencia ia-se tornando cada vez mais inutil, porque além da chuva de granadas que cahiam dia e noite sobre a cidade, além da recrudescencia do cholera, para o qual já não bastava o hospital da Quinta dos Congregados, o mar conservava-se tão tempestuoso que não era possivel apparecer véla alguma no horisonte! Foram quarenta dias desesperados, quarenta dias em que esteve tudo perdido, menos a força moral.{195}
A historia official, subordinada á exacção dos boletins de campanha, não allude a este cyclo dos quarenta dias do principio do anno de 1833, e comtudo n'esse periodo de desolação extrema é que se praticaram os maiores rasgos de validez moral: todos foram heroes, as mulheres, os velhos. É triste que homens do talento de Garrett e de Herculano, e mesmo generaes que sabiam trocar a espada pela penna, e que foram heroes n'esses grandes dias de sacrificio, se não lembrassem de colligir as sublimes tradições epicas do cêrco do Porto, que ainda casualmente se repetem. Essas tradições vão-se perdendo, como toda a poesia de um povo, que começa a morrer pelo esquecimento do seu passado. Contaremos um d'esses esplendidos episodios, desconhecido dos historiadores, mas conservado ainda na vida burgueza do Porto; pinta-nos o espirito de resistencia em que a cidade se achava, n'esses quarenta dias decisivos.
A 4 de março, as tropas de D. Miguel foram atacar as posições dos liberaes na Foz, seguras de que era já impossivel sustental-as mais tempo; no meio da sua hallucinação, os atacados tomaram a offensiva, e os rebeldes retiraram-se deixando duzentos mortos no campo. D. Pedro, que gastava os seus esforços em conciliar os generaes despeitados, apparecia sempre em todos os momentos de conflicto. Era junto dos soldados, ao pé dos voluntarios burguezes, que elle readquiria confiança e se mostráva alegre, presentindo{196} o triumpho da causa da liberdade. D. Pedro appareceu na bateria da Luz; foi ahi que se lhe tornou reparavel um velho que elle encontrava sempre vagabundo pelas linhas, nos pontos em que eram renhidos os ataques. Notou que o velho andava desarmado, e observando diligentemente; não pôde deixar de dirigir-se a elle com um interesse e familiaridade em parte provocados pelo seu aspecto venerando e cheio de auctoridade:
—Amigo! que faz você por aqui?
—Senhor, tenho aqui nas linhas um filho.
—Bem; então ande á vontade, se não tem medo das balas.
—Medo das balas? Isso são confeitos de noivado. Não tivesse eu cá os meus setenta e quatro, que outro gallo cantaria.
—O seu filho, vê-o d'ahi?
—Por ora ainda o vejo. Não estou aqui por ter medo de perdel-o; é para ir socegar as mulheres, as irmãs, que sempre estão com cuidado. Querem saber alguma cousa das linhas.
Este dialogo foi interrompido por um toque de carga á baioneta; pode-se imaginar quem trouxe para a cidade a noticia do triumpho. Chegou o terrivel dia 24 de maio; estava acabado de construir o reducto das Antas, guardado apenas por trinta soldados de caçadores 5. N'isto, as tropas inimigas, de dois mil homens, tomaram o reducto das Antas! Era preciso desapossal-as, a todo o transe, e de facto não poderam conservar o{197} reducto além das tres horas da tarde desse dia. Infanteria tres, nove e dez, quarenta lanceiros e um batalhão inglez cumpriram o seu dever; foi uma refrega atroz. O Monte das Antas ficou juncado de cadaveres; mais adiante, na Casa Negra, era ainda maior a carnificina.
Foi no combate da retomada das Antas que D. Pedro tornou a encontrar o velho burguez; já lhe haviam dito como se chamava. Era o contraste do ouro, o typo do antigo homem bom, chão e abonado, como o caracterisa a Ordenação do reino; chamava-se Cosme Martins. Assim que D. Pedro deu por elle no tropel, destacou-se dos officiaes, para fallar-lhe:
—Outra vez por aqui, com este fogo?
—Tenho cá outro filho.
