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Electra: Drama em cinco actos cover

Electra: Drama em cinco actos

Chapter 49: ACTO QUARTO
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About This Book

A peça abre num salão palaciano onde visitantes e criados comentam a chegada de uma jovem sobrinha trazida de um colégio e os boatos que cercam a mãe dela, cuja vida passada marcou a família. Ao longo dos atos, conversas privadas e cenas domésticas revelam tentativas de sondar o caráter da jovem, que oscila entre candura encantadora e travessura inquietante, despertando admiração, preocupação e curiosidade nos parentes. Tramas secundárias expõem intrigas sociais, laços financeiros e relações ambíguas entre vizinhos e parentes, enquanto o drama concentra-se na tensão entre herança moral e vontade individual.

ACTO QUARTO

Jardim do palacio de Garcia Yuste. Á direita, a entrada para o palacio, com escadaria larga de poucos degraus. Á esquerda, jogando com a entrada, um corpo de architectura grutesca, ornado com baixos-relevos: junto d’esta construcção, um banco de pedra, em angulo, de risco elegante. Jarrões ou plantas exoticas adornam este terraço, com pavimento de mosaico, entre o edificio e o solo areado do jardim.

No segundo plano e no fundo, o jardim com grandes arvores e macissos de flores. Do centro partem trez arruamentos em curva. O da esquerda leva á rua. Cadeiras de ferro. É de dia.

SCENA I

ELECTRA E PATROS, com um cesto de flores que acabam de colher

Electra

(tirando uma carta da algibeira) Deixa ficar as flores, e aqui tens a carta.

Patros

(pousando as flores) Com esta faz trez desde esta manhã!

Electra

(escolhendo as flores mais pequenas com que fórma tres ramilhetes) São tantas as coisas que Maximo tem que me dizer, e eu a elle...

Patros

Bemdito seja Deus, que da noite de hontem para hoje tanta felicidade lhe deu, senhorita Electra!

Electra

E que depressa, Patros! que rapidamente! como n’um sonho, que tudo se fez! Hontem á noite fiquei pedida, e hoje marcam os tios o dia do casamento...

Patros

E no emtanto, carta para lá, carta para cá... de não acabar nunca...

Electra

Que queres? Se desde hontem nos não podemos vêr como companheiros, na fabrica, porque sômos noivos agora... Temos de nos corresponder por escrito. Na carta das oito horas e um quarto falava-lhe das coisas muito serias que estou impaciente por dizer-lhe. Na das nove e vinte e cinco recommendava-lhe que se não esquecesse da colhér de xarope que tem de se dar a Pepito de duas em duas horas... N’esta agora digo-lhe que a tia foi para a missa e que tem demora... É natural que elle lhe queira falar...

Patros

Até ás onze horas de certo que não volta a senhora da egreja...

Electra

E ás onze vou eu para a missa com o tio. (Atando os tres ramilhetes) Pronto! Este para elle, estes para cada um dos meninos... Um a cada um para que não briguem... (Dispondo-se a compôr o ramo grande) E agora o ramo grande para a Senhora das Dôres... Vae, e volta depressa para me ajudares... Espera resposta—é claro—uma palavra que seja!

Patros

Vou de corrida. (Sae pelo fundo)

Electra

(escolhendo as mais lindas flores para o grande ramo) Hoje, minha querida Mãe Santissima, ha de ser maior a minha offerenda; e a minha pena é que não seja tão grande que fique sem uma só flôr o jardim dos tios... Deante da tua santa imagem queria eu hoje collocar todas as mais lindas coisas da terra: as rosas, as estrellas e os corações amantes... Virgem Maria! consolação e esperança nossa! não me desampareis, levae-me ao bem que te pedi, e que hontem á noite me prometteu a expressão dos teus divinos olhos quando as minhas lagrimas te disseram a gratidão e a esperança da minha alma...!

Patros

(pressurosa pelo fundo) Não trago carta, mas trago um recadinho, que ainda é melhor...

Electra

Que vem cá?

Patros

Logo que saiam uns senhores, que estavam já a despedir-se... Que a menina o espere aqui para lhe falar um momento... Tem de ir a uma conferencia depois...

Electra

(olhando para o fundo) Virá já?...

Patros

Ahi vem.

Electra

(dando-lhe o ramo) Toma lá... para Nossa Senhora... Para a Nossa Senhora do meu quarto, bem entendido! Não é para a do altar do oratorio, toma sentido: é para a da cabeceira da minha cama.

Patros

Pois pudera! (Entra correndo pela escada)

SCENA II

ELECTRA, MAXIMO, depois o MARQUEZ

Maximo

(a distancia, abrindo um pouco os braços) Menina!

Electra

(mesma attitude) Maximo!

Maximo

Aqui estamos embaçados, deante um do outro, sem saber que dizer.

Electra

Embaçadissimos. Começa tu.

Maximo

Tu... para te desacanhares... Dize-me uma grande mentira: que me não amas.

Electra

Dize-me primeiro tu uma grande verdade.

Maximo

Que te adoro. (Approximam-se)

Electra

Em paga d’essa mentira toma esta rosa que te escolhi, sem brilho, pequena, singela, humilde, como eu quero ser para ti.

