Scenario do primeiro acto
SCENA I
EVARISTA, URBANO, á banca, despachando negocios, BALBINA, que serve á snr.ª de Yuste uma taça de caldo
Urbano
(dispondo-se a escrever) Que é que se diz ao reitor do Patrocinio?
Evarista
O que se combinou: approvamos a planta, e acceitamos o orçamento. Depois nos entenderemos com o empreiteiro.
Urbano
Já sabes a quanto monta a obra... (Lendo n’um apontamento) Trezentas e vinte e duas mil pezetas...
Evarista
Bem. Ainda nos sobeja dinheiro para a continuação do Soccorro. (A Balbina, que recolhe a taça) Não te esqueças do que te incumbi.
Balbina
Continúo vigiando, como a senhora determinou. Mas este recreio a que a menina agora se entrega não me parece de cuidado. Tantas cartas de namorados juntas são carteio de mais. A menina, emquanto a mim, para o que puxa não é para a tolice, é para a risota.
Evarista
Mas quem traz todas essas cartas que ella recebe?
Balbina
Isso não sei... Mas ando de pedra no sapato com a Patros.
Evarista
Espreita-as, e informa-me.
Balbina
Fica ao meu cuidado, deixe estar! (retira-se Balbina)
SCENA II
OS MESMOS E MAXIMO, apressado, com plantas e papeis
Maximo
Estórvo?
Evarista
Não, filho, podes entrar.
Maximo
São dois minutos, tia.
Urbano
Vens do ministerio?
Maximo
Venho da conferencia com os bilbaínos. Tenho hoje um dia de prova tremenda... Immenso que conferir, immenso que falar, immenso que correr, e, para me não faltar mais nada, a casa toda revirada com o debaixo para cima!
Evarista
Mas, homem, que foi isso?! Diz a Balbina que despediste as creadas...
Maximo
Pessoal infame, tia! Tres ladras! Pul-as na rua. Estou com o ordenança e com a ama. Que lindo arranjo, hein?
Evarista
Vem comer cá.
Maximo
Comer cá é bom de dizer. A tia fala bem! E os pequenos com quem ficam? Se os trago põem-lhe a cabeça em agoa, desarranjam-lhe tudo...
Evarista
Não tragas. Eu adoro as creanças. Mas têl-as commigo, não. Revolvem tudo, sujam tudo! corridas, risadas, cantatas, berratas, guinchos, patadas medonhas no chão! fazem-me doida. E mêdo que caiam, que se mólhem, que as arranhem os gatos, que rachem as cabeças, que esburaquem os olhos uns dos outros. Nada... Não quero responsabilidades.
Maximo
Eu o que queria é que a tia me mandasse uma cosinheira.
Evarista
Manda-se-te para lá a Henriqueta. Urbano, toma nota.
Maximo
Bom. (Dispondo-se a partir)
Evarista
Olha lá! os teus negocios parece que vão bem... Já sabes o que te tenho dito: Se o magico prodigioso precisar de dinheiro para a implantação dos seus inventos, não tem mais do que dizel-o...
Maximo
Obrigado, tia... Tenho á minha disposição quanto dinheiro queira... Assim eu tivesse uma creatura que me soubesse fazer sôpa!
Urbano
Esse senhor dentro de poucos annos ha de estar muito mais rico do que nós.
Maximo
Isso bem pode ser que sim.
Urbano
Obra do seu talento.
Maximo
(com modestia) Não: do trabalho, da perseverança, da paciencia...
Evarista
Nem me digas! Trabalhas monstruosamente.
Maximo
Quanto é preciso que trabalhe, por obrigação, por consolação, por prazer, e, a final, por enthusiasmo adquirido tambem.
Urbano
Passa a monomania isso. É uma borracheira de estudo.
Evarista
(grave) Não: é a ambição, a maldita ambição, que a tantos fascina e a tantos deita a perder.
Maximo
Ambição legitima e indispensavel á humanidade. Imagine a tia...
Evarista
(cortando-lhe a palavra) É a ancia das riquezas, para saciar com ellas a avidez do goso. Gosar, gosar, gosar: isso unicamente quereis, e para isso vos consumis, sacrificando o estomago, o cerebro, o coração e a propria alma, sem vos lembrardes da inanidade das coisas da terra e da brevidade da vida. Rapidamente nos vamos, e tudo cá fica.
Maximo
(impaciente por sahir) Tudo, menos eu, que me safo já.
SCENA III
OS MESMOS E JOSÉ
José
(annunciando) O snr. marquez de Ronda.
Maximo
(detendo-se) Esperarei já agora para o vêr.
Evarista
(recolhendo os papeis) Não manda Deus que trabalhemos hoje.
