Jardim do palacio de Garcia Yuste. Á direita, a entrada para o palacio, com escadaria larga de poucos degraus. Á esquerda, jogando com a entrada, um corpo de architectura grutesca, ornado com baixos-relevos: junto d’esta construcção, um banco de pedra, em angulo, de risco elegante. Jarrões ou plantas exoticas adornam este terraço, com pavimento de mosaico, entre o edificio e o solo areado do jardim.
No segundo plano e no fundo, o jardim com grandes arvores e macissos de flores. Do centro partem trez arruamentos em curva. O da esquerda leva á rua. Cadeiras de ferro. É de dia.
SCENA I
ELECTRA E PATROS, com um cesto de flores que acabam de colher
Electra
(tirando uma carta da algibeira) Deixa ficar as flores, e aqui tens a carta.
Patros
(pousando as flores) Com esta faz trez desde esta manhã!
Electra
(escolhendo as flores mais pequenas com que fórma tres ramilhetes) São tantas as coisas que Maximo tem que me dizer, e eu a elle...
Patros
Bemdito seja Deus, que da noite de hontem para hoje tanta felicidade lhe deu, senhorita Electra!
Electra
E que depressa, Patros! que rapidamente! como n’um sonho, que tudo se fez! Hontem á noite fiquei pedida, e hoje marcam os tios o dia do casamento...
Patros
E no emtanto, carta para lá, carta para cá... de não acabar nunca...
Electra
Que queres? Se desde hontem nos não podemos vêr como companheiros, na fabrica, porque sômos noivos agora... Temos de nos corresponder por escrito. Na carta das oito horas e um quarto falava-lhe das coisas muito serias que estou impaciente por dizer-lhe. Na das nove e vinte e cinco recommendava-lhe que se não esquecesse da colhér de xarope que tem de se dar a Pepito de duas em duas horas... N’esta agora digo-lhe que a tia foi para a missa e que tem demora... É natural que elle lhe queira falar...
Patros
Até ás onze horas de certo que não volta a senhora da egreja...
Electra
E ás onze vou eu para a missa com o tio. (Atando os tres ramilhetes) Pronto! Este para elle, estes para cada um dos meninos... Um a cada um para que não briguem... (Dispondo-se a compôr o ramo grande) E agora o ramo grande para a Senhora das Dôres... Vae, e volta depressa para me ajudares... Espera resposta—é claro—uma palavra que seja!
Patros
Vou de corrida. (Sae pelo fundo)
Electra
(escolhendo as mais lindas flores para o grande ramo) Hoje, minha querida Mãe Santissima, ha de ser maior a minha offerenda; e a minha pena é que não seja tão grande que fique sem uma só flôr o jardim dos tios... Deante da tua santa imagem queria eu hoje collocar todas as mais lindas coisas da terra: as rosas, as estrellas e os corações amantes... Virgem Maria! consolação e esperança nossa! não me desampareis, levae-me ao bem que te pedi, e que hontem á noite me prometteu a expressão dos teus divinos olhos quando as minhas lagrimas te disseram a gratidão e a esperança da minha alma...!
Patros
(pressurosa pelo fundo) Não trago carta, mas trago um recadinho, que ainda é melhor...
Electra
Que vem cá?
Patros
Logo que saiam uns senhores, que estavam já a despedir-se... Que a menina o espere aqui para lhe falar um momento... Tem de ir a uma conferencia depois...
Electra
(olhando para o fundo) Virá já?...
Patros
Ahi vem.
Electra
(dando-lhe o ramo) Toma lá... para Nossa Senhora... Para a Nossa Senhora do meu quarto, bem entendido! Não é para a do altar do oratorio, toma sentido: é para a da cabeceira da minha cama.
Patros
Pois pudera! (Entra correndo pela escada)
SCENA II
ELECTRA, MAXIMO, depois o MARQUEZ
Maximo
(a distancia, abrindo um pouco os braços) Menina!
Electra
(mesma attitude) Maximo!
Maximo
Aqui estamos embaçados, deante um do outro, sem saber que dizer.
Electra
Embaçadissimos. Começa tu.
Maximo
Tu... para te desacanhares... Dize-me uma grande mentira: que me não amas.
Electra
Dize-me primeiro tu uma grande verdade.