Maximo

Tu tens um grande coração e um alto espirito...

Electra

Não tenho; mas gostava de ser ainda mais tôsca e mais informe do que sou para que tu me ensinasses tudo, e eu não tivesse nada que não fôsse teu.

Maximo

Deus fez de ti a sua obra mais preciosa...

Electra

E deu-te essa obra, que é apenas o esboço d’uma creatura humana, para que tu a completes e aperfeiçôes.

Maximo

Para que eu a enthronise e a corôe, deixando desenvolver-se d’ella a immortal flôr de humanidade, que é a simples mulher da casa, forte, pura, alegre e compadecida. (Consulta o relogio)

Electra

Tens essa conferencia... Vae á tua obrigação... Não te demorarás muito?

Maximo

Virei encontrar-me com a tia quando ella vier da missa.

Electra

E o marquez, desde hontem... voltou como tinha dito?

Maximo

Deixei-o agora na fabrica a escrever ao tabellião. Incomparavel amigo!... Hontem á noite—sabes?—contei-lhe, ao voltar para casa, o teu romance paterno... esse romance dos dois capitulos... Indignou-o a intervenção despotica de Pantoja e de Cuesta na tua vida; e essa lamentavel historia mais ainda o fortaleceu na firme determinação de defender-nos...

Electra

(surprehendida) Mas então precisamos ainda de que nos defendam?

Maximo

No essencial é claro que não... Mas quem nos assegura que esses dois homens não tentem oppôr-nos alguns obstaculos de jurisdicção theorica?

Electra

(tranquillisando-se) D’essa jurisdicção nos riremos nós.

Maximo

Mas rindo, rindo, teremos de a prevenir e de a annullar.

Marquez

(pressuroso pelo fundo) Então ainda aqui?

Maximo

Falavamos de si, e deliberavamos nomeal-o procurador dos nossos negocios de familia...

Marquez

Acceito a procuração... (Reprehendendo-o com doçura) Mas, homem, que se lhe faz tarde!

Maximo

Adeus, adeus! até já.

Electra

(vendo-o partir) Vae, e vem depressa.

SCENA III

ELECTRA E O MARQUEZ

Marquez

Ahi está o que é um galan de categoria scientifica... Parabens pelo achado d’esta preciosidade rara. A graça e a alegria da sua edade precisava da alliança de uma razão grave e de um coração firme, como o d’este homem. É elle, entre quantos eu conheço, o mais perfeitamente destinado para fazer da minha querida menina uma grande e exemplar mulher.

Electra

Fará de mim o que elle quizer que eu seja. (Com muita curiosidade) Mas diga-me, snr. de Ronda, conheceu a primeira mulher de Maximo? Perdôe-me esta curiosidade, e não extranhe que eu deseje saber da vida toda do homem que amo.

Marquez

Não convivi com ella... Vi-a com Maximo uma ou duas vezes. Era uma vascongada, sêcca, vulgar, pouco intelligente, bôa esposa para um lar tranquillo mas sem felicidade...

Electra

Os paes d’elle sim, conheceu-os muito?

Marquez

A mãe nunca a vi. Era uma senhora franceza, de alto merito. Foi em môça uma das amigas de minha mulher. O pae, Lazaro de Yuste, conheci-o ha trinta annos em Hispanha e em França. Era homem muito intelligente, bem parecido, felicissimo em negocios de minas, e não menos afortunado em negocios de amor. Era falado.

Electra

N’esse ponto não se parece com elle o filho, que é a austeridade em pessôa.

Marquez

De certo que sim. O seu futuro marido, minha querida Electra, é o modelo dos homens, e a honra de uma geração muito mais perfeita do que infelizmente foi a minha. Para que nada lhe falte, esse portentoso magico até é rico... rico pelo que lhe deixou o pae e mais rico ainda pelo que herdou agora dos tios de França. Que mais quer? Peça por bôca, e verá como Deus lhe responde: «Menina, não tenho mais que lhe dar.»

Electra

(suspirando) Ai!... E agora, outra coisa... diga-me, meu querido Marquez: posso estar socegada?

Marquez

Inteiramente.

Electra

Escuso de ter medo das pessôas...—já lhe disseram—das pessôas que se julgam com sufficiente auctoridade...

Marquez

Essas pessôas poderão talvez incommodar-nos passageiramente, emquanto nós não resolvermos encurtar-lhes os vôos.

Electra

O snr. de Cuesta...

Marquez

Esse não é de cuidado. Ainda hoje lhe falei, e estou certo de que nos dará o seu mais convicto assentimento.

Electra

O snr. de Pantoja...

Marquez

Esse ha de resmungar um pouco mais, e pretenderá fazer-nos ouvir as trombetas biblicas para nos assustar; mas não lhe tenha medo.

Electra

Deveras?

Marquez

Não vale nada.

Electra

Não tenho de que me atterrar quando o encontre?

Marquez

Não mais que da importunidade de um mosquito.

Electra

Que allivio me dá! (Com enthusiasmo carinhoso) Deus lhe pague! Deus o bemdiga, snr. de Ronda!

Marquez

(muito affectuoso) Deus será comvosco.

