Sala sumptuosa no palacio dos senhores de Garcia Yuste. Á direita, sahida para o jardim. Ao fundo, communicação para outras salas do palacio. Á direita, no primeiro plano, porta dos quartos d’Electra.
SCENA I
MARQUEZ E JOSÉ
José
Estão no jardim... Vou dar parte.
Marquez
Espera lá. É esta a primeira visita que faço aos senhores de Garcia Yuste no seu palacio novo... Deixa-me dar uma vista d’olhos... Está n’um grande pé... Bem hajam os que tão bem empregam o seu dinheiro! Porque não é sómente o seu estado de casa, é o bem que fazem, o generosos que são em obras pias...
José
Oh! lá isso...!
Marquez
E tão mettidos comsigo! tanto da paz e do socego do lar!... Ainda que, segundo cuido, ha novidade agora na familia...
José
Novidade? Ah! já sei... Quer o snr. Marquez referir-se...
Marquez
Escuta, José! Promettes fazer o que eu te peça?
José
Já o snr. Marquez sabe que eu me não esqueço nunca dos quatorze annos que servi na sua casa... O snr. Marquez manda, não pergunta.
Marquez
Pois venho cá de proposito para conhecer essa interessante senhorita, que os teus amos trouxeram agora d’um collegio de França...
José
A senhorita Electra.
Marquez
Podes dizer-me se os senhores estão contentes com essa nova sobrinha? É pessôa amoravel, agradecida?
José
Oh! n’esse particular!... Os senhores morrem por ella... Sómente...
Marquez
Quê?
José
A menina é travessasita...
Marquez
A edade!
José
Brincalhôna, oh! mas brincalhôna, que se não faz uma ideia...
Marquez
Mas diz que é linda, que é um anjo...
José
Um anjo sim, se ha anjos parecidos com mafarricos... É que nos põe o sal na moleira a todos cá de casa!
Marquez
Estou morto por conhecêl-a!
José
No jardim a encontra o snr. Marquez. É lá que passa as manhãs pondo em redemoinho tudo.
Marquez
(olhando para o jardim) Lindo jardim, bello parque, as velhas arvores do antigo palacio das Gravelinas...
José
É exacto.
Marquez
O grande predio, ao fundo da alameda, é tambem dos senhores de Yuste?
José
Tambem. Com entrada pelo jardim e pela rua. Em baixo tem o seu laboratorio o sobrinho dos patrões, o senhorito Maximo, primeiro dos trunfos de Hispanha nas mathematicas, e... na outra coisa... na...
Marquez
Bem sei... Chamam-lhe o Magico prodigioso... Conheci-o em Londres... ainda a mulher d’elle era viva.
José
Morreu em fevereiro do anno passado... e deixou-lhe dois filhos, dois amores!
Marquez
Ultimamente renovei com elle o meu antigo conhecimento, e, apesar de nos não visitarmos, por certos motivos, somos muito amigos.
José
Tambem eu gósto d’elle. Optimo sujeito...!
Marquez
E outra coisa: não estão arrependidos os teus amos de terem mettido em casa esse diabretesito?
José
(receoso de que venha gente) Eu direi a V. Ex.ª... Tenho notado... (Vê vir D. Urbano pelo jardim) Ahi vem o senhor.
Marquez
Põe-te a andar.
SCENA II
MARQUEZ E D. URBANO
Marquez
(abrindo-lhe os braços) Querido Urbano!
Urbano
Marquez! ditosos olhos!...
Marquez
E Evarista?
Urbano
Bem... Sómente extranhando muito as grandes ausencias do marquez de Ronda...
Marquez
Oh! você não imagina o inverno que passámos...
Urbano
E Virginia?
Marquez
Assim, assim... Sempre achacada, mas reagindo constantemente pela força de uma vontade tenaz, cabeçuda lhe chamarei.
Urbano
Pois ainda bem! ainda bem!... Com quê... quer que desçamos ao jardim?
Marquez
Vamos já! Deixe-me tomar assento, pouco a pouco, na sua casa nova... (Senta-se) E conte-me lá, querido, conte-me d’essa menina encantada, que foram buscar ao collegio.
Urbano
Não, não estava já no collegio. Tinha ido para Hendaya, para uns parentes da mãe. Eu nunca fui muito da opinião de a trazer para cá. Mas Evarista emprehendeu n’isso... Quer sondar o caracter da pequena, apurar se d’ella se poderá fazer uma mulher em termos, ou se nos estará destinada a vergonha de a vêr herdar as tendencias da mãe... Você sabe que era uma prima irmã de minha mulher; e escuso de lhe lembrar os escandalos que deu essa Eleuteria desde o anno de 80 a 85.
Marquez
Nem me fale n’isso!
Urbano
Emfim, foi a ponto de que a familia, vexada, rompeu com ella de todo e para sempre! Esta menina, agora, cujo pae se não sabe quem seja, criou-se com a mãe até os cinco annos. Depois levaram-a para as Ursulinas de Bayona. Lá, ou por abreviar ou pelo que fosse, puzeram-lhe esse nome, exquisito e novo, de Electra.
