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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) cover

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)

Chapter 5: DIALOGO XI DOS CONTOS, E DITOS GRACIOSOS E AGUDOS NA CONVERSAÇÃO
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About This Book

A series of dialogues offers practical guidance on spoken language and social conduct, stressing clarity and a measured balance between prolixity and excessive brevity. It critiques ornate or obscure phrasing, warns against overconfidence and careless or untimely remarks that may offend listeners, and urges attention to audience and context when using foreign terms or recounting distant stories. The conversation also examines polite naming practices and the risks of gossip, then treats salt as a metaphor for wit and grace that enlivens conversation, adding cultural and natural reflections on its preserving and symbolic properties.

DIALOGO XI
DOS CONTOS, E DITOS GRACIOSOS E AGUDOS NA CONVERSAÇÃO

No dia seguinte, antes das horas em que os amigos se haviam de ajuntar para a conversação, Leonardo e os mais tiveram recados de D. Julio, em que lhes fazia a saber que chegara doente, e que tinha por hospede ao prior com outro irmão seu: que receberia de todos grande mercê em quererem juntar-se aquella noite em sua casa, porque só com este remedio daria allivio ao mal que trouxera da cidade. Elles, que (além de a petição ser justa) eram interessados em sua saúde, amigos e obrigados a o visitarem, ouviram que lhe deviam obedecer. Solino acompanhou a Leonardo: e não faltaram no caminho murmurações discretas, nem em o doutor, e os estudantes juizos temerarios. Acharam a D. Julio na cama, o prior junto a ella, e o irmão, que era homem mancebo, bem afigurado, e que no trajo vestia mais ao soldado, que ao cortezão. Sentados todos depois de lhe fazerem cortezia, e comprimentos devidos, disse Leonardo:—Bem me parece, senhor D. Julio, que estaes já tão aldeão com a nossa companhia, que vos apalpam os ares da cidade; e que os regalos d’ella fizeram que o senhor prior se esquecesse d’aquella sua estalagem tão cheia de vontade para o servir.—Onde vós estaes (respondeu D. Julio) é a côrte; e a falta d’esta me podia fazer aldeão. Do senhor prior fazer a troca por esta noite, tive eu a culpa; porque com esta condição acceitei em terra alheia a sua pousada nas casas do sr. Alberto seu irmão, a quem tambem obriguei a que me fizesse esta mercê.—Não me desculpo (accudiu o prior) porque tudo o sr. D. Julio tomou á sua conta: porém em occasião estaes de haver muitas, em que mudeis o queixume, fazendo-o antes de minha importunação sobeja, que d’essa falta: porque vem apostado meu irmão, pelo que lhe contei, a perder poucas noites d’esta aldeia, em quanto as tiverdes tão boas como duas que me aconteceram.—Assim (disse o doutor) serão ellas melhores, porque com vossa presença, autoridade e discrição, e com favores seus, ficarão melhor assombradas; terá saúde este fidalgo, e então vos convidaremos para a primeira; que ainda não sabemos de que vem maltratado.—Do meu achaque (disse elle) tive eu a culpa, que me entreguei hontem mais, do que era razão, na ceia; porque foi de pescado e marisco, e doces; e como cresceu com a novidade o appetite, quiz-se forrar á custa do estomago de quantas vezes nos faltam semelhantes regalos n’este logar; e certo que tive um accidente muito rijo, e não podia com o cansaço, que me deixou sem vossa vista, e d’estes senhores; e por isso me vali do atrevimento do recado.—O allivio (disse o doutor) é tanto em favor nosso, que, a ser menor o mal, consentiramos n’elle.—Maiormente (accudiu Solino) se é o que eu cuido, que como experimentado de ordinario, julgo mais a enfermidade pelo pulso, que pela informação.—Não parece que vol-o deve offerecer quem a tem tão boa de vossa malicia, (tornou o fidalgo).—Antes estou tão emendado em alguma, que vol-o pareceu (replicou Solino) que já não suspeito senão o que é.—Tarde vos mettestes n’essa recoleta (disse o doutor) e os que em velhos começam a ser bons, pouco tempo lhes fica para usarem da virtude.—Não sei logo (lhe respondeu elle) como, sabendo isso, vos descuidastes tanto, que nunca para uma murmuração vos achei descalço.—Parece-me (disse D. Julio) que será bom que o mais fraco aparte esta briga com pedir que me façaes mercê de me dizer em que se passou hontem entre vós a noite.—Parte (disse Solino) em cuidar em como passarieis o dia, e na grande falta que nos fizestes; a outra em dizer como se haviam de contar as historias na conversação; e n’aquella se disseram duas para negaças, e uma para espantalho; ficou para continuar a materia de contos graciosos, ditos agudos e galantes: tereis vós saude logo, e nós com ella gosto para proseguir, e ouvirão estes senhores o que não cuidaram.—Não me ponhaes vós isso em dilação (disse o fidalgo) que antes em quanto mal disposto quero, como dizem, accrescentar esta noite á vida; e se m’a desejaes como amigo, sabei que n’isto a tenho.—Se como a doente (respondeu Solino) vos houverem de fazer a vontade, não sei se fôra esta. Com tudo, ao menos para divertir, comece o doutor; que eu aqui trago as armas, com que costumo accudir a esta guerra; e cada um diga o seu conto, e conte o seu dito, encommendando a todos que riam do que eu disser, porque é vicio, dos que cuidam que tem graça, a desconfiança.—Tambem essa me parece, (accudiu o doutor) e dando-vos a obediencia por servir ao senhor D. Julio: A noite, em que nos faltou sua presença, se tocou n’esta conversação o modo que havia de ter o discreto em contar uma historia; fugindo muitos vicios, e bordões que os nescios tem n’ellas introduzidos; e como em dependencia d’esta materia se falou nos contos galantes, que tem d’ellas muito grande differença; pois elles não consistem em mais, que em dizer com breves e boas palavras uma cousa succedida graciosamente. São estes contos de tres maneiras: uns fundados em descuidos, e desattentos: outros em mera ignorancia: outros em engano e subtileza. Os primeiros e segundos tem mais graça, e provocam mais a riso, e constam de menos razões, porque sómente se conta o caso, dizendo o cortezão com graça propria os erros alheios. Os terceiros soffrem mais palavras, porque deve o que conta referir como se houve o discreto com o outro que o era menos, ou que na occasião ficou mais enganado. E porque n’isto declaram menos as regras, que os exemplos, diga cada um o seu; que eu, por desimpedir o caminho, quero que passe por conto o que me aconteceu ha poucos dias:

