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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I) cover

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Chapter 14: DIALOGO III
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About This Book

A obra apresenta diálogos e pequenas cenas de convívio numa aldeia transformada em corte durante noites de inverno, em que um anfitrião, um letrado, um fidalgo, um estudante e um velho criado conversam, jogam e contam anedotas. Entre comentários sobre livros de cavalaria, a arte de escrever cartas, cortesia e hábitos sociais, surgem reflexões sobre linguagem, moderação e amizades, compondo um retrato sereno e às vezes irónico das maneiras e ocupações da vida rural cultivada.

DIALOGO III


DA MANEIRA DE ESCREVER, E DA DIFFERENÇA
DAS CARTAS MISSIVAS



Mui satisfeito ficou D. Julio de ouvir a Leonardo aquella noite na materia das armas; e quasi a escolhera antes, que a das cartas. Por alguns particulares, que desejava saber, quiz com mão alheia, por não parecer importuno, perguntar algumas cousas a Solino, que achou junto á sua porta; e depois de o saudar, lhe disse: Como estaes depois da noite de hontem.?—Como o dado (respondeu elle) que está de qualquer ilharga.—Deveis de ficar do azar (tornou D. Julio) pois tendes tão poucos pontos, que faltaes aos da cortezia:—Fiquei (tornou elle) tão cansado das da carta de Leonardo, que lhe tomei aborrecimento, e nem estou para vos servir, nem para o dizer, e perdoae-me.—Logo (disse o fidalgo) não quereis continuar na conversação d'esta noite.—Se a carta (lhe tornou Solino) ha de ser tão comprida como o sobrescripto, assim o imagino.—Pois a minha tenção (proseguiu elle) era pedir-vos que na materia das armas, que elle tocou, fizesseis hoje algumas perguntas á minha conta sobre alguns particulares das familias d'este reino.—Vós deveis buscar armas para me matar (disse Solino) porque das de hontem sahi eu tão escalavrado, que determinava fugir d'ella; e sei que tem Leonardo tantos livros de armas, e gerações, que, se o tirar a terreiro, havemos mister todo o inverno para o ouvir.—Eu me contento (respondeu D. Julio) com saber que elle tem os livros, e assim o escuso do trabalho: porque n'elles lerei alguns feitos particulares dos Portuguezes merecedores dos brazões que seus successores possuem.—Bom seria (disse Solino) acabar as cartas antes de entrar por esses feitos, e para isso vos irei acompanhando até a casa de Leonardo, posto que tinha outra determinação.—Porque vós não falteis (respondeu D. Julio) quero ir mais cedo. E com esta pratica, e outras que occorriam, foram passeando, e entertendo o que ficava do dia, até que a sombra da noite, e uma chuva miuda os fez recolher a casa de Leonardo, onde os amigos esperavam já que elles chegassem; e com Pindaro outro estudante seu companheiro, por nome Feliciano, que, vindo-o a visitar, se aproveitou da occasião em sua companhia. Festejaram todos a Solino; e elle vendo o hospede, de novo se lhe inclinou com mais auctoridade, e disse para os outros: Tenho inveja á dita do senhor licenciado que veio ao abrir da carta, que cerrámos sem elle, e com não pequeno trabalho.—Não tivera eu por tal (respondeu o estudante) antes por grande ventura, se do passado me coubera alguma parte; e esta, que alcanço agora com o consentimento d'estes senhores por meio de meu companheiro, tenho por muito grande favor, e mercê de todos.—Essa humildade (disse Solino) está acreditando mil esperanças de vosso entendimento; e bem sei eu que o de Pindaro sabe fazer esta eleição dos amigos tambem, como em tudo o mais é discreto, e acertado: e para que entendaes o logar em que vos fico, sabei que eu sou o mais certo creado que elle tem entre os senhores presentes.

A esta cortezia respondeu Pindaro, e o estudante com as suas, até que o doutor os despartiu, e disse a Leonardo:—Bem gastado era o tempo em comprimentos tão cortezãos, e tão devidos, se o desejo, que temos de continuar a materia da noite passada, o não quizera poupar todo para ella: e assim vos peço que me façaes mercê, e a todos, de ir por deante.—Tendes razão (tornou elle) de me aliviardes mais depressa do cuidado, em que me mettestes. E tornando a traz, por me aproveitar dos vossos principios, dissestes que cousa era carta na origem do seu nome, os primeiros modos de escrever, e o como entre nós se conservou; tratei do sobrescripto, da cortezia, das lettras, do signal, das dobras, e sello da carta, o que bastou para todos ficardes mais enfadados, que saudosos.