Marquez
Novo, propriamente, não. Á pobre mãe—coitadita—Eleuteria Dias, todos nós, os intimos da casa, lhe chamavamos tambem Electra, em parte talvez por abreviatura, e em parte porque ao pae, militar valente mas assignaladamente desditoso na vida conjugal, tinham posto a alcunha de Agamemnon.
Urbano
D’essa não sabia... Tambem nunca vivi com elles. Eleuteria, pela fama que tinha, figurava-se-me uma creatura repugnante...
Marquez
Por amor de Deus, querido Urbano, não sejamos pharisaicos... Lembre-se que Eleuteria—a quem chamaremos Electra I—mudou de vida, ahi por 88...
Urbano
E não deu pouco que falar esse arrependimento tambem. Lá foi morrer a S. João da Penitencia, em 95, regenerada, abominando a monstruosa libertinagem da sua vida...
Marquez
(como quem lhe reprehende o rigorismo) Deus lhe perdoou...
Urbano
Sim, sim... perdão, esquecimento...
Marquez
E tratam então agora de tentear Electra II a vêr se inclinará para bem ou se lhe dará para mal... Que resultado vão dando as provas?
Urbano
Resultados obscuros, contradictorios, variaveis de dia para dia, de hora para hora. Ha momentos em que ella nos revela qualidades sublimes, mal encobertas pela sua innocencia; outros, em que nos apparece como a creatura mais doida a quem Deus deu licença de vir ao mundo. Tão depressa encanta pela sua candura angelica como aterra a gente pelas diabolicas subtilezas que desfia da sua propria ignorancia.
Marquez
Natural desequilibrio da edade, excesso de imaginação, talvez. É esperta?
Urbano
Como a electricidade em pessoa, mysteriosa, repentista, de grande tino. Destroe, transtorna, perturba, illumina.
Marquez
(levantando-se) Fervo em curiosidade. Vamos vêl-a.
SCENA III
MARQUEZ, URBANO, CUESTA, pelo fundo
Cuesta
(entra com mostras de cançaço, tira do bolso a carteira de negocios, e dirige-se á mesa) Marquez... Tudo bom por cá?
Marquez
Oh! grande Cuesta! que nos conta o nosso incançavel agente?
Cuesta
(senta-se. Revela um padecimento de coração) O incançavel... começa a cançar.
Urbano
Homem! e que me dizes da alta d’hontem no Amortisavel?
Cuesta
Veio de Paris com dois inteiros.
Urbano
Fizeste a nossa liquidação?
Marquez
E a minha?
Cuesta
Estou com isso... (Tira papeis da carteira e escreve a lapis) N’um instante saberão as cifras exactas. Tirou-se todo o partido que se podia tirar da conversão.
Marquez
Naturalmente... Sendo o typo de emissão dos novos valores 79,50... tendo nós comprado por preço muito baixo o papel recolhido...
Urbano
Naturalmente...
Cuesta
O resultado foi enorme.
Marquez
Querido Urbano, esta facilidade com que se enriquece é positivo que dá o amor da vida e o enthusiasmo da belleza humana. Vamos para o jardim.
Urbano
(a Cuesta) Vens?
Cuesta
Preciso de dez minutos de silencio para pôr em ordem os meus apontamentos.
Urbano
Deixamos-te em socego. Não queres nada?
Cuesta
(abstrahido nas suas contas) Não... quero dizer... Sim: manda-me vir um copo de agoa. Estou abrasado.
Urbano
Immediatamente. (Sae com o Marquez para o jardim)
SCENA IV
CUESTA E PATROS
Cuesta
(corrigindo as suas notas) Ah! cá está o erro. Aos de Yuste toca... um milhão e seiscentas mil pezetas. Ao marquez de Ronda, duzentas e vinte e duas mil... Temos que descontar as doze mil e tanto, equivalentes aos nove mil francos... (Entra Patros com copos d’agoa, caramellos e cognac. Espera que Cuesta termine a sua conta)
Patros
Ponho aqui, D. Leonardo?
Cuesta
Põe e espera um instante... Um milhão e oitocentos... com os seiscentos e dez... fazem... claro! está certo. Bem bom! bem bom!... Com que então, Patros... (tira do bolso dinheiro, que lhe dá) Toma lá!
Patros
Muito obrigado!
Cuesta
E já te aviso que espero de ti um favôr...
Patros
Dirá, D. Leonardo.
Cuesta
Pois, minha amiga... (remechendo um caramello) Escuta...
Patros
Não quer cognac?... Se vem cançado, a agoa só pode fazer-lhe mal.
Cuesta
Sim: deita um poucochito... Pois o que eu quereria...—Não vás pôr malicia no que a não tem: sentido!—o que eu quereria era falar alguns momentos, a sós, com a senhorita Electra. Conhecendo-me como me conheces, comprehenderás de certo que o meu fim é o mais honrado e o mais digno... Mas sempre t’o digo para te tirar todo o escrupulo... (Recolhe os papeis) Antes que venha alguem, poderás dizer-me que occasião e que logar será melhor?
Patros
Para dizer duas palavras á senhorita Electra... (meditando) terá de ser então quando os senhores estiverem com o procurador... Eu verei.
Cuesta
Se pudesse ser hoje, melhor.
Patros
Ainda cá volta hoje?
Cuesta
Volto. Avisa-me.
