DIALOGO X
DA MANEIRA DE CONTAR HISTORIAS NA CONVERSAÇÃO
Depois que os amigos se apartaram, e D. Julio se recolheu a casa para repousar, achou n’ella uma occasião de desasocego, que lhe fez perder o somno. Porque lhe trouxe novas um creado, a que tinha encommendada a diligencia, que o prior se partia na manhã seguinte para a cidade, acompanhando aquella formosa peregrina para o recolhimento da clausura a que de tão longe estava affeiçoada: e como elle o ficou tanto de sua vista, e corrido comsigo mesmo dos poucos extremos, que por ella fizera, determinou com a occasião de caçador (que já fôra principio d’aquella ventura) fazer-se encontradiço no caminho, e acompanhar ao prior até o fim da jornada: para o que tirou a luz aos melhores concertos de campo que tinha, e o vestido e galas mais louçãs, com que podia apparecer n’aquelle disfarce, usando o mesmo nos creados que levava. Ao outro dia pôz em execução este pensamento: e deixando para seu tempo o successo que teve, os da conversação o não souberam todo aquelle dia: e quando veiu a noite, que o acharam menos, houve quem désse novas de como o encontrára n’aquella empreza; e com esta occasião começaram a pratica, e disse o doutor:—Sempre ouvi que os cuidados de amor em peitos generosos sahem com seus extremos ao longe; e que então se forçam quando os outros sugeitos desconfiam. Aquelles encarecimentos de meu amigo D. Julio, aquelle silencio e segredo, aquelle respeito de cortezia tão encolhido, parece que apanhava pedras para melhor tempo; e n’este costuma a fazer seus lanços este diabinho do amor, porque tem outros da sua parte, á conta de estorvarem seu bom proposito.—Segundo isso (disse Solino) receiaes que a que engeitou principes mais louros que salmonetes, acceite agora um fidalgo retirado na aldeia, d’onde sahe com as galantarias mais penujentas, que marmelo temporão.—Muitas damas (tornou elle) que engeitaram grandes senhores, não desprezaram grande amor: e outras, a quem offenderam procedimentos ingratos, estimaram de sugeitos mais humildes devidas cortezias.—Não façamos (acudiu Leonardo) offensa aos ausentes; nem a ella demos por arrependida, nem a D. Julio por tão namorado: porém maiores cousas houve no mundo. Tudo podia tecer o amor, e acabar a ventura: e se essa cahira á conta de D. Julio, outra pudera ser peior empregada.—Não estou bem (disse Solino) com a ventura dos casamentos por amores.—Será (respondeu Feliciano) por estardes mal nas muitas, que por elles se alcançaram: e bem pudéra eu a essa conta trazer alguma historia de notavel exemplo, se estas horas não estiveram promettidas a outro exercicio.—Antes a materia, que hontem ficou por acabar (disse Pindaro) era como se havia de haver o cortezão nos contos e historias; e vem a vossa a tempo, que servirá de exemplo, e, o que sobre ella se disser, de doutrina.
