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Chapter 5: NO MOINHO
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About This Book

The volume gathers short narratives that range from terse sketches to longer novellas, using realist description and satirical irony to examine interpersonal relations, social manners and private obsessions. Scenes shift between intimate domestic episodes, travel impressions and moral dilemmas, relying on vivid landscapes, careful psychological observation and wry humor. Several pieces expand earlier sketches into broader meditations on modern life, combining polished prose, critical social portraiture and moments of melancholy.

UM POETA LÍRICO

Aqui está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é êste, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing-Cross, uma madrugada regelada de dezembro. Tinha eu chegado do continente, prostrado por duas horas de Canal da Mancha... Ah! que mar! E era só uma brisa fresca de Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma capa de oleado de que um marujo me tinha coberto, como se cobre um corpo morto, fustigado da neve e da vaga, oprimido por aquela treva tumultuosa que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontrões—parecia-me um tufão dos mares da China...{44}

Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogão do perístilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala estava adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa escarlate... E foi então que vi aquela figura esguia e longa, já de casaca e gravata branca, que do outro lado da chaminé, de pé, com a taciturna tristeza duma cegonha que scisma, olhava tambêm os carvões ardentes, com um guardanapo no braço. Mas o porteiro tinha rolado a minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao bureau. A guarda-livros, tesa e loura, com um perfil antiquado de medalha safada, pousou o seu crochet ao lado da sua chávena de chá, acariciou com um gesto doce os dois bandós louros, assentou correctamente o meu nome, de dedinho no ar, fazendo rebrilhar um diamante, e eu ia subir a vasta escadaria,—quando a figura magra e fatal se dobrou num ângulo, e murmurou-me num inglês silabado:

—Já está servido o almôço das sete...

Mas eu não queria o almôço das sete. Fui dormir.

Mais tarde, já repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante para o lunch, avistei logo, plantado melancólicamente ao pé da larga janela, o indivíduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz parda; os fogões flamejavam; e fóra, no silêncio do domingo,{45} nas ruas mudas, a neve caía sem cessar dum ceu amarelento e baço. Eu via apenas as costas do homem; mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma expressão tam evidente de desalento, que me interessei por aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, caído sôbre a gola da casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua magreza friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na sensação daquele silêncio lívido... Chamei-o. Quando êle se voltou, a sua fisionomia, que apenas entrevira na véspera, impressionou-me: era um carão longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e frisada, uma barba de Cristo em estampa romântica; a testa era destas que, em boa literatura, se chama, creio eu, fronte; era larga e era lustrosa. Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho nadando num fluido enternecido... E que magreza! quando andava, a calça curta torcia-se em tôrno da canela como pregas de bandeira em tôrno dum mastro: a casaca tinha dobras de túnica ampla; as duas abas compridas e agudas eram desgraçadamente grotescas. Recebeu a ordem do meu almôço, sem me olhar, num tédio resignado: arrastou-se para o comptoir onde o maître de hotel lia a Bíblia, passou a mão pela testa com um gesto errante e dolente, e disse-lhe numa voz surda:{46}

—Nùmero 307. Duas costeletas. Chá...

O maître de hotel afastou a Bíblia, inscreveu o menu—e eu acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para almoçar comigo—porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem jornais e sem pão fresco. Fóra continuava a nevar sôbre a cidade muda. A uma mesa distante, um vélho côr de tijolo e todo branco de cabelo e de suíças, que acabara de almoçar, dormitava de mãos no ventre, bôca aberta, e luneta na ponta do nariz. E o único som vinha da rua, uma voz gemente que a neve abafava mais, uma voz pedinte que à esquina defronte garganteava um psalmo... Um domingo de Londres.

Foi o magro que me trouxe o almôço—e apenas êle se aproximou, com o serviço do chá, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas mãos o tinha interessado e impressionado: foi um olhar rápido, gulosamente fixado na página aberta, um estremecimento quási imperceptível,—emoção fugitiva, de-certo, porque depois de ter pousado o serviço, rodou sôbre os calcanhares e foi plantar-se, melancólicamente, à janela, de ôlho triste e posto na neve triste. Eu atribuí aquele movimento curioso ao esplendor da encadernação do volume, que eram os Idílios de El-Rei, em marroquim negro, com o escudo de armas de Lançarote do Lago—o pelicano de oiro sôbre um mar de sinopla.{47}

Nessa noite parti no expresso para a Escócia, e ainda não tinha passado York, adormecida na sua gravidade episcopal, já me esquecera o criado romanesco do restaurante de Charing-Cross. Foi só daí a um mês, ao voltar a Londres, que entrando no restaurante, e revendo aquela figura lenta e fatal atravessar com um prato de roast-beef numa das mãos e na outra um puding de batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa noite mesmo, tive a singular felicidade de saber o seu nome e de entrever um fragmento do seu passado. Era já tarde e eu voltava do Covent-Garden, quando no perístilo do hotel encontrei, majestoso e próspero, o meu amigo Bracolletti.