Patros
Esteja certo. (Recolhe o serviço e sae)
SCENA V
CUESTA E PANTOJA, que entra em scena meditabundo, abstraído, todo vestido de preto
Cuesta
Amigo Pantoja, salve-o Deus! Como vamos?
Pantoja
(suspira) Vivendo, amigo, que é o mesmo que dizer: esperando.
Cuesta
Esperando melhor vida...
Pantoja
Padecendo n’esta o que Deus determine para merecer a outra.
Cuesta
E de saude que tal?
Pantoja
Mal e bem. Mal, porque me affligem desgostos e achaques; bem, porque me apraz a dôr, e me regosija o soffrimento. (Inquieto, e como dominado por uma ideia fixa, olha para o jardim)
Cuesta
Que ascetico vem hoje!
Pantoja
Olhe que cabecinha de vento a d’aquella Electra...! Lá vae ella de corrida com os pequenos do porteiro, com os dois filhos do Maximo, e ainda com filhos dos visinhos. Quando a deixam n’aquellas travessuras de creança é que ella é feliz.
Cuesta
Adoravel creaturinha! Que Deus a fade bem, para ser uma mulher como se quer!
Pantoja
D’aquella graciosa boneca, d’aquella voluvel menina facilmente se poderia tirar um anjo; da mulher que ella ha de ser, não sei.
Cuesta
Não o entendo bem, amigo Pantoja.
Pantoja
Entendo-me eu... Olhe, olhe como brincam... (Assustado) Deus de misericordia! quem é que vae com ella?... Não é o marquez de Ronda?
Cuesta
Elle mesmo.
Pantoja
Que corrupto homem! Tenorio da geração passada não se decide a jubilar-se para não dar um desgosto a Satanaz!
Cuesta
Para que mais uma vez se possa dizer que não ha paraizo sem serpente...
Pantoja
Para isso não! serpente já tinhamos. (Passeia nervoso e displicente pela sala)
Cuesta
E diga-me, passando a outra coisa: teve já noticia do dinheirão que lhes trouxe?
Pantoja
(sem prestar grande attenção e fixando-se n’outra ideia que não formúla) Ah! sim, já... Ganhou-se muito.
Cuesta
Evarista completará agora a sua grande obra religiosa.
Pantoja
(maquinalmente) Sim.
Cuesta
E poderá o amigo Pantoja consagrar muito maiores recursos a S. José da Penitencia.
Pantoja
Sim... (Voltando á sua ideia fixa) Serpente já tinhamos... Que dizia, amigo Cuesta?
Cuesta
Dizia eu...
Pantoja
Desculpe interrompel-o... Sabe se sempre é certo que o nosso visinho de defronte, o nosso maravilhoso sábio, inventor e quasi thaumaturgo, projecte mudar de casa?
Cuesta
Quem? Maximo? Acho que sim... Parece que em Bilbau e em Barcelona acolhem com enthusiasmo os seus admiraveis estudos para novas applicações da electricidade; e lhe offerecem todos os capitaes que elle queira para proseguir nas experiencias que encetou.
Pantoja
(meditativo) Oh! capitaes eu lh’os daria tambem, comtanto que...
SCENA VI
PANTOJA, CUESTA, EVARISTA, URBANO E O MARQUEZ, que veem do jardim
Evarista
(soltando o braço do Marquez) Bons dias, Cuesta. Pantoja, quanto estimo vêl-o! (Cuesta e Pantoja inclinam-se e beijam-lhe respeitosamente a mão. A senhora de Yuste senta-se á direita; o Marquez em pé ao lado d’ella. Os outros agrupam-se á esquerda falando de negocios.)
Marquez
(reatando com Evarista uma conversação interrompida) Por este andar a minha boa amiga não sómente passa á Historia mas passa a figurar tambem no Anno Christão.
Evarista
Não me gabe por coisas em que não ha merecimento nenhum, Marquez... Não temos filhos: Deus cumula-nos de riqueza. Temos em cada anno uma herança. Sem trabalho nenhum—nem, sequer o de discorrer—o excesso dos nossos rendimentos, habilmente manejados pelo amigo Cuesta, capitalisa-se sem darmos por isso, e cria novas fontes de dinheiro. Se compramos uma quinta, a subida dos productos triplica n’esse mesmo anno o valor da terra. Se ficamos senhores de um baldio inteiramente sáfaro, acontece que no subsolo se descobre um jazigo immenso de carvão, de ferro ou de chumbo... Que quer dizer tudo isto?
Marquez
Quer dizer—acho eu—que quando Deus multiplica tantas riquezas sobre quem nem as deseja nem as estima, bem claramente elle está indicando que as concede para que sejam empregadas em servil-o.
Evarista
É claro. Interpretando-o tambem assim, eu apresso-me a cumprir a vontade de Deus. O dinheiro que Cuesta nos veio hoje trazer apenas me passará pelas mãos, e com elle completarei a somma de sete milhões consagrados á obra do Santo Patrocinio. E mais farei para que a casa e o collegio de Madrid tenham o decoro e a magnificencia adequada a um tão grande instituto. Desenvolveremos tambem as obras do collegio de Valencia e do de Cadiz...
Pantoja
(passando para o grupo da direita) Sem esquecer, minha senhora, a casa dos altos estudos, a sua escola de instrucção superior, que virá a ser o santuario da verdadeira Sciencia.