—Ainda que isso parece mais concerto de amigos falados (disse Solino) que occasião, digo que tendes justiça, e sou de parecer que vá de historia: mas praza a Deus que não caiaes no atoleiro, de que vos desviastes a primeira noite da nossa conversação.—Bem sabeis (respondeu elle), que em ribeiro grande saltar de traz: e assim primeiro hei de vêr as balizas de meu companheiro, do que caia nas vossas mãos.—Enganaes-vos (replicou Solino), que menos seguro vae o cego do que o moço que o guia.—Não aperteis tanto com os amigos (acudiu Leonardo), ouçamos ao licenciado a sua historia; e quando as pellas vierem a Pindaro, elle as tornará á vossa vista, e direis o que entenderdes.—Outra cousa espero eu (accrescentou o doutor), e é que haveis de passar pela lei que ordenardes, contando tambem a vossa historia, da qual se ha de devassar como das mais: e, por dilatarmos esta menos, diga o licenciado, e declare se vende a sua historia por verdadeira.—Por tal a conto (respondeu elle) e de um auctor mui approvado e verdadeiro, e é a seguinte:
“Na côrte do imperador da Allemanha Oton III, d’este nome, que foi a mais florente, e frequentada de principes, que houve muitos annos antes, e depois n’aquelle imperio, assistia, com grande satisfação de suas partes, Aleramo, filho do duque de Saxonia, mancebo de pouca edade, e de muita gentileza, magnanimo, esforçado, liberal, e tão cheio de graças naturaes, que n’elle, como em um thesouro, parece que as depositara todas a natureza. Tinha o imperador uma filha da mesma edade, e de tanta formosura, que, sem o que a sorte devia a seu nascimento, merecia ter o imperio do mundo: e se em a belleza tinha esta vantagem a todas as damas de Allemanha, ainda lh’a fazia muito maior na discrição, aviso e galanteria. Aleramo, que no serviço do imperador tinha sempre á vista aquelle despertador de pensamentos altos, e que, além dos que a grandeza de seu sangue lhe permittia nos olhos de Adelazia (que este era o nome da princeza) ia aprendendo pouco a pouco a lhe querer muito, foi descobrindo esta vontade, até que foi testemunha de seus effeitos a propria causa. Não se houve por offendida d’este amor Adelazia, por lhe parecer devido á sua gentileza, e natural em um coração magnanimo, e generoso; maiormente que na vista, e fama de Aleramo achava tudo o que podia desejar para um emprego amoroso, ainda que a desegualdade dos estados o defendesse. Foi elle accrescentando o amor, e este gerando atrevimentos, que são as salamandras que n’este fogo se criam; e ella, depois de batalhar com os receios largamente, descobriu ao mancebo sua vontade, encommendando, na fé do que lhe queria, o segredo d’ella, porque bastava para total destruição de suas vidas uma leve suspeita, que o imperador tivesse de seus amores. Continuou muito tempo este segredo, sem ser entendido; e pouco a pouco se apurava a paciencia d’estes dois amantes, tratando em uma amorosa correspondencia seus cuidados, sem outros mensageiros, ou secretarios mais que os seus olhos: eram estes comtudo sem esperança, por quão alheio o imperador estava de consentir n’elles; parecendo-lhe pouco, para os merecimentos d’aquella filha, dar-lhe por esposo o mais rico e poderoso dos reis christãos, quanto mais um filho menor de um seu vassallo. Mas como o poder de amor se mostra em ter em menos conta a maior grandeza, fez tanto com Adelazia, que, esquecendo todos os interesses, offertas e esperanças da fortuna, se determinou de fugir com Aleramo, que, sem respeitar o perigo, se offereceu ao que sua senhora ordenasse. Escolhido o tempo e occasião opportuna, levando ella comsigo as joias de preço que tinha, e elle as cousas de valor que pôde grangear, sahiram da côrte, e andaram em pouco espaço de tempo tanto caminho, quanto lhes foi necessario para pôr em salvo as vidas, a que a ira de Oton ameaçava: o qual achando menos a filha, a quem queria mais que a tudo o da vida, esteve a risco de a perder com sentimento; e mandou logo atalhar as estradas, e caminhos de toda a Europa com bandos e pregões de grandes promessas a quem descobrisse, ou désse novas do roubador de Adelazia: mas ella e seu esposo caminhando a pé contra a parte de Italia em