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Chapter 23: III
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About This Book

The volume gathers short narratives that range from terse sketches to longer novellas, using realist description and satirical irony to examine interpersonal relations, social manners and private obsessions. Scenes shift between intimate domestic episodes, travel impressions and moral dilemmas, relying on vivid landscapes, careful psychological observation and wry humor. Several pieces expand earlier sketches into broader meditations on modern life, combining polished prose, critical social portraiture and moments of melancholy.

III

D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando de um banco de pedra, na sombra, se ergueu um môço do campo, que tirou de dentro do surrão uma carta, lha entregou, murmurando:{235}

—Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me mandou...

D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com êle contra o peito, como para o enterrar no coração...

O moço do campo insistia, inquieto:

—Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um sinal de vos ter vindo o recado...

Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o môço enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas leves, quando, com um acêno, D. Rui ainda o deteve:

—Escuta. ¿Que caminho tomas tu para Cabril?

—O mais certo e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cêrro dos Enforcados.

—Bem.

D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que D. Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser. E não o maravilhava esta oferta—depois de uma tam constante, imperturbada indiferença. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto, por ser muito forte, que com grande paciência se esconde ante os estorvos e os perigos, e mudamente prepara a sua{236} hora de contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada. Sempre ela o amara, pois, desde a manhã bemdita em que os seus olhos se tinham cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto êle rondava aqueles muros do jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros, já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com amorosa sagacidade, recalcando o menor suspiro, adormecendo desconfianças, preparava a noite radiante em que lhe daria tambêm o seu corpo.

Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam mais bela e mais apetecida!

Com que impaciência olhava então o sol, tam desapressado nessa tarde em descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias cerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas, um gibão de veludo negro e as essências perfumadas. Duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado. Sôbre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da espada que levaria à cinta... Mas o seu maior cuidado era o caminho para Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em tôrno ao mosteiro franciscano, e a vélha{237} ponte romana com o seu Calvário, e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda nesse inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e avistara a torre dos de Lara, e pensara:—«Eis a torre da minha ingrata!» Como se enganava! As noites agora eram de lua, e êle saíria de Segóvia caladamente, pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no Cêrro dos Enforcados... Bem o conhecia tambêm, êsse sítio de tristeza e pavor, com os seus quatro pilares de pedra, onde se enforcavam os criminosos, e onde os seus corpos ficavam, balouçados da ventania, ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as ossadas caíssem, brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do Cêrro era a lagôa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fôra em dia do apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e paz, em procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão negro, esbrugadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e direito a Cabril.

Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia caíndo. Mas, quando escureceu, e em tôrno às tôrres da igreja começaram a girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das Almas, o valente môço sentiu um medo{238} estranho, o medo daquela felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. ¿Era, pois, certo que essa mulher de divina formosura, famosa em Castela, e mais inacessível que um astro, seria sua, toda sua, no silêncio e segurança duma alcova, dentro em breves instantes, quando ainda se não tivessem apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes devotos? ¿E o que fizera êle para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um adro, esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor, abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos distraídos o procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e nus, e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita:—«Oh! mal avisado, que não me entendeste! Vem! Quem te desanimou já te pertence!» ¿Houvera jàmais igual ventura? Tam alta, tam rara era, que de-certo atrás dela, se não erra a lei humana, já devia caminhar a desventura! Já na verdade caminhava;—pois quanta desventura em saber que depois de tal ventura, quando de madrugada, saíndo dos divinos braços, êle recolhesse a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam inesperadamente adquirido por um instante, recaíria logo sob o poder de outro amo!{239}

Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era esplêndidamente sua, o mundo todo uma aparência vã e a única realidade êsse quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os cabelos soltos! Foi com sofreguidão que desceu a escada, se arremessou sôbre o seu cavalo. Depois, por prudência, atravessou o adro muito lentamente, com o sombreiro bem levantado da face, como num passeio natural, a procurar fóra dos muros a frescura da noite. Nenhum encontro o inquietou até à porta de S. Mauros. Aí, um mendigo, agachado na escuridão dum arco, e que tocava monótonamente a sua sanfona, pediu, em lamúria, à Virgem e a todos os santos, que levassem aquele gentil cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma esmola, quando se lembrou que nessa tarde não fôra à igreja, à hora de vésperas, rezar e pedir a bênção à sua divina madrinha. Com um salto, desceu logo do cavalo, porque, justamente, rente ao vélho arco, tremeluzia uma lâmpada alumiando um retábulo. Era uma imagem da Virgem com o peito traspassado por sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o sombreiro nas lages, e com as mãos erguidas, muito zelosamente, rezou uma Salve-Rainha. O clarão amarelo da luz envolvia o rosto da Senhora, que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como se êles só déssem{240} inefáveis gozos, sorria com os lábios muito vermelhos. Emquanto êle rezava, no convento de São Domingos, ao lado, a sineta começou a tocar a agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo murmurou:—«Lá está um frade a morrer!» D. Rui disse uma Ave-Maria pelo frade que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente—o toque de agonia não era, pois, de mau preságio! D. Rui cavalgou alegremente e partiu.

Para alêm da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trás das colinas, ao fundo da planície escura, subia o primeiro clarão, amarelo e lânguido, da lua cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo, receando chegar a Cabril muito cedo, antes que as aias e os moços findassem o serão e o rosário. ¿Porque não lhe marcara D. Leonor a hora, naquela carta tam clara e tam pensada? Então a sua imaginação corria adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava aladamente a escada prometida—e êle largava tambêm atrás, numa carreira sôfrega, que arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o coração contra o peito, como ave presa que bate às grades.

Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada{241} se fendia em duas, mais juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando através de pinheiral. Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um instante de angústia, pois não se recordava qual delas levava ao Cêrro dos Enforcados. Já se embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os pinheiros calados, uma luz surgiu, dansando no escuro. Era uma vélha em farrapos, com as longas melenas soltas, vergada sôbre um bordão e levando uma candeia.

—¿Para onde vai este caminho?—gritou Rui.

A vélha balançou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro.

—Para Xarama.

E luz e vélha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali tivessem surgindo sómente para avisar o cavaleiro do seu caminho errado... Já êle virara arrebatadamente; e, rodeando o Calvário, galopou pela outra estrada mais larga, até avistar sôbre a claridade do céu os pilares negros, os madeiros negros do Cêrro dos Enforcados. Então estacou, direito nos estribos. Num cômoro alto, sêco, sem erva ou urze, ligados por um muro baixo, todo esbrechado, lá se erguiam, negros, enormes, sôbre a amarelidão do luar, os quatro pilares de granito semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita.{242} Sôbre os pilares pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados negros e rígidos, no ar parado e mudo. Tudo em tôrno parecia morto como êles.

Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros. Para alêm, rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das Donas. E, no céu, a lua ia grande e cheia.

D. Rui murmurou o Padre Nosso devido por todo o cristão àquelas almas culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava—quando, no imenso silêncio e na imensa solidão, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava, suplicante e lenta:

—Cavaleiro, detende-vos, vinde cá!...

D. Rui colheu bruscamente as rédeas e erguido sôbre os estribos, atirou os olhos espantados por todo o sinistro ermo. Só avistou o cêrro áspero, a água rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fôra ilusão da noite ou ousadia de algum demónio errante. E, serenamente, picou o cavalo, sem sobressalto ou pressa, como numa rua de Segóvia. Mas, por trás, a voz tornou, mais urgentemente o chamou, ansiosa, quási aflita:

—Cavaleiro, esperai, não vos vades, voltai, chegai aqui!...

De novo D. Rui estacou e, virado sôbre a sela, encarou afoitamente os quatro corpos pendurados das traves. Do lado dêles soava{243} a voz, que, sendo humana, só podia saír de forma humana! Um dêsses enforcados, pois, o chamara, com tanta pressa e ânsia.

¿Restaria nalguns, por maravilhosa mercê de Deus, alento e vida? ¿Ou seria que, por maior maravilha, uma dessas carcassas meio apodrecidas o detinha para lhe transmitir avisos de Alêm-da-Campa?... Mas, que a voz rompesse dum peito vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar, espavoridamente, sem a atender e a ouvir.