Maximo
Que te adoro. (Approximam-se)
Electra
Em paga d’essa mentira toma esta rosa que te escolhi, sem brilho, pequena, singela, humilde, como eu quero ser para ti.
Maximo
Tu tens um grande coração e um alto espirito...
Electra
Não tenho; mas gostava de ser ainda mais tôsca e mais informe do que sou para que tu me ensinasses tudo, e eu não tivesse nada que não fôsse teu.
Maximo
Deus fez de ti a sua obra mais preciosa...
Electra
E deu-te essa obra, que é apenas o esboço d’uma creatura humana, para que tu a completes e aperfeiçôes.
Maximo
Para que eu a enthronise e a corôe, deixando desenvolver-se d’ella a immortal flôr de humanidade, que é a simples mulher da casa, forte, pura, alegre e compadecida. (Consulta o relogio)
Electra
Tens essa conferencia... Vae á tua obrigação... Não te demorarás muito?
Maximo
Virei encontrar-me com a tia quando ella vier da missa.
Electra
E o marquez, desde hontem... voltou como tinha dito?
Maximo
Deixei-o agora na fabrica a escrever ao tabellião. Incomparavel amigo!... Hontem á noite—sabes?—contei-lhe, ao voltar para casa, o teu romance paterno... esse romance dos dois capitulos... Indignou-o a intervenção despotica de Pantoja e de Cuesta na tua vida; e essa lamentavel historia mais ainda o fortaleceu na firme determinação de defender-nos...
Electra
(surprehendida) Mas então precisamos ainda de que nos defendam?
Maximo
No essencial é claro que não... Mas quem nos assegura que esses dois homens não tentem oppôr-nos alguns obstaculos de jurisdicção theorica?
Electra
(tranquillisando-se) D’essa jurisdicção nos riremos nós.
Maximo
Mas rindo, rindo, teremos de a prevenir e de a annullar.
Marquez
(pressuroso pelo fundo) Então ainda aqui?
Maximo
Falavamos de si, e deliberavamos nomeal-o procurador dos nossos negocios de familia...
Marquez
Acceito a procuração... (Reprehendendo-o com doçura) Mas, homem, que se lhe faz tarde!
Maximo
Adeus, adeus! até já.
Electra
(vendo-o partir) Vae, e vem depressa.
SCENA III
ELECTRA E O MARQUEZ
Marquez
Ahi está o que é um galan de categoria scientifica... Parabens pelo achado d’esta preciosidade rara. A graça e a alegria da sua edade precisava da alliança de uma razão grave e de um coração firme, como o d’este homem. É elle, entre quantos eu conheço, o mais perfeitamente destinado para fazer da minha querida menina uma grande e exemplar mulher.
Electra
Fará de mim o que elle quizer que eu seja. (Com muita curiosidade) Mas diga-me, snr. de Ronda, conheceu a primeira mulher de Maximo? Perdôe-me esta curiosidade, e não extranhe que eu deseje saber da vida toda do homem que amo.
Marquez
Não convivi com ella... Vi-a com Maximo uma ou duas vezes. Era uma vascongada, sêcca, vulgar, pouco intelligente, bôa esposa para um lar tranquillo mas sem felicidade...
Electra
Os paes d’elle sim, conheceu-os muito?
Marquez
A mãe nunca a vi. Era uma senhora franceza, de alto merito. Foi em môça uma das amigas de minha mulher. O pae, Lazaro de Yuste, conheci-o ha trinta annos em Hispanha e em França. Era homem muito intelligente, bem parecido, felicissimo em negocios de minas, e não menos afortunado em negocios de amor. Era falado.
Electra
N’esse ponto não se parece com elle o filho, que é a austeridade em pessôa.
Marquez
De certo que sim. O seu futuro marido, minha querida Electra, é o modelo dos homens, e a honra de uma geração muito mais perfeita do que infelizmente foi a minha. Para que nada lhe falte, esse portentoso magico até é rico... rico pelo que lhe deixou o pae e mais rico ainda pelo que herdou agora dos tios de França. Que mais quer? Peça por bôca, e verá como Deus lhe responde: «Menina, não tenho mais que lhe dar.»
Electra
(suspirando) Ai!... E agora, outra coisa... diga-me, meu querido Marquez: posso estar socegada?
Marquez
Inteiramente.
