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Contos

Chapter 13: I
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About This Book

The volume gathers short narratives that range from terse sketches to longer novellas, using realist description and satirical irony to examine interpersonal relations, social manners and private obsessions. Scenes shift between intimate domestic episodes, travel impressions and moral dilemmas, relying on vivid landscapes, careful psychological observation and wry humor. Several pieces expand earlier sketches into broader meditations on modern life, combining polished prose, critical social portraiture and moments of melancholy.

O TESOIRO

I

Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.

Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levára vidraça e telha, passavam êles as tardes dêsse inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sôbre as lages da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como êles, roíam{124} as traves da mangedoura. E a miséria tornára êstes senhores mais bravios que lôbos.

Ora, na primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na mata de Roquelanes a espiar pègadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, emquanto as três éguas pastavam a relva nova de abril,—os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um vélho cofre de ferro. Como se o resguardasse uma tôrre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sôbre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrões de oiro!

No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no oiro, estalaram a rir, num riso de tam larga rajada, que as fôlhas tenras dos olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tam desabrida que Guannes e Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o tesoiro, ou viesse de Deus ou do demónio, pertencia aos três, e entre êles se{125} repartiria, rígidamente, pesando-se o oiro em balanças. ¿Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tam cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso êle entendia que o mano Guannes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já oiro na bolsinha, a comprar três alforges de coiro, três maquias de cevada, três empadões de carne, e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para êles, que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, ensacariam o oiro nos alforges, e subiriam para Medranhos, sob a segurança da noite sem lua.

—Bem tramado!—gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até à fivela do cinturão.

Mas Guannes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:

—Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave!

—Tambêm eu quero a minha, mil raios!—rugiu logo Rostabal.{126}

Rui sorriu. De-certo, de-certo! A cada dono do oiro cabia uma das chaves que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua fechadura com fôrça. Imediatamente Guannes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:

          Olé! olé!
Sale la crus de la iglesia,
Vestida de negro luto...

II

Na clareira, em frente à moita que encobria o tesoiro (e que os três tinham desbastado a cutiladas) um fio de água, brotando entre rochas, caía sôbre uma vasta lage escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um vélho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas tosavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões de oiro. Pela ramaria{127} andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o sol, bocejava com fome.

Então Rui, que tirára o sombrero e lhe cofiava as vélhas plumas rôxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guannes, nessa manhã, não quisera descer com êles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guannes tivesse quedado em Medranhos, só êles dois teriam descoberto o cofre, e só entre êles dois se dividiria o oiro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guannes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.

—Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guannes, passando aqui sòzinho, tivesse achado êste oiro, não dividia comnosco, Rostabal!

O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:

—Não, mil raios! Guannes é sôfrego... Quando o ano passado, se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!

—Vês tu?—gritou Rui, resplandecendo.

Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma idea, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.

—E para quê?—prosseguia Rui,—¿Para{128} que lhe serve todo o oiro que nos leva? ¿Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete, a quem é, como tu, o mais vélho dos de Medranhos...

—Pois que morra, e morra hoje!—bradou Rostabal.

—Queres?

Vivamente, Rui agarrára o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guannes partira cantando:

—Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guannes te tratava de cerdo e de torpe, por não saberes a letra nem os numeros.

—Malvado!

—Vem!

Foram. Ambos se emboscaram por trás dum silvado, que dominava o atalho, estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal assolapado na vala, tinha já a espada{129} nua. Um vento leve arripiou na encosta as fôlhas dos álamos—e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo sol, que já se inclinava para as serras. Um bando de córvos passou sôbre êles, grasnando. E Rostabal, que lhes seguira o vôo, recomeçou a bocejar, com fome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforges.

Emfim! Àlerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:

          Olé! olé!
Sale la crus de la iglesia
Toda vestida de negro...

Rui murmurou:—«Na ilharga! Mal que passe!» O chouto da égua bateu o cascalho, uma pluma num sombrero vermelhejou por sôbre a ponta das silvas.

Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada;—e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guannes, quando ao rumor, bruscamente, êle se virára na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sôbre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua:—Rostabal, caíndo sôbre Guannes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela fôlha como um punhal, no peito e na garganta.{130}

—A chave!—gritou Rui.

E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda—Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombrero quebrada e torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arripiado com o sabor de sangue que lhe espirrára para a bôca; Rui, atrás, puxando desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela, não queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.

Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada:—e foi correndo sôbre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol já não doirava as fôlhas. Rostabal arremessára para a relva o sombrero e a espada; e debruçado sôbre a lage escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e as barbas.

A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que Guannes comprára em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então, Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolgava, com as longas barbas pingando. E, serenamente, como se pregasse uma estaca num{131} canteiro, enterrou a fôlha toda no largo dorso dobrado, certeira sôbre o coração.

Rostabal caíu sôbre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos flutuando na água. A sua vélha escarcela de coiro ficára entalada sob a côxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo—e um sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.

III

Agora eram dêle, só dêle, as três chaves do cofre!... E Rui, alargando os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o oiro metido nos alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesoiro! E quando ali na fonte, e alêm rente aos silvados, só restassem, sob as neves de dezembro, alguns ossos sem nome, êle seria o magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido, mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos, como? Como devem morrer os de Medranhos—a pelejar contra o Turco!

Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado{132} de dobrões, que fez retinir sôbre as pedras. Que puro oiro, de fino quilate! E era o seu oiro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges—e encontrando as duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe sêco. E há quanto tempo não provava capão!

Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas, a ave loura, que rescendia, e o vinho côr de ámbar! Ah! Guannes fôra bom mordomo—nem esquecera azeitonas. ¿Mas, porque trouxera êle, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvemsinhas côr de rosa. Para alêm, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.

Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela côr vélha e quente, não teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à bôca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho bemdito, que tam prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia—destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesoiro, requeria firmeza e acêrto. Estendido sôbre o{133} cotovelo, descansando, pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.

De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os alforges. Já, entre os troncos, a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de oiro... Mas oscilou, largando os dobrões que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. ¿Que é, D. Rui? Raios de Deus! era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às guelas. Já rasgára o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua pendente, limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o roía! Gritou:

—Socorro! Alguêm! Guannes! Rostabal!

Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro galgava—sentia os ossos a estalarem como as traves duma casa em fogo.

Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sôbre Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que êle, entre uivos, procurava o fio de água, que recebia sôbre os olhos, pelos cabelos.{134} Mas a água mais o queimava, como se fôsse um metal derretido. Recuou, caíu para cima da relva que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente, esbogalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse emfim a traição, todo o horror:

—É veneno!

Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas chegára a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao vélho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a êle, a êle sómente, dono de todo o tesoiro.

Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, alêm nos silvados, já tinham pousado sôbre o corpo de Guannes. A fonte, cantando, lavava o outro morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornára negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.

O tesoiro ainda lá está, na mata de Roquelanes.{135}

FREI GENEBRO

I

Nesse tempo ainda vivia na sua solidão das montanhas da Úmbria, o divino Francisco de Assis—e já por toda a Itália se louvava a santidade de Frei Genebro, seu amigo e seu discípulo.