Atirou logo para dentro do cêrro o cavalo, que tremia; e, parando, direito e calmo, com a mão na ilharga, depois de fitar, um por um, os quatro corpos suspensos, gritou:

—¿Qual de vós, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas?

Então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu, do alto da corda, muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua janela para a rua:

—Senhor, fui eu.

D. Rui fez avançar para diante dêle o cavalo. Não lhe distinguia a face, enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes. Só percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas, e tambêm soltos os pés nus, já ressequidos e da côr do betume.

—Que me queres?

O enforcado, suspirando, murmurou:{244}

—Senhor, fazei-me a grande mercê de me cortar esta corda em que estou pendurado.

D. Rui arrancou a espada e de um golpe certo cortou a corda meio apodrecida. Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caíu no chão, onde jazeu um momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou sôbre os pés mal seguros e ainda dormentes—e ergueu para D. Rui uma face morta, que era uma caveira com a pele muito colada, e mais amarela que a lua que nela batia. Os olhos não tinham movimento nem brilho. Ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso empedernido. De entre os dentes, muito brancos, surdia uma ponta de língua muito negra.

D. Rui não mostrou terror, nem asco. E embainhando serenamente a espada:

—¿Tu estás morto ou vivo?—perguntou. O homem encolheu os ombros com lentidão:

—Senhor, não sei... ¿Quem sabe o que é a vida? ¿Quem sabe o que é a morte?...

—¿Mas que queres de mim ?

O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o nó da corda que ainda lhe laçava o pescoço e declarou muito serena e firmemente:

—Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde vós ides.{245}

O cavaleiro estremeceu num tam forte assombro, repuxando as rédeas, que o seu bom cavalo se empinou como assombrado tambêm.

—Comigo a Cabril?!...

O homem curvou o espinhaço, a que se viam os ossos todos, mais agudos que os dentes de uma serra, através de um longo rasgão da camisa de estamenha:

—Senhor—suplicou—não mo negueis. Que eu tenho a receber grande salário se vos fizer grande serviço!

Então D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça formidável do Demónio. E, cravando os olhos muito brilhantes na face morta que para êle se erguia, ansiosa, à espera do seu consentimento—fez um lento e largo Sinal da Cruz.

O enforcado vergou os joelhos com assustada reverência:

—¿Senhor, para que me experimentais com êsse sinal? Só por êle alcançamos remissão, e eu só dêle espero misericórdia.

Então D. Rui pensou que, se êsse homem não era mandado pelo Demónio, bem podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um gesto submisso em que tudo entregava ao céu, consentiu, aceitou o pavoroso companheiro:

—Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus{246} te manda! Mas eu nada te pergunto e tu nada me perguntes.

Desceu logo o cavalo à estrada, toda alumiada da lua. O enforcado seguia ao seu lado, com passos tam ligeiros, que mesmo quando D. Rui galopava êle se conservava rente ao estribo, como levado por um vento mudo.

Por vezes, para respirar mais livremente, repuxava o nó da corda que lhe enroscava o pescoço. E, quando passavam entre sebes onde errasse o aroma de flores silvestres, o homem murmurava com infinito alívio e delícia:

—Como é bom correr!

D. Rui ia num assombro, num tormentoso cuidado. Bem compreendia agora que era aquele um cadáver reanimado por Deus, para um estranho e encoberto serviço. ¿Mas para que lhe dava Deus tam medonho companheiro? ¿Para o proteger? ¿Para impedir que D. Leonor, amada do céu pela sua piedade, caísse em culpa mortal? ¿E, para tam divina incumbência de tam alta mercê, já não tinha o Senhor anjos no céu, que necessitasse empregar um supliciado?... Ah! como êle voltaria alegremente a rédea para Segóvia, se não fôra a galante lealdade de cavaleiro, o orgulho de nunca recuar, e a submissão às ordens de Deus, que sentia sôbre si pesarem...

Dum alto da estrada, de repente avistaram Cabril, as torres do convento franciscano alvejando{247} ao luar, os casais adormecidos entre as hortas. Muito silenciosamente, sem que um cão ladrasse detrás das cancelas ou de cima dos muros, desceram a vélha ponte romana. Diante do Calvário, o enforcado caíu de joelhos nas lages, ergueu os lívidos ossos das mãos, ficou longamente rezando, entre longos suspiros. Depois ao entrar na azinhaga, bebeu muito tempo, e consoladamente, de uma fonte que corria e cantava sob as frondes de um salgueiro. Como a azinhaga era muito estreita, êle caminhava adiante do cavaleiro, todo curvado, os braços cruzados fortemente sôbre o peito, sem um rumor.

A lua ia alta no céu. D. Rui considerava com amargura aquele disco, cheio e lustroso, que espargia tanta claridade, e tam indiscreta, sôbre o seu segredo. Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma enorme lua surdia de entre os montes para tudo alumiar. Um enforcado descia da forca para o seguir e tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas que tristeza chegar à doce porta docemente prometida, com tal intruso ao seu lado, sob aquele céu todo claro!

Bruscamente, o enforcado estacou, erguendo o braço, de onde a manga pendia em farrapos. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho mais largo e mais batido:—e diante dêles alvejava o comprido muro da quinta{248} do senhor de Lara, tendo aí um mirante, com varandins de pedra, e todo revestido de hera.

—Senhor—murmurou o enforcado, segurando com respeito o estribo de D. Rui—logo a poucos passos dêste mirante é a porta por onde deveis penetrar no jardim. Convêm que aqui deixeis o cavalo, amarrado a uma árvore, se o tendes por seguro e fiel. Que na emprêsa em que vamos, já é de mais o rumor dos nossos pés!...

Silenciosamente D. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro, ao tronco dum álamo sêco.

E tam submisso se tornara àquele companheiro imposto por Deus, que sem outro reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia.

Com vagarosa cautela, e na ponta dos pés nus, avançava agora o enforcado, vigiando o alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando a escutar rumores que só para êle eram percebíveis—porque nunca D. Rui conhecera noite mais fundamente adormecida e muda.

E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi lentamente enchendo tambêm o valoroso cavaleiro de tam viva desconfiança, que tirava o punhal da baínha, enrodilhava a capa no braço, e marchava em{249} defesa, com o olhar faiscando, como num caminho de emboscada e briga. Assim chegaram a uma porta baixa, que o enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer nos gonzos. Penetraram numa rua ladeada de espessos teixos até a um tanque cheio de água, onde boiavam fôlhas de nenúfares, e que toscos bancos de pedra circundavam, cobertos pela rama de arbustos em flor.

—Por ali—murmurou o enforcado, estendendo o braço mirrado.

Era alêm do tanque, uma avenida que densas e vélhas árvores abobadavam e escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado adiante, D. Rui seguindo muito subtilmente, sem roçar um ramo, mal pisando a areia. Um leve fio de água sussurrava entre relvas. Pelos troncos subiam rosas trepadeiras, que cheiravam docemente. O coração de D. Rui recomeçou a bater numa esperança de amor.

—Chut!—fez o enforcado.

E D. Rui quási tropeçou no sinistro homem que estacava, com os braços abertos como as traves de uma cancela. Diante dêles quatro degraus de pedra subiam a um terraço, onde a claridade era larga e livre. Agachados, treparam os degraus—e ao fundo dum jardim sem árvores, todo em canteiros de flores bem recortados, orlados de buxo{250} curto, avistaram um lado da casa batido pela lua cheia. Ao meio, entre as janelas de peitoril fechadas, um balcão de pedra, com manjericões aos cantos, conservava as vidraças abertas largamente. O quarto, dentro, apagado, era como um buraco de treva na claridade da fachada que o luar banhava. E arrimada contra o balcão, estava uma escada com degraus de corda.

Então o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escuridão da avenida. E aí, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou:

—Senhor! Convêm agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! Vós quedais aqui na escuridão destas árvores. Eu vou trepar àquela escada e espreitar para aquele quarto... E se fôr como desejais, aqui voltarei, e com Deus sêde feliz...

