Odio de inglez
COMMENTARIOS AO CONTO DO SR. THEOPHILO BRAGA
A adega de Funck
Uma das idéas de que todo o bom artista se possue fortemente, foi de que Hoffmann, apesar da extravagancia das suas composições, não inventava totalmente os typos singulares da sua grotesca e terrivel galeria. Hoffmann, como Callot, Lantara, Heine, Diderot, e Chamisso, accusados de terem creado typos fóra da natureza, extravagantes, impossiveis, e movendo-se n'uma atmosphera puramente ideal, tinha reunidos, ás potentes faculdades creadoras do poeta, todos os finos e preciosos dotes de observação—o apanagio especialissimo da pintura.
Ora Hoffmann foi uma das mais privilegiadas e divinas organisações artistas—por que como todos o sabem excellentemente—foi maestro, poeta e pintor.
É possivel que a imaginação singular do narrador allemão preenchesse muitas lacunas dos dramas reaes, de que o seu lapis tomava apontamentos, lhe désse depois uma outra vida mais poetica, mais ideal, mais conforme á sua organisação de visionario, de poeta e caricaturista—e elles{202} depois apparecessem no seu estranho reportorio sensivelmente transformados e melhorados—como um artista mysanthropo emendando a natureza, e nos seus momentos de máo humor permittindo-se a liberdade de a achar vulgar e imbecil. É possivel, porque todos os verdadeiros artistas têm sentido estas taciturnas horas de mysanthropia incuravel, e este profundissimo desgosto da ordem regular das cousas.
Mas o que é certo é que achamos attestados notaveis tanto nos seus contos como nas suas carteiras, notas secretas, de que Hoffmann era um espirituoso observador, e que não creava—totalmente—as suas composições por muito estranhas que pareçam.
N'um dos mais bellos contos de Theophilo Braga, A adega de Funck, n'aquelle dialogo entre o visionario e o amigo, achamos sempre um novo, melancholico e precioso sabor. Baseia-se o conto n'aquelle amor do artista pela novidade dramatica e singular que apresentam certas peripecias vulgares da vida real. Hoffmann mostra-se possuido da idéa de escrever um conto fundado n'uma aventura sinistra de um homem a quem a mulher confessa, na hora cheia de lagrimas da agonia, de o haver trahido, e a que elle retribue successivamente com a fria e medonha confissão de a haver envenenado.
Ora nós, na distracção solitaria do nosso gabinete, folheando ha pouco um livro curioso pela sua notavel excentricidade, de Emilio Colombey,—encontramos a sinistra historia, que tanto impressionou o nervoso narrador allemão.
Emilio Colombey diz haver extrahido a noticia, que nos impressionou tambem, das columnas da Gazeta dos Tribunaes, de 1795.
Vamos dar alguns pormenores sobre esta historia colhidos no livro de Colombey, que servirão como de curiosa nota ao conto phantastico de Theophilo Braga;—os leitores de apurado gosto litterario acharão prazer em conhecer a aventura terrivel.—{203}
«O auctor d'esse assassinio mysterioso, diz a Gazeta dos Tribunaes,—depois de descrever o homicidio de um official de marinha ingleza que se affastava rapidamente n'um escaler de guerra, o Penguim, no canal de S. Jorge,—o auctor d'esse assassinio singular, pertencia a uma das mais antigas e illustres familias inglezas. Chamava-se lord A... e gosava no condado de Tifferay de todos os privilegios inherentes ainda á auctoridade feudal. Os sentimentos que lhe votavam, tambem, eram geralmente, mais do terror que os da amizade; porque era bem notorio que o lord, no seu odio pela Irlanda, não tinha retrogradado muito aos tempos da Rosa Vermelha e da Rosa Branca, e que não era por falta de vontade que os irlandezes não eram tratados tão deshumanamente como sob Henrique VII, quando conquistou aquella ilha e lançou as bases da legislação atroz que devia pesar sem interrupção sobre esta nação humilhada.