Frei Genebro, na verdade, completára a perfeição em todas as virtudes evangélicas. Pela abundância e perpètuidade da Oração, êle arrancava da sua alma as raízes mais miudas do Pecado, e tornava-a limpa e cândida como um dêsses celestes jardins em que o sólo anda regado pelo Senhor, e onde só podem brotar açucenas. A sua penitência, durante vinte anos de clâustro, fôra tam dura e alta que já não temia o Tentador; e agora, só com o sacudir a manga do hábito, rechaçava as tentações, as mais pavorosas ou as mais{136} deliciosas, como se fôssem apenas moscas importunas. Benéfica e universal à maneira de um orvalho de verão, a sua caridade não se derramava sómente sôbre as misérias do pobre, mas sôbre as melancolias do rico. Na sua humilíssima humildade não se considerava nem o igual dum verme. Os bravios barões, cujas negras tôrres esmagavam a Itália, acolhiam reverentemente e curvavam a cabeça a êste franciscano descalço e mal remendado que lhes ensinava a mansidão. Em Roma, em S. João de Latrão, o Papa Honório beijára as feridas de cadeias que lhe tinham ficado nos pulsos, do ano em que na Mourama, por amor dos escravos, padecera a escravidão. E como nessas idades os anjos ainda viajavam na terra, com as asas escondidas, arrimados a um bordão, muitas vezes, trilhando uma vélha estrada pagã ou atravessando uma selva, êle encontrava um moço de inefável formosura, que lhe sorria e murmurava:

—Bons dias, irmão Genebro!

Ora, um dia, indo êste admirável mendicante de Spoleto para Terni, e avistando no azul e no sol da manhã, sôbre uma colina coberta de carvalhos, as ruínas do castelo de Otofrid, pensou no seu amigo Egídio, antigo noviço como êle no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, que se retirára àquele ermo para se avizinhar mais de Deus, e ali habitava uma{137} cabana de colmo, junto das muralhas derrocadas, cantando e regando as alfaces do seu horto, porque a sua virtude era amena. E como mais de três anos tinham passado desde que visitára o bom Egídio, largou a estrada, passou em baixo, no vale, sôbre as alpondras, o riacho que fugia por entre os aloendros em flor, e começou a subir, lentamente, a colina frondosa. Depois da poeira e ardor do caminho de Spoleto, era doce a larga sombra dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os pés doridos. A meia encosta, numa rocha onde se esguedelhavam silvados, sussurrava e luzia um fio de água. Estendido ao lado, nas ervas húmidas, dormia, ressonando consoladamente, um homem, que de-certo ali guardava porcos, porque vestia um grosso surrão de coiro e trazia, pendurada da cinta, uma buzina de porqueiro. O bom frade bebeu de leve, afugentou os moscardos que zumbiam sôbre a rude face adormecida e continuou a trepar a colina, com o seu alforge, o seu cajado, agradecendo ao Senhor aquela água, aquela sombra, aquela frescura, tantos bens inesperados. Em breve avistou, com efeito, o rebanho de porcos, espalhados sob as frondes, roncando e fossando as raízes, uns magros e agudos, de cerdas duras, outros redondos, com o focinho curto afogado em gordura, e os bacorinhos correndo em tôrno às têtas das mães, luzidios e côr de rosa.{138}

Frei Genebro pensou nos lôbos e lamentou o sono do pastor descuidado. No fim da mata começava a rocha, onde os restos do castelo lombardo se erguiam, revestidos de hera, conservando ainda alguma seteira esburacada sôbre o céu, ou, numa esquina de tôrre, uma goteira que, esticando o pescoço de dragão, espreitava por meio das silvas bravas.

A cabana do ermitão, telhada de colmo que lascas de pedra seguravam, apenas se percebia, entre aqueles escuros granitos, pela horta que em frente verdejava, com os seus talhões de couve e estacas de feijoal, entre alfazema cheirosa. Egídio não andaria afastado porque sôbre o murosinho de pedra solta ficára pousado o seu cântaro, o seu podão e a sua enxada. E docemente, para o não importunar, se àquela hora da sésta estivesse recolhido e orando, Frei Genebro empurrou a porta de pranchas vélhas, que não tinha loquete para ser mais hospitaleira.

—Irmão Egídio!

Do fundo da choça rude, que mais parecia cova de bicho, veio um lento gemido:

—Quem me chama? Aqui neste canto, neste canto a morrer!... A morrer, meu irmão!

Frei Genebro acudiu em grande dó; encontrou o bom ermitão estirado num monte de fôlhas sêcas, encolhido em farrapos, e tam definhado que a sua face, outrora farta e rosada,{139} era como um pedacinho de vélho pergaminho muito enrugado, perdido entre os flocos das barbas brancas. Com infinita caridade e doçura o abraçou.

—¿E há quanto tempo, há quanto tempo neste abandôno, irmão Egídio?

Louvado Deus, desde a véspera! Só na véspera, à tarde, depois de olhar uma derradeira vez para o sol e para a sua horta, se viera estender naquele canto para acabar... Mas havia meses que com êle entrára um cansaço, que nem podia segurar a bilha cheia quando voltava da fonte.

—¿E dizei, irmão Egídio, pois que o Senhor me trouxe, que posso eu fazer pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes vós feito na virtude desta solidão!

Gemendo, arrepanhando para o peito as fôlhas sêcas em que jazia, como se fôssem dobras dum lençol, o pobre ermitão murmurou:

—Meu bom Frei Genebro, não sei se é pecado, mas toda esta noite, em verdade vos confesso, me apeteceu comer um pedaço de carne, um pedaço de porco assado!... Mas será pecado?

Frei Genebro, com a sua imensa misericórdia, logo o tranqùilizou. Pecado? Não, certamente! Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um contentamento honesto, desagrada ao Senhor. ¿Não ordenava êle aos seus{140} discípulos que comessem as boas cousas da terra? O corpo é servo; e está na vontade divina que as suas fôrças sejam sustentadas, para que preste ao espírito, seu amo, bom e leal serviço. Quando Frei Silvestre, já tam doentinho, sentira aquele longo desejo de uvas moscateis, o bom Francisco de Assis logo o conduziu à vinha, e por suas mãos lhe apanhou os melhores cachos, depois de os abençoar para serem mais sumarentos e mais doces...

—¿É um pedaço de porco assado que apeteceis?—exclamava risonhamente o bom Frei Genebro, acariciando as mãos transparentes do ermitão.—Pois sossegai, irmão querido, que bem sei como vos vou contentar!

E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor, agarrou o afiado podão que pousava sôbre o muro da horta. Arregaçando as mangas do hábito, e mais ligeiro que um gamo, porque era aquele um serviço do Senhor, correu pela colina até aos densos castanheiros onde encontrára o rebanho de porcos. E aí, andando sorrateiramente de tronco para tronco, surpreendeu um bacorinho desgarrado que fossava a bolota, desabou sobre êle, e, emquanto lhe sufocava o focinho e os gritos, decepou, com dois golpes certeiro do podão, a perna por onde o agarrára. Depois, com as mãos salpicadas de sangue, a perna de porco bem alta a pingar sangue, deixando{141} a rês a arquejar numa pôça de sangue, o piedoso homem galgou a colina, correu à cabana, gritou para dentro alegremente:

—Irmão Egídio, a peça de carne já o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria dos Anjos, era bom cozinheiro.

Na horta do ermitão arrancou uma estaca do feijoal, que, com o podão sangrento, aguçou em espêto. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Com zeloso carinho assou a perna do porco. Tanta era a sua caridade que para dar a Egídio todos os antegostos daquele banquete, raro em terra de mortificação, anunciava com vozes festivas e de boa promessa:

—Já vai aloirando o porquinho, irmão Egídio! A pele já tosta, meu santo!