Electra
Escuso de ter medo das pessôas...—já lhe disseram—das pessôas que se julgam com sufficiente auctoridade...
Marquez
Essas pessôas poderão talvez incommodar-nos passageiramente, emquanto nós não resolvermos encurtar-lhes os vôos.
Electra
O snr. de Cuesta...
Marquez
Esse não é de cuidado. Ainda hoje lhe falei, e estou certo de que nos dará o seu mais convicto assentimento.
Electra
O snr. de Pantoja...
Marquez
Esse ha de resmungar um pouco mais, e pretenderá fazer-nos ouvir as trombetas biblicas para nos assustar; mas não lhe tenha medo.
Electra
Deveras?
Marquez
Não vale nada.
Electra
Não tenho de que me atterrar quando o encontre?
Marquez
Não mais que da importunidade de um mosquito.
Electra
Que allivio me dá! (Com enthusiasmo carinhoso) Deus lhe pague! Deus o bemdiga, snr. de Ronda!
Marquez
(muito affectuoso) Deus será comvosco.
SCENA IV
OS MESMOS E URBANO, vindo de casa, de chapeu na cabeça
Urbano
Marquez, bons dias.
Marquez
Querido Urbano, posso falar comsigo?
Urbano
Não lhe faz differença depois da missa...? (A Electra) Então, rapariga, que vagares são esses? Está a tocar.
Electra
Só tenho que pôr o chapeu. Meio minuto, tio. (Entra correndo em casa)
SCENA V
MARQUEZ E URBANO
Marquez
Temos de pôr dia para o casamento, e de fazer escriptura de consentimento em regra.
Urbano
Será talvez melhor que você trate de tudo directamente com minha mulher.
Marquez
Mas, meu amigo, chegou o momento de fazer frente a certas ingerencias que annullam a sua auctoridade de chefe de familia.
Urbano
Meu caro de Ronda, peça-me você que altere, que transtorne todo o systema planetario, que tire os astros d’aqui assim e que os ponha para acolá; mas não peça coisa nenhuma que seja contraria ao parecer de minha mulher.
Marquez
Homem, isso tambem lá me parece submissão de mais!... Eu pela minha parte insisto em que devo tratar este negocio particularmente com você e não com Evarista.
Urbano
Vamos á missa e depois falaremos.
Marquez
Pois vamos lá, eu tambem vou.
SCENA VI
OS MESMOS, ELECTRA, EVARISTA E PANTOJA
Electra
(de chapeu, luvas, livro de missa) Pronta.
Urbano
Vamos. O Marquez vae comnosco.
Evarista
(pelo fundo, á esquerda, seguida de Pantoja) Vão ligeiros.
Pantoja
Depressa, se querem chegar.
Evarista
O marquez volta?
Marquez
Infalibillissimamente, minha senhora.
Evarista
Até logo. (Saem Electra, o marquez e Urbano pelo fundo, á esquerda)
SCENA VII
EVARISTA E PANTOJA, que com mostras de cansaço e desalento se atira para o banco da esquerda, primeiro plano.
Evarista
Entramos?
Pantoja
Perdão: deixe-me respirar por um momento. Na egreja abafava-se... com o calôr, com o apertão de gente...
Evarista
Vou-lhe mandar vir alguma coisa fresca... (chamando) Balbina!
Pantoja
Não, obrigado.
Evarista
Uma taça de tilia...
Pantoja
Tambem não. (Na occasião de Balbina sahir, a senhora dá-lhe a mantilha, que acaba de tirar, e o livro de missa)
Evarista
Não ha motivo, emquanto a mim, para nos affligirmos tanto...
Pantoja
Não é, como querem dizer, o meu orgulho; é n’um ponto mais delicado e mais profundo que eu me sinto ferido. Nega-se-me a consolação e a gloria de dirigir essa creatura e de a levar commigo pelo caminho do bem. E vejo com grande magoa que você, tão affecta aos meus principios, e que eu considerava uma fiel amiga e uma fervorosa alliada, me abandona na hora critica.
Evarista
Perdoe-me, D. Salvador. Eu não o abandono. Estavamos inteiramente de accordo, com relação a Electra, em guardal-a por algum tempo—nunca se tratou de a encerrar para sempre—em S. José da Penitencia, attendendo á disciplina e purificação d’aquella casa... Mas surge agora repentinamente esta inesperada veneta de Maximo, e eu não posso, realmente, não posso de modo nenhum recusar o meu consentimento... É uma loucura? será... Mas de Maximo, como homem de honrado e correcto procedimento, que tem que dizer?
