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Chapter 22: II
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About This Book

The volume gathers short narratives that range from terse sketches to longer novellas, using realist description and satirical irony to examine interpersonal relations, social manners and private obsessions. Scenes shift between intimate domestic episodes, travel impressions and moral dilemmas, relying on vivid landscapes, careful psychological observation and wry humor. Several pieces expand earlier sketches into broader meditations on modern life, combining polished prose, critical social portraiture and moments of melancholy.

III

Então começaram, para nossos Pais, os dias abomináveis do Paraíso.

O seu constante e desesperado esfôrço foi sobreviver—no meio duma Natureza que, sem cessar e furiosamente, tramava a sua destruição.{179} E Adão e Eva passaram êsses tempos, que os poemas Semíticos celebram como Inefáveis—sempre a tremer, sempre a ganir, sempre a fugir! A terra ainda não era uma obra perfeita: e a Divina Energia, que a andava compondo, incessantemente a emendava, numa tam móbil inspiração, que em sítio coberto ao alvorecer por uma floresta, à noite se espelhava uma lagôa onde a Lua, já doente, vinha estudar a sua palidez. Quantas vezes nossos Pais, repousando no pendor de um outeiro inocente, entre o serpol e o rosmaninho (Adão com a face deitada sôbre a côxa de Eva, Eva com dedos ágeis catando o pêlo de Adão) foram sacudidos pela encosta amena como por um dorso irritado, e rolaram, embrulhados, entre o ribombo, e a labareda, e a fumarada, e a cinza quente do vulcão que Jeová improvisara! Quantas noites escaparam, uivando, dalguma abrigada caverna, quando já sôbre ela corria um grande mar inchado que bramava, se desenrolava, ficava fervendo entre as rochas, com negras focas mortas a boiar. Ou então era o chão, o chão seguro, já social e fertilizado para as searas sociáveis, que de repente rugia como uma fera, escancarava uma insondável goela, e tragava rebanhos, prados, nascentes, benéficos cedros com todas as rôlas que na sua rama arrulhavam.

Depois eram as chuvas, as longas chuvas{180} Edénicas, desabando em jorros clamorosos, durante alagados dias, durante torrentosas noites, tam desabaladamente que do Paraíso, vasto charco barrento, apenas apareciam as pontas do arvoredo afogado, e os cimos dos montes atulhados de bichos transidos que bramiam no terror das águas soltas. E nossos Pais, refugiados nalguma erguida fraga, gemiam lamentavelmente, com regatos a escorrer dos ombros, com ribeiras a escorrer dos pés, como se o barro novo de que Jeová os fizera se andasse já desfazendo.

E mais terríficas eram as estiagens. Oh! o incomparável tormento das sêcas no Paraíso! Lentos dias tristes, após lentos dias tristes, a imensa brasa do sol candente coriscava furiosamente num céu côr de cobre, em que o ar baço e grosso crepitava e arfava. Os montes estalavam, gretados: e as planícies desapareciam sob uma denegrida camada de fios retorcidos, ennovelados, rijos como arames, que eram os restos das verdes pastagens. Toda a tisnada folhagem rolava nos ventos abrasados, com rugidora restolhada. O leito dos rios chupados tinha a rigidez de ferro fundido. O musgo escorregava das rochas, como uma pele sêca que se despega descobrindo largos ossos. Cada noite um bosque ardia, fogueira estralejante, de lenha ressequida, escaldando mais a abóbada do forno inclemente.{181} Todo o Éden andava coberto das revoadas de abutres e corvos, porque, com tanto animal morto de fome e de sêde, abundava a carne pôdre. No rio, a água que restava mal corria, empoçada pela massa fervilhante de cobras, rãs, lontras, tartarugas, refugiadas naquele derradeiro veio, lodoso e todo morno. E nossos Pais veneráveis, com as magras costelas a arquejar contra o pêlo crestado, a língua pendida e mais dura que cortiça, erravam de fonte em fonte, a sorver desesperadamente alguma gota que ainda brotasse, gota rara, que assobiava, ao caír, sobre as lages esbraseadas...

E assim Adão e Eva, fugindo do Fogo, fugindo da Água, fugindo da Terra, fugindo do Ar, encetavam a vida no Jardim de Delícias.

E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessário comer! Ah! Comer—que portentosa emprêsa para nossos Pais veneráveis! Sobretudo desde que Adão (e depois Eva, por Adão iniciada) tendo provado os deleites fatais da carne, já não encontravam sabor, nem fartura, nem decência, nos frutos, nas raízes, e nos bagos do tempo da sua Animalidade. Certamente, as boas carnes não faltavam no Paraíso. Delicioso seria o salmão primitivo—mas nadava alegremente nas águas rápidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faisão rutilante, nutridos com os grãos que{182} o Criador considerara bons—mas voavam nos céus, em triunfal segurança. O coelho, a lebre—que fugas ligeiras no mato cheiroso!... E nosso Pai, nesses dias cândidos, não possuia o anzol nem a seta. Por isso, sem cessar rondava em tôrno das lagôas, nas ribas do mar, onde casualmente encalhava, boiando, algum cetáceo morto. Mas êsses achados de abundância eram raros—e o triste casal humano, nas suas marchas famintas pela borda das águas, só conquistava, aqui e alêm, na rocha ou na areia revôlta, algum feio caranguejo em cuja dura casca os seus beiços se esgaçavam. Essas solidões marinhas andavam tambêm infestadas por bandos de feras esperando, como Adão, que a vaga rolasse os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes, nossos Pais, já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam desconsoladamente, sentindo o passo fôfo do horrendo speleo, ou o bafo dos ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca indiferença da lua!

De-certo, a sua sciência hereditária de trepar às arvores socorria nossos Pais nesta conquista da prêsa. Que, sob as ramarias da caneleira de onde êles, assolapadamente, espreitavam, aparecesse algum cabrito desgarrado, ou uma tartaruga môça e bisonha se arrastasse para a erva miuda—e eis o repasto{183} seguro! Num relance, o cabrito ficava atassalhado, todo o seu sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva, nossa Mãe forte, guinchando sombriamente, arrancava, uma a uma, de entre a casca, as patas da tartaruga... Mas quantas noites, depois de jejuns angustiosos, se achavam os Eleitos da Terra forçados a afugentar a hiena, com rijos brados, através das clareiras, para lhe roubar um osso fetidamente babujado, que era já o sobejo de um leão farto! E dias piores sucediam, em que a fome reduzia nossos Pais a retrogradar à desgostosa frugalidade do tempo da Árvore, às ervas, aos rebentos, às raízes amargas—conhecendo assim, entre a abundância do Paraíso, a primeira forma da Miséria!

E, através dêstes trabalhos, não os desamparava o terror das feras! Porque, se Adão e Eva comiam os bichos fracos e fáceis, eram tambêm uma prêsa apetecida por todos os brutos superiores. Comer Eva, tam redonda e carnuda, foi de-certo o sonho de muito tigre nos juncais do Paraíso. Quanto urso, mesmo ocupado a roubar favos de mel num escavado tronco de roble, não se deteve, e se balançou, e lambeu o focinho numa gula mais fina, ao avistar, através da ramaria, num rebrilho errante de sol, o sombrio corpanzão de nosso Pai venerável! E nem só o perigo vinha das hordas esfaimadas dos carnívoros, mas ainda{184} dos lentos e fartos herbívoros, o auroque, o urus, o cervo elefas, que alegremente escorneariam e espesinhariam nossos Pais, por estupidez, dissemelhança de raça e cheiro, emprêgo da vida ociosa. E acresciam ainda os que matavam para não serem mortos—porque Medo, Fome e Furor, foram as leis da vida no Paraíso.

