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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) cover

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)

Chapter 11: ECLOGA CONTRA O DESPRESO DAS BOAS ARTES
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About This Book

A series of dialogues offers practical guidance on spoken language and social conduct, stressing clarity and a measured balance between prolixity and excessive brevity. It critiques ornate or obscure phrasing, warns against overconfidence and careless or untimely remarks that may offend listeners, and urges attention to audience and context when using foreign terms or recounting distant stories. The conversation also examines polite naming practices and the risks of gossip, then treats salt as a metaphor for wit and grace that enlivens conversation, adding cultural and natural reflections on its preserving and symbolic properties.

ECLOGA
CONTRA O DESPRESO DAS BOAS ARTES

(Bieito, Aleixo, Corino.)

BIEITO

Uma novilha dourada,
Que anda naquella floresta
Com uma estrella na testa
Silva branca e remendada,
Viste, Aleixo, d’onde veio,
Que anda alli sem companhia?

ALEIXO

Quiçais se derramaria,
Será d’algum gado alheio.
Para nós se vem chegando,
E se eu tenho ainda o meu tino.
A novilha é de Corino,
E o pastor anda-a buscando.
É n’estes pastos extranha,
Veio ha pouco a seu curral,
Acha-se no campo mal,
E foge para a montanha.

BIEITO

E d’onde houve aquella rez.
Que elle poucas vacas cria?

ALEIXO

Ganhou-a n’uma porfia
Nas festas, que Ergasto fez.
Houve então grão desafio
Em lucta, canto, e louvores,
Venceu todos os pastores
Da serra, e d’além do rio.

BIEITO

Muito sabe, mui bem canta,
Muito faz quem se lhe atreve:
Como dança! como é leve!
Que voz tem! como a levanta!
Viu, correu muitas aldeias,
Viveu numa, e n’outra parte;
E com ser só na nossa arte,
Sabe o muito das alheias.
E segundo tenho ouvido,
Já elle houve outro cuidado
Bem longe de guardar gado
Com o nosso trajo, e vestido.
Foi na villa dos melhores:
Mas uma dor bem sentida
Fez que deixasse essa vida,
E buscasse a dos pastores.
Mas ainda quando se eguala
Com o nosso modo aldeão,
D’outra sorte dá razão,
D’outra sorte canta, e fala.

ALEIXO

Digo-te que assim parece;
Que logo na arte, e no geito
Tem uma graça, um respeito,
Que aos pastores nos fallece.
Vêl-o? assoma na ladeira;
Anda o bom pastor sem tino,
Chamo por elle, ah Corino.

BIEITO

Não responde com canceira.
Cá anda a tua estrellada.
Para nós vem, já nos vê:
Façamos que um pouco estê
Com nosco n’esta abrigada.
Que uma hora do seu falar,
E um lanço do seu saber,
Nem é para se perder,
Nem é para se pagar.

CORINO

Deus vos salve: venho morto.

ALEIXO

Senta-te descançarás.

CORINO

Corri todo o valle atraz,
E ainda agora tomei porto.

ALEIXO

Tens a novilha segura;
Descansa e descuida d’ella.

CORINO

Folgo de achal-a, e perdel-a
Já não tenho em má ventura.
Porque é tão grande interesse
O de vossa companhia,
Que de ganho ficaria
Quando de todo a perdesse.
Ha muito que estais aqui?

BIEITO

Já sol fóra nos juntámos,
E até gora não cantámos:
Foi dita esperar por ti.

CORINO

Eu não sei negar-me: agora
Vedes que venho cansado,
Que não me quero rogado:
Cantára, se isto não fôra.
Faz seu officio a edade,
Sou já velho, a voz fallece:
Mas se a vontade merece,
Tendes bem certa a vontade.

BIEITO

Toma alento; então nos dá
O que sem te ouvir não temos;
Que a vaca nós a traremos.
E t’a levaremos lá.
Faze-nos prazer que ouçamos
Aquelle cantar primeiro,
Que te ouvimos no ribeiro
Quando acaso te topamos;
Que mui gabado, e mui raro
Para a coisa de que trata.