D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela!

E bateu o pé, gritou surdamente:

—Não, por Deus!

Mas a mão do enforcado, lívida na escuridão, bruscamente lhe arrancou o sombreiro da cabeça, lhe puxou a capa do braço. E já se cobria, já se embuçava, murmurando agora, numa súplica ansiosa:

—Não mo negueis, senhor, que se vos fizer grande serviço, ganharei grande mercê!{251}

E galgou os degraus:—estava no alumiado e largo terraço.

D. Rui subiu, atontado, e espreitou. E—oh maravilha!—era êle, D. Rui, todo êle, na figura e no modo, aquele homem que, por entre os canteiros e o buxo curto, avançava, airoso e leve, com a mão na cintura, a face erguida risonhamente para a janela, a longa pluma escarlate do chapéu balançando em triunfo. O homem avançava no luar esplêndido. O quarto amoroso lá estava esperando, aberto e negro. E D. Rui olhava, com olhos que faiscavam, tremendo de pasmo e cólera. O homem chegara à escada: destraçou a capa, assentou o pé no degrau de corda!—«Oh! lá sobe, o maldito!»—rugiu D. Rui. O enforcado subia. Já a alta figura, que era dêle, D. Rui, estava a meio da escada, toda negra contra a parede branca. Parou!... Não! não parara: subia, chegava,—já sôbre o rebordo da varanda pousara o joelho cauteloso. D. Rui olhava, desesperadamente, com os olhos, com a alma, com todo o seu ser... E eis que, de repente, do quarto negro surge um negro vulto, uma furiosa voz brada:—«vilão, vilão!»—e uma lâmina de adaga faisca, e cai, e outra vez se ergue, e rebrilha, e se abate, e ainda refulge, e ainda se embebe!... Como um fardo, do alto da escada, pesadamente, o enforcado cai sôbre a terra mole. Vidraças, portadas do{252} balcão logo se fecham com fragor. E não houve mais senão o silêncio, a serenidade macia, a lua muito alta e redonda no céu de verão.

Num relance D. Rui compreendera a traição, arrancara a espada, recuando para a escuridão da avenida—quando, oh milagre! correndo através do terraço, aparece o enforcado, que lhe agarra a manga e lhe grita:

—A cavalo, senhor, e abalar, que o encontro não era de amor, mas de morte!

Ambos descem arrebatadamente a avenida, costeiam o tanque sob o refúgio dos arbustos em flor, metem pela rua estreita orlada de teixos, varam a porta—e um momento param, ofegantes, na estrada, onde a lua, mais refulgente, mais cheia, fazia como um puro dia.

E então, só então, D. Rui descobriu que o enforcado conservava cravada no peito, até aos copos, a adaga, cuja ponta lhe saía pelas costas, luzidia e limpa!... Mas já o pavoroso homem o empurrava, o apressava:

—A cavalo, senhor, e abalar, que ainda está sôbre nós a traição!

Arrepiado, numa ânsia de findar aventura tam cheia de milagre e de horror, D. Rui colheu as rédeas, cavalgou sôfregamente. E logo, em grande pressa, o enforcado saltou tambêm para a garupa do cavalo fiel. Todo se arrepiou o bom cavaleiro, ao sentir nas suas{253} costas o roçar daquele corpo morto, dependurado de uma forca, atravessado por uma adaga. Com que desespêro galopou então pela estrada infindável! Em carreira tam violenta o enforcado nem oscilava, rígido sôbre a garupa, como um bronze num pedestal. E D. Rui a cada momento sentia um frio mais regelado que lhe regelava os ombros, como se levasse sôbre êles um saco cheio de gêlo. Ao passar no cruzeiro murmurou:—«Senhor, valei-me!»—Para alêm do cruzeiro, de repente estremeceu com o quimérico medo de que tam fúnebre companheiro para sempre o ficasse acompanhando, e se tornasse seu destino galopar através do mundo, numa noite eterna, levando um morto à garupa... E não se conteve, gritou para trás, no vento da carreira que os vergastava:

—¿Para onde quereis que vos leve?

O enforcado, encostando tanto o corpo a D. Rui que o magoou com os copos da adaga, segredou:

—Senhor, convêm que me deixeis no Cêrro!

Doce e infinito alívio para o bom cavaleiro—pois o Cêrro estava perto, e já lhe avistava, na claridade desmaiada, os pilares e as traves negras... Em breve estacou o cavalo que tremia, branqueado de espuma.

Logo o enforcado, sem rumor, escorregou{254} da garupa, segurou, como bom serviçal, o estribo de D. Rui. E com a caveira erguida, a língua negra mais saída de entre os dentes brancos, murmurou em respeitosa súplica:

—Senhor, fazei-me agora a grande mercê de me pendurar outra vez da minha trave.

D. Rui estremeceu de horror:

—Por Deus! Que vos enforque, eu?...

O homem suspirou, abrindo os braços compridos:

—Senhor, por vontade de Deus é, e por vontade de Aquela que é mais cara a Deus!

Então, resignado, submisso aos mandados do Alto, D. Rui apeou—e começou a seguir o homem, que subia para o Cêrro pensativamente, vergando o dorso, de onde saía, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam ambos sob a trave vazia. Em tôrno das outras traves pendiam as outras carcassas. O silêncio era mais triste e fundo que os outros silêncios da terra. A água da lagôa ennegrecera. A lua descia e desfalecia.

D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o pedaço de corda que êle cortara com a espada.

—¿Como quereis que vos pendure?—exclamou.—Àquele pedaço de corda não posso chegar com a mão; nem eu só basto para lá vos içar.{255}

—Senhor—respondeu o homem—aí a um canto deve haver um longo rôlo de corda. Uma ponta dela ma atareis a este nó que trago no pescoço: a outra ponta a arremessareis por cima da trave, e puxando depois, forte como sois, bem me podereis reenforcar.

Ambos curvados, com passos lentos, procuraram o rôlo de corda. E foi o enforcado que o encontrou, o desenrolou... Então D. Rui descalçou as luvas. E ensinado por êle (que tam bem o aprendera do carrasco) atou uma ponta da corda ao laço que o homem conservava no pescoço, e arremessou fortemente a outra ponta, que ondeou no ar, passou sôbre a trave, ficou pendurada rente ao chão. E o rijo cavaleiro, fincando os pés, retezando os braços, puxou, içou o homem, até êle se quedar, suspenso, negro no ar, como um enforcado natural entre os outros enforcados.

—Estais bem assim?

Lenta e sumida, veio a voz do morto:

—Senhor, estou como devo.

Então D. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossas ao pilar de pedra. E tirando o sombreiro, limpando com as costas da mão o suor que o alagava, contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro. Estava já rígido como antes, com a face pendida sob as melenas caídas, os pés inteiriçados, todo poído e carcomido como uma vélha carcassa. No peito{256} conservava a adaga cravada. Por cima, dois corvos dormiam quietos.

—¿E agora que mais quereis?—perguntou D. Rui, começando a calçar as luvas.

Sumidamente, do alto, o enforcado murmurou:

—Senhor, muito vos rogo agora que, ao chegar a Segóvia, tudo conteis fielmente a Nossa Senhora do Pilar, vossa madrinha, que dela espero grande mercê para a minha alma, por êste serviço que, a seu mandado, vos fez o meu corpo!

Então, D. Rui de Cardenas tudo compreendeu—e, ajoelhando devotamente sôbre o chão de dor e morte, rezou uma longa oração por aquele bom enforcado.

Depois galopou para Segóvia. A manhã clareava quando êle transpôs a porta de S. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. E entrando na igreja de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua terrível jornada, D. Rui, de rôjo ante o altar, narrou à sua Divina Madrinha a ruim tenção que o levara a Cabril, o socorro que do céu recebera, e, com quentes lágrimas de arrependimento e gratidão, lhe jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse pecado, nem no seu coração daria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do Mal.{257}

IV

A essa hora, em Cabril, D. Alonso de Lara, com os olhos esbugalhados de pasmo e terror, esquadrinhava todas as ruas e recantos e sombras do seu jardim.