Certamente nossos Pais eram tambêm ferozes, de tremenda fôrça, e perfeitos na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. Mas o leopardo pulava de ramo em ramo, sem rumor, com uma destreza mais felina e segura! A jibóia furava com a cabeça até aos galhos extremos do mais levantado cedro para colher os macacos—e bem poderia abocar Adão, com aquela obtusa incapacidade que sempre as jibóias tiveram de distinguir, sob a similitude das formas, a diversidade dos méritos. ¿E que valiam as garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva, contra êsses pavorosos leões do Jardim de Delícias que a Zoologia, ainda hoje arrepiada, chama o Leo Anticus? ¿Ou contra a hiena-spelea tam ousada, que, nos primeiros dias do Génesis, os Anjos, quando desciam ao Paraíso, caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de entre dos bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? ¿Ou contra os cães, os horrendos cães do Paraíso, que atacando em{185} cerradas e ululantes hostes, foram, nesses começos do Homem, os piores inimigos do Homem?

E entre toda esta bicharia adversa, Adão não contava um aliado. Os seus próprios parentes, os Antropóides, invejosos e farçantes, o apedrejavam com enormes côcos. Só um animal, e formidável, conservava pelo Homem uma majestosa e pachorrenta simpatia. Era o Mastodonte. Mas a ennevoada Inteligência de nosso Pai ainda, nesses dias Edénicos, não compreendia a bondade, a justiça, o serviçal coração do paquiderme admirável. Por isso, certo da sua fraqueza e do seu isolamento, êle viveu, durante êsses trágicos anos, num ansiado terror. Tam ansiado e longo, que o seu arrepio, como uma longa ondulação, se perpètuou por toda a sua descendência—e é o vélho medo de Adão que nos torna inquietos, quando atravessamos a mata mais segura na solidão crepuscular.

E depois consideremos que ainda restavam pelo Paraíso, entre bichos de formas racionais, polidas, já preparadas para a prosa nobre de Mr. de Buffon, alguns dos grotescos monstros que desonraram a Criação antes da madrugada purificadora de 25 de Outubro. De-certo Jeová poupou a Adão o degradante horror de viver no Paraíso em companhia dessa escandalosa avantesma a que os Paleontologistas,{186} assombrados, deram o nome de Iguanodão! Na véspera do advento do Homem, Jeová, muito caridosamente, afogou todos os Iguanodões nos lôdos de um pântano, a um canto escondido do Paraíso, onde hoje se estende a Flandres. Mas Adão e Eva ainda conheceram os Pterodactilos. Oh! estes Pterodactilos!... Corpos de Jacaré, escamosos e penugentos; duas lúgubres, negras, carnudas asas, de morcego: um bico disparatado, mais grosso que o corpo, tristonhamente caído, erriçado de centenas de dentes, finos como os duma serra. E não voava! Descia, de asas moles, e mudas, e nelas abafava a prêsa como num pano viscoso e gelado, para a retalhar toda com os estalados golpes das mandíbulas fétidas. E êste funambulesco avejão enturvava o céu do Paraíso com a mesma abundância com que os melros ou as andorinhas cruzam os santos ares de Portugal. Os dias de nossos Pais veneráveis foram por êles torturados;—e nunca o seu pobre coração tremia tanto como quando, de alêm dos montes, se vinha despenhado, com sinistro estridor de asas e bicos, a revoada dos Pterodactilos.

¿Como sobreviveram nossos Pais, neste Jardim de Delícias? De-certo muito faiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava!{187}

 

Pois bem, meus amigos! A todos êstes furiosos seres deve o homem a sua carreira triunfal. Sem os Sáurios, e os Pterodactilos, e a Hiena Spelea, e o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu ataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional—a Terra permaneceria um temeroso Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e nus, chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao encolhido medo de Adão se deve a supremacia da sua descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a subir aos cimos da Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas Mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do Saber! Se não rugisse outrora o Leão das cavernas, não trabalhava hoje o Homem das cidades—pois que a Civilização nasceu do desesperado esfôrço defensivo contra o Inanimado e o Inconsciente. A Sociedade é realmente a obra da féra. Que a Hiena e o Tigre, no Paraíso, começassem por acariciar lânguidamente o ombro peludo de Adão com pata amiga—Adão ficaria irmão do Tigre e da Hiena, partilhando as suas tocas, as suas prêsas, os seus ócios,{188} os seus gostos bravios. E a Energia Inteligente, que o descera da Árvore, em breve se apagaria dentro da sua bruteza inerte, como se apaga a faisca, mesmo entre galhos secos, se um frio sôpro, vindo de um buraco escuro, não a estimula a viver, para vencer a friagem e vencer a escuridão.

Mas uma tarde (como ensinaria o exacto Usserius) saíndo Adão e Eva da espessura dum bosque, um urso enorme, o Pai dos Ursos, apareceu diante dêles, ergueu as negras patas, escancarou a goela sangrenta... Então, assim colhido, sem refúgio, na apertada ânsia de defender a sua fêmea, o Pai dos Homens arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a que se arrimava, um forte galho de téca, arrancado na mata, que findava em lasca aguda... E o pau atravessou o coração da féra.

 

 

Ah! Desde essa tarde bemdita houve verdadeiramente, sôbre a terra, um Homem.

Era já um Homem, e superior, quando lançou um passo espantado, e arrancou o pau do seio do monstro estendido, e lhe mirou a ponta gotejante de sangue—com a testa toda franzida, no afã de compreender. Os seus olhos resplandeceram, num deslumbrado triunfo. Adão compreendera...{189}

Nem cuidou mais da boa carne do urso! Remergulhou na floresta, e toda a tarde, emquanto a luz se arrastou pelas frondes, arrancou ramos aos troncos, cautelosamente, destramente, para que as pontas quebrassem bem lascadas e agudas. Ah! que soberbo estalar de hastes, pelo fundo bosque, através da frescura e da sombra, para a obra da primeira Redenção! Selva amável, que foste a primeira oficina, quem soubera onde jazes, na tua secular sepultura, tornada negro carvão!... Quando da mata largaram, fumegando de suor, para recolher à toca distante, nossos Pais veneráveis vergavam sob o pêso glorioso de dois grossos mólhos de armas.

E então não cessam mais os feitos do Homem. Ainda os corvos e os chacais não tinham esburgado a carcassa do Pai dos Ursos—já nosso Pai racha uma ponta do seu cajado vitorioso; entala na fenda um dêsses seixos afiados e bicudos, em que por vezes se feriam as suas patas, descendo à beira dos rios; e segura o fino estilhaço na racha com os lios, muito arrochados, de uma fibra de enrediça sêca. E eis a lança! Como essas pedras não abundam, Adão e Eva ensangùentam as garras, tentando fender os pedregões redondos de sílex em lascas curtas, que venham perfeitas, com ponta e com gume, para rasgar, cravar. A pedra resiste, pouco desejosa de{190} ajudar o Homem que, nos dias genesíacos do grande Outubro, ela tentara suplantar (como contam as prodigiosas Crónicas de Backun).—Mas de novo lampeja a face de Adão, numa idea que o sulca, como faisca emanada da Eterna Sabedoria. Apanha um pedregulho, bate a rocha, arranca a lasca... E eis o martelo!

