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Electra: Drama em cinco actos cover

Electra: Drama em cinco actos

Chapter 45: SCENA VIII
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About This Book

A peça abre num salão palaciano onde visitantes e criados comentam a chegada de uma jovem sobrinha trazida de um colégio e os boatos que cercam a mãe dela, cuja vida passada marcou a família. Ao longo dos atos, conversas privadas e cenas domésticas revelam tentativas de sondar o caráter da jovem, que oscila entre candura encantadora e travessura inquietante, despertando admiração, preocupação e curiosidade nos parentes. Tramas secundárias expõem intrigas sociais, laços financeiros e relações ambíguas entre vizinhos e parentes, enquanto o drama concentra-se na tensão entre herança moral e vontade individual.

ACTO TERCEIRO

O laboratorio de Maximo. Ao fundo, occupando grande parte da parede, divisoria com revestimento de madeira na parte inferior e envidraçada para cima. Este tapamento separa a scena d’um vasto local, em que se vêem maquinas e apparelhos para a producção de energia electrica. A porta praticavel no socco divisoria communica com a rua.

Á direita, no primeiro plano, um corredor que dá passagem para o jardim dos snrs. de Garcia Yuste. No ultimo plano, uma porta de communicação com a habitação de Maximo e com a cosinha. Entre a porta e o corredor, uma estante com livros.

Á esquerda, porta de passagem para as casas em que trabalham os ajudantes. Junto a esta porta, uma estante com apparelhos de physica e objectos de uso scientifico.

Ao fundo, dos dois lados do socco de madeira, prateleiras com frascos de diversas substancias e livros. No angulo da direita um pequeno aparador.

Á esquerda da scena, a mesa do laboratorio com os objectos que no dialogo se indicam. Fazendo angulo com ella, a balança de precisão sobre um supporte de fabrica.

Ao centro pequena mesa de jantar, e quatro cadeiras.

SCENA I

MAXIMO, trabalhando n’um calculo, com grande attenção ao que está fazendo—ELECTRA em pé, arranjando os multiplos objectos que estão na meza: livros, capsulas, tubos de ensaio, etc. Veste com simplicidade caseira, e grande avental branco.

Maximo

(sem levantar os olhos do papel) Para mim, Electra, a dupla historia que me contas, esse supposto poder dos dois cavalheiros, é um facto destituido de valor positivo.

Electra

(suspirando) Deus te ouça!

Maximo

Tudo se reduz a duas paternidades platonicas sem nenhum effeito legal... até agora. O mais feio do caso é a auctoridade que quer assumir o snr. de Pantoja...

Electra

Auctoridade oppressiva, suffocante, que me tira o ar. Nem me fales n’isso, se não me queres amargurar a alegria de estar cá em casa!

Maximo

Devéras? assim te affliges?

Electra

Ainda mais: ponho-me n’esse estado singularissimo de cabeça e de nervos... Já te contei... Em certas occasiões da minha vida apodera-se de mim um desejo, fixo, fundo, absorvente, de tornar a vêr a imagem da minha pobre mãe, como a via na minha meninez... Pois sempre que se aggrava para mim a tyrannia de Pantoja, renasce o meu doloroso e invencivel anceio; e sinto a perturbação nervosa e mental que me annuncia...

Maximo

A visão da tua mãe? Isso, rapariga, não é d’um espirito rijo e são. Aprende-me a governar essa imaginação... Trabalha-me para a frente, e á má cara. O ocio é o peor de todos os perturbadores da intelligencia.

Electra

(muito animada) Cá estou seguindo á risca o que me mandaste fazer. (Pega n’uns frascos de substancias mineraes e leva-os para uma das estantes) Estes frascos para o seu logar... Emquanto penso n’isto nem penso na furia da tia logo que souber...

Maximo

(attento ao trabalho) A tia até ha de acabar por gostar... Mas deixa que tu, tambem!... Não te bastou a loucura d’hontem... raptar insidiosamente o menino... Tornas a trazer-m’o... ficas-te a embalal-o e adormecel-o, muito mais tempo que o regular... E, não contente ainda com a saturnal d’hontem, pespegas-te hoje cá em casa, e aqui andas a sargentear, para uma banda e para outra, muitissimo fresca da tua vida!... Ainda foi por Deus, que convidados para a distribuição dos premios e para o almoço em Santa Clara os tios ainda a estas horas ignorem o pulo medonho que a boneca deu da casa d’elles para a minha!

Electra

Tu é que me aconselhaste que me insubordinasse... «Insubordina-te!»

Maximo

Sim senhor: fui o instigador do delicto... E gabo-me d’isso.

Electra

A minha consciencia diz-me que não ha mal nenhum no que faço.