Urbano
Adivinho ao que vem.
Evarista
Que entre, José, que entre! (José sae)
Maximo
Vem convidal-os para a inauguração da nova Irmandade da Escravidão fundada por Virginia. Disse-m’o hontem á noite.
Evarista
Bem sei... Então é hoje?
SCENA IV
EVARISTA, URBANO, MAXIMO E O MARQUEZ
Marquez
(saudando com affabilidade) Querida amiga... Urbano... (A Maximo) Olá! não esperava encontrar o magico...
Maximo
O magico diz-lhe adeus e some-se.
Marquez
Um momento. (Retendo-o)
Evarista
Sim, Marquez: iremos.
Marquez
Já sabem?
Urbano
A que horas?
Marquez
Ás cinco em ponto. (A Maximo) A si não lhe digo porque sei que não tem tempo.
Maximo
Desgraçadamente. Segue-se então que o não espero hoje.
Marquez
Como, se temos essa festa rija de religião e de mundanismo! mas lá vou á noite.
Evarista
(levemente zombeteira) Já cá se tem notado, com muito regosijo é claro, a frequencia das visitas do Marquez á caverna do nigromante.
Maximo
O Marquez dá-me muita honra com a sua amizade e com o interesse que toma pelos meus estudos.
Marquez
Veio-me agora o delirio das maquinas e dos phenomenos electricos... Caturrices de velho!
Urbano
(a Maximo) Parabens pelo discipulo.
Evarista
Deus sabe... (Maliciosa) Deus sabe quem será o mestre e quem o alumno!
Marquez
A respeito do mestre, sinto que elle esteja presente porque isso me priva de applicar aos seus meritos todas as mordeduras que a inveja me inspira.
Evarista
Retira-te, Maximo; vamos dizer mal de ti.
Maximo
Repaste-se a má lingua! Adeusinho todos. Adeus, tia.
Evarista
Vae com Nossa Senhora!
Marquez
(a Maximo que sae) Até á noite, se me deixarem. (A Evarista) Extraordinario homem! Sempre o admirei muito, mas agora que tenho apreciado mais de perto todas as suas qualidades, sustento que não ha outro no mundo como este seu sobrinho.
Evarista
No terreno scientifico.
Marquez
Em todos os terrenos, senhora de Yuste. Pois quê?!...
Evarista
De certo que como intelligencia...
Marquez
(com enthusiasmo) Como intelligencia, como caracter, como coração, como tudo... Quem é que é melhor?
Evarista
(sem querer empenhar-se n’uma discussão delicada) Bem, bem, Marquez... (Variando de tom) É então ás cinco, disse...?
Marquez
Em ponto. Contamos tambem com Electra.
Evarista
Não sei se a leve...
Marquez
Ora essa! Tenho incumbencia especialissima de conseguir a presença da senhorita Electra n’esta solemnidade, e já prometti que sim. Virginia deseja muito conhecêl-a.
Urbano
Á vista d’isso...
Marquez
Não me deixem ficar mal!
Evarista
Bem: conte com ella.
Marquez
Teremos muita gente, toda a nossa roda...
Urbano
Oh! vae estar brilhante com certeza.
Marquez
Com que então, até já. Tenho de ir a casa de Otumba, e passarei por cá na volta. (Ouve-se a voz de Electra pela esquerda, chalrando e rindo alegremente. O marquez pára a escutal-a)
SCENA V
OS MESMOS E ELECTRA
Electra
Pois sim, sim... rica, minha riquinha! mais um beijo... Que doida que és! que doida que sou! mas entendemo-nos ambas. (Apparece pela esquerda com uma grande e rica boneca, que beija e que embala. Detem-se envergonhada)
Evarista
Que vem a ser isto, rapariga?
Marquez
Não lhe ralhe.
Electra
Mademoiselle Lulu e eu damos á lingoa, contamo-nos coisas.
Urbano
(ao Marquez) Anda desatinada hoje.
Electra
(afastando-se, diz segredinhos á boneca. Os outros olham) Que linda que és, Lulu! Mas elle, ainda mais lindo que tu. Que feliz seria o meu amor com elle e comtigo!
Marquez
Sempre folgazã, pelo que vejo...
Evarista
Pelo contrario: desde hontem n’uma tristeza que nos dá cuidado.
Marquez
Tristeza? idealidade antes.
Evarista
E, agora, está vendo...
Marquez
(carinhoso, dirigindo-se para ella) Rica menina!