CORINO

Canto emfim: que quem dilata
Dizem que quer vender caro.
E pois que em al não mereço,
Quero colher d’isto o fruito.

BIEITO

Tudo o que dizes val muito,
Mas isso só não tem preço.

(Canta Corino)

“Aqui nesta montanha,
Aonde este trajo humilde, e despresado
Dos homens não se extranha;
Aonde só com um cajado,
Vence a fortuna um pobre desarmado;
Aonde não tem valia
As mais custosas pedras do Oriente,
E as riquezas que cria
O mar, que ousadamente
Commetteu cubiçosa, e cega gente;
Aqui n’esta rudeza
Só de humildes pastores escolhida,
Aonde a natureza,
Já menos offendida,
Dá doce amparo á desejada vida;
Aqui meu desengano
Góso contente, e minha liberdade,
Livre d’aquelle dano
Da cega vaidade,
Que corrompeu nos homens a vontade;
Aqui de burel grosso
Me vestirei contente, e esquecido
D’aquelle traje nosso
Tão vão, tão mal trazido,
Dos primeiros principios esquecido.

Qual entre a concha amada
A tartaruga tem quieto abrigo,
Não se teme de nada,
E no maior perigo,
Escondida entre si, vive comsigo;
Tal o meu pensamento
Não quero que á ventura o logar deva;
Que não ha mór isento.
Nem que melhor se atreva,
Que o que tudo, que tem, comsigo leva.
Qual cobra na espessura,
Que deixa entre os espinhos esquecida
A velha vestidura,
E d’ella já despida,
Como anguia no mar, renova a vida;
Assim quando me vejo
Que começo a viver n’esta mudança,
Contento meu desejo,
Troco minha esperança,
Não quero mais de enganos, que a lembrança.
A cauta cotovia,
Vendo o ligeiro imigo, o voo nega;
N’elle não se confia,
Com a terra se apega,
Porque ali com as azas não lhe chega.
D’esta arte se defende
O Pastor despresado da ventura,
Que ella sempre pretende
Descer da mór altura
Quem cuida que no alto se assegura.
Da lã d’este meu gado
Coberto escaparei, terei socego;
Que n’ella disfarçado,
Em perigo mais cego,
Escapou do gigante o cauto grego.

E o meu desejo acceso,
Que encontrando a razão mal se empregava,
Ponha em mãos do despreso
Os bens que procurava,
Da liberdade minha, que era escrava.
Adeus doces enganos;
Já parece razão que vos despida,
Viveis ha muitos annos,
Deixae-me agora a vida,
Que, em quanto a vós tivestes, foi perdida.”

BIEITO

Ah! Corino, quem podera
Dizer agora o que sente,
Se, só com te vêr prezente,
A voz não lhe emmudecera.
Confesso que estou culpado,
Mas não só de atrevido:
Mil vezes te tenho ouvido,
E só agora escuitado.
Quem te trouxe entre pastores,
Aonde esta vida t’extranha?
Que póde dar-te a montanha,
Senão rusticos louvores?
Quem não sabe conhecer-te,
Como saberá presar-te?
Mas ainda acertaste em parte,
Pois vinhas para esconder-te.
Não fieis da serra tanto;
Que al vai de vêl-a a sentil-a:
Torna pastor para a villa,
E serás na villa espanto.
Não apouques ao teu muito,
Não vivas n’estas aldeias,
Aonde entre as ramas alheias
Se não conhece o seu fruito.

CORINO

Louvores mal empregados,
Quando as partes são presentes,
Menos deixam de contentes.
Pastor, que de envergonhados.
Porém te affirmo, Bieito,
Que n’estas nossas montanhas
Ás boas partes, e manhas
Se tem ainda algum respeito.
Que eu já na villa tratei
Muitos mezes, muitos annos,
Trouxe d’ella os desenganos,
Com que aos matos me tornei.
Aprendi muito, e bradavam
Os mestres para ensinar-me:
Ensinaram-me a queixar-me,
Porque todos se queixavam.
Depois de ter conhecido
Homens, e o seu proceder,
Aprendi a me esquecer
De quanto tinha aprendido.
Ouvi gabar esta vida,
Este trajo, este cajado;
Busquei-a agora obrigado
Da que já tinha perdida.
Que ainda cá por esta serra
Se ama o saber; se deseja,
Lá não lhe deixa a inveja,
Lugar, em que estê na terra.
Não se tecem já coroas
Para as partes estimadas;
Entre nós de envergonhadas
Se encolhem as artes boas.