¿Não conhecem Bracolletti? A sua presença é formidável; tem a amplidão pançuda, o negro cerrado da barba, a lentidão, o cerimonial dum pachá gordo; mas esta ponderosa gravidade turca é temperada, em Bracolletti, pelo sorriso e pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar o dos animais da Síria: é o mesmo enternecimento. Parece errar no seu fluido macio a religiosidade meiga das raças que dão os Messias... Mas o sorriso! O sorriso de Bracolletti é a mais complexa, a mais perfeita, a mais rica das expressões humanas; há finura, inocência, bonomia, abandono, ironia doce, persuasão, naqueles dois lábios que se descerram e que deixam brilhar um esmalte de dentes{48} de virgem... Ah! mas tambêm êste sorriso é a fortuna de Bracolletti.

Moralmente, Bracolletti é um hábil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; é tudo o que êle revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu passado, o bom grego rola um momento a cabeça de ombro a ombro, esconde sob as palpebras cerradas com bonomia o seu ôlho maometano, desabrocha o sorriso duma doçura de tentar abelhas, e murmura, como afogado em bondade e em enternecimento:

Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu!...

Nada mais. Parece, porêm, que viajou,—porque conhece o Perú, a Crimeia, o Cabo da Boa-Esperança, os países exóticos—tam bem como Regent-Street: mas é evidente para todos que a sua existência não foi tecida, como a dos vulgares aventureiros do Levante, de oiro e estôpa, de esplendores e pelintrices: é um gordo e, portanto, um prudente: o seu magnífico solitário nunca deixou de lhe brilhar no dedo: nenhum frio jàmais o surpreendeu sem uma pelissa de dois mil francos: e nunca deixa de ganhar, todas as semanas, no Fraternal Club, de que é um membro querido, dez libras ao whist. É um forte.

Mas tem uma debilidade. É singularmente guloso de rapariguinhas de dôze a catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o hábito de praguejar. Coleciona-as{49} pelos bairros pobres de Londres, com método. Instala-as em casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola, metendo-lhes a papinha no bico, ouvindo-as palrar todo baboso, animando-as a que lhe roubem os shillings da algibeira, gozando o desenvolvimento dos vícios naquelas flores, pondo-lhes ao alcance as garrafas de gin para que os anjinhos se embebedem;—e quando alguma, excitada de álcool, de cabelo ao vento e face acesa, o injuría, o arrepela, baba obscenidades,—o bom Bracolletti, encruzado no sofá, de mãos beatamente cruzadas na pança, o olhar afogado em êxtase, murmura no seu italiano da costa síria.

Piccolina! Gentilleta!

Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer, que o abracei, nessa noite, em Charing-Cross: e como nos não víamos há muito, fomos cear juntos ao restaurante. O criado triste lá estava no seu comptoir, curvado sôbre o Journal des Debats. E apenas Bracolletti apareceu, na sua majestade de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a mão; foi um shake-hands solene, enternecido e sincero.

Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguidão. Quis primeiro o nome do homem.

—Chama-se Korriscosso—disse-me Bracolletti, grave.{50}

Quis depois a sua história. Mas Bracolletti, como os deuses da Ática que, nos seus embaraços no mundo, se recolhiam à sua nuvem, Bracolletti refugiou-se na sua vaga reticência.

Eh! mon Dieu!... Eh! mon Dieu!...

—Não, não, Bracolletti. Vejâmos. Quero-lhe a história... Aquela face fatal e baironeana deve ter uma história...

Bracolletti então tomou todo o ar cândido que lhe permitem a sua pança e as suas barbas—e confessou-me, deixando cair as frases às gotas, que tinham viajado ambos na Bulgária e no Montenegro... Korriscosso foi seu secretário... Boa letra... Tempos difíceis... Eh! mon Dieu!...

—De onde é êle?

Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz com um gesto repassado de desconsideração:

—É um grego de Atenas.

O meu interesse sumiu-se como a água que a areia absorve. Quando se tem viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se fácilmente o hábito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se vêem, sobretudo tendo uma educação universitária e clássica, o entusiasmo acende-se um pouco, pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas glórias duma raça estética e livre, e perfilam-se na imaginação as linhas augustas do Pártenon.{51} Mas, depois de os ter freqùentado, às mesas redondas e nos tombadilhos das Messageries, e principalmente depois de ter escutado a lenda de velhacaria que êles tem deixado desde Esmirna até Túnis, os outros que se vêem provocam, apenas, êstes movimentos: abotoar rápidamente o casaco, cruzar fortemente os braços sôbre a cadeia do relógio, e aguçar o intelecto para rechassar a escroquerie. A causa desta reputação funesta é que a gente grega, que emigra para as escalas do Levante, é uma plebe torpe, parte pirata e parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que apenas soube Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de Tennyson, na minha última estada em Charing-Cross, me desaparecera do quarto, e recordei o olhar de gula e de prêsa que cravara nele Korriscosso... Era um bandido!

E durante a ceia não falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro criado, rubro, honesto e são. O lúgubre Korriscosso não se afastou do comptoir abismado no Journal des Debats.

Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi... O hotel estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de Charing-Cross, numa complicação de corredores, escadas, recantos, ângulos, onde é quási necessário roteiro e bússola.{52}

De castiçal na mão, penetrei num passadiço onde corria um bafo morno de viela mal arejada. As portas aí não tinham números, mas pequenos cartões colados onde estavam inscritos nomes: John Smith, Charlie, Willie... Emfim, eram evidentemente as habitações dos criados. De uma porta aberta saía a claridade de um bico de gás; adiantei-me, e vi logo Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de papeis, de testa pendida sôbre a mão, escrevendo.