Maximo

Pois está bem de vêr que não ha... Foi talvez para casa de um pulha que tu vieste!... Não faltaria mais nada senão que principiasse agora a haver mal em estar alguem na minha casa!

Electra

(trabalhando sempre e falando sem se distrahir do que faz) Eu digo mais: estando tu esmagado de trabalho, só, sem creados, e estando eu para ahi, de mãos a abanar, sem ter absolutamente nada que fazer, o que pareceria mal, o que seria indecente, é que eu não viesse...

Maximo

Cuidar de mim e dos pequenos... Effectivamente, se isso não é logica, digo-te que botemos luto, porque já não ha logica no mundo!

Electra

Queridos pequerruchinhos! Toda a gente sabe que os adoro... São a minha paixão, o meu fraco... (Maximo, abstrahido n’uma conta, cessa de dar attenção ao que ouve) Chega-me a parecer... (Approxima-se da mesa levando uns livros que não estavam no seu logar)

Maximo

(vagamente) Quê?

Electra

Que nem a sua propria mãe lhes quereria tanto como eu!

Maximo

(satisfeito com o resultado do seu calculo, lendo em voz alta uma cifra) Zero, trezentos e dezoito... Fazes favor de me dar as Tabellas de resistencias... aquelle livro encarnado...

Electra

(correndo á estante da direita) Não é este?

Maximo

Mais adeante.

Electra

É verdade... que tôla!

Maximo

Fica-te muito bem,—sabes?—que em tão pouco tempo conheças todos os meus livros e os seus logares na estante...

Electra

Não dirás que te não puz tudo muito arranjadinho.

Maximo

Não; e darei graças a Deus, porque entrou finalmente n’este antro, revolto e poeirento, a limpeza e a ordem!

Electra

(desvanecida) Confessas então que não sou absolutamente, absolutamente inutil?

Maximo

(olhando com fixidez para ella) Não ha nada inutil na creação. Quem te diz a ti que te não creou Deus para altos destinos? Quem te diz que não virás a ser...

Electra

(anciosa) O quê?

Maximo

Uma alma grande, formosa e nobre, que está por hora meia afofada ainda na serradura e na estopa de uma boneca?

Electra

(com alegria) Pae do ceu, se assim fosse! (Maximo levanta-se e, na estante da esquerda, pega n’umas barras de metal, que examina) Nem me digas isso que me entonteces de alegria... Pode-se cantar?...

Maximo

Podes cantar... (Electra repete trauteando o andante de uma sonata) A boa musica é a espóra das ideias preguiçosas, que não affluem; e é o gancho que puxa pelas que estão agarradas de mais ao fundo do entendimento. Canta, companheira, canta... (Prosegue attento á sua occupação)

Electra

(á estante do fundo) Continúo coordenando isto. Os metaloides para este lado. Já os conheço pelos rotulos... Como este trabalhito entretem! Era capaz de ficar aqui todo o santo dia...

Maximo

(jovial) Camarada!

Electra

(correndo para elle) Que manda o magico?

Maximo

Eu não mando por ora. Proponho. (Pega n’um frasco que contém um metal em limalha) Se a menina magica quer collaborar commigo ha de fazer favor de me pesar trinta grammas d’este metal.

Electra

Péso.

Maximo

Sabes já pesar na balança de precisão...

Electra

Perfeitamente. Dá cá. (Alegre, contente, ao deitar o metal na capsula, admira-lhe a belleza) É lindo! Que é isto?

Maximo

É aluminio. Parece-se comtigo. Pesa pouco...

Electra

Ah! eu então?...

Maximo

Pesa pouco, mas é extremamente tenaz. (Olhando-lhe para a cara) Tu tambem?

Electra

Em coisas que eu cá sei, sou tenaz até á barbaridade, e, chegado o momento, estou certa de que o seria até ao martyrio. (Continúa pesando sem interromper a operação)

Maximo

Que coisas são essas?

Electra

Que te importa! Tu és o magico, mas eu é que magíco... commigo, ás vezes.

Maximo

(attento ao trabalho) Pesas-me depois setenta grammas de cobre. (Dá-lhe outro frasco)

Electra

O cobre então serás tu... Não: é tambem feio de mais para se parecer comtigo.

Maximo

É feio, mas util.

Electra

Compara-te antes ao ouro, que é o que vale mais.

Maximo

Nada de ditos! Estás a desmoralisar-me o laboratorio.

Electra

Dá ao menos licença de que me reveja nas qualidades do metal bonito que se parece commigo... Sou tenaz... Não me quebro... Farás favor de o dizer á tia e ao tio Urbano, que, no sermão que me prégaram esta manhã, por umas quarenta vezes me disseram que sou fragil... Fragil, eu!