“Fui a casa de um letrado meu amigo, a quem achei mui colerico, tirando pelas orelhas ao seu moço, que se desculpava, chorando, que não sabia de uns oculos, por que perguntava: olhei, e vi que tinha uns no nariz presos; perguntei-lhe se eram aquelles: o letrado ficou corrido, porque, tendo-os nos olhos, os não via; e o moço queixoso, porque as suas orelhas pagavam a pena que as do letrado mereciam.”

—Esse desattento (disse Leonardo) é muito ordinario nos escrivães que buscarão duas horas na mesa, e nos papeis a penna que trazem na orelha. Mas para desattento, e descuido: o que n’este logar aconteceu ha muitos annos a um cortezão que aqui vivia, que tendo uns amores humildes, que tratava com muito segredo, tinha um relogio de peito que trazia tão esperto, e bem temperado, que fazia horas quasi a todos os moradores d’este logar. Desattentou, e estando com elle ao pescoço uma noite em casa da delinquente, deu o relogio meia noite: e ás escuras manifestou a toda a visinhança a verdade, que até então escondera dos olhos, e suspeitas de todos.—Ainda (disse o prior) me parece peor o successo de um meu conhecido, que em um bairro de pouca visinhança tinha em Lisboa amores com uma moça que lhe estava já affeiçoada; falava-lhe de noite de uma janella, e ambos se temiam de outra, d’onde um visinho de parede em meio os espreitava: por se livrar d’este inconveniente, deu-lhe a moça ponto para uma noite lhe falar de mais perto, entrando pela janella, fazendo primeiro certo signal, com que ella havia de accudir. Buscou elle para isto uma noite chuvosa, e escura, poz sua escada, subiu; e errando a barreira, foi bater e fazer o signal na janella de que se vigiavam. Accudiu o visinho, e abrindo-a, viu o namorado seu erro á candeia; e com o sobresalto d’esta desgraça, cahiu com a escada e com o segredo na lama.