—¿Pode-me indicar o caminho para o número 508?—balbuciei.

Êle ergueu para mim um olhar estremunhado e ennevoado; parecia ressurgir de muito longe, de um outro universo; batia as pálpebras, repetindo:

—508? 508?...

Foi então que eu avistei, sôbre a mesa, entre papeis, colarinhos sujos e um rosário—o meu volume de Tennyson! Êle viu o meu olhar, o bandido! e acusou-se todo numa vermelhidão que lhe inundou a face chupada. O meu primeiro movimento foi não reconhecer o livro: como era um movimento bom, e obedecendo logo à moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o; apontando o volume com um dedo severo, um dedo de Providência irritada, disse-lhe:

—É o meu Tennyson...{53}

Não sei que resposta êle tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado tambêm pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego sentimental, acrescentei num tom repassado de perdão e de justificação:

—¿Grande poeta, não é verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se entusiasmou...

Korriscosso corou mais: mas não era o despeito humilhado do salteador surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua inteligência, o seu gôsto poético adivinhados—e de ter no corpo a casaca coçada de criado de restaurante. Não respondeu. Mas as páginas do volume, que eu abri, responderam por êle; a brancura das margens largas desaparecia sob uma rêde de comentários a lápis: Sublime! Grandioso! Divino!—palavras lançadas numa letra convulsiva, num tremor de mão, agitada por uma sensibilidade vibrante...

No entanto, Korriscosso permanecia de pé, respeitoso, culpado, de cabeça baixa, com o laço da gravata branca fugindo para o cachaço. Pobre Korriscosso! Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas tristezas de dependência... Lembrei-me que nada impressiona o homem do Levante como um gesto de drama e de palco; estendi-lhe ambas as mãos num movimento à Talma, e disse-lhe:{54}

—Eu tambem sou poeta!...

Esta frase extraordinária pareceria grotesca e impudente a um homem do Norte; o levantino viu logo nela a expansão de uma alma irmã. ¿Porque, não lhes disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel, eram estrofes: era uma ode.

Daí a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua história—ou antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. É tam triste, que a condenso. De resto, havia na sua narração lacunas de anos;—e eu não posso reconstituir com lógica e seqùência a história dêste sentimental. Tudo é vago e suspeito. Nasceu com efeito em Atenas; seu pai parece que era carregador no Pireu. Aos 18 anos Korriscosso servia de criado a um médico, e nos intervalos do serviço freqùentava a Universidade de Atenas; estas coisas são freqùentes là-bas, como êle dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos difíceis, a ser um intérprete de hotel. Dêsse tempo datam as suas primeiras elégias num semanário lírico intitulado Ecos da Ática. A literatura levou-o directamente à política e às ambições parlamentares. Uma paixão, uma crise patética, um marido brutal, ameaças de morte, forçaram-no a expatriar-se. Viajou na Bulgária, foi em Salónica empregado numa sucursal do Banco Otomano, remeteu endechas{55} dolorosas a um jornal da província—a Trombeta da Argólida. Aqui há uma dessas lacunas, um buraco negro na sua história. Reaparece em Atenas, com fato novo, liberal e deputado.

Êste período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em evidência; a sua palavra colorida, poética, recamada de imagens engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como êle dizia, os terrenos mais áridos; duma discussão de imposto ou de viação fazia saltar éclogas de Teócrito. Em Atenas êste talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administração do Estado: o ministério, porêm, e com êle a maioria de que Korriscosso era o tenor querido, caíram, sumiram-se sem lógica constitucional, num dêstes súbitos desabamentos políticos tam comuns na Grécia, em que os governos se aluem, como as casas em Atenas—sem motivo. Falta de base, decrepitude de materiais e de individualidades... Tudo tende para o pó num solo de ruinas...

Nova lacuna, novo mergulho obscuro na história de Korriscosso...

Volta à superfície, membro de um club rèpublicano de Atenas, pede num jornal a emancipação da Polónia, e a Grécia governada por um concílio de génios. Publíca então os seus Suspiros da Trácia. Tem outro romance{56} de coração... E emfim—e isto disse-mo sem explicações—é obrigado a refugiar-se em Inglaterra. Depois de tentar em Londres várias posições, coloca-se no restaurant de Charing-Cross.

—É um pôrto de abrigo—disse-lhe eu, apertando-lhe a mão.

Êle sorriu com amargura. Era de-certo um pôrto de abrigo, e vantajoso. É bem alimentado; as gorgetas são razoáveis; tem um vélho colxão de molas,—mas as delicadezas da sua alma são, a todo o momento, dolorosamente feridas...

Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta lírico, forçado a distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glutões, costeletas e copos de cerveja! Não é a dependência que o aflige; a sua alma de grego não é particularmente ávida de liberdade, basta-lhe que o patrão seja cortês. E, como êle me disse, é-lhe grato reconhecer que os fregueses de Charing-Cross nunca lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer if you please; e quando saem, ao passar por êle, levam dois dedos à aba do chapéu: isto satisfaz a dignidade de Korriscosso.