—Outro filho? Como se chamam os rapazes?
—Na bateria da Luz está o meu Eduardo, tem dezenove annos feitos.
—Póde bem com a espingarda. E o outro?
—Está aqui nas Antas; é o meu Thomaz, já formado em leis.
Em meio da conversa, D. Pedro foi interrompido por uma d'estas circumstancias que se dão em todo o campo de batalha; vieram contar-lhe como se achara uma carta na algibeira de um morto por onde se sabia que era o major dos realengos de Trancoso. Não se tornaram a vêr, n'esse dia, o velho e D. Pedro.
A sete de abril, descobriu-se a longa estacada feita pelos inimigos desde as primeiras casas de{198} Paranhos até á Eira do Covêlo. Queriam fortificar-se alli; não havia tempo a perder; era preciso desalojal-os. A artilheria dos liberaes começou a responder desde as nove horas da manhã, e durou o fogo até ás seis horas da tarde. Cruzaram-se as baterias da Gloria, do Pico das Medalhas, do Serio, da Aguardente e de S. Braz. Uma força de mil homens sahiu fóra das linhas, para tomar de assalto o monte do Covêlo, que os inimigos abandonaram. Porém, no dia 10, os miguelistas voltaram, com o intuito de retomar os pontos perdidos, onde os liberaes tinham levantado um reducto em menos de oito horas. Estavam lá dentro apenas duzentos soldados; foram atacados por mais de dois mil dos rebeldes, que chegaram até dez passos de distancia. No meio do fogo, quasi á queima-roupa, jogavam-se os insultos que tornavam mais violento o ataque; de dentro perguntavam aos assaltantes se elles traziam os saccos para a pilhagem da cidade. Foram momentos decisivos: duzentos homens livres poderam esmagar dois mil janizaros.
No meio d'esse implacavel desbarato, andava D. Pedro, e quando tornou a avistar o velho, que estava envolvido em um antigo capote de camelão, sorriu-se para elle, como quem o tomava já como um presagio de felicidade. E emquanto tocava a reunir, D. Pedro foi para elle, esfregando as mãos:
—Olá! bom homem.{199}
—Senhor D. Pedro, elles hoje é que pagaram o vinho.
—E bem pago. Então você tem por cá mais algum filho?
O velho não pôde deixar de alegrar-se com a pergunta maliciosa, e respondeu com uma convicta serenidade:
—Tenho aqui mais outro filho.
—Outro filho, homem! De dois, sei eu.
—Este é o que me ajuda no officio; ficou de hontem para hoje no reducto do Covêlo, e já sei que está são como um pêro...
—Parabens, amigo, parabens. Com que então, na bateria da Luz, um; no reducto do Monte das Antas, outro; no Covelo...
—É o meu filho Cosme.
—Ainda tem mais algum?
O velho sorriu-se, com ár de quem busca attenuar uma phrase, que poderia ser tomada como expressão de vaidade:
—Não queria fallar do outro filho, que tenho na bateria do Pico das Medalhas, antes de me encontrar alli com vossa magestade.
—Oh! homem! outro filho?
—E mais que tivesse; esse é o meu Fortunato; e quando não está no fogo da bateria fica de semana, em serviço medico no hospital dos cholericos de S. Pedro de Alcantara.
D. Pedro emmudeceu diante da revelação casual de um tão completo sacrificio. Abraçou o velho, porque não pôde articular palavras, e os{200} olhos marejaram-se-lhe de lagrimas. Aquella natureza egoista, como a de todos os principes, insensivel á dedicação como o revela a demissão do grande Mousinho da Silveira, foi uma vez tocada pela realidade das cousas. As palavras desinteressadas d'aquelle velho revelaram-lhe que se elle sabia sacrificar-se por uma filha, ninguem, em uma cidade sem muros, cercada por mais de oitenta mil inimigos, dizimada pela peste, apertada pela fome, ameaçada pelo saque, ninguem poupava o seu sangue, porque todos queriam converter a liberdade em um direito. O sacrificio de um pae ficava supplantado pelo sacrificio a uma geração inteira!{201}