SCENA IV

OS MESMOS E URBANO, vindo de casa, de chapeu na cabeça

Urbano

Marquez, bons dias.

Marquez

Querido Urbano, posso falar comsigo?

Urbano

Não lhe faz differença depois da missa...? (A Electra) Então, rapariga, que vagares são esses? Está a tocar.

Electra

Só tenho que pôr o chapeu. Meio minuto, tio. (Entra correndo em casa)

SCENA V

MARQUEZ E URBANO

Marquez

Temos de pôr dia para o casamento, e de fazer escriptura de consentimento em regra.

Urbano

Será talvez melhor que você trate de tudo directamente com minha mulher.

Marquez

Mas, meu amigo, chegou o momento de fazer frente a certas ingerencias que annullam a sua auctoridade de chefe de familia.

Urbano

Meu caro de Ronda, peça-me você que altere, que transtorne todo o systema planetario, que tire os astros d’aqui assim e que os ponha para acolá; mas não peça coisa nenhuma que seja contraria ao parecer de minha mulher.

Marquez

Homem, isso tambem lá me parece submissão de mais!... Eu pela minha parte insisto em que devo tratar este negocio particularmente com você e não com Evarista.

Urbano

Vamos á missa e depois falaremos.

Marquez

Pois vamos lá, eu tambem vou.

SCENA VI

OS MESMOS, ELECTRA, EVARISTA E PANTOJA

Electra

(de chapeu, luvas, livro de missa) Pronta.

Urbano

Vamos. O Marquez vae comnosco.

Evarista

(pelo fundo, á esquerda, seguida de Pantoja) Vão ligeiros.

Pantoja

Depressa, se querem chegar.

Evarista

O marquez volta?

Marquez

Infalibillissimamente, minha senhora.

Evarista

Até logo. (Saem Electra, o marquez e Urbano pelo fundo, á esquerda)

SCENA VII

EVARISTA E PANTOJA, que com mostras de cansaço e desalento se atira para o banco da esquerda, primeiro plano.

Evarista

Entramos?

Pantoja

Perdão: deixe-me respirar por um momento. Na egreja abafava-se... com o calôr, com o apertão de gente...

Evarista

Vou-lhe mandar vir alguma coisa fresca... (chamando) Balbina!

Pantoja

Não, obrigado.

Evarista

Uma taça de tilia...

Pantoja

Tambem não. (Na occasião de Balbina sahir, a senhora dá-lhe a mantilha, que acaba de tirar, e o livro de missa)

Evarista

Não ha motivo, emquanto a mim, para nos affligirmos tanto...

Pantoja

Não é, como querem dizer, o meu orgulho; é n’um ponto mais delicado e mais profundo que eu me sinto ferido. Nega-se-me a consolação e a gloria de dirigir essa creatura e de a levar commigo pelo caminho do bem. E vejo com grande magoa que você, tão affecta aos meus principios, e que eu considerava uma fiel amiga e uma fervorosa alliada, me abandona na hora critica.

Evarista

Perdoe-me, D. Salvador. Eu não o abandono. Estavamos inteiramente de accordo, com relação a Electra, em guardal-a por algum tempo—nunca se tratou de a encerrar para sempre—em S. José da Penitencia, attendendo á disciplina e purificação d’aquella casa... Mas surge agora repentinamente esta inesperada veneta de Maximo, e eu não posso, realmente, não posso de modo nenhum recusar o meu consentimento... É uma loucura? será... Mas de Maximo, como homem de honrado e correcto procedimento, que tem que dizer?

Pantoja

Nada. (corrigindo-se) Isto é: alguma coisa poderia talvez... Mas, por agora, o que unicamente digo é que Electra não está preparada para o casamento, não tem aptidão para eleger marido... Não reprovo em absoluto que se case, quando seja com um homem cujas ideias a não pervertam... Mas este ponto é para mais tarde... O essencial n’este momento é que essa tenra creatura entre quanto antes no sagrado asylo, onde nos cumpre estudar, com o tacto mais subtil e mais carinhoso, a configuração do seu caracter, as suas predilecções, as suas tendencias, os seus affectos; e em vista do que observarmos, fundamentadamente e seguramente depois d’este prévio exame, resolveremos... (Altaneiro) Que ha que dizer a isto?—pergunto eu agora.

Evarista

(acobardada) O que digo é que para esse plano... na realidade perfeito... eu não posso, não ouso offerecer-lhe a minha cooperação.

Pantoja

(com arrogancia, passeando) De modo que, segundo os seus caridosos principios, se Electra se quer perder, que se perca!... que importa?... Se ella quer condemnar a sua alma, que a condemne!... Que temos nós com isso?

Evarista

(com maior timidez, suggestionada) Perder-se! condemnar-se! E está porventura na minha mão evital-o?

Pantoja

(com energia) Está.

Evarista

Oh! não... Não tenho a audacia de intervir... E com que direito?... Impossivel, Salvador, impossivel...

Pantoja

(affirmando mais a sua auctoridade) Saiba, minha amiga, que o acto de apartar Electra de um mundo nefasto, em que por todos os lados a rodeiam appetites e voracidades ferozes, não é um despotismo: é o amor na expressão mais alta e mais pura do carinho paternal. Ainda por acaso ignora, Evarista, que o fim supremo e unico da minha vida não é hoje outro senão o bem d’esta menina?

