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Diccionario de João Fernandes / Lições de lingua portugueza pelos processos novos ao alcance de todas as classes de Portugal e Brazil cover

Diccionario de João Fernandes / Lições de lingua portugueza pelos processos novos ao alcance de todas as classes de Portugal e Brazil

Chapter 26: Z
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About This Book

O autor organiza um dicionário humorístico da língua portuguesa que propõe definições satíricas, epigramas, ironias e críticas de costumes. As entradas, ordenadas alfabeticamente, renovam sentidos populares e apresentam aforismos, trocadilhos e comentários mordazes que alternam instrução linguística e divertimento. A obra combina referências culturais e observações sociais leves, por vezes adaptadas de modelos estrangeiros, para demonstrar a flexibilidade e o humor do idioma ao alcance de um público amplo.

Y

{306}
{307}

Y

YPSILON—Um timido que rarissimas vezes começa alguma cousa por si, e que só apparece quasi sempre no meio da multidão.

—Ente inutil, e por isso o mais pobre de entre os vinte e cinco irmãos que lhe deu a arte de escrever. Por mais que eu o apertasse e espremesse, deitou apenas o magro chorume d'estes dois artigos. Bolas para elle!

Y mas no hay.{308}
{309}

Z

{310}
{311}

Z

ZABUMBA.—Estylo retumbante de certos discursadores.

—Os versos do senhor X.

—O elogio do senhor Y feito pelo senhor Z.

ZAGAL—Pessoa que falla á maneira dos heroes de Florian.

ZANGÃO—Ingenuo que faz livros com versos alheios.{312}

ZANGARREAR—Fallar ou escrever contra nós.

ZÃOZÃO—Discurso laudativo.

ZARCÃO—Perfido auxiliador do tempo nas caras das bailarinas.

ZAS!—O que precisam os patifes que nos roem a pelle.

ZELADOR—Pessoa util... a si.

ZIGUE-ZAGUE—Maneira de ir mais depressa.

ZOMBARIA—Pulga do espirito.

ZURRAR—Tomar a palavra, sem a pedir primeiro.{313}

ZT—Cousa que passa diante da nossa vista com a rapidez de um passaro. E modo por que eu me despeço do leitor:

 

ZT!

{315}

 

 

 

 

NOTA FINAL

OU A

ULTIMA PALAVRA DA SCIENCIA

Amaveis leitoras e benevolos leitores:—O homem que acaba de dotar tão generosamente a nação portugueza, e tambem a brazileira, com obra de tamanho prestimo e valia, pede-vos que não a largueis da mão sem vos terdes deliciado com estas linhas, que são remate e corôa do edificio consagrado á vossa admiração e regosijo.

Congratulae-vos commigo, povos d'aquem e d'alem mar! O monumento está concluido. Apesar das difficuldades da empreza, foi levado{316} ao cabo pela energia da vontade e pelo poder maravilhoso do genio, que o levantou sobre alicerces de diamante. A fama vae tomar conta d'elle para o tornar eternamente celebre; e os editores disputarão, de faca em punho, a honra de o reimprimir cincoenta vezes por anno.

Oh! gloria! oh! loureiros e palmares... onde tendes rama que chegue para tal triumpho?!

Jornalistas illustres, aparae as vossas pennas; academias e institutos scientificos, abri as vossas portas; povos, que vos prezaes de civilisados, saudae o Diccionario de João Fernandes!

—Viva João Fernandes!—Ouço eu já d'aqui gritar ás multidões enthusiasmadas.

—Viva!

—Mas quem é João Fernandes?!

A esta perfida e insidiosa pergunta cala-se tudo; os sabios entreolham-se de bôca aberta; e os outros suspendem a respiração, receiando{317} serem elles os predestinados. Por fim, responde uma voz:

—João Fernandes é um grande homem!

—Immenso!—apoia outra.

—Incommensuravel!—acode terceira.

—Sublime!

—Unico!

—Engraçadissimo!

—Sapientissimo!

—Immortalissimo!

—Foi elle quem mandou dar para baixo no povo, á porta do Passeio Publico.

—E quem matou o projecto da avenida para o Campo Grande.

—E quem levantou a questão dos muros...

—E quem embirra com as grades...

—E quem diz...

—Bolas, meus amigos! bolas!—exclama o auctor do Diccionario.—Essas obras são de outros Joões Fernandes; não confundam a minha com as dos meus collegas. Todos somos de grande força; mas eu não trato{318} as cousas tanto em absoluto. É verdade que não deixei ir o Polyphemo com um só olho, no artigo orçamento; que deixei escorregar a mão, ás vezes sem querer, no modo por que tratei os meus amigos medicos, a medicina e a botica, que Deus afaste da minha porta por todos os seculos dos seculos, amen; que escovei soffrivelmente a poesia e a politica; e que fui assás sincero com as mulheres... Porém nada d'isso vos auctorisa para me impingirdes filhos alheios. Que se aguente cada João Fernandes d'esta terra com os seus feitos. O meu é este. Vanglorio-me d'elle; e, attendendo a que não convem alargar mais o cavaco, declaro-o a ultima palavra da sciencia, e recommendo-vos que o elogieis com alma, se não quizerdes fazer má figura passando por ignorantes em materia de gosto.

No fim d'este discurso recrudesce o enthusiasmo, repetem-se os vivas e quebram-se á pedrada as vidraças de todos os livreiros{319} que não teem o Diccionario á venda. O auctor, enternecido com essas demonstrações, diz modestamente, começando a fazer a barba a si:

—Já vêem que não sou dos taes Joões Fernandes de tres ao vintem...

—Não—acodem os fanatisados;—é dos de pataco!

—Macanjo.—rosna um patife que não gostou do livro.

—Olhem esse maroto que está a dizer mal de mim!

—Quem foi?!

—Que é d'elle?!

—Calumniador!

—Invejoso!

—Vibora damnada!

E a multidão invade a casa do auctor, péga n'elle e passeia-o em triumpho pela cidade, com meia cara rapada, e a outra meia com barba de tres centimetros coberta de espuma de sabão. Este pormenor commove o resto{320} da população de Lisboa, que segue immediatamente o triumphador.

Ouve-se grande algazarra nas livrarias e vendem-se dez mil exemplares da obra em dez minutos. Vendo este successo, o tal sujeito, que fallára em macanjo, chega-se ao pé do auctor e diz-lhe, fulo de raiva:

—Eu chamo-me a critica... e vou fazer-te o resto da barba.

—Pois faze, mas compra o livro.

O povo, que percebe a cousa, salta por cima da critica, esborracha-a e esgota o resto da edição—outros dez mil exemplares!

João Fernandes volta rico para casa, e grita de longe á familia:

—Dei-a em cheio! «Posteridade, és minha!»

E cae o panno.

FIM

 

{321}

 

ERRATAS

Necessário aplicar!!!!!!