Saber, e conhecimento
Fazem já desmerecer;
De sorte, que o não saber
Serve de merecimento.
Assim que é melhor partido,
Ao que busca o que convém,
Enterrar partes se as tem,
E andar dos outros vestido.

BIEITO

Á fé que não dizes mal
Quem m’o disse hora? qual dia?
Que o bem que perde a valia,
Porque entre os homens não val.
Cresce a virtude louvada,
A planta favorecida,
A vontade agradecida,
E a parreira alevantada.
Fui domingo a vêr a lucta,
E outros com grande alvoroço;
Vim encantado d’um moço,
Que alli cantava em disputa.
Dos pastores mais gabados
Tinha á roda mais de mil,
Que ao som do seu rabil
Estavam como enlevados.
Perguntei, vendo occasião,
Onde, e que gado guardava,
Entre nós? que eu n’isto dava
Primeira fé de affeição.
Eis quando alli se murmura,
Que se ia d’estas aldeias
A buscar terras alheias,
Ou buscar n’ellas ventura.

Engeitou-lhe a natureza
O bem de seu natural;
Então sustenta-se mal
A arte onde se despresa.

CORINO

As hervas que os gados pascem,
E as flôres que os olhos vem,
Mais poderes do sol tem,
Que não da terra onde nascem.
O grão, que na varzea cresce,
Com humidade arrebenta:
O sol cria, o chão sustenta,
Levanta-se e reverdece.
O enxerto já crescido
Com o sol, e agua accommodada,
Se cae sobre elle a geada,
Secca-se murcho, encolhido.
O bom natural é parte,
Que o despreso desanima:
Como a cousa não se estima,
Não podes d’ella prezar-te.
Vi eu d’isto uma pintura
Com arte e modo extremado;
E se inda estou bem lembrado,
Tinha ella esta figura:
Um mancebo que encaminha
Vôar com desejo acceso,
D’uma mão atado um peso,
Na outra umas azas tinha;
Uma livre, outra sujeita,
E dizia a lettra assim:
Se esta pésa contra mim,
Est’outra que me aproveita?

Quanto melhor parecera
Valer menos tudo o mais,
E que ás partes naturaes
A mão, e o favor se déra!
Em que se hão de conhecer
Os homens, se n’isto não?
Que em forças vence o leão,
E outro animal qualquer.
Nas partes que o mundo présa,
Quantas feras vão deante,
No corpo, gesto e semblante
Nas forças, na ligeiresa?
Só no saber as vencemos,
Com elle as senhoreamos;
E quantos n’isto encontramos,
Que nos vencem, não soffremos.
D’isto, em que o mundo se pôz,
Nasce já que os animaes
No que eram tão deseguaes,
Nos podem vencer a nós.
Não posso ter soffrimento
N’esta queixa, e não me val;
Que acanha um baixo metal
A um subido entendimento.
Os homens como pintura
Falam só com o que apparece:
Cada um monta e merece
Pelas mostras da figura.
Dizem que já n’outra edade
Falaram os animaes,
(E eu creio que por signaes
Inda hoje falam verdade).

Ouvi cantar como então
Se fez valente, e temido
Um vil jumento escondido
Nos despojos de um leão.
Emquanto de longe o viam
Os outros, fugiam d’elle;
Eram milagres da pelle
Do rei, a que elles temiam.
Quiz falar, buscou seus damnos,
Que os outros com raiva crúa
Fazem pagar pela sua
Da outra pelle os enganos.
Quantos ha na nossa aldeia
Leões e lobos fingidos,
Que houveram de andar despidos,
Se não fôra a pelle alheia!
Sem sabor, sem consciencia
Andam com ella entre nós,
Conhecem-os pela voz,
Honram-os pela apparencia.

