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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) cover

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)

Chapter 9: DIALOGO XV DA CREAÇÃO NA MILICIA
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About This Book

A series of dialogues offers practical guidance on spoken language and social conduct, stressing clarity and a measured balance between prolixity and excessive brevity. It critiques ornate or obscure phrasing, warns against overconfidence and careless or untimely remarks that may offend listeners, and urges attention to audience and context when using foreign terms or recounting distant stories. The conversation also examines polite naming practices and the risks of gossip, then treats salt as a metaphor for wit and grace that enlivens conversation, adding cultural and natural reflections on its preserving and symbolic properties.

DIALOGO XV
DA CREAÇÃO NA MILICIA

Solino foi o primeiro que a noite do outro dia buscou aos amigos em casa de D. Julio; e elle, e os hospedes lhe agradeceram muito a diligencia. E o prior (que lhe não era pouco affeiçoado) disse:—Bem me parece que não fez a edade falta no vosso animo, ainda que as cãs queiram desacreditar as forças, pois sois o primeiro que acudis á guerra.—Como esta (respondeu elle) ha de ser em alojamento, primeiro apparecem as barbacãs, que os soldados.—N’ellas (acudiu Alberto) está o mais seguro presidio contra os perigos; e tendo eu hoje as vossas da minha parte, temerei pouco as que tiver contra mim n’esta occasião.—Em muitas (replicou Solino) me releva mostrar que sou vosso, por dar boa conta da razão com que de mim faz alguma o sr. D. Julio; que, como sabe melhor o que se vos deve, me terá por rustico, se não pagar com esta vassallagem o que mereceis.—Nada haverá (disse D. Julio) que commigo vos desacredite, mórmente para um cumprimento, segundo agora vos vi armado para elles.—Pois se vae a falar verdade (tornou elle) eu vos affirmo que de nenhum inimigo desejo tanto fugir como de um cumprimento; porém ha alguns, que tomam a um homem como em becco sem sahida, onde o faz animoso a necessidade; e á minha acudistes vós agora com essa interlocutoria; que já minha copia verborum ia dando os fios.—Se com esses me armaes a que vol-o gabe (disse elle) estaes enganado; que me importa poupar o cabedal para outra occasião.—Bem sabeis vós (tornou elle) que em nenhuma me quero gabado, antes; praguejado como Adem; porque se é verdade (como diz Pindaro) que tenho a graça na murmuração, como a cobra a peçonha no rabo; quando me põem o pé n’elle, sei morder com mais subtileza, que na doçura de um cumprimento abemolado, de que já a mercê arda tão estylada a puras sincopas e signalefas que parece tisica, e não sei se, de o estar nas palavras, o anda agora nas obras dos senhores.—Ruim agouro foi para uma e outra cousa (disse o prior) escreverem-a sempre em breve letra por parte: e certo que nenhuma cousa era tão necessaria ás mercês de agora, como o mantenha-vos Deus do tempo antigo. Porém, se me não engano, ouço já os vossos aventureiros, que vem falando alto.—Eu tambem sou com elles (disse Solino) e conheço a Pindaro no riso, que sempre entra com chocalhada como picadeiro. A esta pratica atalhou a chegada d’elles, que com mais compridas desculpas do que foi a tardança se assentaram. E porque Solino tinha um galeote vestido, que trouxera por razão do frio, lhe disse Pindaro: nem de côrte, nem de milicia vos vestistes hoje; e não parece razão que em actos tão solemnes venhaes de caça a casa do sr. D. Julio.—O melhor seria (respondeu Solino) que me cortasseis vós agora de vestir, pois não tendes boa tesoura; e já sabeis que as ruins fazem a bôcca torta aos alfaiates. Porém já que vinheis de côrte para esta casa, onde ha tanta, porque antes de vêr o meu gabão rieis tão alto d’elle?—Vingado estaes (acudiu Feliciano) e o certo é que, se faltardes á milicia, nunca vos faltará a malicia.—Se nos mettermos por ella (disse Leonardo) não ficará tempo para que o sr. Alberto satisfaça á obrigação de nos ensinar a boa creação, que se adquire com as armas.