WeRead Powered by ReaderPub
Echos de Pariz cover

Echos de Pariz

Chapter 20: XVII. CARNOT.
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

The collection presents a series of journalistic chronicles and essays that scrutinize Parisian social life and politics, contrasting metropolitan manners with other European locales. Through sharp, often ironic sketches the author records public ceremonies, political disputes, criminal episodes and diplomatic developments, and critiques fashions, salons, literary debates and the spread of metropolitan customs abroad. Combining reportage, cultural criticism and philosophical reflection, the pieces move between vivid urban observation and polemical commentary, portraying how modernity reshapes customs, public ritual and the relationship between capital and province.

Com effeito ha já alguns milhares de annos que os rios devastam searas e o lume devora predios, sem que por isso a Egreja ou o Estado se commova ou trema pela sua estabilidade.

É exactamente o que vae succedendo com os anarchistas. Ás primeiras bombas houve um tumultuoso terror, como perante uma estranha e demoniaca demencia que ameaçava a velha estructura social. Cada explosão foi motivo para que se promulgassem leis de excepção, para que se reforçasse temerosamente o braço penal dos governos, para que os philosophos formulassem complicadas receitas sociologicas, e mesmo para que certos espiritos mais impressionaveis suspirassem pela intervenção divina de um Messias como unico capaz de pacificar os homens. Depois, quando se ouviu cada semana estalar uma bomba, e sem destruir mais propriedades ou vidas do que certos desabamentos de terrenos ou descarrilamentos de comboios, o medo phantasmagorico d'uma catastrophe social immediatamente findou: o habito embotara a emoção, e estas explosões revolucionarias começaram a ser equiparadas ás que fatalmente e inevitavelmente se produzem dentro d'uma civilisação industrial e mecanica: as do gaz, das caldeiras de vapor, das peças a bordo dos couraçados, e do grisou no fundo das minas. Contra ellas já não parece necessario improvisar codigos mais repressivos, nem invocar a interferencia messiânica. E a opinião tranquillisada só reclama, para domar a bomba, essas medidas preventivas que na industria se esperam da prudencia technica dos contra-mestres, e na ordem civil da vigilancia profissional dos commissarios de policia.

É n'este espirito que a policia em Pariz está procedendo á prisão systematica de todos os anarchistas.

Cada madrugada se faz através da cidade uma colheita de sectarios. Hontem quinze, hoje vinte... Os jornaes apenas publicam, sem commentarios, a lista secca dos nomes. Alguns d'estes homens têm mulher, têm filhos, a quem o pão vae faltar. Mas d'esses detalhes minimos, n'este momento de sensação publica, não cura o pretor. A cousa essencial é que não reste, livre nas ruas de Pariz, um proletario capaz de misturar um pouco de glycerina a um pouco de acido nitrico. Nem é mesmo necessario que o anarchista seja militante. Os simples theoricos, que professam e methodisam o anarchismo no livro ou no jornal, são egualmente levados na vasta montaria policial. De resto, o que o governo pretende, com esta encarceração geral de anarchistas, é conhecel-os, photographal-os, estudal-os, surprehender as suas ligações e afiliações, e formar assim um registro muito minucioso e muito documentado de toda a seita.

Findo este vasto inquerito pratico, todos serão soltos, como se soltam as manadas dos bois nas lezirias, depois de bem numerados e bem marcados. Indubitavelmente é uma dura lei;—mas vem de uma dura necessidade. Era realmente intoleravel que, n'uma cidade do seculo XIX, um pacifico homem não pudesse entrar n'um café, ou n'um theatro, com a mulher e o filho, sem correr o risco de voltarem de lá, elle e os seus, crivados de pontas de pregos, em nome de uma heresia digna do seculo III. Porque o anarchista é com effeito um socialista que se tornou heretico. Este nosso anarchismo está para o socialismo, como estavam para o christianismo nascente os montanistas, e os valentinistas, e os carpocratios que prégavam o amor livre, e os circoncellios que prégavam a destruição universal, e tantos outros, extravagantes e terriveis. Todos esses hereticos, tortulhos venenosos da arvore evangelica, não fizeram senão deturpar e desacreditar a pureza da doutrina, retardar-lhe a obra regeneradora, e attrahir-lhe perseguições sangrentas. Eram por isso ainda mais odiados pelos bispos christãos, que pelos pontifices pagãos. E quando sobre elles cahia a lei do imperio, com ferocidade, como sobre inimigos do genero humano, havia tanto regosijo do lado de Jesus, como do lado de Jupiter.

Egual regosijo acompanha esta perseguição, que nada tem, louvado seja o nosso tempo, da crueldade da de Decio ou de Diocleciano. Mesmo os que lamentam que ella espalhe tanta miseria entre mulheres e creanças abandonadas, desejam vehementemente que a seita seja, senão esmagada, ao menos inutilisada. A obra do Estado seria pois perfeita se, inspirada simultaneamente pelo sentimento de ordem e de humanidade, elle, pelo lado da policia, prendesse os anarchistas, e pelo lado da assistencia publica lhes soccorresse as familias que ficam sem o pão do salario perdido.

Mas infelizmente, entre tantos orgãos de que está provido o Estado, não ha nenhum que tenha a fórma, mesmo vaga, de um coração humano.

Não sei se conhecem o snr. Brunetière. O snr. Brunetière é hoje nas lettras francezas um grande personagem—quasi devia dizer, dada a qualidade do seu espirito e das suas funcções, um grande mandarim. Quando o velho Buloz foi exilado da Revista dos Dous Mundos, por ter amado fóra da Revista, e com uma especie de amor que a Revista não permitte, a assembléa de accionistas d'essa veneravel publicação nomeou para o cargo de director o snr. Brunetière. Além d'isso, o snr. Brunetière era já o director, senão espiritual, ao menos intellectual, das damas lettradas do Faubourg St. Germain, tendo portanto a gloriosa missão de ensinar o que, em materia de litteratura, uma duqueza deve acceitar ou deve rejeitar para conseguir um logar no reino dos bons espiritos. Como consequencia d'estes dous nobres empregos, o de director da Revista e confessor litterario das almas aristocraticas, o snr. Brunetière foi por influencia das senhoras (e entre as senhoras incluo a Revista) eleito membro da Academia Franceza. E finalmente, para consagrar a sua reputação, a mocidade das escolas apupou furiosamente o snr. Brunetière, e, assim como a democracia revoltada outr'ora queimava o throno dos tyrannos (não sei se ahi no Rio, na revolução de novembro, se omittiu esta formalidade classica), quebrou a poltrona professoral, onde elle, na Sorbonne, pregava a boa doutrina, desmantelava o naturalismo, e explicava ás suas devotas a maneira mais delicada de saborear Bossuet. Eu conto estes guinchos e furores da mocidade como um dos elementos da sua gloria, senão já do seu valor, porque desde que as ideias geraes recomeçaram a apaixonar os espiritos moços e que nos pateos das Universidades se trocam outra vez bengaladas por causa de theorias, um professor só poderá ser considerado sufficientemente original, vivo, forte, fecundo, quando o seu ensino tenha provocado rancores ou enthusiasmos.

Os antigos portuguezes tinham, da nossa historia tragico-maritima, tirado este proverbio: «Só a grande náo, grande tormenta». E por isto significavam implicitamente um certo desdem por toda a barcaça chata e núa, que passava desapercebida do vento e da vaga. O Bairro Latino está creando um proverbio parallelo—«Só a grande professor, grande berreiro». Quando o professor é chato ou oco, em torno d'elle ou do seu ensino ha indifferença e calmaria. O escandalo, ao contrario, prova um mestre.

Ora, d'um homem por tantos motivos importante como o snr. Brunetière, todas as palavras são importantes. Por isso, a feroz verrina que elle, no seu discurso de recepção na Academia Franceza, lançou contra os jornaes e os jornalistas, mereceu mais attenção do que geralmente merecem estas grandes e usuaes imprecações contra a imprensa, as mulheres, o vinho e outros males.

Eu conheço imperfeitamente o snr. Brunetière, que é um critico de profissão. Se n'esta nossa edade de colossal e quasi abusiva producção (só a França publica por anno 12.000 volumes!) já não ha tempo para lêr os auctores—quanto menos os commentadores! O snr. Brunetière ensina agora na Sorbonne a comprehender e amar Bossuet. Mas quem teve o vagar ditoso de lêr primeiramente Bossuet, se é que o não leu no começo da sua educação classica? Eu, na minha mocidade, folheei os Sermões e as Orações Funebres; mas não cheguei a penetrar, como devia, no Discurso sobre a Historia Universal. E desde então, desgraçadamente, não logrei ainda um momento para absorver a theoria do grande bispo sobre a serie dos tempos, das religiões e dos imperios. Quando muito conheço a pagina classica, tão magestosa e rica, em que elle pinta a omnipotencia de Augusto e a belleza e recolhimento da paz romana, nas vesperas de nascer Jesus. É pouco. Mas se tão pouco conheço Bossuet, não me deve ser censurado o ignorar quasi inteiramente o seu apologista.