Mas o que o tortura é o contacto constante com o alimento. Se êle fôsse um guarda-livros de um banqueiro, primeiro caixeiro de um armazêm de sêdas... Nisso há uma sombra de poesia—os milhões que se revolvem, as frotas{57} mercantes, a brutal fôrça do oiro, ou então dispôr ricamente os estofos, os cortes de sêda, fazer correr a luz nas ondulações dos moirés, dar ao veludo as molezas da linha e da prega... Mas num restaurante como se pode exercer o gôsto, a originalidade artística, o instinto da côr, do efeito, do drama—a partir nacos de roast-beef ou de presunto de York?!... Depois, como êle disse, dar a comer, fornecer alimento, é servir exclusivamente a pança, a tripa, a baixa necessidade material: no restaurante, o ventre é Deus: a alma fica fóra, com o chapéu que se pendura no cabide ou com o rôlo de jornais que se deixou no bôlso do paletot.

E as convivências, e a falta de conversação! Nunca se voltarem para êle senão para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os seus lábios, de onde pendia o parlamento de Atenas, senão para perguntar:—Mais pão? mais bife?—Esta privação de eloqùência é-lhe dolorosa.

Alêm disso o serviço impede-lhe o trabalho. Korriscosso compõe de memória; quatro passeios pelo quarto, um repelão ao cabelo, e a ode sai-lhe harmoniosa e doce.... Mas a interrupção glutona da voz do freguês, pedindo nutrição, é fatal a esta maneira de trabalhar. Às vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no braço, Korriscosso está fazendo uma elégia; são tudo luares, roupagens alvas de virgens pálidas,{58} horizontes celestes, flores de alma dolorida... É feliz; está remontado aos céus poéticos, nas planícies azuladas onde os sonhos acampam, galopando de estrêla em estrêla... De repente, uma grossa voz faminta berra dum canto:

—Bife e batatas!

Ai! as aladas fantasias batem o vôo como pombas espavoridas! E aí vem o infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e as abas da casaca balouçando, perguntar com o sorriso lívido:

—¿Passado ou meio crú?

Ah! é um amargo destino!

—¿Mas—perguntei-lhe eu—porque não deixa êste covil, êste templo do ventre?

Ele deixou pender a sua bela cabeça de poeta. E disse-me a razão que o prende: disse-ma, quási chorando nos meus braços, com o nó da gravata branca no cachaço: Korriscosso ama.

Ama uma Fanny, criada de todo o serviço em Charing-Cross. Ama-a desde o primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu lavando as escadas de pedra, com os braços roliços nus, e os cabelos louros, os fatais cabelos louros, dêste louro que entontece os meridionais, cabelos ricos, de um tom de cobre, dum tom de oiro mate, torcendo-se numa trança de deusa. E depois a carnação,{59} uma carnação de inglesa do Yorkshire—leite e rosas...

E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes—que passa a limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu vi quanto a paixão pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de linguagem, que lances de desespero, que gritos de alma dilacerada arremesados dali, daqueles altos de Charing-Cross, para a mudez do céu frio! É que Korriscosso tem ciumes. A desgraçada Fanny ignora aquele poeta a seu lado, aquele delicado, aquele sentimental, e ama um policeman. Ama um policeman, um colosso, um alcides, uma montanha de carne erriçada duma floresta de barbas, com o peito como o flanco de um couraçado, com pernas como fortalezas normandas. Êste Polifemo, como diz Korriscosso, tem, ordináriamente, serviço no Strand; e a pobre Fanny passa o seu dia a espreitá-lo de um postigo, dos altos do hotel.

Todas as suas economias as gasta em quartilhos de gin, de brandy, de genebra, que à noite lhe leva em copinhos debaixo do avental: mantem-no fiel pelo álcool; o monstro, plantado enormemente a uma esquina, recebe em silêncio o copo, atira-o de um golpe às fauces tenebrosas, arrota cavamente, passa a mão cabeluda pela barba de hércules, e segue taciturnamente, sem um obrigado, sem um amo-te, batendo o lagedo{60} com a vastidão das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o babosa... E talvez nesse momento, à outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo no nevoeiro um esguio relêvo de poste telegráfico, soluce com a face magra entre as mãos transparentes.

Pobre Korriscosso! Se êle ao menos a pudesse comover... Mas quê! Ela despreza-lhe o corpo de tísico triste: e a alma não lha compreende... Não que Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes, expressos em linguagem melodiosa. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elégias na sua língua materna... E Fanny não compreende grego... E Korriscosso é só um grande homem—em grego...

Quando desci ao meu quarto, deixei-o soluçando sôbre o catre. Tenho-o visto depois, outras vezes, ao passar em Londres. Está mais magro, mais fatal, mais mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo restaurante com a travessa do roast-beef, mais exaltado no seu lirismo... Sempre que êle me serve dou-lhe um shilling de gorgeta: e depois, ao retirar, aperto-lhe sinceramente a mão.{61}

NO MOINHO

D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como «uma senhora modêlo». O vélho Nunes, director do correio, sempre que se falava nela, dizia, acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva:

—É uma santa! É o que ela é!