habito de peregrinos, foram ter ao condado de Tirol: e porque o temor de serem conhecidos os desviava sempre do povoado, vieram na montanha a poder de salteadores, que roubando-lhes as joias e dinheiro, que traziam, lhes deixaram sómente as vidas sujeitas a tão grande miseria e pobresa, que lhes foi necessario, para poder sustental-as, andarem pedindo esmola por toda Lombardia de logar em logar, já tão mudados de seu parecer, e gentileza com os trabalhos, que a mudança lhes pudera escusar os de seu receio. Resolvendo-se comtudo de não fazerem assento em Milão, nem em outra cidade imperial, se foram viver a umas montanhas entre Asti e Savona, onde amor e a necessidade lhes ensinaram com os trajos vis a conformar exercicio de que vivessem, que era cortando lenha n’aquelles bosques, fazerem carvão, que vendiam nos logares d’aquelle districto; e com esse sustentavam em vivas brasas o verdadeiro amor, que lhes dava a vida. Alli com a riqueza, de que elle os tinha satisfeitos, contentes de tão saborosa necessidade, com habitos humildes, nomes mudados, e corações conformes, houveram sete filhos varões, que logo nos rostos o pareciam ser de paes illustres, e de um tão amoroso ajuntamento. O maior d’elles, a quem pozeram nome Guilhelmo, começou logo na sua puericia a ajudar a seus progenitores n’aquella miseria, levando o carvão e lenha a vender a Asti, Savona, Alba, e a outros muitos logares, que por alli havia: e como a sua generosa, e natural inclinação vencia a razão daquelle estado miseravel, em que se criára, do que com seu trabalho ganhava n’aquello trato, um dia comprava um punhal, outro uma espada, outro um cão de caça, sem que valessem ao generoso pae as reprehensões com que o persuadia do que convinha mais para sua pobresa. Passaram alguns dias, quando elle veiu com o emprego de todo o cabedal, que levára, em um gavião, a que estava muito affeiçoado, mostrando-o a Adelazia, que com muitas lagrimas lhe disse estas razões: “Bem sei, meu amado Guilhelmo, que com a culpa d’esta tua estranha demasia quer a natureza em parte emendar a fortuna, deitando-lhe em rosto os bens, que te tirou, com o emprego que te ensina a fazer d’estes: mas, se é de animos generosos edificar torres altivas sobre a humildade, não é menor grandeza obedecer ao tempo, e dar logar á sorte, emquanto a sua ira se executa em nossa miseria. Se o espirito te inclina a voar mais alto, lembra-te, filho meu, que não foram menores os pensamentos de quem vive com as azas tão encolhidas n’este deserto; e que esse exercicio, que desejas, não convém com o que usas, tão necessario a teu pae e mãe, que tambem no imperio de Allemanha poderam ter logares mais levantados, se amor quizera. Tem compaixão de mim e d’esta misera pobresa, em que vivo; e antes para sustentar teus pequenos irmãos, e esta mãe, que com tantas difficuldades te criou, emprega teu cuidado, que tomar outros tão improprios a esta vida, quão naturaes a teu generoso sangue e pensamento. E pois os thesouros, que a sorte me guardava, se tornaram neste carvão, de que agora vivo, não levantes com elle chammas de vaidade, que venham a espalhar as faiscas d’este fogo por Allemanha, em cuja opinião está já sepultado nas cinzas frias.” Interneceu-se o illustre moço com as maternas lagrimas; e entendendo que não podia continuar n’aquella vida, nem resistir á sua inclinação, d’alli a poucos mezes desappareceu da montanha, e se foi ao campo imperial fazer soldado; e n’elle em pouco tempo cresceu tanto no esforço e opinião dos homens, que já entre elles e do mesmo imperador era mui conhecido. Sentiram Adelazia e seu marido a ausencia d’este filho com grandes extremos, assim por o grande amor, como porque n’aquelle seu trato humilde os ajudava: mas emquanto os outros irmãos menores se exercitavam no officio, que elle deixára, ía Guilhelmo na guerra dando claros signaes de seu nascimento; e veiu a ser por seu valor tão acceito a seu avô, que para o accrescentar a dignidades, e logares, que por sua pessoa merecia, lhe perguntou quem foram seus paes? Ao que elle respondeu, que eram vivos, allemães de nascimento, mas que viviam pobremente em as montanhas de Savona, posto que não desmereciam