Pelo que tenho ouvido, porém, parece-me que o snr. Brunetière está para as lettras como um botanico está para as flôres. Percorrendo os canteiros de um jardim, o botanico conhece cada flôr, e o seu nome latino, e o numero das suas petalas, e todas as suas variedades, e o largo genero em que se filia, e a zona e o terreno que melhor convém ao seu desenvolvimento, etc., etc... Ha só na flôr uma cousa sobre que o juizo do velho botanico sempre claudica, ou porque a desdenhe ou porque a não sinta—e é a belleza especial da flôr, que está talvez na côr, nas dobras das folhas, na maneira porque se mantém na haste, em mil particularidades indefinidas, n'esse não sei que que lhe habita as fórmas e que faz com que deante d'ella paremos, e a contemplemos, e a appeteçamos, e a colhamos. O snr. Brunetière é este sapiente botanico entre flôres. Que lhe dêem um poeta, e elle immediatamente o classificará, lhe collocará um rotulo nas costas, mostrará o genero que cultivou, desfiará as qualidades que revelou n'esse genero, exporá as influencias de raça, e de meio, e de momento historico que concorreram para o desenvolvimento d'essas qualidades, etc., etc. Será superiormente erudito—e só lhe faltará o sentir, pelo gosto, esse não sei que de intimo que constitue a belleza ou a grandeza do poeta. O snr. Brunetière é um botanico das lettras. E de resto esta comparação não lhe poderia desagradar, porque elle é um dos que recentemente, ao que parece, mais se têm applicado a introduzir nas sciencias moraes o methodo das sciencias naturaes, e a considerar as obras humanas, e sobretudo as obras de litteratura e de arte, como productos de que a critica e a esthetica só têm a verificar os caracteres e a esmiuçar as causas. Isto desde logo o torna para mim um critico extremamente respeitavel e pouco sympathico. Ignorante como sou, eu gosto de um critico que me possa explicar as causas e os caracteres da obra de Musset, mas que sinta palpitar o coração quando lê as Noites e a Carta a Lamartine, ou porque se lhe communicou a emoção do ardente lyrico, ou porque se enlevou na contemplação da belleza realisada. Sem a faculdade emotiva e o gosto, o critico pertence áquella especie de esmiuçadores de causas e arrumadores de generos, que Carlisle chamava os resequidos.

Além d'isso, segundo ouço, o snr. Brunetière é um rispido, um inflexivel, todo elle dogmatismo e intolerancia, sem uma gotta, para o amollecer e lubrificar, d'aquelle leite da humana bondade de que falla outro inglez, o muito adoravel Dickens. E esta outra qualidade do snr. Brunetière augmenta a minha antipathia, toda de instincto, para com este homem de talento e de bem. Não posso por isso ser considerado suspeito, ao approvar, como approvo, todas as accusações que, no seu discurso de recepção na Academia, elle desenrolou contra os jornaes, contra os jornalistas, e, portanto, contra mim, que sou, a meu modo, e d'um modo bem imperfeito, uma especie de jornalista.

O snr. Brunetière censura á imprensa a sua superficialidade, a sua bisbilhotice e escandaloso abuso de reportagem, e o seu sectarismo. Ser superficial, bisbilhoteiro e sectario, é ter realmente uma respeitavel somma de defeitos.

Um só basta para desacreditar em materia intellectual ou social. Todos juntos pedem as gemonias. E todavia a imprensa, que os possue todos, está n'um throno e resplandece. Mas Nero e Vitellio governaram o mundo—e a sua triumphal auctoridade não lhes tira a indecente monstruosidade!

A imprensa, que tambem ho je governa o mundo, não é, Deus louvado, nem indecente, nem monstruosa. Todos esses vicios, porém, que lhe attribue o snr. Brunetière, é certo que ella os pratica, em proporções diversas, segundo o seu temperamento de raça e as suas condições funccionaes. O Times e outros jornaes inglezes, riquissimos e possuindo toda uma cohorte de especialistas, prompta a tratar todas as materias, desde as de metaphysica, apresentam geralmente, sobre as questões occorrentes, estudos solidos em que está resumido muito saber e muita experiencia. Por outro lado, na Allemanha, paiz das ideias geraes, e que só se interessa por ideias geraes, e em Portugal e na Hespanha, onde todos herdamos dos nossos avós, godos e arabes, o respeito quasi sacrosanto da vida intima,—os jornaes não são bisbilhoteiros, nem abusam indiscretamente da reportagem miuda.

Em média, porém, affoutamente se póde affirmar que na Europa e na America a imprensa é superficial, linguareira e sectaria. Ora, estes defeitos não são, a meu vêr, sómente perniciosos por enfraquecerem, como pretende o snr. Brunetière, a auctoridade da imprensa e fazer lamentar os tempos solidos d'Armand Carrel, em que se punha na composição de um artigo mais cuidado do que hoje se põe na preparação de uma Encyclopedia. Taes defeitos são sobretudo nocivos, porque a imprensa os communica ao publico, com quem está em permanente communhão, e assim, em logar de educadora, se tem lentamente tornado uma viciadora do espirito e dos costumes.

Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e já radicado habito dos juizos ligeiros. Em todos os seculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos mais methodicos, ou d'alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para louvar ou condemnar em politica o facto mais complexo, e onde entrem factores multiplos que mais necessitem analyse, nós largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em litteratura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além uma pagina, através do fumo ondeante do charuto. O methodo do velho Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adaptamos, com magnifica inconsciencia, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condemnar—a nossa ligeireza é fulminante. Com que esplendida facilidade declaramos, ou se trate d'um estadista, ou se trate d'um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um genio!» ou: «É um santo!» offerecemos naturalmente mais resistencia. Mas ainda assim, quando uma boa digestão e um figado livre nos inclinam á benevolencia risonha, tambem concedemos promptamente, e só com lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a coroa de louros ou a aureola de luz.

N'estes tempos de borbulhante publicidade, em que não ladra um cão em Constantinopla sem que nós o sintamos, e em que todo o homem tem o seu momento de evidencia, nós passamos o nosso bemdito dia a promulgar sentenças e a lavrar diplomas. Não ha facto, acção individual ou collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos promptos, apenas ellas nos sejam apresentadas, a formular muito d'alto uma opinião cathedratica.

E a opinião tem sempre e apenas por base aquelle pequenino lado do facto, da acção, do homem, da obra, que apparece, n'um relance, ante os nossos olhos fugidios e apressados. Por um gesto julgamos um caracter, por um caracter avaliamos um povo. A antiga anecdota d'aquelle inglez funambulesco que, desembarcando em Calais de madrugada, e avistando um coxo no caes, escreve no seu livro de notas: «A França é habitada por homens côxos»—illustra e symbolisa ainda hoje a formação das nossas opiniões.

E quem nos tem enraizado estes habitos levianos? O jornal, que offerece cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de juizos ligeiros, improvisados na vespera, das onze á meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que entram á pressa na redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo o chapéo, decidem com dous rabiscos de penna, indifferentemente sobre uma crise do Estado, ou sobre o merito de um vaudeville. Como exemplo picante, eu poderia citar o modo por que a imprensa de Pariz tem commentado a revolta do Brazil e julgado o povo do Brazil, sobre vagos bocados de telegrammas truncados—senão receiasse entrar em um caminho escorregadio, onde me arriscaria a esbarrar com os nossos queridos collegas do Paiz e do Tempo, armados da sua ferula.

Lembrarei apenas que, ainda não ha uma semana, o articulista encarregado no Figaro de criticar cada dia os acontecimentos politicos da Europa, e que, portanto, deve conhecer a Europa, estudando a situação economica de Portugal, affirmava, e com uma soberba certeza, que «em Lisboa os filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregavam como carregadores de alfandega, e ao fim de cada mez mandavam receber as soldadas pelos seus lacaios!» Estes herdeiros das grandes casas de Portugal, carregando pipas de azeite e fardos de café no caes da alfandega, e conservando todavia creados de farda para lhes ir receber o salario—fórmam um quadro simplesmente portentoso. Pois quem o traça é o Figaro, um dos mais considerados jornaes de Pariz, e um dos que têm um pessoal mais largo e mais remunerado. E Lisboa todavia está a dois dias e meio de Pariz! Mas Londres dista apenas sete horas e meia de Pariz—e constantemente os jornaes francezes escrevem sobre a Inglaterra, e as cousas inglezas, com a mesma segura sciencia com que o Figaro descrevia as occupações da nobreza de Portugal.

Ora, dizia não sei que sentencioso critico hespanhol que, quando se lê constantemente Seneca, ganham-se os habitos de espirito de Seneca. E quando se tem como usual alimento do espirito o Figaro e consortes (e é d'estas magras viandas que hoje se nutre a maioria dos civilisados) facilmente se toma o habito de ir espalhando estouvadamente, sobre os homens e sobre os factos, juizos ephemeros e ocos. E eu proprio, por humildade, para não estender uma orgulhosa abstenção do peccado commum, comecei por dar aqui, sobre o snr. Brunetière—um juizo ligeiro, nascido de impressões fugidias.

A outra accusação feita á imprensa pelo douto académico é a da bisbilhotice, de indiscreta e desordenada reportagem.

Ha aqui alguma ingratidão da parte do snr. Brunetière. Para a critica, sobretudo como elle a comprehende e exerce, a reportagem é a grande abastecedora de documentos. Quanto mais detalhes a indiscrição dos reporters revelar sobre a pessoa do snr. Zola, e os seus habitos, e o seu regimen culinario, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos terão os Brunetière do futuro para reconstruir com segurança a personalidade do auctor de Germinal, e, através d'ella, explicar a obra. Não é indifferente saber como era feito o nariz de Cleopatra, pois que do feitio d'esse nariz dependeram, durante um momento, como muito bem diz Pascal, os destinos do Universo. Mas, como a reportagem ainda se exerce, não só sobre os que influem nos negocios do mundo ou nas direcções do pensamento, mas sobre toda a «sorte e condições de gente», desde as cocottes até aos jockeys, e desde os dandies até aos assassinos, succede que esta indiscriminada publicidade, sem concorrer em nada para a documentação da historia, concorre, e prodigiosamente, para o desenvolvimento da vaidade.