A vila tinha quási orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loura, de perfil fino, a pele eburnea, e os olhos escuros de um tom de violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce. Morava ao fim da estrada, numa casa azul de três sacadas; e era, para a gente que às tardes ia fazer o giro até ao moinho, um encanto sempre novo vê-la por trás da vidraça, entre as cortinas de cassa, curvada sôbre a sua costura, vestida de preto, recolhida e séria. Poucas{62} vezes saía. O marido, mais vélho que ela, era um inválido, sempre de cama, inutilizado por uma doença de espinha; havia anos que não descia à rua; avistavam-no às vezes tambêm à janela murcho e trôpego, agarrado à bengala, encolhido na robe-de-chambre, com uma face macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de sêda enterrado melancólicamente até ao cachaço. Os filhos, duas rapariguitas e um rapaz, eram tambêm doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de tumores nas orelhas, chorões e tristonhos. A casa, interiormente, parecia lúgubre. Andava-se nas pontas dos pés, porque o senhor, na excitação nervosa que lhe davam as insónias, irritava-se com o menor rumor; havia sôbre as cómodas alguma garrafada da botica, alguma malga com papas de linhaça; as mesmas flores com que ela, no seu arranjo e no seu gôsto de frescura, ornava as mesas, depressa murchavam naquele ar abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes de ar; e era uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sôbre a orelha, ou a um canto do camapé, embrulhado em cobertores com uma amarelidão de hospital.

Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira, em casa dos pais, a sua existência fôra triste. A mãe era uma criatura desagradável e azêda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas batotas, já{63} vélho, sempre bêbedo, os dias que aparecia em casa passava-os à lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando para as cinzas. Todas as semanas desancava a mulher. E quando João Coutinho pediu Maria em casamento, a-pesar de doente já, ela aceitou, sem hesitação, quási com reconhecimento, para salvar o casebre da penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam tremer, rezar, em cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. Não amava o marido, de-certo; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fôsse pertencer ao Joãosinho Coutinho, que desde rapaz fôra sempre entrevado. O Coutinho, por morte do pai, ficára rico; e ela, acostumada por fim àquele marido rabugento, que passava o dia arrastando-se sombriamente da sala para a álcôva, ter-se-ia resignado, na sua natureza de enfermeira e de consoladora, se os filhos ao menos tivessem nascido sãos e robustos. Mas aquela família que lhe vinha com o sangue viciado, aquelas existências hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas mãos, a-pesar dos seus cuidados inquietos, acabrunhavam-na. Às vezes só, picando a sua costura, corriam-lhe as lágrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a, como uma névoa que lhe escurecia a alma.

Mas se o marido de dentro chamava desesperado,{64} ou um dos pequenos choramingava, lá limpava os olhos, lá aparecia com a sua bonita face tranqùila, com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um, indo animar o outro, feliz em ser boa. Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado. Nunca tivera desde casada uma curiosidade, um desejo, um capricho: nada a interessava na terra senão as horas dos remédios e o sono dos seus doentes. Todo o esfôrço lhe era fácil quando era para os contentar: a-pesar de fraca, passeava horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais impertinente, com as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta escura: durante as insónias do marido não dormia tambêm, sentada ao pé da cama, conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia caíndo em devoção. De manhã estava um pouco mais pálida, mas toda correcta no seu vestido preto, fresca, com os bandós bem lustrosos, fazendo-se bonita para ir dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua única distracção era à tarde sentar-se à janela com a sua costura, e a pequenada em roda, aninhada no chão, brincando tristemente. A mesma paizagem que ela via da janela era tam monótona como a sua vida: em baixo a estrada, depois uma ondulação de campos, uma terra magra plantada aqui e alêm de oliveiras e, erguendo-se ao fundo, uma colina{65} triste e nua, sem uma casa, uma árvore, um fumo de casal que pusesse naquela solidão de terreno pobre uma nota humana e viva.

Vendo-a assim tam resignada e tam sujeita, algumas senhoras da vila afirmavam que ela era beata: todavia ninguêm a avistava na igreja, a não ser ao domingo, com o pequerrucho mais vélho pela mão, todo pálido no seu vestido de veludo azul. Com efeito, a sua devoção limitava-se a esta missa todas as semanas. A sua casa ocupava-a muito para se deixar invadir pelas preocupações do céu: naquele dever de boa mãe, cumprido com amor, encontrava uma satisfação suficiente à sua sensibilidade; não necessitava adorar santos ou enternecer-se com Jesus. Instintivamente mesmo pensava que toda a afeição excessiva dada ao Pai do Céu, todo o tempo gasto em se arrastar pelo confessionário ou junto do oratório, seria uma diminuição cruel no seu cuidado de enfermeira: a sua maneira de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama, todo dependente dela, tendo-a só a ela, parecia-lhe ter mais direito ao seu fervor que o outro, pregado numa cruz, tendo para o amar toda uma humanidade pronta. Alêm disso, nunca tivera estas sentimentalidades de alma triste que levam à devoção. O seu longo hábito de dirigir uma casa de doentes, de ser ela o centro, a fôrça, o amparo daqueles inválidos,{66} tornára-a terna, mas pràtica: e assim era ela que administrava agora a casa do marido, com um bom senso que a afeição dirigira, uma solicitude de mãe próvida. Tais ocupações bastavam para entreter o seu dia: o marido, de resto, detestava visitas, o aspecto de caras saudáveis, as comiserações de cerimónia; e passavam-se meses sem que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha à família, a não ser a do Dr. Abílio—que a adorava, e que dizia dela com os olhos esgazeados:

—É uma fada! é uma fada...