Não era voluntariamente, tambem, que lord A... viera estabelecer-se na Irlanda, depois de haver sido por muito tempo em Londres um dos dandys mais requintados do Regent Street e de Piccadilly: tinha-lhe cabido em herança um vasto dominio no condado de Tipperary. Mas o testamento do legatario tinha uma clausula pela qual se estabelecia que este não poderia ser senhor do dito dominio, senão com a condição de o habitar perpetuamente. O lord inglez, que estava longe de possuir uma fortuna correspondente á illustração do seu nascimento e ao seu amor do luxo, viu-se na necessidade de subjugar-se a esta extravagante exigencia.
A antipathia hereditaria que tinha á Irlanda mais se aggravou com esta restricção, e o seu humor, naturalmente melancholico, tornou-se sombrio e feroz. Comtudo, como era rico, e ligado a uma dama caritativa e formosa, que, afinal de contas, semeava em torno de si o dinheiro com uma rara profusão, a opinião publica mostrava-se paciente e attribuia, não sem razão talvez, as frias violencias e os excessos sem paixão a que se deixava levar, á originalidade do seu caracter.{204}
Lord A. seguido de um doutor que fôra chamar,—porque mal acabara de commetter o assassinio fôra chamar um medico para assistir a lady que se achava agonisando,—Lord A. seguido do doutor, atravessou silenciosamente o seu dominio, embrenhou-se no campo, e subiu com passo firme o caminho em declive que conduzia á entrada do castello senhorial.
O cuidado que se havia tomado de estender por todos os corredores uma espessa cama de palha e feno, a physionomia alterada dos creados que atravessavam machinalmente as camaras e os corredores, como para fugirem a um indomavel terror, emfim os gritos dilacerantes que quebravam, por intervallos, o profundo e frio silencio que reinava n'aquella casa, affirmavam sufficientemente que se estava representando ali uma scena de agonia.
Lord A. sem se dignar dirigir uma palavra aos creados, penetrou no quarto d'onde partiam os gemidos desesperados. Uma mulher extremamente nova ainda e de uma physionomia das mais seductoras, estava estendida n'um leito, na attitude de um soffrimento incrivel; os longos cabellos loiros desmanchados envolviam-a toda; corria-lhe o suor do rosto; e o corpo abalado de estremecimentos convulsivos retrahia-se sobre si mesmo a intervallos, com uma horrivel flexibilidade.
O lord parou a este espectaculo. A doente ouvira-lhe o ruido dos passos e pronunciára o seu nome: fixou n'elle um olhar desvairado com uma indefinivel expressão de dôr, e voltando-se para o medico, que se conservava ao pé do leito n'uma immobilidade contemplativa, bradou-lhe n'uma voz sonora que não admittia hesitação nem recusa:
—Não tendes nada aqui que fazer, senhor, sahi!
O medico parecia indeciso, e cheio de duvidas terriveis: no emtanto não tratou de se oppôr a esta ordem, porque um simples olhar bastou-lhe para comprehender que lady A... estava perdida. Todavia pegou na mão da doente, baixou-se para vel-a melhor, e não poude ser senhor de um estremecimento, observando que as unhas d'aquella mão, já livida,{205} estavam mosqueadas de pequenas nodoas negras. Assim que saiu do quarto, lady A... fez um signal ao lord de approximar-se, e opprimindo-lhe o braço com uma força cheia de paixão:
—Mylord, esperava-vos para morrer, não chameis ninguem, não invoqueis soccorro algum, o mal é irremediavel, o doutor bem o percebeu: viste-o!