Depois, noutra tarde bemdita, costeando uma escura e bravia colina, descobre, com aqueles seus olhos que já rebuscam e comparam, um calhau negro, áspero, facetado, sombriamente luzidio. Pasma do seu pêso—e logo pressente nele um maço superior, de decisiva rijeza. Com que alvoroço o leva agarrado contra o peito, para martelar o sílex rebelde! Ao lado de Eva, que o espera à beira do rio, logo malha rijamente sôbre a pederneira... E oh espanto! uma fagulha salta, refulge, morre! Ambos recúam, se entreolham, num terror quási sagrado! É um lume, um vivo lume, que êle assim arrancou com as suas mãos da rocha bruta—semelhante ao lume vivo que dardeja de entre as nuvens. De novo bate, a tremer. A scentelha brilha, a scentelha passa, e Adão remira e fareja o escuro calhau. Mas não compreende. E pensativos, nossos Pais veneráveis sobem, com os cabelos ao vento, para a sua caverna costumada, que é no pendor dum cêrro, junto duma fonte borbulhando entre fétos.{191}

E aí, no seu retiro, Adão, com uma curiosidade onde lateja uma esperança, novamente entala o sílex, grosso como uma abóbora, entre os calosos pés, e recomeça a martelar, sob o bafo de Eva, que se debruça e arfa. Sempre a faúlha salta, rebrilha na sombra, tam refulgente como aqueles lumes que agora palpitam, olham, de alêm, das alturas. Mas êsses lumes permanecem, através da negrura do céu e da noite, vivos, a espreitar, na sua radiância. E aquelas estrelinhas da pedra ainda não tem vivido e já teem morrido... ¿Será o vento que as leva, êle que tudo leva, vozes, nuvens e fôlhas ? Nosso Pai venerável, fugindo do vento malévolo que ronda no monte, recúa até ao fundo mais abrigado da caverna, onde se afôfam as camadas de feno muito sêco, que são o seu leito. E de novo fere a pedra, despedindo scentelha apoz scentelha, emquanto Eva, agachada, abriga com as mãos aqueles refulgentes e fugitivos seres. E eis que dos fenos um fumosinho se eleva, e se engrossa, e se enrola, e através dêle, vermelha, uma chama ressalta... É o Fogo! Nossos Pais fogem espavoridamente da caverna, obscurecida por uma fumaraça cheirosa, onde flamejam alegres, rutilantes línguas, que lambem a rocha. Acocorados à porta da toca, ambos arquejam, no pasmo e terror da sua obra, com os olhos a chorar do fumo acre. E,{192} mesmo através do susto e do espanto, sentem uma doçura muito nova que os penetra e que vem daquela luz e vem daquele calor... Mas já o fumo se escapou da caverna, o vento roubador o levou. As chamas rastejam, incertas, azuladas: em breve só resta um borralho que descóra, se acinzenta, se abate em cisco: e a derradeira faúlha corre, tremeluz, passa. O fogo morreu! Então, na alma nascente de Adão, entra a dor duma ruína. Desesperadamente puxa os grossos beiços e geme. ¿Saberá êle jàmais recomeçar o feito maravilhoso?... E é nossa Mãe, já consoladora, que o consola. Com as suas rudes mãos comovidas, porque realiza sôbre a terra a sua primeira obra, junta outro montão de fenos sêcos, pousa entre êles o sílex redondo, toma o escuro calhau, bate rijamente, num faúlhar de estrelinhas. E de novo o fumo rola, e de novo a chama refulge. Oh triunfo! eis a fogueira, a fogueira inicial do Paraíso, e não casualmente rebentada, mas acendida por uma clara Vontade, que agora para todo sempre, cada noite e cada manhã, poderá repetir com segurança a façanha suprema!

À nossa Mãe Venerável pertence então, na caverna, a doce e augusta tarefa do Lume. Ela o cria, ela o nutre, ela o defende, ela o perpetúa. E, como mãe deslumbrada, descobre cada dia, nesse resplandecente filho dos{193} seus cuidados, uma virtude ou graça nova. Agora já Adão sabe que o seu fogo espanta todas as féras e que no Paraíso existe emfim um buraco seguro, que é o seu buraco! Não só seguro, mas amável—porque o lume o alumia, o aquece, o alegra, o purifica. E quando Adão, com um mólho de lanças, desce à planície ou se embrenha na selva a caçar a prêsa, já mata com redobrada ânsia, para recolher depressa àquela boa segurança e consolação do lume. Ah! que docemente êle o penetra, e lhe séca no pêlo a friagem dos matos, e doura como um sol a penedia da sua toca! E depois ainda lhe prende os olhos, e o enleva, e o guia num scismar fecundo, em que inspiradamente lhe aparecem formas de flexas, malhos com cabos, ossos recurvos que fisgam os peixes, lascas dentadas que serram o pau!... À sua fêmea forte deve Adão esta hora criadora!

E quanto lhe não deve a Humanidade! Recordemos, meus irmãos, que nossa Mãe, com aquela adivinhação superior que mais tarde a tornou Profetiza e Sibila, não hesitou, quando a Serpente lhe disse, coleando entre as Rosas:—«Come do fruto do Saber, que os teus olhos se abrirão, e serás como os Deuses sabedores!» Adão teria comido a serpente, bocado mais suculento. Nem acreditaria em frutos que comunicam a Divindade e Sapiência,{194} êle que tanta fruta comera nas árvores, e se conservava insciente e bestial como o urso e o auroque. Eva, porêm, com a credulidade sublime que sempre no mundo opéra as transformações sublimes, comeu logo a maçã, e a casca, e a pevide. E persuadindo Adão a que partilhasse do transcendente pômo, muito dôce e enredosamente o convenceu do proveito, da felicidade, da glória e da fôrça que dá o Saber! Esta alegoria dos poetas do Génesis com esplêndida subtileza nos revela a imensa obra de Eva nos anos dolorosos do Paraíso. Por ela Deus continua a Criação superior, a do Reino espiritual, a que desenrola sôbre a terra o lar, a família, a tríbu, a cidade. É Eva que cimenta e bate as grandes pedras angulares na construção da Humanidade.

Senão, vêde! Quando o bravio caçador recolhe à caverna, derreado sob o pêso da caça morta, cheirando todo a selva, e a sangue, e a féra, é êle, de-certo, que esfola a rês com a faca de pedra, e retalha as postas, e esburga os ossos (que sôfregamente guarda sob a côxa e reserva para a sua ração, porque contêm a moela preciosa). Mas Eva junta essa pele, cuidadosamente, às outras peles armazenadas; esconde os ossos partidos, porque as suas lascas agudas pregam e furam; e numa cavidade da rocha fresca guarda a carne que{195} sobejou. Ora em breve uma dessas fartas postas esquece, caída junto à fogueira perpétua. O lume alastra, lentamente lambe a carne pelo lado mais gordo, até que um cheiro, desconhecido e saboroso, afaga e alarga as rudes narinas de nossa Mãe venerável. ¿De onde vem êle, o gostoso aroma? Do fogo, onde a posta de veado ou de lebre grelha e rechina. Então Eva, inspirada e grave, empurra a carne para a braza viva; e espera, ajoelhada, até que a espeta com uma ponta de osso, e a retira da chama ruidosa, e a trinca, em sombrio silêncio. Os seus olhos rebrilhantes anunciam outra conquista. E, com a pressa amorosa com que oferece a Maçã a Adão, lhe apresenta agora aquela carne tam nova, que êle cheira desconfiado, e depois devora a rijas dentadas, roncando de gôzo! E eis que, por êste pedaço de gamo assado, nossos Pais sobem vitoriosamente outro escalão da Humanidade!