—E se eu com as do vosso entendimento (tornou elle) não soccorrer a minhas faltas, mal me irá n’esta batalha: porém como as mais das instrucções da policia militar dependem, ou se parecem com as da côrte, do que d’estas dissestes tão doutamente me aproveitarei agora, pondo sómente de meu cabedal a differença. E assim me parece que a creação da milicia leva a todas as outras grandes vantagens por quatro fundamentos; que cada um d’elles apura mais aos homens bem nascidos, que o trato da côrte e o exercicio das escolas. O primeiro é, que a honra é a fonte de todo o bom ensino, policia, procedimento e valor; e esta que mais nasce, se cria e conserva na guerra, que em nenhuma outra parte: e assim os reis, que são o primeiro logar, d’onde aprendem os seus inferiores, e d’elles passa a doutrina a todo o vulgo, primeiro os fez a milicia que os tivessem as côrtes: e o primeiro, que houve no mundo, que foi Nembrot, na guerra tomou o nome, e assentou com elle o seu imperio em Assyria; e de então todos, os que por fio de geração não succederam, as armas lhes deram titulo, corôa, sceptro e senhorio; e depois d’elles o tiveram pelo mesmo modo os potentados, duques, marquezes, condes, barões e ricos homens, que nas conquistas, instituições, ou restaurações de reinos, fizeram obras heroicas: e d’elles passaram a seus descendentes os appellidos, armas, insignias, senhorios, terras, vassallos, jurisdicções, liberdades, honras e rendas que engrandecem a nobreza. O segundo fundamento é o rigor, com que na milicia se conserva a lei da policia, bom termo, primor e procedimento; porque se commettem muitas vezes ás armas as faltas e emendas que a estes tocam; e onde o erro é tão arriscado, é a vigilancia e advertencia muito pontual; e por este respeito andam os soldados tão vistos nas miudezas e particulares da cortezia, que nenhum ponto perdem, nem deixam perder. O terceiro é a continuação do soffrimento, e da paciencia militar, que em tudo se adeanta com grande differença a pretendentes, creados ministros, no que é com maior risco da vida, ora seja marchando, ora navegando, ora em alojamento, ora em campanha, pelas incommodidades de sitios, gasalhados e mantimentos; e pelas continuas vigilias, que fazem por lei o repouso tão limitado, como o póde fazer por curiosidade o mais estudioso. O quarto fundamento é a variedade das terras e provincias que vê, as diversas nações e gentes com que trata; que é a creação mais importante para o homem bem nascido, e que na côrte ou nas escolas se não póde adquirir tão facilmente. E para que, ao menos imitando a ordem do sr. Leonardo, dê alguma a minhas razões, discursarei com maior brevidade, que satisfação sobre estes quatro fundamentos, fazendo o principal de minha confiança no favor que d’elle, e de todos estes senhores espero.—Até o tomar na graça (acudiu Solino) ambos levastes um mesmo vento, senão quanto ao sr. Leonardo metteu mais traquetes e cevadeiras: e se isto até ao fim fôr em arremedados, póde ser que entre eu na musica antes de muitos dias.—De boa vontade (disse o doutor) vos passarei eu o de ámanhã.—Não o hei de pedir (respondeu elle) por alvará de renunciação, que será difficultoso o consentimento d’estes senhores; buscarei logar vago: e porque me entalei n’este em ruim tempo, o quero deixar ao sr. Alberto.—Pareceis-me n’elle tão bem (tornou elle) que já me esquecia de o cobrar; porém, já que me daes licença, o primeiro fundamento é que a honra se apura e sustenta mais na guerra que na côrte e nas escolas: este me parece que se prova melhor com uma sentença que diz que a boa fama é o patrimonio na milicia; porque a honra, o ser, o preço e a riqueza de um soldado, não consiste no appellido de sua familia, na herança de seus avós, na riqueza e morgado de seu pae, nem outros juros, tenças e rendas de que tenha esperança; senão na opinião em que está tido entre os amigos e contrarios, segundo seu valor e merecimentos. E se é certo que a verdadeira honra não consiste nas estatuas dos antigos, nem nos pavezes e escudos em que se conserva a memoria dos principios da nobreza, senão na virtude, valor, magnanimidade e exforço proprio; só o soldado é filho de suas obras, e se póde chamar honrado por si mesmo, sem por roubo, emprestimo ou herança se chamar nobre: porque os que de nascimento o são, e pelas armas o merecem