Entrou emfim na choça, triunfalmente, com o assado que fumegava e rescendia, cercado de frescas fôlhas de alface. Ternamente, ajudou a sentar o vélho, que tremia e se babava de gula. Arredou das pobres faces maceradas os cabelos que o suor da fraqueza empastára. E, para que o bom Egídio se não vexasse com a sua voracidade e tam carnal apetite, ia afirmando, emquanto lhe partia as febras gordas, que tambêm êle comeria regaladamente daquele excelente porco, se não tivesse almoçado à farta na Locanda dos Três Caminhos.{142}

—Mas nem bocado agora me podia entrar, meu irmão! Com uma galinha inteira me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco, um quartilho!

E o santo homem mentia santamente—porque, desde madrugada, não provára mais que um magro caldo de ervas, recebido por esmola à cancela de uma granja.

Farto, consolado, Egídio deu um suspiro, recaíu no seu leito de fôlhas sêcas. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justiça, pagasse a seu irmão Genebro aquele pedaço de porco! Até sentia a alma mais rija para a temerosa jornada... E o ermitão com as mãos postas, Genebro ajoelhado, ambos louvaram, ardentemente, o Senhor que, a toda a necessidade solitária, manda de longe o socorro.

Então, tendo coberto Egídio com um pedaço de manta e posto, a seu lado, a bilha cheia de água fresca, e tapado, contra as aragens da tarde, a fresta da cabana, Frei Genebro, debruçado sôbre êle, murmurou:

—Meu bom irmão, vós não podeis ficar neste abandono... Eu vou levado por obra de Jesus, que não admite tardança. Mas passarei no convento de Sambricena e darei recado para que um noviço venha e cuide de vós com amor, no vosso transe. Deus vos vele{143} entretanto, meu irmão; Deus vos sossegue e vos ampare com a sua mão direita!

Mas Egídio cerrára os olhos, nem se moveu, ou porque adormecera, ou porque o seu espírito, tendo pago aquele derradeiro salário ao corpo, como a um bom servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra. Frei Genebro abençoou o vélho, tomou o seu bordão, desceu a colina dos grandes carvalhos. Sob a fronde, para os lados onde andava o rebanho, a buzina do porqueiro ressoava agora num toque de alarma e de furor. De-certo acordára, descobrira o seu porco mutilado... Estugando o passo, Frei Genebro pensava quanto era magnânimo o Senhor em permitir que o homem, feito à sua imagem augusta, recebesse tam fácil consolação duma perna de cerdo assada entre duas pedras.

Retomou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde êsse dia, a actividade da sua virtude. Através de toda a Itália, sem descanso, prègou o Evangelho Eterno, adoçando a aspereza dos ricos, alargando a esperança dos pobres. O seu imenso amor ia ainda para alêm dos que sofrem, até àqueles que pecam, oferecendo um alívio a cada dôr, estendendo um perdão a cada culpa: e com a mesma caridade com que tratava os leprosos, convertia os bandidos. Durante as invernias e a neve, vezes inumeráveis dava, aos{144} mendigos, a sua túnica, as suas alpercatas; os abades dos mosteiros ricos, as damas devotas de novo o vestiam, para evitar o escândalo da sua nudez através das cidades; e sem demora, na primeira esquina, ante qualquer esfarrapado, êle se despojava sorrindo. Para remir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas igrejas, arrancava do altar os candelabros de prata, afirmando, jovialmente, que mais praz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa.

Cercado de viuvas, de crianças famintas, invadia as padarias, os açougues, até as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em nome de Deus, a parte dos deserdados. Sofrer, sentir a humilhação, eram, para êle, as únicas alegrias completas: nada o deliciava mais do que chegar de noite, molhado, esfaimado, tiritando, a uma opulenta abadia feudal, e ser repelido da portaria como um mau vagabundo: só então, agachado nos lôdos do caminho, mastigando um punhado de ervas cruas, êle se reconhecia verdadeiramente irmão de Jesus, que não tivera tambêm, como teem sequer os bichos do mato, um covil para se abrigar. Quando um dia, em Perusa, as confrarias saíram ao seu encontro, com bandeiras festivas, ao repique dos sinos, êle correu para um monte de estêrco, onde se rolou e se sujou, para que daqueles que{145} o vinham engrandecer, só recebesse compaixão e escárnio. Nos clâustros, nos descampados, em meio das multidões, durante as lides mais pesadas, orava constantemente, não por obrigação, mas porque na prece encontrava um deleite adorável. Deleite maior, porêm, era, para o franciscano, ensinar e servir. Assim, longos anos errou entre os homens, vertendo o seu coração como a água de um rio, oferecendo os seus braços como alavancas incansáveis; e tam depressa, numa ladeira deserta, aliviava uma pobre vélha da sua carga de lenha, como numa cidade revoltada, onde reluzissem armas, se adiantava, com o peito aberto, e amansava as discórdias.

Emfim, uma tarde, em véspera de Páscoa, estando a descansar nos degraus de Santa Maria dos Anjos, avistou de repente, no ar liso e branco, uma vasta mão luminosa que sôbre êle se abria e faiscava. Pensativo, murmurou:

—Eis a mão de Deus, a sua mão direita, que se estende para me acolher ou para me repelir.

Deu logo a um pobre, que ali rezava a Avé-Maria, com a sua sacola nos joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do Evangelho, muito usado e manchado das suas lágrimas. No domingo, na igreja, ao levantar da Hóstia, desmaiou. Sentindo então{146} que ia terminar a sua jornada terrestre, quis que o levassem para um curral, o deitassem sôbre uma camada de cinzas.

Em santa obediência ao guardião do convento, consentiu que o limpassem dos seus trapos, lhe vestissem um hábito novo: mas, com os olhos alagados de ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado como fôra o de Jesus, seu senhor.

E, suspirando, só se queixava de não sofrer:

—¿O senhor, que tanto sofreu, porque me não manda a mim o padecimento bemdito?

De madrugada pediu que abrissem, bem largo, o portão do curral.

Contemplou o céu que clareava, escutou as andorinhas que, na frescura e silêncio, começavam a cantar sôbre o beiral do telhado, e, sorrindo, recordou uma manhã, assim de silêncio e frescura, em que, andando com Francisco de Assis à beira do lago de Perusa, o mestre incomparável se detivera ante uma árvore cheia de pássaros, e, fraternalmente, lhes recomendára que louvassem sempre o Senhor! «Meus irmãos, meus irmãos passarinhos, cantai bem o vosso Criador, que vos deu essa árvore para que nela habiteis, e toda esta limpa água para nela beber, e essas penas bem quentes para vos agasalharem, a vós{147} e aos vossos filhinhos!» Depois, beijando humildemente a manga do monge que o amparava, Frei Genebro morreu.

II

Logo que êle cerrou os seus olhos carnais, um Grande Anjo penetrou diáfanamente no curral e tomou, nos braços, a alma de Frei Genebro. Durante um momento, na fina luz da madrugada, deslizou por sôbre o prado fronteiro tam levemente que nem roçava as pontas orvalhadas da relva alta. Depois, abrindo as asas, radiantes e níveas, transpôs, num vôo sereno, as nuvens, os astros, todo o céu que os homens conhecem.