Evarista

(acobardando-se mais) Bem sei que é assim.

Pantoja

(com effusão) Eu amo Electra com um amor que as grosseiras palavras do homem não podem definir. Desde que os meus olhos a viram, a voz do sangue me bradou do mais fundo do meu ser que essa creatura me pertence... Quero têl-a, e devo têl-a, santamente, debaixo do meu dominio paternal... Quero que ella me ame como os anjos amam... que seja a pura imagem da minha crença, o limpido espelho do meu eterno ideal... que se reconheça obrigada a padecer por aquelles que lhe deram a vida, e purificando-se pela mortificação, nos ajude a nós, que fômos maus, a alcançar o perdão de Deus... Não comprehende estas coisas, Evarista?

Evarista

(abatida) Comprehendo-as e profundamente admiro a elevação do seu entendimento.

Pantoja

Menos admiração e mais eficacia em meu auxilio é o que lhe peço.

Evarista

Não posso... (Senta-se chorosa e abatida)

Pantoja

É bem natural que Electra lhe não mereça o mesmo interesse que tão profundamente me inspira a mim. (Empregando suavidades de persuasão) Convenho em que n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar algum tanto o seu brusco apartamento das alegrias mundanas, mas muito rapidamente se adaptará á dôce paz, á venturosa quietação do claustro... Eu a dotarei amplissimamente. Tudo quanto tenho será para ella, para o esplendor da sua santa casa... Será nomeada Superiora, e sob a minha auctoridade, e pelo meu conselho, governará a congregação... (Com profunda commoção) Que celestial ventura, meu Deus! Que felicidade para ella, e para mim! (Fica-se como em extase)

Evarista

Comprehendo que por não acceder ao que deseja de mim eu privo talvez uma creatura de chegar ao estado mais perfeito da condição humana... Conhece bem os meus sentimentos, Salvador... Sabe com quanto prazer eu trocaria sem vacillar toda a opulencia em que vivo pela gloria de dirigir obscuramente uma modesta casa religiosa do maior trabalho e da maior humildade! Sempre o admirei pela sua larga protecção a S. José da Penitencia, e subiu de ponto essa admiração quando soube que redobrou o seu auxilio desde a occasião em que a minha pobre Eleuteria foi procurar n’esse instituto o esquecimento, a paz e o perdão dos seus erros de amor, como os de Magdalena. N’esse acto da vida do rico snr. de Pantoja se me revelou a espiritualidade mais pura a que se pode elevar um homem.

Pantoja

Sim: desde que a sua desventurada prima deu entrada n’aquelle sagrado asylo, a minha protecção não sómente se tornou mais positiva mas ainda mais espiritual. Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus olhos em Eleuteria depois de convertida, porque de ninguem—nem de mim!—ella se tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram os cabellos e lhe botaram o escapulario. Mas eu ia quotidianamente á egreja; e invisivel do côro, n’um recanto da nave, praticava em espirito com a penitente, considerando-a tão perfeitamente regenerada como eu proprio o estava. Morreu a infeliz aos quarenta e cinco annos da sua edade. Então obtive o consentimento de uma sepultura no interior do edificio. E desde esse dia não protegi mais a congregação, tornei-a inteiramente minha, porque n’ella repousavam debaixo da pedra de uma campa os restos d’aquella que eu amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos o arrependimento, ella na paz da morte, eu na tempestuosa provação da vida...

Evarista

E ainda agora aquelle a que bem podemos chamar o senhor e o reformador do convento, todos os dias, sem excepção de um unico, visita aquella santa casa e se ajoelha no cemiterio humilde e docemente poetico, onde as monjas dormem o somno eterno.

Pantoja

(vivamente) Sabia isso?

Evarista

Sabia... E que no claustro, silencioso e florido, entre loendros e cyprestes...

Pantoja

É certo... quem lh’o disse?

Evarista

...vagueia, como um propicio phantasma da saudade, o sombrio fundador d’aquella casa, implorando de Deus o descanço d’ella e o seu.

Pantoja

Sim... Ali repousarão tambem os meus pobres ossos. (Com vehemencia) Quero, além d’isso, que assim como em espirito eu me não aparto por um só momento d’aquella casa, ahi passe tambem, pelo tempo que fôr preciso, o espirito de Electra... Não a violentarei á vida claustral; mas se, experimentando essa existencia, e apreciando o seu incomparavel sabor, ella deliberasse persistir na clausura, eu acreditaria então que Deus me destinara para a mais ineffavel graça. Ali as cinzas adoradas da peccadora redimida; ali, na candida alvura do seu habito de noviça, a minha filha; ali eu, pedindo a Deus para ellas a gloria eterna. E na morte, o escondido e imperturbado repouso na mesma terra amada,—todos os meus amores commigo e todos nós em Deus...

Evarista

(com viva commoção) Perfeita grandeza, por certo... Idealidade incomparavel.

Pantoja

Duvída ainda de que o meu pensamento seja o mais elevado? De que me não move nenhuma paixão ruim?

Evarista

Como quer que duvíde?