A água ainda a bebem na nascente vizinha, entre os fétos, com a face mergulhada no veio claro. Depois de beber, Adão, arrimado à sua grossa lança, olha ao longe o rolar do rio lento, os montes coroados de neve ou de lume, o sol sôbre o mar—pensando, com arrastado pensar, se nessas terras que se estendem, se escondem para alêm, a prêsa será mais certa e as selvas menos cerradas. Mas Eva recolhe logo à caverna, para se entregar, sem descanso,{196} a uma tarefa que a encanta. Encruzada no chão, toda atenta sob a côma crespa, nossa Mãe fura, com um ossinho agudo, buracos finos na orla duma pele, e depois na orla doutra pele. E, tam embebida que nem sente Adão entrar e remexer nas suas armas, une as duas peles sobrepostas, passando através dos buracos uma delgada fibra das algas que secam diante do lume. Adão considera com desdêm êsse trabalho miudo que não acrescenta fôrça à sua fôrça. Não pressente ainda, o bruto Pai, que aquelas peles cosidas serão o resguardo do seu corpo, a armação da sua tenda, o saco do seu farnel, o ôdre da sua água, e o tambor em que bata quando fôr um Guerreiro, e a página em que escreva quando fôr um Profeta!

Outros gostos e modos de Eva o irritam tambêm: e por vezes, com uma desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o tomou uma tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da fogueira, um cachorrinho mole e trôpego, que ela, com carinho e paciência, ensinava a sugar numa febra de carne fresca. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que lhe era doce, e lhe abria na espessa{197} bôca, ainda mal sabedora de sorrir, um sorriso de maternidade. Nosso Pai venerável, com as pupilas a reluzir, atira a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro sentimento de Caridade, informe como a primeira flor que brotou dos limos, aparece na terra! E, com as curtas e roucas vozes que eram o falar de nossos Pais, Eva tenta talvez afiançar que será útil, na caverna do homem, a amizade dum bicho... Adão puxa o beiço trombudo. Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo macio do cachorrinho encolhido. E êste é, na História, um momento espantoso! Eis que o Homem domestíca o Animal! Dêsse cachorro agasalhado no Paraíso nascerá o cão amigo, por êle a aliança com o cavalo, depois o domínio sôbre a ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o guardará. Eva, da beira do seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.

Depois, naquelas longas manhãs em que Adão bravio caçava, Eva, errando de vale a monte, apanhava conchas, ovos de aves, curiosas raízes, sementes, com o gôsto de acumular, de abastecer a sua toca de riquezas novas, que escondia nas fendas da rocha. Ora um punhado dessas sementes caíra, através dos{198} seus dedos, sôbre terra húmida e negra, quando recolhia pela beira da fonte. Uma ponta verde brotou; depois uma haste cresceu; depois uma espiga amadurou. Os seus grãos são gostosos. Eva, pensativa, enterra outras sementes, na esperança de criar em tôrno do seu lar, num bocado do seu torrão, altas ervas que espiguem, e lhe tragam o grão adocicado e tenro... E eis a seara! E assim nossa Mãe torna possíveis, do fundo do Paraíso, os povos estáveis que lavram a terra.

 

 

No entanto, bem podemos supôr que Abel nasceu—e, uns após outros, os dias deslizam no Paraíso, mais seguros e fáceis. Já os vulcões lentamente se vão apagando. As rochas não se despenham já com fragor sôbre a abundância inocente dos vales. Tam amansadas andam as águas, que na sua transparência se miram, com demora e cuidado, as nuvens e os ramos dos olmos. Raramente um Pterodactilo macúla, com o escândalo do seu bico e das suas asas, os céus, onde o sol alterna com a bruma, e os estios se franjam de chuvas ligeiras. E nesta tranqùilidade que se estabelece há como uma submissão consciente. O Mundo pressente e aceita a supremacia do Homem. A floresta já não arde com{199} a leviandade do restolho, sabendo que em breve o Homem lhe pedirá a estaca, a trave, o rêmo, o mastro. O vento, nas gargantas da serra, brandamente se disciplina, e ensaia os sopros regulares com que trabalhará a mó do moinho. O mar afogou os seus monstros, e estira o dorso preparado para o cortar da quilha. A terra torna estável a sua gleba, e molemente se humedece, para quando chegar o arado e a semente. E todos os metais se alinham em filão, e alegremente se dispõem para o fogo que lhes dará forma e beleza.

E pela tarde Adão recolhe contente, com caça abundante. A lareira flameja: e alumia a face de nosso Pai, que o esfôrço da Vida embelezou, onde já os beiços se adelgaçaram, e a testa se encheu com o lento pensar, e os olhos sossegaram num brilho mais certo. O anho, espetado num pau, assa e pinga nas brasas. No chão pousam cascas de côco, cheias de clara água da fonte. Uma pele de urso tornou macio o leito de fetos. Outra pele, pendurada, abriga a bôca da caverna. A um canto, que é a oficina, estão os montões de sílex e o malho: a outro canto, que é o arsenal, estão as lanças e as clavas. Eva torce os fios duma lã de cabra. Ao bom calor, sôbre folhelho, dorme Abel, muito gordo, todo nú, com um pêlo mais ralo na carninha mais branca. Partilhando do folhelho e{200} do mesmo calor, vela o cão, já crescido, com o ôlho amorável, o focinho entre as patas. E Adão (oh, a estranha tarefa!) muito absorto, tenta gravar, com uma ponta de pedra, sôbre um osso largo, os galhos, o dorso, as pernas estiradas dum veado a correr!... A lenha estala. Todas as estrêlas do céu estão presentes. Deus, pensativo, contempla o crescer da Humanidade.

 

 

E agora que acendi, na noite estrelada do Paraíso, com galhos bem sêcos da Árvore da Sciência, êste verídico lar, consenti que vos deixe, oh Pais veneráveis!

Já não receio que a Terra instável vos esmague; ou que as feras superiores vos devorem; ou que, apagada, à maneira duma lâmpada imperfeita, a Energia que vos trouxe da Floresta, vós retrogradeis à vossa Árvore. Sois já irremediavelmente humanos—e cada manhã progredireis, com tam poderoso arremêsso, para a perfeição do Corpo e esplendor da Razão, que em breve, dentro dumas centenas de milhares de curtos anos, Eva será a formosa Helena e Adão será o imenso Aristóteles!

Mas não sei se vos felicite, oh Pais veneráveis! Outros irmãos vossos ficaram na espessura das árvores—e a sua vida é doce.{201}

Todas as manhãs o Orangotango acorda entre os seus lençóis de fôlhas de pendénia, sôbre o fôfo colchão de musgos que êle, com cuidado, acamou por cima dum catre de ramos cheirosos. Lânguidamente, sem cuidados, preguiça na moleza dos musgos, escutando as límpidas árias dos pássaros, gozando os fios do sol que se emmaranham por entre a renda das fôlhas, e lambendo no pêlo dos seus braços o orvalho açucarado. Depois de bem se coçar e bem se esfregar, sobe com pachorra à árvore dilecta, que elegeu em todo o bosque pela sua frescura, pela elasticidade embaladora das suas ramagens. Daí, tendo respirado as brisas carregadas de aromas, salta, com lestos pulos, através das sempre fáceis, sempre fartas ucharias do bosque, onde almoça a banana, a manga, a goiaba, todos os finos frutos que o tornam tam são e alheio a males como as árvores onde os colheu. Percorre então, sociavelmente, as ruas e as vielas palreiras da espessura; cabriola com destros amigos, em jogos amáveis de ligeireza e fôrça; galanteia as Orangas gentis que o catam, e penduradas com êle, duma liana florida, se balançam chalrando; trota, entre alegres ranchos, pela borda das águas claras; ou, sentado na ponta dum ramo, escuta algum vélho e facundo chimpanzé contando divertidas histórias de caça, de viagens, de{202} amores e de troças às feras pesadas, que circulam nas relvas e não podem trepar. Cedo recolhe à sua árvore, e, estendido na folhosa rêde, brandamente se abandona à delícia de sonhar, num sonho acordado, semelhante às nossas Metafísicas e às nossas Epopeias, mas que rolando todo sôbre sensações reais, é, ao contrário dos nossos incertos sonhos, um sonho todo feito de certeza. Por fim a Floresta lentamente se cala, a sombra escorrega entre os troncos:—e o Orango ditoso desce ao seu catre de pendénias e musgos, e adormece na imensa paz de Deus—de Deus que êle nunca se cansou em comentar, nem sequer em negar, e que todavia sôbre êle derrama, com imparcial carinho, os bens inteiros da sua Misericórdia.

