Muitos annos ha que dura
O queixume em toda a parte,
De vêr que não póde a arte
Vencer em tudo a ventura.
Mas se houve alguns queixosos
N’esses bons tempos passados,
Quantos houve levantados?
Quantos houve venturosos?
Com muitos provára o dito;
Mas calo-os, porque em respeito
Contar poucos é defeito,
E todos fora infinito.
Não demos culpa á edade
Com tudo que é desacerto:
Temos a causa mais perto,
Porque é nossa enfermidade.
Que estes desprezos que vemos,
Do bom saber, da boa arte,
Não se usa em toda a parte,
Que al na terra onde nascemos.
Nas outras ainda se présa;
(E não sei se diga mais)
Nós, e os nossos naturaes
Somos de má natureza.
Queremos grão mal ao bem,
(Se isto se póde dizer)
Sómente pelo querer
A quem o merece, e tem.
Verás um pastor, dotado
De mil graças excellentes,
Andar entre as nossas gentes
Assim como homiziado.
Descontente, e mal vestido,
De encolhido não se atreve;
E assim como o homem, que deve,
Sempre só, sempre escondido.
E a causa, que lhe sobeja,
Porque traz em companhia
Saber, que é mercadoria,
Que deve muito á inveja.
Coitado do passarinho,
Que nasceu no valle escuso,
Aonde nem canta por uso,
Nem ha quem lhe saiba o ninho.
Coitado do que nasceu
N’esta nossa terra ingrata,
Que tão mal conhece e trata
Bens da sorte, e dons do céo.
Que o mais honrado, e mais dino
Pelas partes naturaes,
Não lhe serve de ser mais,
Senão de ser mais mofino.
Sempre cae, sempre periga:
No que ama, no que procura
Faz-lhe acintes a ventura,
Que é declarada inimiga.
De tudo lhe nega o fruito:
Se com pouco se sustenta,
É-lhe do pouco avarenta;
E se de muito, é de muito.
Agua, Fogo, Terra e Ar,
Sol, Estrellas, Austro e Norte,
Tudo lhe negára a sorte,
Se lh’o pudéra negar.
E os homens por condição,
Ao que devem mór corôa,
Se lhe vem vir sorte boa,
Vão-lhe mil vezes á mão.
E qualquer que a causa seja,
É bem baixo o fundamento
Ou de fraco entendimento,
Ou de mui forçosa inveja.
Vão mil por este caminho
De erros qu’eu contar não posso:
Pesa-nos do bem que é nosso,
Quando o vêmos n’um vizinho.
Ouvir qualquer extrangeiro
Falar de seus naturaes,
Dá d’elles tão bons signaes,
Que o não tem por verdadeiro.
Falem-vos n’um natural,
Dizeis faltas que não tem:
Mente o outro para bem;
Nós mentimos para mal.
Deixemos para outra dia
Os queixumes, que é já hora;
Que a meu pesar deixo agora
A elles, e a companhia.