O jornal é hoje, com effeito, o grande assoprador da vaidade humana. Em todos os tempos houve vaidosos—e não querem de certo que eu estafadamente cite o estafado Alcibiades cortando o rabo do seu estafado cão, para que se falle d'elle nas praças de Athenas. A vaidade é mesmo muito anterior a Alcibiades: já apparece a paginas 3 da Biblia, e a folha de vinha, bem collocada, é o seu primeiro acto mundano. Incontestavelmente, porém, em nenhum tempo a vaidade foi, como no nosso, o grande, o principal motor das acções e da conducta. N'estes estados de alta civilisação, que produzem cidades do typo de Pariz e de Londres, tudo se faz por vaidade, e com um fim de vaidade.

E d'essa fórma nova e especial da vaidade só o jornal é culpado, porque foi elle que a creou. Essa forma consiste na notoriedade que se obtém através do jornal.

«Vir no jornal», ter o seu nome impresso, citado no jornal—eis hoje, para uma forte maioria dos mortaes que vivem em sociedade, a aspiração e recompensa supremas.

Nos regimens aristocraticos, o grande esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do principe. Nas nossas democracias é alcançar o louvor do jornal. Para conquistarem essas dez ou doze linhas bemditas, os homens praticam todas as acções—mesmo as boas. Não é mesmo necessario que essas linhas contenham um panegyrico: basta que ponham o nome, a personalidade em evidencia, n'uma tinta bem negra, que hoje tem um brilho mais desejado que o antigo nimbo d'ouro. E não ha classe que não esteja devorada por esse appetite morbido do reclamo. Elle é tão vivo no mundano, no homem de prazer, na mulher de luxo, como n'aquelles que parecem preferir na vida a obscuridade e o silencio. Parque vêm agora, n'estas semanas, esses frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, pregar nos pulpitos de Pariz sermões de Quaresma grandemente theatraes e creadores de escandalo? Para terem uma celebridade no genero Coquelin, e interviews nos jornaes de litteratura elegante, e o seu retrato, com o habito do grande S. Domingos, exposto entre jockeys illustres e as cancanistas do Moulin-Rouge. É esta esperança do «artigo do jornal», que, como outr'ora a esperança do céu, governa a conducta e as ideias—e para «vir no jornal» é que os homens se arruinam, e as mulheres se deshonram, e os politicos desmancham a boa ordem do Estado, e os artistas se lançam na extravagancia esthetica, e os sabios alardeiam theorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda sofrega dos charlatães. Cada um se empurra, se arremessa para a frente, quer fazer estalar, bem alto no ar, o seu fogo de artificio, para que o jornal o commente, e a multidão se apinhe e murmure boquiaberta:—Ah!

Mas, por Deus! agora reparo que estou aqui compondo uma pagina de moralista amargo, o que é faltar ao bom gosto do nosso tempo, e sobretudo aos santos preceitos da ironia. Immediatamente me calo—e estou mesmo prompto a concordar que o jornal tambem incita á virtude... Com effeito, tal magnifico banqueiro judeu dá, pelo Natal, cem mil francos aos pobres, para que a sua caridade venha no jornal! Bemdito seja o jornal!

Nem mesmo, com receio de tomar o desagradavel tom de um censor dos costumes, quero insistir na outra accusação formulada pelo snr. Brunetière contra a imprensa—a de partidarismo e de sectarismo. De resto, é por pura humildade christã que eu, que me considero a meu modo um jornalista, confessei, fallando do jornalismo, estes peccados em que collaboro impenitentemente.

Estamos na Semana Santa, e é de bom exemplo que cada um rosne o seu mea culpa e cubra a cabeça de uma pouca de cinza. Além d'isso, queridos amigos e confrades no peccado, esta carta, em que contrictamente apontei alguns dos vicios mais dissolventes dos jornaes, a sua superficialidade, a sua bisbilhotice, o seu partidarismo, vicios que os tornam tão pouco proprios para serem lidos pelo homem justo, já vae copiosamente larga—e eu tenho pressa de a findar, para ir lêr os meus jornaes com delicia.


XV. AS «INTERVIEWS»-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»-A MONARCHIA ITALIANA-O QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA-A SINCERIDADE E O OPTIMISMO OFFICIAL.

Apesar d'esta democracia crescente que tudo vulgarisa, ou antes (sejamos prudentes) que tudo egualisa, nem cada dia um jornalista consegue interviewar um rei.

(Este vocabulo interviewar é horrendo, e tem uma physionomia tão grosseira, e tão intrusivamente yankee, como o deselegante abuso que exprime. O verbo entrevistar, forjado com o nosso substantivo entrevista, seria mais toleravel, d'um tom mais suave e polido. Entrevista, de resto, é um antigo termo portuguez, um termo technico de alfaiate, que significa aquelle bocado de estofo mais vistoso, ordinariamente escarlate ou amarello, que surdia por entre os abertos nos velhos gibões golpeados dos seculos XVI e XVII. Termo excellente, portanto, para designar um acto em que as opiniões tufam, rebentam para fóra, por entre as fendas da natural reserva, em cores effusivas e berrantes. Mas entrevistar tem um não sei que de surrateiro que desagrada—e só alguem com muita auctoridade e muita audacia o poderia impôr. Interviewar, ao menos, é bruto mas franco. Temos pois de empregar resignadamente este feio americanismo—já que os nossos idiomas neo-latinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a acompanhar todas as ruidosas invenções do engenho anglo-saxonio. Vós ahi no Brazil, amigos, possuis a arte subtil de cunhar vocabulos que são por vezes geniaes. Fabricae um que substitua o interviewar e sereis bemditos).

E no entretanto iremos dizendo que, apesar da nossa egualisação democratica, nem todos os dias um jornalista interviewa um rei. Não parece de resto haver proveito na tentativa. Se os reis são de direito divino, as suas intenções devem permanecer tão impenetraveis como as de Deus, de quem emanam, e que os inspira. Quando alguém ousasse interrogar o imperador da Russia sobre os seus planos, elle, muito logicamente, apontaria silenciosamente para o céu. Os reis d'esse transcendente typo são agentes submissos, quasi inconscientes, da Providencia. Antes trepar ás nuvens e formular um interrogatorio directo á Providencia. Se os reis, porém, são constitucionaes, então os seus desejos, como os seus actos, só têm valor quando confirmados pelo ministerio, pelo parlamento, por todas as instituições tutelares de que os cercou, com que os peiou, a Constituição. Mais util, rapido, e de melhor cortezia será interviewar o ministro ou o chefe de maioria. É por estes motivos certamente que os reporters, que, com a imprudencia dos pardaes, se abatera e piam sobre as cousas mais veneraveis, nunca assaltam os thronos.

O caso, porém, é differente com o rei de Italia. Humberto é um rei constitucional que diz sempre—«o meu povo... o meu exercito... a minha armada». Estas expressões, indicando um senhorio directo da nação, sanccionado pelo direito divino, só o Czar, hoje, (além do Sultão) as póde empregar legitimamente. Por toda a parte, fóra da Russia, da Turquia, (e d'algumas republicas da America Central) os povos pertencem a si proprios, ou pelo menos conservam essa illusão, que lhes é preciosa; e os exercitos pertencem ao Estado, que deixou de ser identico com o rei desde que Luiz XIV teve a fistula. Estas expressões, porém, de «meu povo», de «meu exercito», que considerariamos singularmente improprias na bocca constitucional do rei dos Belgas, não destoam quando usadas pelo rei da Italia. Na realeza de Humberto, chefe da casa de Saboya, ha um não sei que de pessoal e absoluto, que se nos afigura legitimo. Para os italianos, em quem possa sobreviver o espirito municipal das velhas democracias, talvez elle seja apenas o primeiro magistrado da Italia:—para nós elle apparece, até certo ponto, como o senhor da Italia, porque na sua qualidade de segundo rei de Italia elle é ainda a razão e a força da unidade italiana.

Em todos os tempos foi a ambição dos reis que fez a unidade dos Estados. Esta ideia mesmo de unidade, e o amor da unidade, só nasce no povo desde que a vê realisada, e sente experimentalmente a sua grandeza material, ou a sua belleza historica. A concepção abstracta de uma patria una nunca póde surgir espontaneamente no povo, que só comprehende e ama a sua aldeia ou a sua cidade, e não pensa na cidade proxima e na aldeia visinha senão para as desdenhar ou para as invejar. De certo a lingua, o parentesco da raça, a identidade do caracter constituem fortes tendencias para a unidade: mas de nada servem, se não houver conjunctamente um rei ambicioso que as aproveite para sobre ellas construir a união nacional. Sem esse principe ambicioso, ladeado por um ministro do genero de Bismarck ou Cavour, e instigado por tres ou quatro patriotas idealistas, as cidades continuavam a fallar a mesma lingua, a nutrir-se intellectualmente n'uma litteratura commum, a prestarem um culto irmão aos mesmos grandes homens, mas não sahiriam nunca do seu municipalismo ou do seu provincialismo historico.