Assim ocupou o seu dia o Orango, nas Árvores. ¿E no entanto, como gastou, nas Cidades, o seu dia, o Homem, primo do Orango? Sofrendo—por ter os dons superiores que faltam ao Orango! Sofrendo—por arrastar consigo, irresgatavelmente, êsse mal incurável que é a sua Alma! Sofrendo—porque nosso Pai Adão, no terrível dia 28 de Outubro, depois de espreitar e farejar o Paraíso, não ousou declarar reverentemente ao Senhor:—«Obrigado, oh meu doce Criador; dá o governo da Terra a quem melhor escolheres, ao Elefante ou ao Cangurú, que eu por{203} mim, bem mais avisado, volto já para a minha árvore!...»

Mas, emfim, desde que nosso Pai venerável não teve a previdência ou a abnegação de declinar a grande supremacia—continuemos a reinar sôbre a Criação e a ser sublimes... Sobretudo continuemos a usar, insaciavelmente, do dom melhor que Deus nos concedeu entre todos os dons, o mais puro, o único genuìnamente grande, o dom de o amar—pois que não nos concedeu tambêm o dom de o compreender. E não esqueçamos que Êle já nos ensinou, através de vozes levantadas em Galilea, e sob as mangueiras de Veluvana, e nos vales severos de Yen-Chou, que a melhor maneira de o amar é que uns aos outros nos amemos, e que amemos toda a sua obra, mesmo o verme, e a rocha dura, e a raiz venenosa, e até êsses vastos seres que não parecem necessitar o nosso amor, êsses Sóis, êsses Mundos, essas esparsas Nebuloses, que, inicialmente fechadas, como nós, na mão de Deus, e feitas da nossa substância, nem de-certo nos amam—nem talvez nos conhecem.{204} {205}

A AIA

Era uma vez um rei, môço e valente, senhor de um reino abundante em cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e triste a sua raínha e um filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das suas faixas.

A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de fama, começava a minguar—quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rôtas, negro do sangue sêco e do pó dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei, traspassado por sete lanças entre a flor da sua nobreza, à beira de um grande rio.

A raínha chorou magníficamente o rei.{206} Chorou ainda desoladamente o espôso, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o pai que assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos da sua frágil vida e do reino que seria seu, sem um braço que o defendesse, forte pela fôrça e forte pelo amor.

Dêsses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei, homem depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só a rialeza por causa dos seus tesoiros, e que havia anos vivia num castelo sôbre os montes, com uma horda de rebeldes, à maneira de um lôbo que, de atalaia no seu fojo, espera a prêsa. Ai! a prêsa agora era aquela criancinha, rei de mama, senhor de tantas províncias, e que dormia no seu berço com seu guiso de oiro fechado na mão!

Ao lado dêle, outro menino dormia noutro berço. Mas êste era um escravosinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. Ambos tinham nascido na mesma noite de verão. O mesmo seio os criava. Quando a raínha, antes de adormecer, vinha beijar o principesinho, que tinha o cabelo louro e fino, beijava tambêm por amor dêle o escravosinho, que tinha o cabelo negro e crespo. Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas. Sómente, o berço de um era magnífico e de marfim entre{207} brocados—e o berço do outro pobre e de vêrga. A leal escrava, porêm, a ambos cercava de carinho igual, porque se um era o seu filho—o outro seria o seu rei.

Nascida naquela casa rial, ela tinha a paixão, a religião dos seus senhores. Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto à beira do grande rio. Pertencia, porêm, a uma raça que acredita que a vida da terra se continua no céu. O rei seu amo, de-certo, já estaria agora reinando num outro reino, para alêm das nuvens, abundante tambêm em searas e cidades. O seu cavalo de batalha, as suas armas, os seus pagens tinham subido com êle às alturas. Os seus vassalos, que fôssem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste, retomar em tôrno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno, remontaria num raio de luz a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho das suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes; seria no céu como fôra na terra, e feliz na sua servidão.

Todavia, tambêm ela tremia pelo seu príncipesinho! Quantas vezes, com êle pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa infância, nos anos lentos que correriam antes que êle fôsse ao menos do tamanho de uma espada, e naquele tio cruel,{208} de face mais escura que a noite e coração mais escuro que a face, faminto do trono, e espreitando de cima do seu rochedo entre os alfanges da sua horda! Pobre príncipesinho da sua alma! Com uma ternura maior o apertava então nos braços. Mas se o seu filho chalrava ao lado—era para êle que os seus braços corriam com um ardor mais feliz. Êsse, na sua indigência, nada tinha a recear da vida. Desgraças, assaltos da sorte má nunca o poderiam deixar mais despido das glórias e bens do mundo do que já estava ali no seu berço, sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A existência, na verdade, era para êle mais preciosa e digna de ser conservada que a do seu príncipe, porque nenhum dos duros cuidados com que ela ennegrece a alma dos senhores roçaria sequer a sua alma livre e simples de escravo. E, como se o amasse mais por aquela humildade ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos pesados e devoradores—dos beijos que ela fazia ligeiros sôbre as mãos do seu príncipe.

No entanto um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma mulher entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo das serras, descera à planície com a sua horda, e já através de casais e aldeias felizes ia deixando um sulco de matança e ruínas. As portas da cidade tinham{209} sido seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias ardiam lumes mais altos. Mas à defesa faltava disciplina viril. Uma roca não governa como uma espada. Toda a nobreza fiel perecera na grande batalha. E a raínha desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao berço do seu filhinho e chorar sôbre êle a sua fraqueza de viuva. Só a ama leal parecia segura—como se os braços em que estreitava o seu príncipe fôssem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia pode transpôr.

Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, já despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos vergeis riais. Embrulhada à pressa num pano, atirando os cabelos para trás, escutou ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, corriam passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sôbre lages, como um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E alêm, ao fundo da galeria, avistou homens, um clarão de lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo compreendeu—o palácio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu príncipe! Então, rápidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o príncipe do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre berço de vêrga—e tirando o seu filho{210} do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o no berço rial que cobriu com um brocado.

Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sôbre a cota de malha, surgiu à porta da câmara, entre outros, que erguiam lanternas. Olhou—correu ao berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a criança, como se arranca uma bôlsa de oiro, e abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente.

O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e na treva.

Mas brados de alarme atroaram de repente o palácio. Pelas janelas perpassou o longo flamejar das tochas. Os pátios ressoavam com o bater das armas. E desgrenhada, quási nua, a raínha invadiu a câmara, entre as aias, gritando pelo seu filho! Ao avistar o berço de marfim, com as roupas desmanchadas, vazio, caiu sôbre as lages, num choro, despedaçada. Então calada, muito lenta, muito pálida, a ama descobriu o pobre berço de vêrga... O príncipe lá estava quieto, adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os seus cabelos de oiro. A mãe caíu sôbre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto.