Agora, começando a entrar na leitura das regras, saibamos que cousa é carta missiva, ou mandadeira, e o para que foi inventada; que pela definição de Marco Tullio, a quem todos seguem, é uma messageira fiel, que interpreta o nosso animo aos ausentes, em que lhes manifesta o que queremos que elles saibam de nossas cousas, ou das que a elles lhes relevam. Tres generos de cartas missivas assigna o mesmo Tullio, aos quaes alguns costumam reduzir muitas especies d'ellas. O primeiro é das cartas de negocio e de cousas que tocam á vida, fazenda e estado de cada um, que é o para que as cartas primeiro foram inventadas; que, por tratarem de cousas familiares, se chamaram assim. O segundo, de cartas d'entre amigos uns aos outros, de novas e comprimentos de galantarias, que servem de recreação para o entendimento, e de allivio e consolação para a vida. O terceiro, de materias mais graves, e de peso, como são de governo da republica e de matérias divinas, de advertencias a principes e senhores e outras semelhantes. O primeiro genero se divide em cartas domesticas, civis e mercantís. O segundo em cartas de novas, de recommendação, de agradecimento, de queixumes, de desculpa e de graça. O terceiro, que é mais grave e levantado, contém cartas reaes em materias de estado, cartas publicas, invectivas, consolatorias, laudativas, persuasorias e outras, que se pagam a cada uma das que nomeei em todos os tres generos.—E onde deixaes (disse D. Julio) as cartas amatorias ou namoradas? que se na vossa edade não teem logar, parece que o mereciam n'este díscurso.—Bem sei eu (tornou Solino) quem as tomára no primeiro; mas o sr. Leonardo já não joga com essas cartas.—Não me esquecia de todo d'ellas (tornou elle), mas deixo-as para que no fim das mais sejam melhor recebidas, e para proseguir a materia quem agora as puder apurar.

—As do primeiro genero (disse o doutor) me parecem cartas muito seccas, que é materia esteril para que empregueis n'ella sem fructo o vosso entendimento.—Antes (disse Leonardo) como essas foram as primeiras, e d'ellas nasceram as leis e as regras para outras, será razão que debaixo d'este genero tratemos das mais, repartindo o pouco que eu soube dizer, por os logares de cada um. E assim me parece, que como a carta que escrevemos ao amigo sobre seu negocio; ao creado sobre as cousas da casa; e o mercador ao outro sobre seus tratos e mercancia; um aviso e uma relação que lhe não podemos fazer em presença, fazendo-o por meio de uma carta, devemos usar n'ella o que na pratica costumamos que é brevidade sem enfeite, clareza sem rodeios, e propriedade sem metaphoras, nem translações.—E quando (disse o doutor) faremos breves em uma carta?—Quando (respondeu elle de tal maneira, e com tal artificio a escrevermos, que se entendam d'ella mais cousas do que tem de palavras.—E como póde ser? (tornou elle).—Por meio dos relativos e subsequentes (disse Leonardo) que, sem nomear as palavras, as repetem; e por ordem das sentenças e adagios que sem entender as cousas as declaram; e n'isto se adeantam muito as cartas da pratica familiar, que, se escrevem de cuidado, e tem mais tempo de se furtarem palavras para se subentenderem razões.—E que cousa é enfeite ou affectação? (perguntou Solino).—É, disse elle, o cuidado sobejo de enfeitar as palavras com elegancia ou por via de epithetos, ou de escolha de logar para as syllabas fazerem melhor som aos ouvidos. E em favor d'esta opinião, dizia um homem insigne d'este reino, e que teve n'elle os melhores logares da republica ecclesiastica e secular, que a carta e a mulher muito enfeitada, em certo modo eram deshonestas: e eu antes seguira este voto, que o de alguns rhetoricos, que deram á carta missiva cinco partes de oração, convém a saber: saudação, exordio, narração, petição e conclusão: e se houvessemos de seguir o seu estylo, mudariamos de todo o das cartas.—Nunca rhetoricos (disse o estudante) souberam escrever cartas, se as sugeitaram ás leis da oração. Mas parece que o sr. Leonardo dá a entender que na carta se não devem usar epithetos ou adjectivos por evitar o enfeite, e sobeja elegancia d'ella: e eu tenho que sem elles se não póde escrever.