Pantoja
Nada. (corrigindo-se) Isto é: alguma coisa poderia talvez... Mas, por agora, o que unicamente digo é que Electra não está preparada para o casamento, não tem aptidão para eleger marido... Não reprovo em absoluto que se case, quando seja com um homem cujas ideias a não pervertam... Mas este ponto é para mais tarde... O essencial n’este momento é que essa tenra creatura entre quanto antes no sagrado asylo, onde nos cumpre estudar, com o tacto mais subtil e mais carinhoso, a configuração do seu caracter, as suas predilecções, as suas tendencias, os seus affectos; e em vista do que observarmos, fundamentadamente e seguramente depois d’este prévio exame, resolveremos... (Altaneiro) Que ha que dizer a isto?—pergunto eu agora.
Evarista
(acobardada) O que digo é que para esse plano... na realidade perfeito... eu não posso, não ouso offerecer-lhe a minha cooperação.
Pantoja
(com arrogancia, passeando) De modo que, segundo os seus caridosos principios, se Electra se quer perder, que se perca!... que importa?... Se ella quer condemnar a sua alma, que a condemne!... Que temos nós com isso?
Evarista
(com maior timidez, suggestionada) Perder-se! condemnar-se! E está porventura na minha mão evital-o?
Pantoja
(com energia) Está.
Evarista
Oh! não... Não tenho a audacia de intervir... E com que direito?... Impossivel, Salvador, impossivel...
Pantoja
(affirmando mais a sua auctoridade) Saiba, minha amiga, que o acto de apartar Electra de um mundo nefasto, em que por todos os lados a rodeiam appetites e voracidades ferozes, não é um despotismo: é o amor na expressão mais alta e mais pura do carinho paternal. Ainda por acaso ignora, Evarista, que o fim supremo e unico da minha vida não é hoje outro senão o bem d’esta menina?
Evarista
(acobardando-se mais) Bem sei que é assim.
Pantoja
(com effusão) Eu amo Electra com um amor que as grosseiras palavras do homem não podem definir. Desde que os meus olhos a viram, a voz do sangue me bradou do mais fundo do meu ser que essa creatura me pertence... Quero têl-a, e devo têl-a, santamente, debaixo do meu dominio paternal... Quero que ella me ame como os anjos amam... que seja a pura imagem da minha crença, o limpido espelho do meu eterno ideal... que se reconheça obrigada a padecer por aquelles que lhe deram a vida, e purificando-se pela mortificação, nos ajude a nós, que fômos maus, a alcançar o perdão de Deus... Não comprehende estas coisas, Evarista?
Evarista
(abatida) Comprehendo-as e profundamente admiro a elevação do seu entendimento.
Pantoja
Menos admiração e mais eficacia em meu auxilio é o que lhe peço.
Evarista
Não posso... (Senta-se chorosa e abatida)
Pantoja
É bem natural que Electra lhe não mereça o mesmo interesse que tão profundamente me inspira a mim. (Empregando suavidades de persuasão) Convenho em que n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar algum tanto o seu brusco apartamento das alegrias mundanas, mas muito rapidamente se adaptará á dôce paz, á venturosa quietação do claustro... Eu a dotarei amplissimamente. Tudo quanto tenho será para ella, para o esplendor da sua santa casa... Será nomeada Superiora, e sob a minha auctoridade, e pelo meu conselho, governará a congregação... (Com profunda commoção) Que celestial ventura, meu Deus! Que felicidade para ella, e para mim! (Fica-se como em extase)
Evarista
Comprehendo que por não acceder ao que deseja de mim eu privo talvez uma creatura de chegar ao estado mais perfeito da condição humana... Conhece bem os meus sentimentos, Salvador... Sabe com quanto prazer eu trocaria sem vacillar toda a opulencia em que vivo pela gloria de dirigir obscuramente uma modesta casa religiosa do maior trabalho e da maior humildade! Sempre o admirei pela sua larga protecção a S. José da Penitencia, e subiu de ponto essa admiração quando soube que redobrou o seu auxilio desde a occasião em que a minha pobre Eleuteria foi procurar n’esse instituto o esquecimento, a paz e o perdão dos seus erros de amor, como os de Magdalena. N’esse acto da vida do rico snr. de Pantoja se me revelou a espiritualidade mais pura a que se pode elevar um homem.