Maximo

Não sabem o que dizem.

Electra

Sabem lá elles... nem o que é o aluminio, nem o que eu sou!

Maximo

Mas toma sentido, que te não equivoques no peso!

Electra

Equivocar-me eu! Pateta! Eu tenho muito mais tino do que ninguem cuida!

Maximo

Já vou vendo, já vou vendo! (Dirige-se a uma das estantes em procura d’um cadinho) A tia, quando chegar a casa, é que lhe ha de custar um pouco mais a compenetrar-se de que tenhas todo o tino que dizes...

Electra

Deus, que vê os corações, sabe se eu tenho culpa! Porque é que a tia não deixa que eu venha para cá?

Maximo

(voltando com o cadinho que escolheu) Por que tu és uma menina solteira, e as meninas solteiras não podem ficar assim em casa d’um homem só, por mais honrado e por mais digno que elle seja.

Electra

Pois, senhor, não haja dúvida que, por essa regra, estão divertidas as pobres meninas solteiras! (Termina o peso e apresenta os dois metaes pesados nas suas duas capsulas de porcelana) Aqui tens o aluminio e o cobre.

Maximo

(pegando nas capsulas) Um primor. Que limpeza de mãos... Que firmeza de pulso, e que serenidade de attenção para não fazer d’isto uma trapalhada! Estás fina.

Electra

Estou contente apenas. Quando se tem a alegria tudo corre bem.

Maximo

Ahi disse a collega uma importantissima verdade. (Verte os dois corpos no cadinho)

Electra

Isso é um cadinho, não é?

Maximo

Sim senhor, para fundirmos os dois metaes.

Electra

Para nos fundirmos tu e eu, se não pegarmos á bulha no meio do fogo... (Trauteia a sonata)

Maximo

Faze favor de chamar o Ricardo.

Electra

(correndo á porta da esquerda) Ricardo!

Maximo

Que venha tambem o Gil.

Electra

Gil! Venham ambos, que manda o mestre... não se demorem!

SCENA II

ELECTRA, MAXIMO, RICARDO E GIL, o primeiro vestido de operario, com blusa, o segundo em trage burguez, com mangas de alpaca, pena na orelha

Gil

(mostrando um calculo) Aqui está o valor obtido.

Maximo

(lê rapidamente a cifra) 0,158,073... Está errado (Seguro do que diz e com certa severidade) Não é possivel que para um diametro de cabo menor de quatro millimetros obtenhamos um circuito maior, segundo o teu calculo. A verdadeira distancia deve ser inferior a duzentos kilometros...

Gil

Não sei então... eu... (Confuso)

Maximo

Está mal. É que te distrahiste.

Electra

É que vocês, coitados, não teem... a attenção serena...

Maximo

Emquanto fazeis os calculos estaes a pensar em historias da carocha.

Electra

E a conversar, a falar de touros, de theatros, da politica... assim não fazemos nada.

Gil

Vou rectificar as operações.

Electra

E, sobretudo, muita paciencia, muita contensão, todos os cinco sentidos!... Senão tornamos á mesma.

Gil

Vou vêr isto.

Maximo

Anda lá e não te descuides (Gil sae e Maximo, virando-se para Ricardo, entrega-lhe o cadinho) Aqui tens.

Ricardo

Para fundir...

Maximo

Está preparado o forno?

Ricardo

Sim senhor.

Maximo

Mette immediatamente, e quando esteja em fusão, avisa. Com esta aleação vamos fazer um novo ensaio de conductibilidade... Espero chegar aos duzentos kilometros com perda escassissima.

Ricardo

Faz-se o ensaio hoje?

Maximo

(atormentado por uma ideia fixa) Sim, quanto antes. Não abandono este problema. (A Electra) É a minha ideia fixa, que me não deixa viver.

Electra

Ideia fixa tambem eu tenho uma, e por ella vivo. Avante!

Maximo

Avante, Electra! Avante, Ricardo!

Ricardo

Não manda mais nada, patrão?

Maximo

Que actives a fusão.

Electra

Que se fundam bem os metaes!

Ricardo

Hão de ficar os dois em um só, senhorita.

Electra

Dois n’um.

Maximo

(como preparando-se para outra occupação) Agora, minha graciosa discipula...

Electra

Agora ha de o mestre perdoar, mas tenho de ir vêr se acordaram os meninos.

Maximo

Ha quanto tempo comeram?

Electra

Ha trez quartos d’hora. Devem dormir meia hora mais. Está bem regulado assim?

Maximo

Está bem tudo o que determines.