Pantoja

Pois se com effeito lhe parece bello o meu plano, porque me não ajuda a realisal-o?

Evarista

Porque me não considero com poderes para isso.

Pantoja

Nem assegurando-lhe eu que a reclusão de Electra terá um caracter provisorio?

Evarista

Nem assim. Não, D. Salvador, não conte commigo... (luctando com a sua consciencia) Reconheço toda a elevação, toda a formosura das suas ideias... D’ellas sinto um ecco suave e acariciador na minha propria alma. Mas—que quer, meu bom amigo—vivo no mundo em que Deus me collocou: tenho tambem para com este mundo deveres sagrados. Dêvo-me, com aquelles que me rodeiam, á vida social; e na vida da sociedade e da familia o seu projecto é... como lh’o direi, sem o magoar?... é uma anomalia angelica.

Pantoja

(dissimulando o seu enfado) Bem. Paciencia... (Passeia caviloso e sombrio)

Evarista

(depois de uma pausa) Em que pensa? Desiste?

Pantoja

(com naturalidade e firmeza) Não, minha senhora.

Evarista

Qual então o seu projecto?

Pantoja

Não sei... Ha de acudir-me uma ideia... Pensarei... (Resolvendo-se) Minha cara amiga, quer fazer-me o favor de escrever uma carta á superiora da Penitencia?

Evarista

Dizendo-lhe...?

Pantoja

Que venha aqui immediatamente, com duas irmãs, n’uma carruagem.

Evarista

Porque lhe não escreve directamente?

Pantoja

Porque tenho de acudir a outras coisas.

Evarista

Quer já?

Pantoja

O mais breve possivel...

Evarista

Bem. (Dirige-se para casa)

Pantoja

Peço-lhe que mande a carta sem perda de tempo.

Evarista

(olhando do alto da escada para o jardim) Creio que elles ahi vem.

Pantoja

Depressa a carta, minha cara amiga.

Evarista

Vae já... Deus nos inspire a todos. (Entra em casa)

Pantoja

Lá vou ter. (Áparte) Que me não vejam! (Esconde-se atraz do macisso da direita junto da escada)

SCENA VIII

PANTOJA, occulto; ELECTRA, URBANO, MARQUEZ, que voltam da missa—PATROS, que desce de casa.

Electra

(adeantando-se encontra-se com Patros junto da escada) Veio?

Patros

Não, senhorita. (Ouve-se o canto afastado dos meninos que brincam no jardim)

Electra

Morro de impaciencia. (Tira o chapeu e as luvas, que entrega a Patros com o livro de missa) Vou brincar com os pequenos emquanto espero... Não... Vou apanhar flôres. (Colhe algumas no macisso da esquerda)

Urbano

(a Patros) A senhora?

Patros

Em casa.

Marquez

Vamos ter com ella.

Urbano

Vamos a isso. (Entram em casa. Patros segue-os)

Electra

(admirando as flôres que acaba de cortar) Que lindos, que graciosos rainunculos! (Pantoja apparece e Electra assusta-se ao vêl-o) Ai!

SCENA IX

ELECTRA E PANTOJA

Pantoja

Assim te assusto, minha filha?

Electra

É verdade... Não posso evital-o... Que quer? Bem sei que não devia, e que não tenho de que ter medo... Perdôe-me por quem é, D. Salvador... Vou jogar ao côrro com os pequenos...

Pantoja

Um momento. Vaes aos meninos para que elles te dêem da sua alegria?

Electra

Não, hoje não; vou repartir com elles da que trasborda da minha alma. (Afasta-se o canto de roda dos meninos)

Pantoja

Já sei a causa d’essa grande alegria, já a sei...

Electra

Uma vez que sabe, não tenho então que lhe contar. Até logo snr. de Pantoja.

Pantoja

Ingrata! Concede-me um instante...

Electra

Um instantinho só?

Pantoja

Unicamente.

Electra

Bom. (Senta-se no banco de pedra. Colloca a um lado as flôres e vae escolhendo aquellas com que se touca, mettendo-as no cabello)

Pantoja

Não sei porque tens reservas commigo sabendo quanto me interesso pela tua felicidade e pela tua vida...

Electra

(sem olhar para elle, attenta ás flôres) Pois, se o interessa a minha felicidade, alegre-se commigo: sou a creatura feliz.

Pantoja

Feliz hoje. E amanhã?

Electra

Amanhã mais feliz do que hoje... E sempre mais, sempre o mesmo!

Pantoja

A alegria verdadeira e constante, o goso perenne e indestructivel só existem no amor eterno, superior ás inquietações e ás miserias humanas.

Electra

(adornado o cabello, põe flôres no seio e no cinto) Toca-me outra vez no antigo registro de que tenho de ser anjo... Sou uma pobre pessoasinha summamente terrestre, D. Salvador. Deus fez-me para mulher, e botou-me a este mundo. Já vê que, se estou aqui, é porque elle não precisava de mim para o ceu n’esta occasião.

Pantoja

Ha tambem anjos na terra, minha filha. Anjos são todos aquelles que no meio das desordens da materia sabem viver a pura vida do espirito.

Electra

(mostrando o collo e o busto ornados de florinhas. Ouve-se mais perto o coro dos meninos) Que tal? não lhe pareço um anjo?