Festejáram todos o conto com muito riso. E disse Solino:—N’este mesmo logar conheci um galante, que falava muitas noites de pé da janella a uma dama, com quem tinha amores; e assim em vendo visinhança recolhida, e logar quieto, disfarçando-se com os moveis, que para aquelle mister tinha apparelhados, vigiando todos os portos por onde podiam contraminar a cautella do seu segredo, se vinha ao posto. Uma noite, que lhe não coube vez senão perto da madrugada, falando a moça com elle, sentiu dentro reboliço; e por não ser sentida, pediu-lhe que se encobrisse com a sombra, e que ella tornaria a lhe fazer signal, como tudo se aquietasse. Sentou-se elle em uma pedra; e a moça vendo o negocio mal parado, por desmentir algumas suspeitas se foi lançar na cama: o galante, que como estava trasnoitado achou branda a em que se recolhera, adormeceu com tão boa vontade, que já alto dia foi achado como Leandro na praia de Césto, dormindo com o trajo de outras horas, espada núa, e rodela mal vestida, sem dar acordo; até que, depois de estar á vergonha, um amigo o recolheu a casa, e a dama padeceu a esta conta muitas, que costumam a ser o ganho d’estes empregos.

Com egual alegria foi recebido este conto, que o do prior: e disse Leonardo a Feliciano, e a Pindaro, que pois elles tinham dado exemplo dos contos de descuido, e desattento, a elles ambos tocavam os da ignorancia.—Não nos guardastes para bom logar (tornou Pindaro) porque mais convinha aos mancebos contarem descuidos e desattentos dos velhos, que ignorancias suas: mas para que saibaes que não faltam umas e outras culpas n’essa edade, me não escuso.

Um homem de melhor parecer e estatura, que entendimento, se apartou a viver alguns annos longe da cidade em um monte, onde além de tratar pouco do culto de sua pessoa, com o ar dos matos, o discurso da edade, e algumas enfermidades que tivera, estava do rosto e das feições mui dissimilhado; vindo depois com nova occasião a viver á terra, d’onde sahira, querendo-se vestir, e concertar ao galante, mandou que lhe comprassem um espelho: fez o creado dilligencia, e não achou nenhum de que se satisfizesse o amo, tendo provado muitos, ou quasi todos os que havia: e perguntando-lhe porque os engeitava, respondeu: “Porque fazem tão mau rosto, e tão avelhantado, que se não pode um homem de bem vêr a elles; e ha poucos annos que os havia n’esta terra tão excellentes, que me faziam o rosto como de um anjo.” Riu-se o moço dizendo entre si: “Mais se desconhece meu amo por ignorante, que por mal visto; pois ao espelho põe a culpa que tiveram montes, e a edade.”

—Outro (disse Feliciano) tão fraco de animo como de entendimento, passando em sua casa de uma para outra, com uma porcelana de sangue que levava para certo effeito, acertou de tropeçar na porta por onde entrava, e entornou-se-lhe o sangue pelas mãos: e accudindo logo com ellas ao chapéo, que lhe cahia, encheu a testa de sangue que lhe corria em gôttas sobre o rosto: um filho, que olhando para elle o viu ensanguentado, começou com grandes gritos e choros a chamar sua mãe; a qual, tanto que achou o marido d’aquella maneira, com as mãos nos cabellos pranteava sua desaventura: elle ouvindo os gritos de todos, sem saber o que era, cahiu esmorecido na casa, onde podera morrer de nescio, como outros morrem de mal feridos.