Quando ao alvorecer, depois de escutar à porta da câmara onde nessa noite encerrara D. Leonor, êle descera subtilmente ao jardim e não encontrara, debaixo do balcão, rente à escada, como deliciosamente esperava, o corpo de D. Rui de Cardenas, teve por certo que o homem odioso, ao tombar, ainda com um resto débil de vida, se arrastara sangrando e arquejando, na tentativa de alcançar o cavalo e abalar de Cabril... Mas, com aquela rija adaga que êle três vezes lhe enterrara no peito, e que no peito lhe deixara, não se arrastaria o vilão por muitas jardas, e nalgum canto devia jazer frio e inteiriçado. Rebuscou então cada rua, cada sombra, cada maciço de arbustos. E—maravilhoso caso!—não descobria o corpo, nem pègadas, nem terra que houvesse sido remexida, nem sequer rasto de sangue sôbre a terra! E todavia, com mão certeira e faminta de vingança, três vezes{258} êle lhe embebera a adaga no peito, e no peito lha deixara!

E era Rui de Cardenas o homem que êle matara—que muito bem o conhecera logo, do fundo apagado do quarto de onde espreitava, quando êle, à claridade da lua, veio através do terraço, confiado, ligeiro, com a mão na cintura, a face risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando em triunfo! ¿Como podia ser cousa tam rara—um corpo mortal sobrevivendo a um ferro, que três vezes lhe vara o coração e no coração lhe fica cravado? E a maior raridade era que nem no chão, debaixo da varanda, onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e cecêns, deixara um vestígio aquele corpo forte, caíndo de tam alto pesadamente, inertemente, como um fardo! Nem uma flor machucada—todas direitas, viçosas, como novas, com gotas leves de orvalho! Imóvel de espanto, quási de terror, D. Alonso de Lara ali parava, considerando o balcão, medindo a altura da escada, olhando esgazeadamente os goivos direitos, frescos, sem uma haste ou fôlha vergada. Depois recomeçava a correr loucamente o terraço, a avenida, a rua de teixos, na esperança ainda duma pègada, dum galho partido, de uma nódoa de sangue na areia fina.

Nada! Todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova, como se sôbre êle{259} nunca houvesse passado nem o vento que desfolha, nem o sol que murcha.

Então, ao entardecer, devorado pela incerteza e mistério, tomou um cavalo e, sem escudeiro ou cavalariço, partiu para Segóvia. Curvada e escondidamente, como um foragido, penetrou no seu palácio pela porta do pomar: e o seu primeiro cuidado foi correr à galeria de abóbada, destrancar as portadas da janela e espreitar ávidamente a casa de D. Rui de Cardenas. Todas as gelosias da vélha morada do arcediago estavam escuras, abertas, respirando a fresquidão da noite:—e à porta, sentado num banco de pedra, um môço de cavalariça afinava preguiçosamente a bandurra.

D. Alonso de Lara desceu à sua câmara, lívido, pensando que não houvera certamente desgraça em casa onde todas as janelas se abrem para refrescar, e no portão da rua os moços folgam. Então bateu as palmas, pediu furiosamente a ceia. E, apenas sentado, ao tôpo da mesa, na sua alta séde de couro lavrado, mandou chamar o intendente, a quem ofereceu logo com estranha familiaridade um copo de vinho vélho. Emquanto o homem, de pé, bebia respeitosamente, D. Alonso, metendo os dedos pelas barbas e forçando a sua sombria face a sorrir, perguntava pelas novas e rumores de Segóvia. ¿Nesses dias da sua{260} estada em Cabril, nenhum caso criara pela cidade espanto e murmuração?... O intendente limpou os beiços, para afirmar que nada ocorrera em Segóvia de que andasse murmuração, a não ser que a filha do senhor D. Gutierres, tam môça e tam rica herdeira, tomara o véu no convento das Carmelitas Descalças. D. Alonso insistia, fitando vorazmente o intendente. ¿E não se travara uma grande briga?... ¿não se encontrara ferido, na estrada de Cabril, um cavaleiro môço, muito falado?... O intendente encolhia os ombros: nada ouvira, pela cidade, de brigas ou de cavaleiros feridos. Com um acêno desabrido D. Alonso despediu o intendente.

Apenas ceara, parcamente, logo voltou à galeria a espreitar as janelas de D. Rui. Estavam agora cerradas; na última, da esquina, tremeluzia uma claridade. Toda a noite D. Alonso velou, remoendo incansavelmente o mesmo espanto. ¿Como pudera escapar aquele homem, com uma adaga atravessada no coração? Como pudera?... Ao luzir da manhã, tomou uma capa, um largo sombreiro, desceu ao adro, todo embuçado e encoberto, e ficou rondando por diante da casa de D. Rui. Os sinos tocaram a matinas. Os mercadores, com os gibões mal abotoados, saíam a erguer as portadas das lojas, a pendurar as taboletas. Já os hortelões, picando os burros carregados de ceiras,{261} atiravam os pregões de hortaliça fresca, e frades descalços, com o alforge aos ombros, pediam esmola, benziam as moças.

Beatas embiocadas, com grossos rosários negros, enfiavam gulosamente para a igreja. Depois o pregoeiro da cidade, parando a um canto do adro, tocou uma buzina, e numa voz tremenda começou a ler um edital.

O senhor de Lara, parara junto do chafariz, pasmado, como embebido no cantar das três bicas de água. De repente pensou que aquele edital, lido pelo pregoeiro da cidade, se referia talvez a D. Rui, ao seu desaparecimento... Correu à esquina do adro—mas já o homem enrolara o papel, se afastava majestosamente, batendo nas lages com a sua vara branca. E, quando se voltava para espiar de novo a casa, eis que os seus olhos atónitos encontram D. Rui, D. Rui que êle matara—e que vinha caminhando para a igreja de Nossa Senhora, ligeiro, airoso, a face risonha e erguida no fresco ar da manhã, de gibão claro, de plumas claras, com uma das mãos pousando na cinta, a outra meneando distraídamente um bastão com borlas de torçal de oiro!

D. Alonso recolheu então a casa com passos arrastados e envelhecidos. No alto da escadaria de pedra, achou o seu vélho capelão, que o viera saùdar, e que, penetrando com êle na ante-câmara, depois de pedir, com reverência,{262} novas da senhora D. Leonor, lhe contou logo dum prodigioso caso que causava pela cidade grave murmuração e espanto. Na véspera, de tarde, indo o corregedor visitar o cêrro das forcas, pois se acercava a festa dos Santos Apóstolos, descobrira, com muito pasmo e muito escândalo, que um dos enforcados tinha uma adaga cravada no peito! ¿Fôra gracejo de um pícaro sinistro? ¿Vingança que nem a morte saciara?... E para maior prodígio ainda, o corpo fôra despendurado da forca, arrastado em horta ou jardim (pois que prêsas aos vélhos farrapos se encontraram fôlhas tenras) e depois novamente enforcado e com corda nova!... E assim ia a turbulência dos tempos, que nem os mortos se furtavam a ultrajes!

D. Alonso escutava com as mãos a tremer, os pêlos arrepiados. E imediatamente, numa ansiosa agitação, bradando, tropeçando contra as portas, quis partir, e por seus olhos verificar a fúnebre profanação. Em duas mulas ajaezadas à pressa, ambos abalaram para o Cêrro dos Enforcados, êle e o capelão arrastado e aturdido. Numeroso povo de Segóvia se ajuntara já no Cêrro, pasmando para o maravilhoso horror—o morto que fôra morto!... Todos se arredaram ante o nobre senhor de Lara, que arremessando-se pelo cabeço acima, estacara a olhar, esgazeado e lívido, para{263} o enforcado e para a adaga que lhe varava o peito. Era a sua adaga:—fôra êle que matara o morto!

Galopou espavoridamente para Cabril. E aí se encerrou com o seu segredo, começando logo a amarelecer, a definhar, sempre arredado da senhora D. Leonor, escondido pelas ruas sombrias do jardim, murmurando palavras ao vento, até que na madrugada de S. João uma serva, que voltava da fonte com a sua bilha, o encontrou morto, por baixo do balcão de pedra, todo estirado no chão, com os dedos encravados no canteiro de goivos, onde parecia ter longamente esgravatado a terra, a procurar...