 

 

Foi por isso grande a excitação na casa, quando João Coutinho recebeu uma carta de seu primo Adrião que lhe anunciava que em duas ou três semanas ia chegar à vila. Adrião era um homem célebre, e o marido de Maria da Piedade tinha naquele parente um orgulho enfático. Assinára mesmo um jornal de Lisboa, só para ver o seu nome nas locais e na crítica. Adrião era um romancista: e o seu último livro, Madalena, um estudo de mulher trabalhado a grande estilo, duma análise delicada e subtil, consagrara-o como um mestre. A sua fama, que chegara até à vila, num vago de legenda, apresentava-o como uma personalidade interessante, um herói de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e brilhante, destinado a uma{67} alta situação no Estado. Mas realmente na vila era sobretudo notável por ser primo do João Coutinho.

D. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita. Via já a sua casa em confusão com a presença do hóspede extraordinário. Depois a necessidade de fazer mais toilette, de alterar a hora do jantar, de conversar com um literato, e tantos outros esforços crueis!... E a brusca invasão daquele mundano, com as suas malas, o fumo do seu charuto, a sua alegria de são, na paz triste do seu hospital, dava-lhe a impressão apavorada duma profanação. Foi por isso um alívio, quási um reconhecimento, quando Adrião chegou, e muito simplesmente se instalou na antiga estalagem do tio André, à outra extremidade da vila. João Coutinho escandalizou-se: tinha já o quarto do hóspede preparado, com lençóis de rendas, uma colcha de damasco, pratas sôbre a cómoda, e queria-o todo para si, o primo, o homem célebre, o grande autor... Adrião porêm recusou:

—Eu tenho os meus hábitos, vocês teem os seus... ¿Não nos contrariemos, hein?... O que faço é vir cá jantar. De resto, não estou mal no tio André... Vejo da janela um moinho e uma reprêsa que são um quadrosinho delicioso... ¿E ficamos amigos, não é verdade?

Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele herói, aquele fascinador por quem choravam{68} mulheres, aquele poeta que os jornais glorificavam, era um sujeito extremamente simples,—muito menos complicado, menos espectaculoso que o filho do recebedor! Nem formoso era: e com o seu chapéu desabado sôbre uma face cheia e barbuda, a quinzena de flanela caíndo à larga num corpo robusto e pequeno, os seus sapatos enormes, parecia-lhe a ela um dos caçadores de aldeia que às vezes encontrava, quando de mês a mês ia visitar as fazendas do outro lado do rio. Alêm disso não fazia frases; e a primeira vez que veio jantar, falou apenas, com grande bonomia, dos seus negócios. Viera por êles. Da fortuna do pai, a única terra que não estava devorada, ou abominavelmente hipotecada, era a Curgossa, uma fazenda ao pé da vila, que andava alêm disso mal arrendada... O que êle desejava era vendê-la. Mas isso parecia-lhe a êle tam difícil, como fazer a Ilíada!... E lamentava sinceramente ver o primo ali, inútil sôbre uma cama, sem o poder ajudar nesses passos a dar com os proprietários da vila. Foi por isso, com grande alegria, que ouviu João Coutinho declarar-lhe que a mulher era uma administradora de primeira ordem, e hábil nestas questões como um antigo rábula!...

—Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso tudo... E na questão de preço, deixa-a a ela!...{69}

—Mas que superioridade, prima!—exclamou Adrião maravilhado.—Um anjo que entende de cifras!

Pela primeira vez na sua existência Maria da Piedade corou com a palavra dum homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo...

No outro dia foram ver a fazenda. Como ficava perto, e era um dia de março fresco e claro, partiram a pé. Ao princípio, acanhada por aquela companhia de um leão, a pobre senhora caminhava junto dêle com o ar de um pássaro assustado: a-pesar de êle ser tam simples, havia na sua figura enérgica e musculosa, no timbre rico da sua voz, nos seus olhos pequenos e luzidios alguma coisa de forte, de dominante, que a enleava. Tinha-se-lhe prendido à orla do seu vestido um galho de silvado, e como êle se abaixára para o desprender delicadamente, o contacto daquela mão branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a singularmente. Apressava o passo para chegar bem depressa à fazenda, aviar o negócio com o Teles, e voltar imediatamente a refugiar-se, como no seu elemento próprio, no ar abafado e triste do seu hospital. Mas a estrada estendia-se, branca e longa, sob o sol tépido—e a conversa de Adrião foi-a lentamente acostumado à sua presença.

Êle parecia desolado daquela tristeza da{70} casa. Deu-lhe alguns bons conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar, sol, uma outra vida diversa daquele abafamento de alcôva...

Ela tambêm assim o julgava: mas quê! o pobre João, sempre que se lhe falava de ir passar algum tempo à quinta, afligia-se terrívelmente: tinha horror aos grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte fazia-o quási desmaiar; tornára-se um ser artificial, encafuado entre os cortinados da cama...

Êle então lamentou-a. De-certo poderia haver alguma satisfação num dever tam santamente cumprido... Mas, emfim, ela devia ter momentos em que desejasse alguma outra cousa alêm daquelas quatro paredes, impregnadas do bafo da doença...