Esta lei, que se póde observar em todos os Estados, é manifesta na historia da Italia. Tendo mantido sempre a unidade da sua civilisação, tão solida que se impoz a todas as raças que a conquistaram; tendo construido na Europa, pelo Papado, a unidade espiritual—a Italia todavia nunca realisou a sua unidade politica, e desde a meia edade permanece fragmentada em municipios e republicas, cuja existência, tempestuosamente agitada entre a anarchia e a tyrannia, é uma serie lacrimosa de martyrologios.

O caracter social da Italia é então a divisão levada até á ultima molecula social. As cidades vivem isoladas, n'um violento ciume mutuo, travando constantemente guerras e trahindo-se com uma perfidia que ficou proverbial. Dentro das cidades, os cidadãos vivem tão divididos como ellas, armando todos os dias brigas de rua a rua, e de cada casa fazendo a cidadella de uma facção. E dentro das casas as familias estão ainda sombriamente divididas, e paes, e filhos, e irmãos não se reunem na mesma sala sem trazerem cautelosamente debaixo dos gibões o seu punhal escondido. Todavia, todo este mundo mutuamente hostil se injuria na mesma lingua, lê o mesmo Ariosto, reza á mesma Madona, celebra as mesmas festas civicas, e sente o orgulho commum da grandeza passada. Mas o longo habito da vida local, do governo communal, lançara raizes profundissimas, creára no italiano como um modo especial de pensar e de sentir, que o abandonava indefeso ás violencias da demagogia, ao abuso da força e da intriga dos pequenos tyrannetes, á ferocidade de todos os invasores. Accrescia que estes velhos instinctos municipaes eram explorados machiavellicamente pelos papas, que se serviam d'elles para esmagar em qualquer dos Estados a menor tendencia á hegemonia, e através d'ella á formação de uma Italia unida. Soberano espiritual, o papa não podia soffrer ao seu lado um soberano temporal;—e para manter a sua independencia fomentava a desunião. A pobre Italia ia assim ficando repartida em republicasinhas anemicas e despotismosinhos sangrentos, amollecendo-se em todas as suas qualidades, depravando-se em todos os seus costumes, sob o patrocinio da Tiara, que a impedia de se unir, sem ter a força de a proteger. A consequencia é que a Italia foi assaltada, saqueada, espesinhada, retalhada, vendida ou doada, como um despojo de guerra. Cahiu em decadencia, cahiu em servidão... Peior ainda, cahiu em ridiculo! E a terra fecunda dos Genios e dos Santos não appareceu mais na Historia senão como um povo piolhento e somnolento, governado por côrtes minusculas, que não passavam de uma collecção buffa de caturras, cortezãos, parasitas, jograes, monsenhores, sacristães, sigisbeos, tenores, castrados e bailarinas. E porque? Porque lhe faltára até ahi o rei ambicioso e patriota, que, para ser rei da Italia, quebrasse as velhas tradições do municipalismo latino, e no meio das grandes monarchias militares désse á Italia um governo central, leis uniformes, um exercito permanente, as condições todas que a ella lhe consolidariam a unidade, e a elle a soberania. Este rei salvador surgiu finalmente em Turim. Todos nós fomos ainda seus contemporaneos, e o celebrámos como ré galantuomo. Victor Manuel foi o instrumento essencial da ressurreição da Italia. Á sua voz é que a grande Lazara, ligada e estendida no sepulchro bourbonico, ergueu-se e marchou. Outros de certo trabalharam habilmente e heroicamente na grande obra; mas foi elle que a assignou; e, para os olhos da multidão que nunca aprofunda, só elle ficou com a sua força representativa e a garantia da sua duração. Por maiores limitações que a Constituição impuzesse á sua auctoridade, ella não podia deixar de ser, através das formulas parlamentares, suprema como a de todo o creador. Humberto, seu filho, continuador e consolidador da obra, herda ainda d'esta prerogativa de chefe paternal. Nunca elle poderá ser um rei do puro typo constitucional, como Leopoldo da Belgica, que, segundo a formula belga, não é senão o «primeiro dos seus administrados». Os futuros reis da Italia (se os houver) poderão ser reduzidos a esta subalternidade de funccionario irresponsavel. Humberto não—e, para elle, reinar ainda ha-de ser governar. E quando elle falle do seu povo, do seu exercito, a Europa não lhe contestará a legitimidade d'essas expressões autocraticas.

Além d'isso, Humberto foi coroado em Roma. Ora, Roma é essencialmente cesariana, e communica, imprime caracter cesariano áquelles que a governam. Ella mesma foi sempre cidade-soberana, ou no temporal ou no espiritual. Só ha cem annos é que deixou de vir de lá d'entre as sete collinas, ou sob a forma de encyclica papal, a ordem suprema que se impunha a reis e povos, e regia os nossos bens ou as nossas almas. E o senhor da cidade de Romulo sempre partilhará d'esta supremacia que lhe é inherente. Mas este ponto de vista é talvez mais esthetico do que politico.

Em todo o caso, por todos os motivos, Humberto é dos poucos reis interviewaveis. É um rei que quer e que póde. E não é todavia bastante de direito divino, para se considerar um emissario da Providencia, e, como ella, esconder os seus designios, que só por ella pódem ser comprehendidos ou julgados. Ao rei Humberto é permittido dizer: «Eu farei isto, as minhas intenções são estas...» A sua auctoridade na nação comporta estas affirmações pessoaes e soberanas. Qualquer outro rei, strictamente constitucional, quando atacado por um reporter, só poderá encolher os hombros e murmurar: «Não sei, veremos o que faz o ministerio...»

Ha, pois, apparentemente, utilidade para um reporter de alta reportagem, em sondar e puxar para fóra o pensamento intimo do rei Humberto. A difficuldade unica estaria na operação da sondagem—porque, apesar de se ter supprimido a hirta e encarceradora etiqueta do tempo de Carlos V, os reis ainda não são accessiveis a qualquer sujeito de chapéo côco que se apresente com uma carteira e um lapis, a «fazer perguntas». Mas o Figaro, barbeiro astuto, acostumado desde a sua mocidade a deslisar subtilmente pelas portas escusas e a penetrar no segreda dos Bartholos, realisou esta bella façanha—e interviewou o rei Humberto. E quando elle annunciou, rufando ufanamente o seu grosso tambor, que ia publicar as declarações do rei de Italia, a Europa, excitada, aguçou vorazmente as suas longas orelhas. Com effeito, que maravilhosa occasião de conhecer emfim o segredo da Triplice Alliança! E occasião unica! Porque dous dos alliados, o imperador da Allemanha e o imperador da Áustria, sendo mandatarios da Providencia, têm de permanecer impenetraveis. O rei de Italia, porém, é apenas o mandatario d'um povo, e d'um povo illustre nos fastos da loquacidade. E o rei da Italia ia fallar... Fallou. O Figaro, barbeiro ditoso, imprimiu com alarido as suas palavras. E desde então ainda não cessaram, em tomo d'ellas, controversias que me espantam, e devem espantar todos os simples pela sua ingenuidade.

Parece haver, com effeito, immensa ingenuidade em esperar com inquietação, e depois discutir com paixão as declarações publicas, officiaes, de governos ou de governantes. Por pouco que ellas annunciem conducta, e constituam programma, taes declarações têm necessariamente de ser generalidades optimistas e virtuosas. Que póde, por exemplo, um governo novo prometter aos cidadãos, senão que todos os seus esforços tenderão energicamente a manter a ordem, favorecer a moralidade, e promover a economia? Não ha possibilidade de que um governo se apresente gravemente ante o paiz, e pondo a mão leal sobre o coração sincero declare que vae fomentar a desordem, animar o desperdicio, e proteger a immoralidade! Os cidadãos não acreditariam:—e esse governo, talvez veridico, seria escandalosamente expulso como farçante.

Ha nos programmas politicos uma convencionalidade, mutuamente consentida, que é commum a todas as manifestações publicas, e que corresponde á necessidade climaterica e moral, hoje tornada instincto, de cobrirmos a nossa nudez. É uma méra questão de decencia, de respeito social, quasi de etiqueta. O chefe de Estado, quando falla á nação, tem de exibir uma decorosa virtude nos seus intentos, pelos mesmos motivos porque tem de vestir a sua farda, e trazer o seu sequito, nos grandes ceremoniaes. «Todas as minhas forças, caros concidadãos, serão votadas a alargar a prosperidade! etc., etc...» todas estas patrioticas, integras phrases devem ondular em tons claros, como os pennachos de gala. Os experientes sorriem, mas murmuram—«muito bem, muito bem!» E não tolerariam que o chefe de Estado, com honrosa sinceridade, declarasse que se preparava a fazer escandalos e prepotencias—como não permittiriam que elle n'essa ceremonia, onde viera lançar o seu programma, se apresentasse nú ou simplesmente em ceroulas. É uma questão de decoro. Esta necessidade de pudor publico, perfeitamente a comprehendo. O que sempre me pareceu incomprehensivel foi o ingenuo que arregala os olhos, sorve com delicias cada promessa do programma, como se ellas cahissem do alto do Sinai, e vae exclamando, radiante:—«Emfim, temos um governo, temos um homem que quer implantar a moralidade, garantir a ordem, promover a economia, etc., etc., etc,» E ainda comprehendo menos talvez os que se lançam sobre o programma e o analysam, o dissecam, tiram d'elle, por entre as linhas, esperanças ou receios, e discutem apaixonadamente cada uma das suas palavras sacramentaes como se fossem realidades vivas.