—Os epithetos (proseguiu Leonardo) ou servem para discripção e declaração das cousas ou para propriedade, ou para ornamento e enfeite d'ellas. Os primeiros são necessarios nas cartas como em tudo; os segundos menos, os terceiros escusados. Para dizer ou escrever, um homem douto, uma mulher formosa, um cavallo ligeiro, uma arvore alta, um caminho comprido, um peito forte, sào attributos necessarios para declarar o que queremos dizer; porque ha homem que não é douto, mulher que é feia, e os mais. Os de propriedade como ferro frio, relva verde, sol claro, calma ardente, areia sêcca, pedra dura, estes são pouco necessarios nas cartas: e sómente por comparação ou em adagios se devem usar n'ellas, como dizendo, é duro como pedra, ou é dar em pedra dura, ou é malhar em ferro frio. Os de elegancia e ornamento, tenho eu que se hão de degradar das cartas missivas para fóra do termo d'ellas, como agora firme soffrimento, incansavel diligencia, solicito desejo, cuidadoso receio, importuna lembrança, desusada brandura, e outros que tem juiz de seu fôro. Assim que não digo que faltem nas cartas epithetos necessarios, mas que se escusem os sobejos; nem se andem grangeando as palavras para fazerem assento em o cabo da sentença, que será ir contra a brevidade sem enfeite ou affectação.

—Parecia-me a mim (disse Solino) que a carta breve seria a de menos regras; e que não estava a cousa nos epithetos serem proprios ou necessarios. Uma carta (proseguiu elle) póde ser breve, e levar escriptas muitas paginas de papel; porque póde tratar de tantos negocios ou cousas que as occupem, mas estarão relatadas de modo que seja a leitura comprida, e a carta breve.

—O segundo ponto (perguntou Pindaro) que é clareza sem rodeio, me parece a mim que fica declarado n'essa primeira parte; pois sendo breve a carta, e não tendo enfeite nas palavras, será clara e sem rodeios.—Não estaes no caso (tornou elle), que posto que a clareza é parte da brevidade, a clareza é das razões, e a brevidade das palavras: e assim póde a carta ser breve, mas confusa; e clara sendo comprida: que muitos para dizerem cousas querem estrada coimbrã, e caminho direito; buscam rodeios e atalhos em que se perdem, confundindo o que querem dizer. Em uma minha doença escreveu um amigo, e dizia: Disseram-me que a saude de vossa mercê corria perigo na inconveniencia de medicos discrepantes no remedio dos males d'essa doença. E fez estas trocas onde podia dizer: Soube que os medicos não se conformavam na cura dos vossos males, que na duvida d'elles corria risco a vossa saude. Outro me escreveu ha muitos dias: Se vossa mercê não está ausente das lembranças que suas promessas me asseguraram de haver de ter muitas d'este seu captivo. Havendo de dizer: Se vos não esquece que me promettestes de ter lembranças de mim. E porque ainda temos logar de tornar aos particulares das disposições das razões:

Passando ao terceiro ponto, que é propriedade sem metaforas, ou translações.—A propriedade (disse o doutor) era materia da noite passada, quando falastes das letras e razões em seu logar, sem barbaria, nem impropriedade no escrever: e como isto é parte do exterior da carta, já hoje não tem dia.—A propriedade que vós dizeis (accudio Leonardo) é exterior, mas muito differente a de que eu trato, e não pouco importante ao falar, e escrever, que é a propriedade das palavras na sua propria significação, sem serem emprestadas por via de translações para outros logares, que é termo que argue nobreza de linguagem; e porque fique mais declarado, sabei que dizemos em portuguez, falando propriamente dos nomes: Bando de aves, cardume de peixes, rebanho de ovelhas, fato de cabras, vara de porcos, alcatéa de lobos, tropel de cavallos, cafila de camellos, récua de cavalgaduras, manga de arcabuzeiros, , ou roda de homens; e se, trocando isto, disséramos: Um cardume de aves, ou uma alcatéa de ovelhas, ou um fato de porcos, seria impropriedade, e desconcerto. Dizemos tambem nos verbos: Chiar de aves, balar de gado, grunhir de porcos, ladrar de cães, rinchar de cavallos, bramir de leões, empolar de mares, encapelar de ondas, assoprar de ventos, etc. E se dissessemos chiar de porcos, rinchar de leões, e grunhir de cavallos, seria o mesmo erro. E porque ha metaforas e translações tão uzadas e proprias, que parecem nascidas com a mesma lingua, que como adagios andam pegadas a ella, se devem trazer (quando forem taes) nas cartas missivas, do mesmo modo que na pratica se costumam. Dizemos dos nomes: folha de espada, lume de espelho, veia de agua, braços de mar, lingua de fogo, lanço de muro, faxa de ferro, e outras semelhantes: e nos verbos: lançar o cavallo, fazer á capa, quebrar a palavra, cuspir o pelouro, arripiar a carreira, e outras muitas: e além d'estas tão usadas, e naturaes, que servem de propriedade á lingua portugueza, ha outras nascidas de proverbios, ou adagios, que tem o mesmo logar, e antiguidade, como são furtar o corpo, ir vento em pôpa, nadar contra a agua, ficar em secco, repicar em salvo, tirar barro á parede, etc. E quanto a carta tiver mais d'estas, será mais breve, e cortezã; pois, como primeiro disse, por este modo se entendem da carta mais coisas, do que tem escripto de palavras.