—¿Que hei-de eu desejar mais?—disse ela.

Adrião calou-se: pareceu-lhe absurdo supôr que ela desejasse, realmente, o Chiado ou o Teatro da Trindade... No que êle pensava era noutros apetites, nas ambições do coração insatisfeito... Mas isto pareceu-lhe tam delicado, tam grave de dizer àquela criatura virginal e séria—que falou da paizagem...

—Já viu o moinho?—perguntou-lhe ela.

—Tenho vontade de o ver, se mo quiser ir mostrar, prima.

—Hoje é tarde.

Combinaram logo ir visitar êsse recanto de verdura, que era o idílio da vila.{71}

Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproximação maior entre Adrião e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma astúcia de aldeã, punha entre êles como que um interesse comum. Ela falou-lhe já com menos reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dêle, dum respeito tocante, uma atracção que a seu pesar a levava a revelar-se, a dar-lhe a sua confiança: nunca falára tanto a ninguêm: a ninguêm jàmais deixara ver tanto da melancolia oculta que errava constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram sôbre a mesma dor—a tristeza do seu interior, as doenças, tantos cuidados graves... E vinha-lhe por êle uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter sempre presente, desde que êle se tornava assim depositário das suas tristezas.

Adrião voltou para o seu quarto, na estalagem do André, impressionado, interessado por aquela criatura tam triste e tam doce. Ela destacava sôbre o mundo de mulheres que até ali conhecera, como um perfil suave de anjo gótico entre fisionomias de mesa redonda. Tudo nela concordava deliciosamente: o oiro do cabelo, a doçura da voz, a modéstia na melancolia, a linha casta, fazendo um ser delicado e tocante, a que mesmo o seu pequenino espírito burguês, certo fundo rústico de aldeã e uma leve vulgaridade de hábitos davam um encanto: era{72} um anjo que vivia há muito tempo numa vilota grosseira e estava por muitos lados prêso às trivialidades do sítio: mas bastaria um sôpro para o fazer remontar ao céu natural, aos cimos puros da sentimentalidade...

Achava absurdo e infame fazer a côrte à prima... Mas involuntáriamente pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava deformado pelo espartilho, e de pôr emfim os seus lábios numa face onde não houvesse pós de arroz... E o que o tentava sobretudo era pensar que poderia percorrer toda a província em Portugal, sem encontrar nem aquela linha do corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida... Era uma ocasião que não voltava.

O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de Corot, sobretudo à hora do meio dia em que êles lá foram, com a frescura da verdura, a sombra recolhida das grandes árvores, e toda a sorte de murmúrios de água corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as pedras, levando e espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por onde corriam cantando. O moinho era dum alto pitoresco, com a sua vélha edificação de pedra secular, a sua roda enorme, quási pôdre, coberta de ervas, imóvel sôbre a gelada limpidez da água escura. Adrião achou-o digno duma scena de romance, ou{73} melhor, da morada duma fada. Maria da Piedade não dizia nada, achando extraordinária aquela admiração pelo moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco cansada, sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na água da reprêsa os últimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no encanto daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas. Adrião via-a de perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do guarda-sol as ervas bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim, tam branca, tam loura, duma linha tam pura sôbre o fundo azul do ar: o seu chapéu era de mau gôsto, o seu mantelete antiquado, mas êle achava nisso mesmo uma ingenuidade picante. O silêncio dos campos em redor isolava-os—e, insensívelmente, êle começou a falar-lhe baixo. Era ainda a mesma compaixão pela melancolia da sua existência naquela triste vila, pelo seu destino de enfermeira... Ela escutava-o de olhos baixos, pasmada de se achar ali tam só com aquele homem tam robusto, toda receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio... Houve um momento em que êle falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.

—Ficar aqui? Para quê?—perguntou ela sorrindo.{74}

—Para quê? para isto, para estar sempre ao pé de si...

Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das mãos. Adrião receou tê-la ofendido, e acrescentou logo rindo:

—¿Pois não era delicioso?... Eu podia alugar êste moinho, fazer-me moleiro... A prima havia de me dar a sua freguesia...

Isto fê-la rir: era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, a pele, a côr do cabelo. Êle continuou gracejando, com o seu plano de se fazer moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro, carregado de sacas de farinha.

—E eu venho ajudá-lo, primo!—disse ela, animada pelo seu próprio riso, pela alegria daquele homem a seu lado.

—Vem?—exclamou êle.—Juro-lhe que me faço moleiro! Que paraíso nós aqui ambos no moinho, ganhando alegremente a nossa vida, ouvindo cantar êstes melros!

Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se êle fôsse já arrebatá-la para o moinho. Mas Adrião agora, inflamado àquela idea, pintava-lhe na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma felicidade idílica, naquele esconderijo de verdura: de manhã, a pé cedo, para o trabalho; depois o jantar na relva à beira de água; e à noite as boas palestras ali sentados, à claridade{75} das estrêlas ou sob a sombra cálida dos céus negros de verão...