por sangue, e ascendencia terem um filho honrado. Desejoso Oton de saber a verdade, e já encaminhado da ventura do animoso mancebo, mandou com elle um particular valido seu para que ambos em companhia troxessem á côrte o pae, e mãe de Guilhelmo com sua familia. Era este privado mui chegado parente de Aleramo: e sabendo no caminho do moço quem era, com um novo espanto e alegria ficou enleado, abraçando com muitas lagrimas ao sobrinho. Chegaram em poucos dias ás montanhas de Savona, á porta da morada pobre dos ricos amantes; e d’alli chamando-o pelo seu proprio nome, causou em toda a humilde morada estranha turbação e sobresalto. Sahiu primeiro fóra, e cheia de um frio temor Adelazia; e conhecendo o filho, que com os ricos vestidos e galas de soldado fazia parecer em tudo maior sua gentilesa, com infinitas lagrimas de alegria o abraçou; chamando ao marido, com os mesmos effeitos o festejou; e conheceu ao primo, em quem o tempo não fizera a mudança, que n’elle os trabalhos de tão estreita vida. Recolheram os hospedes com o agasalhado de sua pobresa. Vieram de noite os filhos de vender a sua mercadoria; e foram n’elles e nos paes tantas as lagrimas de contentamento, que nem davam logar ás palavras, nem ás cortezias. Sabida depois a vontade do imperador, e que era forçado obedecer ao seu mandado, pondo nas mãos da fortuna e nos olhos da piedade real sua esperança, d’alli a poucos dias caminharam; que os leves apparatos da pobresa lhe faziam mais faceis as jornadas, e muito seguros os caminhos. Chegaram á côrte: e lançados aos pés do imperador, elle conheceu de improviso sua filha, e Aleramo: e vendo a fecunda geração d’aquelles sete filhos, que podiam na formosura competir com os planetas, com grande contentamento, e que nadava nas aguas dos seus olhos, os recebeu, perdoando aos paes a culpa, e dando aos netos a satisfação da miseria padecida em seus tenros annos. A Guilhelmo creou marquez de Monferrato, ao segundo de Savona, ao terceiro de Saluzzo, ao quarto de Sena, ao quinto de Inciza, ao sexto de Ponzão, ao setimo do Bosque. E d’estes sete marquezes nasceu generosa descendencia, que enriqueceu Italia, a qual ficou devendo a gloria d’esta nobreza ao verdadeiro amor destes dois amantes: que, ainda que elle encaminhe por asperas difficuldades estes successos, sempre o fim, que por meio de suas obras se alcança, é glorioso.
—Maravilhosa é a historia para exemplo (disse o doutor) e tambem poderá servir d’elle no como se devem contar outras semelhantes, com boa discrição das pessoas, relação dos acontecimentos, razão dos tempos e logares e uma pratica por parte de alguma das figuras, que mova mais a compaixão e piedade; que isto faz dobrar depois a alegria do bom successo.—Sómente (acudiu Leonardo) me pareceu comprida, sendo a materia d’ella muito breve.—Essa differença (lhe tornou Feliciano) me parece que se deve fazer dos contos ás historias; que ellas pedem mais palavras que elles, e dão maior logar ao ornamento e concerto das razões levando-as de maneira, que vão affeiçoando o desejo dos ouvintes: e os contos não querem tanto de rhetorica; porque o principal, em que consistem, é a graça do que fala, e na que tem de seu a cousa que se conta.—Não sou contra esse parecer (disse o doutor); mas antes de averiguarmos a demasia, deixemos logar a que Pindaro comece a sua historia, e não lhe lancemos deante preceitos que lhe façam receio.—Necessaria me era (disse elle) grande confiança para vencer os que tenho, sem me crescerem outros de novo: porque, se antes de ouvir a Feliciano tomára esta empreza, tivera um atrevimento menos culpavel; mas agora será despejo a minha ousadia.—Eu sou (disse elle) o que me corro da desculpa; e posto que me vinha bem que estes senhores acceitassem qualquer das vossas para não ficar tão manifesta a vantagem que me fazeis, não quero que com essa fingida humildade castigueis a confiança, com que me offereci.—Melhor me está obedecer que competir (tornou Pindaro); quero contar uma historia semelhante á vossa, só para me aproveitar do modo que n’ella tivestes: se eu acertar, a vós se deve o louvor de tudo; e se me perder, tambem sereis culpado, por a força que agora me fazeis.