Pelo contrario, usando, em logar d'estas, outras humildes, populares, ou innovadas, será vicio na propriedade da carta; como se nos nomes dissessemos: um feixe de cuidados, um mar de encommendas, um moio de queixumes, um golpe de razões; e nos verbos, como: enfeitar o desejo, tropeçar em cuidados, navegar em desconfiança, e outras muitas. Esta é a propriedade, de que trato, e a que me parece que se deve usar no escrever das cartas missivas; porque não soffre o estilo d'ellas o que em a pratica, ou em outro genero de escriptura não sómente se permitte, mas muitas vezes se deseja.

—Espero (disse D. Julio) que deis alguma limitação, ou declareis a linguagem, que se deve usar n'este estilo das cartas; porque encontro muitas muito mal escriptas, cujos erros, a meu ver, nascem dos homens se cançarem muito em quererem parecer singulares.—Posto que isso pertence primeiro ao fallar, que ao escrever (respondeu Leonardo) pois, como já disse, devemos escrever como praticamos; as palavras da carta hão de ser vulgares, e não já populares, nem exquisitas: vulgares de modo que todos as entendam; e ao menos, que a quem se escrevem, não sejam peregrinas: e não já populares, que sejam termos humildes, palavras baixas, que a cortezia não recebe: e que tão pouco, em logar dos adagios, e sentenças, tenham anexins. Tambem se deve fugir ao termo exquisito de palavras alatinadas, ou carreteadas de outras linguas estranhas, que sempre tem o sabor da sua origem.—Assim na linguagem, como em tudo (accudio Feliciano) ficavamos satisfeitos, se de aquelles tres generos, em que o senhor Leonardo dividio as cartas, déra alguns exemplos que nos allumiaram; porque nem as regras sem elles ensinam de todo, nem se póde perder a lição de tão bom estilo. O que eu não pedira, se foram dos vinte generos de cartas, em que um rhetorico as dividio; que, por querer dar leis, e partes a cada uma, as confundio todas.—Em tudo (tornou elle) vos quizera satisfazer: porém cartas mais se hão de escrever em occasião, do que trazerem-se por exemplo; que é o porque eu lhe nào déra regra certa, nem das muitas, que ha bem escritas, se póde tirar; que esse auctor, que vós dizeis que lhe assignou vinte generos, achará fóra d'elles infinitas cartas, bem melhor escriptas, que as com que os elle quer auctorisar. Porém, com o presupposto de não dar preceitos:

As cartas do primeiro genero, familiares, domesticas, civis, e mercantis, respeitam tanto a brevidade, que não podem os rhetoricos dividil-as em partes, se não forem nas da oração; e bastava para exemplo aquella de Cicero a Cornelio, que dizia sómente:


carta de cicero a cornelio


"Alegrai-vos de eu não estar mal; pois terei o mesmo contentamento de saber que estais bem."



E muito é mais para notar uma carta de Octavio Imperador para Caio Druzo seu sobrinho, que contém bem mais coisas, e avizos que palavras, e dizia:


carta de octavio a druzo


"Pois estais no Illyrico, lembrai-vos que sois dos Cezares; que vos mandou o Senado; que sois moço; meu sobrinho; e cidadão Romano."