Evarista
Bem sabe que é esse o meu constante pensamento.
Urbano
(passando tambem para a direita) N’isso se pensa n’esta casa de noite e de dia.
Marquez
Admiravel, minha querida amiga, admiravel! (Levanta-se)
Evarista
(a Cuesta, que igualmente tem passado para a direita) E agora, amigo Leonardo, que vamos fazer?
Cuesta
(sentando-se ao lado de Evarista, a quem propõe novas operações) Por hoje nos limitaremos a metter algum dinheiro...
(Pantoja, em pé, colloca-se á esquerda de Evarista)
Marquez
(passeando na scena com Urbano) Ha de permittir, querido Urbano, que, proclamando os merecimentos sublimes da senhora de Garcia Yuste, eu não deite em sacco roto os nossos: falo da minha mulher e de mim. Saberá que Virginia já fez a caridade de transferir para as Escravas de Jesus um bom terço da nossa fortuna...
Urbano
Das mais solidas da Andaluzia.
Marquez
E por nosso testamento deixamos tudo a essas senhoras, menos a parte destinada a certos encargos e aos parentes pobres.
Urbano
Ora vejam lá!... Mas, segundo me constou, o Marquez aqui ha annos parece que não via com enthusiasmo illimitado que a piedade da marqueza, minha senhora, se tornasse tão angelicamente dispendiosa...
Marquez
É certo... mas converti-me. Abjurei todos os meus erros. A minha mulher catechisou-me.
Urbano
Exactissimamente o que me succedeu a mim. Evarista virou-me com o forro de santo para fóra.
Marquez
Para conservar a paz e estabelecer a harmonia conjugal, principiei por contemporisar, continuei contemporisando... Pois, meu amiguinho, contemporisação foi ella que, a pouco e pouco, cheguei ao que se vê: Sou um escravo... das Escravas de Jesus! E não me arrependo. Vivo n’uma placidez beatifica, curado de todas as inquietações da minha vida. E estou já agora a convencer-me de uma coisa: é que a minha mulher não sómente salva a sua alma, mas que me salva a minha tambem!
Urbano
Pois é o que eu egualmente recommendo cá em casa: que não se esqueçam, podendo tambem ser, de me salvar a mim!
Marquez
Nós, homens, não temos iniciativa para nada.
Urbano
Absolutamente para nada!
Marquez
Verdade seja que ás vezes até o que se chama respirar nos prohibem!
Urbano
Prohibida a respiração... Conheço!
Marquez
Mas vivemos em paz.
Urbano
E servimos a Deus sem esforço nenhum. Isso é que é.
Marquez
As nossas mulheres lá vão adeante de nós, por esse bemdito caminho da eternidade, pela gloria fóra; e podemos estar socegados, que nos não deixam na estrada.
Urbano
Pois! é a sua obrigação.
Evarista
Urbano?...
Urbano
(acudindo pressuroso) Menina...
Evarista
Põe-te á disposição de Cuesta para a liquidação e para a entrega aos padres.
Urbano
Hoje mesmo. (Cuesta levanta-se)
Evarista
E outra coisa: faze-me favor de chegar ao jardim, e dizer a Electra que tem já tres horas de brincadeira.
Pantoja
(imperioso) Que se venha embora. É brincar de mais.
Urbano
Vou já. (Vendo vir Electra) Ella ahi vem.
SCENA VII
ELECTRA, atraz d’ella MAXIMO
Electra
(Entra a correr e a rir, perseguida por Maximo, a quem ganhou na corrida. O seu riso é de medo infantil) Bem feito, que não me pilhas!... Enraivece-te, brutamontes!
Maximo
(traz em uma das mãos varios objectos que indicará, e na outra um ramo de choupo, que esgrime como um chicote) Eu te digo se te pilho ou não, selvagem!
Electra
(sem fazer caso dos que estão em scena, corre a casa com infantil ligeiresa e vae refugiar-se no vestido de D. Evarista, ajoelhando-se-lhe aos pés e abraçando-a pela cinta) Estou salva!... Tia, ponha-o fóra!
Maximo
Ah! já foges! já tens medo, minha menina!
Evarista
Mas, filha da minh’alma! quando é que terás modos de senhora? E tu, Maximo, és tão creança como ella.
Maximo
(mostrando as coisas que traz) Vejam o que esse demonico me fez. Quebrou-me estes dois tubos... E olhem o estado em que poz estes papeis, contendo calculos que representam um trabalho enorme. (Mostra os papeis suspendendo-os de alto) D’este fez uma passarola; este deu-o aos pequenos para pintarem elephantes, burros e um couraçado a atirar balas a um castello...
Pantoja
Então ella foi ao laboratorio?
Maximo
E revolucionou os pequenos... Revolveram-me tudo!
Pantoja
(com severidade) Isso, menina...
Evarista
Electra!
Marquez
(enthusiasmado) Electra! Encanto de menina grande! Bemditas travessuras!
Electra
Eu não lhe quebrei os tubos. Não ha tal! Foi Pepito que lhe fez esse obsequio. Os papeis, sim senhor; fui eu que peguei n’elles, imaginando que não serviam para nada com os hediondos esgaravunhos que tinham.
Cuesta
Basta! haja pazes!