Abafou no travesseiro os soluços involuntarios que lhe arrancava o soffrimento, e ajuntou:
«Ouvi, mylord;—uma pobre mulher á morte, que succumbe ás mais atrozes torturas, tem direito, talvez, a alguma indulgencia. Rasgae, oh! rasgae por um momento o manto de frieza com que vos cobris... por que tenho um favor supremo a solicitar-vos, uma confissão dilacerante a fazer-vos... Eduardo, lady A... acha-se criminosa, bastante criminosa para comvosco. Durante a vossa ultima estada em Londres, um homem, que na mocidade amei, aproveitou-se do isolamento em que me achava pela vossa ausencia, para despertar com suas palavras, em mim, recordações mal extinguidas. Que mais direi? Não vos achaveis aqui para me defenderdes da minha fraqueza, para me proteger contra o meu coração, succumbi... É isto o que vos quiz confessar antes de descer ao sepulchro, e o que me causa dôres mais atrozes do que as da agonia. Sêde clemente, mylord!... A expiação succedeu logo á culpa. Sinto arderem-me as entranhas. Deus encarregou-se de vos vingar!
«Lord A. escutára esta confissão solemne da moribunda com uma attenção grave e recolhida. Os seus gestos em perfeita immobilidade, não deixavam transparecer colera, espanto ou piedade. Contentou-se só em apertar a mão da moribunda que procurava a sua.
«Surpreza com este silencio, lady A... por um violento esforço tratou de se levantar no leito, e encarou fixamente o marido, procurando vêr se lhe lia nos olhos o seu pensamento mais secreto.
—Depressa, mylord, soluçou ella,—um derradeiro beijo; o beijo do perdão. É quasi n'uma morta que o daes!{206}
—Eu sabia tudo, e perdôo-vos,—respondeu o lord sem se commover. Mas, lady, a vosso turno, tendes tambem que me conceder um perdão: fui eu que vos envenenei.
«E ajuntou com o mesmo sangue frio:
—Quanto ao vosso amante matei-o esta manhã nas margens do canal de S. Jorge.
Uma exclamação de horrivel espanto, um grito de odio selvagem succedeu a esta dupla revelação, atirada de um modo tão calmo no meio de uma tão dolorosa agonia.
Sempre senhor de si, lord A. não abandonou a cabeça da moribunda em quanto esta não exhalou o derradeiro suspiro.
Depois de lhe ter emfim coberto a cabeça com o lençol mortuario, pegou no castiçal que havia illuminado esta scena lugubre e subiu ao andar superior onde estavam situados os seus aposentos particulares. Ao affastar-se d'aquelles tristes logares, teve o cuidado de ir fechando as portas dos diversos quartos por onde atravessava, de lhes tirar as chaves e ir correndo todos os ferrolhos, atraz de si, sem excepção de algum.
Ninguem teria podido suspeitar, nem da sua attitude firme, nem dos seus gestos fleugmaticos, um indicio qualquer da mais leve agitação; e se por acaso o temor ou o remorso lhe agitavam surdamente o coração, esforçava-se por occultal-o a si mesmo.
Durante toda a noite viu-se brilhar uma luz no quarto de dormir do lord; não chamou creado algum, e reinou sempre o mais profundo silencio n'esta parte do castello.
No outro dia pela manhã o creado de quarto do lord tentou debalde penetrar nos aposentos, e, cheio de inquietação, mandou chamar os constables e os policemen. As portas foram abertas pela força armada, e quando entraram poderam ver então o lord estendido em cima de um tapete e banhado em sangue.
Uma expressão de ironia convulsiva era a unica cousa que a morte lhe deixara impressa na physionomia decomposta. Sem perder cousa alguma do sangue frio estoico de que os suicidas inglezes teem offerecido até hoje tão espantosos{207} exemplos, o lord havia-se degolado com uma navalha de barba, e havia separado de um unico golpe, com uma força incrivel e com a mais sinistra habilidade a secção da arteria carotida.