Aninhada nos seus braços, como na doçura de um berço, a alma de Genebro conservava a forma do corpo que sôbre a terra ficára; o hábito franciscano ainda a cobria, com um resto de poeira e de cinza nas pregas rudes; e, com um olhar novo, que agora tudo trespassava e tudo compreendia, ela contemplava, num deslumbramento, aquela região em que o Anjo parára, para alêm dos universos transitórios e de todos os rumores siderais. Era um espaço sem limite, sem contôrno{148} e sem côr. Por cima começava uma claridade, subindo espalhada à maneira duma aurora, cada vez mais branca, e mais luzente, e mais radiante, até que resplandecia num fulgor tam sublime que nela um sol coruscante seria como uma nódoa pardacenta. E por baixo estendia-se uma sombra cada vez mais baça, mais fusca, mais cinzenta, até que formava como um espesso crepúsculo de profunda, insondável tristeza. Entre essa refulgência ascendente e a escuridão inferior, permanecera o Anjo imóvel, esperando, com as asas fechadas. E a alma de Genebro perfeitamente sentia que estava ali, esperando tambêm, entre o Purgatório e o Paraíso. Então, súbitamente, nas alturas, apareceram os dois imensos pratos duma Balança—um que rebrilhava como diamante e era reservado às suas Boas Obras, outro, negrejando mais que carvão, para receber o pêso das suas Obras Más. Entre os braços do Anjo, a alma de Genebro estremeceu... Mas o prato diamantino começou a descer lentamente. Oh! contentamento e glória! Carregado com as suas Boas Obras, êle descia, calmo e majestoso, espargindo claridade. Tam pesado vinha, que as suas grossas cordas se retesavam, rangiam. E entre elas, formando como uma montanha de neve, alvejavam magníficamente as suas virtudes evangélicas. Lá estavam as incontáveis esmolas{149} que semeára no mundo, agora desabrochadas em alvas flores, cheias de aroma e de luz.

A sua humildade era um cimo, aureolado por um clarão. Cada uma das suas penitências scintilava mais límpidamente que cristais puríssimos. E a sua oração perene subia e enrolava-se em tôrno das cordas, à maneira duma deslumbrante névoa de oiro.

Sereno, tendo a majestade de um astro, o prato das Boas Obras parou, finalmente, com a sua carga preciosa. O outro, lá em cima, não se movia tambêm, negro, da côr do carvão, inútil, esquecido, vazio. Já das profundidades, sonoros bandos de Serafins voavam, balançando palmas verdes. O pobre franciscano ia entrar triunfalmente no Paraíso—e aquela era a milícia divina que o acompanharia cantando. Um frémito de alegria passou na luz do Paraíso, que um Santo novo enriquecia. E a alma de Genebro anteprovou as delícias da Bemaventurança.

Súbitamente, porêm, no alto, o prato negro oscilou como a um pêso inesperado que sôbre êle caísse! E começou a descer, duro, temeroso, fazendo uma sombra dolente através da celestial claridade. ¿Que Má Acção de Genebro trazia êle, tam miuda que nem se avistava, tam pesada que forçava o prato luminoso a subir, remontar ligeiramente como se{150} a montanha de Boas Acções, que nele transbordavam, fôssem um fumo mentiroso? Oh! mágoa! oh! desesperança! Os Serafins recuavam, com as asas trementes. Na alma de Frei Genebro correu um arrepio imenso de terror. O negro prato descia, firme, inexorável, com as cordas retêsas. E na região que se cavava sob os pés do Anjo, cinzenta, de inconsolável tristeza, uma massa de sombra, molemente e sem rumor, arfou, cresceu, rolou, como a onda duma maré devoradora.

O prato, mais triste que a noite, parára—parára em pavoroso equilíbrio com o prato que rebrilhava. E os Serafins, Genebro, o Anjo que o trouxera, descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo, um porco, um pobre porquinho com uma perna bárbaramente cortada, arquejando, a morrer, numa pôça de sangue... O animal mutilado pesava tanto na balança da justiça como a montanha luminosa de virtudes perfeitas!

Então, das alturas, surgiu uma vasta mão, abrindo os dedos que faiscavam. Era a mão de Deus, a sua mão direita, que aparecera a Genebro na escada de Santa Maria dos Anjos, e que agora supremamente se estendia para o acolher ou para o repelir. Toda a luz e toda a sombra, desde o Paraíso fulgente ao Purgatório crepuscular, se contraíram num recolhimento de inexprimível amor e terror. E na{151} estática mudez, a vasta mão, através das alturas, lançou um gesto que repelia...

Então o Anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou caír, na escuridão do Purgatório, a alma de Frei Genebro.{152} {153}

ADÃO E EVA NO PARAÍSO

I

Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às 2 horas da tarde...

Assim o afirma, com majestade, nos seus Annales Veteris et Novi Testamento, o muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de Meath, Arcebispo de Armagh, e Chanceler-Mór da Sé de S. Patrício.

A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manhã de todas as manhãs. Mas já não era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em águas barrentas, abafada numa névoa densa, erguendo, aqui e alêm, rígidos troncos duma só fôlha e dum só rebento, muito solitária, muito silenciosa, com uma vida toda escondida, apenas surdamente revelada pelo remexer de bichos obscuros, gelatinosos,{154} sem côr e quási sem forma, crescendo no fundo dos lôdos. Não! agora, durante os dias genesíacos de 26 e 27, toda ela se completára, se abastecera e se enfeitára, para acolher condignamente o Predestinado que vinha. No dia 28 já apareceu perfeita, perfecta, com as provisões e alfaias que a Bíblia enumera, as ervas verdes de espiga madura, as árvores providas do fruto entre a flor, todos os peixes nadando nos mares resplandecentes, todas as aves voando pelos ares aclarados, todos os animais pastando sôbre as colinas viçosas, e os regatos regando, e o fogo armazenado no seio da pedra, e o cristal, e o ónix, e o oiro muito bom do país de Hevilath...

Nesses tempos, meus amigos, o Sol ainda girava em tôrno da Terra. Ela era môça e formosa e preferida de Deus. Êle ainda se não submetera à imobilidade augusta que lhe impôs mais tarde, entre amuados suspiros da Igreja, mestre Galileu, estendendo um dedo do fundo do seu pomar, rente aos muros do Convento de S. Mateus de Florença. E o sol, amorosamente, corria em volta da Terra, como o noivo dos Cantares, que, nos lascivos dias da ilusão, sôbre o outeiro de mirra, sem descanso e pulando mais levemente que os gamos de Gaalad, circundava a Bem-Amada, a cobria com o fulgor dos seus olhos, coroado de sal-gêma, a faiscar de fecunda{155} impaciência. Ora desde essa alvorada do dia 28, segundo o cálculo majestático de Usserius, o Sol, muito novo, sem sardas, sem rugas, sem falhas na sua cabeleira flamante, envolvera a terra, durante oito horas, numa contínua e insaciada carícia de calor e de luz. Quando a oitava hora scintilou e fugiu, uma emoção confusa, feita de medo e feita de glória, perpassou por toda a Criação, agitando num frémito as relvas e as frondes, arripiando o pêlo das feras, empolando o dorso dos montes, apressando o borbulhar das nascentes, arrancando dos pórfiros um brilho mais vivo... Então numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo Ser, desprendendo lentamente a garra do galho de árvore onde se empoleirára toda essa manhã de longos séculos, escorregou pelo tronco comido de hera, pousou as duas patas no sólo que o musgo afofava, sôbre as duas patas se firmou com esforçada energia, e ficou erecto, e alargou os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a sua dissemelhança da Animalidade, e concebeu o deslumbrado pensamento do que era, e verdadeiramente foi! Deus, que o amparára, nesse instante o criou. E vivo, da vida superior, descido da inconsciência da árvore, Adão caminhou para o Paraíso.