ser, assim honram a seus passados, melhoram e obrigam a seus descendentes. E os que de principios humildes chegaram por seu braço a merecer titulos, grandezas e senhorios, dão felice principio a sua familia, e tambem a reinos, potentados e casas, que os ficam em seus successores eternisando, como por maravilhosos exemplos dos antigos conhecemos; e por experiencia dos modernos se vê cada dia. Ptolomeu de soldado de uma companhia do exercito de Alexandre, veiu por seu valor a ser rei do Egypto. Dario e Artaxerxes por esforço e merecimentos proprios, sendo de mais humilde nascimento, alcançaram o sceptro e corôa real dos Persas. Valentiniano e Justino imperadores de Roma, nascendo rusticos e pastores, por o braço vieram a merecer aquelle supremo titulo da grandeza humana. Viriato e Tamorlão, de pastores, caçadores e soldados vieram a ser, um imperador dos Scythas, o outro governador e general dos Luzitanos: e outros mais modernos, como foi Primislau rei de Bohemia, Francisco Esforcia duque de Milão, e outros muitos; e na milicia presente de Flandres, França, Allemanha e Inglaterra, na de Asia, e na do Oriente, e da Nova Hespanha, conheço eu por vista, e sei por nome, e da fama de muitos soldados, que, sendo de escuro nascimento, por sua extremada valentia e esforço se fizeram tão claros e illustres, e como taes tem os cargos importantes, os logares, honras e vantagens da milicia. De maneira que, pois a honra é uma universidade, em que se aprendem todos os bons termos, procedimentos e cortezias; e esta está fundada na milicia, onde entre as armas nasce, com ellas se ganha, apura e sustenta; n’ella deve estar mais apurado o fructo de sua disciplina. O segundo fundamento é o rigor com que os erros contra a policia se castigam na guerra; de que nasce a vigilancia e cuidado, com que os soldados se disvellam para andarem apontados até em miudezas, de que na côrte se descuidam os mais advertidos para a differença que ha, cortando-se á espada o maio que cresce ao que é pouco cultivado no bom ensino e procedimento; de modo que, mais periga um homem em uma descortezia ás vezes, que em uma batalha. E assim o falar composto, o responder brando, o perguntar com tento, o tratar do ausente, o defender ao amigo, e o falar do contrario, cada cousa tem na guerra suas leis estabelecidas, em cuja execução se procede com todo o rigor; o dos particulares d’ellas nasceram os desafios e duellos tão justamente reprovados na republica catholica, quanto na barbara opinião antiga bem recebidos, como foi na dos reis de Lombardia, que reduziram o duello a dezoito casos das leis: o o imperador Frederico a quatro; e Filippe rei de França a tres: e Frotanio rei de Dacia fez lei que toda a contenda que havia de ser em juizo, se averiguasse pelas armas. E como o descuido que o soldado tem na cortezia, a soltura na palavra, a má correspondencia no procedimento, a liberdade com que fala do ausente e do contrario, está sujeita a dar satisfação por um caminho tão breve: qualquer soldado pratico está mais advertido que o melhor cortezão no bom ensino, respeito e brandura com que ha de tratar aos homens.—A verdade é (disse o doutor) que os soldados conversam com toda a brandura e bom termo: e já Platão disse que o bom soldado devia de ser como o cão; para os domesticos e conhecidos muito fagueiro; e contra os inimigos arriscado e valente. Porém o duello é cousa muito mais antiga, e que se não inventou para essas miudezas que dizeis: porque, conforme a opinião dos legistas, é um combate e batalha particular de corpo a corpo para provar alguma cousa duvidosa, da qual o que sahe vencedor se entende que provou o que queria, como o desafio de Menelau com Paris, de Enéas com Diomédes, de Ajax com Heitor; os duellos de Lucio Sicinio Dentato, que oito vezes á vista dos dois exercitos sahiu vencedor; o de Tito Manlio Torquato, e de Lucio Emilio com o capitão dos Samnitas; de Alexandre Magno com Póro rei da India, o de Scanderbhec com Zayá, e Tambrá valorosos Persas: o de Roe rei de Dacia com Hudingo duque de Saxonia: e muitos dos nossos valorosos Luzitanos em muitas partes do mundo, o de Alvaro Gonçalves Coutinho o Magrisso em Flandres; o de Alvaro Vasques de Almada conde de Abranches em França; o de Duarte Brandão cavalleiro da Garrotea em Inglaterra; o de Gonçalo Ribeiro em Castella; o de D. Francisco de Almeida em Granada: e muitos outros no Oriente, na Asia e em Barbaria.