BIEITO

O bom tempo é já perdido;
N’este de agora, em que estamos,
Taes somos, que nos mostramos
Ou no tracto, ou no vestido.
Vendem-se as mostras de fóra;
Al era no tempo antigo;
Deus dê repouso a Rodrigo,
D’isso canta, e d’isto chora.
Eram tempos deseguaes,
Tratava a sorte melhor;
Se ás partes davam louvor,
Não lhe negavam o mais.

Se Franco cantava bem,
Era por isso estimado:
E hoje quiçaes que é culpado
Por essa parte que tem.

CORINO

Muitos annos ha que dura
O queixume em toda a parte,
De vêr que não póde a arte
Vencer em tudo a ventura.
Mas se houve alguns queixosos
N’esses bons tempos passados,
Quantos houve levantados?
Quantos houve venturosos?
Com muitos provára o dito;
Mas calo-os, porque em respeito
Contar poucos é defeito,
E todos fora infinito.
Não demos culpa á edade
Com tudo que é desacerto:
Temos a causa mais perto,
Porque é nossa enfermidade.
Que estes desprezos que vemos,
Do bom saber, da boa arte,
Não se usa em toda a parte,
Que al na terra onde nascemos.
Nas outras ainda se présa;
(E não sei se diga mais)
Nós, e os nossos naturaes
Somos de má natureza.
Queremos grão mal ao bem,
(Se isto se póde dizer)
Sómente pelo querer
A quem o merece, e tem.

Verás um pastor, dotado
De mil graças excellentes,
Andar entre as nossas gentes
Assim como homiziado.
Descontente, e mal vestido,
De encolhido não se atreve;
E assim como o homem, que deve,
Sempre só, sempre escondido.
E a causa, que lhe sobeja,
Porque traz em companhia
Saber, que é mercadoria,
Que deve muito á inveja.
Coitado do passarinho,
Que nasceu no valle escuso,
Aonde nem canta por uso,
Nem ha quem lhe saiba o ninho.
Coitado do que nasceu
N’esta nossa terra ingrata,
Que tão mal conhece e trata
Bens da sorte, e dons do céo.
Que o mais honrado, e mais dino
Pelas partes naturaes,
Não lhe serve de ser mais,
Senão de ser mais mofino.
Sempre cae, sempre periga:
No que ama, no que procura
Faz-lhe acintes a ventura,
Que é declarada inimiga.
De tudo lhe nega o fruito:
Se com pouco se sustenta,
É-lhe do pouco avarenta;
E se de muito, é de muito.

Agua, Fogo, Terra e Ar,
Sol, Estrellas, Austro e Norte,
Tudo lhe negára a sorte,
Se lh’o pudéra negar.
E os homens por condição,
Ao que devem mór corôa,
Se lhe vem vir sorte boa,
Vão-lhe mil vezes á mão.
E qualquer que a causa seja,
É bem baixo o fundamento
Ou de fraco entendimento,
Ou de mui forçosa inveja.
Vão mil por este caminho
De erros qu’eu contar não posso:
Pesa-nos do bem que é nosso,
Quando o vêmos n’um vizinho.
Ouvir qualquer extrangeiro
Falar de seus naturaes,
Dá d’elles tão bons signaes,
Que o não tem por verdadeiro.
Falem-vos n’um natural,
Dizeis faltas que não tem:
Mente o outro para bem;
Nós mentimos para mal.
Deixemos para outra dia
Os queixumes, que é já hora;
Que a meu pesar deixo agora
A elles, e a companhia.

ALEIXO

Da tua é para sentir
A perda: mas bens não duram,
Porque os muitos, que os procuram,
Os tem affeito a fugir.

Comtigo iremos andando,
Que isto tambem foi partido:
E pois o valle é comprido,
Bem podemos ir cantando.
Que eu quero da minha parte
Mostrar que na voz me atrevo:
E se não pago o que devo,
Mostro que não sei pagar-te.

CORINO

Tu farás como eu presumo,
Que é como o melhor da aldeia;

ALEIXO

Ante ti quem não receia?
Quanto mais eu, que o costumo.
Vamos, qu’eu quero ir deante:
Por este caminho estreito
Torna a novilha, Bieito.

CORINO

Chega manso, não se espante.

FIM DO SEGUNDO VOLUME