Pantoja

Pareces, e quero que o sejas.

Electra

Assim me adorno para divertir os meninos. Se visse a graça que elles me acham! (Com uma triste ideia subita) Sabe com que eu me estou parecendo agora? Com um menino morto. Assim se enfeitam os meninos quando os levam a enterrar.

Pantoja

Para symbolisar a ideal belleza do ceu para onde elles vão.

Electra

(arrancando as flôres) Não, isso não, não quero parecer menina morta. Dá-me a ideia de que vem o snr. de Pantoja para me levar á sepultura!

Pantoja

Oh! eu não te quero enterrada. Quereria rodear-te de luz. (Vae esmorecendo e cessa de todo o côro dos meninos)

Electra

Tambem se põem luzes aos meninos mortos.

Pantoja

Não quero a tua morte, quero a tua vida; não a vida inquieta e vulgar, mas dôce, livre, elevada, amorosa, com um eterno e puro amor divino.

Electra

(Confusa) E porque é que me deseja tudo isso?

Pantoja

Porque te quero muito, com um amor mais excelso que todos os amores humanos. Melhor comprehenderás a grandeza d’este affecto, dizendo-te que para evitar-te a mais leve dôr eu tomaria para mim os mais espantosos tormentos que se possam imaginar.

Electra

(estonteada, sem entender bem) É o cumulo da abnegação uma coisa d’essas.

Pantoja

Considera agora quanto soffrerei por não poder evitar um desgostosinho, um dissabor, que te vou dar.

Electra

A mim?

Pantoja

A ti mesma.

Electra

Um desgosto?

Pantoja

Desgosto que mais me afflige por ter de ser eu que t’o cause.

Electra

(rebelando-se, levanta-se) Desgostos! Não os quero. Não os acceito. Guarde-os. Que ninguem hoje me traga senão alegrias!

Pantoja

(condoído) Bem quizera dar-t’as, mas não posso.

Electra

Que terror que tenho! (Com subita ideia que a tranquillisa) Ah! já sei... Pobre D. Salvador!... É que me quer dizer mal de Maximo... Alguma coisa que lhe parece mal, mas que a mim me parece bem... Escusa de se cançar porque nem me convence nem o acredito. (Precipitando-se na emissão das palavras sem dar tempo a que Pantoja fale) Maximo é o maior e o melhor homem do mundo, é o primeiro, e todo aquelle que me disser uma palavra contraria a esta verdade, mente, e detesto-o pela mentira, e detesto-o...

Pantoja

Por Deus, minha filha! Não te arrebates assim... Ouve. Eu não digo mal de ninguem, nem dos que me odeiam. Maximo é bom, é trabalhador, é intelligentissimo... Que mais queres?

Electra

(satisfeita) Assim, continue assim... Vae dizendo muito bem.

Pantoja

Digo mais ainda: que podes amal-o, que deves amal-o...

Electra

(com alegria) Ah!

Pantoja

Amal-o entranhadamente... (Pausa) A culpa não é d’elle, não é...

Electra

(assustada outra vez) Querem vêr que ainda acaba por lhe attribuir maldades?

Pantoja

A elle não.

Electra

Então a quem? (Recordando-se) Ah! adivinho: o snr. de Pantoja e o pae de Maximo foram implacaveis inimigos. Tambem me disseram já que esse senhor de Yuste, honradissimo nos seus negocios, foi, talvez, um pouco demais galanteador e mundanario... Mas que me importa isso?

Pantoja

Pobre innocente! não sabes o que dizes.

Electra

Digo que esse excellente homem...

Pantoja

Lazaro Yuste, sim... Ao nomeal-o tenho de associar a sua triste memoria á de uma pessoa que já não vive... muito querida de ti...

Electra

(comprehendendo e não querendo comprehender) De mim!

Pantoja

Que morreu, e a quem tu muito queres. (Pausa. Olham um para o outro)

Electra

(com terror e em voz apenas perceptivel) Minha mãe! (Pantoja faz um signal affirmativo) Minha mãe! (Attonita, desejando e temendo uma explicação)

Pantoja

Chegaram os dias de perdão. Perdoemos.

Electra

(indignada) Minha mãe, a minha pobre mãe! Não falam d’ella senão para a deshonrar, para a denegrir... E ultrajam-a aquelles mesmos que a envilleceram! Pudesse eu tel-os a todos na mão para os desfazer, para os destruir, para não deixar d’elles nem uma migalha assim!

Pantoja

Terias que principiar por Lazaro Yuste.

Electra

O pae de Maximo!

Pantoja

O primeiro depravador da desgraçada Eleuteria.

Electra

Quem é que o diz?

Pantoja

Quem o sabe.

Electra

E... (Fixam-se nos olhos. Electra não se atreve a expôr a sua ideia)

Pantoja

Triste de mim!... Não deveria falar-te d’isto. Dera para o esconder todos os dias que me restam de vida. Comprehenderás que não podia ser... O meu amor por ti ordena-me que fale.

Electra

(angustiada) Meu Deus! e ter eu de ouvil-o!

Pantoja

Disse eu que foi Lazaro Yuste...