Maximo
Pois vá lá, por esta vez... (a Electra) Perdôo-te. Deves-me a vida... Toma lá. (Entrega-lhe a chibata; Electra recebe-a, e bate-lhe brandamente)
Electra
Toma agora tu! Esta é pelo que me disseste. (Batendo-lhe com mais força) Esta agora pelo que não quizeste dizer-me.
Maximo
Disse-te tudo.
Pantoja
Moderação! juizo!
Evarista
Que te disse elle?
Maximo
Disse-lhe verdades uteis... Que aprenda por si mesma o muito que ainda ignora; que abra bem abertos esses grandes olhos e que os estenda pela vida humana, para que veja que nem tudo é alegria, que ha tambem no mundo deveres, desenganos e sacrificios...
Electra
Chega o lobishomem! (Occupa o centro da scena, onde todos a rodeiam, menos Pantoja, que se colloca ao lado d’Evarista)
Cuesta
Nem tudo applausos!
Urbano
A severidade é precisa.
Maximo
Em severidade ninguem me ganha... Dize: é ou não é verdade que sou severo, e que tu m’o agradeces? Confessa que me agradeces!
Electra
(batendo-lhe de leve) Peste de sábio! Se isto fôsse um açoite verdadeiro, ainda com mais alma te batia.
Marquez
(risonho e encarinhado) Electra, veja se me bate em mim tambem... Faça-me essa esmola!
Electra
Em si não, porque não tenho confiança... Só se fôr muito de levesinho... assim... assim... assim... (Toca levemente no Marquez, em Cuesta e em Urbano)
Evarista
Melhor seria que tocasses piano para esses senhores ouvirem.
Maximo
Quê, se não estuda nada! Só uma coisa se póde comparar á sua grande disposição artistica, é o seu espantoso desapego de todas as artes.
Cuesta
Que nos mostre as aquarellas e os desenhos. O Marquez vae vêr. (Juntam-se todos em volta da meza, menos Evarista e Pantoja, que conversam áparte)
Electra
Ahi sim senhor! (Procurando a pasta de desenhos entre os livros e as revistas que estão na mesa) Agora se vae vêr se sou ou se não sou uma artista!
Maximo
Forte gabarola!
Electra
(desatando as fitas da pasta) Pois sim! tu a desfazeres e eu a augmentar-me veremos quem póde mais. Ora aqui está, e pasmem! (Mostrando os desenhos) Que teem que dizer a estes portentosos esboços de paizagem, de figura, de animaes? a estas vaccas que parecem pessoas? a estas naturezas mortas que parecem vivas? a estes rochedos que só lhes falta fallarem?! (Todos se extasiam no exame dos desenhos, que passam de mão em mão)
Evarista
(tendo desviado a attenção do grupo do centro, entabolou conversa intima com Pantoja) Tem razão, Salvador. Quando é que a não tem? Agora, no caso de Electra, o seu argumento é um clarão que nos illumina a todos.
Pantoja
Não vá crêr que seja a minha pobre intelligencia que projecta essa luz. Ella é apenas o resplendor de um fogo intenso que tenho em mim: a vontade! Por meio d’esta força, que devo a Deus, esmaguei o meu orgulho e emendei os meus erros.
Evarista
Depois da confidencia que hontem á noite me fez é indiscutivel para mim o seu direito de intervir na educação d’essa cabeça de vento...
Pantoja
Para lhe ensinar o caminho da vida, para lhe mostrar o alto fito da nossa misera existencia na terra...
Evarista
E esse direito que indubitavelmente lhe cabe, implica deveres inilludiveis...
Pantoja
Quanto lhe agradeço que tão perfeitaimente o comprehenda, minha senhora e amiga da minha alma! Eu receava que a minha confidencia d’hontem, historia funesta que reveste de negro os melhores annos da minha vida, me tivesse feito decaír da sua estima!
Evarista
Não, meu amigo. Quem é que dentro da humanidade se póde considerar liberto da fraqueza humana? Em si o peccador regenerou-se, castigando a vida com as mortificações do arrependimento, e dignificando-a com a pratica da virtude.
Pantoja
A divina tristeza, o amor da solidão, o convicto desprezo de todas as vaidades do mundo foram a salvação da minha alma. Pois bem: eu não estaria completamente purificado perante a minha consciencia se n’esta occasião não interviesse nos negocios da terra para salvar dos seus perigos a angelica innocencia d’essa menina, fatalmente destinada, se lhe não acudirmos, a precipitar-se pelo caminho em que se perdeu a sua desgraçada mãe.
Evarista
A minha opinião é que fale com ella...
Pantoja
A sós.
Evarista
Assim o entendo: a sós. Faça-lhe comprehender, o mais delicadamente que possa, a especie de auctoridade que tem...
Pantoja
É todo o meu desejo esse... (Continuam em voz baixa)
Electra
(no grupo do centro disputando com Maximo) Deixa-te de sentenças, que tu d’isto não sabes nada! Então não querem vêr com a que elle se sae? que o passaro parece um velho pensativo, e que a mulher faz lembrar uma lagosta desmaiada...
Marquez
Não senhor... Eu acho que está muito bem feito!
Maximo
Ás vezes tambem lhe dá para ahi! Quando menos pensa saem-lhe coisas prodigiosamente exactas.