“Manfredo, mancebo bem nascido, a quem em gentileza e discrição ficavam muito inferiores todos os de sua edade, na casa do imperador Constantino III, cujo cortezão era, teve tanta ventura nos olhos de Eurice, filha de Constancio, que depois succedeu no imperio, que lhe parecia a ella que não podia esperar dos fados maior ventura, que a de o alcançar por seu esposo, e gosar em qualquer estado humilde o fructo de sua affeição; triumpho que o amor alcança da vaidade com o favor dos espiritos mais illustres e levantados. O mancebo alheio d’estes pensamentos, porém obrigado das mostras que lhe revelavam aquella affeição, determinou de lhe não ser ingrato; porque além da grandeza de estado, que na opinião dos homens avalia melhor os merecimentos naturaes da cousa amada, era Eurice tão formosa, que de quem no sangue lhe fosse egual merecia os maiores extremos de affeição. Não fazia comtudo Manfredo os que desejava, porque como entendido sabia o risco, em que punha a vida, se se publicasse na côrte este segredo: e posto que não via caminho de poder tirar algum fructo de seu amor, o sustentava sem esperanças com toda a fé, que a Eurice era devida. Passou algum tempo até que em ambos a grande força do amor venceu a razão, e triumphou a vontade do entendimento de Manfredo, que sem outro conselho fugiu com a sua Eurice, em companhia de dois creados que o serviam, de cuja fidelidade tinha feito prova da experiencia. Passaram a Italia: tomaram primeiro terra no reino de Napoles, d’onde foram a Ravena, e d’alli ao districto de Modena, onde agora chamam Mirandola, que eram n’aquelle tempo montanhas incultas, habitadas sómente de alguns pastores: entre estes começaram a viver os dois amantes guardando gado, e fazendo verdadeiros os bem fingidos amores pastoris: tendo, em logar dos paços reaes, tanques e jardins de Constantino, as humildes cabanas, a natural verdura dos floridos valles, e a cristallina corrente das claras fontes: e a troco das galas, sedas e toucados galantes, que deixaram, os simplices vestidos da montanha, as capellas de flôres e boninas, e os surrões e cajados de guardadores: alli pisando com um generoso desprezo a vaidade, livres de ingratos ciumes e enganosas suspeitas, gosavam de seu puro querer, e verdadeiro, sem haver outra cousa que perturbasse aquelle contentamento, mais que o receio de serem por algum modo conhecidos. Manfredo, pouco a pouco desbaratando por via d’aquelles dois creados algumas joias de preço, foi comprando gados e propriedades n’aquellas montanhas em tanta copia que veiu a ser o mais rico morador que n’ellas havia: e por sua riqueza, prudencia e pessoa era tão respeitado e querido de todos, que, como se fôra senhor d’elles lhe obedeciam. Já n’este tempo de sua prosperidade tinha da formosa Eurice copiosa geração; porque do primeiro parto lhe nasceram tres filhos bellissimos, que com os trajos e nomes d’aquella montanha se crearam. Depois lhe foram nascendo cinco, que com a melhoria de seu estado accrescentou nos nomes, chamando a um d’elles do seu proprio; e a duas filhas a uma Eurice e outra Constancia. Com esta generosa familia, e sem outros cuidados, n’aquella doce e amada companhia passavam alegremente a vida sem sobresaltos. Tendo depois Constancio o governo do imperio, passou com grande exercito á Italia, e assentou arraial junto á cidade de Aquileia, aonde todos os povos italianos lhe mandaram por seus embaixadores dar a obediencia. Juntaram-se os moradores de Modena e de seus contornos, e elegeram para esse cargo a Manfredo considerando sua gentileza, cortezania e entendimento, e o poder ir com melhor tratamento de sua pessoa e creados. Houve elle de acceitar o cargo, seguro de ser já conhecido de nenhum dos que em outro tempo haviam tratado, com a mudança dos annos, e da vida que tinha n’aquella aspereza. Mas Eurice com amor e esperança duvidosa, com mil receios deante, lhe dizia: “Não sei, meu querido esposo, que desejo me anima a que consinta n’essa vossa jornada, temendo n’ella tantos perigos assim