Electra
(approximando a cara da boneca da do marquez) Vamos, Mademoiselle, não se me faça môna: dê um beijinho a este senhor. (Antes que o marquez beije a boneca dá-lhe um leve carolo com a cabeça de Lulu)
Marquez
A Lulu não beija: a Lulu marra. (Acariciando o queixinho de Electra) Por isso gósto mais da sua amiguinha do que d’ella.
Electra
De miôlo póde crêr que tanto tem uma como outra.
Urbano
Mas que conversas tu com a boneca?
Electra
Desafógo com ella, conto-lhe as minhas penas.
Evarista
Penas, tu?
Electra
Penas eu, sim, pois quê?... E quando nos vê muito caladas ambas é porque nos estão lembrando as nossas coisas passadas...
Marquez
Ah! se a interessa o passado já é um signal de que pensa pela sua cabecinha.
Evarista
E que coisas passadas são essas que dizes?
Electra
Digo do tempo em que nasci. (Com gravidade) O dia em que eu vim ao mundo foi um dia muito triste, pois não foi? Lembra-se aqui alguem de como foi esse dia?
Evarista
Filha, que tontices que dizes! E não tens vergonha de que o snr. Marquez te veja tão adoidada?
Electra
Creia, tia, que não ha doidos tão doidos, nem creanças tão creanças, que não tenham sua razão para dizer o que dizem e para fazer o que fazem.
Marquez
Muito bem pensado.
Evarista
Qual é então a tua razão para esses brinquedos tão fóra da tua edade?
Electra
(olhando para o marquez, que sorri ao seu lado) Isso não posso contar agora.
Marquez
Quer dizer que me retire.
Evarista
Electra!
Marquez
Eu ia já despedir-me... com bem pena de que as minhas occupações me privem de convivencia tão interessante. Adeus, senhorita; volto ás cinco para a levar commigo.
Electra
A mim!
Evarista
Sim; vamos á inauguração das Escravas.
Electra
E eu tambem?
Evarista
Podes-te ir vestindo.
Electra
(assustada) Ha de estar muita gente... A gente mette-me medo. Gósto mais de ficar só.
Marquez
Estaremos em familia. E com isto me despégo.
Evarista
Até logo, Marquez.
Marquez
(a Electra) Menina, ás cinco; aprendámos a ser pontuaes. (Sae pelo fundo com Urbano)
SCENA VI
EVARISTA E ELECTRA
Evarista
Explicarás agora a extranha maluquice em que andas.
Electra
Eu lhe digo, tia: tenho uma dúvida... como direi?... um problema...
Evarista
Problemas, tu!
Electra
Exactamente, no plural, problemas... porque é de mais d’um que se trata.
Evarista
Valha-te Nossa Senhora!
Electra
E quero vêr se m’os resolve...
Evarista
Quem?
Electra
Uma pessôa que já não vive.
Evarista
Que dizes?
Electra
Minha mãe. Não se afflija... Minha mãe pode-me dizer o que eu pretendo... e aconselhar-me. A tia não acredita que as pessôas do outro mundo podem vir a este? (Gesto de incredulidade de Evarista) Não acredita. Acredito eu. Acredito porque o tenho visto. Eu tenho visto minha mãe...
Evarista
Virgem Maria! como tens essa cabeça!
Electra
... Quando era muito pequenina, assim, d’este tamanho...
Evarista
Nas Ursulinas de Bayona?
Electra
Sim... Minha mãe apparecia-me.
Evarista
Em sonhos, naturalmente.
Electra
Não, não: estando eu acordada, tão bem acordada como estou agora. (Colloca a boneca n’uma cadeira)
Evarista
Pensa no que dizes, Electra...
Electra
Quando eu estava só, sósinha, triste ou doente; quando alguem me lastimava dando-me a perceber a desairosa situação que eu tinha no mundo, a minha mãe vinha, e consolava-me. Primeiro via-a imperfeitamente, confusa, como vaporosa, a parecer diluir-se nas coisas distantes, nas coisas proximas. Adeantava-se, n’uma claridade que tremeluzia... Depois, não bulia mais; era uma fórma quieta, uma serena imagem triste... E eu não podia então duvidar de que a tinha ali... Era minha mãe... Das primeiras vezes via-a em traje elegante de grande dama... Um dia, por fim, appareceu-me de habito e escapulario de monja. O seu rosto envolvido nas toucas brancas, e o seu corpo coberto pela estamenha pendente tinham uma magestade de belleza que não póde imaginar quem a não viu.
Evarista
Tu deliras, minha pobre filha!
Electra
Junto de mim abria os braços como se quizesse enlaçar-me. Falava-me n’uma voz dôce, mas longinqua e recondita... não sei como lh’o explique... Eu perguntava-lhe coisas, e ella respondia-me... (maior incredulidade de Evarista) A tia não acredita?