—Não são esses (respondeu Alberto) os duellos reprovados de que agora tratei, que modernamente se usam, e se definem por differente modo, e por todos com bastantissima causa se defendem; que os de que falaes assim, como são batalhas singulares de corpo a corpo, se usavam de cento a cento, vinte a vinte, dez a dez e doze a doze, como foram os portuguezes de Inglaterra. Duellos, segundo a definição moderna, é um combate de homens, que despresando as leis, querem averiguar por seu braço o que toca á sua honra ou opinião, movidos do interesse de a sustentarem, ou de vangloria, arrogancia, inimisade ou vingança: e d’estes usa na milicia a furto das leis e generaes, que com muito rigor os castigam: procedendo todos sobre miudezas e pontos as mais vezes impertinentes, introduzidos pela bizarria e fonfarria soldadesca, pendendo do que disse, calou, passou, respondeu, olhou, se gabou? se ficou melhor nas palavras, se alguma era escura, e ficou mal entendida? sobre perguntas, declarações, satisfações e respostas, e outras cousas, que, por não merecerem ser tratadas, antes com razão reprehendidas, deixo de dizer. Mas a conclusão, para o meu intento, é que na milicia andam as leis da cortezia, e procedimentos mais ajustadas com a razão, que em outra parte alguma, por meio d’este rigor, que faz aos que militam levarem muitas vantagens. O terceiro fundamento é a paciencia e soffrimento dos soldados, que creados no trabalho, e incommodidade d’aquella vida, é o maior de todos os estados; trazendo sempre como grilhões o peso das armas: que se o proverbio diz que quem traz no dedo o annel apertado, faz para si voluntaria prizão, quanto maior o será o cossolete, o morrião, o pique, o mosquete e o arcabuz, traz isto trazer o somno registrado pelas leis do tambor, acudir ao seu quarto no melhor do repouso; e no maior escuro, e geada do inverno, passear á sombra das nuvens carregadas de agua, sem mais luz que a dos relampagos, e mais lume que a do murrão; e ter por cama a terra, que de ordinario serve aos soldados, que se alojam no campo, ou fronteira dos inimigos. E se d’el-rei D. Affonso Henrique, do condestavel D. Nuno Alvares Pereira, do condestavel D. Pedro de Menezes, e de outros generaes portuguezes lêmos, que muitos annos inteiros dormiam as noites sem despirem a malha, e couraças com que pelejavam de dia: que colxões lhes podiam servir para tão asperos lençóes, se não fossem as carretas da artilheria, o espigão dos muros, e o reparo das trincheiras e barbacãs? Pois se a sobriedade e temperança é tão gabada nos bons costumes pelos muitos que d’ella nascem, quem póde ser mais temperado e sobrio que o soldado, do qual tantas vezes a necessidade é cosinheira, o escudo ou cossolete a mesa, o morrião o pucaro, e fome a iguaria? E deixando as famosas, que houve no mundo, de que os auctores escreveram, que todas couberam em sorte aos soldados; qual se não ha de presumir que aconteça onde ha muita gente junta, da qual tudo se receia e nada se fia? E se em alguma gente se conserva o costume dos mantimentos da primeira edade, que eram fructas das arvores e legumes dos campos, só na da milicia acontece muitas vezes: não tratando ainda da guerra naval, que com maiores incommodidades e perigos da vida se exercita; nem nos cêrcos, onde mais vezes a necessidade da fome a põe em almoeda. Atraz d’estes extremos de soffrimento se segue a obediencia militar, que é o esteio em que se sustenta o principal peso da guerra, devida e guardada pelo mais valoroso soldado ao menor e mais humilde official do exercito, havendo n’elle tantos, como são general do exercito, coroneis, capitães, tenentes, governadores, mestre de campo, sargentos-móres, generaes de infanteria, de cavallaria, capitães de gente de armas, capitães de cavallos ligeiros, generaes e capitães de artilheria: fóra os particulares, alferes, sargentos, cabos de esquadra, e outros officiaes não combatentes, como são provedor geral, commissario geral, furriel mór, barrachel, thesoureiros, collateraes, pagadores, e meirinhos, e outros muitos.