Pareceu muito galante, e provocou a todos riso o conto de Feliciano; e proseguiu o doutor dizendo:—Os contos da ignorancia tem mais graça, que os da malicia; e assim dizia um discreto que só a parvoice com auctoridade era sem sabor; que não pode ser maior galanteria, que um engeitar ao sirgueiro o chapéo porque não tinha a rosa para deante, podendo-a elle voltar para onde quizesse: o outro espantar-se muito de lhe não tingirem umas meias negras de verde, sendo assim que havia pouco tempo que umas verdes lhe tingiram de negro: e o outro, que para não perder a chave do cadeado, a metteu dentro na canastra encourada antes de o fechar; e depois lhe foi necessario quebrar a elle, ou romper a ella para tirar a chave: e muitas semelhantes, que contar agora seria infinito.—Ainda (accudiu D. Julio) haveis de dar licença ao conto de um meu conhecido, que ouvindo falar que havia antipodas, e que andavam com os pés para os nossos, o não pude persuadir de que modo podia estar esta gente, sem cahir de cabeça abaixo, andando ás avessas.—Todos esses (disse Leonardo) são extremados; porém os de engano, se tem menos occasião de provocar a riso, tem a graça mais viva na subtileza e malicia; e quando a materia é graciosa, levam a todos os outros muita vantagem. “Um amigo meu era mui regalado de doces; e no tempo das flôres e das fructas mandava fazer em sua casa muita variedade d’elles: uma das creadas, com que se servia, era tão gulosa, que, em vendo boccados a enxugar, não se aquietava até tomar a sua ração, que era cercealos a todos como a reales. Desejando o senhor de saber qual dos seus moços, ou creadas, lhe fazia aquella travessura, mandou fazer certos boccados com azebre, cobertos de assucar; e, postos ao sol, deu mais logar á moça, que accudindo ao reclamo, fez seu lanço; e como logo se quiz aproveitar do ponto, foi tão grande o amargor na bôcca, que o não poude encobrir: fazendo muitas diligencias, começou a dar signaes, e a agastar-se: o amo fingindo suspeitas de peçonha, metteu toda a casa em revolta, e a moça em desconfiança, fazendo-a beber azeite, e tomar outros defensivos: porém como elle não podia encobrir o riso de a tomar na empreza com aquelle engano, entendeu ella o que seria; e por remediar sua falta, fingindo estar atribulada, disse que lhe declarassem se morria, porque havia de deixar culpado quem a convidara com aquelle doce, por ella não descobrir os que lhe vira muitas vezes furtar dos taboleiros: e d’este modo remedeou seu erro, deixando ao amo na mesma duvida que tinha d’antes.”—Um estudante (disse Feliciano) que entre outros era hospede em casa de um amigo, jazendo todos na cama, por ser o tempo de verão, elle que era menos corrido, que engraçado, lhes disse: Não se riam vossas mercês tanto do meu pé, que apostarei que ha na companhia outro peior: cada um fiado nos seus, zombava, e sahia á aposta, de maneira que a fizeram que, se elle o mostrasse, ganharia certo preço, ou perderia outra egual valia: feita a aposta, tirou elle o pé esquerdo, que tinha escondido, que por calçar mais dois pontos, que o outro, tinha os dedos em arcos, tão tortos, e cheios de cravos, e o pé de joanetes, que não parecia natural: e assim ganhou, com muito riso de todos, o que tinha apostado.“—Outro estudante do meu tempo (proseguiu Pindaro) passando parte de uma noite de inverno em casa de um amigo, que morava perto do rio, choveu tanta agua, e cresceu com tanta furia o Mondego, que lançou por fóra, e fez ilha das casas do estudante: o hospede esperava que o convidasse a ficar; e o amigo não tinha essa vontade, porque temia a roupa de alguns males contagiosos, que d’elle suspeitava: estiveram assim grande espaço da noite, sem cessar a chuva, até que o senhor da casa começou a bocejar, e o hospede a se despir: e perguntando-lhe o amigo para que se despia? respondeu: Que ou para nadar, ou para se lançar na cama. Vendo-se elle apertado, respondeu: Pois assim é; alli tendes uma taboa, ou vos salvae nella, ou fazei d’ella cama em que vos lanceis.”—Esse conto (accudiu Solino) tem o pé em duas raias, ou parte com dois termos, que consta de dito, e de feito; mas passe sem sello, por ser vosso.—Signal é (respondeu elle) que vos não deve direitos. Então gabaram todos os contos, e disse o doutor:—Além d’estas tres ordens de contos, de que tenho falado, ha outros muito graciosos, e galantes, que, por serem de descuidos de pessoas, em que havia em todas as cousas de haver maior cuidado, nem são dignos de entrar em regra, nem de serem trazidos por exemplo: a geral é que o desattento, ou a ignorancia d’onde menos se espera, tem maior graça. Atraz dos contos graciosos se seguem outros de subtileza, como são furtos, enganos de guerra, outros de medos, phantasmas, esforço, liberdade, desprezo, largueza, e outros semelhantes, que obrigam mais a espanto, que a alegria; e posto que se devem todos contar com o mesmo termo, e linguagem, se devem n’elles usar palavras mais graves que risonhas.—Não era essa materia (disse D. Julio) para se passar por ella tão apressadamente; porém já que no fim da noite, em que me eu apartei, se tratava do sal; parece que sinto menos a falta da que perdi, com vos achar ainda agora n’esta graça, como dependencia do que então se falou; que não a pode haver melhor acceita que a dos ditos agudos e galantes: assim que não havemos de consentir que o doutor se divirta para outra cousa.—Eu não posso (disse elle) sahir de vosso gosto; porém a materia não era para tão de repente, nem para tão breve tempo como se requere que seja o da visita. Porque primeiramente, dito, na significação portugueza tomamos por cousa bem dita, ou seja grave, como o são as sentenças; ou aguda, e maliciosa, como o são as de que agora tratamos: e chama-se dito, porque dizem uma só palavra, ou muito poucas muito de entendimento, de graça, ou de malicia. E deixando a sentença, que terá em outro dia o seu logar, os ditos agudos consistem em mudar o sentido a uma palavra para dizer outra cousa, ou em mudar alguma lettra, ou accento á palavra para lhe dar outro sentido; ou em um som e graça, com que nas mesmas cousas muda a tenção do que as diz: e de uns e outros os mais engraçados, e excellentes são os de respostas; porque além de estas serem mais apressadas, e tão de repente, que tomam entre portas o entendimento; tem materia sem suspeita nas perguntas.