E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braços, e beijou-a sôbre os lábios, dum só beijo profundo e interminável. Ela tinha ficado contra o seu peito, branca, como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao comprido da face. Era assim tam dolorosa e fraca, que êle soltou-a; ela ergueu-se, apanhou o guarda-solinho e ficou diante dêle, com o beicinho a tremer, murmurando:

—É mal feito... é mal feito...

Êle mesmo estava tam perturbado—que a deixou descer para o caminho: e daí a um momento, seguiam ambos calados para a vila. Foi só na estalagem que êle pensou:

—Fui um tolo !

Mas no fundo estava contente da sua generosidade. À noite foi a casa dela: encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em àgua de malvas as feridas que êle tinha na perna. E então, pareceu-lhe odioso distrair aquela mulher dos seus doentes. De resto um momento como aquele no moinho não voltaria. Seria absurdo ficar ali, naquele canto odioso da província, desmoralizando, a frio, uma boa mãe... A venda da fazenda estava concluída. Por isso, no dia seguinte, apareceu de tarde, a dizer-lhe adeus: partia à noitinha na diligência: encontrou-a na sala, à{76} janela costumada, com a pequenada doente aninhada contra as suas saias... Ouviu que êle partia, sem lhe mudar a côr, sem lhe arfar o peito. Mas Adrião achou-lhe a palma da mão tam fria como um mármore: e quando êle saíu, Maria da Piedade ficou voltada para a janela, escondendo a face dos pequenos, olhando abstractamente a paizagem que escurecia, com as lágrimas, quatro a quatro, caíndo-lhe na costura...

Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado da imaginação. O que a encantava nele não era o seu talento, nem a sua celebridade em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela aparecia-lhe vago e pouco compreensível: o que a fascinava era aquela seriedade, aquele ar honesto e são, aquela robustez de vida, aquela voz tam grave e tam rica: e antevia, para alêm da sua existência ligada a um inválido, outras existências possíveis, em que se não vê sempre diante dos olhos uma face fraca e moribunda, em que as noites se não passam a esperar as horas dos remédios... Era como uma rajada de ar impregnado de todas as fôrças vivas da natureza, que atravessava, súbitamente, a sua alcôva abafada: e ela respirava-a deliciosamente... Depois, tinha ouvido{77} aquelas conversas em que êle se mostrava tam bom, tam sério, tam delicado: e à fôrça do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um coração terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar... Êste amor latente invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta idea, esta visão—Se êle fosse meu marido! Toda ela estremeceu, apertou desesperadamente os braços contra o peito, como confundindo-se com a sua imagem evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua fôrça... Depois êle deu-lhe aquele beijo no moinho.

E partira!

 

 

Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo de repente em volta dela—a doença do marido, achaques dos filhos, tristezas do seu dia, a sua costura—lhe pareceu lúgubre. Os seus deveres, agora que não punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados como fardos injustos. A sua vida representava-se-lhe como desgraça excepcional: não se revoltava ainda: mas tinha dêsses abatimentos, dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caía sôbre a cadeira, com os braços pendentes, murmurando:

—¿Quando se acabará isto?{78}

Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa. Julgando-o todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dêle e da sua lenta influência. Adrião tornara-se, na sua imaginação, como um ser de proporções extraordinárias, tudo o que é forte, e que é belo, e que dá razão à vida. Não quis que nada do que era dêle ou vinha dêle lhe fôsse alheio. Leu todos os seus livros, sobretudo aquela Madalena que tambêm amara, e morrera dum abandono. Estas leituras calmavam-na, davam-lhe como uma vaga satisfação ao desejo. Chorando as dores das heroínas de romance, parecia sentir alívio às suas.

Lentamente, esta necessidade de encher a imaginação dêsses lances de amor, de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um devorar constante de romances. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo artificial e idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa, sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde encontrava sempre agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as primeiras revoltas. Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada aos episódios sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só, num mutismo, à{79} janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a rebelião duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões, entre o canto dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num mistério de noite romântica...

O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se, estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos heróis de novela; era um ente meio príncipe e meio facínora, que tinha, sobretudo, a fôrça. Porque era isto que admirava, que queria, porque ansiava nas noites cálidas em que não podia dormir—dois braços fortes como aço, que a apertassem num abraço mortal, dois lábios de fogo que, num beijo, lhe chupassem a alma. Estava uma histérica.

Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um desejo de lhe apressar a morte...

E no meio desta excitação mórbida do temperamento irritado, eram fraquezas súbitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma porta, uma palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas... À noite abafava; abria a janela; mas o cálido ar, o bafo môrno da terra aquecida do sol, enchiam-na dum desejo intenso, duma ânsia voluptuosa, cortada de crises de chôro...

A Santa tornava-se Vénus.{80}

E o romantismo mórbido tinha penetrado tanto naquele ser, e desmoralizára-o tam profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe tocasse, para ela lhe caír nos braços:—e foi o que sucedeu emfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o praticante da botica.

Por causa dêle escandalizou toda a vila. E agora deixa a casa numa desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas horas, o marido a gemer abandonado na sua alcôva, toda a trapagem dos emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe—para andar atrás do homem, um maganão odioso e cebento, de cara balôfa e gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atrás da orelha, e bonésinho de sêda posto à catita. Vem de noite às entrevistas de chinelo de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar uma Joana, criatura obêsa, a quem chamam na vila a bola de unto.{81}