E estas, e outras semelhantes, nem tem regra, nem deixam de ser cartas. Mas porque não só nos ajudemos das antigas, mas tambem com as nossas façamos pestoleta; esta é breve, e domestica, que um cortezão escreveu a seu amigo, a quem em uma ausencia deixára sua casa; e dizia:

carta moderna a um amigo


"Estou tão confiado no que vos mereço, e tão seguro no que de vosso animo tenho conhecido, que me não dá cuidado a familia que deixei á vossa conta; senào o trabalho, que vos dará o sustentalla: não procuro saber d'ella mais, que novas de vossa saude; que em quanto a tiverdes, estará sem sobresalto a minha vida."



Á qual o amigo respondeu com brevidade; e dizia d'esta maneira:


resposta


"N'esta casa só vós fazeis falta; mas como sois o tudo d'ella, ainda que sobeja a minha diligencia, lhe falta tudo. No que é servir-vos, a todos satisfaço, senão o meu desejo, que é igual ás obrigações que vos tenho. Vivei seguro; e gozai saude; que, em quanto a tiver, porei por vossas coisas a vida."



—Não estão as cartas para desprezar (disse Solino) e para me assegurar se a vossa memoria é archivo d'ellas, ou se as ides fingindo de repente (ainda que isto é menos curiosidade, que tenção) hei de pedir por parte d'estes senhores que de alguma nos deis semelhantes exemplos.—Não quero (disse elle) que acrediteis tanto o meu entendimento com mostrardes desconfiança da memoria; mas a troco do louvor vos hei de obedecer nas que me lembrarem: e proseguindo nas da segunda especie d'este genero, me parece carta civil, e breve esta, que um amigo escreveu a outro, que mudava sua casa para a terra, onde elle vivia; e dizia:


carta de um amigo


"Espero com grande alvoroço que venhais para esta cidade, para que com vossa companhia viva n'ella contente, e vós desenganado de quam pouco em si tem que me possa alegrar, senão depois que vos possuir."



A quem o amigo brevemente respondeu em outra que dizia:


resposta


"Assim como o desterro em o melhor lugar é penoso, nenhum pode haver tão esteril, que, tendo a tal amigo, não seja desejado. Vós sois a quem busco, é força que me contente a parte onde vos achar; que as pedras não fazem a cidade, senão os homens: nem as commodidades da vida a sustentam, senão os amigos."



As mercantis posto que são segundo os tratos, e negocios, e acodem mais a elles, que ao bom termo dos comprimentos; não deixa de haver muitas tão bem escriptas, que podem ter logar entre as melhores; e ainda que não é d'ellas uma, que eu vi há poucos dias, a darei por ser tão breve, e era esta:


carta mercantil


"Ha nova de Cossarios no mar; e por esse respeito grande risco nas fazendas d'essa terra: porém a valia d'ellas será muito avantajada, se chegarem a este porto a salvamento; se a cubiça do interesse vence o perigo das encommendas, ponde-as em ventura; que eu a terei para mim por muito boa o vosso bom successo."



E assim não me desagradou outra, que dizia d'esta maneira:


carta mercantil


"Com os tempos contrarios á navegação foram as occasiões ao nosso trato: que, como as mercadorias não foram requestadas de extrangeiros, estão ao presente abatidas: enviae-me menos d'ellas para que, faltando, mais as procurem os mercadores da terra; e n'essa vos não descuideis de fazer emprego, mandando-me o de muito boas novas vossas."



—Não me pareceu (disse o doutor) que tirasseis tão boa doutrina de materia tão limitada; porque esse primeiro genero de cartas tinha eu que não sahia de uns termos e principios, que andam escriptos no panno da serpe, como são: Á feitura d'esta. Esta não é para mais. Uma de v. m. me deram. Pela de v. m. de tantos do passado: Depois de me encommendar em v. m. E d'aqui correndo por seus capitulos de quanto a isto, e quanto a est'outro até topar no a quem Deus guarde.—Esses principios (disse Solino) estão já muito bolorentos; mas ainda para cartas de mais ponto tenho outros grangeados de algumas secretarias velhas, como impressão de Torres, de que me valho nas pressas de uma boa nota, que não são tão corriqueiros.—Não me atreverei eu sem esses (disse Leonardo) a ir por deante pelo que vos hei por notificado.—Pois assim é (disse Solino) quero obedecer, ainda que perco grande valhacouto em os descobrir; porque sabei que é comer feito para os ronceiros d'esta mecanica; e o mór trabalho d'ella é desencalhar a penna com a primeira palavra: e são quatro: Como quer que, Tanto que, Depois que, e Antes que. E sabei que não ha proposito, que saia das unhas d'estes bilhafres; e nos capitulos de quanto isto etc., se mette em logar do quanto, no que toca a tal, e no que toca a qual; que, a meu vêr, era melhor o item, que tinhamos tomado aos latinos. Mas os notadores de espada solta esgrimem já agora sem estes bordões maravilhosamente.—Bons estão os principios (disse D. Julio) porém haveis de metter a lettra em todos elles, para que nos não passem por alto.—Antes por muito rasteiros (respondeu elle) vos ficarão entre os pés. Porém tende tento, e vereis que são principios de parafuso e que se encaixam, e viram para todas as partes como grimpa.