Era medonho. Um pêlo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, maciço corpo, rareando{156} apenas em tôrno dos cotovelos, dos joelhos rudes, onde o coiro aparecia curtido e da côr de cobre fosco. Do achatado, fugidio crânio, vincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva, tufando sôbre as orelhas agudas. Entre as rombas queixadas, na fenda enorme dos beiços trombudos, estirados em focinho, as prêsas reluziam, afiadas rijamente para rasgar a febra e esmigalhar o osso. E sob as arcadas sombriamente fundas, que um felpo hirsuto orlava como um silvado orla o arco duma caverna, os olhos redondos, dum amarelo de ámbar, sem cessar se moviam, tremiam, esgazeados de inquietação e de espanto... Não, não era belo, nosso Pai venerável, nessa tarde de Outono, quando Jeová o ajudou com carinho a descer da sua Árvore! E todavia, nesses olhos redondos, de fino ámbar, mesmo através do tremor e do espanto, rebrilhava uma superior beleza—a Energia Inteligente que o ia trôpegamente levando, sôbre as pernas arqueadas, para fóra da mata onde passára a sua manhã de longos séculos a pular e a guinchar por cima dos ramos altos.

Mas (se os Compêndios de Antropologia nos não iludem) os primeiros passos humanos de Adão não foram logo atirados, com alacridade e confiança, para o destino que o esperava entre os quatro rios do Éden. Entorpecido, envolvido pelas influências da Floresta,{157} ainda despega com custo a pata de entre o folhoso chão de fetos e begónias, e gostosamente se roça pelos pesados cachos de flores que lhe orvalham o pêlo, e acaricia as longas barbas de lichen branco, pendentes dos troncos de roble e de teca, onde gozára as doçuras da irresponsabilidade. Nas ramagens que tam generosamente, através tam longas idades, o nutriram e o embalaram, ainda colhe as bagas sumarentas, os rebentões mais tenros. Para transpor os regatos, que por todo o bosque reluzem e sussurram depois da sazão das chuvas, ainda se pendura duma rija liana, entrelaçada de orquídeas, e se balança, e arqueia o pulo, com pesada indolência. E receio bem que quando a aragem restolhasse pela espessura, carregada com o cheiro morno e acre das fêmeas acocoradas nos cimos, o Pai dos Homens ainda dilatasse as ventas chatas e soltasse do peito felpudo um grunhido rouco e triste.

Mas caminha... As suas pupilas amarelas, onde faisca o Querer, sondam, esbugalhadas, através da ramaria, procuram para alêm o mundo que deseja e receia, e a que sente já a zoada violenta, como toda feita de batalha e rancor. E, à maneira que a penumbra das folhagens clareia, vai surgindo, dentro do seu crânio bisonho, como uma alvorada que penetra numa toca, o sentimento das{158} Formas diferentes e da Vida diferente que as anima. Essa rudimentar compreensão só trouxe a nosso Pai venerável turbação e terror. Todas as Tradições, as mais orgulhosas, concordam em que Adão, na sua entrada inicial pelas planícies do Éden, tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial turbulento. E bem podemos pensar que, de todas as Formas, nenhuma o apavorava mais que a dessas mesmas árvores onde vivera, agora que as reconhecia como seres tam dissemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa inércia tam contrária à sua Energia. Liberto da Animalidade, em caminho para a sua Humanização, o arvoredo que lhe fôra abrigo natural e doce só lhe pareceria agora um cativeiro de degradante tristeza. ¿E êsses ramos tortuosos, empecendo a sua marcha, não seriam braços fortes que se estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos cimos frondosos? ¿Êsse ramalhado sussurro que o seguia, composto do desassossêgo irritado de cada fôlha, não era a selva toda, num alvoroço, reclamando o seu secular morador? De tam estranho medo nasceu, talvez, a primeira luta do Homem com a Natureza. Quando um galho alongado o roçasse, de-certo nosso Pai atiraria contra êle as garras desesperadas para o repelir e lhe escapar. Nesses bruscos ímpetos quantas vezes se desequilibrou, e as suas mãos se abateram{159} desamparadamente sôbre o sólo de mato ou rocha, de novo precipitado na postura bestial, retrogradando à inconsciência, entre o clamor triunfal da Floresta! Que angustioso esfôrço então para se erguer, recuperar a atitude humana, e correr, com os felpudos braços despegados da terra bruta, livres para a obra imensa da sua Humanização! Esfôrço sublime, em que ruge, morde as raíses detestadas, e, ¿quem sabe? levanta já os olhos de ámbar lustroso para os céus, onde, confusamente, sente Alguêm que o vem amparando—e que na realidade o levanta.

Mas, de cada um dêstes tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais humano, mais nosso Pai. E há já consciência, pressa da Racionalidade, nos ressoantes passos com que se arranca ao seu limbo arboral, despedaçando as enrediças, fendendo o bravio denso, despertando os tapires adormecidos sob cogumelos monstruosos, ou espantando algum urso môço e tresmalhado que, de patas contra um olmo, chupa, meio borracho, as uvas dêsse farto outono.

 

 

Emfim, Adão emerge da Floresta obscura:—e os seus olhos de ámbar vivamente se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o Éden.{160}

Ao fundo dessa encosta, onde parara, resplandecem vastas campinas (se as Tradições não exageram) com desordenada e sombria abundância. Lentamente, através, um rio corre, semeado de ilhas, ensopando, em fecundos e espraiados remansos, as verduras onde já talvez cresce a lentilha e se alastra o arrozal. Rochas de mármore rosado rebrilham com um rubor quente. De entre bosques de algodoeiros, brancos como crespa espuma, sobem outeiros cobertos de magnólias, dum esplendor ainda mais branco. Alêm a neve coroa uma serra com um radiante nimbo de santidade, e escorre, por entre os flancos despedaçados, em finas franjas que refulgem. Outros montes dardejam mudas labaredas. Da borda de rígidas escarpas, pendem perdidamente, sôbre profundidades, palmeirais desgrenhados. Pelas lagôas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas rendas. E o mar, nos confins do mundo, faiscando, tudo encerra, como um aro de oiro.—Neste fecundo espaço toda a Criação se espaneja, com a fôrça, a graça, a braveza vivaz duma mocidade de cinco dias, ainda quente das mãos do seu Criador. Profusos rebanhos de auroques, de pelagem ruiva, pastam, majestosamente, enterrados nas ervas tam altas que nelas desaparece a ovelha e o seu anho. Temerosos e barbudos urus, brigando contra gigantescos{161} veados-elefas, entrechocam cornos e galhos com o sêco fragor de robles que o vento racha. Um bando de girafas rodeia uma mimosa a que vai trincando, delicadamente, nos trémulos cimos, as folhinhas mais tenras. À sombra dos tamarindos, repousam disformes rinocerontes, sob o vôo apressado de pássaros que lhes catam serviçalmente a vermina. Cada arremêsso de tigre causa uma debandada furiosa de ancas, e chifres, e clinas, onde, mais certo e mais leve, se arqueia o pulo grácil dos antílopes. Uma rija palmeira verga toda ao pêso da jibóia que nela se enrosca. Entre duas penedias, por vezes, aparece, numa profusão de juba, a face magnífica de um leão que, serenamente, olha o sol, a imensidade radiante. No remoto azul, enormes condores dormem imóveis, de asas abertas, entre o sulco níveo e róseo das garças e dos flamingos. E em frente à encosta, num alto, entre o matagal, passa, lenta e montanhosa, uma récua de mastodontes, com a rude clina do dorso erriçada ao vento, e a tromba a bambolear entre os dentes mais recurvos que foices.