A vella, quasi toda consummida, ardia ainda sobre a mesa, onde estava collocado, no logar mais visivel, um papel, lacrado e sellado com as armas do lord e com esta epigraphe escripta certamente por um punho firme e seguro:
Testamento de lord A... fallecido em C... a 7 d'outubro de 1795
Este papel, depois de aberto, indicava o spleen feroz que roía o lord, e o odio cego que elle votára á desgraçada Irlanda:
«Eu deixo e lego a somma annual de dez libras esterlinas para serem pagas, perpetuamente, pelos meus successores; essa somma, tal é a minha vontade e o meu gosto, será empregada em comprar um certo licor, chamado vulgarmente wiskey; e fazer-se-ha saber ao publico que este licor deve ser distribuido a um certo numero de particulares irlandezes, sómente, cujo numero não poderá ser superior a vinte; e deverão ajuntar-se no cemiterio em que eu hei de ser enterrado. Ahi deverá ser entregue a cada um, um bordão de carvalho e uma faca, e, assim armados, começará a ser distribuido um quartilho de wiskey a cada um, até que toda a ração seja consummida, e é minha vontade que isto tenha logar todos os annos a 17 de março ou a 10 de outubro.
«A razão por que assim determino isto é para que os habitantes grosseiros da Irlanda, cada vez que se juntem, nunca lhes escasseiem armas para se destruirem; e por isso quiz tomar o meio mais efficaz de os reunir, na esperança que com o tempo chegarão a despovoar por suas proprias mãos o seu paiz, que se poderá tornar a povoar depois com uma raça civilisada vinda de Inglaterra.»
Aqui termina a estranha noticia dada pela Gazeta dos Tribunaes, que extrahimos do livro de Colombey.{208}
Ora Hoffmann é muito provavel que houvesse lido o celebre jornal, que trazia sempre dramas muito notaveis por aquelles tempos tão agitados de 1795, e muito mais notaveis especialmente para aquella imaginação ardente do poeta allemão: pois que é certo que na sua carteira existiam muitos outros apontamentos como este; ou a que Hoffmann não tinha achado no seu espirito a fórma especial em que os devia moldar; ou porque novas phantasias de visionario o impediam.
Muitos dos seus contos tinham sido achados na conversa dos amigos, nos jornaes, na rua e nas obras dos auctores que lia. Juntamente com este drama, este terrivel conto em embryão—que Theophilo Braga faz tão bem perseguir a imaginação doente do artista n'uma noite chuvosa, á luz crepuscular de uma lampada, n'uma adega subterranea—juntamente com este apontamento, estava outro colhido no Diabo coxo, de Lesage. O assumpto devia ser um demonio perseguidor e conselheiro. E com estes mais...
O que Hoffmann faria com este terrivel incidente, colhido na Gazeta dos Tribunaes, ou talvez na transcripção dos jornaes allemães, deixo-o suppôr áquelles que teem admirado as visões terriveis do allemão.—Talvez um conto cheio de phantastica tristeza, como o D. Juan ou o Morgado?!...
GOMES LEAL.
NOTA.—O livro d'onde extrahimos este commentario ácerca do bello conto de Theophilo Braga intitula-se Les originaux de la dernière heure. Citamol-o aqui para não fazermos como certos histriões lentejoulados das letras, cujos plagiatos são em tão grande numero como as obras, e para os quaes será um dia terrivel aquelle em que se lhe desafivellar a mascara da consciencia cancerosa e em que se proceder a excavações nas suas obras.
G. L.
(Da Tribuna, n.os 8, 9 e 10, de 1874).{209}
ADDITAMENTO
{210}
{211}
Carta a José Fontana
(DA 1.ª EDIÇÃO)
Meu caro editor
Disse-me que esperava um prologo, para começar a publicação dos Contos; lembrou-me escrever-lhe um capitulo de esthetica sobre esta fórma litteraria. O publico não gosta de abstracções. Por minha vontade desistia do promettido; limito-me porém a algumas considerações historicas.