Electra

Olha o que dizes, que estarás por tudo...

Maximo

(carinhosamente) Por tudo.

Electra

Que se fique sabendo!... Eu venho já. (Sae ligeira e cantando pela esquerda. Entra ao mesmo tempo um operario, pelo fundo)

SCENA III

MAXIMO E O OPERARIO

Maximo

Que ha?

Operario

Veio aquelle senhor, o marquez de Ronda...

Maximo

Porque não entrou?

Operario

Perguntou pelo patrão... Disse-lhe que tinha uma visita... Elle então, como pessoa da casa, logo disse: «Já sei... ha de ser a senhorita Electra... Voltarei logo».

Maximo

Porque lhe não disseste que entrasse, meu pascacio?

Operario

Como me disse que voltava...

Maximo

Pois sempre que vier, que entre, esteja que não esteja a senhorita Electra, e sobretudo estando.

Operario

Assim se fará. (Sae pelo fundo)

SCENA IV

MAXIMO E ELECTRA

Electra

(voltando do interior da casa) Dormidinhos como dois anjos... até d’aqui a meia hora...

Maximo

E os adultos não comem? não se almoça hoje n’esta casa?

Electra

Quando queiras. Está feito o almoço. (Dirige-se para o aparador, onde está a pequena baixella: talheres, toalha, guardanapos, fructeira)

Maximo

É como deve ser... Tudo a horas... assim se chega sempre ao que se quer.

Electra

(estendendo a toalha) Ao que eu quero não chegarei nunca por mais pontualidade que ponha...

Maximo

Deixa-me ajudar-te... (Vae-lhe passando os pratos, os talheres, o pão, o vinho) Chegas, sim.

Electra

Achas?

Maximo

Acho. Tão certo que chegas como que tenho uma fome de cincoenta cavallos de força.

Electra

Melhor, para que te agrade o almoço.

Maximo

A elle!

Electra

N’um minuto. (Sae)

SCENA V

MAXIMO E GIL

Maximo

Bemdita seja essa mulhersinha preciosa, que tão simples, tão instinctiva, tão ingenuamente, traz a sua grande alma inquieta, torturada e núa, a inundar de alegria e de luz este esconderijo da sciencia, transformando tão estreita aridez em tão vasto paraizo! Bemdita a que com um mero sorriso de creança vem arrancar da sua abstracção consumidora este pobre Fausto, envelhecido aos trinta e cinco annos, e dizer-lhe: «Nem só de verdades se vive!» (Interrompe-o Gil, que tem entrado um pouco antes e se approxima sem ser visto)

Gil

(satisfeito mostrando o calculo) Pronto. Creio ter achado a cifra exacta.

Maximo

(pega no papel e olha-o vagamente, sem se fixar) A exactidão!... E tambem tu pensarás que só de coisas exactas vive o homem!? Saturada de certeza, a alma insaciada appetece, mais que tudo, o que é apenas o sonho, e vôa para elle, avassalada e rendida, sem nem sequer tentar saber se é para a realidade, se para a illusão, que vôa!... Considerando bem, Gil, nada mais natural do que um equivoco de calculo.

Gil

Sim, senhor, muito facilmente se distrae uma pessoa pensando em...

Maximo

Em coisas vagas, indefinidas, aereas, vaporosamente illuminadas de côr de rosa e d’azul...

Gil

Eu, distrahido, confundi a cifra da potencial com a da resistencia... Mas já rectifiquei... Queira vêr se está bem.

Maximo

(lê) 0,318,73... (Com repentina transição para um goso expansivo) Homem! e que não estivesse! Se ainda errasses outra vez?... A exactidão dos mathematicos perdoaria, por hoje, á nossa phantasia de poetas.

Gil

Ah! a exactidão não perdôa nunca: é a tyrannia da nossa vida; opprime-nos, escravisa-nos, não nos deixa respirar.

Maximo

Essa mestra implacavel tambem algumas vezes nos sorri, nos acalenta e nos encanta. Vês essa cifra?

Gil

(contente, dizendo de memoria) 0,318,73.

Maximo

Pois sabe que nunca os maiores poetas do mundo, Virgilio ou Homero, Dante, Lope de Vega ou Calderon escreveram estrophe mais inspirada e mais poetica do que é hoje para mim a d’esses miseros numeros! É verdade que a harmonia, o encanto poetico não é n’elles que está. Está em que... Adeus, vae almoçar... Deixa-me, deixa-nos... (Afasta-o com a mão para que saia. No ponto da scena em que pode olhar para o interior da habitação) Ali é que está a imaginação, a poesia, o ideal, no fundo d’essa cosinha, onde n’este momento ondula a mais altiva e a mais virginal flôr da innocencia, da candura e da bondade humana.