E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o capitão das guardas,{211} a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, porêm, mais tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, entre o palácio e a cidadela, esmagado pela forte legião de archeiros, sucumbira, êle e vinte da sua horda. O seu corpo lá ficara, com flechas no flanco, numa pôça de sangue. Mas, ai! dor sem nome! O corposinho tenro do príncipe lá ficara tambêm, envolto num manto, já frio, rôxo ainda das mãos ferozes que o tinham esganado! Assim tumultuosamente lançavam a nova cruel os homens de armas—quando a raínha, deslumbrada, com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lho mostrar, o príncipe que despertara.

Foi um espanto, uma aclamação. ¿Quem o salvara? Quem?... Lá estava junto do berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva sublimemente leal! Fôra ela que, para conservar a vida ao seu príncipe, mandara à morte o seu filho... Então, só então, a mãe ditosa, emergindo da sua alegria estática, abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irmã do seu coração... E de entre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova, ardente aclamação, com súplicas de que fôsse recompensada magníficamente a serva admirável que salvara o rei e o reino.

Mas como? ¿Que bôlsas de oiro podem pagar{212} um filho? Então um vélho de casta nobre lembrou que ela fôsse levada ao tesoiro rial, e escolhesse de entre essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores tesoiros da Índia, todas as que o seu desejo apetecesse...

A raínha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse a rigidez, com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim conduzida para a Câmara dos Tesoiros. Senhores, aias, homens de armas, seguiam, num respeito tam comovido que apenas se ouvia o roçar das sandálias nas lages. As espessas portas do Tesoiro rodaram lentamente. E, quando um servo destrancou as janelas, a luz da madrugada, já clara e rósea, entrando pelos gradeamentos de ferro, acendeu um maravilhoso e faiscante incêndio de oiro e pedrarias! Do chão de rocha até às sombrias abóbadas, por toda a câmara, reluziam, scintilavam, refulgiam os escudos de oiro, as armas marchetadas, os montões de diamantes, as pilhas de moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino, acumuladas por cem reis durante vinte séculos. Um longo ah, lento e maravilhado, passou por sôbre a turba que emmudecera. Depois houve um silêncio ansioso. E no meio da câmara, envolta na refulgência preciosa, a ama não se movia... Apenas os{213} seus olhos, brilhantes e secos, se tinham erguido para aquele céu que, alêm das grades, se tingia de rosa e de oiro. Era lá, nesse céu fresco de madrugada, que estava agora o seu menino. Estava lá, e já o sol se erguia, e era tarde, e o seu menino chorava de-certo, e procurava o seu peito!... E então a ama sorriu e estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar, aquele lento mover da sua mão aberta. ¿Que joia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de rubís, ia ela escolher?

A ama estendia a mão—e sôbre um escabelo ao lado, entre um molho de armas, agarrou um punhal. Era um punhal de um vélho rei, todo cravejado de esmeraldas, e que valia uma província.

Agarrara o punhal, e com êle apertado fortemente na mão, apontando para o céu, onde subiam os primeiros raios do sol, encarou a raínha, a multidão, e gritou:

—Salvei o meu príncipe, e agora—vou dar de mamar ao meu filho!

E cravou o punhal no coração.{214} {215}

O DEFUNTO

I

No ano de 1474, que foi por toda a Cristandade tam abundante em mercês divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas.

Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava ao lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente, para alêm do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo, era o escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e maneiras sombrias, que já na madureza da{216} sua idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos côr de sol claro, e colo de garça rial. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem sempre se conservou devoto e fiel servidor; ainda que, sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e picheis de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara êle o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as manhãs, à hora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três Ave-Marias, a bênção e a graça.

Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebreus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de Vésperas, murmurar docemente uma Salve-Raínha.

E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.

A esta venerada igreja do Pilar vinha tambêm cada domingo D. Leonor, a tam falada e formosa mulher do senhor de Lara, acompanhada por uma aia carrancuda, de olhos mais{217} abertos e duros que os de uma coruja, e por dois possantes lacaios que a ladeavam e guardavam como tôrres. Tam ciumento era o senhor D. Alonso que, só por lho haver severamente ordenado o seu confessor, e com medo de ofender a Senhora, sua vizinha, permitia esta visita fugitiva, a que êle ficava espreitando sôfregamente, de entre as rexas de uma gelosia, os passos e a demora. Todos os lentos dias da lenta semana os passava a senhora D. Leonor no encêrro do gradeado solar de granito negro, não tendo, para se recrear e respirar, mesmo nas calmas do estio, mais que um fundo de jardim verde-negro, cercado de tam altos muros, que apenas se avistava, emergindo dêles, aqui, alêm, alguma ponta de triste cipreste. Mas essa curta visita a Nossa Senhora do Pilar bastou para que D. Rui se namorasse dela tresloucadamente, na manhã de maio em que a viu de joelhos ante o altar, numa réstea de sol, aureolada pelos seus cabelos de oiro, com as compridas pestanas pendidas sôbre o livro de Horas, o rosário caíndo de entre os dedos finos, fina toda ela e macia, e branca, de uma brancura de lírio aberto na sombra, mais branca entre as rendas negras e os negros setins que à volta do seu corpo cheio de graça se quebravam, em pregas duras, sôbre as lages da capela, vélhas lages de sepulturas. Quando depois dum momento{218} de enleio e de delicioso pasmo se ajoelhou, foi menos para a Virgem do Pilar, sua divina Madrinha, do que para aquela aparição mortal, de quem não sabia o nome nem a vida, e só que por ela daria vida e nome, se ela se rendesse por tam incerto preço. Balbuciando, com uma prece ingrata, as três Ave-Marias com que cada manhã saùdava Maria, apanhou o seu sombreiro, desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou, esperando por ela entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. Mas quando ao cabo de um tempo, em que D. Rui sentiu no coração um desusado bater de ansiedade e medo, a senhora D. Leonor passou e se deteve, molhando os dedos na pia de mármore de água benta, os seus olhos sob o véu descido, não se ergueram para êle, ou tímidos ou desatentos. Com a aia de olhos muito abertos colada aos vestidos, entre os dois lacaios, como entre duas tôrres, atravessou vagarosamente o adro, pedra por pedra, gozando de-certo, como encarcerada, o desafogado ar e o livre sol que o inundavam. E foi um espanto para D. Rui quando ela penetrou na sombria arcada, de grossos pilares, sôbre que assentava o palácio, e desapareceu por uma esguia porta recoberta de ferragens. Era, pois, essa a tam falada D. Leonor, a linda e nobre senhora de Lara...

Então começaram sete arrastados dias, que{219} êle gastou sentado a um poial da sua janela, considerando aquela negra porta recoberta de ferragens como se fôsse a do Paraíso, e por ela devesse saír um anjo para lhe anunciar a Bemaventurança. Até que chegou o vagaroso domingo: e passando êle no adro, à hora de Prima, ao repicar dos sinos, com um mólho de cravos amarelos para a sua divina Madrinha, cruzou D. Leonor, que saía de entre os pilares da escura arcada, branca, doce e pensativa, como uma lua de entre nuvens. Os cravos quási lhe caíram naquele gostoso alvoroço em que o peito lhe arfou mais que um mar, e a alma toda lhe fugiu em tumulto através do olhar com que a devorava. E ela ergueu tambêm os olhos para D. Rui, mas uns olhos repousados, uns olhos serenos, em que não luzia curiosidade, nem mesmo consciência de se estarem trocando com outros, tam acesos e ennegrecidos pelo desejo. O môço cavalheiro não entrou na igreja, com piedoso receio de não prestar à sua Madrinha divina a atenção, que de-certo lhe roubaria toda aquela que era só humana, mas dona já do seu coração, e nele divinizada.