Electra

(tapando os ouvidos) Não quero, não quero ouvir.

Pantoja

Tinha então tua mãe a edade que tens agora: desoito annos...

Electra

Não acredito, não acredito...

Pantoja

Era uma jovem senhora encantadora, quasi uma creança, que supportou com a mais corajosa dignidade o horror d’aquella vergonha...

Electra

(rebelando-se com energia) Cale-se! Cale-se!

Pantoja

A vergonha do nascimento de Maximo.

Electra

(apavorada, com o rosto demudado, recua cravando os olhos em Pantoja) Ah!

Pantoja

Procurando com discrição attenuar a affronta da sua victima, Lazaro occultou o menino e levou-o misteriosamente comsigo para França.

Electra

A mãe de Maximo foi uma senhora franceza: Josephina Perret.

Pantoja

Mãe adoptiva.

Electra

(tapando os olhos com ambas as mãos) Divino Jesus! É o ceu que desaba...

Pantoja

(condoído) Filha da minha alma, volve para Deus os teus olhos.

Electra

(demudada) É um sonho... Tudo o que estou vendo é illusão, é mentira. (Olhando espantadamente para uma parte e para outra) Mentira estas arvores, esta casa, este ceu... Mentira tu! tu! tu, que não existes, monstro d’um pesadelo horrivel!... (Com os punhos na cabeça) Acorda, desgraçada, acorda!

Pantoja

(tentando socegal-a) Electra, querida Electra! Pobre innocente!

Electra

(com um grito d’alma) Mãe, minha mãe!... A verdade, dize-me a verdade... (Fóra de si percorre a scena) Onde estás, mãe?... Quero a morte ou a verdade... Minha mãe! minha mãe!... (Sae pelo fundo, perdendo-se na longinqua espessura das arvores. Ouve-se proximo o canto dos meninos jogando ao côrro)

SCENA X

PANTOJA, URBANO, MARQUEZ, vindos de casa, á pressa. Depois d’elles BALBINA E PATROS

Urbano

Que é?

Marquez

Ouvimos gritar Electra.

Balbina

Foi a correr pelo jardim.

Patros

Por aqui. (As duas creadas assustadas correm e internam-se no jardim)

Marquez

(olhando por entre as arvores) Lá vae correndo... Continúa a gritar... Pobre Electra! (Adeanta-se para o jardim)

Urbano

Que foi isto?

Pantoja

Eu lh’o direi... Um momento... Providenciemos antes de mais nada...

Urbano

O quê?

Pantoja

(procurando coordenar as suas ideias) Deixe-me pensar... Trazel-a para casa já... Ir buscal-a... Vá!

Urbano

(olhando para o jardim) Lá está já o meu sobrinho...

Pantoja

(contrariado) Em que má hora!

Urbano

Correm para elle os meninos... Parece que o informam... Electra foge-lhe... Não o quer vêr... Mette-se na gruta... O Marquez intervem... Pobre Maximo!

Pantoja

Vá! vá ter com elles!... Não deixe que Maximo intervenha...

Urbano

Que balburdia! (Interna-se no jardim)

Pantoja

Se eu podesse... (hesitante em ir e não ir)

Balbina

(voltando pressurosa do jardim) Pobre menina! Chama aos gritos pela sua mãe... Sentou-se agarrada aos meninos á porta da gruta, e ninguem a tira d’ali...

Pantoja

E Maximo?

Balbina

Muito inquieto, sem saber o que ha de fazer, como todos nós... Vou chamar a senhora...

Pantoja

Não, não vá. Já chegaram a senhora superiora e as irmãs de S. José?

Balbina

Já, sim senhor, chegaram agora.

Pantoja

Não diga nada á senhora. Vá para casa e espere por mim.

Balbina

Sim, senhor. (Sobe para casa)

Pantoja

(indeciso e como assustado) Não sei que faça... Pela primeira vez na minha vida hesito... Irei?... Esperarei aqui? (resolvendo-se) Vou. (A poucos passos encontra-se com Maximo, agitado e colerico, que vem do jardim e o detem)

SCENA XI

PANTOJA E MAXIMO

Maximo

(ardentemente em toda a scena) Alto!... Diz-me o marquez de Ronda que d’aqui, depois de uma demorada conversação comsigo, sahiu Electra no delirio em que está.

Pantoja

(perturbado) Aqui... de certo... falamos... A senhorita Electra...

Maximo

Foi mordida pelo monstro.

Pantoja

Talvez... mas o monstro não sou eu. É um mais terrivel, que se alimenta de factos e que se chama a Historia. (Querendo ir-se) Adeus.

Maximo

(agarrando-o fortemente por um braço) Espere. Primeiro vae repetir aqui, já, immediatamente, o que foi que disse a Electra esse seu monstro da Historia...

Pantoja

(sem saber que dizer) Eu... convém assentar préviamente que...

Maximo

Nada de preambulos... Quero aqui a verdade, concreta, exacta, precisa... Electra foi offendida de um modo tão profundo que lhe alterou a razão... Com que palavras, com que suggestões? Preciso de sabel-o prontamente. Trata-se da mulher que é tudo para mim no mundo.

Pantoja

Para mim é mais: é o ceu e a terra.