Assim vetustíssimas Crónicas contam o vetustíssimo Éden, que era nas campinas do Eufrates, talvez na trigueira Ceilão, ou entre os quatro claros rios que hoje regam a Húngria, ou mesmo nestas terras bemditas onde a nossa Lisboa aquece a sua velhice ao{162} soalheiro, cansada de proezas e mares. ¿Mas quem pode garantir êstes bosques e êstes bichos, pois que desde êsse dia 25 de Outubro, que inundava o Paraíso de esplendor outonal, já passaram, muito breves e muito cheios, sôbre o grão de pó que é o nosso mundo, mais de sete vezes setecentos mil anos? Só parece certo que, diante de Adão apavorado, um grande pássaro passou. Um pássaro cinzento, calvo e pensativo, com as penas esguedelhadas como as pétalas de um crisântemo, que saltitava pesadamente sôbre uma das patas, erguendo na outra, bem agarrado, um mólho de ervas e ramos. O nosso Pai venerável, com a fusca face franzida, no doloroso esfôrço de compreender, pasmava para aquele pássaro, que ao lado, sob o abrigo de azáleas em flor, terminava muito gravemente a construção duma cabana! Vistosa e sólida cabana, com o seu chão de greda bem alisado, galhos fortes de pinheiro e faia formando estacas e traves, um seguro teto de relva sêca, e na parede de enrediças bem liadas o desafôgo duma janela!... Mas o Pai dos Homens, nessa tarde, ainda não compreendeu.

Depois caminhou para o largo rio, desconfiadamente, sem se afastar da ourela do bosque abrigador. Lento, farejando o cheiro novo dos gordos herbívoros da planície, com os{163} punhos rijamente cerrados contra o peito peludo, Adão vai arfando entre o apetite daquela resplandecente Natureza e o terror dos seres nunca avistados que a atulham e atroam com tam fera turbulência. Mas dentro dêle borbulha, não cessa, a nascente sublime, a sublime nascente da Energia, que o impele a desentranhar da crassa bruteza, e a ensaiar, com esforços que são semi-penosos porque são já semi-lúcidos, os Dons que estabelecerão a sua supremacia sôbre essa Natureza incompreendida e o libertarão do seu terror. Assim, na surprêsa de todas aquelas inesperadas aparições do Éden, reses, pastagens, montes nevados, imensidades radiosas, Adão solta roucas exclamações, gritos com que desafoga, vozes gaguejadas, em que por instinto reproduz outras vozes, e brados, e toadas, e mesmo o reboliço das criaturas, e mesmo o estrondo das águas despenhadas... E êstes sons ficam já na escura memória de nosso Pai ligados às sensações que lhos arrancam:—de sorte que o guincho áspero que lhe escapara ao topar um cangurú com a sua ninhada embolsada no ventre, de novo lhe ressoará nos lábios trombudos quando outros cangurús, fugindo dêle, adiante, se embrenhem na sombra negra das caneleiras. A Bíblia, com a sua exageração oriental, cândida e simplista, conta que Adão, logo na sua entrada pelo Éden, distribuiu nomes a todos{164} os animais, e a todas as plantas, muito definitivamente, muito eruditamente, como se compuzesse o Lexicon da Criação, entre Buffon, já com os seus punhos, e Linneu, já com os seus óculos. Não! eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente augustos, porque todos êles se plantavam na sua consciência nascente como as tôscas raízes dessa Palavra pela qual verdadeiramente se humanou, e foi depois, sôbre a terra, tam sublime e tam burlesco.

E bem podemos pensar, com orgulho, que ao descer a borda do rio Edénico, nosso Pai, compenetrado do que era, e quanto diverso dos outros seres! já se afirmava, se individualizava, e batia no peito sonoro, e rugia soberbamente:—Eheu! Eheu! Depois, alongando os olhos reluzentes por aquela longa água que corria vagarosamente para alêm, já tenta exteriorizar o seu espantado sentimento dos espaços, e rosna com pensativa cubiça:—Lhlâ! Lhlâ!

II

Calmo, magníficamente fecundo, corria êle, o nobre rio do Paraíso, por entre as ilhas, quási afundadas sob o pêso rijo do rijo arvoredo todas{165} fragrantes, e atroadas pelo clamor das cacatuas. E Adão, trotando pesadamente pela margem baixa, já sente a atracção das águas disciplinadas que andam e vivem—essa atracção que será tam forte nos seus filhos, quando no rio descobrirem o bom servidor que desaltera, estruma, rega, mói e acarreta. Mas quantos terrores especiais ainda o arrepiam, o atiram com espavoridos pulos para o abrigo dos salgueiros e dos choupos! Noutras ilhas, de areia fina e rosada, preguiçam pedregosos crocodilos, achatados sôbre o ventre, que arfam molemente, escancarando as fundas goelas na tépida preguiça da tarde, embebendo todo o ar com um cheirinho de almíscar. Por entre os canaviais, coleam e refulgem gordas cobras de água, de colo alteado, que fitam Adão com furor, dardejando e silvando. E, para nosso Pai que nunca as avistara, certamente seriam pavorosas as tartarugas imensas dêsse comêço do Mundo, pastando, com arrastada mansidão, através dos prados novos. Mas uma curiosidade o atrai, quási resvala na riba lodosa, onde a franja de água roça e marulha. Na largueza do rio espraiado, uma longa e negra fila de auroques, serenamente, com os cornos altos e a espessa barba a flutuar, nada para a outra margem, campina coberta de louras messes onde talvez já amaduram as espigas sociáveis do centeio e do milho. Nosso Pai{166} venerável olha a fila lenta, olha o rio lustroso, concebe o ennevoado desejo de tambêm atravessar para aqueles longes em que as ervas rebrilham, e arrisca a mão na corrente—na rija corrente que lha repuxa, como para o atrair e iniciar. Êle grunhe, arranca a mão—e segue, com ásperas patadas, esmagando, sem mesmo lhes sentir o perfume, os frescos morangos silvestres que ensangùentam a relva... Em breve pára, considerando um bando de aves alcandoradas numa penedia toda riscada de guanos, que espreitam, com o bico atento, para baixo, onde as águas apertadas refervem. ¿Que espreitam elas, as brancas garças? Lindos peixes em cardume, que rompem contra a levada, e pulam, lampejando nas espumas claras. E bruscamente, num desabrido abanar de asas brancas, uma garça, depois outra, fende o céu alto, levando, atravessado no bico, um peixe que se estorce e reluz. Nosso Pai venerável coça a ilharga. A sua crassa gula, entre aquela abundância do rio, tambêm apetece uma prêsa: e atira a garra, colhe, no seu vôo soante, cascudos insectos que farisca e trinca. Mas nada certamente assombrou o Primeiro Homem como um grosso tronco de árvore meio apodrecido, que boiava, descia na corrente, levando sentados numa ponta, com segurança e graça, dois bichos sedosos, louros, de focinho esperto,{167} e fôfas caudas vaidosas. Para os seguir, os observar, ansiosamente correu, enorme e desengonçado. E os seus olhos faiscavam, como se já compreendesse a malícia daqueles dois bichos, embarcados num toro de árvore, e viajando, com a macia frescura da tarde, no rio do Paraíso.