Dos da primeira especie não tem pouca graça os que dizem sobre os nomes proprios, como aconteceu a um cortezão, que, perguntando a um amigo pelo nome de uma dama da côrte, a quem visitavam infinitos galantes, lhe respondeu que se chamava N. do Valle. Deve ser (tornou elle) o de Josaphat, segundo a gente que corre para esta parte. Nenhuma me parece (replicou o outro) que vem a juizo; porque nem ella o tem, nem os que a buscam.—Esse dito (disse o prior) tem a graça dobrada em ambas as pessoas: porém um cortezão galante, e de muita idade, visitando a uma sobrinha sua, que estava desposada com um N. do Carvalhal, homem muito velho, e senhor de um morgado rico, lhe disse: Sobrinha, o que vos mais releva é que tireis d’esse tronco algum enxerto, que fique preso; por isso não vos descuideis; e quando não puder ser de Carvalhal, seja de Cornicabra. “Todos festejáram muito o dito: e proseguiu Leonardo:—Um amigo meu tinha uma amiga muito magra e comprida, a que chamavam N. Quaresma; e queixando-se uma sexta feira de falta de pescado, lhe disse outro: Quem se atreve a uma Quaresma tão estreita e comprida, porque receia uma sexta feira? Porque (respondeu elle) tenho a quaresma por carnal, e a sexta feira por dia de quaresma.—A graça na mudança das letras, ou accento (disse D. Julio) não é pouco galante; como aconteceu a um mancebo, que vendo uma moça á janella, que lhe pareceu bem, sem ter d’ella outra noticia a namorava, mui embebido em sua gentilesa: passou um amigo, que vendo-o acenar lhe disse: Que quereis a essa moça? Se ella quizesse (respondeu elle) tomal-a por minha dama. Cuidei (tornou o outro) que por ama; porque há poucos mezes que pariu. Tambem por esse caminho me parece gracioso o dito de uma mulher, que não tratava bem de obras a honra de seu marido, e elle muito mal de palavras a de toda sua visinhança: era o seu nome d’elle N. Ramos; e pondo-se um dia em praticas com a mulher, começou a contar com ella todos os cornudos que havia no seu bairro: a mulher com raiva da sua má natureza, a cada passo dizia: Erramos marido; tornai a contar, que falta um. Elle, que entendia mal o remoque, sem se meter na conta, a tornava a fazer de novo muitas vezes.—Ainda que o dito é mui sabido (tornou Pindaro) não vem fóra da razão n’este logar; nem se deve negar tambem a outro, de um cortezão engraçado, que levando-o um alcaide preso diante de certo julgador, por trazer seda contra a pragmatica; e allegando que era homem nobre; lhe disse o juiz, que, pois o era, porque não trazia o que devia?—Antes (respondeu elle) o faço assim, porque ainda devo tudo o que trago. Sabei, senhor (tornou elle) que se vos fez a divida maior, pois o tomam por perdido.—Por perdido (disse elle) m’o poderá tomar seu dono: mas pois vossa mercê o quer julgar ao alcaide, requeiro que lhe passe com seus encargos.—Outros ditos ha engraçados a essa similhança (proseguiu o doutor) que só na mudança dos sentidos das coisas (como já disse) tem a galanteria; como o que aconteceu ha poucos mezes a uma donzella, que servio seis a uma Dona mui miseravel de condição, a qual a despediu sem mais galardão, que um vestido de serguilha, a que chamam cilicio. E perguntando-lhe uma senhora: Como vos pagou N. o tempo que a servistes? Pagou-me (respondeu a moça) como um confessor, com este cilicio, e seis mezes de pão, e agua.” E porque disse que de uns, e outros os melhores consistiam na graça de uma boa resposta; e quasi todos, os que aqui se disseram, o parecem, me quero declarar assim com razões, como com algum exemplo, que as declare. Resposta aguda ha, que como esta, e outras, que ficam ditas, agradam muito, porem não incluem a brevidade das que fazem a sentença com as palavras da pergunta. “Um cortezão fallando de outro, que alcançára por sua valia muitos logares honrados, e perdera um, em que tinha empenhado todo o seu cabedal, por ser de humilde geração, perguntava a um amigo: Se N. sempre acertou até agora em suas pretenções, como n’esta, que mais lhe importava, errou? Respondeu o outro: foi por baixo.” “A outro, que vivera muito tempo na privança de um senhor com grande prosperidade, vendo-o depois um amigo em estado miseravel, lhe perguntou: Como de tanta altura descestes da graça de N. a esta miseria? Ao que elle respondeu: Cahi.”