Que poderia dizer jámais o rei da Italia a um reporter que o interroga sobre as intenções da Italia? Que poderia dizer, justos céus! senão que elle e o seu povo amam todos os seus visinhos como irmãos, e só querem, só appetecem a paz? E foi justamente o que affirmou Humberto. Nem era humanamente verosimil que elle franzisse o sobr'olho, e exhalasse, em vocabularios troantes, o seu odio á França, a sua sêde de guerra... Qualquer declaração sua, destinada a um jornal, tinha de ser inevitavelmente fraternal, pacifica, optimista. Os scepticos podem sorrir, mas têm de murmurar: «muito bem, muito bem». O rei da Italia com effeito teve a attitude que pedia a decencia. Recebendo um jornalista francez, vinha vestido, e affiançou a paz. Tão estranho seria que annunciasse a guerra,—como que apparecesse em mangas de camisa.

E todavia estas declarações previstas, obrigatorias e que não tem mais significação que a farda ou a sobrecasaca que o rei vestia, estão sendo escrutinadas, pesadas, filtradas, estudadas pelos analystas politicos, com ardor, como se contivessem no fundo das suas syllabas os segredos do Destino. Uns, d'aquem Rheno, gritam: «O rei Humberto não é sincero. Que dê provas!...» Outros, d'além Rheno, clamam: «Haverá n'estas palavras de Humberto intenções de desdenhar as allianças juradas?...» E o Times, ha tres dias, em pesadas columnas está perguntando aos olhos leaes do monarchismo, se é licito duvidar da affirmação de um rei!...

A um innocente, como eu, tudo isto parece funambulesco. Oh boas almas, ainda uma vez mais, que esperaveis vós que dissesse o rei da Italia? Que póde responder o director de um banco a quem lhe pergunte se elle é pela probidade ou se tende para a trapaça e roubo aos accionistas? Que póde responder um chefe de Estado a quem lhe pergunte se elle é pela paz—ou se pende para a guerra e mortandade dos povos?

De resto é innata no homem, esta tendencia a fazer perguntas, tão inuteis quão nescias, e a que elle sabe de antemão as respostas necessarias e coherentes. Não ha ninguem que, entrando n'uma mercearia a comprar um kilo de queijo, não tivesse já papalvamente perguntado ao mercieiro: «É bom o seu queijo?» Como se jámais, desde que ha homens e queijos, um mercieiro tivesse respondido, com asco: «Não senhor, não presta!» E se elle désse esta resposta, por espirito sublime de veracidade intransigente, então é que nós começariamos a desconfiar do lojista, como de um ser anormal, extravagante e perigoso. Um amigo meu, viajando em Inglaterra, parou n'um hotel, e depois de installado e barbeado, desceu a almoçar. O dia era de junho, elle appeteceu um vinho fresco e leve, percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao creado, com tradicional e humana ingenuidade:

—É bom este Chablis?

O criado, um velho de suissas brancas, grave e um pouco triste como um embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu seccamente:

—É uma peste.

O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradavel, aquelle homem veridico. Depois repercorreu a lista.

—Bem, traga-me então d'este Medoc... É bom, o Medoc?

O criado, muito serio, replicou:

—É horrivel.

Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, n'uma desconfiança vaga e escura que o invadia:

—Bem, beberei cerveja... Que tal é a cerveja?

O criado volveu, convencido e digno:

—Droga muito mediocre... Extremamente mediocre!

O meu amigo tremia já, n'um positivo terror. Mas ainda balbuciou:

—Que hei-de eu então beber?

—Beba agua, ou beba chá... Ainda que o chá, que agora temos, é realmente detestavel.

Então o meu amigo repelliu violentamente guardanapo e talher, galgou as escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua maleta, saltou para uma tipoia e fugiu.

Porque? Nem elle sabia. Tudo quanto me poude explicar é que, perante tanta sinceridade, perante tanta veracidade, elle sentiu em torno de si, n'aquelle hotel, alguma cousa de anormal, de extravagante, de perigoso. E o acto do meu amigo, dado o nosso secular habito da mentira, da ficção, da convenção—é bem humano.


XVI. O «SALON».

O mez de maio, em Pariz, é dedicado á Esthetica.

Então se abre com uma certa solemnidade, em que collabora mesmo o chefe do Estado, a exposição de Bellas-Artes, a que os francezes chamam o Salão, sem duvida por causa da graça, da polidez e da sociabilidade da sua arte. Todas as classes de Pariz (com excepção dos operarios, que só se apaixonam pela politica) tomam um interesse, senão intellectual pelo menos social, n'esta abertura do Salão, mesmo aquellas que no resto do anno vivem tão indifferentes e separadas das cousas d'arte como das cousas da theologia Hindú. Ha assim, em todas as cidades, um dia tradicionalmente consagrado, ou ao Espirito, ou ao Sport, ou á Devoção, que tem o dom de reunir no mesmo enthusiasmo, ou pelo menos na mesma disposição festiva, todos os cidadãos. Em Londres, milhares de pessoas que nunca pegaram n'um remo, nem comprehendem que honra ou proveito se tire de remar com pericia, mostram, e realmente experimentam, a mais excitada sympathia pela regata classica entre as universidades de Oxford e de Cambridge. E em Lisboa, mesmo os impios, pelo ar de festa que tomam, concorrem, no devoto 13 de junho, a festejar Santo Antonio. As almas dos homens, andando hoje tão dispersas, necessitam fundir-se, ao menos uma vez por anno, n'um sentimento commum.

Accresce que o Salão, no dia ceremonioso da sua abertura, offerece dous grandes attractivos além dos quadros e das estatuas. N'esse dia os artistas expõem, não só as suas obras, mas as suas pessoas:—e contemplar um artista, o córte da barba e a fórma do chapéo do artista, é um precioso regalo para o pariziense, como já era para o grego, que vinha da Grande-Grecia e das Ilhas a Athenas, não para escutar Platão, mas para vêr Platão. No Salão, tal que apenas lança um olhar indolente ás telas de Bonnat, segue através das salas, durante uma hora, o proprio Bonnat, repastando-se com delicias na admiração do homem cuja obra lhe foi indifferente. É que para esses, a quem o bom Flaubert chamava com tão truculento rancor «os burguezes», todo o artista é um sêr excepcional, vivendo uma vida excepcional, feita de invejaveis aventuras, de estranhas festas e de voluptuosidades magnificas. Um tão grande privilegiado excita uma insaciavel curiosidade—como tudo o que, no bem ou no mal, pelo brilho ou pela força, se ergue acima do cinzento e mediocre nivel humano. E mal sabem os «burguezes» que o artista quasi sempre (a começar pelo proprio Flaubert) é tambem um burguez pacifico, sobrio, cordato e estreito.

Mas no Salão ha ainda, no dia da sua abertura, uma outra vistosa attracção que por certos lados se prende ás Bellas-Artes—a das toilettes. Com effeito, está na antiga tradição pariziense que as mulheres de luxo, aquellas para quem o luxo é um instrumento de profissão, e aquellas para quem a luxo é um habito natural, que lhes vem da riqueza, da posição, ou do gosto innato, arvorem então as modas novas de primavera, as creações mais delicadas e mais artisticas das grandes costureiras d'arte. São outros tantos quadros que circulam apparatosamente pelas salas, e que a multidão olha e admira, com muito mais curiosidade do que os outros, pregados em redor nas paredes, dentro dos seus caixilhos. E ao lado das elegantes enxameam as proprias costureiras, que vêm, exactamente como os artistas, observar com anciedade o «effeito» produzido pela composição, pelo colorido, pelo vigor ou pela finura das suas obras.

D'estas obras especiaes apenas entrevi duas com alguma fantasia e audacia. Em ambas a figura das senhoras, a sua «plastica» concorria a dar um relêvo picante e divertido á toilette e aos accessorios da ornamentação. Uma, muito delgada, bem lançada, com uma gracilidade serpentina, trazia uma saia curta, de sêda murmurosa e lustrosa, recoberta de falbalás Pompadour: os cabellos fulvos, pintados com o louro do Ticiano, cahiam em cascatas e ondas ricas sobre collo e hombros, como uma juba superiormente frisada e bem empomadada por Lentheric (o mais illustre cabelleireiro do seculo); as abas do seu chapéo eram tão vastas que sob ellas se poderia abrigar do sol ou da chuva um grupo de viajantes, com os seus cavallos e com as suas bagagens, e estavam ainda encimadas por uma triumphal montanha, fôfa e tremente, de plumas multicores: a sua mão, calçada de luva negra, bordada a ouro, e que subia amarrotada até o hombro, apoiava-se no castão de onyx de uma bengala de marfim, mais alta que um baculo ou que uma lança: a cada passo que dava, as sêdas crepitavam e lampejavam, a massa alterosa de plumas tremia e fluctuava, o conto do bengalão resoava magestosamente, e um sorriso fugia dos labios da dama, tão vermelhos que pareciam uma ferida em carne viva e sangrenta. Assim ia entre a multidão—e eu não a commento. Arredae-vos, amigos, e deixae-a passar.

A outra senhora, ainda mais pittoresca, era enorme, transbordante, construida de rôlos e bolas, com uma pelle escabrosa, a que, mesmo sob o pó d'arroz applicado sem economia, se sentia a côr de açafrão. As suas tremendas massas de carne bamboleante vinham apenas envoltas n'uma tunica diaphana, d'um amarello ardente e brilhante, como as florinhas do campo de Portugal chamadas botões de ouro, e feita certamente d'aquelle antigo tecido que se fabricava na ilha de Cós, e que pela sua transparencia e leveza aerea os poetas da Grecia diziam ser feito de luz e vento.