"Como quer que os meus serviços montem ante vós tão pouco, e a vontade por minha seja de menos preço, etc.

"Como quer que o animo, com que sou vosso, me não deixa perder occasiões, em que vos sirva, etc.

"Tanto que soube que era cousa de vosso gosto deixar esta empreza, etc.

"Tanto que me vi desfavorecido de vossas lembranças, lancei mão do meu atrevimento, etc.

"Depois que me apartei de vós, não soube mais de mim, que para sentir saudades vossas, etc.

"Depois que meus males me deram logar para tomar esta penna na mão, a empreguei em procurar novas vossas, etc.

"Antes que me desculpe de meus descuídos, etc.

"Antes que vos dê larga conta dos meus successos, etc."



De modo, que são como materia prima, em que moldareis tudo o que quizerdes: porém não quero ir adeante, e tomar o tempo ao sr. Leonardo; que o vejo entrar já por outras cartas missivas.—Antes (lhe disse elle) tomei folego em quanto vos ouvia falar n'essas. E tratando das do segundo genero, que são cartas de novas, a que chamam narrativas de cumprimentos, que se dividem em cartas de agradecimento, recommendação, desculpa, queixume e outras muitas, cartas de galantaria ou jocosas, como chamam os latinos: Para as narrativas nos podia servir de exemplo aquella em que o imperador Tiberio Cesar dava novas de Italia a seu irmão Germanico, que dizia:


carta de tiberio cezar a germanico


"Os templos se guardam; os deuses se servem; o senado está pacifico: a republica prospera; Roma sã; a Fortuna mansa; o anno fertil; e isto, que ha aqui em Italia, desejo que da mesma maneira gozeis em Asia."



Deixo a que Cesar escreveu a Roma, das novas de Persia, que continha só tres palavras: Cheguei: vi: venci. E a de Gneu Sylvio, escrevendo as novas da Farsalia, que dizia:


carta de gneu sylvio


"Cesar venceu: Pompeio morreu: Rufo fugiu: Catão se matou: acabou a dictadura; e perdeu-se a liberdade."



E chegando a alguma, que com menos aperto faça sua relação, me não pareceu engeitar a que Marcello escreveu ao senado romano, dando-lhe novas da rota de Fulvio, que dizia:


carta de marcello ao senado


"Bem sei que a nova, que vos mando, é de sentimento. Fulvio Proconsul com treze mil homens foi desbaratado e ferido. Porém não vos cause temor este successo; que eu sou o mesmo, que, depois da batalha de Canas, mortifiquei a soberba de Hannibal, vencedor d'ella: contra elle caminho brevemente com o meu exercito para lhe fazer mais breve a alegria d'este triumpho; e em vós desejo muito o mesmo animo que levo."



—Uma carta (acudiu o doutor) me escreveu os dias atraz um amigo, de novas de Lisboa, que certo, pela brevidade, me pareceu digna d'esta lembrança, e dizia:


carta moderna


"Esta cidade está abastada, mas descontente: o mar cheio de corsarios: os portos de receios: o paço de requerentes; e elles de queixumes: para os validos tudo é pouco: aos desamparados não cabe nada: do remedio de tantos males não ha boas novas; e as minhas são que entre todos elles me falta a vossa companhia."