E em o que toca ao governo de cada um, nenhum soldado desobedece na ordem, na estancia, no concerto, no acometter, retirar, assistir, reconhecer, vigiar, e em todos os mais actos militares: e ainda que se lhes atravesse deante o rosto da morte, o despresa por acodir á obediencia de quem tem a seu cargo mandallo. E faltando esta sujeição, totalmente se destruirão os exercitos, conforme aquella sentença, que o maior inimigo, que ha na guerra, é a discordia entre os proprios soldados: e assim se perderão muitos campos, e armadas, por a inconveniencia dos capitães, e a discordia, e desobediencia dos inferiores. De modo que, por ser esta experiencia tão approvada, vieram os reis, e generaes, a castigar bons successos, quando fóra da obediencia, e ordem militar se conseguiram; enjeitando aos vencedores a ventura, e castigando a ousadia, com que traspassaram a lei da milicia, como eu vi acontecer algumas vezes. Ha além d’esta outra obediencia não menos importante nos soldados, que é a do segredo; que vence ao maior que se deve aos negocios civis, e cortezãos: este se usa nos desenhos, intentos, avisos, estratagemas, ciladas, e até em o dar o nome ordinario da vigia; que tudo se guarda com inviolavel observancia. Assim que em tudo o soffrimento, e obediencia do soldado, muitas vezes alcança na guerra mais merecimentos que o seu esforço. E todas estas leis, costumes, e sujeição fazem a um homem tão apurado, polido, discreto, amavel, secreto, brando e animoso, que deixa atraz a todos os que nos outros exercicios se adiantam. O quarto fundamento é a communicação dos estrangeiros, e a vista de differentes terras, e provincias, que o fazem sciente, pratico e visto nos costumes, ritos, e reinos estranhos: porque um exercito se compõe de gente de muitas nações, que por soldo, irmandade, soccorro, pacto ou visinhança se ajudam uns aos outros: e assim capitães como soldados, cada um por competencia, não sómente quer assinalar seu nome, e honrar a sua nação, mas engrandecer os costumes, gentilezas, trajo, e galas da sua patria, contando ainda as guerras e empresas de seus naturaes, as grandesas da sua provincia, e outras miudesas, que nem pela lição escripta se pode comprehender tão facilmente. Pois a vista, que é só a que de todo satisfaz o animo, e enriquece o entendimento, ninguem a tem mais varia que o soldado, ora seja navegando, ora em presidios fóra de sua patria, aprendendo nas alheias todo o bom termo de proceder, de obrigar, grangear, servir, e de se ennobrecer, apurando a sua gentileza, e partes no serviço das damas, sua liberalidade com ellas, e com os soldados: a policia no seu trajo, e bizarria; a discrição na sua pratica; e todos os outros costumes, que á vista de tantas testemunhas exercita, conquistando honra com o esforço, amigos com o bom procedimento, servidores com a liberalidade, a affeição das damas com a gentilesa; fama entre os estranhos, nome com seus naturaes, merecimentos com o rei; que, quando sejam mal galardoados da ventura, não lhe póde essa tirar o seu verdadeiro preço, que é o louvor que á virtude se deve. Tambem não é para despresar na discrição do soldado, antes muito para engrandecer, a relação dos successos, e occasiões, em que se achou, e contar as coisas d’elles com mais propriedade que os cortezãos, e escriptores; pintando o campo em ordem, a cabeça do esquadrão, o rosto, as alas, os lados, e as costas d’elle, o logar das insignias e bandeiras, e dos instrumentos, artilharia e bagagem, a guarnição dos mosqueteiros, as mangas dos arcabuzeiros, as companhias dos alabardeiros, archeiros, bésteiros, escopeteiros, e piqueiros; dispondo nos combates cada uma d’estas coisas em razão, e termo militar. E egualmente no assalto, ou defensão, ou fortalesa, saber dos fortes os bastiões, torres, muralhas, ameias, barbacans, parapeitos, corredores, bombardeiras, séteiras, torreões, baluartes, terraplenos, platafórmas, trincheiras, praça de baluartes, respiradouros, casamata, rebelins, vias secretas, porta mestra, porta falsa, ponte levadissa, cavas, minas, fóssos, reparos, contrafortes, contraminas e contrareparos, e outros nomes, e serviço de coisas, em que só os experimentados nas armas podem falar propriamente: pelo que tenho o exercicio d’ellas por mais excellente para o homem bem nascido, que todos os outros.