No entanto, a água que êle costeava era mais baixa, turva e tarda. Já na sua largueza não verdejam ilhas, nem nela se molha a orla das fartas pastagens. Para alêm, sem limite, fundidas nas neblinas, fogem descampadas solidões, de onde rola um vento lento e húmido. Nosso Pai venerável enterrava as patas em ribas moles, através de aluviões, de lixos silvestres, em que chapinavam, para seu intenso horror, enormes rãs coaxando furiosamente. E o rio em breve se perdeu numa vasta lagôa, escura e desolada, resto das grandes águas sôbre que flutuara o Espírito de Jeová. Uma tristeza humana apertou o coração de nosso Pai. Do meio de grossas bôlhas, que se empolavam na estanhada lisura da água triste, constantemente surdiam horrendas trombas, a escorrer de limos verdes, que bufavam ruidosamente, logo se afundavam, como repuxadas pelos lôdos viscosos. E quando de entre os altos e negros canaviais, manchando a vermelhidão da tarde, se elevou, se alargou sobre êle uma nuvem estridente{168} de moscardos vorazes, Adão foge, estonteado, trilha saibros pegajosos, rasga o pêlo na aspereza dos cardos brancos que o vento estorce, resvala por uma encosta de cascalho e seixo, e pára em areia fina. Arqueja: as suas longas orelhas remexem, escutando, para alêm das dunas, um vasto rumor que rola e desaba e retumba... É o mar. Nosso Pai transpõe as pálidas dunas—e diante dêle está o Mar!

 

 

Então foi o pavor supremo. Com um pulo, batendo convulsamente os punhos no peito, recúa até onde três pinheiros, mortos e sem rama, lhe oferecem o refúgio hereditário. ¿Porque avançam assim para êle, sem cessar, numa inchada ameaça, aqueles rolos verdes, com a sua clina de espuma, e se atiram, se esmigalham, refervem, babujam rudemente a areia? Mas toda a outra vasta água permanece imóvel, como morta, com uma grande mancha de sangue que lateja. Todo êsse sangue caíu, de-certo, da ferida do sol, redonda e vermelha, sangrando em cima, num céu dilacerado por fundos golpes já rôxos. Para alêm da névoa leitosa que cobre as lagôas, dos charcos salgados, onde a marezia ainda chega e se espraia muito longe, um monte flameja e fumega. E sempre diante de Adão, contra Adão,{169} os verdes rolos da verde vaga avançam, e ribombam, e alastram a praia de algas, de conchas, de gelatinas que alvejam lívidamente.

Mas eis que todo o mar se povôa! E, encolhido contra o pinheiro, nosso Pai venerável dardeja os olhos inquietos e trémulos, para aqui, para alêm—para os rochedos cobertos de sargaço onde gordíssimas focas rebolam majestosamente; para os repuxos de água, que ao largo esguicham até às nuvens rôxas e recáem numa chuva radiante; para uma linda armada de búzios, imensos búzios alvos e nacarados, vogando à bolina, circundando as penedias, com manobra elegante... Adão pasma sem saber que estas são as Amonites, e que nenhum outro homem, depois dêle, verá a luzida e rósea armada singrando nos mares dêste mundo. Ainda êle a admira, talvez com a impressão inicial da beleza das cousas, quando bruscamente, num tremor de sulcos brancos, toda a maravilhosa frota sossobra! Com o mesmo salto mole, as focas tombam, trambulham na vaga funda. E um terror passa, um terror levantado do mar, tam intenso que um bando de albatrozes, muito seguro sôbre uma escarpa, bate, com azoados gritos, o vôo espavorido.

Nosso Pai venerável aferra a mão a um galho de pinheiro, sondando, num arrepio, a imensidão deserta. Então, ao longe, sob o{170} clarão enfiado do sol que se esconde, um dorso imenso sai, lentamente, das águas, como uma comprida colina, toda espetada de negras, agudas lascas de rocha. E avança! Adiante um tumulto de bôlhas redemoinha e rebenta; e de entre elas emerge, por fim, resfolegando cavamente, uma tromba disforme, de fauces entreabertas, onde lampejam e se somem cardumes de peixes que os seus sorvos vem tragando...

É um monstro, um pavoroso monstro marinho! E bem podemos supor que nosso Pai, esquecendo toda a sua dignidade humana (ainda recente), trepou desesperadamente ao pinheiro até onde os galhos findavam. Mas mesmo nesse abrigo, os seus poderosos queixos batiam, num medo convulso, ante o horrífico ser surgido das profundidades. Com um baque raspante, esmigalhando conchas, seixos e galhos de coral, o monstro esbarra na areia, que fundamente escava e sôbre que retesa as duas patas, mais grossas que troncos de teca, com as unhas todas enrodilhadas de silvas marinhas. Da caverna das suas fauces, através dos dentes terríficos, que os limos e musgos esverdeiam, sopra um bafo espesso de fadiga ou de furor, tam forte que faz rodopiar as algas sêcas e os búzios ligeiros. Entre as crostas pedregosas, que lhe couraçam a fronte, negrejam dois cornos curtos e rombos. Os seus olhos, lívidos e{171} vítreos, são como duas enormes luas mortas. A imensa cauda dentada arrasta pelo mar distante, e a cada rabeio lento levanta uma tempestade.

Por estas feições, pouco amáveis, já reconhecesteis o Ictiosaurio, o mais horrendo dos cetáceos concebidos por Jeová. Era êle!—talvez o derradeiro, que durara nas trevas oceânicas até êste dia memorável de 28 de Outubro, para que nosso Pai entrevisse as origens da Vida. E agora está em frente de Adão, ligando os tempos vélhos aos tempos novos—e, com as escamas do dorso assanhadas, muge devastadoramente. Nosso Pai venerável, enroscado ao tronco alto, guincha de vivo horror... E eis que, do lado dos charcos ennevoados, um silvo fende os céus, uivado e arremetido, como o de um áspero vento numa garganta de serrania. O quê! Outro monstro?... Sim, o Plesiosaurio. É tambêm o derradeiro Plesiosaurio que corre do fundo dos pântanos. E agora de novo se trava, para assombro do primeiro Homem (e gôsto dos Paleontologistas) o combate que foi a desolação dos pre-humanos dias da Terra. Lá aparece a fabulosa cabeça do Plésio, terminada em bico de ave, bico de duas braças, mais agudo que o dardo mais agudo, erguida sôbre um longuíssimo e esguio pescoço que ondula, arqueia, esfusia, dardeja com pavorosa elegância! Duas barbatanas de incomparável{172} rijeza veem movendo o seu disforme corpo, mole, glutinoso, todo em rugas, manchado por uma lepra de fungos esverdinhados. E tam imenso é assim rojando, com o pescoço empinado, que, diante da duna onde se levantam os pinheiros que acoitam Adão, êle parece uma outra duna negra sustentando um pinheiro solitário. Furiosamente avança.—E de repente é um horroroso tumulto de mugidos, e sibilos, e choques ribombantes, e areias torvelinhando, e grossos mares espadanando. Nosso Pai venerável salta dum pinheiro para outro pinheiro, tremendo tanto que, com êle, tremem os rijos troncos. E quando se arrisca a espreitar, ao recrescer dos bramidos, só percebe, na enrolada massa dos dois monstros, através de uma névoa de espuma que os esguichos de sangue avermelham, o bico do Plésio todo enterrado no ventre mole do Ictio, cuja cauda, erguida, se estorce furiosamente na palidez dos céus espantados. De novo esconde perdidamente a face, nosso Pai venerável! Um urro de monstruosa agonia rola na praia. As pálidas dunas estremecem, as cavernas soturnas ressoam. Depois é uma paz muito larga, em que o ruido do mar Oceano não é mais que um consolado murmúrio de alívio. Adão espia, debruçado entre os galhos... O Plésio recuara ferido para a tépida lama dos seus pântanos. E sôbre a{173} praia jaz o Ictio morto, como uma colina onde a vaga da tarde mansamente se quebra.