SCENA VI

MAXIMO E ELECTRA

Electra

(entrando com uma terrina fumegante) Aqui está o banquete.

Maximo

A vêr o que se fez! arroz com menudilhos... O thema é digno de Lucullo.

Electra

Elogia-o sem provar: está superfino. (Senta-se) Vou-te servir. (Servindo-o)

Maximo

Não tanto.

Electra

Olha que não tens mais nada... Acho que se não deve ter mais d’uma coisa... e escolher a melhor.

Maximo

Meu Deus! o que diria a tia, se agora nos visse aqui almoçando juntos...

Electra

Um almoço feito por mim!

Maximo

Sabes que está maravilhoso o teu arroz?

Electra

Foi minha mestra, em Hendaya, uma senhora valenciana. Eu fiz um curso de arrozes. Sei-os fazer de sete maneiras differentes, todos riquissimos.

Maximo

Decididamente és todo um mundo novo.

Electra

E quem é o meu Colombo?

Maximo

Não ha Colombo que ousasse descobrir-te. Tu és um mundo que apparece.

Electra

Será talvez por eu ser um mundosito assim desconhecido, que querem metter-me no convento para me livrar do perigo de que dêem commigo. E é o que me espera...

Maximo

D’essa é bem natural que não escapes.

Electra

(assustada) Que dizes!

Maximo

Quero dizer: escapas... porque te hei de salvar eu.

Electra

Prometteste-me o teu amparo.

Maximo

E dou-t’o.

Electra

Que tencionas fazer?

Maximo

Eu te digo: o negocio é grave...

Electra

Falas com a tia, já se sabe...

Maximo

Falo com a tia...

Electra

E que lhe dizes?

Maximo

Falo com o tio...

Electra

Façamos de conta que se acabaram todos os tios com quem fazes tenção de falar. E depois?

Maximo

Depois, tendo-te provisoriamente abrigado no mais inviolavel sacrario, procederei minuciosamente ao exame e á sellecção dos noivos. E sobre este assumpto temos que conversar...

Electra

Vaes ralhar-me?

Maximo

Não: já me disseste que te enfastia esse brinquedo de bonecos vivos.

Electra

Cuidei que me distrahiriam, e cada vez me entristeciam mais!

Maximo

Nenhum d’elles te inspirou um sentimento especial, distincto do dos outros?

Electra

Nenhum!

Maximo

Declararam-se todos por escripto?

Electra

Uns por escripto; outros por meio de olhares espantosos, que nunca cheguei a comprehender bem o que quizessem exprimir, e por isso não metto estes em conta...

Maximo

Perdão: teem de entrar todos no rol: epistolares e olheiros. E aqui chegamos ao ponto sobre que devo dar-te, desde já, a minha sincera opinião: casa-te, Electra; casa-te quanto antes!

Electra

(envergonhada, baixando os olhos) Assim... tão breve!...

Maximo

O mais breve possivel. Precisas de ter a teu lado um homem, um marido. Tens a alma, a tempera, os instinctos e as virtudes da casa conjugal. É portanto forçoso que da grande lista dos teus pretendentes se escolha um, o melhor, o mais digno de te amar e de ser amado por ti, porque, sem amor, considera bem que não ha familia.

Electra

Estou certa.

Maximo

E tu nasceste destinada para a vida exemplar e fecunda de um lar feliz... (Teem acabado de comer o arroz)

Electra

Queres mais?

Maximo

Não: estou satisfeito.

Electra

De sobremesa tens fructa, que é do que mais gostas. (Põe na mesa o fructeiro)

Maximo

(pegando n’uma bella maçã) Gósto, porque esta (mostrando-lhe a maçã) é a verdade em toda a sua pureza. Aqui não interveio a mão do homem senão para a colher.

Electra

É a obra divina, bella, simples, admiravel.

Maximo

Faz Deus esta prodigiosa maravilha para a dar ao homem; e nem sempre lh’a agradece aquelle que foi eleito para em certo dia e a certa hora passar por baixo da macieira em fructo!

Electra

Quantas vezes basta, para colher a felicidade, esquecer-se a gente por um momento da terra, e levantar os olhos para cima!

Maximo

(contemplando-a) Pois é o que eu faço, Electra.

SCENA VII

ELECTRA, MAXIMO E RICARDO, pela esquerda

Ricardo

Mestre...

Maximo

Quê?

Ricardo

Chegamos ao rubro.

Electra

A fusão!

Maximo

Avisa-me ao branco incipiente.

Ricardo

Virei dizer.

Maximo

Olha. Que preparem na officina a bateria Bunsen. E previne de que hei de precisar para logo do dinamo grande.