Maximo

Quero saber, n’este mesmo instante, que horrivel maquinação foi esta, urdida por si, contra essa menina, contra mim, contra nós ambos eternamente unidos pela effusão das nossas almas. Com que baba se envenenou aquella a quem eu posso e devo chamar desde já a minha legitima mulher? Que responde?

Pantoja

Nada.

Maximo

(acommette-o explodindo em colera) Pois por esse infame silencio, mascara impudente e abjecta de um egoismo tão grande que não cabe no mundo; por essa virtude não sei se falsa, se verdadeira, que da sombra desfere o raio que nos aniquilla; (agarra-o pela garganta e derriba-o no banco) por essa doçura que envenena, por essa suavidade que estrangula, Deus te confunda, homem grande ou miseravel reptil, aguia, serpente, ou o que sejas!

Pantoja

(recobrando alento) Que brutalidade! que infamia! que demencia!

Maximo

Bem sei. Estou doido... (Recompondo-se) E quem é que dispõe assim do poder diabolico de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me a esta colera insensata, fazendo-me o estupido aggressor de um ente debil e mesquinho, incapaz de responder á força com a força?

Pantoja

(tomando aprumo) Com a força te respondo. (Voltando á sua condição normal, exprimindo-se com serenidade sentenciosa) Tu és a força do musculo, eu a força da alma. (Maximo olha para elle, attonito e confuso) Posso mais do que tu, infinitamente mais. Duvídas?

Maximo

De que póde mais?

Pantoja

A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho. Eu, injuriado e escarnecido, recobro a serenidade. Tu não. Tu tremes. Tu, que te julgas a força, tu, Maximo, tremes!

Maximo

É a ira. Não a provoque.

Pantoja

Nem a provoco nem a temo. (Cada vez mais senhor de si) Tu maltratas-me. Eu perdôo-te.

Maximo

Que me perdôa a mim! (iracundo) Mas é para o homicidio que assim me empurra!

Pantoja

(com serena e fria gravidade, sem jactancia) Enfurece-te, grita, bate-me... Aqui me tens inabalavel e indifferente... Não ha força humana que me dobre nem poder nenhum da terra que me afaste do meu caminho. Injuria-me, fere-me, mata-me: não me defendo. O martyrio não me repugna. Póde a violencia destruir o meu pobre corpo, que nada vale. Mas o que está aqui (na sua mente) é indestructivel. Na minha vontade só um poder impera: o de Deus. E se a minha vontade se extinguir na morte, a ideia que sustento lhe sobreviverá, triumphante e eterna.

Maximo

Não póde ter ideias grandes quem não tem grandeza, nem piedade, nem ternura, nem compaixão.

Pantoja

O meu fim é mais alto que todos os raciocinios. Para elle me dirijo por qualquer caminho que se me depare.

Maximo

(aterrado) Por qualquer caminho!? Para ir para Deus não ha senão um: o da Bondade Humana. (Com exaltação) Deus do ceu! tu não pódes permittir que ao teu reino se chegue por lobregas e tortuosas alfurjas, nem que á tua gloria se suba calcando os corações que te amam... Não; Deus não permitte isso. Vêr tal absurdo seria vêr toda a Natureza em ruina, toda a maquina do Universo destruida e aniquillada.

Pantoja

Estás offendendo Deus com as tuas palavras blasphemas.

Maximo

Mais o offendes tu com os teus actos sacrilegos.

Pantoja

Basta. Não disputo comtigo. Não tenho mais que dizer-te.

Maximo

Não tem mais? Se ainda me não disse nada! (Segura-o vigorosamente por um braço) Vamos d’aqui ter com Electra, e, na presença d’ella, ou esclarece as minhas dúvidas e me tira da anciedade horrivel em que estou, ou ahi morre, e morro eu, e morreremos todos trez. Assim lh’o juro pela memoria de minha mãe.

Pantoja

(depois de o encarar fixamente) Vamos. (Ao darem os primeiros passos sae Evarista de casa)

SCENA XII

OS MESMOS, EVARISTA E PATROS. Atraz d’Evarista a superiora e as duas irmãs de S. José

Evarista

Que succedeu, Maximo?... Que colera é essa?

Maximo

É este homem que me enlouquece... Venha, tia, venha tambem comnosco... (Vendo a superiora e as irmãs, amedrontado) Que mulheres são aquellas? Que querem essas senhoras? (Chega Patros do jardim, correndo)

Patros

(pesarosa, choramigando) Minha senhora, a senhorita enlouqueceu... Corre, foge, desapparece, chamando em gritos por sua mãe... Não quer que a consolem... não ouve, não vê ninguem, não conhece ninguem!

Evarista

(caminhando para o jardim) Filha da minh’alma!

Maximo

(olhando para o jardim) Ahi vem. (Larga Pantoja e dirige-se a ella)

Patros

O senhor e o snr. Marquez conseguiram convencel-a e trazem-a para casa... (Apparece Electra conduzida pelo marquez e por Urbano. Junto d’elles, Maximo. Ao vêr os que estão em scena Electra oppõe alguma resistencia. Suave e carinhosamente a obrigam a approximar-se. Traz o cabello e o seio adornado de flôrzinhas)