Então, nosso Pai venerável cautelosamente escorrega do seu pinheiro, e se abeira do monstro. A areia, em redor, está medonhamente revôlta;—e por toda ela, em lentos regos, em pôças escuras, o sangue, mal chupado, fumega. Tam montanhoso é o Ictio, que Adão, erguendo a face assombrada, nem avista as puas do monstro, erriçadas ao longo daquele alcantilado espinhaço, a que o bico do Plésio arrancou escamas mais pesadas que lages. Mas, diante das mãos trementes do Homem, estão os rasgões do ventre mole, de onde o sangue pinga, e gorduras babam, e imensas tripas esfiadas escorrem, e pendem febras atassalhadas de carne rosada... E as chatas ventas de nosso Pai venerável estranhamente se alargam e farejam.

Toda essa tarde êle caminhara, desde a Floresta, através do Paraíso, chupando bagas, rilhando raízes, trincando os insectos de casca picante. Mas agora o sol penetrou no mar—e Adão tem fome, nesse areal maninho, onde só alvejam cardos que o vento estorce. Oh! aquela carne rija, sangrenta, ainda viva, que exala um cheiro tam fresco e salino! As suas rombas mandíbulas ruidosamente se escancaram num bocejo enfastiado e famélico... O Oceano arfa, como adormecido... Então, irresistívelmente, Adão mergulha numa das feridas do sáurio os{174} dedos que lambe e rechupa, moles de sangue e gorduras. O espanto dum sabor novo imobiliza o homem frugal que vem das ervas e das frutas. Depois, com um salto, arremete contra a montanha de abundância, e arranca uma fêbra que trinca e traga, a grunhir, num furor, numa pressa, em que há o gôzo e há o medo da primeira carne comida.

 

 

Tendo ceado assim postas cruas dum monstro marinho, nosso Pai venerável sente uma grande sêde. São salgadas as pôças que na areia rebrilham. Pesado e triste, com os beiços empastados de banha e de sangue, Adão, sob o calado crepúsculo, atravessa as dunas, repenetra nas terras, rebuscando sôfregamente água doce. Por toda a relva, nesses tempos de universal humidade, fugia e chalrava um regato. Em breve, estendido numa riba lodosa, Adão bebeu consoladamente, em fundos sorvos, sob o vôo espantado de moscas fosforescentes que se lhe prendiam na guedelha.

Era junto dum bosque de carvalhos e faias. A noite, que já se adensara, ennegrecia um chão todo de plantas, onde a malva se encostava à hortelã, e a salsa ao funcho ligeiro. Nessa clareira fresca, penetrou nosso Pai venerável, estafado com a marcha e os espantos daquela tarde do Paraíso. E apenas se estendera{175} na alfombra cheirosa, com a hirsuta face pousada sôbre as palmas unidas, os joelhos colhidos contra o ventre distendido como um tambor, mergulhou num sono como êle nunca dormira—todo povoado de sombras moventes, que eram aves construindo uma casa, patas de insectos tecendo uma teia, dois bichos vogando nas águas rolantes.

Ora conta a Lenda que então, em tôrno do Primeiro Homem adormecido, começaram a surdir, por entre o mato baixo, focinhos fariscantes, finas orelhas espetadas, olhinhos reluzindo como botões de azeviche, e espinhaços inquietos que a emoção arqueava—emquanto que, dos cimos dos carvalhos e faias, num abafado frémito de asas, se debruçavam bicos recurvos, bicos retesos, bicos bravios, bicos pensativos, todos alvejando na claridade delgada da lua, que subia por trás dos montes, e banhava as frondes altas. Depois, à orla da clareira, uma hiena apareceu, coxeando, miando com lástima. Através da campina trotaram dois lobos, esgalgados, famélicos, com os verdes olhos acesos. Os leões não tardaram, com as riais faces erguidas, soberanamente enrugadas, numa profusão de jubas flamantes. Em confusa manada, que chegava bufando, os cornos dos auroques entrechocavam com impaciência os galhos palmares das renas. Todos os pêlos se{176} arrepiaram quando o tigre e a pantera negra, ondulando calada e aveludadamente, resvalaram, com as línguas pendentes e vermelhas como coalhos de sangue. Dos vales, das serranias, das fragas, outros acudiam, numa pressa tam anciosa, que os horrendos cavalos primitivos se empinavam por sôbre os cangurus, e a tromba do hipopótamo, a escorrer de limos, empurrava as ancas lentas do dromedário. Entre as patas e os cascos apinhados coleavam em aliança o furão, a sardonisca, a doninha, a cobra fulgente que engole a doninha, e o alegre manguço que assassina a cobra. Um bando de gazelas tropeçava, magoando as pernas finas, contra a crosta dos crocodilos, que subiam em fila da borda das lagôas, de goelas preparadas e a gemer. Já toda a planície arfava, sob a lua, no mole remexer de dorsos apertados, de onde se erguia, ora o pescoço da girafa, ora o corpo da jibóia, como mastros naufragados, balançados entre vagas. E por fim, abalando o sólo, enchendo o céu, com a tromba enrolada entre os dentes recurvos, assomou o rugoso mastodonte.

Era toda a Animalidade do Paraíso, que, sabendo o Primeiro Homem adormecido, sem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperança de o destruir e eliminar da terra a Fôrça Inteligente, destinada a submeter a{177} Fôrça Bruta. Mas, naquela pavorosa turba que fumegava, se atropelava à borda da clareira, onde Adão dormia sôbre a hortelã e a malva, nenhuma fera avançava. Os longos dentes reluziam, feramente arreganhados; todos os cornos repontavam; cada garra saída dilacerava com ânsia a terra mole; e os bicos, de cima das ramas, terçavam os fios da lua com bicadas famintas.... Mas nem ave descia, nem fera avançava,—porque ao lado de Adão velava uma Figura séria e branca, de asas brancas fechadas, os cabelos presos num aro de estrêlas, o peito guardado numa couraça de diamante, e as duas refulgentes mãos apoiadas ao punho duma espada que era de lume—e vivia.

 

 

A aurora despontou, com ardente pompa, comunicando à terra alegre, à terra braviamente alegre, à terra ainda sem andrajos, à terra ainda sem sepulturas, uma alegria superior, mais grave, religiosa e nupcial. Adão acordou: e, batendo as fuscas pálpebras, na surprêsa do seu acordar humano, sentiu sôbre a ilharga um pêso que era macio e que era doce. Nesse terror que, desde as árvores, não desamparava o seu coração, pulou e com tam ruidoso pulo, que, pela selva, os melros, os rouxinóis, as toutinegras, todos os passarinhos{178} de festa e de amor, despertaram e romperam num canto de congratulações e de esperanças.—E, oh maravilha! diante de Adão, e como despegado dêle, estava outro Ser a êle semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto dum pêlo mais sedoso, que o contemplava com largos olhos lustrosos e líquidos. Uma côma ruiva, dum ruivo tostado, rolava, em espessas ondas, até às suas ancas arredondadas numa plenitude harmoniosa e fecunda. De entre os braços peludinhos, que cruzara, surdiam, abundantes e gordos, os dois peitos da côr do medronho, com uma penugem crespa orlando o bico, que se enristava, entumecido. E roçando, num roçar lento, num roçar muito doce, os joelhos pelados, todo aquele sedoso e tenro Ser se ofertava com uma submissão pasmada e lasciva. Era Eva... Eras tu, Mãe Venerável!