Evarista
Vae dizendo.
Electra
Nas Ursulinas tinha uma bella boneca, a que eu chamava tambem Lulu... Veja a tia que mysterio este!... Sempre que eu andava pela horta, ao cahir da tarde, só, levando ao colo a minha boneca—tão melancolica eu como ella—olhando muito para o ceu, era certa, segura, infallivel, a visão de minha mãe... primeiro entre as arvores, como enformada no ôco das folhagens; depois, desenhando-se de luz, e caminhando para mim, vagarosamente, por entre os troncos escuros...
Evarista
E em mais crescida, quando vivias em Hendaya... tambem?...
Electra
Nos primeiros tempos não... Então já eu brincava com bonecas vivas: os dois pequerruchinhos da minha prima Rosalia, menina e menino, que nunca se separavam de mim, e me adoravam, como eu a elles. De noite, na solidão do nosso quarto, com os meninos dormidinhos, como elles aqui... e eu aqui (indica o logar dos dois leitos parallelos) por entre as duas caminhas brancas a minha mãe passava, meiga, silenciosa, aeria, sem pisar o chão... E debruçava-se para mim...
Evarista
Cala-te, por Deus, que até me fazes medo... Mas depois que foste mais crescida... agora—digamos—acabaram essas visões...
Electra
Nunca mais as tive desde que deixei de viver com bonecas e com meninos. É por isso que eu trato de voltar á edade da innocencia, e de me fazer creança pequena outra vez, a vêr se, tornando a ser o que fui, voltará tambem minha mãe a vêr-me, como d’antes... Para que falemos, e me responda ao que lhe quero perguntar... e me dê conselho...
Evarista
E que dúvidas são as tuas, que assim precisas...
Electra
(pondo os olhos no chão) Dúvidas?... coisas que a gente não sabe, e quer saber.
Evarista
Tolice! Que tão grave caso vem a ser esse para que precises de consulta e de conselho?...
Electra
Cá uma coisa... (Vacilla, está quasi a dizêl-o)
Evarista
O quê? dize.
Electra
Uma coisa... (Com timidez infantil dando voltas á boneca e sem se atrever a revelar o seu segredo) Uma certa coisa...
Evarista
(severa e affectuosa) Ih! que intoleravel que estás, com tanta creancice! (Tira-lhe a boneca) Que estupida e ao mesmo tempo que atilada que tu és! Tão depressa te mostras um prodigio de intelligencia e de graça como parece que não passas de maluca... Andam ás bulhas com a tua alma cherubins e demonios. Temos que intervir para acabar com essa lucta e dar em Satanaz muitos açoites, ainda que algum te caia em ti e te dôa um poucochito... (Beija-a) Vamos! juizo. Precisas de te occupar n’alguma coisa, de distrahir essa cabeça... Não te esqueça de que é ás cinco a festa... Vae-te arranjar, anda...
Electra
Sim, tia.
Evarista
Faltam tres quartos.
Electra
Vou apromptar-me.
Evarista
E poucas brincadeiras... cuidado! (Sae pelo fundo levando a boneca pendida, suspensa por um braço)
SCENA VII
ELECTRA E PATROS
Electra
(olhando para a boneca) Pobre Lulu! como te levam á dependura! (Imitando a postura da boneca e apalpando o seu proprio braço dolorido) Que dôr que vaes ter, coitada, no hombro desengonçado! (Senta-se meditabunda) E o outro á minha espera... Como foi triste a separação! como elle chorava, estendendo-me os bracinhos!... e eu que lhe prometti voltar...
Patros
(assomando cautelosa pela esquerda) Senhorita, senhorita...
Electra
Entra.
Patros
(avançando com precaução) Não está ninguem?
Electra
Estamos sós.
Patros
Não se pilha outra occasião assim, menina! Ou agora ou nunca.
Electra
Vens de lá?
Patros
Agora mesmo... Muitos senhores que dizem numeros... milhões, bilhões e quatrilhões... E lá dentro, ninguem.
Electra
(vacillando) Atrevo-me?
Patros
(decidida) Atreva-se, menina.
Electra
Nossa Senhora do Carmo, protegei-me! (Dirige-se á sahida que dá para o jardim. Pára assustada) Espera. Não será melhor sahirmos pelo outro lado? Pode estar a tia á janella da casa de jantar...
Patros
Pode, pode! Demos a volta por aqui. (Pela esquerda)
Electra
Sim, por aqui... Estou a tremer toda... de valentia! e de medo. Ávante! (Saem a correr pela esquerda)
SCENA VIII
URBANO E JOSÉ, que entram pelo fundo ao tempo a que saem as duas
Urbano
Quem vae ali?
José
É a Patros.
Urbano
Então que temos?... conta lá.
José
São já cinco os que fazem olho á menina: cinco vistos por mim. Fóra os que não vi.
Urbano
E quê? rondam a casa?
José
Dois pela manhã, dois de tarde, e o mais pequenitate de todos, de sol a sol.
Urbano
Tens notado se ha communicação entre a janella do quarto da senhorita Electra e a rua por meio de cesto pendente ou de cordão telephonico?
José
Não vi nada d’isso. Mas cá eu, se fôsse os senhores, mudava a menina para os quartos d’acolá. (Á esquerda)
Urbano
E algum d’esses meninos não se coará para dentro do jardim?
José
Isso sim! Não que elles teem espinhaço e querem-o para mais d’uma vez.
Urbano
Bem: vae vigiando sempre. (Entra Cuesta pelo fundo)
SCENA IX
URBANO E CUESTA, com papeis e cartas
Urbano
Ora graças a Deus, Leonardo!
Cuesta
Já te tinha dito que não vinha de manhã. (A José, dando-lhe uma carta) Isto para registar. Logo irão mais cartas. (Sae José)
Urbano
(pegando n’um papel que Cuesta lhe entrega) Que vem a ser isto?
Cuesta
O recibo das cem mil e tantas pesetas... assigna-me agora um talão de sessenta e sete mil...
Urbano
Para a remessa para Roma...
Cuesta
Isso mesmo. E Evarista?
Urbano
A vestir-se.
Cuesta
Já sei que vaes á inauguração das Escravas e que tambem vae Electra.
Urbano
Essa pequena, positivamente, não promette coisa boa. Está cada vez mais caprichosa e mais leviana...
Cuesta
(vivamente) Sem maldade!
Urbano
Mas com symptomas d’isso. Evarista, que é a cautella e a prudencia em pessoa, anda a pensar em submettel-a a um regimen sanitario em S. José da Penitencia.
Cuesta
Has de me permittir que discorde inteiramente d’esse alvitre. Tu dirás que quem me manda a mim...
Urbano
Pelo contrario: como amigo da casa muito estimo que dês opinião e conselho.
Cuesta
Isso de arrastar para a vida claustral uma rapariga que não denota manifesta vocação de piedade, é grave... E não devereis extranhar que porventura alguem se opponha...
Urbano
Quem se ha de oppôr?
Cuesta
Que sei eu! alguem... Na vida d’esta menina ha, por emquanto, um factor desconhecido... Um bello dia poderá succeder... não direi que succeda... Um bello dia, quando puxeis pela corda com mais força, poderá vir uma voz que diga: «Alto lá, senhores de Yuste!»
Urbano
E nós responderemos: «Querido snr. factor desconhecido, aqui tem a menina, com o que nos livra d’uma tutella difficil e incommoda.»
Cuesta
(senta-se com muita fadiga) Isto, Urbano, é apenas uma supposição minha... é um modo de fallar...
Urbano
Não te sentes bem? Queres tomar alguma coisa?
Cuesta
Não... Este maldito coração recusa-se a ser dirigido pela vontade...
Urbano
Descansa... Queres-te tu deitar?
Cuesta
Pois não sabes o que tenho que fazer? (Tirando papeis do bolso) Para já, duas carta urgentes, que teem de partir hoje.
Urbano
Escreve-as aqui. (Fazendo um logar á meza, e retirando livros e papeis)
Cuesta
Está dito... installo-me ahi.
Urbano
Eu estou atarefadissimo tambem. Tenho voltas que dar...
Cuesta
Não penses mais em mim. (Escreve)
Urbano
Desculpa. Evarista não tarda ahi.
Cuesta
(sem olhar) Até logo... (Sae Urbano pelo fundo)
SCENA X
CUESTA, ELECTRA E PATROS (Assomam as duas á porta da esquerda como para reconhecer o terreno)
Electra
Cuidado, Patros... Por aqui é difficil trazêl-o.
Patros
(reconhecendo Cuesta, que vê de costas) D. Leonardo!
Electra
Chut!... O mais seguro é deixal-o no teu quarto até á noite. Que massada a tal inauguração!
Cuesta
(volta-se ao ouvir vozes) Ah! Electra...
Electra
Importunamos, D. Leonardo?...
Cuesta
Não, minha amiguinha. Quer fazer-me o favor de esperar um pouquinho... que termine uma carta? Tenho que lhe dizer.
Electra
Aqui me tem. (Áparte a Patros) Que sécca! (Alto) Vinhamos unicamente buscar um papel e um lapiz para umas contas. (Tira da meza um lapiz e papel. Áparte a Patros) Cuida bem d’elle... Que amor que elle está adormecido! Com o seu focinhinho côr de rosa e as mãos sujas, com as unhitas pretas de andar a escarvar na terra... Dá vontade de o engulir!
Patros
Com os lindos pés gordos, e a espessa carapinha d’ouro que elle tem...
Electra
(com effusão de carinho) Dá volta á cabeça da gente. Olha bem por elle, Patros; vê lá!...
Patros
Levo-lhe agora um bôlo.
Electra
Não dou licença. Prohibo rigorosamente os bôlos. Para lhe sujarem o estomago!... Leva-lhe uma sopinha...
Patros
Mas como hei de eu arranjar sopinha?
Electra
Tens razão... Ah! pede na cosinha uma taça de leite para mim.
Patros
Isso mesmo! E dou-lh’a quando acordar.
Electra
Toma lá tambem o papel e o lapiz para elle fazer os seus rabiscos... É a coisa de que mais gosta... Depois, á noite, na primeira occasião, mette-o no meu quarto, para dormir comigo.
Cuesta
(fechando a carta) Acabei.
Electra
Perdoe um momento, D. Leonardo. (Áparte a Patros) Não o deixes nem um momento... Muito cuidadinho! Se D. Leonardo me não prender muito, ainda irei dar-lhe um beijo antes de me vestir.
Cuesta
Patros, estas cartas para o correio!
Patros
Vão-se levar já.
SCENA XI
CUESTA E ELECTRA
Cuesta
(pegando-lhe nas mãos) Venha cá, sua grande extravagante... quanto me alegra vêl-a!
Electra
É muito meu amigo, D. Leonardo? Não imagina como eu gosto de que me estimem!
Cuesta
Mas precisamos tambem de ter mais um poucochinho de proposito e d’assento n’essa cabecinha... É bom que não haja nada que se nos dizer... E a mim contaram-me—pêtas já se vê!—que fervilham os namorados...
Electra
Ah! Sim, eu já lhes perdi a conta! Mas não gosto senão d’um.
Cuesta
D’um! E quem é?
Electra
Isso... lá me parece perguntar de mais...
Cuesta
Eu conheço-o?
Electra
Se conhece!
Cuesta
Fez-lhe a sua declaração d’uma maneira decente?
Electra
Não me fez declaração nenhuma, nem me disse nada... até agora.
Cuesta
E a menina ama esse timido donzel, e julga-se correspondida?
Electra
Suspeito que me corresponde... Mas não o asseguro...
Cuesta
Tenha confiança em mim, e conte-me isso.
Electra
Agora não, que vou vestir-me.
Cuesta
Falaremos depois.
Electra
(medrosa, olhando para o fundo) Se não viesse a tia...
Cuesta
Vista-se... Ámanhã será.
Electra
Sim, ámanhã. Adeus. (Corre para a direita. Movida de uma ideia repentina dá meia volta) Antes de me vestir... (Áparte) Não resisto. Vou dar-lhe um beijo. (Sae correndo pela esquerda. Cuesta segue-a com a vista e suspira)
SCENA XII
CUESTA, URBANO E EVARISTA; depois ELECTRA
Cuesta
(reunindo e recolhendo os papeis) Que felicidade a minha, se publicamente a pudesse amar!
Evarista
(vestida para sahir) Desculpe terem-no deixado para ahi, Leonardo. Já me disse Urbano que lançamos uma grande operação.
Urbano
(entregando a Cuesta um talão) Ahi tens.
Evarista
Não me espantarei se o vir apparecer-nos com outra carga de dinheiro... Deus o dá, Deus o recebe... (Assoma Electra pela porta da esquerda. Ao vêr a tia hesita, não se atreve a atravessar. Decide-se por fim, procurando escapulir-se. Evarista segura-a) Ora não ha! Então ainda te não vestiste? D’onde vens?
Electra
Da casa de engommar. Fui á Patros para me alisar um papo...
Evarista
Gabo-te a pachorra! (Notando que sae a ponta de uma carta de uma das algibeiras do avental de Electra) Que tens aqui? (Pega na carta)
Electra
Uma carta.
Cuesta
Creancices.
Evarista
Não imagina, Cuesta, o desgosto que esta rapariga me dá com as suas travessuras, que já não são tão innocentes como isso! (Dá a carta a Urbano) Lê tu.
Cuesta
Vamos a vêr isso.
Urbano
(lendo) Senhorita—Tenho para mim que n’esse rosto feiticeiro...
Evarista
(zombando) Muito bonito! (Electra contém difficilmente o riso)
Urbano
(continúa a ler) ...que n’esse rosto feiticeiro escreveu o Supremo artifice o problema do... do... (Sem entender a palavra seguinte)
Electra
(apontando) ...do «cosmos».
Urbano
Isso mesmo: do cosmos, symbolisando em seu luminoso olhar, na sua bocca divina, o poderoso agente physico, que...
Evarista
(arrebatando a carta) Que indecencias!
Urbano
(descobrindo outra carta em outro bolso) está outra. (Pega n’ella)
Cuesta
Vejamos essa!
Evarista
Isto, Electra, não é o corpo de uma menina: é um marco postal.
Urbano
(lendo) Desapiedada Electra, com que palavras exprimirei o meu desespero, a minha loucura, o meu frenesi...?
Evarista
Basta... Isso revolta-me. (Incommodada revista as algibeiras de Electra) Apostaria que ainda ha mais.
Cuesta
Indulgencia, Evarista!
Electra
Tia, não se amofine mais...
Evarista
Que me não amofine!... A amofinação eu t’a contarei... Veste-te immediatamente.
Urbano
(consultando o relogio) É quasi a hora.
Electra
N’um momento!
Evarista
Avia-te, avia-te! (Electra, contente de se vêr solta, corre para o seu quarto)
SCENA XIII
CUESTA, URBANO, EVARISTA E PANTOJA
Evarista
(com tristeza e desalento) E então, Leonardo, que me diz a isto?
Cuesta
O socego com que deixou devassar os seus segredos demonstra bem a pouca importancia que lhes dá e que elles teem.
Evarista
Não, não é tanto assim...
Pantoja
(pelo fundo, anciado) Está o Cuesta! Já se não pode dizer o que se quer...
Evarista
(contente de vêl-o) Até que emfim, Pantoja... (Formam-se dois grupos: á esquerda Cuesta sentado, Urbano em pé; á direita, Pantoja e Evarista, sentados)
Pantoja
Venho contar-lhe coisas da maior gravidade.
Evarista
Ai de mim! seja o que Deus quizer.
Pantoja
(repetindo a phrase com reservas) Seja o que Deus quizer... está muito bem, mas queiramos tambem nós o que quer Deus, e empenhemos toda a nossa vontade em produzir o bem, por mais que nos custe!
Evarista
A sua energia fortifica a minha... Então... que ha?
Pantoja
Ha pouco, em casa de Requesens, falou-se de Electra em termos dissolutos.
Contavam que, indecorosamente envolvida por um vespeiro de namorados, ella se divertia a receber e a mandar cartas a toda a hora do dia.
Evarista
Infelizmente, Salvador, a frivolidade d’esta menina é tal que, com toda a minha ternura por ella, nem eu mesma a sei defender!
Pantoja
(angustiado) Pois saiba mais, e veja que não tem limites a maldade humana. Hontem á noite o marquez de Ronda, na tertulia da sua casa, na presença de Virginia, sua santa mulher, e de outras pessoas do maior respeito, não cessou de exaltar os encantos de Electra com expressões do mais material e repugnante mundanismo.
Evarista
Tenhamos paciencia, meu amigo.
Pantoja
Paciencia... Paciencia é uma virtude que vale muito pouco sempre que se não reforça com a resolução. Não confundamos essa virtude com o vicio da negligencia, e determinemo-nos com firmeza, minha querida amiga, a resguardar Electra da infamia do mundo, em logar onde não veja exemplos de leviandade e onde não ouça uma só palavra do contagioso impudor da sociedade em que vivemos.
Evarista
Onde respire um ambiente de pura virtude...
Pantoja
E não a perturbe o zumbido de pretendentes impudicos e infecciosos... Na critica edade da formação do caracter, em que ella está, temos nós a obrigação de livral-a do immenso perigo, do maior de todos...
Evarista
Que perigo?
Pantoja
O homem. Nada na terra peor que o homem... quando não é bom. Por mim o sei: fui o meu proprio mestre. O meu desvario, de que pela graça de Deus me curei, e depois d’isso a minha tão longa e entristecida convalescença, duramente me ensinaram a grave e delicada medicina das almas... Deixe-me, e eu lhe salvarei essa menina... (Interrompe-o Urbano, que passa para o grupo da direita)
Urbano
(dando importancia á sua revelação) Sabem o que me disse Cuesta? Que entre a cafila dos pretendentes ha um preferido. Electra mesma o confessou.
Evarista
E quem é? (Passa da direita para a esquerda, ficando á direita de Pantoja e d’Urbano)
Urbano
(a Pantoja) Isto poderia modificar os termos do problema.
Pantoja
(mal humorado) E que significa essa preferencia? É um affecto puro, ou é uma paixoneta immoderada, febril e ephemera, d’essas que constituem o mais grave symptoma da loucura do seculo? (Excitado e levantando a voz) É o que é preciso saber-se! que se saiba quem é!
Urbano
Saberemos...
Pantoja
(passando para junto de Cuesta) O snr. Cuesta não a interrogou?
Evarista
(ao centro, a Urbano) Procura tu certificar-te.
Cuesta
(enfadado, em resposta a Pantoja) Parece-me que estão os snrs. desenvolvendo um zelo excessivo e contraproducente.
Pantoja
(com uma suavidade que não encobre a sua altaneria) O meu zelo, meu muito querido D. Leonardo, é o zelo que devo ter.
Cuesta
(um tanto ferido) Eu julguei na minha qualidade de velho amigo da casa...
Pantoja
(levando Urbano comsigo para a direita) Cuesta mette-se demais com o que não é da sua conta.
Cuesta
(a Evarista sem lhe dar cuidado que Pantoja o ouça) O nosso presado snr. Pantoja é talvez demasiadamente afouto na facilidade com que penetra nas attribuições dos outros.
Evarista
(sem saber bem que explicação dar) Emfim, como nosso amigo muito antigo e leal...
Cuesta
Tambem eu o sou.
Urbano
(olhando para o fundo) Ahi está já o Marquez.
SCENA XIV
OS MESMOS E O MARQUEZ
Marquez
Em boa hora chego!
Pantoja
(áparte) Em pessima!
Marquez
(depois de saudar Evarista) E Electra?
Evarista
Vem já.
Marquez
(cortejando os outros) Já não é cêdo.
Urbano
É a hora. (Pantoja, impaciente, espera Electra á porta do seu quarto. Cuesta fala com Urbano)
SCENA XV
OS MESMOS E ELECTRA
Pantoja
(com alegria annunciando-a) Eil-a aqui. (Electra entra pela direita, muito elegantemente vestida com singeleza e distincção)
Marquez
(encomiastico) Que elegante!
Electra
(satisfeita, voltando-se para que a vejam de todos os lados) Meus senhores, que me dizem?
Cuesta
Divina!
Marquez
Ideal!
Evarista
Sim: estás bem.
Pantoja
(fastiento dos elogios tributados a Electra) Vamo-nos? (Preparam-se para sahir)
SCENA XVI
OS MESMOS E BALBINA, que interrompe bruscamente a scena, entrando pela esquerda, pressurosa e suffocada
Balbina
Minha senhora! Minha senhora! (Suspensão geral)
Todos
(menos Electra) Que é?
Balbina
Ai! o que a menina foi fazer!
Electra
(áparte, batendo o pé) Descobriram-me!
Balbina
Santo nome de Jesus!... Do que ella se havia de lembrar!... (rindo) Não, que uma coisa assim!... Em nome do Padre...
Evarista
(impaciente) Acaba...
Electra
Eu confessarei, se me deixam. Foi que...
Balbina
Foi a casa do snr. D. Maximo, e roubou-lhe... com muita graça, mas roubou...
Urbano
O quê?...
Balbina
O menino mais pequeno! (Olham todos para Electra, que promptamente se recompõe do susto e assume uma altitude serena e grave)
Evarista
(a Electra) Isto que vem a ser?
Pantoja
Electra!
Balbina
Estava o menino dormindo muito socegadinho. A senhorita e a maluca da Patros entraram pela casa dentro, ás escondidas e em bicos de pés... Embrulharam-o, muito bem embrulhado, e fugiram com elle para cá.
Evarista
É inacreditavel.
Pantoja
(reprimindo a sua irritação) E não é decente.
Electra
(com effusão) Tia! pois se nos queremos tanto, tanto d’alma!... eu a elle e elle a mim!
Marquez
(enthusiasmado) Que exemplar mulher!
Cuesta
Merece todo o perdão.
Evarista
Maximo estará furioso a estas horas...
Balbina
O José já para lá foi a correr...
Urbano
E a creança onde está?
Balbina
Está no quarto da Patros. A menina escondeu-o lá até que ella de noite lh’o leve para dormir com a menina. (Sorrisos dos homens, menos de Pantoja) O menino acordou ha um momento, e a Patros quiz dar-lhe um biscouto para o entreter... Eu, que o ouço, acudo, e vejo-o... Virgem Maria! Quiz pegar n’elle... Qual! estrebuchou e bateu-me... Tive de lhe dar uma palmadinha tambem...
Electra
(correndo para a esquerda com um impulso instinctivo) Oh! meu querido amorsinho!
Pantoja
(procurando contel-a) Não.
Evarista
(segurando-a por um braço) Espera.
Balbina
(á porta da esquerda) Ainda se ouve chorar.
Electra