de serdes conhecido de meu pae, a quem tanto offendestes, como de me deixardes só n’esta montanha, onde vossa presença me sustenta a vida, tendo-me tão mal acostumada, que nem saberei viver uma hora sem vós, nem estar em mim, em quanto vos detiverdes em Aquileia: comtudo um certo presagio da ventura me aconselha que não tema este damno: e considero que não fôra muito menor, se me levareis em vossa companhia, para que quando a sorte quizesse que, sendo do imperador descoberto o nosso segredo, vos accommettesse a sua ira, ou o movessem minhas lagrimas á piedade, ou, havendo de haver algum risco com vossa vida, a padecesse a minha de um mesmo golpe. Aconselhae-me, caro Manfredo, o que farei, tomando as minhas partes contra vossa propria determinação; que me não deixa amor fazer a escolha; nem os receios em que tropeço me dão caminho e logar para que acerte. Porque se a ventura me busca para me restituir o que deixei em seu poder, quando no querer do amor puz minhas esperanças, não quero faltar-lhe pelo que vos quero: e se pelo contrario quer tomar vingança do despreso com que tratei suas prosperidades, justo é que se desvie dos castigos quem se soube esconder de seus favores.“—Estas e outras palavras piedosas lhe dizia Eurice; a que elle com outras de muita segurança respondia, e a animava a que não podia temer nenhum successo desencaminhado; desfazendo-lhe com boas razões o seu feminino receio: com estas e outras de muito amor e saudade se despediram. Ella ficou chorando sua ausencia: elle chegou a Basyléa; e houve-se com tanto aviso e cortezania na embaixada, que o imperador lhe ficou affeiçoado, e o fez gentil homem de sua casa, mandando-lhe que ficasse n’ella em seu serviço com promessas e palavras mui compridas. Houve Manfredo de acceitar o novo cargo, por não mover alguma suspeita que sahisse em seu damno. Escreveu logo a Eurice o que passava; e ella começou com novo sentimento e devidos extremos a chorar sua ausencia e sua privança; mal, que só sabe receiar quem conhece a mudança e perigo de vontades; que sempre as mais levantadas são mais mudaveis e ligeiras, e os da inveja que sempre como sombra acompanha os validos. O imperador cada dia cobrava a Manfredo maior affeição, achando no seu entendimento e humildade tudo o que em todos buscava; elle admittido nos conselhos e nas occasiões de maior importancia ia crescendo; mas como estes bens lhe impediam o maior da vida, que era a sua Eurice, não recebia d’elles contentamento, nem os tinha por ventura. A mulher da mesma maneira vivia em pena naquella montanha, que d’antes lhe parecia um paraiso terrestre; e como sentia egualmente os cuidados de Manfredo e a sua ausencia, para o alliviar dos da côrte, lhe mandou Fantulo e Manfredo seus filhos menores a visital-o, porque a estes mostrava elle maior affeição; e eram elles taes por seu parecer, que a todos os que os vissem a mereciam. O pae ainda que com amorosos extremos os festejou; combatido de um novo receio, estava turbado, porque era o do seu nome tão parecido a Constancio, que temia que na vista désse occasião de alguma lembrança que descobrisse o segredo de sua culpa. E como a vinda dos meninos foi sabida de muitos, e o imperador os havia de vêr pela graça que já tinha a seu pae, elle mesmo se quiz oppôr ao perigo, e lh’os foi apresentar com toda a humildade. O avô os recebeu com estranha alegria; que ás vezes a natureza com estes effeitos descobre os segredos do tempo, e acaba o que não póde levar ao fim a industria humana. O pae como discreto sabia escolher as occasiões; que este é o mais verdadeiro toque do entendimento. Entrando com o imperador e com os filhos em um aposento particular, lançado a seus pés lhe disse estas palavras: “Não é justo, poderoso senhor, que á conta de salvar a vida, e de escusar n’ella o castigo que meus erros merecem, tire a esses innocentes o merecimento e o favor de vossa graça, com que agora podem tornar atraz a fortuna: e assim com a confiança em vossa piedade e menos seguro ao perdão, que