—Vós (disse Solino) canonisastes hoje aos soldados, e engrandecestes sobre todas a vossa profissão. E são tão boas as razões com que o fizestes, que se assim foram os seus costumes d’elles, não vos podia ninguem contradizer; nem eu o fizera agora, se tratáreis do que todos vemos em vossa pessoa; mas pela differença de outras, com que eu tratei, correndo tantos lares, e estalagens, como João de espera em Deus, haveis-me de dar licença que mostre o avesso a essa pintura, e diga que a milicia um é homicidio commum, uma escola de todos os vadios, e ociosos do mundo. E os soldados não são outra coisa, que soldados pagos, e armados em damno da republica, roubadores de honras, ladrões de fazendas, blasfemos, jogadores, insolentes, espadachins, matadores, rufiães, adulteros, sacrilegos, incestuosos, e perjuros, e cheios de todos os mais vicios, e maldades abominaveis, considerados na liberdade soldadesca, e em sujeitos tão perdidos, como o são os mais dos que se lançam por o caminho da milicia; de sorte que, se alguns saem tão bem doutrinados como vós, os mais são tão differentes, que desmerecem vossos louvores.—Bem sei (respondeu Alberto) que não posso provar commigo o que tenho dito dos soldados; mas podéra allegar com outros, que me fazem grandes vantagens; e com ellas me desobrigaram, se os tivera presentes, ou dos que aqui o estão foram conhecidos: e tambem é coisa clara que vos não faltarão muitos, com que proveis o que dissestes: porém fallo dos soldados honrados, que são os termos em que se deve tratar do fructo da sua profissão.—Pouca razão (acodio o doutor) mostrou Solino no seu arguir: porque primeiramente, a arte militar é muito approvada para a conservação da republica; e já Platão disse que era n’ellas tão necessaria como a agricultura; e os erros dos viciosos, e depravados não podem desacreditar a profissão, nem tirar merecimento aos bem disciplinados, e generosos: que se houvermos de fazer essa consideração em todos os exercicios, nenhum ha sem egual desconto: porque se no da côrte, em que falou Leonardo tão discretamente, quizermos escolher os perdidos, acharemos que são mais que os aproveitados; e o mesmo proverbio declara que são a maior parte, em quanto diz que a côrte é para privados, e para homens mal acostumados; e o mesmo, e peior acontece nas escolas. De maneira que a boa creação da milicia se deve entender sómente nos bem creados, a quem a honra obriga a que se queiram avantajar do vulgo; e não em os que fazem d’ella tão pouco cabedal, que empregam o de seu animo, e saber em cousas indignas de homens bem nascidos, occupando-os em latrocinios, forças, traições, maldades, enganos, e infamias.—Não me péza (disse Solino) senão porque me gabáram de valente quando aqui cheguei, para me não dar por vencido de duas razões tão fracas como as vossas; e com tudo me hei de calar até vos colher em um duello, em que eu escolha as armas, que vos não hão de valer as de quantos bachareis degolaram o mundo.—Guardae-lhe (disse D. Julio) esse animo vingativo para ámanhã, e virá mais a tempo.—Não já para mim (lhe tornou Solino) porque tem da sua parte muito favor, não sómente o de Solino, pelo que lhe importa, mas de Pindaro que tem estillada a quinta essencia dos louvores escolasticos, e não ha travessa, nem beco sem sahida nas lettras, de que não possa fazer um mappa mui copioso.—E achaes (tornou D. Julio) que é isso mau para letrado?—Antes o tenho por muito bom (disse Solino), prazerá a Deus que virá elle a saber ao que agora cheira, e assim o espero: que, posto que estes estudantes mancebos entornam ás vezes tudo no caminho, elle foi sempre pelo mais acertado.—Tambem a mim me parece agora (acodiu Alberto) acabar o meu discurso na vossa differença: para o que peço a estes senhores que me hajam por desobrigado de ir por diante.—Se estivera em mim (respondeu Leonardo) o poder obrigar-vos a dizer mais, como está o gosto, e desejo de vos ouvir, não sei se vos deixara despedir tão de pressa: porem deve ser tarde; porque já o era quando aqui viemos, por uma occupação que me deteve mais do que queria.—Não me parece a mim (disse D. Julio) que é tarde, nem entendi que estava tanto no fim a nossa pratica, que não podesse fazer algumas perguntas, como costumo, de algumas miudezas que o sr. Alberto passou por muito visto n’ellas, como eram alguns particulares, e differenças na ordem da infanteria, e cavallaria, e muitas da milicia naval.—Porque essas cousas tocavam menos ao meu intento (respondeu elle) passei tanto por ellas: mas quando outro dia tiveres gosto de ouvil-as, terei eu muito pouco trabalho em as relatar.

N’este tempo, porque os mais estavam já levantados, se despediram. E Solino se foi pendurando em palavras de galanteria com o doutor com tanta graça, que desejaram os companheiros poderem fazer o caminho mais comprido; que, por muito que o seja, a boa conversação o faz parecer breve, e desejado.