Tambem me queria parecer que não era uma convicção philosophica.
Electra
Brincadeira descabida, talvez, porque elle é seriissimo... E sobre esse ponto gostaria de ouvir o seu conselho: acha que eu deva tornar-me séria?
Marquez
Nunca! Cada creatura é como Deus a quiz fazer. Ninguem precisa de ser serio para ser bom.
Electra
Pois veja lá! eu que não sei nada, tinha pensado isso mesmo!
SCENA XI
ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA pelo fundo
Pantoja
(do fundo, áparte) E atreve-se a pôr os olhos peçonhentos n’uma tal flôr de candura, este libertino, velho e incorrigivel! (Adeanta-se lentamente)
Marquez
(dando por Pantoja, áparte) Cae-nos o apagador em cima. Apaguemo-nos!
Electra
O snr. Marquez tinha vindo para me ouvir tocar, mas eu estou muito estupida hoje. Ficou para outra vez.
Marquez
O meu caro snr. Pantoja sabe que Beethoven é a minha paixão. Como me tinham dito que Electra o interpreta bem, esperava ouvir-lhe a Sonata pathetica ou o Clair de lune... Puzemo-nos a conversar, e, visto que não é occasião agora...
Pantoja
(com desabrimento) A hora do estudo acabou.
Marquez
(recobrando o seu papel de sociedade) Outro dia será! Virginia e eu, meu presado snr. Pantoja, muito estimariamos que quizesse honrar-nos com os seus conselhos relativamente ao Recolhimento das Escravas de Jesus.
Pantoja
Sim senhor, hoje irei vêr a marqueza, e fallaremos...
Marquez
Nas Escravas a encontrará o meu illustre amigo toda a santissima tarde... E como creio que sou demais... (Movimento de retirar-se)
Electra
O snr. Marquez não estorva.
Marquez
Vou-me com a musica... até o laboratorio de Maximo.
Pantoja
Vá, vá, que ha de gostar!
Marquez
Até ao almoço, meu muito respeitavel amigo.
Pantoja
Guarde-o Deus. (Sae o marquez pelo jardim)
SCENA XII
ELECTRA E PANTOJA
Pantoja
(vivamente) Que é que elle lhe dizia? que lhe estava contando esse depravador de innocencias?
Electra
Nada: historias vagas, anecdotas para rir...
Pantoja
As taes historias! Desconfie sempre das anecdotas jocosas, e dos narradores amenos, que escondem entre suavidades e fragrancias de jasmins uma ponta envenenada de estilete... Estou a achal-a perplexa, enleada, abstrahida, quasi medrosa, como quem acaba de sentir pela macia relva matisada de lirios um roçagar de reptil.
Electra
Ah! não.
Pantoja
Essa inquietação resultante das conversações perturbadoras ha de acalmal-a a minha palavra serena e benefica.
Electra
Vejo que é poeta, snr. de Pantoja; e dá-me prazer ouvil-o.
Pantoja
(indica-lhe uma cadeira, e sentam-se ambos) Minha presada filha, vou dar-lhe a explicação da intensa ternura que me inspira... Terá dado por isso?
Electra
Tenho.
Pantoja
Tal explicação equivale á revelação de um segredo...
Electra
(muito assustada) Deus do ceu! estou a tremer...
Pantoja
Socegue, minha filha... E ouça primeiro a parte d’esta confidencia mais dolorosa para mim. Fui muito mau, Electra.
Electra
Como assim, com a fama de santidade que tem!
Pantoja
Fui mau—digo-lh’o eu—em certa occasião da minha vida. (Suspirando) Já lá vão alguns annos.
Electra
(vivamente) Quantos? Poderei eu lembrar-me ainda do tempo da sua maldade, snr. de Pantoja?
Pantoja
Não pode. Quando eu me depravei, quando me afundi no lodaçal do peccado, não tinha a menina ainda nascido...
Electra
Mas nasci afinal...
Pantoja
(depois de uma pausa) É certo.
Electra
Nasci... e d’ahi? Por quem é, abrevie essa historia...
Pantoja
A sua perturbação me indica que devemos desviar os olhos do passado. A sua condição presente socega-me.
Electra
Porquê?
Pantoja
Porque ha de ter um amparo, um arrimo para toda a vida. Nada mais ineffavel para mim do que a fortuna de velar pelo destino de uma creatura tão bella e tão nobre! Quero consagrar-me a defendel-a de todo o mal, a guardal-a, a acalental-a, a dirigil-a, para que sempre se conserve incolume, intemerata e pura; para que nunca lhe toque nem a mais tenue sombra, nem o mais afastado respiro do mal. É hoje uma menina que parece um anjo. Não me conformo com que unicamente o pareça; quero que para mim o seja.
Electra
(friamente) Que eu seja um anjo de sua composição e propriedade sua?... E parece-lhe que se deva considerar como um rasgo de caridade extraordinaria e sublime esse fervoroso desejo que mostra de ter assim, um anjo de seu?
Pantoja
Não é caridade: é obrigação. Tu—entendes?—tens o direito de ser amparada por mim; eu tenho o dever de amparar-te.
Electra
Tamanha confiança... tão severa auctoridade...
Pantoja
A minha auctoridade provém do meu entranhado affecto, assim como do calor do sol provém a força da terra. A minha protecção é um producto da minha consciencia.
Electra
(levanta-se muito agitada, e afastando-se de Pantoja, áparte) Virgem mãe santissima! dois protectores! e um que precisa de opprimir para proteger! (alto) Olhe: eu admiro-o e respeito muito as suas virtudes. Emquanto á sua auctoridade—perdoe-me o atrevimento de lh’o dizer—não a comprehendo bem claramente, e parece-me que só a minha tia é que devo submissão e obediencia.
Pantoja
Vem a ser a mesma coisa. Evarista faz-me a honra de me consultar em tudo. Obedecer-lhe a ella é submetter-te a mim.
Electra
Então tambem a tia me quer para anjo d’ella? ainda por cima de eu já estar para anjo do snr. de Pantoja?!
Pantoja
Anjo de todos, de Deus principalmente. Convence-te, filha da minha alma, que vieste a bôas mãos, e que só te cumpre deixar-te guiar na virtude e na purificação.
Electra
(com displicencia) Pois, se querem purificar-me, purifiquem-me... Mas estão bem certos de que eu seja impura e má?
Pantoja
Poderias vir a sel-o. Melhor se vence o mal prevenindo que remediando.
Electra
Pobre de mim! (Levantando os olhos em extase, suspira. Pausa)
Pantoja
Porque suspiras assim?
Electra
Deixe-me aliviar o meu triste coração. Pesam-me demais em cima d’elle as consciencias dos outros.
SCENA XIII
ELECTRA, PANTOJA E EVARISTA, pelo fundo
Evarista
Amigo Pantoja, a Madre Barbara da Cruz espera-o para se despedir e receber as suas ordens.
Pantoja
Ah! não me lembrava... Vou immediatamente. (Áparte a Evarista) Falamos. Vigie. Acautelemo-nos! (Antes de saír Pantoja, pelo fundo, entram o Marquez e Maximo pela direita)
SCENA XIV
ELECTRA, EVARISTA, MARQUEZ E MAXIMO
Marquez
Tardamos?
Evarista
Não. Estiveram no laboratorio?... (Formam-se dois grupos: Electra e Maximo á esquerda; Evarista e o Marquez á direita.)
Marquez
Lá estivemos. É um prodigio este homem... (Segue falando no que viu)
Electra
(suspirando) Sim, Maximo, preciso de consultar-te sobre um caso grave.
Maximo
(com vivo interesse) Conta depressa!
Electra
(receosa olhando para o outro grupo) Impossivel agora.
Maximo
Quando então?
Electra
Não sei... Não sei quando t’o poderei dizer... Não se resume em quatro palavras...
Maximo
Pobre rapariga!... O que eu te predisse... Chegam as seriedades da vida, os deveres, as amarguras...
Electra
Talvez.
Maximo
(olhando-a fito, com grande interesse) Na expressão da tua physionomia ha um veu de tristeza e um estremecimento de susto... Desconheço-te.
Electra
Querem annular o que eu sou, e reduzir-me a outra coisa... a uma coisa angelical e celeste, que não sei o que é!
Maximo
(vivamente) Por Deus, não consintas isso! Defende-te, Electra.
Electra
Que me aconselhas?
Maximo
(sem vacillar) A independencia.
Electra
A independencia!
Maximo
Sim, a emancipação... N’uma palavra: Insurge-te!
Electra
Queres dizer que faça quanto me vier á cabeça, que danse, que pule, que corra pelo parque emquanto me appeteça, que entre na tua casa como em paiz conquistado, que conspire com os teus pequenos, que fuja com elles para o jardim, para longe, para onde eu quizer?...
Maximo
Tudo!
Electra
Olha o que dizes!?...
Maximo
Digo-te isto.
Electra
Mas é o contrario que me tens recommendado sempre!
Maximo
(olhando-a fixamente) Na tua cara, no vinco dos teus sobrolhos, na tremura da tua bocca, eu vejo que estão radicalmente transformadas as condições da tua vida. Tu agora tens medo.
Electra
(medrosa) Tenho, sim.
Maximo
Tu... (Hesitando no verbo que ha de empregar. Vae a dizer amar, mas não ousa) Tu queres ardentemente que alguma coisa succeda...
Electra
(com effusão) Quero. (Pausa) E dizes-me tu que contra o medo... a insubordinação.
Maximo
Sim: solta livremente todos os teus impulsos para que quanto ha em ti se manifeste, e se saiba quem tu és.
Electra
O que eu sou? Queres conhecer...
Maximo
A tua alma...
Electra
Os meus segredos...
Maximo
A tua alma... N’ella se comprehende tudo.
Electra
(notando que Evaristo a observa) Basta... Olham para nós.
SCENA XV
OS MESMOS, URBANO E PANTOJA, pelo fundo
Urbano
Almoça-se?
Pantoja
(a Evarista, suffocado, vendo Electra com Maximo) Então assim a deixa só com Mephistopheles?
Evarista
Não tenha sustos, Pantoja.
Marquez
(rindo) Não tem de que os ter. Esse Mephistopheles é um santo. (Dá o braço a Evarista)
Pantoja
(imperiosamente, pegando na mão de Electra para a conduzir) Commigo! (Electra, andando com Pantoja, volta a cabeça para olhar para Maximo)
Maximo
(olhando para Electra e para Pantoja) Comtigo?... Havemos de vêr com quem! (Maximo e Urbano são os ultimos que saem)
FIM DO PRIMEIRO ACTO