Cuesta
É certo que estas velhas arvores, atravez das quaes se descobre uma triste faixa de mar, ao longe...
Electra
A minha especialidade aposto que ainda nenhum adivinhou qual é?... Pois são os troncos velhos, são os carcomidos muros em ruina. É singular que só pinto bem aquillo que não conheço: a tristeza, o passado, o môrto! A grande luminosidade radeante da alegria, da mocidade, não me sae! (Com pena e assombro) Sou uma grande artista para tudo que não sou eu!
Urbano
Tem graça.
Cuesta
Esta menina é optima!
Marquez
É scintillante!
Maximo
Esperemos que lhe venha a reflexão tambem... a seu tempo...
Electra
(zombando de Maximo) A reflexão! a gravidade! o tempo que ha de vir!... É a sombra que sempre me deita este cipreste!... Ora fica sabendo que eu hei de ter tudo isso quando me dér para ahi... e mais do que tu, meu sabichão!
Maximo
Veremos... veremos isso quando te chegar a vez!
Pantoja
(que não tem dado attenção ao que se passa no grupo) Não posso occultar-lhe, minha senhora, que me desagrada muito a familiaridade de Electra com o sobrinho do seu marido.
Evarista
Ha de se lhe corrigir. Mas no emtanto sempre tenha você em conta que este Maximo, que ahi vê, é um homem perfeitamente de bem e raramente serio...
Pantoja
Bem sei, minha amiga... Mas nos desfiladeiros da confiança excessiva resvalam os mais solidos e os mais firmes; uma triste experiencia m’o ensinou a mim!
Electra
(no grupo do centro) Eu hei de tomar todo o juizo que eu quizer quando elle me fôr preciso. Ninguem se põe serio emquanto Deus não manda. Ninguem diz ai ai senão quando alguma coisa lhe doe.
Marquez
Lá isso é verdade!
Cuesta
Um dia aprenderá a ser pratica.
Electra
De certo que sim! No dia em que venha Deus e me diga: «Menina: aqui tens a dôr, a duvida, a responsabilidade, o dever...»
Maximo
E breve o dirá!...
Electra
Para que eu lhe responda!
Evarista
Electra, minha filha, não disparates.
Electra
Tia, é este Maximo... (passa para o lado de Evarista)
Urbano
O Maximo tem razão...
Cuesta
Certamente que sim. (Cuesta e Urbano passam tambem para o lado de Evarista e de Pantoja, ficando sós á esquerda Maximo e o Marquez)
Maximo
Então, Marquez, qual é o resultado da sua primeira observação?
Marquez
Encantou-me a rapariga. Vejo que você não exagerava nada.
Maximo
E por baixo do fascinante encanto d’essa innocencia não pôde a sua penetração descobrir alguma coisa...
Marquez
Ah! sim... belleza moral, juizo pratico... Ainda não tive tempo para isso... Continúo a observar...
Maximo
É que eu—você sabe—consagrado ao estudo desde muito moço, mal conheço o mundo, e os caracteres humanos são para mim uma escripta em que apenas soletro.
Marquez
Pois esse, meu amigo, é o unico dos livros em que eu leio de cadeira.
Maximo
Quer vir a minha casa?
Marquez
Com muito gosto. É possivel que minha mulher me reprehenda se souber que eu visito uma officina de electrotechnia, uma escandalosa fabrica de luz. Mas não será de uma severidade que eu não aguente. Posso aventurar-me... Voltarei depois aqui, e com o pretexto de admirar a menina ao piano falarei com ella e proseguirei os meus estudos.
Maximo
(alto) Vem, Marquez?
Urbano
Então assim nos deixam?
Marquez
Vamos vêr o laboratorio do nosso amigo.
Evarista
Marquez, estou muito sentida, mas muito, pela sua longa ausencia. Quererá descarregar-se de tantos peccados velhos almoçando hoje comnosco? É o seu castigo...
Marquez
Acceito-o em desconto da minha culpa e beijo a mão que tão docemente me corrige.
Evarista
Maximo, tu vens tambem.
Maximo
Se me deixarem livre, virei, de certo.
Electra
Não venhas, homem de Deus, não venhas! (Com alegria que não dissimula) Vens? Dize que sim! (Corrigindo-se) Não, não: dize que não.
Maximo
Descança que te não livras de mim! Á força has de ganhar juizo...
Electra
E has de perdêl-o tu, caturra velho! (Segue-o com a vista até que sae. Saem Maximo e o Marquez pelo jardim. José entra pelo fundo)
SCENA VIII
ELECTRA, EVARISTA, URBANO, PANTOJA, CUESTA E JOSÉ
José
(annunciando) A senhora Superiora de S. José da Penitencia.
Pantoja
Ah! a nossa bôa soror Barbara da Cruz...
Evarista
Que entre para aqui. (Levanta-se) Espera! Iremos recebêl-a ao salão.
Pantoja
Feliz opportunidade! escuso de ir ao convento.
Evarista
Electra, estudar. (Indica-lhe a sala proxima)
Cuesta
(despedindo-se) Eu saio e volto logo.
Evarista
Adeus.
Cuesta
(áparte, referindo-se a Electra) Deixam-a só?