A fórma do conto é de origem oriental. As fabulas de Bidpaï foram o primeiro ensaio para fazer sentir uma moralidade abstracta por meio de uma ficção interessante. É pelo seculo XII que esta creação do genio do oriente apparece na Europa, imitada na Disciplina clericalis de Moysés Sephardi, conhecido depois da sua conversão ao christianismo com o nome de Petrus Alphonsus. A Disciplina clericalis, escripta em latim barbaro, para ensino dos clerigos, compõe-se de trinta e sete contos e apophtegmas, que o auctor imagina dados por um arabe a seu filho na hora da agonia. A popularidade do livro foi dispondo os animos para a cultura d'esta fórma litteraria.{212}
O Conde de Lucanor de D. João Manuel, algumas das ficções do Gesta Romanorum, o Decameron de Boccacio, os Contos de Cantorbery, resentem-se bastante do livro do judeu convertido da Huesca.
Uma creação do genio celtico e germanico é o mundo feérico; elaborada lentamente na phantasia popular, animada n'esses typos de Melusina, Morgane e Urgante, dos trovadores da Edade média, cantada depois nos galanteios de Boiardo e Ariosto, Spencer e Shakespeare, tornou-se o divertimento infantil dos Contes bleus, os contos de fadas, colligidos nas Notte piacevoli de Straparole, publicadas no seculo XVI, e no Pentamerone de Giambattista Basile em 1637.
O conto é a fórma litteraria da lenda. Boccacio no Decameron, n'aquellas transições instantaneas do ridiculo ao pathetico, revela uma face profunda da historia, o estado dos espiritos na terrivel peste de 1358. A imaginação era tão perigosa como o contagio; a distracção calculada, o prazer egoista dos jardins de Pampinea, a indifferença, o scepticismo que se desenvolve nas grandes calamidades, só podiam suspendel-a na exageração do terror. Nos contos da Edade média ha uma mistura de devoção e desenvoltura; no Heptameron da rainha de Navarra, as aventuras cavalleirosas, as intrigas de amor, os padres e monges seduzindo as noviças, entretecem-se com reflexões moraes, e de quelque léçon de la sainte Ecriture. É a mesma antithese fatal que parodia a exaltação religiosa nos ritos grotescos da egreja. A Edade média retratou-se em todas as suas creações, mesmo nos fabliaux e no conto.
O conto é a passagem do fabulario para a linguagem da prosa, ingenua, rude, de uma franqueza maliciosa muitas vezes, e desenvolta. O conto era uma situação inventada para aproveitar um dito feliz, um repente engenhoso dos serões das côrtes e dos castellos; nasceu d'aquelle genio primitivo, com que Froissart narrava a historia.
Demogeot, na sua Historia da Litteratura franceza, considera os contos do seculo XVI como alheios ao desenvolvimento{213} intellectual; é uma affirmação menos verdadeira por absoluta. A actividade d'este periodo, a fecundidade e originalidade verdadeiramente cahoticas reproduzem-se em Rabelais, o creador de Gargantua e Pantagruel.
A Renascença com as ficções gregas e romanas desnaturara o conto. No seculo XVII elle torna-se volumoso, arrebicado de galanice e galanteria amaneirada. As attenções tinham refluido sobre os trabalhos philosophicos; ficaram as creações imaginativas em poder das Gamberville, de Scudery, de La Calprenède e quejandos, que as alongaram fastidiosamente com pieguices sentimentaes, por essas séries indefinidas de volumes da Polexandra, Caritea, Cytherca, Cassandra, Pharemundo, Ibraim ou o illustre Bassa, Artamene ou o grande Cyrus, Clelia e Almahide. Os heroes apaixonados são Anacreonte conversando em amaveis versos, Bruto e Lucrecia, Horacio Cocles e Clelia, movidos pelos interesses da sociedade moderna; a magestade escultural da antiguidade e da historia em presença das pequeninas intrigas amatorias tocára o cumulo do ridiculo!