V

Para fugir a tam lamentáveis memórias, a senhora D. Leonor, herdeira de todos os bens da casa de Lara, recolheu ao seu palácio de Segóvia. Mas como agora sabia que o senhor D. Rui de Cardenas escapara miraculosamente à emboscada de Cabril, e como cada manhã, espreitando de entre as gelosias, meio cerradas, o seguia, com olhos que se não fartavam e se humedeciam, quando êle cruzava o adro para entrar na igreja, não quis ela, com receio das{264} pressas e impaciências do seu coração, visitar a Senhora do Pilar emquanto durasse o seu luto. Depois, uma manhã de domingo, quando, em vez de crepes negros, se poude cobrir de sêdas roxas, desceu a escadaria do seu palácio, pálida de uma emoção nova e divina, pisou as lages do adro, transpôs as portas da igreja. D. Rui de Cardenas estava ajoelhado diante do altar, onde depusera o seu ramo votivo de cravos amarelos e brancos. Ao rumor das sêdas finas, ergueu os olhos com uma esperança muito pura e toda feita de graça celeste, como se um anjo o chamasse. D. Leonor ajoelhou, com o peito a arfar, tam pálida e tam feliz que a cera das tochas não era mais pálida, nem mais felizes as andorinhas que batiam as asas livres pelas ogivas da vélha igreja.

Ante êsse altar, e de joelhos nessas lages, foram eles casados pelo bispo de Segóvia, D. Martinho, no outono do ano da Graça de 1475, sendo já reis de Castela Isabel e Fernando, muito fortes e muito católicos, por quem Deus operou grandes feitos sôbre a terra e sôbre o mar.{265}

JOSE MATIAS

Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o entêrro do José Matias—do José Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu amigo certamente o conheceu—um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode crespo de paladino sôbre uma bôca indecisa de contemplativo, déstro cavaleiro, duma elegância sóbria e fina. E espírito curioso, muito afeiçoado às ideas gerais, tam penetrante que compreendeu a minha Defesa da Filosofia Hegeliana! Esta imagem do José Matias data de 1865: porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da rua de S. Bento, tiritava dentro duma quinzena côr de mel, roída nos cotovelos, e cheirava abominavelmente a aguardente.{266}

Mas o meu amigo, numa ocasião que o José Matias parou em Coímbra, recolhendo do Pôrto, ceou com êle, no Paço do Conde! Até o Craveiro, que preparava as Ironias e Dores de Satan, para acirrar mais a briga entre a Escola Purista e a Escola Satânica, recitou aquele seu soneto, de tam fúnebre idealismo: Na jaula do meu peito, o coração... E ainda lembro o José Matias, com uma grande gravata de setim preto tufada entre o colete de linho branco, sem despegar os olhos das velas das serpentinas, sorrindo pálidamente àquele coração que rugia na sua jaula... Era uma noite de Abril, de lua cheia. Passeamos depois em bando, com guitarras, pela Ponte e pelo Choupal. O Januário cantou ardentemente as endechas românticas do nosso tempo:

Ontem de tarde, ao sol posto,
Contemplavas, silenciosa,
A torrente caudalosa
Que refervia a teus pés...

E o José Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos perdidos na lua!—¿Porque não acompanha o meu amigo êste môço interessante ao Cemitério dos Prazeres? Eu tenho uma tipóia, de praça e com número, como convêm a um Professor de filosofia... O quê! ¿Por causa das calças claras?{267} Oh! meu caro amigo! De todas as materializações da simpatia, nenhuma mais grosseiramente material do que a casimira preta. E o homem que nós vamos enterrar era um grande espiritualista!

Vem o caixão saíndo da Igreja... Apenas três carruagens para o acompanhar. Mas realmente, meu caro amigo, o José Matias morreu há seis anos, no seu puro brilho. Êsse, que aí levamos, meio decomposto, dentro de tábuas agaloadas de amarelo, é um resto de bêbedo, sem história e sem nome, que o frio de Fevereiro matou no vão dum portal.

¿O sujeito de óculos de oiro, dentro do copé?... Não conheço, meu amigo. Talvez um parente rico, dêsses que aparecem nos enterros, com o parentesco correctamente coberto de fumo, quando o defunto já não importuna, nem compromete. O homem obeso de carão amarelo, dentro da vitória, é o Alves Capão, que tem um jornal onde desgraçadamente a Filosofia não abunda, e que se chama a Piada. ¿Que relações o prendiam ao Matias?... Não sei. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas; talvez o José Matias últimamente colaborasse na Piada; talvez debaixo daquela gordura e daquela literatura, ambas tam sórdidas, se abrigue uma alma compassiva. Agora é a nossa tipóia... ¿Quer que desça a vidraça? Um cigarro?... Eu trago{268} fósforos. Pois êste José Matias foi um homem desconsolador para quem, como eu, na vida ama a evolução lógica e pretende que a espiga nasça coerentemente do grão. Em Coímbra sempre o consideramos como uma alma escandalosamente banal. Para êste juizo concorria talvez a sua horrenda correcção. Nunca um rasgão brilhante na batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um pêlo rebelde do cabelo ou do bigode fugindo daquele rígido alinho que nos desolava! Alêm disso, na nossa ardente geração, êle foi o único intelectual que não rugiu com as misérias da Polónia; que leu sem palidez ou pranto as Contemplações; que permaneceu insensível ante a ferida de Garibaldi! E todavia, nesse José Matias, nenhuma secura ou dureza ou egoismo ou desafabilidade! Pelo contrário! Um suave camarada, sempre cordial, e mansamente risonho. Toda a sua inabalável quietação parecia provir duma imensa superficialidade sentimental. E, nesse tempo, não foi sem razão e propriedade que nós alcunhamos aquele môço tam macio, tam louro e tam ligeiro, de Matias-Coração-de-Esquilo. Quando se formou, como lhe morrera o pai, depois a mãe, delicada e linda senhora de quem herdara cincoenta contos, partiu para Lisboa, alegrar a solidão dum tio que o adorava, o general Visconde de Garmilde. O meu{269} amigo sem dúvida se lembra dessa perfeita estampa de general clássico, sempre de bigodes terríficamente encerados, as calças côr de flor de alecrim desesperadamente esticadas pelas presilhas sôbre as botas coruscantes, e o chicote debaixo do braço com a ponta a tremer, ávida de vergastar o Mundo! Guerreiro grotesco e deliciosamente bom... O Garmilde morava então em Arroios, numa casa antiga de azulejos, com um jardim, onde êle cultivava apaixonadamente canteiros soberbos de dálias. Êsse jardim subia muito suavemente até ao muro coberto de hera que o separava de outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos Miranda, cuja casa, com um arejado terraço entre dois torreõsinhos amarelos, se erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da «Parreira». O meu amigo conhece (pelo menos de tradição, como se conhece Helena de Troia ou Inês de Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da Parreira... Foi a sublime beleza romântica de Lisboa, nos fins da Regeneração. Mas realmente Lisboa apenas a entrevia pelos vidros da sua grande caleche, ou nalguma noite de iluminação do Passeio Público entre a poeira e a turba, ou nos dois bailes da Assembleia do Carmo de que o Matos Miranda era um director venerado. Por gôsto borralheiro de provinciana, ou por pertencer{270} àquela burguesia séria que nesses tempos, em Lisboa, ainda conservava os antigos hábitos severamente encerrados, ou por imposição paternal do marido, já diabético e com sessenta anos—a Deusa raramente emergia de Arroios e se mostrava aos mortais. Mas quem a viu, e com facilidade constante, quási irremediavelmente, logo que se instalou em Lisboa, foi o José Matias—porque, jazendo o palacete do general na falda da colina, aos pés do jardim e da casa da Parreira, não podia a divina Elisa assomar a uma janela, atravessar o terraço, colhêr uma rosa entre as ruas de buxo, sem ser deliciosamente visível, tanto mais que nos dois jardins assoalhados nenhuma árvore espalhava a cortina da sua rama densa. O meu amigo de-certo trauteou, como todos trauteamos, aqueles versos gastos, mas imortais:

Era no outono, quando a imagem tua
Á luz da lua...