Como chapéo tinha apenas alguns amores perfeitos, em grinalda, tambem amarellos. Era uma nympha, e assim montanhosa, sobrancelhuda, beiçuda, de venta larga, com um saracoteio que lhe collava a tunica e lh'a enrodilhava nos vastos membros de elephante ameno, fendia soberbamente a turba, meneando um immenso leque, ainda amarello, furiosamente amarello. Taes eram estas duas parizienses, as duas obras vivas do parizianismo que mais me impressionaram n'estas festas de Santa Esthetica. Dizem que Pariz continua a impôr ao mundo a regra do gosto e do bem-vestir, e que, tendo perdido todo o predominio em materia de philosophia e de sciencia positiva, exerce ainda uma influencia intensa através das suas costureiras. Por isso traslado fielmente, para uso das raças menos inventivas, estes dous figurinos que se me affiguram consideraveis.

Emquanto ás outras obras expostas no Salão, os quadros e as estatuas, a primeira lição que lhes tirei foi meramente sociologica; e por via d'ellas (mirabile dicta!) mais uma vez reconheci quanto é facil governar as Democracias. O grande obstaculo, que os theoricos de temperamento timido têm antevisto á estabilidade dos agrupamentos democraticos, é a independencia da razão individual e o seu livre exercicio, garantidos por leis, tornados mesmo alicerces primordiaes da estructura publica.

Desde que não exista uma regra, como a velha regra catholico-monarchica, que obrigue todos os espiritos a ter a mesma opinião e a regularem por ella a sua conducta, não parece possivel (affirmam esses pallidos theoricos) manter em harmonia alguns milhões de cidadãos, todos elles possuidores de uma ideia original e propria, e determinados, por interesse ou por convicção, a que só ella prevaleça.

A servidão intellectual, entendida á boa e rija maneira dos Jesuitas, apparece assim como a condição suprema de toda a harmonia social.

Mas como a Democracia, de collaboração com a philosophia, tem justamente por fim abolir esta servidão, dar uma illimitada alforria aos entendimentos, ella cria desde logo e sem remedio esse estado, previsto tão melancolicamente pelo nosso velho proverbio, em que «cada cabeça dá a sua sentença». E (concluem emfim os theoricos) como não ha melhor goso para uma cabeça humana do que conceber e impôr uma sentença, resulta que, apenas se quebra o jugo salutar da Regra, todas as cabeças se sacodem desafogadamente, atiram para o ar com impeto a sua sentença e fazem uma d'essas horripilantes desafinações sociaes só comparaveis ás d'uma orchestra, sem regente e sem batuta, em que cada instrumento geme, silva, tilinta, ou rebumba uma musica diversa e contraria. Tudo isto é um erro—e os theoricos que a sustentam nunca foram, como eu, ao Salão, no dia da sua abertura, quando em materia d'Arte cada cabeça, depois de ter pago a entrada, póde liberrimamente proclamar a sua sentença. Se tivessem feito essa peregrinação instructiva, verificariam que o servilismo intellectual é no homem um vicio irreductivel, e que por mais que se lhe facilite o largo e livre exercicio da razão, e que se lhe ensine a sacudir o despotismo dos Oraculos, sempre elle por instincto, por covardia, por indolencia, por desconfiança de si proprio, abdicará o direito de pensar originalmente e se submetterá com prazer, com allivio, a toda a Auctoridade, que, á maneira de um pastor entre um rebanho, se erga, toque a buzina e lhe aponte um caminho com o cajado. Realmente a humanidade é gado—e o primeiro movimento de toda a cabeça livre é pender para o sulco aberto, enfiar para debaixo da canga.

Estas reflexões, de resto pouco novas, (miraculoso seria que ao fim de tantos seculos ainda se pudessem desenterrar novidades do fundo da indole humana) as fiz eu, com alguma tristeza misturada de muita alacridade, notando para que quadros e para que estatuas se dirigiam, no Salão, a curiosidade e a admiração do publico.

Como uma fila submissa, de bons carneiros, todos estes milhares de seres pensantes, e unicos donos do seu pensamento, marchavam arrebanhadamente para aquellas obras que, na vespera, o Estudo Critico, ou antes o Guia Critico, do Salão, publicado pelo Jornal, lhes indicava, ou melhor lhes impuzera, como as unicas deante das quaes deviam parar, e fazer ah! e sentir uma emoção e depôr um louvor. Não só o jornal previdentemente lhes apontava a obra, mas lhes ensinara mesmo a emoção que deviam experimentar, e até lhes redigira a formula laudatoria que deviam balbuciar. E os milhares de seres pensantes (muitos com o jornal na mão) lá se apinhavam, em densos magotes, deante da tela, recebendo obedientemente a emoção ensinada, recitando, sem omittir um adjectivo, a formula do louvor decretado. Um padre da Companhia de Jesus teria saboreado deliciosamente este salutar espectaculo de disciplina mental.

Todavia este povo fez, com intensa paixão, tres revoluções sangrentas para alcançar o direito de livre-exame e de livre-juizo. Essa conquista, symbolisada sempre na classica tomada da classica Bastilha, é com razão um dos seus altos orgulhos e foi ella que o auctorisou a revestir-se entre as nações do caracter messianico, e a intitular-se «redemptor dos Povos», o que tanto fazia rir o amargo Carlyle. Com effeito, a liberdade de ter uma opinião, não só em materia politica, mas mesmo em materia philosophica e esthetica, nem sempre foi garantida aos parizienses, e houve tempos (talvez ditosos) em que elle, tal qual como o habitante de Damasco ou de Bagdad, não podia, sem perigo do carcere e da tortura, divergir das opiniões dogmaticas dos seus doutores.

Quando a Faculdade de Pariz (que, segundo diz Voltaire, tão poucas faculdades possuia) lançou um decreto negando a existencia das «ideias innatas», todos os espiritos foram obrigados a repellir com nojo a abominavel noção das «ideias innatas»; e quando, annos depois, fazendo uma pirueta metaphysica, a mesma Faculdade atirou outro decreto affirmando a existencia das «ideias innatas», todos os mesmos espiritos, piruetando tambem, tiveram de proclamar com reverencia a certeza das «ideias innatas». A memoria d'essa affrontosa escravidão intellectual ainda hoje amargura o francez que em principio, theoricamente, considera a vida sem valor, logo que ella não seja acompanhada e ennobrecida pela liberdade do pensamento.

É essa liberdade, alcançada emfim tão penosamente, que constitue a sua melhor superioridade sobre o pobre homem de Bagdad ou de Ispahan, a quem ainda não é permittido raciocinar d'um modo differente do que raciocina o Cadi ou o Ulema. Elle, francez, graças ás suas tres revoluções, póde pensar como lhe aprouver sobre todas as cousas da terra e do céu. É o seu mais augusto direito. E esta certeza de o haver conquistado lhe basta largamente. Porque, de resto, para ter uma opinião, espera sempre que o seu Cadi ou o seu Ulema, dogmatisando no jornal, lhe indique a opinião que elle deve adoptar e a maneira porque a deve exprimir, ou se trate de um ministerio e o Cadi seja Magnard, do Figaro, ou se trate d'um vaudeville e o Ulema seja Sarcey, do Temps.

D'onde se poderia concluir, alargando o conceito, que o homem verdadeiramente não appetece ser livre e apenas deseja que lhe não chamem escravo. Comtanto que a sua liberdade esteja consignada em lettra redonda, algures, n'uma Constituição ou nas paredes dos edificios, elle está contente e não exige que essa liberdade se traduza realmente em factos. O distico lhe basta. Qualquer Republica se póde converter no mais rigido despotismo, comtanto que se continue a denominar «Republica». Nero, intoleravel sob o nome de Imperador, é popularmente consentido sob o nome de presidente. Em materia social é o rotulo impresso na garrafa que determina a qualidade e o sabor do vinho. O governo das sociedades parece, portanto, ser essencialmente uma questão de lexico. O melhor meio de dirigir os homens será talvez gritar-lhes com enthusiasmo: «Vós sois livres!»—e depois com um tremendo azorrague, á maneira de Xerxes, obrigal-os a marchar. E marcham contentes, sob o estalido do açoite, sem pensar mais e sem mais querer, porque a palavra essencial foi dita, elles são livres, e lá está Xerxes, no seu carro de ouro, para querer e para pensar por elles.

De resto, talvez toda esta gente ande bem avisadamente em admirar, sem iniciativa propria, as obras de arte, que os criticos lhe mandam admirar. Ha aqui uma reserva e economia de força pensante, que bem póde ser louvavel. N'esta nossa atulhada civilisação, em que tão continuos esforços são exigidos de cada homem para que lhe possa caber a sua fatia de pão no famoso «banquete da vida», parece realmente excessivo que elle se sobrecarregue ainda com o trabalho de conceber e formular opiniões estheticas. Um amanuense das finanças, que nascera com espirito, dizia outr'ora a Voltaire:—«É para mim uma grande infelicidade, mas nunca me sobrou tempo para ter bom gosto!» Palavra triste e profunda:—e que, se já era verdadeira no seculo XVIII, quanto mais exacta é no seculo XIX! Para ter um gosto proprio e julgar com alguma finura das cousas d'arte, é necessaria uma preparação, uma cultura adequada. E onde tem o homem de trabalho, no nosso tempo, vagares para essa complicada educação, que exige viagens, mil leituras e longa frequentação dos museus, todo um afinamento particular do espirito? Os proprios ociosos não têm tempo—porque, como se sabe, não ha profissão mais absorvente do que a vadiagem. Os interesses, os negocios, a loja, a repartição, a familia, a profissão liberal, os prazeres não deixam um momento para as exigencias de uma iniciação artistica:—e n'uma cidade de dous milhões de almas, como Pariz, ha por fim apenas meia duzia de almas, que possam sentir com verdade e profundidade a belleza ou a grandeza de uma obra, e que, deante d'um quadro de Velasquez e d'um quadro de Bonguereau, saibam qual pertence á Arte e qual pertence ao Artificio. Por isso a oleographia triumpha, e Ohmet e outros tiram a cem mil exemplares, e as comedias mais desprezivelmente idiotas congregam as multidões. E não é culpa da multidão. Ella póde dizer como o amanuense a Voltaire; «Não me sobra tempo para ter bom gosto!»

Por outro lado, porém, hoje, todo o homem civilisado, ou que vive n'um meio civilisado, está sob o dever de se interessar ou de parecer que se interessa pelas grandes expressões da civilisação. Sem essa manifestação de cultura, elle é considerado pelos seus visinhos como um selvagem. O desdem, ou simples indifferença pela litteratura ou pela arte, já não é permittido ao habitante d'uma capital: e os tempos vão longe em que os senhores feudaes se gabavam com orgulho de não saber lêr. Hoje, em todas as classes que estão para cima do lavrador e do carrejão, é tão indispensavel mostrar um certo gosto pelas cousas do espirito, como usar, pelo menos ao domingo, camisa engommada. É um preceito de decencia e respeitabilidade. Por mais bacalhoeiro que se seja, e enfronhado no bacalhau, e indifferente a tudo, fóra o arratel e o meio arratel, não se ousa desprezar publicamente (ainda que se desprezem em particular) as lettras e as artes, como não se ousa ir ao passeio em chinelos e sem gravata. Tudo n'este nosso seculo é toilette, dizia o velho Carlyle.

O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da intelligencia. Quem se quererá apresentar deante dos seus amigos com uma intelligencia núa?

N'uma cidade como Pariz, e perante um acontecimento tão artistico como é todos os annos a abertura do Salão, cada bom burguez (para usar o termo querido de Flaubert) se vê forçado pelo decôro a ter sobre tres ou quatro quadros uma opinião, uma phrase, para trocar com as suas relações no café. Mas construir essa opinião, redigir essa phrase é um trabalho que pede reflexão, tempo, um diccionario. E para quem passa o seu cançado dia no escriptorio, no armazem, na repartição, no bilhar ou na atarefada ociosidade mundana, isto desde logo se torna uma sobrecarga impraticavel. O expediente natural, portanto, é recorrer áquelles que têm por profissão e especialidade fornecer, sobre cousas d'arte, opiniões e phrases. Estes são os criticos e têm a sua loja de retalho no jornal. Nada mais commodo, mais rapido, pois, do que comprar ao critico, pela toleravel somma de dez réis, tres ou quatro opiniões, como se compram no luveiro tres ou quatro pares de luvas, escuras ou claras. Enverga-se a opinião como se calça a luva, e desde logo se fica apto a apparecer na sociedade com o ar e a elegancia moral de um sêr culto. Esta é a grande vantagem de viver nas cidades, onde tudo se fabrica e tudo se retalha. Um qualquer póde estar de manhã completamente nú, de corpo e de espirito, sem um trapo e sem uma ideia. D'ahi a um momento, dispondo de algum dinheiro, e graças ao armazem de fato feito, e ao armazem de ideias feitas (que se chama o jornal), póde estar todo e dignamente vestido, por dentro e por fóra, e sahir á rua, e ser um senhor.

Esta gente, pois, que aqui anda, com o seu jornal na mão, consultando n'elle as obras que ha-de admirar e as phrases em que ha-de moldar a sua admiração, não é talvez o rebanho humilde que marcha sob a ferula da auctoridade. É antes uma turba de amanuenses, que, como o outro do tempo de Voltaire, não tiveram vagares para adquirir bom gosto. Quando Voltaire escreveu, não havia quasi jornaes, o unico critico d'arte era Diderot e ainda se andava compilando a Encydopedia. Aquelle amanuense estava realmente muito desajudado. Hoje, com tantos e tão baratos jornaes e uma tal legião de grandes e verbosos criticos, não ha desculpa para que um amanuense, mesmo sem ter relações com Voltaire, se não forneça de dous ou tres kilos de bom gosto. E fornece, porque sabe as vantagens de ter alguma esthetica e alguma poetica, quando se vae á noite tomar chá com senhoras. Ahi os vejo todos, trazendo o jornal cheio de opiniões, como um cartucho—e, deante da estatua de Dubois ou do quadro de Bonnat, dizendo com segurança, depois de metter a mão no cartucho, o que este anno se deve decentemente dizer sobre Bonnat ou Dubois.

E aqui está como, divagando com o costumado vicio latino, através d'um portico de considerações geraes, eu vos retive, amigos, todo este tempo, á entrada do Salão, sem vos mostrar sequer um bocado de côr sobre um bocado de tela. Mas quando eu vos tivesse contado do Cavalleiro das Flores, de Rochegrosse, ou do Papa e o Imperador, de Laurens, ou da Brunehilde, de Luminais, vós apenas ganharieis algumas linhas de prosa desbotada e fugaz.

Estes quadros estão em França, vós estaes no Brazil, e de permeio ha tres mil leguas de longo e sonoro mar. É difficil sentir uma obra d'arte a tres mil leguas, através d'um mero fio de rhetorica. A pintura é, segundo todos os fortes definidores, uma imitação da Natureza. Portanto eu só vos poderia offerecer a descripção d'uma imitação da Natureza. Mas como eu proprio só conheço quasi todos estes quadros, que são tres mil, pelo que d'elles li n'uma revista, realmente, de boa fé, só vos poderia fornecer uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. E como desconfio, além d'isso, que o estudo d'esta revista era já compilado sobre as notas de jornaes, eu, na verdade e sinceramente, só vos dava a transcripção de uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. O que seria petulante.


XVII. CARNOT.

O presidente Carnot foi assassinado em Lyão. Para desde logo caracterisar este contrasenso sangrento, eu deveria dizer que o presidente Carnot foi inverosimilmente assassinado em Lyão.

Com effeito! Que rara inverosimilhança!

O mais innocente, o mais legal, o mais irresponsavel, o mais impessoal dos chefes de Estado, morrendo de uma punhalada, como Cesar, como Henrique IV ou como Marat!

Carnot sahia, ás 9 horas da noite, do banquete que lhe offerecera a municipalidade de Lyão para assistir, no Grand-Theâtre, a uma representação de gala.

O seu landeau, aberto e desprotegido, rolava vagarosamente por entre uma multidão que o acclamava no fulgor das ruas illuminadas. Um homem, trazendo n'uma das mãos um ramo de flôres e na outra um papel enrolado á maneira d'um requerimento, saltou bruscamente, e como um gato, sobre o rebordo do landeau, tocou no peito do presidente com as flôres ou com o papel. O maire de Lyão, sentado em frente de Carnot, ainda atirou, com o punho, uma pancada á cabeça do homem, que fugira, e que alguem na turba immediatamente filara, por instincto, como um ladrão. Tanto o maire de Lyão como aquelles mais proximos, que tinham entrevisto n'um relance o salto mudo e felino, pensaram que o homem se arremessava sobre o presidente para lhe arrancar e lhe roubar a placa de diamantes da Legião de Honra! E esta ideia, a primeira, como a mais natural, que a todos acudiu, perfeitamente define o presidente da Republica. Carnot era d'esses homens que se não suppõe que possam ser accommettidos—senão para serem roubados.

Elle não tinha inimigos. Não tinha mesmo adversarios—porque não representava um partido e muito menos um principio. A Constituição reduzira a sua auctoridade a uma sombra incerta e tenue; e essa mesma parcella de auctoridade elle a exerceu sempre com uma reserva, que a muitos parecia indifferença, e a outros nullidade. Carnot passou a sua presidencia constantemente torturado e peiado pelos escrupulos pungentes da Legalidade. De certo tinha os seus gostos e as suas preferencias—mas eram preferencias de homens por homens, e nunca por ideias. Estas mesmas preferencias por estadistas do seu typo, discreto e neutro, como Mr. Loubet, Tirard e outros, tantas vezes lhe foram censuradas pelas opposições extremas, que elle terminou por immolar dentro em si esta derradeira e modesta expressão da sua força pensante. Foi então que ganhou a reputação phantasista de ser de pau. A sua vontade immovel ou immobilisada traduzia-se na rigidez hirta da sua attitude. Quasi não ousava mover um braço com receio de magoar um artigo da Constituição. Quando muito saudava e sorria. Assim pelo menos o pintavam os caricaturistas e os cancionistas. E se a historia da sua presidencia fôsse mais tarde estudada n'estas obras ligeiras do humorismo pariziense, ellas dariam ideia de um chefe de Estado cujos unicos actos historicos fôram saudar e sorrir. Carnot não era mais que a imagem ornamental e symbolica da Republica, como essa estatua de ouro da Victoria, que protegia o Imperio Romano. E o partido politico, que com um fim politico assassinasse este chefe, seria tão insensato como uma tripulação revolta que, querendo apoderar-se de um navio para lhe dar um rumo novo, decepasse expressamente e furiosamente a figura de pau esculpida na prôa.