—Ainda (disse o irmão do prior) que em querer dar minha razão seja atrevido, a profissão de soldado me desculpa; entre os quaes até a temeridade é digna de louvor. Mas em Flandres, onde andei na milicia hespanhola alguns annos, acudiam muitos doutores catholicos, e outros scismaticos encobertos, a umas conclusões, que havia em uma cidade pequena, de theologia: certos frades de S. Francisco, aos quaes não davam logar suas enfermidades para poderem caminhar a pé, iam em asnos. Passando por elles alguns do outro bando em mulas muito luzidas, e auctorisadas; um d’estes por motejar aos menores, lhes perguntou: Aonde vão os asnos? Respondeu um frade velho: Nas mulas: e com uzar da agudeza, na sua mesma pergunta os envergonhou, mudando o sentido a uma palavra d’ella. Gabaram todos o dito, e o commedimento do novo companheiro; e continuou o doutor:—Temos tratado dos contos graciosos, e ditos agudos, e galantes, com exemplos muito a proposito da sua differença; fica para dizer o como na pratica se deve usar d’elles; e posto que me tirava d’este trabalho o conhecimento que tenho da sufficiencia dos que estão presentes, como eu n’esta materia aponto as regras mais para as aprender, que para me seguirem, é necessario tocar ao menos o que d’ella me parece: e assim como dizem que muito ensina o que bem pergunta, assim se póde dizer que muito aprende o que deante dos mestres ensina. Os contos e ditos galantes devem ser na conversação como os passamanes, e guarnições nos vestidos, que não pareça que cortaram a seda para ellas, senão que cahiram bem, e botaram com a côr da seda, ou do panno, sobre que os puzeram; porque ha alguns, que querem trazer o seu conto a remo, quando lhe não dão vento os com que pratica; e ainda que com outras coisas lhe cortem o fio, torna a teia, e o faz comer requentado, tirando-lhe o gosto e graça que podia ter, se cahira a caso e a proposito, que é quando se falla na materia da que elle trata; ou quando se contou outro similhante. E se convém muita advertencia e decóro para os dizer, outra maior se requer para os ouvir; porque ha muitos tão sôfregos do conto ou dito, que sabem, que, em ouvindo começar a outrem, ou se lhe adiantam, ou vão ajudando a versos como se fora psalmo: o que a mim me parece notavel erro; porque, posto que a um homem lhe pareça que contará aquillo mesmo, que ouve, com mais graça, e melhor termo, se não ha de fiar de si, nem sobre essa certesa se querer melhorar do que o conta; antes ouvir, e festejar com o mesmo applauso, como se fora a primeira vez que o ouvisse, porque muitas vezes é prudencia fingirem algumas coisas ignorancia.—Agora vos digo (accudiu Solino) que não se deve pouco a quem sabe passar essa dor sem dar signaes d’ella; porque, saber um homem o que o outro conta ás vezes mal e sujamente, e estar feito pedra, é peior que darem-lho com uma na cabeça; e cuidei que só aos prégadores lhes era concedido esse privilegio, por fallarem sem lhes haver outrem de responder: porém haveis de consentir que haja n’isso uma excepção; e é que quando algum disser o conto, ou dito com algum erro, o possa emendar e advertir o que o viu passar, ou esteve presente quando succedeu.—Em tal caso (respondeu o doutor) piedosamente o consentirei, se o que conta, ou lhe tirar a graça principal, ou errar as pessoas e o sujeito. Tambem não sou de opinião que, se um homem souber muitos contos ou ditos de uma mesma materia, em que fallou, os traga todos ao terreiro, como jogador que levou rufa de um metal; mas que deixe logar aos outros, e não queira ganhar o de todos, nem fazer a conversação só comsigo.—Parece-me (disse Solino) que vos ficou por tratar uma especie de ditos graciosos, que muitas vezes não tem o peior logar na galanteria da conversação. E porque, ficando fóra das vossas regras, os podem tomar d’aqui adeante por perdidos, a mim me releva por o meu particular saber o como o discreto se ha de haver n’elles; que são os de similhanças, a que commummente chamam apódos; que, se são bem appropriados, dão sal á pratica, e gosto aos ouvintes.—Tendes muita razão (respondeu elle) que ainda que deixei de fóra outros muitos por os metter nas regras dos que nomeei, que a esses estava mais obrigado de trazer a exemplo, e ao menos considerar que se não hão de buscar de proposito, que seria fazer da graça chocarrice; antes hão de ser trazidos tanto a caso, que sejam mettidos na pratica como translações d’ella, fugindo de alguns, que escandalizem em pouco, ou em muito, a parte de que se trata; e seja exemplo de como Pindaro comparou as minhas casas, que, por serem pequenas, muitas, e bem guarnecidas, lhes chamou gavetas de escriptorio.—E Solino (accudiu Pindaro) disse que fizereis aquelle estojo para vos recolherdes na velhice.—Não tenho eu por menos galante (disse elle) o que, vendo a gelozia de Solino com cinco, ou seis meninas com habitos de freiras de S. Francisco, lhe chamou capoeira de rolas. E a um moço do Licenciado, que aqui anda muito pequeno e magro, com uma espada muito comprida, frangão espetado.—Mais me parece (disse Solino) esse moço cabos da espada, que homem com ella. Mas a uma moça muito louca, a que todos sabemos o nome, que tem o rosto da côr dos cabellos, e ainda com uns mantéos engommados de azul, chamou um galante porcelana de ovos doces.—A essa, disse (D. Julio) chamaram tambem pampilho, e rosto de alambre. Porém, se nos houvermos de espalhar n’estas similhanças, e passarem de mão em mão, não haverá quem nos desapegue da materia.—Antes me parecia a mim (disse Solino) que assim dos contos galantes, ditos engraçados, e apódos rizonhos, se ordenasse que em uma d’estas noites, tomando um proposito, cada um contasse a elle o seu conto, e dissesse o seu dito; e seria um modo extremado para se tirar outro novo alivio de caminhantes, com melhor traça que o primeiro.—Fique a vosso cargo essa (tornou Leonardo) para outro dia; e agora não demos má noite ao doente, nem aos hospedes ruim agazalho.—Este (disse o prior) é o melhor, que podia pintar o meu desejo; e suspeito que por vingança fizestes a noite mais breve: mas o que d’ella perder, determino cobrar na de amanhã, porque a obrigação, que tenho, de obedecer ao senhor D. Julio me faz esquecer até as de meu estado. E se a do outro dia não fora de domingo, ainda n’ella gosara o interesse de mercês suas, e das honras vossas.—Com esse (respondeu Leonardo) de havermos de ter ao senhor Alberto, e a vós por mais espaço n’este logar, dissimularei o queixume, que de ambos tinha.—Da minha culpa (tornou Alberto) darei toda a satisfação; porque nem pelas do prior, nem por sua conta, hei de perder a honra, e mercê d’essa vontade.

N’isto se começaram os mais a levantar. E perguntando a D. Julio se estava melhorado do seu achaque, respondeu que não sentia outra pena n’aquelle tempo mais, que o que perdera de tão boa conversação; dando-se por mui obrigado do favor da visita, que, posto que aos illustres se deve em tudo respeito, obediencia, e cortezia, nenhum a sabe melhor estimar, que o generoso.