O movimento, a convulsão philosophica do seculo XVIII apparece tambem no romance e no conto. Lesage escalpelisa a natureza humana, e o Gil Blas é a synthese das observações profundas; o abbade Prevost analysa as paixões n'uma lucta intima, recondita, e procura os sentimentos novos que scintillam dos que se embatem e se destroem. Manon Lescaut é uma das verdades eternas do sentimento humano, a contradição do que mais se aspira e idealisa, a vontade negando-se, mobilisando-se nos multiplices desejos que tumultuam na alma. Voltaire philosopha tambem nos seus Contos. Diderot, sobretudo, a intelligencia mais robusta do seu tempo, mathematico, artista creador pela reflexão e inspiração, reduz ao interesse do conto, á peripecia da acção as verdades mais abstractas. Na assombrosa maravilha de arte, o Neveu de Rameau, mostra a maldade disfarçada em virtude pelas conveniencias; todos nos horrorisamos ao vêr alli o nosso retrato;{214} sentiamos aquillo, mas não tinhamos a coragem, a abnegação para dizel-o. O sobrinho de Rameau mostra-se infame, ao passo que é sublime de razão, porque diz tudo o que pensa. Vê-se agitarem-se n'aquelle cerebro em ebulição todos os processos intellectuaes. Na Religiosa, Diderot evoca as dores cruciantes e desconhecidas, soffridas nas trevas por um coração ingenuo, que é o ludibrio do interesse egoista, do fanatismo estupido, e da superioridade brutal. Este conto por si é uma revolução latente. A analyse delicadissima dos pequenos sentimentos que formam a grande lucta na alma da Religiosa não é inferior ao quadro do quietismo de Michelet no processo da Cadière, e excede por muitas vezes a profundidade com que Manzoni no Promessi Sposi retrata as agonias da desgraçada Genoveva no convento de Monza.
Uma vez descobertos estes segredos do sentimento, o conto deixou de ser individual; o romance é o desenvolvimento de uma these da vida na sociedade. Richardson é a admiração de Diderot; Goëthe descobre Diderot á Allemanha, traduzindo a sua obra prima; elle mesmo isola os sentimentos do amor e o dever no Werther e chega pela arte á conclusão logica do suicidio.
Hoffmann, o caricaturista das paixões, de uma individualidade extravagante, nas creações abstractas d'aquella imaginação de hypocondriaco deixa-lhes o incompleto do maravilhoso; mais tarde os editores dão aos seus contos o nome de phantasticos. Nos Contos de Hoffmann ha uma série de observações psychologicas, de impressões instinctivas que supprem a falta de imaginação; os seus contos são o diagnostico de uma alma doente. É o lado que os torna apreciaveis, apesar do capricho e grotesco dos typos a que a mente hallucinada dá fórma. Os Contos de Edgar Poë, a imaginação mais extraordinaria da America, têm o phantastico da insolubilidade dos problemas philosophicos que constituem a acção; tocam ás vezes a alta metaphysica. Tendo de transigir com as materialidades da vida, na esterilidade da indigencia pede a inspiração ao alcool; elle{215} sente a excitação lucida que lhe dá a força espantosa da invenção, mas conhece já em si a tremulencia, que é a decomposição inevitavel, e exclama no meio da fadiga—Não ha peior inimigo do que o alcool! Edgar Poë é a força da imaginação e do ideal supplantada pelo positivismo de uma sociedade manufactureira e orgulhosa do seu caracter industrial; nos seus Contos ha a allucinação prophetica da doudice.
A fórma do conto é estudada em todas as litteraturas da Europa; trazendo a lume este pequeno trabalho, só nos inspira a boa vontade de corresponder ao movimento que observamos lá fóra. Que mais teriamos a dizer de um livro simples que lhe não desnaturasse a intenção.
Coimbra, 8 de março de 1865.
THEOPHILO BRAGA.