SCENA VIII

ELECTRA E MAXIMO, depois o OPERARIO

Electra

(com tristeza) D’aqui a um instante vaes tratar da fusão, e eu...

Maximo

Tu—está claro—irás para casa.

Electra

Nem é bom pensar no que vae ser quando eu chegue!

Maximo

Tu ouves, calas-te, e esperas.

Electra

Esperar... esperar sempre! (Acabam de almoçar) Ai que, se tu me não vales, não sei o que será de mim, com a tia e com o snr. de Pantoja... Elles a teimarem que eu vá para anjo, e Deus a desageitar-me cada vez mais para a carreira angelical!

Maximo

(que se tem levantado e parece disposto a continuar o trabalho) Não tenhas cuidado. Confia em mim. Eu te irei requerer como teu protector e teu mestre...

Electra

(approximando-se supplicante) Não te demores então, Maximo. Por amor dos teus filhos, não te demores. Se tu me tomasses tambem como filha, para estar com os meninos, para viver com elles!

Operario

(pelo fundo) O snr. marquez de Ronda.

Electra

(assustada) Vou-me embora?

Maximo

Por vir o Marquez? (Ao creado) Que entre. (O operario sae) Offerecia-se-lhe café, se houvesse.

Electra

Vou buscal-o. (Sae com pressa)

SCENA IX

MAXIMO, MARQUEZ E ELECTRA. No fim da scena, RICARDO

Maximo

Entre, Marquez.

Marquez

Maximo... (Olhando em redor, desconsolado) E Electra?

Maximo

Na cosinha. Foi buscar-nos café.

Marquez

Na cosinha! Continua-se vivendo então n’esta casa como na ilha de Robinson? Ahi está o que não comprehendo: como tendo você lá em cima todos os confôrtos d’um palacio...

Maximo

É muito simples... O trabalho e o habito do estudo enclausuram-me aqui. Puz os pequenos ao lado da officina para os ter ao pé de mim; e, reduzindo o mais que me foi possivel a minha orbita d’acção, para aqui me fiquei, recluso no dever que me impuz, como um asceta na estreiteza da sua gruta.

Marquez

Sem nem sequer se lembrar de que é rico...

Maximo

A minha riqueza é a singeleza, o meu luxo é a sobriedade, o meu repouso é o trabalho, e assim viverei emquanto viver só...

Marquez

Não tardará então muito em mudar de vida... Precisamente lhe venho contar... (Entra Electra com a bandeja contendo o serviço e a maquina de café) Oh! a deusa do lar!

Electra

(adeanta-se cautelosa de que não caia alguma peça) Por Deus, Marquez, não me ralhe.

Marquez

Eu ralhar?

Electra

Nem me faça rir... para não haver um desastre. Sentido! (O marquez pega na bandeja)

Marquez

Aqui me tem para companheiro de infortunios... Ainda então lhe parece que eu seja dos que ralham? Eu sou dos que explicam. Mas não pertencem a esta seita os senhores ali do outro lado do jardim...

Electra

Os tios.

Marquez

A noticia do lindo idyllio, que se está passando aqui como na inverosimilhança de uma tapeçaria ou de um panno de leque, lá chegou já á distribuição dos premios em Santa Clara, onde a estas horas estará deliberando o conclave. As suas resoluções serão terriveis.

Electra

A Virgem Maria me valha!

Marquez

Socegue...

Maximo

Isso tem de ser agora commigo.

Marquez

Será comnosco. O seu café, minha menina, está digno de Jupiter, pae dos deuses: é do que elles tomam no olympo, aos domingos.

Maximo

Segue-se, Electra, que em vez de regressar sósinha, teremos de ir ambos levar-te aos snrs. de Yuste.

Ricardo

(assumando á porta da esquerda) Snr. D. Maximo, o branco incipiente!

Electra

(com inconsciente alegria infantil) A fusão!

Maximo

(a Ricardo) Não posso agora. Chama-me quando chegar o branco resplandecente. (Ricardo sae)

Marquez

Peço licença... (Tendo-se servido de vinho) Eu brindo o hymeneu dos metaes, saudando os cadinhos do magico prodigioso.

SCENA X

MAXIMO, ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA

Electra

(aterrada) D. Salvador! Deus me acuda!

Maximo

Queira entrar, snr. de Pantoja. (Pantoja adeanta-se lentamente) A que devo a honra...?

Pantoja

Antecipando-me aos meus bons amigos, tios d’esta menina, que d’aqui a um momento terão voltado a casa, aqui me acho resolvido a cumprir o dever d’elles e o meu.

Maximo

A familia toda consubstanciada no snr. de Pantoja...