Esperou sôfregamente à porta, entre os mendigos, secando os cravos com o ardor das mãos trémulas, pensando quanto era demorado o rosário que ela rezava. Ainda D. Leonor descia a nave, já êle sentia dentro da alma{220} o doce rugir das sedas fortes que ela arrastava nas lages. A branca senhora passou—e o mesmo distraido olhar, desatento e calmo, que espalhou pelos mendigos e pelo adro, o deixou escorregar sôbre êle, ou porque não compreendesse aquele moço que de repente se tornara tam pálido, ou porque não o diferenciava ainda das cousas e das formas indiferentes.

D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, pôs devotamente ante a imagem da Virgem as flores que não oferecera, na igreja, ao seu altar. Toda a sua vida se tornou então um longo queixume por sentir tam fria e desumana aquela mulher, única entre as mulheres, que prendera e tornara sério o seu coração ligeiro e errante. Numa esperança, a que antevia bem o desengano, começou a rondar os muros altos do jardim—ou embuçado numa capa, com o ombro contra uma esquina, lentas horas se quedava contemplando as grades das gelosias, negras e grossas como as dum cárcere. Os muros não se fendiam, das grades não saía sequer um rasto de luz prometedora. Todo o solar era como um jazigo onde jazia uma insensível, e por trás das frias pedras havia ainda um frio peito. Para se desafogar compôs, com piedoso cuidado, em noites veladas sôbre o pergaminho, trovas gementes que o não desafogavam.{221} Diante do altar da Senhora do Pilar, sôbre as mesmas lages onde a vira ajoelhada, pousava êle os joelhos, e ficava, sem palavras de oração, num scismar amargo e doce, esperando que o seu coração serenasse e se consolasse, sob a influência de Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se erguia mais desditoso e tendo apenas a sensação de quanto eram frias e rígidas as pedras sôbre que ajoelhara. O mundo todo só lhe parecia conter rigidez e frieza.

Outras claras manhãs de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos dela permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam com os seus era tam singelamente, tam limpos de toda a emoção, que D. Rui os preferiria ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente desviados com soberbo desdêm. De-certo D. Leonor já o conhecia:—mas, assim, conhecia tambêm a ramalheteira mourisca agachada diante do seu cêsto à beira da fonte; ou os pobres que se catavam ao sol diante do portal da Senhora. Nem D. Rui já podia pensar que ela fôsse desumana e fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrêla que nas alturas gira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela não distingue, olhos que ela não suspeita a contemplam, a adoram e lhe entregam o govêrno da sua ventura e sorte.{222}

Então D. Rui pensou:

—Ela não quer, eu não posso: foi um sonho que findou, e Nossa Senhora a ambos nos tenha na sua graça!

E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim inabalável na sua indiferença, não a procurou, nem sequer ergueu mais os olhos para as grades das suas janelas, e até nem penetrava na igreja de Nossa Senhora quando casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com a sua cabeça tam cheia de graça e de oiro, pendida sôbre o Livro de Horas.

II

A vélha aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, não tardara em contar ao senhor de Lara que um môço audaz, de gentil parecer, novo morador nas vélhas casas do arcediago, constantemente se atravessava no adro, se postava diante da igreja para atirar o coração pelos olhos à senhora D. Leonor. Bem amargamente o sabia já o ciumento fidalgo, porque quando da sua janela espreitava, como um falcão, a airosa senhora a caminho da igreja, observara os giros, as esperas, os olhares dardejados daquele môço galante—e{223} puxara as barbas de furor. Desde então, na verdade, a sua mais intensa ocupação era odiar D. Rui, o impudente sobrinho do cónego, que ousava erguer o seu baixo desejo até à alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia vigiado por um serviçal—e conhecia todos os seus passos e pousos, e os amigos com quem caçava ou folgava, e até quem lhe talhava os gibões, e até quem lhe polia a espada, e cada hora do seu viver. E mais ansiosamente ainda vigiava D. Leonor—cada um dos seus movimentos, os mais fugitivos modos, os silêncios e o conversar com as aias, as distracções sôbre o bordado, o geito de scismar sob as árvores do jardim, e o ar e a côr com que recolhia da igreja... Mas tam inalteradamente serena no seu sossêgo de coração se mostrava a senhora D. Leonor que nem o ciume mais imaginador de culpas poderia achar manchas naquela pura neve. Redobradamente áspero então se voltava o rancor de D. Alonso contra o sobrinho do cónego por ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos côr de sol claro, e aquele colo de garça rial, que eram só seus, para esplêndido gôsto da sua vida. E quando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda de abóbada, embrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico da barba grisalha espetado para diante, a grenha crespa erriçada para trás e os{224} punhos cerrados, era sempre remoendo o mesmo fel:

—Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra... É culpado por duas culpas e merece duas mortes!

Mas ao seu furor quási se misturou um terror, quando soube que D. Rui já não esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente os muros do palacete, nem penetrava na igreja quando ela lá rezava, aos domingos; e que tam inteiramente se alheava dela que uma manhã, estando rente da arcada, e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia aparecer, permanecera de costas voltadas, sem se mover, rindo com um cavaleiro gordo que lhe lia um pergaminho. Tam bem afectada indiferença só servia de-certo (pensou D. Alonso) a esconder alguma bem danada tenção! ¿Que tramava êle, o destro enganador? Tudo no desabrido fidalgo se exacerbou—ciume, rancor, vigilância, pesar da sua idade grisalha e feia. No sossêgo de D. Leonor suspeitou manha e fingimento;—e imediatamente lhe vedou as visitas à Senhora do Pilar.

Nas manhãs costumadas corria êle à igreja para rezar o rosário, a levar as desculpas de D. Leonor—«que no puede venir (murmurava curvado diante do altar) por lo que sabeis, virgem purissima!» Cuidadosamente visitou e{225} reforçou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar.

De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado.

À cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a lâmpada, um relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar as fôrças—luzia sempre uma grande espada nua. Mas, com tantas seguranças, mal dormia—e a cada instante se solevava em sobressalto de entre as fundas almofadas, agarrando a senhora D. Leonor com mão bruta e sôfrega, que lhe pisava o colo, para rugir muito baixo, numa ânsia: «Dize que me queres só a mim!...» Depois, com a alvorada, lá se empoleirava, a espreitar, como um falcão, as janelas de D. Rui. Nunca o avistava, agora, nem à porta da igreja às horas de missa, nem recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias.

E por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados—é que mais o suspeitava dentro do coração de D. Leonor.

Emfim, uma noite, depois de muito trilhar o lagedo da galeria, remoendo surdamente desconfianças e ódios, gritou pelo intendente e ordenou que se preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com a senhora D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas léguas de Segóvia! A partida não{226} foi de madrugada, como uma fuga de avarento que vai esconder longe o seu tesoiro:—mas, realizada com aparato e demora, ficando a liteira diante da arcada, a esperar longas horas, de cortinas abertas, emquanto um cavalariço passeava pelo adro a mula branca do fidalgo, enxairelada à mourisca, e do lado do jardim a récua de machos, carregados de baús, presos às argolas, sob o sol e a mosca, aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a jornada do senhor de Lara:—e assim a soube toda a cidade.

Fôra um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos seus viçosos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem grades, as janelas dos seus aposentos claros: aí ao menos tinha largo ar, pleno sol, e alegretes a regar, um viveiro de pássaros, e tam compridas ruas de loureiro ou teixo, que eram quási a liberdade. E depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que traziam, nos derradeiros tempos, tam enrugado e taciturno seu marido e senhor. Mas não logrou esta esperança, porque ao cabo de uma semana ainda se não desanuviara a face de D. Alonso—nem de-certo havia frescura de arvoredos, sussurros de águas correntes, ou aromas esparsos nos rosais em flor, que calmassem agitação tam amarga e funda. Como em Segóvia, na galeria{227} sonora de grande abobada, sem descanso passeava, enterrado na sua samarra, com o bico da barba espetado para diante, a grenha basta erriçada para trás, um geito de arreganhar silenciosamente o beiço, como se meditasse maldades a que gozava de antemão o sabor acre. E todo o interêsse da sua vida se concentrara num serviçal, que constantemente galopava entre Segóvia e Cabril, e que êle por vezes esperava no comêço da aldeia, junto ao Cruzeiro, ficando a escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas apressadas.

Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o terço com as aias, à luz duma tocha de cera, o senhor de Lara entrou muito vagarosamente, trazendo na mão uma fôlha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu tinteiro de osso. Com um rude acêno despediu as aias, que o temiam como a um lôbo. E, empurrando um escabelo para junto da mesa, volvendo para D. Leonor a face a que impusera tranqùilidade e agrado, como se apenas viesse por cousas naturais e fáceis:

—Senhora—disse—quero que me escrevais aqui uma carta que muito convêm escrever...

Tam costumada era nela a submissão, que, sem outro reparo ou curiosidade, indo apenas{228} pendurar na barra do leito o rosário em que rezara, se acomodou sôbre o escabelo, e os seus dedos finos, com muita aplicação, para que a letra fôsse esmerada e clara, traçaram a primeira linha curta que o Senhor de Lara ditara e era: Meu cavaleiro...» Mas quando êle ditou a outra, mais longa, e dum modo amargo, D. Leonor arrojou a pena como se a pena a escaldasse, e, recuando da mesa, gritou, numa aflição:

—¿Senhor, para que convêm que eu escreva tais cousas e tam falsas?...

Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe agitou junto à face, rugindo surdamente:

—Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convêm, ou por Deus, que vos varo o coração!...

Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada ante aquele ferro que luzia, num terror supremo e que tudo aceitava, D. Leonor murmurou:

—Pela Virgem Maria, não me façais mal!... Nem vos agasteis, senhor, que eu vivo para vos obedecer e servir... Agora, mandai, que eu escreverei.

Então, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal, esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o senhor de Lara ditou,{229} atirou roucamente, aos pedaços, aos repelões, uma carta que dizia, quando finda e traçada em letra bem incerta e trémula:—«Meu cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal pagais o amor que vos tenho, e que não vos pude nunca, em Segóvia, mostrar claramente... Agora aqui estou em Cabril, ardendo por vos ver; e se o vosso desejo corresponde ao meu, bem fàcilmente o podeis realizar, pois que meu marido se acha ausente noutra herdade, e esta de Cabril é toda fácil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela porta do jardim, do lado da azinhaga, passando o tanque, até ao terraço. Aí avistareis uma escada encostada a uma janela da casa, que é a janela do meu quarto, onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos espera...»

—Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo convêm!

D. Leonor traçou vagarosamente o seu nome, tam vermelha como se a despissem diante de uma multidão.

—E agora—ordenou o marido mais surdamente, através dos dentes cerrados—endereçai a D. Rui de Cardenas!

Ela ousou erguer os olhos, na surprêsa daquele nome desconhecido.

—Andai!... A D. Rui de Cardenas!—gritou o homem sombrio.{230}

E ela endereçou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.

D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e saíu em silêncio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas lages do corredor

Ela ficara sôbre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e levada! ¿Quem era êsse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira falar, que nunca atravessara a sua vida, tam quieta, tam pouco povoada de memórias e de homens? E êle de-certo a conhecia, a encontrara, a seguira, ao menos com os olhos, pois que era cousa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa...

¿Assim, um homem, e môço de-certo bem nascido, talvez gentil, penetrava no seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tam íntimamente mesmo se entranhara êsse homem na sua vida, sem que ela se apercebesse, que já para êle se abria de noite a porta do seu jardim, e contra a sua janela, para êle subir, se arrumava de noite uma escada!... E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito secretamente levantava a escada... Para que?{231}

Então, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa verdade, que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma cilada! O senhor de Lara atraía a Cabril êsse D. Rui com uma promessa magnífica, para dêle se apoderar, e de-certo o matar, indefeso e solitário! E ela, o seu amor, o seu corpo, eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do môço desventuroso. Assim seu marido usava a sua beleza, o seu leito, como a rêde de oiro em que devia caír aquela prêsa estouvada! ¿Onde haveria maior ofensa? E tambêm quanta imprudência! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas desconfiar, não aceder a convite tam abertamente amoroso, e depois mostrar por toda a Segóvia, rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas não! o desventurado correria a Cabril—e para morrer, miserávelmente morrer no negro silêncio da noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em pecado de amor! Para morrer, de-certo—porque nunca o senhor de Lara permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta. Assim, aquele môço morria por amor dela, e por um amor que, sem lhe valer nunca um gôsto, lhe valia logo a morte! De-certo por amor dela—pois que tal ódio do senhor de Lara, ódio{232} que com tanta deslealdade e vilania se cevava, só podia nascer de ciumes, que lhe escureciam todo o dever de cavaleiro e de cristão. Sem dúvida êle surpreendera olhares, passos, tenções dêste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado.

Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moço que um domingo a cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de cravos na mão... Seria êsse? Era de nobre parecer, muito pálido, com grandes olhos negros e quentes. Ela passara—indiferente... Os cravos que segurava na mão eram vermelhos e amarelos... A quem os levava?... Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, de madrugada!

¿Como, se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas deixar que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração, que vinha cheio dela, palpitando por ela, todo na esperança dela!...

Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Segóvia a Cabril, com a promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a janela, sob a nudez e protecção da noite! ¿Mandaria realmente o senhor de Lara encostar uma escada à janela? De-certo, para com mais facilidade o poderem matar, ao pobre, e doce, e inocente môço, quando êle subisse, mal seguro sôbre um frágil degrau,{233} as mãos embaraçadas, a espada a dormir na bainha... E assim, na outra noite, em face ao seu leito, a sua janela estaria aberta, e uma escada estaria erguida contra a sua janela à espera de um homem! Emboscado na sombra do quarto, seu marido seguramente mataria êsse homem...

¿Mas se o senhor de Lara esperasse fóra dos muros da quinta, assaltasse brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e ou por menos destro, ou por menos forte, num terçar de armas, caísse êle traspassado, sem que o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem saber, e todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem assomando à janela na sombra macia da noite tépida, e o marido que a devia defender morto no fundo duma azinhaga... ¿Que faria ela, Virgem Mãe? Oh! de-certo repeliria, soberbarmente, o môço temerário. Mas o espanto dêle e a cólera do seu desejo enganado! «Por Vós é que eu vim chamado, senhora! E ali trazia, sôbre o coração, a carta dela, com seu nome, que a sua mão traçara. ¿Como lhe poderia contar a emboscada e o dolo? Era tam longo de contar, naquele silêncio e solidão da noite, emquanto os olhos dêle, húmidos e negros, a estivessem suplicando e traspassando... Desgraçada dela se o senhor de Lara morresse, a deixasse solitária,{234} sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto desgraçada tambêm se aquele môço, chamado por ela, e que a amava, e que por êsse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no sítio da sua esperança, que era o sítio do seu pecado, e, morto em pleno pecado, rolasse para a eterna desesperança... Vinte e cinco anos, êle—se era o mesmo de quem se lembrava, pálido, e tam airoso, com um gibão de veludo roxo e um ramo de cravos na mão, à porta da igreja, em Segóvia...

Duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os joelhos, levantando a alma toda para o céu, onde a lua se começava a levantar, murmurou, numa infinita mágoa e fé:

—Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por nós ambos, vela por todos nós!...