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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) cover

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)

Chapter 6: DIALOGO XII DAS CORTEZIAS
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About This Book

A series of dialogues offers practical guidance on spoken language and social conduct, stressing clarity and a measured balance between prolixity and excessive brevity. It critiques ornate or obscure phrasing, warns against overconfidence and careless or untimely remarks that may offend listeners, and urges attention to audience and context when using foreign terms or recounting distant stories. The conversation also examines polite naming practices and the risks of gossip, then treats salt as a metaphor for wit and grace that enlivens conversation, adding cultural and natural reflections on its preserving and symbolic properties.

DIALOGO XII
DAS CORTEZIAS

Depois que os amigos se despediram, os hospedes ficaram gabando a D. Julio a graça e bom termo de falar, de todos os que entravam n’aquella conversação; dizendo que em tal aldeia se podiam ensaiar os que quizessem apparecer na côrte apercebidos, approvando a maneira que se tinha de discursar sobre cousas tão miudas e tão esquecidas, sem causa, dos cortezãos. D. Julio lhe relatou algumas materias, de que tinham tratado aquelles dias, que ao soldado deixaram cobiçoso; e foram n’esta pratica tomando tantas horas emprestadas ao repouso, que, para se entregarem d’elle pela manhã, se levantaram da cama para a mesa: tiveram o doente e os hospedes suas visitas; e quando veiu a noite, já os amigos estavam juntos em sua casa, com gosto de Leonardo que o pediu a todos elles. E D. Julio para lhes pagar esta diligencia no em que elle sabia que mais desejavam a satisfação, lhes disse:—Não parece razão que á conta da cortezia, com que dissimulaes commigo, me encerre eu com o que sei que desejaes de ouvir com muito cuidado. Quero agora acudir aos remoques de Solino, e á curiosidade dos mais, que lançáram juizos temerarios sobre a minha jornada; e para que não esconda nenhuma das cousas que passei, a conto deante de tão abonadas testemunhas. Soube (e não quero dizer que acaso), porque o procurei de proposito, o dia, em que o sr. prior levava para a cidade aquella religiosa peregrina; que por ter tantas cousas do céo, deixou todas as da terra, vencidas com seu despreso, e acanhadas e humildes com sua formosura. E assim por o acompanhar a elle em obra de tanto merecimento, como por vêr despedir de todas as pretenções humanas quem em tantas partes e extremos era divina; e na resolução sua e desengano vêr o das esperanças, que o desejo podia fundar em sua gentileza: me fiz encontradiço no caminho, onde me dei por obrigado a chegar até á cidade, fingindo que alli de novo soubera sua determinação. Conheceu ella ser eu o mesmo que na fonte da serra a encontrára; e lembrada e agradecida da cortezia e respeito com que a tratei, sem saber quem fosse, me pagou com a brandura de seus olhos a alma que n’elles perdi quando a olhava n’aquelle desvio. Disse-lhe o sr. prior quem eu era, accrescentando do seu o que agora fico a dever á sua cortezia: e conhecendo a extrangeira a sua vontade, me fez muitas mercês e favores pelo caminho; que, a não ser aquelle o derradeiro, que havia de fazer no mundo, me pudéra eu encher de vaidade para os não trocar por todos os interesses d’elle. O que n’ella vi foi o que já me ouvistes; e posto que o decóro e respeito com que a levavam, não accrescentou graças á sua formosura, lhe dava outro valor differente, como o engaste de ouro bem lavrado o costuma dar ás pedras finas. Ficou entregue ao céo com quem se parecia, e os olhos, que alli deixaram as saudades e desenganos. Não foram estas occasiões de minha doença, que não costuma a ser tão leve a que d’elles se gera: e assim póde fazer em mim maiores effeitos a sua lembrança.—Da vossa parte (disse o prior) tendes contado o que passastes: porém d’aquella extrangeira pudéra eu dizer muito mais; que só no que lhe ouvi se podia conhecer quanto estimou o bom termo da vossa cortezia, e muito mais esta segunda de a acompanhardes.—A primeira de a deixar sem companhia (tornou o fidalgo) me foi a mim mais custosa. E ainda que diz o rifão antigo, que cortezia e falar bem custo pouco, e val muito, não se podia dizer pela minha.—Antes sim (disse o soldado) pois vos rendeu tanto, e vós não mettestes mais cabedal, que dar logar á razão, onde o não podia ter o appetite. E posto que a cortezia tem muito grande logar entre os portuguezes, porque no comedimento fazem vantagem a muitas outras nações; no falar bem, segundo o sentido d’esse rifão, acham elles a difficuldade; porque dizel-o dos seus proprios naturaes lhes não custa pouco (que é uma culpa que nos arguem com razão os extrangeiros) na qual peccamos contra o principal termo da cortezia. Mas certamente que uma e outra era devida áquella gentil senhora, de cuja riqueza e estado eu, como fronteiro que fui daquella ilha, pudéra dar informação; e a vi tão obrigada e desejosa de se mostrar agradecida ao sr. D. Julio, que excedia o modo da sua brandura e receio.—Já desejo (disse o doutor) que passemos d’esta romaria; e não sei eu melhor occasião, que falar em cortezias, assim extrangeiras como naturaes; que é materia que beta muito bem com as das noites passadas.—Quem haverá (respondeu Alberto) que não approve a vossa escolha? que, além de vir a pratica a proposito das que entre nós se trataram, temos presente o sr. prior, a quem está melhor, que a todos, o cargo de nos fazer cortezãos por doutrina, assim como o póde ensinar a todos com o exemplo.—São os meus habitos (disse elle) tão alheios do estylo cortezão, que estão culpando a vossa inculca, e o atrevimento que eu desejo tomar para vos obedecer; porém tenho por menor erro cahir em muitos n’esta empreza, que desobedecer em todas ao vosso mandado: mas com tal condição, que acudaes vós, por cortezia, aos descuidos que eu n’ellas fizer, porque então não terei receio de falar, nem estes senhores pejo ou fastio de me ouvir. E falando em este nome de cortezia, é um vocabulo particular que entre nós tem a significação mui larga, porque no seu verdadeiro sentido ainda é mais estreito que o latino, que é urbanidade derivado de urbs, que quer dizer cidade; e assim é o comedimento e bom modo dos que vivem n’ella em differença dos aldeãos; e cortezia é dos que seguem a côrte, em differença de uns e outros. Porém na significação generica este nome comprehende estas tres especies de cortezia: Ceremonia, que é a veneração com que tratamos as cousas sagradas da egreja e dos ministros d’ella, que pertence á côrte ecclesiastica do papa, dos bispos e dos outros prelados inferiores: Cortezia, que é a que se tem aos reis, principes, senhores, titulos e ministros reaes: Bom ensino, que é a inclinação, reverencia e comedimento, que se costuma entre os eguaes, ou sejam de maior ou de menor qualidade. E deixando de tratar das duas primeiras e de outras duas, que muitos põem no segundo genero, que é cortezia militar, a que chamam ordem, usada nos exercitos, esquadrões e alojamentos; e a outra naval, que se usa nas frotas, armadas e navegações, porque umas e outras tem regras e leis declaradas, tratarei sómente do bom ensino. Para o que me parece advertir que da ceremonia se derivou a cortezia, e d’ella o bom ensino, descendo por degraus como o mostram os exemplos de uma e outra; que como os reis e principes se endeosaram com a vaidade, foram tomando muito na cortezia do que era devido só a Deus; e porque egualmente os inferiores quizeram parecer-se com os reis, foram tambem contrafazendo os seus estylos na cortezia, a qual consiste em tres cousas, na moderação, na inclinação e nas palavras: e trazendo o exemplo de cada uma com seus principios, a Deus falamos com os joelhos em terra por cerimonia, aos reis com o esquerdo posto no chão por cortezia, aos eguaes com elle dobrado, tornando o pé atraz por bom ensino: a Deus beijamos o chão ou o assento do altar, onde está posto; ao papa o pé; ao rei a mão (posto que a alguns da gentilidade costumam ainda beijar o joelho). Entre os eguaes beijamos a mão com que tocamos a sua, e de palavras as de todos. Nas palavras se quizeram os reis levantar mais com os titulos divinos: e de mercê e senhoria, que era o seu proprio logar, subiram a alteza, que era só de Deus; e depois a magestade; e ainda, se se poderam chamar divindade, e omnipotencia, me parece que o fizeram. Aos eguaes tratamos de mercê, como que fomos tomando o que os reis deixaram; e ficou-se o vós, e a brandura d’elle para os amigos, e para os mal ensinados. Bom ensino é tratamento de homens bem doutrinados, ou por experiencia da côrte e cidade, ou por ensino de outros que n’ella viveram. A inclinação consiste em abaixar a cabeça, ou a descobrir, em dobrar os joelhos ou os pôr em terra, em inclinar a vista, ou a desviar do com quem se fala. A moderação em se mostrar mais humilde em beijar primeiro a mão, em dar o melhor logar ao que fazemos a reverencia, ou, para melhor dizer, em tomar de tudo menos do que nos cabia. As palavras ellas mesmas declaram quaes são da côrte na conformidade do proverbio, ou sentença com que começamos, que é falar bem do terceiro, dizendo o que faça em seu favor, e escutando com cortezia em quanto ouvimos o que fala: fóra outra cortezia de palavras, a que chamam cumprimentos, de que por ora não determino tratar. Esta cortezia no exterior differe mui pouco da virtude da humildade, e tem o mesmo fruito entre os homens da terra, que o Evangelho promette no céo aos humildes, que é serem levantados; porque tambem para os vangloriosos e arrogantes é grangearia o bom ensino e comedimento, porque assim são mais bemquistos, acceitos e respeitados dos menores. Tem esta virtude da cortezia, ou bom ensino (a quem tambem Marco Tullio chama virtude) quatro escolas principaes, em que se exercita, que são o encontro, a visita, a mesa e a conversação: os dois termos, em que se sustenta, são humilhar-se uma das partes, e a outra querer-se melhorar na humildade; porque quanto um mais se aproveita d’ella, mais obriga ao outro a se querer mostrar bem ensinado. No encontro do caminho da visita, ou do passeio, é a regra entre os eguaes, que o que vem, ou está melhorado de logar, seja o primeiro na cortezia, assim da fala como do chapéo ou mesura: como, se vem andando, e o outro está parado, se vem a cavallo, e o outro está, ou vem a pé; e se ambos andam, e um vem da mão direita, ou do logar mais alto; e da mesma maneira o que está em terra, casa ou logar seu, seja o primeiro que accommetta a cortezia.—D’esse termo de cortezia (disse Leonardo) temos uma historia antiga em Portugal, que nos póde servir de exemplo e auctoridade para ella. Conta a chronica de el-rei D. Fernando de Portugal que, quando elle e el-rei D. Henrique de Castella falaram no Tejo em dois bateis, houve de ambas as partes duvida em qual d’elles seria o primeiro que falasse; e el-rei de Castella se resolveu em ser o primeiro por ter Lisboa de cerco, e estar na guerra de melhor condição que el-rei D. Fernando; sendo assim que, por ser em terra de Portugal, havia elle de ser o primeiro: e assim lhe disse: Mantenha-vos Deus, senhor rei de Portugal; porque estes eram os cumprimentos d’aquella boa edade.—O mesmo (acudiu o doutor) entendia el-rei D. Filippe, o Sabio, quando com tanto excesso de cortezias recebeu no seu reino a el-rei D. Sebastião seu sobrinho na jornada de Guadalupe, onde na fala e mesura foi sempre o primeiro, como eu posso mostrar de uma relação que tenho da mesma jornada: e tambem se alcança da visita que o infante D. Luiz fez ao imperador Carlos V quando, dando-lhe a deanteira na entrada de uma porta, o infante, não se podendo escusar, arremetteu a huma tocha com que ia deante um creado, porque era de noite, e foi allumiando ao imperador, para tambem o vencer na cortezia que com elle usára.—O mesmo (disse Feliciano) aconteceu a uma pessoa de não tanta qualidade, porém de sangue illustre, que, dando-lhe um titular a deanteira na entrada de uma porta travessa de uma egreja, elle se voltou a elle com agua benta fazendo o officio de seu capellão.—Todos esses lances e outros semelhantes são estratagemas e finezas de cortezia (respondeu o prior) das quaes eu me não esquecerei no seu logar. E proseguindo a materia, a visita tem tres termos de cortezia, que são: o recebimento, o assento e o acompanhamento da despedida. O recebimento é sahir o visitado fóra da casa, onde ha de tomar a visita, até á sala, para na entrada dar a deanteira e melhoria ao que o vem visitar. O assento, dar o seu ao hospede, e tomar outro egual á sua mão esquerda, sem ser o primeiro que se assente. O acompanhamento da despedida é sahir com elle até á casa onde o recebeu, tomando sempre a sua mão esquerda, dando-lhe d’este modo a melhoria na entrada, logar e passeio.—O descuido dos ignorantes (respondeu Leonardo) tem pervertido essas regras tão verdadeiras; ou, ao menos, embaraçado pela sua má correspondencia: porque no receber das visitas ha alguns, que são como pesos de lagar, que se levantam devagar e se assentam de pressa: e a um dos taes disse um cortezão: que era bom para testemunho falso, porque o não levantariam. Outro disse a um titular: que menos era para senhor que para vassallo; porque nunca se levantaria. Já no recebimento ha muitos que se ficam atraz dos paus, por não deixarem a casa só, e assim dão cinco, e fazem o mesmo no acompanhamento da despedida: a cujo proposito cabe aquelle dito excellente de um senhor tão illustre por sangue, como por entendimento n’este reino; que vizitando a um legado do papa vindo de pouco a Lisboa, na despedida deu com elle mui poucos passos ao sahir da casa; e elle tomando-o pela mão, o trouxe adeante dizendo: “Para italiano faz V. S. muito pouco exercicio.” Porém declarae-me se nas vizitas falaes tambem das que se costumam a fazer a enojados e enfermos: porque serão necessarias outras regras muito differentes.—Não podia eu (disse o prior) fazer essa mistura sem grande confusão e enleio. Mas d’ellas e das que se fazem a donas e donzellas, e outras semelhantes, determino particularmente dar meu voto debaixo da censura de vosso entendimento; e agora seguindo a minha determinação: A terceira escola da cortezia é a mesa, em a qual as regras são muitas; porém muito ordinarias e conhecidas. A primeira é do assento, a segunda do serviço, a terceira das iguarias, a quarta das graças depois de comer. O assento, em mesa de muitos, é o primeiro logar o topo, a que chamam cabeceira, que fica á mão direita dos outros; entendendo que ha de ficar uma das partes da mesa livre para o serviço dos ministros d’ella: e quando é do menos gente, sempre o que agasalha toma por cortezia o logar da mão esquerda. No serviço o primeiro é dar agua ás mãos, em que sempre se ha de preferir o hospede; e andam n’isto já os servidores tão apurados, que não fica aos convidados logar mais que de algum leve comprimento. O segundo (entre os amigos) é o fazer o senhor da casa para cada um dos outros os pratos, que se hão de dividir na mesa, melhorando ao hospede na escolha de cada cousa, a que podem chamar cortezia mimosa. O comer ha de ser sem sofreguidão, sem mostra de gula nem demasiado appetite; e tambem não mostrar uma frieza cheia de fastio, que é desagradecer a comida e a vontade do que lh’a offerece. O beber seja sem pressa, e com tento, não levantando o copo nem o pucaro, quando outrem o tem na bôcca; salvo onde se usar a differente cortezia dos extrangeiros, que se convidam a beber em um mesmo tempo. O que está á mesa não ha de falar sempre em quanto os outros comem, nem comer em quanto os outros falam. E de uma maneira e outra, o que se disser não seja cousa que possa enojar o estomago ou diminuir o gosto dos convidados. Tambem deve cada um acabar de comer quando os mais, ainda que lhe tivessem vantagem na brevidade. As graças pertencem primeiro ao dono da casa; e aos hospedes a cortezia depois d’ellas; que é uma maneira de agradecimento cortezão. E posto que pudéra calar estas miudezas por mui sabidas (como outras que deixo pela mesma razão) tenho alguma de falar n’ellas em quanto me servem para ao deante.—Antes de ess’outras (acudiu Solino) me quero eu metter como cebolinha em restea; que, se até agora’não pescava em tanto fundo, porque a conversação obriga aos costumes, e eu estou ha tantos annos pelos d’esta aldeia; para as cousas da mesa tenho feito outro aranzel de cortezia: e posto que n’ella e na humildade dizem que abaixo fica quem se não adeanta, como as cousas de comer, e de proveito se atravessam com a vaidade d’este estylo, tenho outra regra mui differente, por que me rejo, registada nos livros dos rifães e proverbios das velhas, e encommendadas á memoria do meu moço, com muito cuidado, distincta por itens, muito importantes á quietação, e socego da vida de uma aldeia. Primeiramente: melhorar o hospede por assento, e a mim no mantimento: dar-lhe nas cortezias o que a mim nas iguarias: elle o primeiro no prato, e a mim o melhor boccado: Se fôr pouco o vinho, beba eu deante; que quem leva a primeira não fica sem ella: Se fôr pouco o pão, tel-o eu na mão, por não pôr nas da cortezia o que folgo de ter na minha: Não tirar prato de deante sem vir outro, que m’o alevante: Em quanto outrem apara, fingir que não vejo a faca: Se os outros falarem muito, dizer, os amens: porque ovelha, que bala, boccado perde. Em quanto tiver fome, zombar de quem não come: E quando tiver sede, lembral-a a quem não bebe. E quanto em todas as mais entradas e sahidas, como são o lavar das mãos, mesuras e prolfaças, liberal como nas eiras. E a verdade é que o verdadeiro cumprimento em que se declaram os demais, e que serve de lei mental a todos, é: Todo sou vosso, tirando fazenda e corpo. E passando da mesa, seguem logo outras regras não menos respeitosas, como são: No acudir ao perigo, fingir-se manco: Na cama pequena, deitar no meio: No logar estreito correr deante; que quem vem tarde, mal se agasalha: Ribeiro grande, saltar de traz; que a verdadeira discrição é experimentar na cabeça alheia: e a mais trilhada parvoice é não cuidei.—Não vos desfaçaes d’essa doutrina (disse Leonardo) que é a melhor regra de viver em paz sobre a face da terra, que quantas andam nas cartilhas antigas.—Eu (tornou o prior) não defendo aquella seita aos que a quizerem seguir, respeitando mais a commodidade que a cortezia. E deixando esta eleição, a ultima escola é a da conversação; que se entende no passeio, na roda ou na visita. O passeio, quando é de dois ou tres, voltam com os rostos sempre eguaes (não virando as costas um ao outro, como costumam os extrangeiros) e os que recebem em uma volta á mão direita, a dão na outra aos que trouxeram á esquerda. Se são muitos, ou se dividem no meio ao voltar para ficarem todos de rosto; ou, se ha logar para isso, voltam em ala, ficando o primeiro da mão direita o ultimo da esquerda na volta do passeio: o que entra de novo faz primeiro cortezia aos que andam n’elle. E elles abrindo-o, lhe devem offerecer no meio o logar da mão direita; que elle não acceitará, senão o ultimo da esquerda, por não romper a ala; e porque na volta fica logo com o que na entrada lhe offerecem. Na roda ou ajuntamento se usa o mesmo; porém é para advertir a obrigação de cada um, para levantar do chão qualquer cousa que caia aos companheiros, como são luvas, contas, livro, chapéo, lenço e outras semelhantes; e, quanto a mim, esta obrigação de acudir a alçal-a é do visinho da mão direita.—N’isso (respondeu Solino) me releva pordes taxa certa, pelas cabeçadas que vi dar a muitos que acudiam juntos a essa cortezia: e tenho-me sempre com o primeiro que se alevanta; mórmente na roda onde todos os cabos são de palheta.—O que eu aconselhára (replicou o prior) é que, commettendo um, cessassem os mais, deixando o cumprimento ao dono da cousa.—Pois não é esse o termo (disse Leonardo) dos menos delicados na cortezia, assim no passeio, e roda, como na visita: e não só nas cousas, que cahem a caso, mas nas que se arremessam, ou com que tiram de proposito. E deixando o que aconteceu a um cortezão mancebo, que atirando-lhe uma dama, em castigo de um atrevimento, com um chapim, elle o beijou, e lh’o tornou a offerecer, e com este lanço a obrigou a d’alli adeante o ter em mais conta: um principe de sangue real d’este reino, andando á caça de montaria com um rei d’elle, se lhe adeantou a dar uma lançada em um porco montez, parecendo-lhe que se lhe mettia em o meio do perigo, por atalhar algum da vida de seu rei. Porém elle, que era mal soffrido, com paixão atirou ao principe com a lança: e elle apeando-se a levantou, e beijando-a lh’a tornou a offerecer; e com isto venceu a colera do rei, e o obrigou a vergonhoso arrependimento.—Ainda agora (disse Solino) lhe eu houvera de deixar passar a ira; que quem se guardou não errou: e á furia de senhor terra em meio: e posto que lhe succedeu bem a cura, não houvera eu de provar a mezinha; que com estes perde o bem fazer a cento por um, que é o que com Deus se ganha. E porque no passeio se me offereceu uma duvida, pergunto: Quando um se diverte dos com que vae passeando, e fica carta atraz falando com alguem que passou e o deteve; ou em outro caso semelhante; que regra se ha de seguir?—Pararem os outros á vista (respondeu o prior) e elle, quando tornar, fazer sua cortezia, e entrar no passeio, tomando o logar mais humilde, como tenho dito.—E se passearem a cavallo (replicou elle) e a mula de um dos mantenedores se parou a ourinar, e os companheiros foram adeante, é obrigado o que torna á têa a fazer cortezia em nome da sua mula?—Isso não (tornou o prior) porque no primeiro caso a cortezia é uma satisfação da tardança: e o segundo é um acto de um bruto irracional, que não merece ser desculpado. Com isto me parece que tenho tocado o que é o cantochão da cortezia, em cujo contraponto ha cem mil galanterias e extremos, que não cabem em regras tão limitadas; como tambem o seriam para as cortezias, que consistem em palavras, a que se não póde pôr limite.—Vós (disse o doutor) tendes tratado a materia com muita curiosidade: e posto que fica assás auctorisada com razões tão verdadeiras, costumes tão approvados, e, o que mais é, com experiencia vossa; quero eu accrescentar o que li, mais por me fazer figura no em que vós sois auctor, que por mostrar que o posso ser em alguma cousa sem favor vosso. E porque me lembra que na divisão fizestes á inclinação a principal parte d’ella, me pareceu dizer alguma cousa de sua antiguidade: porque já os Hebreus, Persas, Gregos e Romanos usaram inclinar a cabeça por cortezia, como contam Josepho, Plutarco, Eliano e outros auctores graves: e esta reverencia faziam em signal de humildade, confessando fraqueza, e menos poder ante aquelle a cujo valor se abatiam: posto que dos Romanos, Alexandre Severo, successor do Heliogábalo, não consentiu que ninguem lhe fizesse esta cortezia, havendo-a por lisonja; antes mandava lançar de sua presença a quem a usava (como escreve Lampridio) dizendo que só a Deus se devia aquella inclinação. Os de Thebas, se sabiam que algum dos seus inclinasse a cabeça a pessoa humana, o castigavam rigorosamente: e esta lei pôz em grande confusão a Ismenias, que elles mandaram por embaixador a Artaxerxes (como na sua vida o escreve Plutarco) o qual estando já na sala para falar ao rei, lhe disse um capitão, chamado Tithraustes, que se não havia de fazer ao rei a inclinação que os Persas costumavam, que lhe désse a elle o recado, e que faria em seu nome a embaixada. Elle não querendo fiar de outrem o que lhe fôra encommendado, entrando a falar ao rei, deixou cahir um annel que trazia no dedo; e abaixando-se a o levantar, fez a inclinação dos persas sem poder ser culpado dos Thebanos.—Essa inclinação (disse o prior) de inclinar a cabeça, dobrar os joelhos, ou pôl-os em terra, e extendendo o braço para a pessoa, a que queremos venerar, beijar a mão propria, é ceremonia antiquisima, que só a Deus se fazia; e assim se colhe de muitos logares da escriptura, como é no livro V dos Reis, capitulo XIX, no de Job capitulo XXXI, e no Deuteronomio capitulo XVII. O que tambem alguns gentios usaram, como lêmos em Plinio livro XXVIII, capitulo II. E d’aqui creio que se derivou este uso, que entre nós ha, do beijo as mãos de V. M.—O costume de beijar a mão (respondeu o doutor) entre os Romanos antigos foi dos escravos a seus senhores. Mas Plutarco conta que, depois que Catão deu fim á sua milicia, despedindo-se d’elle os soldados com muitas lagrimas, e extendendo-lhe as capas e os vestidos por onde passava, lhe beijavam a mão; e d’aqui começaram os livres a usar esta cortezia; de que logo lançaram mão os pretendentes para grangearem animos e vontades alheias, como Seneca diz na Epistola CXVIII. E logo os imperadores modernos mandaram que seus vassallos lhes beijassem a mão, como escreve Pomponio Leto: e os reis da Hespanha o puzeram por ordenação, como se vê nas leis de el-rei D. Affonso nas leis de Castella livro V, titulo XXV, pag. IV. E d’aqui se derivou o beijo as mãos de V. M., que é confessar-se por escravo ou vassallo d’aquelle, a quem se faz a cortezia.—Essa (acudiu Solino) me custa a mim bem pouco: porque não gasto n’ella mais que palavras, e essas com as abreviaturas de agora são já muito menos. O que me a mim cansa é o tirar o chapéo, que me fazem de despeza as boas correspondencias de forros, e caireis, a fóra os damnos do feltro; o que Deus sabe e eu o sinto; e não me pesára saber d’onde teve principio este mal que padeço.—O chapéo (respondeu o doutor) era entre os romanos signal de nobreza, e symbolo da liberdade; e quando a queriam significar, pintavam um chapéo, como se vê nas moedas de Claudio, de Antonio e de Galba. E assim quando libertavam aos escravos, lhes davam chapéo, como refere Pierio Valeriano nos seus jeroglificos, livro XL, onde tambem affirma que os escravos, que se vendiam por maus costumes e ruins partes que tinham, os punham em almoeda com chapéo na cabeça, em signal que seu senhor o não queria por escravo, nem se obrivava a fiar sua má natureza. De sorte que o descobrir um homem a cabeça, e tirar o chapéo ao outro, é confessar-se por seu escravo; e a esta cortezia responde a de chamarmos senhores aos eguaes e maiores com que tratamos, e ainda os inferiores.—Pois eu vos affirmo (disse Solino) que a muitos tiro o chapéo, de que não quizera parecer escravo; e esses m’o fazem trazer tal, que parece dos que o são. Comtudo me fizestes mui grande mercê em me descobrir essa razão e a de outra cousa em que eu já cansei algumas vezes o pensamento, que era saber o porque os chucarreiros se cobrem deante dos principes, e, sendo gente tão vil gosam de tão grande preeminencia; e agora entendo que deve ser por estarem no andar dos escravos, que se vendem por ter más manhas, que se vendem com chapéo para serem por elle conhecidos.—Mais me parece a mim (acudiu D. Julio) que é pelo pouco caso que se faz da sua cortezia; ou porque se entenda que, assim como tem aquella liberdade, tem outras para falarem o que não é licito aos homens cortezãos bem disciplinados. Porém não sei a causa, porque nos esquecemos da cortezia a que chamam cumprimentos, que n’esta edade tem chegado á mór perfeição de encarecimento que póde ser.—Nisso (disse Feliciano) se acredita ella muito pouco, e menos os que usam muito d’elles; que á falta de verdades e de obras, se introduziram no mundo os cumprimentos, que são um engano desaforado de toda a jurisdicção; conforme ao rifão que diz, que palavras de cortezia não obrigam a pessoa.—Parece-me (tornou D. Julio) que tornamos á sentença, com que se começou a pratica, em quanto diz que falar bem val muito, e custa pouco: o que á letra se entende dos cumprimentos, pois que custam tão pouco, que ninguem por elles fica obrigado.—Não digamos mal d’elles (disse Solino) que são a melhor cousa do mundo, salvo que perderam reputação como as sardinhas, que, por as haver sempre e custarem baratas, as não estimam; e não era a materia dos cumprimentos para ficar de fora n’esta occasião.—A noite (respondeu o doutor) é a que não basta a tanto; e n’esta me não atrevo eu a vos acompanhar mais: e assim me haveis de dar licença que me recolha.

Com isto se levantaram todos, e deram boas noites; e, depois de recolhidos, gastaram em o desejo da que se seguia o mesmo espaço que d’aquella poupavam; que muitas vezes a recreação dos sentidos vence a necessidade do repouso que os suspende.