Pois, como nessa estrofe, o pobre José Matias, ao regressar da praia da Ericeira em outubro, no outono, avistou Elisa Miranda, uma noite no terraço, à luz da lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo de encanto Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da palmeira{271} ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líquidos, quebrados, tristes, de longas pestanas... Ah! meu amigo, até eu, que já então laboriosamente anotava Hegel, depois de a encontrar numa tarde de chuva esperando a carruagem à porta do Seixas, a adorei durante três exaltados dias e lhe rimei um soneto! Não sei se o José Matias lhe dedicou sonetos. Mas todos nós, seus amigos, percebemos logo o forte, profundo, absoluto amor que concebera, desde a noite de outono, à luz da lua, aquele coração, que em Coímbra considerávamos de esquilo!

Bem compreende que homem tam comedido e quieto não se exalou em suspiros públicos. Já, porêm, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e fumo não se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo a escapar, como o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa fechada que arde terrívelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei em Arroios, depois de voltar do Alentejo. Era um domingo de Julho. Êle ia jantar com uma tia-avó, uma D. Mafalda Noronha, que vivia em Bemfica, na quinta dos Cedros, onde habitualmente jantavam tambêm aos domingos o Matos Miranda e a divina Elisa. Creio mesmo que só nessa casa ela e o José Matias se encontravam,{272} sobretudo com as facilidades que oferecem pensativas alamedas e retiros de sombra. As janelas do quarto do José Matias abriam sôbre o seu jardim e sôbre o jardim dos Mirandas: e, quando entrei, êle ainda se vestia, lentamente. Nunca admirei, meu amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! Sorria iluminadamente quando me abraçou, com um sorriso que vinha das profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente emquanto eu lhe contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois estáticamente, aludindo ao calor e enrolando um cigarro distraído; e sorriu sempre, enlevado, a escolher na gaveta da cómoda, com escrúpulo religioso, uma gravata de sêda branca. E a cada momento, irresistivelmente, por um hábito já tam inconsciente como o pestanejar, os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam para as vidraças fechadas... De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso, logo descobri, no terraço da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de claro, com um chapéu branco, passeando preguiçosamente, calçando pensativamente as luvas, e espreitando tambêm as janelas do meu amigo, que um lampejo oblíquo do sol ofuscava de manchas de oiro. O José Matias no entanto conversava, antes murmurava, através do sorriso perene, coisas afáveis{273} e dispersas. Toda a sua atenção se concentrara diante do espelho, no alfinete de coral e pérola para prender a gravata, no colete branco que abotoava e ajustava com a devoção com que um padre novo, na exaltação cândida da primeira missa, se reveste da estola e do amito para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com tam profundo êxtasi, água de Colónia no lenço! E depois de enfiar a sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inefável emoção, sem reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as vidraças! Introibo ad altarem Deæ! Eu permaneci discretamente enterrado no sofá. E, meu caro amigo, acredite! invejei aquele homem à janela, imóvel, hirto na sua adoração sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, na branca mulher calçando as luvas claras, e tam indiferente ao Mundo como se o Mundo fôsse apenas o ladrilho que ela pisava e cobria com os pés!

E êste enlêvo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, distante e imaterial! Não ria... De-certo se encontravam na quinta de D. Mafalda: de-certo se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca, por cima das heras dêsse muro, procuraram a rara delícia duma conversa roubada ou a delícia ainda mais perfeita dum silêncio{274} escondido na sombra. E nunca trocaram um beijo... Não duvide! Algum apêrto de mão fugidio e sôfrego, sob os arvoredos da D. Mafalda, foi o limite exaltadamente extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo não compreende como se mantiveram assim dois frágeis corpos, durante dez anos, em tam terrível e mórbido renunciamento... Sim, de-certo lhes faltou, para se perderem, uma hora de segurança ou uma portinha no muro. Depois a divina Elisa vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram formados pelos hábitos rígidamente reclusos do Matos Miranda, diabético e tristonho. Mas, na castidade dêste amor, entrou muita nobreza moral e finura superior de sentimento. O amor espiritualiza o homem—e materializa a mulher. Essa espiritualização era fácil ao José Matias, que (sem nós desconfiarmos) nascera desvairadamente espiritualista; mas a humana Elisa encontrou tambêm um gôzo delicado nessa ideal adoração de monge, que nem ousa roçar, com os dedos trémulos e embrulhados no rozário, a túnica da Virgem sublimada. Êle, sim! êle gozou nesse amor transcendentemente desmaterializado um encanto sobreumano. E durante dez anos, como o Ruy-Blas do vélho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado, dentro do seu sonho radiante, sonho em que{275} Elisa habitou realmente dentro da sua alma, numa fusão tam absoluta que se tornou consubstancial com o seu ser! ¿Acreditará o meu amigo que êle abandonou o charuto, mesmo passeando solitariamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo que descobrira na quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava Elisa?

E esta presença real da divina criatura no seu ser criou no José Matias modos novos, estranhos, derivando da alucinação. Como o Visconde de Garmilde jantava cedo, à hora vernácula do Portugal antigo, José Matias ceava, depois de S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Café Central, onde o linguado parecia frito no céu, e o Colares no céu engarrafado. Pois nunca ceava sem serpentinas profusamente acesas e a mesa juncada de flores. Porque? Porque Elisa tambêm ali ceava invisível. Daí êsses silêncios banhados num sorriso religiosamente atento... Porque? Porque a estava sempre escutando! Ainda me lembro dêle arrancar do quarto três gravuras clássicas de Faunos ousados e Ninfas rendidas... Elisa pairava idealmente naquele ambiente; e êle purificava as paredes, que mandou forrar de sêdas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo amor de tam elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o luxo que ela partilhava. Decentemente não podia andar{276} com a imagem de Elisa numa tipóia de praça, nem consentir que a augusta imagem roçasse pelas cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto, carruagens dum gôsto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera, onde instalou, para ela, uma poltrona pontifical, de setim branco, bordado a êstrelas de oiro.

Alêm disso como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou congénere e suntuosamente generoso: e ninguêm existiu então em Lisboa que espalhasse, com facilidade mais risonha, notas de cem mil réis. Assim desbaratou, rápidamente, sessenta contos com o amor daquela mulher a quem nunca déra uma flor!

¿E, durante êsse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda não desmanchava nem a perfeição, nem a quietação desta felicidade! ¿Tam absoluto seria o espiritualismo do José Matias que apenas se interessasse pela alma de Elisa, indiferente às submissões do seu corpo, invólucro inferior e mortal?... Não sei. Verdade seja! aquele digno diabético, tam grave, sempre de cachené de lã escura, com as suas suíças grisalhas, os seus ponderosos óculos de oiro, não sugeria ideas inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e involuntariamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi,{277} eu, Filósofo, aquela consideração, quási carinhosa, do José Matias pelo homem que, mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume, contemplar Elisa desapertando as fitas da saia branca!... ¿Haveria ali reconhecimento por o Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal (onde José Matias nunca a descortinaria) aquela divina mulher, e por a manter em confôrto, sólidamente nutrida, finamente vestida, transportada em caleches de macias molas? ¿Ou recebera o José Matias aquela costumada confidência—«não sou tua, nem dêle»—que tanto consola do sacrifício porque tanto lisonjeia o egoismo?... Não sei. Mas com certeza, êste seu magnânimo desdêm pela presença corporal do Miranda no templo, onde habitava a sua Deusa, dava à felicidade de José Matias uma unidade perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha, igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu amigo, durou dez anos... Que escandaloso luxo para um mortal!

Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já debilitado pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas ruas, numa pachorrenta tipóia de praça, acompanhei o seu entêrro numeroso, rico, com Ministros,{278} porque o Miranda pertencia às Instituições. E depois, aproveitando a tipóia, visitei o José Matias em Arroios, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar felicitações indecentes, mas para que, naquele lance deslumbrador, êle sentisse ao lado a fôrça moderadora da Filosofia... Encontrei porêm com êle um amigo mais antigo e confidencial, aquele brilhante Nicolau da Barca, que já conduzi tambêm a êste cemitério, onde agora jazem, debaixo de lápides, todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens... O Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santarêm, de madrugada, reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado arranjava duas malas enormes. O José Matias abalava nessa noite para o Pôrto. Já envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de couro amarelo: e depois de me sacudir a mão, emquanto o Nicolau remexia um grog, continuou vagando pelo quarto, calado, como embaçado, com um modo que não era emoção, nem alegria púdicamente disfarçada, nem surprêsa do seu destino bruscamente sublimado. Não! se o bom Darwin nos não ilude no seu livro da Expressão das Emoções, o José Matias, nessa tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em frente, na casa da Parreira, todas as janelas permaneciam{279} fechadas sob a tristeza da tarde cinzenta. E todavia surpreendi o José Matias atirando para o terraço, rápidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade, quasi terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal segura onde se agita uma leôa! Num momento em que êle entrara na alcova, murmurei ao Nicolau, por cima do grog:—«O Matias faz perfeitamente em ir para o Pôrto...» Nicolau encolheu os ombros:—«Sim, pensou que era mais delicado... Eu aprovei. Mas só durante os meses de luto pesado...» Às sete horas acompanhamos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. Na volta, dentro do copé que uma grande chuva batia, filosofamos. Eu sorria contente:—«Um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos... É um poema acabado!»—O Nicolau acudiu sério:—«E acabado numa deliciosa e suculenta prosa. A divina Elisa fica com toda a sua divindade e a fortuna do Miranda, uns dez ou dôze contos de renda... Pela primeira vez na nossa vida contemplamos, tu e eu, a virtude recompensada!»

 

 

Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e José Matias não se arredou do Pôrto. Nesse Agosto o encontrei{280} eu instalado fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a melancolia dos dias abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo romances de Júlio Verne, e bebendo cerveja gelada até que a tarde refrescava e êle se vestia, se perfumava, se floria para jantar na Foz.

E a-pesar de se acercar o bemdito remate do luto e da desesperada espera, não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido, nem revolta contra a lentidão do tempo, vélho por vezes tam moroso e trôpego... Pelo contrário! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses anos o iluminara com um nimbo de beatitude, sucedera a seriedade carregada, toda em sombra e rugas, de quem se debate numa dúvida irresolúvel, sempre presente, roedora e dolorosa. ¿Quer que lhe diga? Nesse verão, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o José Matias, a cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca cerveja, mesmo calçando as luvas ao entrar para a caleche que o levava à Foz, angustiadamente perguntava à sua consciência:—«Que hei-de fazer? Que hei-de fazer?»—E depois, uma manhã, ao almôço, realmente me assombrou, exclamando ao abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: «O quê! Já são 29 de Agosto? Santo Deus... Já o fim de Agosto!...»{281}

Voltei a Lisboa, meu amigo. O inverno passou, muito sêco e muito azul. Eu trabalhei nas minhas Origens do Utilitarismo. Um domingo, no Rocio, quando já se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum copé a divina Elisa, com plumas roxas no chapéu. E nessa semana encontrei no meu Diário Ilustrado a notícia curta, quási tímida, do casamento da Snr.ª D. Elisa Miranda... ¿Com quem, meu amigo?—Com o conhecido propriétário, o Snr. Francisco Tôrres Nogueira!...

O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa espantado. Eu tambêm cerrei os punhos ambos, mas para os levantar ao Céu onde se julgam os feitos da Terra, e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a inconstância ondeante e pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, e daquela especial Elisa cheia de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à pressa, atabalhoadamente, apenas findara o luto negro, aquele nobre, puro, intelectual Matias! e o seu amor de dez anos, submisso e sublime!...

E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça, gritando:—«Mas porquê? porquê?»—Por amor? Durante anos ela amara enlevadamente êste môço, e dum amor que se não desiludira nem se fartara, porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por ambição? Tôrres Nogueira era{282} um ocioso amável como José Matias, e possuia em vinhas hipotecadas os mesmos cincoenta ou sessenta contos que o José Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres. Então porquê? Certamente porque os grossos bigodes negros do Tôrres Nogueira apeteciam mais à sua carne, do que o buço louro e pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S. João Crisólogo que a mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno!

Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do Alecrim o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipóia, me empurra para um portal, agarra excitadamente no meu pobre braço, e exclama engasgado:—«Já sabes? Foi o José Matias que recusou! Ela escreveu, esteve no Pôrto, chorou... Êle nem consentiu em a ver! Não quis casar, não quer casar!» Fiquei trespassado.—«E então ela...»—«Despeitada, fortemente cercada pelo Tôrres, cansada da viuvice, com aqueles bélos trinta anos em botão, que diabo! coitada, casou!» Eu ergui os braços até a abóbada do pátio:—«¿Mas então êsse sublime amor do José Matias?». O Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança:—«É o mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas não quer casar!»—Ambos nos olhamos, e depois ambos nos separamos, encolhendo{283} os ombros, com aquele assombro resignado que convêm a espíritos prudentes perante o Incognoscível. Mas eu, Filósofo, e portanto espírito imprudente, toda essa noite esfuraquei o acto do José Matias com a ponta duma Psicologia que expressamente aguçara:—e já de madrugada, estafado, concluí, como se conclui sempre em Filosofia, que me encontrava diante duma Causa Primária, portanto impenetrável, onde se quebraria, sem vantagem para êle, para mim, ou para o Mundo, a ponta do meu Instrumento!

Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu Tôrres Nogueira, no confôrto e sossêgo que já gozara com o seu Matos Miranda. No meado do verão José Matias recolheu do Pôrto a Arroios, ao casarão do tio Garmilde, onde reocupou os seus antigos quartos, com as varandas para o jardim, já florido de dálias que ninguêm tratava. Veio Agosto, como sempre em Lisboa silencioso e quente. Aos domingos José Matias jantava com D. Mafalda de Noronha, em Bemfica, solitariamente—porque o Tôrres Nogueira não conhecia aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. A divina Elisa, com vestidos claros, passeava à tarde no jardim entre as roseiras. De sorte que a única mudança, naquele doce canto de Arroios, parecia ser o Matos Miranda no seu{284} belo jazigo dos Prazeres, todo de mármore—e o Tôrres Nogueira no leito excelente de Elisa.

Havia, porêm, uma tremenda e dolorosa mudança—a do José Matias! ¿Adivinha o meu amigo como êsse desgraçado consumia os seus estéreis dias? Com os olhos, e a memória, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, nas janelas, nos jardins da Parreira! Mas agora não era de vidraças largamente abertas, em aberto êxtasi, com o sorriso de segura beatitude: era por trás das cortinas fechadas, através duma escassa fenda, escondido, surripiando furtivamente os brancos sulcos do vestido branco, com a face toda devastada pela angústia e pela derrota. ¿E compreende porque sofria assim, êste pobre coração? Certamente porque Elisa, desdenhada pelos seus braços fechados, correra logo, sem luta, sem escrúpulos, para outros braços, mais acessíveis e prontos... Não, meu amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. O José Matias permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da sua alma, nesse sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições das conveniências, nem as decisões da razão pura, nem os ímpetos do orgulho, nem as emoções da carne—o amava, a êle, únicamente a êle, e com um amor que não deperecera, não se alterara, floria em todo{285} o seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado, como a antiga Rosa Mística! O que o torturava, meu amigo, o que lhe cavara longas rugas em curtos meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse apoderado daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais socialmente puro, sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado, lambuzasse com os rijos bigodes negros, à farta, os divinos lábios que êle nunca ousara roçar, na supersticiosa reverência e quási no terror da sua divindade! Como lhe direi?... O sentimento dêste extraordinário Matias era o de um monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente enlêvo—quando de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue obscenamente a túnica da Imagem! O meu amigo sorri... ¿E então o Matos Miranda? Ah! meu amigo! êsse era diabético, e grave, e obeso, e já existia instalado na Parreira, com a sua obesidade e a sua diabetes, quando êle conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e coração. E o Tôrres Nogueira, êsse, rompera brutalmente através do seu puríssimo amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque dum antigo pegador de toiros, e empolgara aquela mulher—a quem revelara talvez o que é um homem!