Por isso o crime de Lyão foi logo, e sem outro exame, attribuido ao anarchismo;—porque só os anarchistas, hoje, n'esta nossa civilisação raciocinadora, utilitaria, conservam, como os selvagens, a ferocidade pueril de commetter crimes inuteis. São elles que, para destruir todo o capital oppressor, arrasam um predio qualquer de tres andares, e para demolir a burguezia auctoritaria matam a estilhas de bomba alguns empregados do commercio sentados n'um café a beber bocks. Os seus crimes nem sómente são inuteis—são ainda contraproducentes, porque vão formidavelmente fortalecer tudo quanto elles querem destruir, e indefinidamente retardam todos os progressos que elles pretendem com ancia precipitar. Esta seita, que tem por principio a suppressão de toda a auctoridade, tornou-se assim uma estupida e inconsciente fautora do abuso da auctoridade. E chegou a um ponto, que o anarchismo parece ser secretamente assalariado pelo despotismo.

O assassino de Carnot ainda se não confessou anarchista; de facto ainda não descerrou os labios senão para rosnar algumas indicações de naturalidade e residencia, n'uma rude algaravia incomprehensivel, que não é francez, nem italiano, e que se não sabe mesmo se é natural, se fingida. Mas desde logo a conclusão geral foi que havia alli um anarchista—porque só um anarchista, com aquelle obtuso fanatismo que dementa a seita, poderia esquecer quanto o assassinato de um chefe de Estado, tão legal e irresponsavel como Carnot, iria, pela natural irrupção de colera e dôr, pela unanimidade de sympathias accumuladas em torno da França e do seu governo, pelo sentimento do perigo despertado em todos os outros chefes de Estado, exacerbar por toda a parte a reacção e a perseguição, não só contra o anarchismo, mas contra os partidos avançados e de ideias justas de que elle é o filho bastardo e scelerado. Mais que nunca, d'este vez o anarchismo trabalhava furiosamente contra essa liberdade de que pretende ser a expressão suprema e perfeita;—e a sua arma não era mais do que uma nova e ensanguentada ferramenta posta, por elle, de noite, nas mãos da burguezia capitalista.

Anarchista ou não, porém, esse rapaz mysterioso, que permanece mudo n'um carcere de Lyão, fez, senão uma d'aquellas «victimas de eleição» de que fallam os Evangelhos, uma victima que todos os homens de bem podem lamentar com magoa pura e sem mescla d'outro sentimento. Carnot foi por excellencia o magistrado integro.

Sem nenhuma das qualidades brilhantes de espirito que captivam os lados imaginativos da raça franceza, elle foi todavia popular, e, apesar dos leves sorrisos que provocava o seu feitio exageradamente empertigado, o mais popular talvez de todos os chefes d'Estado n'stes ultimos cincoenta annos em França. E a razão é que elle encarnava admiravelmente todos os outros lados do temperamento francez, os do bom senso positivo, da prudente moderação, do trabalho zeloso, da probidade e da veneração pela Lei. Todos estes traços de caracter se encontram em França, principalmente na burguezia provincial; por isso Carnot era sobretudo querido nas provincias, e se podia considerar como um presidente não pariziense, mas provinciano, o que constitue, para quem conhece Pariz, um dos seus meritos, senão o seu merito maior. De certo para a sua popularidade concorreram tres grandes factos que elle pessoalmente não creou, mas a que soube presidir com perfeita dignidade e tacto:—a suppressão do boulangismo, ultimo fermento do espirito cesarista; a exposição universal de 1889; e a alliança ou festas alliadas da Russia e França. Todos estes acontecimentos, de resto, se prendiam com aquella ordem de preoccupações que n'elle eram mais vivas, da grandeza material da França e do seu predominio social na Europa. Peiado, travado pelos seus escrupulos de legalidade, em tudo o que se relacionava com a politica interna (ao contrario de Grévy que só se interessava pelo parlamentarismo pelos seus episodios) era para as relações exteriores da França, para a sua situação e gloria na Europa, que Carnot dirigia, senão uma franca iniciativa, ao menos aquella porção de iniciativa secreta de que se considerava ainda legalmente senhor. E ahi os seus serviços fôram reaes e eminentes, porque, se não teve em politica externa d'essas ideias seguidas, novas ou fortes, que outr'ora quando havia reis se chamavam «as grandes ideias do reinado», mostrou na sua conducta de chefe d'Estado, exposto á observação das chancellarias européas, tanta correcção e prudencia pacifica, e sentimento da grandeza nacional, que fez acreditar á Europa n'uma França tão digna, tão prudente, tão pacifica e tão forte na consciencia da sua grandeza, como se mostrava o chefe que ella escolhera. Por esse lado, Carnot foi um valioso cooperador da confiança da França em si mesma e da paz em toda a Europa.

Particularmente, era o mais excellente dos homens—affavel, caritativo, leal, clemente, cultivado.

A multidão que o via sempre tão teso, mettido n'uma casaca que parecia de ferro, com a barba muito negra e dura, a barra vermelha da Legião de Honra destacando sem um vinco no peitilho rigido, tendia a pensar que tudo, no homem interior, era tambem secco, rigido, duro.

A multidão enganava-se redondamente. Carnot era um brando, quasi um sentimental.

Ha assim d'estas figuras de madeira, que vivem por dentro de uma vida ignorada, que é cheia de sensibilidade e de calor affectivo.

Um jornal que sempre incondicionalmente o honrou, e que costuma pôr nas suas palavras uma sisudez ponderosa, e mesmo solemne, o Temps, resume o elogio funebre de Carnot affirmando que elle era un brave homme. A expressão assim, isolada, póde parecer familiar, talvez rasteira, mesmo laivada de vago desdem. Mas, quando junta a todas as outras que definem o seu caracter publico, logo se sente que esta as completa, as embelleza, e espalha sobre ellas como um indefinido perfume de bondade e doçura, sem as quaes nunca ha verdadeira superioridade moral. E Carnot, elle proprio, na lista extensa das suas virtudes intimas e civicas, apreciaria, mais que todas, esta, que tem um feitio tão simples, de brave homme. Na sua vida, na sua alta magistratura, foi sempre um brave homme.

E isto, no chefe eleito de uma democracia, é talvez a melhor condição—porque dos grandes genios vêm por vezes grandes males, e nunca vem senão bem de uma bondade honesta e grave.


XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.

Pariz, sentado nos terraços dos cafés, bebendo aos goles, devagar, limonada ou xarope de grozelha e soda, enxuga a testa e repousa das emoções por que passou n'esta semana, sob 35 graus calor (á sombra). Que emoções, com effeito, tão atropelladas, tão desencontradas, desde essa manhã de segunda-feira em que cada um de nós foi accordado quasi violentamente pelo seu criado, que, sem abrir as vidraças, espalhando logo na penumbra da alcova um pouco do assombro e do horror que invadira a cidade, exclamava ou balbuciava:—«O snr. Carnot foi assassinado em Lyão!» Depois d'isto não era possivel, nem readormecer, nem preguiçar. Pariz inteiro, sem banho, quasi sem almoço, desceu á rua, como Athenas nos grandes dias civicos, e ficou na rua durante uma semana, fallando alto e comprando vorazmente jornaes. Tantos jornaes arrebatava e logo arremessava, que á noute macadam e asphalto desappareciam sob uma camada de lixo impresso, o mais triste de todos os lixos.

Esta multidão tão sobreexcitada interiormente, conservava todavia uma compostura calma, semelhante á de um publico n'um theatro, que, enquanto os heroes agonisam no tablado, se sente perfeitamente seguro, e seguras, em torno d'elle a vida e a ordem da cidade. É que a morte Carnot só affectou realmente a imaginação de Pariz. Era como uma tragedia, improvisada um forte genio tragico, representada inesperadamente uma noite em Lyão, e de que os jornaes viessem contando os lances de sangue e luto.

O punhal do italiano, escandido entre flôres, á boa maneira italiana da Renascença, não ferira, ferindo Carnot, nenhum d'esses interesses que são para o homem, individualmente, como pedaços da sua propria carne, ou para a sociedade como o cimento de onde depende a sua estabilidade. O bem estar mais intimo do cidadão, hoje, não se altera com as catastrophes soffridas por aquelles que os governam: e o Estado não soffre uma arranhadura, quando o seu chefe morre d'uma punhalada. Outr'ora, a suppressão violenta do chefe causava um abalo universal, uma tumultuosa deslocação de interesses, quasi uma transformação de costumes. Quando Henrique IV é assassinado na rua de la Ferronnerie, como Carnot, toda a França, horas depois, segundo a viva expressão de Michelet, ficou revirada de dentro para fóra como uma luva. A laboriosa obra do reinado desaba bruscamente: o thesouro amontoado por Sully é esbanjado ao vento; todas as construcções, por falta de dinheiro, se interrompem; todas as grandes manufacturas se fecham, e os operarios vagueiam famintos; a trama das allianças, tao habilmente urdida, n'um instante está desfeita—e ahi temos em breve a guerra dos Trinta Annos! Aquelle rei morto levava comsigo para o tumulo o pão, a paz, a posição, as vaidades de milhares de vasallos. Por isso em Pariz foi terrivel a desolação. Como diz ainda Michelet, cada cidadão se considerou pessoalmente perdido: e nas casas, como uma desgraça domestica, as mulheres gritavam arrepellando os cabellos!