—Essa (disse Leonardo) se póde ajuntar por exemplo ás antigas que relatei: e por não me empregar em outras, que seria demasiado trabalho a todos ouvil-as, e a mim recital-as, peço-as de recommendação de alguma pessoa ou de algum negocio, nas quaes tem mais logar a disposição e offerecimento dos rhetoricos, encarecendo os merecimentos da pessoa ou a importancia da causa que encommendaes, facilitando-a na condição e vontade a quem a pedia; concluindo com a petição e offerecimento de vossa parte: e todas estas, e ainda um exordio de sentença, que hei por escusado, se vêem em uma carta que ha pouco que li, que um rei de Portugal antigo, escreveu ao de França, encommendando-lhe um fidalgo que ia estudar a Pariz; e dizia tirada de latim, em que estava em um livro extrangeiro:


carta de el-rei de portugal ao de frança


"Entre as virtudes e excellencias dos principes, me pareceu muito digna de louvor a de terem particular cuidado e lembrança dos vassallos benemeritos em seu serviço, para com favores e mercês os ajudarem: e por esta razão me pareceu que devia encommendar a vossa magestade D. Pedro de Almeida, que por occasião de seus estudos vae a essa côrte de Paris, posto que claramente conheço que, sem recommendação minha, vae assás encommendado pela liberalidade e brandura com que vossa magestade honra e recebe os homens tão illustres como elle é. Além do que, tem elle tantas partes e entendimento, que não achará melhor terceiro, que a si mesmo. Deixo seu pae D. João de Almeida conde de Abrantes, que com suas singulares virtudes e claros feitos, adquiriu e conservou até á morte muito estreita privança e amizade com meus antecessores e commigo; de sorte que ponho em duvida se importe mais a seu filho a minha carta, se a fama e lembrança de seu pae. De qualquer modo o encommendo muito a vossa magestade. E de minhas cousas não offereço de novo nada; pois pela irmandade de meus antepassados e minha, em toda a occasião deve vossa magestade usar d'ellas, como se foram communs a ambos."



Outra achei no mesmo logar, de el-rei D. Manuel, mais breve que a passada, que era de seu antecessor, a qual elle escreveu ao mestre de Rhodes, encommendando-lhe um noviço portuguez, que ia servir a religião que será para exemplo das menos enfeitadas. O grão, mestre era o cardeal Pedro de Buzon, e dizia:


carta de el-rei d. manuel ao grã mestre de rhodes


"Ayres Gonçalves, filho de Henrique de Figueiredo, vae a tomar o habito d'essa religião: não pareceu fóra de proposito nem de humanidade, encommendal-o a V. P. assim por sua nobreza, e ser creado de minha casa, como pelos serviços e merecimentos de seus passados com os reis meus antecessores; e finalmente por seu bom esforço e virtude. Rogo a V. P. que com sua costumada brandura o favoreça de sorte que n'elle se accrescente o valor e a devoção que leva: e não porei esta obrigação no menor logar das muitas que tenho a V. P."



As cartas de agradecimento tem o campo mais largo para n'ellas se espalhar a penna, e o entendimento; pois quem mais se obriga e encarece o que recebe, escreverá com melhor termo, não sahindo dos da carta missiva: e já os antigos não desconheciam esta galanteria; pois Lybanio respondendo a Demetrio, que o obrigava a que lhe pedisse, escreveu assim:


carta de lybanio a demetrio


"Não daes logar a que eu vos peça, porque me mandaes tudo. Ainda bem as arvores não dão seu fructo, quando vossos creados m'o trazem: e do que até nos agros se sente a falta, eu a não tenho. Como me haverei n'isto? que o lavrador, quando o tempo lhe nega a agua, então a pede: porém, se chove, contenta-se de vêr que favoreceu o céo suas esperanças."



O queixume por carta se deve fazer com toda a moderação que a urbanidade requere: e póde n'estas servir para exemplo e lembrança a que Olympias, mãe de Alexandre, respondeu a seu filho, a uma em que elle se assignava por filho de Jupiter, que dizia:


carta de olympias a alexandre


"Muito me alegro com a victoria que alcançastes da cidade de Tyro; e com todas vossas venturas e façanhas: porém tive por grande affronta minha vêr que vos nomeaes por filho de Jupiter na carta que d'esta nova me escrevestes. Estimarei muito, meu filho, que aquieteis n'isso o pensamento, e me não leveis a juizo ante a deusa Juno; que algum grande mal me ha de ordenar, sabendo que por lettra vossa me chamaes manceba de seu marido."



E se me não parecêra um pouco enfeitada uma carta que Angelo Policiano escreveu ao grande Lourenço de Medicis, a podéra pôr em exemplo da moderação de queixume, porque dizia:


carta de angelo policiano ao duque de florença


"O poeta é semelhante ao cysne na brancura e suavidade, em ser affeiçoado a correntes de agua e amado de Apollo. Comtudo, dizem que o cysne não canta senão quando o vento zephiro respira. Não é logo muito que eu seja mudo tantos dias, sendo poeta vosso, se vós, que sois meu zephiro, n'elles me faltaes."