Pantoja
(a Electra) Menina! Cultive com esmero a grande arte sagrada. Applique todo o seu talento ao estudo de Bach... para que se compenetre do admiravel estylo religioso. (Saem todos menos Electra)
SCENA IX
ELECTRA, pouco depois CUESTA
Electra
(entoando uma psalmodia de egreja, reune os desenhos e recolhe-os nas suas pastas) Bach... para que me compenetre do estylo religioso... é bom!... É bom, e é engraçado. (Canta)
Cuesta
(entra pelo fundo, recatando-se) Só...!
Electra
(canta algumas notas liturgicas. Vendo Cuesta) Oh! D. Leonardo...! Cuidei que tinha sahido...
Cuesta
(com timidez) Sahi mas voltei, minha querida menina. Preciso muito de lhe falar.
Electra
(um poucochinho assustada) A mim!
Cuesta
É um assumpto delicado, extremamente delicado... (Com fadiga e difficuldade em respirar) Perdoe-me. Padeço do coração... não posso estar de pé. (Electra chega-lhe uma cadeira. Senta-se) Tão delicado este assumpto, que não sei por onde comece...
Electra
Deus meu, que é?
Cuesta
(animando-se) Electra, eu conheci sua mãe.
Electra
Ah! a minha mãe foi bem desgraçada...
Cuesta
Que entende a menina por ser desgraçada?
Electra
Eu... entendo que viveu entre pessoas que a não deixaram ser tão bôa como ella queria.
Cuesta
Ahi está uma profunda verdade que, sem querer, a menina disse... Lembra-se da sua mãe?... Pensa algumas vezes n’ella?...
Electra
A minha mãe é para mim uma recordação, vaga sim, mas de uma doçura incomparavel... uma querida imagem que nunca me abandona... Guardo-a viva no meu coração, que não é mais que uma grande memoria, no fundo da qual a procuram sempre os meus olhos anciosos de vêl-a. Minha pobre mamãsinha! (Leva o lenço aos olhos. Cuesta suspira) Diga-me, D. Leonardo, quando você conheceu minha mãe era eu muito pequenina...
Cuesta
Era um miminho. Faziamos-lhe cócegas para a vêr rir... o seu riso parecia-me o encanto da natureza, a alegria do universo.
Electra
Ahi está, D. Leonardo, ahi está porque eu sahi tão doida, tão travêssa, tão desparafusada... você alguma vez me teria pegado ao collo...
Cuesta
Innumeraveis vezes.
Electra
(sorrindo sem ter acabado de enxugar as lagrimas) E eu não lhe puxava pelos bigodes?
Cuesta
Ás vezes com tanta força que me fazia doer.
Electra
E de certo então me batia nas mãos...
Cuesta
Devagarinho, sim.
Electra
Pois ha de crêr que talvez que ainda me doam tambem?
Cuesta
(impaciente por entrar em materia) Mas vamos ao caso... E antes de mais nada a advirto, minha querida Electra, que é muito reservado o que lhe vou dizer... para nós ambos unicamente.
Electra
Mette-me medo...
Cuesta
Não, não é uma coisa que assuste... Veja em mim a menina um amigo, o melhor de todos os seus amigos; veja n’este acto o interesse mais puro e o mais elevado sentimento...
Electra
(confusa) Sim, não duvído, mas...
Cuesta
Eis aqui porque dou este passo... Com quanto não seja ainda muito velho, não me sinto com corda para longo tempo de vida. Viuvo ha vinte annos, não tenho mais familia que a minha filha Pilar, já casada e longe. Estou quasi só n’este mundo, tenho o pé no estribo para marchar para o outro... E a minha solidão, ai! parece empurrar-me e dar-me pressa... (Com grande difficuldade de expressão) Mas antes de partir... (Pausa) Electra, quanto pensei em si antes de a trazerem para Madrid!... E desde que chegou, Deus meu, senti—como lh’o direi?... Imagine o mais profundo, o mais puro affecto de um coração, envolvido nos gritos de uma consciencia...
Electra
(aturdida) Que grave coisa deve ser essa, a consciencia! A minha é, por ora, como um menino que dorme no seu berço.
Cuesta
(com tristeza) A minha é velha e memoriosa. Nem dorme, nem me deixa dormir, assignalando-me sempre, a grandes brados, os erros graves da minha vida.
Electra
Erros graves na vida... você, tão bom...
Cuesta
Bom? Sim... talvez... Bom mas peccador... Emfim deixemos os erros, tratemos dos seus resultados. Eu não quero de nenhum modo que a menina se possa achar ao desabrigo. Não tem fortuna propria, e é duvidoso que a protecção de Urbano e d’Evarista seja persistente e constante. Como havia de consentir eu que um dia se visse pobre, desamparada?
Electra
(com penosa lucta entre o seu conhecimento e a sua innocencia) Eu não sei se o entendo... não sei se devo entendel-o.
Cuesta
O mais apropositado será que me entenda, e não o diga; que acceite a minha protecção, e a não agradeça. Vão juntos o meu dever e o seu direito. Por culpa minha, Electra, não se quebrará o fio que une cada creatura na terra, com as creaturas que foram e com as que ainda vivem... E se hoje me determino a resolver este caso é porque... porque ha uns tempos me assalta o terror das mortes subitas. Meu pae e meu irmão morreram como fulminados de raio. A lesão cardiaca, destruidora da familia, sinto-a bem aqui: (indicando o coração) é um triste relogio que me conta as horas e os dias. Não posso adiar mais... Que me não colha a morte deixando abandonada no mundo a sua preciosa existencia! E concluo aqui, pedindo-lhe que tenha como assegurado na vida um bem estar modesto...