Mas, com os demónios! essa mulher êle{286} a recusara, quando ela se lhe oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdêm ainda ressequira ou abatera. Que quer?... É a espantosa tortuosidade espiritual dêste Matias! Ao cabo duns meses êle esquecera, positivamente esquecera essa recusa afrontosa, como se fôra um leve desencontro de interêsses materiais ou sociais, passado há meses, no Norte, e a que a distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura leve! E agora, aqui em Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas janelas e as rosas dos dois jardins unidos rescendendo na sombra, a dor presente, a dor real, era que êle amara sublimemente uma mulher, e que a colocara entre as estrêlas para mais pura adoração, e que um bruto moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher de entre as estrêlas e a arremessara para a cama!

¿Enredado caso, hein, meu amigo? Ah! muito filosofei sôbre êle, por dever de filósofo! E concluí que o Matias era um doente, atacado de hiper-espiritualismo, duma inflamação violenta e putrida do espiritualismo, que receara apavoradamente as materialidades do casamento, as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis meses, os meninos berrando no berço molhado... E agora rugia de furor e tormento, porque certo materialão, ao lado, se{287} prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. Um imbecil?... Não, meu amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às realidades fortes da vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos são coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor.

¿E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, êste tormento? É que a pobre Elisa mostrava por êle o antigo amor! Que lhe parece? Infernal, hein?... Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua essência, forte como outrora e único, conservava pelo pobre Matias uma irresistível curiosidade e repetia os gestos dêsse amor... Talvez fôsse apenas a fatalidade dos jardins vizinhos! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Tôrres Nogueira partiu para as suas vinhas de Carcavelos a assistir à vindima, ela recomeçou da borda do terraço, por sôbre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de doces olhares com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias.

Não creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o regímen paternal do Matos Miranda... O novo senhor, o homem robusto da bigodeira negra, impunha à divina Elisa, mesmo de longe, de entre as vinhas de Carcavelos, retraímento e prudência. E acalmada por aquele marido, môço e{288} forte, menos sentiria agora a necessidade de algum encontro discreto na sombra tépida da noite, mesmo quando a sua elegância moral e o rígido idealismo do José Matias consentissem em aproveitar uma escada contra o muro... De resto, Elisa era fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, por o sentir tam belo e cuidadosamente feito por Deus—mais do que da sua alma. E quem sabe?... Talvez a adorável mulher pertencesse à bela raça daquela marquesa italiana, a Marquesa Júlia de Malfieri, que conservava dois amorosos ao seu doce serviço, um poeta para as delicadezas românticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras.

Emfim, meu amigo, não psicologuemos mais sôbre esta viva, atrás do morto que morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensivelmente recaíram na vélha união ideal através dos jardins em flor. E em Outubro, como o Tôrres Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o José Matias, para contemplar o terraço da Parreira, já abria de novo as vidraças, larga e estáticamente!

Parece que um tam estreme espiritualista, reconquistando a idealidade do antigo amor, devia reentrar tambêm na antiga felicidade perfeita. Êle reinava na alma imortal de Elisa:—¿que importava que outro se ocupasse do seu corpo mortal? Mas não! o pobre môço{289} sofria, angustiadamente. E, para sacudir a pungência dêstes tormentos, findou, êle tam sereno, duma tam doce harmonia de modos, por se tornar um agitado. Ah! meu amigo, que redemoínho e estrépito de vida! Desesperadamente, durante um ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! São dêsse tempo algumas das suas extravagâncias lendárias... ¿Conhece a da ceia?... Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro-Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancólicamente, posto na frente, sôbre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do sol!

Mas todo êste alarido não lhe dissipou a dor—e foi então que, nesse inverno, começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa (certamente por trás das vidraças, agora que Tôrres Nogueira regressara das vinhas) com olhos e alma cravados no terraço fatal; depois à noite, quando as janelas de Elisa se apagavam, saía numa tipóia, sempre a mesma, a tipóia do Gago, corria à roleta do Bravo, depois ao club do «Cavalheiro», onde jogava frenéticamente até a tardia hora de cear, num gabinete de restaurante, com molhos de velas acesas, e o Colares, e o Champanhe,{290} e o Conhaque correndo em jorros desesperados.

E esta vida, espicaçada pelas Fúrias, durou anos, sete anos! Todas as terras que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e bebidas: e só lhe restava o casarão de Arroios e o dinheiro apressado porque o hipotecara. Mas, súbitamente, desapareceu de todos os antros do vinho e de jôgo. E soubemos que o Tôrres Nogueira estava morrendo com uma anasarca!

Por êsse tempo, e por causa dum negócio do Nicolau da Barca que me telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santarêm (negócio embrulhado, duma letra) procurei o José Matias em Arroios, às dez horas, numa noite quente de Abril. O criado, emquanto me conduzia pelo corredor mal alumiado, já desadornado das ricas arcas e talhas da Índia do vélho Garmilde, confessou que S. Ex.ª não acabara de jantar... E ainda me lembro, com um arrepio, da impressão desolada que me deu o desgraçado! Era no quarto que abria sôbre os dois jardins. Diante duma janela, que as cortinas de damasco cerravam, a mesa resplandecia, com duas serpentinas, um cêsto de rosas brancas, e algumas das nobres pratas do Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o colete branco desabotoado, a face lívida descaída sôbre o peito, um copo vazio na mão{291} inerte, o José Matias parecia adormecido ou morto.

Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabeça, toda despenteada:—«¿Que horas são?»—Apenas lhe gritei, num gesto alegre, para o despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o copo, da garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com a mão a tremer, a tremer... Depois, arredando os cabelos da testa húmida:—«¿Então que há de novo?»—Esgazeado, sem compreender, escutou, como num sonho, o recado que lhe mandava o Nicolau. Por fim, com um suspiro, remexeu uma garrafa de Champanhe dentro do balde em que ela gelava, encheu outro copo, murmurando:—«Um calor... Uma sêde!...» Mas não bebeu: arrancou o corpo pesado à poltrona de vêrga, e forçou os passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as cortinas, depois a vidraça... E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e escuro sossêgo da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à aragem. E essa claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roupão branco, parada à beira do terraço, como esquecida numa contemplação. Era Elisa, meu amigo! Por trás, no fundo do quarto claro, o marido certamente arquejava, na opressão{292} da anasarca. Ela, imóvel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miserável, fascinado, sem respirar, sorvia o encanto daquela visão bemfazeja. E entre êles rescendiam, na moleza da noite, todas as flores dos dois jardins... Súbitamente Elisa recolheu, à pressa, chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Tôrres. E as janelas logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.

Então José Matias, com um soluço despedaçado, de transbordante tormento, cambaleou, tam ansiadamente se agarrou à cortina que a rasgou, e tombou desamparado nos braços que lhe estendi, e em que o arrastei para a cadeira, pesadamente, como a um morto ou a um bêbado. Mas, volvido um momento, com espanto meu, o extraordinário homem descerra os olhos, sorri num lento e inerte sorriso, murmura quási serenamente:—«É o calor... Está um calor! ¿Você não quer tomar chá?»

Recusei e abalei—emquanto êle, indiferente à minha fuga, estendido na poltrona, acendia trémulamente um imenso charuto.

 

 

Santo Deus! já estamos em Santa Isabel! Como êstes lagóias vão arrastando depressa o pobre José Matias para o pó e para o verme{293} final! Pois, meu amigo, depois dessa curiosa noite, o Tôrres Nogueira morreu. A divina Elisa, durante o novo luto, recolheu à quinta duma cunhada tambêm viuva, à «Côrte Moreira», ao pé de Beja. E o José Matias inteiramente se sumiu, se evaporou, sem que me revoassem novas dêle, mesmo incertas—tanto mais que o íntimo por quem as conheceria, o nosso brilhante Nicolau da Barca, partira para a ilha da Madeira, com o seu derradeiro pedaço de pulmão, sem esperança, por dever clássico, quási dever social, de tísico.