As cartas jocosas, ou de galantaria, tem mais campo, e liberdade para se poderem usar n'ellas alguns termos fóra das limitações das nossas regras; porque assim em se entenderem mais, como em se sujeitarem menos, ficam desobrigados das primeiras leis. que são brevidade sem enfeite: clareza sem rodeios: propriedade sem metaphoras; pois o termo da graça e galantaria, n'isso se differença do sizudo e pontual; não negando que ha algumas que não perdem a graça nem o sizo, como é uma que Lybanio escreveu a Aristoneto, que dizia:


carta de lybanio a aristoneto


"Onde vos achaes, sei que dizeis sempre mal de mim; eu pelo contrario não perco occasião de dizer louvores vossos; porém quem a ambos nos conhecer, a nenhum de nós ha de dar credito."



Das mais ha tantos e tão differentes exemplos, que seria aggravo a cada uma das outras trazer aqui algumas bem escriptas. Só direi que uma especie d'ellas é narrativa, motejando do mesmo, que contam, ou das novas que dão; que não são por esse respeito pouco engraçadas. Ha outra das de disbarates, que, parecendo que se desviam nas palavras do proposito que tomam, dão a entender, como em enygma, o pensamento de quem as escreve; e são estas graciosas com subtileza. Outra ha das de murmuração em materias leves, como satyras menores: e umas e outras tem a galanteria no pintar e descrever as pessoas e as cousas, com apodos graciosos, encarecimentos desuzados, palavras facetas, phrase humilde, accommodada sempre ao sujeito. É certo que n'isto tiveram mão particular os portuguezes, que escreveram ao gracioso, que nem os italianos na phrase burlesca, nem os hespanhoes no estylo picaresco os egualaram.

—Não vos houvera eu de consentir esse salto (disse Solino) deixando tantos exemplos em aberto, se não tivera pensamento de cobrar a demasia n'outra occasião; e assim por isso, como por ser já passada tanta parte da noite, vos peço que façaes a vontade ao sr. D. Julio com essas cartas Reaes, de Estado e Governo, que as está desejando com a vida; pois a sua é nadar na altura de cousas semelhantes.—Eu vos mereço (respondeu o fidalgo) a boa opinião em que me tendes: porém egualmente me contentam todas as cousas em que fala o sr. Leonardo: e porque sempre as ultimas me ficam parecendo melhor que as primeiras, posso desejar esse terceiro genero de cartas; e se d'elle tornar ao primeiro, farão o mesmo effeito na minha satisfação.—Para responder a esse favor (tornou Leonardo) havia mister o tempo que hei de gastar nas cartas que me ficam: e assim ou uma ou outra cousa me havei por perdoada.

Não deixou o doutor ir os cumprimentos por deante, dizendo que eram em prejuizo de terceiro; e proseguindo Leonardo, disse:

—As cartas do terceiro genero, que, pelas materias importantes, e differença das pessoas, são mais graves e humildes; posto que se incluem algumas d'ellas á oratoria, aproveitando-se da elegancia e razões para persuadir, consolar, dar louvores ou reprehender; e posto que d'estas estão cheias as chronicas e annaes de todos os reinos, recitarei algumas que pareçam menos vulgares e mais breves para exemplo, como é uma que os consulares C. Fabricio e C. Emilio escreveram a el-rei Pyrrho sobre uma consideração em materia de Estado, que dizia:


carta de fabricio emilio a el-rei prrho


"Pelos aggravos que de vós temos recebido, o maior cuidado nosso é fazer-vos guerra com animo inimigo e braço esforçado: porém, para exemplo commum de fidelidade, nos pareceu conservar-vos a vida, porque com a perda d'ella nos não faltasse um contrario valoroso a quem vencer. Nicias, vosso particular, veiu ter comnosco, pedindo-nos preço certo por vos dar morte occulta; em que nós não consentimos, fazendo-lhe perder a esperança de tirar fructo da sua maldade. Juntamente assentámos dar-vos este aviso; porque, se alguma cousa acontecer, se não presuma que sahiu do nosso conselho; e não sendo o intento d'elle pelejar por preço, premio ou engano, vós, á falta de cautella, percaes a vida."



Tambem me não parece indigna de lembrança uma, com que Rhodoge, mãe d'el-rei Dario, o reprehendia, e aconselhava na segunda expedição contra Alexandre; que foi a que se segue: