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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) cover

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)

Chapter 8: DIALOGO XIV DA CRIAÇÃO DA CÔRTE
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About This Book

A series of dialogues offers practical guidance on spoken language and social conduct, stressing clarity and a measured balance between prolixity and excessive brevity. It critiques ornate or obscure phrasing, warns against overconfidence and careless or untimely remarks that may offend listeners, and urges attention to audience and context when using foreign terms or recounting distant stories. The conversation also examines polite naming practices and the risks of gossip, then treats salt as a metaphor for wit and grace that enlivens conversation, adding cultural and natural reflections on its preserving and symbolic properties.

DIALOGO XIV
DA CRIAÇÃO DA CÔRTE

Porque todas as cousas de novo na primeira vista contentam mais, e com maior razão a quem vive na aldeia, em a qual a continuação das que se offerecem de ordinario deleitam pouco quando não enfastiam muito: estavam os amigos tão affeiçoados ao irmão do prior pela sua arte, e bom modo de falar e proceder, que vieram ao dia seguinte muito alvoroçados a o buscar nas horas costumadas, offerecendo-lhe cada um por seu caminho aquelle desejo, a que elle por todos se sabia mostrar muito obrigado. Depois de darem fim aos cumprimentos, que levam sempre a vanguarda n’estas batalhas, lhes disse Pindaro:—Posto que o natural de cada um é a principal parte que o favorece, para em todos os exercicios se melhorar na communicação dos outros homens; nenhuma escola me parece melhor para os bem nascidos, que a milicia. E ainda que me não ensinasse a experiencia esta verdade, claramente a conheço no exemplo de muitos soldados, com que me achei em occasiões; e sobre todos do senhor Alberto, que parece um exemplar, e espelho, em que se pode vêr um perfeito homem de guerra, e de côrte, pelo que de ambas colheu, aperfeiçoando a doutrina d’ellas com a clareza do seu engenho e a disposição, e vantagem de seu entendimento.—Eu desejo merecer (respondeu elle) a boa opinião, com que me honraes deante d’estes senhores, e logo a pago mal com a desacreditar tanto á vista d’elles: pelo que me era necessario accudir a essa falta com nova desculpa, dizendo que ha olhos que de argueiros se pagam; e que mais favorece um engano, que muitas verdades, porque bastava no vosso ter ventura para a alcançar em tão honrada conversação. Porém devo attribuir aos louvores da milicia os de que me fazeis mercê; e d’elles, como soldado, tirarei a minha parte; ainda que tendes tantas, que, quando o sejaes n’esta competencia, terão as lettras muita vantagem ás armas.—Não são de pouca estima os cumprimentos (accudiu Leonardo) se continuar com estes principios o discurso que se pode fazer sobre a differença da creação da côrte, da milicia, e das universidades, que são os tres exercicios nobres, em que os homens se occupam, apuram e engrandecem; e n’elles se pode gastar a noite com muita satisfação dos presentes, pois assim pode cada um saber muitas cousas das que convém ao particular de sua profissão.—Entendo (disse D. Julio) que escolhestes bem, e que vos cabe o primeiro logar para tratar da côrte: ao senhor Alberto o segundo para dizer da milicia: ao doutor Livio o terceiro para falar das universidades. E se eu n’este voto parecer atrevido, confiança me deu a liberdade da nossa conversação, e o costume dos mais. “Todos approvaram a escolha de Leonardo, e a repartição de D. Julio. Porém Solino não ficou tão satisfeito que se calasse, antes disse para D. Julio:—Vós, por vos forrardes do trabalho, fintastes os outros. E posto que não se pode ir contra eleição tão acertada, se o ensino da côrte se houver de pintar pela tempera velha, e tratar sómente do canto chão, de seus estilos, e gentilezas, ninguem dará melhor conta d’isto que o senhor Leonardo; porque se achou no paço ainda em tempo que eramos troianos, e viu luzir o que agora está cheio de ferrugem. Mas se houver de falar ao moderno, em que é tudo de outra freguezia, receio que lhe fique muito por dizer.—O mesmo receio tenho eu (tornou Leonardo) porém não são os males e bens da côrte tão pouco antigos como vos parece; que já no meu tempo havia os mesmos queixumes de agora: porém ha tanto que dizer d’ella, que de necessidade hão de passar muitos pela malha a quem vive ha muitos annos n’este desvio, e que no remanso do descuido da vida afogou todas as lembranças d’ella; e assim houvera o senhor D. Julio de passar esta obrigação a outrem que dê melhor conta d’ella.—Não faço eu as minhas tão erradas (respondeu elle) que vos desobrigue.” A isto ajudaram todos os presentes; e Leonardo começou d’esta maneira:

—Quatro maneiras de exercicios ha na côrte, que para todas as cousas civis fazem um homem politico, cortez e agradavel aos outros. A primeira é o trato dos principes, e a communicação das pessoas que andam junto a elles: n’esta consiste o principal do a que chamamos Côrte, que é conhecimento d’aquelle supremo tribunal da terra, do rei, ou principe a quem pertence mandar, como a todos os inferiores obedecer na conformidade das leis, por que se governam. Traz isto o estado e serviço do mesmo rei, e dos seus, a obediencia, a cortezia, a inclinação, a mesura, a discrição no falar, a policia no vestir, o estylo no escrever, a confiança no apparecer, a vigilancia no servir, a gentileza e bisarria, que para os logares publicos se requer. O trato do principe no paço, na mesa, no conselho, na caça, nos caminhos e occasiões, como se grangeam os validos, se visitam os grandes, e como se hão de haver os cortesãos, para communicar a uns, e outros. O segundo exercicio é o decóro, e veneração, com que se servem as damas; e d’este se alcança todo o bom procedimento, e perfeição cortezã, que pode desejar o homem bem nascido: porque sobreleva muito do serviço real, e com muitas vantagens faz a um cortezão discreto, cortez, advertido, galante, airoso, bem trajado, extremado na cortezia, no dito, na graça, no mote, na historia e galanteria: este o faz ser bom ginete nas praças, bem visto nas salas, bem ouvido nos saraus, e bem acreditado nos ajuntamentos. E como o serviço das damas é o mais apurado exame para se conhecerem sujeitos honrados, ellas graduam e auctorizam os homens; e do seu voto toma a fama informações para os fazer grandes na opinião de todos. O terceiro exercicio é a communicação dos estrangeiros: porque como os que assistem nas côrtes ou são homens de muito sangue e qualidade, ou de muita prudencia e valor, ou de muita confiança e riqueza, sempre d’elles se colhe uma doutrina mui avantajada para o cortezão, que é saber as gentilesas de outras côrtes, as leis de outros reinos, a belleza e serviço de outras damas, o estylo de outros reis, e finalmente os costumes e institutos de outras gentes. Esta variedade deleita e enriquece o entendimento e a memoria do que é bem nascido. O quarto exercicio é o soffrimento e diligencia dos pretendentes, que, para tirarem fructo de seus serviços, acções e requerimentos, se recolhem ao amparo dos grandes, ao favor dos ministros, á companhia dos criados, e se sujeitam a todos os encontros e avisos, que padece quem pede, sustentados no doce engano de uma esperança, que lhes sáe muitas vezes mentirosa. Sobre estas quatro maneiras de exercicio de côrte poderei discorrer o que baste para vos enfadar este serão, se o doutor, como costuma, interpozer a auctoridade de suas lettras na falta de minha sufficiencia, e Solino com addições de sua graça a der a minhas advertencias.—Essa humildade (tornou elle) como é demasiada, argue soberba, quando a respeito do doutor não seja adulação. Vós podeis falar ás duas mãos como em jogo de bola, e buscaes padrinho! E com tudo isso, se eu vir azas, por onde pegue, direi meu dito.—Assim o faremos todos (disse o doutor) e com isto proseguiu Leonardo:—A pessoa real é a cabeça da republica, como escreve Plutarco; e nenhuma cousa na terra ha sobre ella mais que a lei, a que deve obedecer; e ella fica sendo lei para todos os inferiores para a imitação dos costumes e virtudes, que no principe estão mais certas que em outra pessoa particular, de maneira que fica sendo uma lição viva e continua, para os que assistem em sua côrte, na religião, na observancia das leis, na excellencia das virtudes, na reformação dos costumes, na moderação das paixões, na justiça, na clemencia, na liberalidade, na modestia, na magnanimidade e na constancia. E tanto é melhor a doutrina do seu exemplo, quanto de mais alto logar ensina a todos. E posto que houve e ha muitos reis (a que convém mais o nome de tyrannos) a que sua depravada natureza desvia d’estas condições reaes, que juntamente com a corôa, e sceptro se lhe communicam: pela maior parte os reis se sujeitam mais á lei e á razão, que os que, obrigados de forçoso poder, não podem evitar o castigo de seus erros. E ainda o mesmo nome e superioridade de rei lhes põem em certo modo condição de serem os mais perfeitos entre os homens, para os regerem e mandarem; que para o primeiro se requer muita prudencia, para o segundo grande auctoridade.—Os reis por eleição (disse o doutor) d’essa maneira o começaram a ser no mundo; e pela excellencia de suas pessoas alcançavam o titulo que agora compete aos reis por nascimento. Os Persas não podiam eleger rei, que não fôsse mui douto na arte magica, como escreve Tullio no 1.º de Diviniatione. Os Médos escolhiam por rei, como conta Strabo, liv. II, o que aos outros excedia em forças naturaes. Os Catheos, povo da India, como escreve Deodoro, liv. 17, não subiam á dignidade real, senão o que em gentilesa e formosura de corpo excedesse aos mais: e a mesma eleição faziam os de Meroe, como escreve Pomponio Mela. Os de Libia davam o titulo de rei ao que na velocidade do correr deixasse atraz a todos. E, como conta Herodoto, os Gordios tinham por digno do mando e titulo de rei o que fôsse mais grosso o comprido, e tivesse o pescoço mais levantado, deduzindo da grandeza do corpo a excellencia do animo, que para exercitar tão grande nome lhe era necessario: de modo que todos estes e outros povos entendiam que o ser rei convinha ao homem mais excellente n’aquella parte, que elles julgavam por melhor de todas, segundo a opinião em que viviam.—Esses (respondeu Leonardo) imitavam a natureza na superioridade que deu aos animaes por forças, velocidade e ligeireza. Porém entre os que são governados por razão, e policia, parece que era devido o nome de rei ao que no entendimento fizesse vantagem aos outros homens. E assim Platão chamou bem-aventurada á republica, onde os philosophos reinassem, ou os principes philosophassem. E Seneca disse que era edade de ouro a em que os sabios reinaram. E Vegecio, no liv. 1 da Milicia, escreve que nenhuma cousa convém mais ao rei, que a sabedoria; pelo que Salomão não pediu a Deus outra cousa para reinar.—É verdade (disse o doutor) porém os reis, que succedem aos reinos por herança, não podem ser eguaes no entendimento e prudencia; mas com a dos que por elles governam vem a alcançar esta perfeição; d’onde nasceu o proverbio antigo de Atheneo que o rei tem muitos olhos, e muitas orelhas, pois ouve, e vê pelos ministros que governam o seu estado: E como diz Tullio, se é real cousa mandar, não o é menos escolher doutos e famosos varões, por quem se governem: e ainda os reis, que foram mais sabios (ou por este respeito tidos por esses) procuraram ter comsigo os mais afamados homens de seu tempo, de cujo conselho se valessem. Anthioco mostrou a Hannibal quanto se presava de favorecer os sabios em sua côrte. E Theodozio o Magno dizia que o rei quando comia, caminhava, governava, e se retirava, se não havia de achar sem homens sabios: o que tambem Lampridio escreve de Marco Aurelio. E d’este conhecimento nasceu a Dionysio mandar a Lydia a buscar o philosopho Platão: e aos reis do Egypto mandarem por seus embaixadores buscar o poeta Menandro. Por esta razão Frontino Filosofo foi tão grande pessoa na côrte do imperador Antonino; e Dion Sofista na de Trajano; Euripides na de Archelau rei de Macedonia; e outros muitos, que não bastara esta noite para os contar. E assim, como tendes mostrado, sempre a pessoa real é uma lição viva que por si, e seus sabios, e ministros está ensinando a todos os inferiores. Além do que o mesmo rei, por necessidade, e quasi por força, ha de ser nos costumes mais puro que todos os seus, por viver mais registradamente que elles, constrangido de sua mesma dignidade; o que mostra bem Xenofonte na disputa de Hieron tyranno com Symonides sobre a vida regia, e particular: e tambem as mesmas leis os obrigam mais a elles, que aos particulares. Os reis do Egypto, como conta Diodoro Siculo, por lei não podiam beber mais que uma certa medida mui limitada, de que não passavam, porque com algum excesso não fizessem desordens. Os Athenienses, segundo affirma Alexandre de Alexandro liv. 3, tinham lei, que condemnava á morte o rei, que com o demasiado vinho se alienasse. Os Indios, de que escreve Atheneo, cujo rei davam em guarda a certo numero de donzellas, ordenaram que, se algumas d’aquellas o achasse com vinho demasiado fóra de seu juizo, e o matasse, esta fôsse desposada com o successor, a quem vinha o reino. Os Macinenses, como o seu rei fazia algum erro no governo, não lhe davam de comer aquelle dia. Os Persas faziam ao seu rei estar escondido no interior das casas, para nem vêr mulheres, nem ser muito tratado dos homens, como conta Herodoto liv. 3. De maneira que por razão, lei e força os principes são mais observantes das leis divinas, e humanas, mais sobrios, temperados, recolhidos e honestos. Além de que, sendo menos vistos, são mais respeitados, como ensina Aristoteles no livro do Mundo, em que conta do rei de Persia, que estava encerrado em um castello com tres muros, e que se não mostrava senão a poucos de seus amigos: como tambem dá a entender a Escriptura, falando da prerogativa dos sete sabios da Persia, que viam ao seu rei, e que cada dia tinha novas de todo o seu imperio.—Deixados (disse Leonardo) esses exemplos tão antigos, e costumes tão louvaveis e excellentes da gentilidade; os principes por creação, e natureza são mais benignos, liberaes, magnanimos, justos, animosos e verdadeiros, que os outros homens, e dotados pela maior parte d’aquellas virtudes, a que por excellencia chamamos reaes. E como é proprio dos homens de bom nascimento e inclinação aspirarem ás cousas mais altas, e desejarem vantagem e melhoria dos outros; tendo diante de si, e no alto da vista um espelho tão claro como é o seu principe, a elle se estão vestindo e enfeitando d’ellas; primeiro e melhor os que o vêem de mais perto; e depois os que por communicação d’estes participam da mesma doutrina.

Ao rei por assistencia lhe ficam mais perto os favorecidos, e officiaes de sua casa, que os grandes, e titulares. Porém estes, como primeiros por dignidade, se preferem a todos. D’estes se aprende o logar que tem na casa real, nas côrtes, nas jornadas, na guerra e em outras occasiões: a familia de que são, o appellido que tem: se os seus titulos são de juro, se de mercê: e os bens que tem de patrimonio, e da corôa: logo o que toca aos officios maiores do rei, em que occasiões não faltam, e nas em que precedem uns a outros: e assim os filhamentos, e moradias do mordomo mór: as entradas do porteiro mór: os pertos do camareiro mór: as praças, provimentos, e penas do monteiro mór: as aves, e ministros do caçador mór: as capitanias do guarda mór: os potros, e jaezes do estribeiro mór: os privilegios do almotacé mór: as vias do correio mór: e os particulares dos mais officios da côrte; assim os ecclesiasticos de capellão mór, e esmoler, e deão; os da guerra, como condestavel, alferes mór, almirante, marechal, e meirinho mór.—Não era fóra de proposito (accudiu D. Julio) tratar mais miudamente de cada um d’estes cargos, e das obrigações e origem d’elles, e de outros menores, que agora com differentes nomes se accrescentaram no serviço real de Hespanha.—A esse desejo (tornou elle) satisfarei eu em outra noite; que agora nem da obrigação, que tomei, me atrevo a sahir com minha honra.—Com essa promessa (replicou D. Julio) eu fico contente, e vós podeis ir adeante.—Faço-o (disse Leonardo) por me desobrigar mais depressa. E falando dos privados e favorecidos do principe, tambem são dos mestres principaes que ensinam a viver os particulares, assim no adquirir a graça do senhor, como em a sustentar, usar d’ella, avalial-a, e encarecel-a aos cortezãos: porque assim como a privança é vidrenta e perigosa, assim os meios, por que se conserva, são muito subtis, e delicados: e posto que o eleger privado está na vontade do senhor, a diligencia faz n’esta parte muitas vezes o officio da natureza; que se, conforme a sentença de um sabio, a semelhança é raiz da affeição, tambem a diligencia é mãe da boa ventura. Os reis é cousa muito antiga e certa terem privados: e a Providencia Divina o ordenou assim para o remedio de muitos, e allivio da pessoa real: quando elles são varões de valor, justiça, e bondade, como para este officio se requerem (que de outro modo seria cahir peçonha na fonte, de que bebe todo o povo, como escreveu discretamente o nosso bom portuguez Francisco de Sá de Miranda) a estes se inclina de ordinario, ou por semelhança de partes, ou satisfação d’ellas, com uma natural sympathia, que concilia este amor. Se o principe é affeiçoado a armas, se a amores, se a gentilezas, se a forças, se a caça, ou a montaria, se a musica, ou a poesia, ou outras artes, e disciplinas, contentam-lhe os que tem essas mesmas partes, ou se inclinam a ellas. E assim o que entra n’esta pretenção, que é dos que andam mais perto do serviço do principe, o primeiro, que estuda, é a sua natureza, inclinação, e costume, para se ajustar, ou avizinhar com o seu gosto, e se fingir aquelle que lhe convém ser para o contentar: e porque os homens até a seus proprios defeitos são affeiçoados, maiormente os principes, a quem chega mais tarde o desengano d’elles, até n’estes o imita o que sabe grangear a sua vontade; como ouvi contar de um favorecido de Filippe rei de Macedonia, que se fingia coxo de uma perna, porque el-rei o era de outra; outro se finge curto da vista, outro indisposto, e outro se faz pallido e descorado, achando que o rei tem os mesmos accidentes: no andar, no falar, no olhar, no vestir, e em todas as acções o imita; aprende a arte, o jogo, o exercicio em que o rei se occupa, para que, sendo n’elle extremado, seja muitas vezes escolhido, e faça degraus á sua pretenção; entristece-se, e se alegra segundo ao mesmo rei a que grangea. E ainda passam adeante como a Carizosopho, privado de Dionysio, que estando o rei em conversação com alguns da côrte, e movendo-se entre elles grande riso, o favorecido, que estava apartado d’elles, se começou a rir desentoadamente: e perguntando-lhe Dionysio de que se ria, respondeu, que porque imaginava que as cousas, de que o via rir, seriam de gosto. Se entende que no jogo o principe se alegra com ganhar, deixa-se perder; se estima ser gabado, busca rodeios para que, sem parecer de proposito, trate de seus louvores. E de um ouvi eu contar que as mesmas historias, que ao principe ouvia, das cousas de seu gosto, e das gentilezas, e esforço de sua mocidade, lh’as tornava d’ahi a tempos a referir, dizendo que as ouvira de outras pessoas; encarecendo-as, accrescentando-as, e pondo de casa o que movesse a mais gosto, e vangloria o mesmo Principe. Não faltar na continuação de sua presença (como Aristipo Cyreneo) que nem á necessaria deixava ir a Dionysio sem o acompanhar. E quando com estas, e outras diligencias alcança a graça do rei, é outro novo, e maior trabalho sustental-a; que é o cuidado com que todos os privados se desvelam, porque não comem com gosto, não bebem com quietação, não dormem com descanço, não vivem sem receio. E entre outras advertencias me parecem muito principaes, e excellentes as que aponta o bispo de Mondonhedo no seu Aviso de Privados: convém a saber, que o favorecido não descubra ao principe tudo o que cuida; que lhe não mostre tudo o que tem; que não tome tudo o que deseja; que não diga tudo o que sabe; que não faça tudo o que pode; que não negoceie para si, nem para outrem fora de tempo; e que em todos se incline e favoreça a parte justa, para que com conhecida sem razão não arrisque o logar de sua privança. Atraz d’isto se seguem os ciumes de seus competidores, o cuidado de os apartar da vista, e da communicação do principe: e ainda os de que mais se receie, trabalhar de os ausentar da côrte com despachos, dadivas e mercês do mesmo senhor, dourando com ellas a pirola de sua dissimulada tenção. Para o que é notavel exemplo o de uma historia que conta o cardeal Navarro no seu tratado da Murmuração, de um Fr. Francisco de Mendania seu natural, muito aceito ao imperador Carlos V; ao qual senhor privado, que se receava de sua valia, persuadiu com grandes louvores do frade que seria de muita importancia nas Indias Occidentaes para converter a gentilidade por sua admiravel doutrina, e bom modo de persuadir: e d’esta maneira com capa de amigo o fez prover com o bispado de Nicaragua, desterrando-o da vista, e lembrança do Imperador, e d’ahi a poucos mezes da propria vida. Outro valido, que não teve este meio para deitar da côrte um gentil-homem, que alcançava graça com o rei, e que nenhum cargo quiz acceitar fora de sua vista, espreitando occasião de uma enfermidade sua, se falou com o medico que o curava, e fez que o persuadisse que viviria mui pouco, se assistisse n’aquelle logar, onde a côrte estava, por ser muito contrario a seus achaques. Elle vendo que se atravessava a vida com a privança, procurou de proposito o que antes enjeitara mil vezes, e se sahiu da presença do principe, deixando ao privado livre de ciumes. Tambem importa muito que o favorecido, depois de estar na graça do senhor se lhe não queira egualar, ou adeantar por opinião em alguma parte, de que elle se preze; nem mostrar-se mais discreto, mais valente, mais bem visto, mais airoso, mais acceito a damas, e em outras partes semelhantes; que é cousa, que os reis soffrem muito mal. El-rei D. João o II, e el-rei D. Sebastião não queriam que em fôrças, e valor se lhe egualasse nenhum vassallo, como se collige de muitas historias suas; e el-rei D. Manuel no entendimento: o que tambem se prova d’aquella historia, referida de Antonio Peres, que lhe succedeu ao mesmo rei com o conde de Sortelha D. Luiz da Silveira, a quem mandou que fizesse uma carta para o papa sobre certa materia de importancia, dizendo que elle faria outra minuta para de ambas escolherem a mais acertada: succedeu que, trazendo o conde a sua a el-rei, pareceu tão bem, que não lhe quiz mostrar a que fizera, e assignou a do conde: elle descontente d’este successo se foi a casa, e fez uma pratica a seus filhos, dizendo que cada um buscasse sua vida; porque já el-rei tinha entendido que sabia mais que elle. Assim que o mais alto logar da privança se sustenta com os maiores extremos da humildade em respeito do mesmo senhor; porém para os de fora lhe é necessaria uma ostentação, e ufania, que mereça mais seus poderes, e quebre os animos que podiam ter com elle competencia, para se não atreverem a capitular seus erros, e a contrastar sua valia. E abreviando esta materia, por ser mui larga, se aprende tambem dos cortezãos, assim dos ministros, como dos continuos da côrte, aos quaes pela communicação dos superiores, e exemplo do principe convém serem modestos, sobrios no comer, cortezes no tratar, discretos no falar, polidos no vestir, honrados no gastar, bem creados no conversar, e amaveis a todo o genero de pessoa: e tem mais d’estas partes os que por creação da meninice tomaram este leite, como são os filhos dos que no mesmo serviço gastaram a vida. Esta é a primeira escola, em que os homens aprendem o que pertence á profissão de homem de côrte.—O segundo exercicio (disse o prior) me parece que é o mesmo que tendes mostrado, advertindo mais algumas poucas cousas que são particulares do serviço das damas. O decóro e primor, com que ellas se tratam (respondeu Leonardo) n’este reino, principalmente as que assistem no paço, parece que em certo modo conserva aquella preeminencia, que os egypcios lhe deram, que com o exemplo do bom governo de Isis reinavam as mulheres, porque em presença, e ausencia os cortezãos as nomeiam por senhoras, se lhes descobrem, e ajoelham como a deusas, lhes fazem festas, jogos, justas, e torneios como a Deidades, estão pendurados de seus favores, e respostas, como de oraculos; as acompanham como a cousas sagradas; se vestem, ornam e enfeitam pelas agradar; se desvelam pelas servir; se apuram, para as merecer, no esforço, na gentileza, na galantaria, no dito discreto, no escripto avisado, no mote galante, na endecha subtil, no soneto conceituoso; por ellas se ensaiam para o sarau, no dançar, no falar, no acompanhar, e no offerecer; por ellas se apressam nas occasiões, de jornadas, de creados, e librés, galas, e ginetes; por ellas continuam e passeiam á vista das janellas, atravessam as salas á sua conta, e rodeiam o terreiro do paço mil vezes por seu gosto; por ellas se offerecem a todo o perigo: porque qual é, que um servidor de damas não ache facil por amor d’ellas? que palavras diz? que extremos receia? que esquivanças não soffre? que riquezas estima? que chimeras não finge? que occasiões não busca? vela de noite, não descança de dia, não se entristece com a pena, não desconfia com o desengano, não faz conta de aggravos, nem estima desprezos, não cura de vinganças, e emfim tudo é veneração e humildade, com que as engrandece. E d’esta escola de seu serviço (como no principio disse) sahem os homens tão apurados no que convém á honra, primor, e discrição, que se não pode esperar d’elle vilania em nenhuma cousa. E porque falta a Portugal ha tantos esta creação, tem tão pouca muitos filhos dos illustres do reino, que livres d’este aprazivel, e honrado senhorio, ficaram no de sua vontade. E posto que a minha era dilatar mais esta materia, nem pela edade, nem pela confiança tenho licença.—Essa vos deram todos facilmente (disse então o irmão do prior) e eu de melhor vontade a procurara para com as damas honrar, e engrandecer as armas: contento-me porém que vos hei de ter presente para as duvidas, e perguntas, que se me podem offerecer.—Em tudo (respondeu elle) estaes vós tão avantajado, que mais podeis mover duvidas para me envergonhar, que para saberes alguma cousa de novo; e assim de corrido, e de corrida me passo ao terceiro exercicio da communicação dos extrangeiros, da qual se não alcança menos doutrina, que de todos os exercicios cortezãos. Quatro generos de gente extranha costuma a assistir nas côrtes dos principes. A primeira reis, principes, e senhores, e homiziados, que por alguma occasião vem a acolher-se a seu amparo, ou por adversa fortuna ficam debaixo de seu senhorio. O segundo são embaixadores, com os nobres e ministras, que os acompanham. O terceiro gentis-homens, que vem a saber a grandeza dos reinos extranhos. O quarto mercadores, que por razão do commercio e correspondencia vem a assentar nas praças principaes do mundo, que são as mais das vezes onde os reis assistem. E todas estas quatro condições de gente são de muita importancia para se colher d’ella muito fructo. Primeiramente facil é de julgar a varia noticia de costumes e condições de gentes e dos ritos e leis de provincias, que os cortezãos portuguezes alcançaram com a vinda de tantos reis e principes extrangeiros, assim infieis, como catholicos, á côrte d’este reino, quantos reis, e senhores da Barbaria, da Ethiopia, e de outras partes da Africa, da India, de Maluco, e de Japão, e de outras remotas partes do mundo; e que cousa apurou mais a côrte d’el-rei D. João o I, que a vinda a ella do duque de Alencastre irmão d’el-rei Richarte de Inglaterra, a cujo respeito houveram os doze portuguezes em Londres aquella celebrada victoria em favor das damas? Pois os mais homiziados e queixosos, que se ampararam á sombra do principe, pela maior parte são homens de valor, sangue, e esforço. Os embaixadores, do que d’elles temos dito, se collige o de quanta importancia sejam para dar exemplo. Os gentis-homens, que por curiosidade vem a saber o estilo e gentilezas de côrtes extranhas, esta mesma diligencia os acredita; e além d’isto é de presumir que tenham visto, ouvido e sabido muito de reinos alheios: de modo, que de uns e de outros se colhe grande doutrina para a conversação civil, e perfeição do homem bem nascido; porque cada um conta da côrte, trajo, modo, e estilo do seu reino, a maneira de reger, governar, julgar, tratar, e peleijar da sua nação: d’elles se aprende as excellencias particulares, e os defeitos das provincias, e de que as suas gentes são mais notadas: como a gentileza de França, a furia de Inglaterra, a fortaleza de Allemanha, o siso de Lombardia, as cautelas de Toscana, a fidelidade de Milão, a presumpção de Esclavonia, a conta e trato de Genova, a destreza de Bretanha, a caridade de Borgonha, a continencia de Picardia, a justiça de Veneza, a magnanimidade de Roma: e logo a crueldade de Hungria, a infidelidade de Turquia, a lisonja de Grecia, as zombarias de Piemonte, a luxuria de Catalunha, e a golodice de Barbaria. Pois dos mercadores se não colhe tambem pequeno fructo: porque, deixando o que pertence á conta, peso, medida, correspondencia, confiança, credito, verdade e razão, se alcança do commercio das provincias o que falta em muitas partes; e as em que ha todas as cousas, que por via dos mercadores se communicam, e os portos, caminhos, e escalas de todo o mundo: por elles se conhecem as pedras finas, drogas, roupas, e materiaes de medicinas da India Oriental; as pedras, aljofar, porcelanas, e alcatifas da China; o ouro de Sofala; como no Occidente de Dalmacia, e Germania; e na França o celebrado de Tolosa: a prata de Nova Hespanha, e de Saxonia, e Sardenha: o metal de Corintho, e Chipre: o estanho, cobre, e arame de Flandres, e Inglaterra: o ferro, aço, e chumbo de Cantabria e Sicilia: o marfim da India, Brazil, e Ethiopia: as lãs de Bretanha, Calabria, Calcedonia, e França: o algodão, cheiros, e myrrha de Arabia, Pancaia, e Assyria: as télas e sedas de Persia: o alabastro de Napoles: as martas, e arminhos de Polonia, e Moscovia: o papel e vidros de Veneza: o assucar de India, Brazil, e ilhas de Portugal: o coral de India e Marselha: courames, madeiras, vinhos, e trigo das ilhas do Oceano, que pertencem á conquista dos portuguezes: e muitas outras cousas, que querer agora contar fôra infinito; e por o não parecer este discurso, tratarei brevemente de quatro exercicios dos pretendentes da côrte: materia mui larga, que pedia mais tempo, e muito importante a todos, porque do seu cuidado, diligencia e soffrimento se pode colher uma lição universal para todo o estado, e condição de pessoa, pois nenhuma ha a que não seja necessario desvelar-se, negocear e soffrer para effeito de dar alcance ao que deseja. E como n’este tempo os homens estão já desenganados de quão pouco valem merecimentos, que (por elles o não serem) vieram a chamar valia ás adherencias; e lhes tem mostrado a experiencia a verdade d’aquelle rifão, que cada um dança segundo os amigos que tem na salla; e que só põe em pé os serviços quem os arrima a boa parede, por mais arrastados que andassem na opinião da gente. Já nenhum pretendente discreto faz tanto cabedal d’elles como de ministros que o ouçam, creados que o admittam, amigos que o lembrem, ricos que o abonem, terceiros que o cheguem, e peitas que o despachem. Para o que o avisado, depois de fazer o signal da cruz á sua pretenção, primeiro sabe os que valem com o principe, depois d’isto os que tem logar e entrada com os privados: logo conhecer os creados mais mimosos; em sabendo a sala do valido, tomal-a de empreitada, ser continuo no passeio d’ella; onde a todos a primeira cortezia, e a mais humilde seja a sua; o riso sempre na bôca, os offerecimentos na lingua, os olhos no seu intento; dar o melhor logar a todos, porque acaso não falte a algum que pode ser em seu favor; não se aparte da vista do que grangea; faça-se encontradiço onde o veja; na egreja tomar o logar da porta; na salla a sahida; no acompanhamento o deanteiro, para parar onde fique tomando os olhos do privado, para que assim, ou com a continuação mereça, ou com a importunação o despache: usar do trajo limpo, mas não custoso: o comer leve, mas concertado, porque arguem moderação com gravidade: o falar sempre á vontade do ministro, dizendo os amens a todas suas orações, mostrar-se ao favor humilde, á representação agradavel, á esperança contente, ao desengano confiado: falar a todos no seu negocio, porque muitas vezes acerta com um, de que elle não esperava abrir caminho a seu despacho; saber dos que tiveram os outros, e valer-se da queixa dos mal galardoados, para que, antepondo-lhe os seus merecimentos, approve a justiça e favor, que lhes fizeram. E no que toca á moderação das paixões naturaes, ninguem as traz mais registadas que o pretendente; porque dos cinco sentidos e tres potencias usa d’esta maneira. Vê tudo, e olha pouco; vigia, porque, como dizem, a quem vela tudo se lhe revela; mas com os olhos no que procura dissimula o que vê, ouve, e não escuta: e assim as más respostas dos ministros cançados, ou insolentes não o escandalisam, antes lhe mostra alegria fazendo do escandalo materia de agradecimento; cheira de longe o que receia; e dissimula, fingindo confiança no que merece: apalpa, e tenta todos os meios de seu remedio, e finge-se ignorante a tudo o que releva; põe o gosto no de quem o favorece, para não fazer mais que o que lhe contente: a memoria occupa-se em relatar seus serviços, e obrigações fingidas, por vêr se assim as pode ter verdadeiras: esquece-se do entendimento para não sentir, e para tambem com elles obedecer; porque o que pretende é muitas vezes prudencia fingir ignorancia, accommodar a vontade com a sua em um voluntario e forçoso captiveiro; a d’aqui nasce que os que pretendem vivem em pobreza, porque não podem ter proprio emquanto dependem de favores alheios; em obediencia, porque a tem com tanta sujeição, que, se ao senhor deseja parecer creado, ao creado quer parecer escravo, e ao amigo, e parente servidor; fazendo-se com todos os ventos para o contentar; em castidade, porque a sua inquietação e cuidado não dão logar aos de amor, que se criam em pensamentos ociosos, que além do pretendente ser humilde, liberal, cortez, paciente, discreto, comedido, sombrio, advertido; casto, diligente, e temperado, a sua cortezia é mais apurada, a sua discrição mais advertida, a sua liberalidade mais prodiga, a sua offerta mais timida, a sua queixa mais moderada, a sua paciencia mais humilde, o seu louvor mais encarecido, a sua voz mais baixa, a sua razão melhor encaminhada. Emfim é ornado de todas as partes boas, de que se pode prezar o homem bem nascido quando as tenha por natureza, e costume, como os pretendentes as fingem e guardam por necessidade. Com isto me deveis haver por desobrigado do cargo, que me déstes; e posto que as horas, que são passadas da noite, culpam a minha tardança, a materia a pedia; ainda que o desejo de não enfadar me aconselhasse outra cousa.—Tendes dito todas tão bem (respondeu elle) que a pratica, e a noite pareceu breve. Com isso vamos a descançar para na guerra de ámanhã entrarmos mais esforçados.—N’essa me dou já por vencido (disse elle).—E eu por atalhado (accudiu Roberto) e todos se despediram com os olhos n’aquella côrte pintada, que ainda com as sombras da verdadeira enganava os sentidos.