Marquez

Para metter medo á gente.

Maximo

Considera-nos reus d’algum tremendo crime...

Pantoja

Não considero senão unicamente que esta menina não pode estar aqui. Venho buscal-a. Ha de sahir commigo. (Pega na mão de Electra, insensivel, immobilisada pelo medo) Vem.

Maximo

Queira perdoar (Sereno e grave, approxima-se de Pantoja) Com todo o respeito que lhe devo, rogo-lhe, snr. de Pantoja, que solte a mão d’esta senhora. Antes de lhe tocar, teria sido mais opportuno que falasse commigo, que sou o dono d’esta casa, e o responsavel de tudo o que n’ella se passa, de tudo o que vê... e de tudo o que não queira vêr.

Pantoja

(depois de uma breve hesitação larga a mão de Electra) Seja assim. Deixarei de dirigir-me a esta pobre creatura, desvairada ou trazida aqui ao engano, e falarei comtigo, a quem quizera dizer apenas muito breves palavras:—Venho buscar Electra. Dá-me o que não te pertence, o que não te pertencerá nunca.

Maximo

Electra é inteiramente livre. Nem eu a trouxe aqui contra sua vontade, nem contra sua vontade a levará d’aqui quem quer que seja.

Marquez

Se se pudesse, pelo menos, conhecer os fundamentos da auctoridade do snr. de Pantoja...

Pantoja

Eu não preciso de lhes dizer, aos senhores, qual é a proveniencia da auctoridade de que disponho, e que esta menina me reconhece, prestando-me a obediencia que lhe peço. Não é verdade, Electra, que basta uma palavra minha para immediatamente te separar d’estes homens, e levar-te para quem depositou em ti o seu mais puro amor, e nem vive nem quer viver na terra senão para ti? (Electra, immobilisada, olhando para o chão, cala-se)

Maximo

Não, bem vê que não basta essa unica palavra sua.

Marquez

Não offerece dúvida que é uma palavra bôa, mas insufficiente.

Maximo

Quer permittir que a interrogue eu? Electra, minha querida amiga, assegura-te o coração e a consciencia que entre todos os homens que conheces, entre os que vês aqui e os que não estão presentes, é sómente e exclusivamente ao muito dedicado e ao muito respeitavel snr. de Pantoja que tu deves submissão e amor?

Marquez

Fale abertamente e destemidamente, menina! Diga-nos o que o seu coração e a sua consciencia lhe dictarem.

Maximo

E se este senhor, a quem indubitavelmente deves toda a consideração e todo o respeito, te ordenar que o sigas, e nós outros te dissermos que fiques, de tua livre e plena vontade, que determinas?

Electra

(depois de penosa lucta) Ficar.

Marquez

Já vê...

Pantoja

Não está em si... Fascinaram-a.

Maximo

Parece-me inutil a insistencia...

Marquez

Para acabar vencido...

Pantoja

(com fria tenacidade) Eu não sou dos que os homens vencem. A razão é vencedora sempre, e eu seria indigno da que Deus me deu, e que defenderei até o meu derradeiro alento, se a não puzesse continuamente acima de todo o erro e de todo o extravio. Maximo, os metaes que ardem nos teus fornos são menos duros do que eu. As tuas mais poderosas maquinas são brinquedos de vidro comparadas com a minha vontade. Electra pertence-me: basta que eu o diga.

Electra

Que terror, meu Deus!

Maximo

Se quer assegurar-se do que póde a sua vontade opponha-a á minha.

Pantoja

Dispenso demonstrações comtigo ou com quem quer que seja. Basta-me saber o que devo fazer, e fazer o que devo.

Maximo

Pois toda a minha força é essa: o dever.

Pantoja

O teu dever é uma hypothese terrena e accidental. O meu gira em torno de uma consciencia tão rija e tão forte como o eixo do universo; e os meus fins são tão altos que nem tu os alcanças nem poderás alcançal-os nunca.

Maximo

Por mais incommensuravel que seja a elevação dos seus fins, pelo amor de Electra eu irei a toda essa altura, para a defender.

Marquez

Esta senhora voltará comnosco á sua casa.

Maximo

Commigo. E isso bastará para justificação de todos os seus actos, e para que os tios lhe perdoem, se teem que perdoar-lhe.

Pantoja

Os senhores de Yuste não renegarão n’esta conjunctura os sentimentos e as convicções de toda a sua vida. (Exaltando-se) Eu estou no mundo unicamente para que Electra se não perca. E não se ha de perder. Assim o quer a vontade divina, de que a minha é um reflexo, e que vós confundis com um capricho da brutalidade humana, porque não sabeis nada do que são nas puras regiões espirituaes as emprezas de uma alma... Pobres cegos! pobres loucos!...

Electra

(consternada) D. Salvador, não se desgoste—por Nossa Senhora lh’o peço! Eu não sou má, Maximo é bom... Sabem-o todos... Sabem-o os tios... e o snr. de Pantoja bem o sabe! Não deveria sublevar-me até o ponto de vir para aqui sósinha, como determinei vir... Foi um acto de grave rebeldia, concordo. Voltarei para casa... Maximo e o snr. de Ronda irão commigo, e os tios hão de perdoar-me... (A Maximo e ao Marquez) Não é verdade que me perdoarão? (A Pantoja) Porque é esta má vontade a Maximo, que nunca lhe fez mal nenhum?... Confessa—pois não é assim?—que elle nunca lhe fez nem lhe quiz mal? Em que se funda essa aversão?

Maximo

Não é aversão: é odio recondito, inextinguivel.

Pantoja

Odiar-te, não. As minhas crenças prohibem-me o odio. De certo que ha entre nós ambos uma incompatibilidade proveniente da nossa differença de principios... Teu pae, Lazaro Yuste, e eu, tivemos desavenças profundas, que é melhor esquecer... Mas a ti, Maximo, nunca te quiz mal... Antes te quero bem. (Mudando de tom para mais suave e conciliador) Perdôa a severidade com que te falei, e permitte que, fazendo um grande esforço sobre mim, eu te implore que deixes Electra partir commigo.

Maximo

(inflexivel) Não posso annuir.

Pantoja

(violentando-se mais) Por segunda vez, Maximo, esquecendo todos os resentimentos, profundamente humilhado, eu te supplico... Deixa-a.

Maximo

Não.

Pantoja

(devorando o vexame) Bem... Pela segunda vez m’o negaste... Para offerecer ás tuas bofetadas não tenho mais de duas faces, por isso te não peço por terceira vez a mesma coisa. (Com gravidade e rigidez) Adeus, Electra... Maximo, Marquez, adeus.

Electra

(baixo a Maximo) Por quem és, Maximo, transige um pouco...

Maximo

(redondamente) Não.

Electra

Não disseste que me levarieis, tu e o Marquez? Vamos todos. (Esta phrase é ouvida por Pantoja que se detem na sua marcha lenta para a sahida)

Maximo

Não... Ha de ir primeiro elle. Nós iremos quando nos convenha, e sem a salvaguarda de ninguem.

Pantoja

(friamente da porta) E a que vaes senão a aggravar a situação d’essa menina?

Maximo

Vou ao que devo ir.

Pantoja

Pode-se saber o que é?

Maximo

Escusado.

Pantoja

Não preciso de que me reveles as tuas intenções. Para quê, se as conheço? (Dá alguns passos para o centro da scena, cravando a vista em Maximo) Não me fio na expressão dos teus olhos. Penetro na tua mente, e descubro o que pensas... Interroguei-te, não para saber da tua intenção mas para ouvir as promessas com que a encobres... Em ti não mora a verdade, nem o bem... não, não, não... (Sae repetindo as ultimas palavras)

SCENA XI

ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ E RICARDO (Principia a escurecer)

Electra

(consternada, procurando um refugio em Maximo) Maximo, ampara-me! Livra-me do terror que me inspira este homem.

Maximo

Conta commigo. Não tenhas medo. (Pega-lhe nas mãos)

Marquez

Começa a escurecer. Vamos.

Electra

Vamos... (Incredula e medrosa) Então, deveras, sempre vou comtigo?

Maximo

Juntos n’esta hora, como o seremos para toda a vida...

Electra

Comtigo para sempre? (Augmenta a escuridão)

Ricardo

(á porta da esquerda) Snr. D. Maximo, o branco deslumbrante!

Marquez

(a Ricardo) A fusão está feita. Creio que se podem apagar os fornos.

Maximo

(com effusão beijando as mãos de Electra) Minha alma, minha consolação, minha alegria! comtigo para todo sempre... O que vou dizer aos nossos tios é que te peço, que te faço minha, que serás a minha mulher e a mamãsinha dos meus filhos.

Electra

(opprimida, como se a alegria a transtornasse) Não me enganas?... Virei a viver sempre com os teus meninos? Serei entre elles a menina maior?... Serei tua mulher?

Maximo

(com voz forte) Sim. (Illuminada a casa do fundo, resplandece com viva claridade toda a scena)

Marquez

Vamo-nos. É noite.

Electra

É o dia!... o meu dia eterno! (Maximo enlaça-a pela cintura e saem. O marquez segue-os)

FIM DO TERCEIRO ACTO