Electra
Um bem estar modesto... Eu?... para mim?
Cuesta
O sufficiente para viver n’uma decorosa independencia...
Electra
(confusa) Mas eu, que merecimentos tenho?... Perdôe-me, se não posso acabar de me convencer...
Cuesta
Mais tarde o convencimento virá.
Electra
E por que não fala n’isso a meus tios?...
Cuesta
(preoccupado) Porque... A seu tempo o saberão. Por agora ninguem mais deve ter conhecimento da resolução que tomei.
Electra
Mas...
Cuesta
(commovido, levantando-se) E agora, Electra, não quererá mal a este pobre enfermo, que tem contados os seus dias?
Electra
Querer-lhe mal!? Se é tão facil e tão doce para mim o querer bem! Mas não fale em morrer, D. Leonardo.
Cuesta
Completamente me consola saber que chorará talvez por mim...
Electra
Não faça com que eu chore já...
Cuesta
(apressando a sahida para vencer a sua commoção) E agora, minha querida filha, adeus.
Electra
Adeus... (retendo-o) E que nome lhe devo dar?
Cuesta
O de amigo me basta. Adeus. (Arranca-se para saír pelo fundo. Electra segue-o com a vista até que desappareça)
SCENA X
ELECTRA E O MARQUEZ
Electra
(meditativa) Meu Deus, que devo pensar? Aquellas meias palavras parece que ainda me dizem mais do que palavras completas. Mãesinha da minha alma!... (O marquez entra pelo jardim e adeanta-se devagar) Ah! O snr. Marquez!
Marquez
Assustei-a?
Electra
Não: surprehendeu-me apenas... Se vem para me ouvir tocar, aviso-o de que perdeu a viagem. Eu não toco hoje.
Marquez
Tanto melhor: assim fallaremos... Mal lhe sou apresentado entro em cheio na admiração das suas prendas, e, conhecida uma parte do seu caracter, vivamente desejo conhecel-a mais... Vae estranhar esta curiosidade, e julgar-me importuno...
Electra
Não acho. Eu sou curiosa tambem, e tanto que desde já me permitto fazer-lhe uma pergunta: é amigo de Maximo?
Marquez
Estimo-o e admiro-o muito... Coisa rara não é verdade?
Electra
Coisa naturalissima, me parece.
Marquez
Tão moça como é, talvez que se não dê bem conta das causas da minha amisade com o magico prodigioso... Vamos a vêr se me faço entender.
Electra
Explique-m’o bem.
Marquez
Senhorita, a sociedade que eu frequento, o circulo da minha propria familia e os habitos da minha casa produzem em mim um effeito de asphyxia, de lento ameaço apopletico. Quasi que sem dar por isso, por simples impulso instinctivo de conservação, lanço-me de vez em quando á procura de um pouco d’ar respiravel. Os meus olhos, velhos e nostalgicos, voltam-se então avidamente para a sciencia e para a natureza... Maximo, para mim, é um sanatorio.
Electra
Quer-me parecer que vou começando a entendêl-o, e á sua doença de confinado, com faltas d’ar e de vida...
Marquez
Prova de que raciocina. Devo tambem dizer-lhe que tenho por esse homem um interesse immenso.
Electra
Estima-o devidamente, admira-o pelas suas altas qualidades...
Marquez
E lastimo-o pelo seu infortunio.
Electra
(surprehendida) Maximo, desafortunado?
Marquez
Que desdita maior que a da solidão em que elle vive? A viuvez prematura submergiu-o nos estudos mais profundos e mais absorventes, que podem comprometter-lhe a saude e a vida. É um dos meus receios.
Electra
Tem os filhos, que o acompanham e a consolam... O Marquez viu-os hoje... Que lindas creaturinhas! O maior, que vae fazer agora cinco annos, é um prodigio de intelligencia. O pequenito, de dois annos, é o mais engraçado sujeitinho de todo o mundo. Eu adoro-os, sonho com elles, e gostava, por elles, de ser creada de meninos.
Marquez
O pobre Maximo, aferrado aos seus estudos, não pode attendêl-os como devia ser.
Electra
É o que eu digo tambem.
Marquez
Claro! Maximo do que precisa é de uma mulher... Aqui principiam as difficuldades e as dúvidas. Por mais que olhe e que procure, não vejo, não encontro a mulher digna de repartir a sua vida com a do grande homem.
Electra
Não a encontra, está visto, porque a não ha, não a ha. Para Maximo deve-se arranjar uma mulher, principalmente, de muito juizo...
Marquez
Primeiro que tudo, isso: de muito juizo.
Electra
O contrario de mim, que, não tenho nenhum, nenhum, nenhum!
Marquez
Não direi eu isso...
Electra
Que, ainda assim, quando lhe digo tolices e lhe chamo brutamontes, tonto e sabichão, não vá o Marquez pensar que o digo a sério. É brincadeira!
Marquez