obrigado do muito que vos devo, confesso minha culpa, pedindo com estes meninos misericordia, que para si e para sua mãe e irmãos estão com caricias pueris grangeando a vossa vontade. Sabei, piedoso senhor, que são netos vossos, filhos de Eurice, vossa filha e meus; que, sendo desposado com ella secretamente, por fugir ao rigor da vossa ira, vivo ha tantos annos nas asperas penedias e incultas montanhas de Modena, fazendo penitencia de minha ousadia com o mesmo amor, que foi o culpado. Se esta confissão, com o pesar de vos haver offendido, merece que useis commigo de brandura, lançado a vossos pés peço perdão, tomando por padrinhos a estes caros penhores do sangue vosso: e se pelo contrario se ha de empregar o vosso rigor em sujeito tão vencido, aqui me tendes com a vontade offerecida para os maiores tormentos da crueldade.” O imperador com um estranho sobresalto ficou enleiado sem saber determinar: e pondo os olhos n’aquelles bellos retratos da sua Eurice, abrandou a ira, com que os havia de pôr em Manfredo, reconhecendo-os por seus netos, e perdoando ao pae a culpa commettida. Depois foi elle proprio ás montanhas a vêr a Eurice, e á venturosa progenie que creára; a quem com muitas lagrimas de alegria recebeu em sua graça: e alli fez a Manfredo conde e marquez de todo aquelle districto, que fica entre os rios Pado, Tanaro e Sequia, dando-lhe poder para edificar villas, castellos e cidades, que accrescentasse a seu senhorio: mandou que elle, seus netos, e todos da sua descendencia, trouxessem por armas a aguia negra dos imperadores. E por admiravel progenie da sua Eurice pôz á terra Miranda, que depois chamaram vulgarmente Mirandola. Manfredo e sua mulher em vida de Constancio seguiram a côrte com grande accrescentamento de estados: e depois que falcou no imperio, se recolheram ao seu marquezado, fazendo muitas povoações e cidades, em que seus filhos succederam, alliando-se depois com todos os potentados de Italia e de Allemanha, que dão ainda verdadeiro testemunho de que os casamentos por amor nem podem ser extranhados da natureza, nem desfavorecidos, por a maior parte, da ventura.
—Ambos (disse Solino), me parece que podereis partir a fogaça, porque vos houvestes de maneira, que o que se atrever a julgar a melhoria, tomará tão difficultosa empreza, como seria a de querer agora competir com a boa linguagem e modo que tivestes.—Entendo (tornou Leonardo) que chegais braza á vossa sardinha: mas não a haveis de tirar do fogo com a mão do gato, nem livrar a vossa obrigação, com a que nós tenhamos de dar a Feliciano e Pindaro louvores tão bem merecidos. Nenhuma razão tendes para não fazer no terreiro vossa cortezia.—Eu sou de voto (disse o doutor), que lhe aceitemos qualquer escusa, porque a sua rhetorica serve mais aos contos, que ás historias, segundo disse o Licenciado.—Grande aggravo se lhe faz (disse Pindaro) em o tirarem da conta dos historiadores, que elle se confessou por esse, e por affeiçoado aos livros de cavallarias; e além dos seus contos engraçados sabe tantas historias, que a ser figura de arithmetica, poderá ser conto de contos.—Bem sei (respondeu Solino) que me sommais para me diminuir: ainda que a meu pesar confesso que, se a historia de cada um de vós me cahira nas mãos, houvera de sahir d’ellas com mais bordões, e muletas do que tem uma casa de romaria, porque me não escapam termos das velhas, nem remendos dos descuidados que lhe não misture.—Quando menos (disse o doutor) ouçamos isso, ficará á vossa conta o exemplo do que se ha de fugir, pois os dois amigos nos ensinarão a acertar.—Tambem errar por obrigação é difficultoso, (replicou elle) mas aceito o partido, por vender por alheios meus erros proprios. E ouvi o que passa: farei de um peão dama, e de um conto historia por ser mais breve:
“Dizem que era um rei: vem este rei casou por amores com a filha de um seu vassallo: era ella tão formosa que podia por sua belleza ser confiada, pois por essa alcançára o ser rainha: mas sem lhe valerem esses privilegios deu em tão ciosa, que bem a mão não dava o marido um passo que ella não acompanhasse com as suspeitas; assim que apertavam estas tanto com ella, que já mais vivia em paz com seu gosto. Vem ella, e por vencer esta desconfiança vai, e manda secretamente chamar uma feiticeira, que n’aquella terra havia de muita fama, em cujo engano achavam os namorados uma botica de remedios para seus males. Assim que dizia: esta feiticeira por lhe vender mais cara sua diligencia, feitas algumas fingidas, metteu em cabeça á boa da rainha que o marido amava com grande extremo a uma criada sua, que ella pintou logo a mais galante, airosa e bem assombrada que havia no paço. Quando ella aquillo ouviu ficou guarde-nos Deus! como uma mulher transportada, e sem sangue; por maneira, que prometteu áquella feiticeira que lhe faria e aconteceria, se desaffeiçoasse ao rei d’aquelles amores, e empregasse n’ella todos os seus: a outra, que não queria mais que aquillo, vede vós como ficaria contente; vem, e promette á rainha que lhe daria tres aguas conficionadas de tal maneira, que uma, tanto que el-rei a provasse, bebesse logo os ventos por ella, e lhe quizesse mais que o lume dos olhos, com que a via; a outra, que, em a rainha a bebendo, parecesse a seu marido o maior extremo de formosura que havia no mundo; a terceira que, tanto que a dama a bebesse, a desfigurasse de maneira, que a todos aborrecesse a sua vista. As palavras não eram ditas, a rainha lhe deu muitos haveres, e fez grandes mercês e promessas; que muito facil é de enganar a que deseja aquillo, com que lhe mentem. Vai a feiticeira d’alli a poucos dias, e traz aquellas aguas conficionadas, encarecendo muito a virtude, e segredo d’ellas: mas ou porque lhes errou a tempera, ou porque todas se resolvem n’estas boas obras, a mudança que ella queria que houvesse na vontade, e nos pareceres, lhe houveram de fazer na vida; que a peçonha, que é sempre material dos seus unguentos, penetrou de maneira que os teve a todos tres em passamento; e a bom livrar ficaram d’ahi a poucos dias sem juizo. Ainda bem a feiticeira não soube o damno que fizera, e que, por não trazer a mão certa n’aquelles adubos, podia vir a estado de a pôrem nas da justiça, desappareceu. Eis senão quando se juntaram todos os medicos eminentes, que havia no Reino; e depois de muitos mezes de cura, (olhai vós quantas se fariam a taes pessoas) foram pouco e pouco cobrando os sentidos e entendimentos; e com a força do mal lhes cahiu a todos o cabello da cabeça sem lhes ficar um só. E não foi tão ruim o partido, como era ter cabeça sem elle quem antes o trazia sem ella. Tornando ao meu proposito, tanto que a rainha se viu tão desfigurada, conhecendo o desatino que fizera, dando todas as culpas a amor, confessou seu erro, a criada sua innocencia, e o rei sua desgraça: d’alli adiante, conformando-se com o exemplo daquelle successo fizeram vida sem ciumes: que d’elles e de casamentos por amores não escapam senão ou com as mãos nos cabellos, ou com elles pellados.”
Festejáram os amigos a historia de Solino, porque se conformava no modo e acção de falar com o que dizia; e como tinha graça, até os erros lhes pareciam bem. E assim lhe disse o doutor:—Tudo vos succede a pedir por boca, porque na vossa até o exemplo do que nos outros enfada tem graça para dar contentamento; e posto que as duas historias passadas foram tão primas, não desdizem d’ellas os vossos bordões.—Se eu não tivera o de vossa auctoridade para me sustentar (respondeu elle) manquejára em tudo.—Em nada (proseguiu elle) haveis de mister favor alheio, e menos n’este particular, em que entrais com todo o cabedal que requer uma historia, que é boa linguagem, discrição natural, relação ordenada, praticas com piedade, successos com brevidade, sentenças com que se auctorise, e graça com que se conte. Porém são horas de deixarmos esta, e darmos as suas ao repouso da noite.
Com isto se levantaram continuando com a mesma pratica até á escada; que das coisas, que dão satisfação á vontade, não se sabem despedir as razões.