Pantoja
Sim: desde que a sua desventurada prima deu entrada n’aquelle sagrado asylo, a minha protecção não sómente se tornou mais positiva mas ainda mais espiritual. Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus olhos em Eleuteria depois de convertida, porque de ninguem—nem de mim!—ella se tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram os cabellos e lhe botaram o escapulario. Mas eu ia quotidianamente á egreja; e invisivel do côro, n’um recanto da nave, praticava em espirito com a penitente, considerando-a tão perfeitamente regenerada como eu proprio o estava. Morreu a infeliz aos quarenta e cinco annos da sua edade. Então obtive o consentimento de uma sepultura no interior do edificio. E desde esse dia não protegi mais a congregação, tornei-a inteiramente minha, porque n’ella repousavam debaixo da pedra de uma campa os restos d’aquella que eu amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos o arrependimento, ella na paz da morte, eu na tempestuosa provação da vida...
Evarista
E ainda agora aquelle a que bem podemos chamar o senhor e o reformador do convento, todos os dias, sem excepção de um unico, visita aquella santa casa e se ajoelha no cemiterio humilde e docemente poetico, onde as monjas dormem o somno eterno.
Pantoja
(vivamente) Sabia isso?
Evarista
Sabia... E que no claustro, silencioso e florido, entre loendros e cyprestes...
Pantoja
É certo... quem lh’o disse?
Evarista
...vagueia, como um propicio phantasma da saudade, o sombrio fundador d’aquella casa, implorando de Deus o descanço d’ella e o seu.
Pantoja
Sim... Ali repousarão tambem os meus pobres ossos. (Com vehemencia) Quero, além d’isso, que assim como em espirito eu me não aparto por um só momento d’aquella casa, ahi passe tambem, pelo tempo que fôr preciso, o espirito de Electra... Não a violentarei á vida claustral; mas se, experimentando essa existencia, e apreciando o seu incomparavel sabor, ella deliberasse persistir na clausura, eu acreditaria então que Deus me destinara para a mais ineffavel graça. Ali as cinzas adoradas da peccadora redimida; ali, na candida alvura do seu habito de noviça, a minha filha; ali eu, pedindo a Deus para ellas a gloria eterna. E na morte, o escondido e imperturbado repouso na mesma terra amada,—todos os meus amores commigo e todos nós em Deus...
Evarista
(com viva commoção) Perfeita grandeza, por certo... Idealidade incomparavel.
Pantoja
Duvída ainda de que o meu pensamento seja o mais elevado? De que me não move nenhuma paixão ruim?
Evarista
Como quer que duvíde?
Pantoja
Pois se com effeito lhe parece bello o meu plano, porque me não ajuda a realisal-o?
Evarista
Porque me não considero com poderes para isso.
Pantoja
Nem assegurando-lhe eu que a reclusão de Electra terá um caracter provisorio?
Evarista
Nem assim. Não, D. Salvador, não conte commigo... (luctando com a sua consciencia) Reconheço toda a elevação, toda a formosura das suas ideias... D’ellas sinto um ecco suave e acariciador na minha propria alma. Mas—que quer, meu bom amigo—vivo no mundo em que Deus me collocou: tenho tambem para com este mundo deveres sagrados. Dêvo-me, com aquelles que me rodeiam, á vida social; e na vida da sociedade e da familia o seu projecto é... como lh’o direi, sem o magoar?... é uma anomalia angelica.
Pantoja
(dissimulando o seu enfado) Bem. Paciencia... (Passeia caviloso e sombrio)
Evarista
(depois de uma pausa) Em que pensa? Desiste?
Pantoja
(com naturalidade e firmeza) Não, minha senhora.
Evarista
Qual então o seu projecto?
Pantoja
Não sei... Ha de acudir-me uma ideia... Pensarei... (Resolvendo-se) Minha cara amiga, quer fazer-me o favor de escrever uma carta á superiora da Penitencia?
Evarista
Dizendo-lhe...?
Pantoja
Que venha aqui immediatamente, com duas irmãs, n’uma carruagem.
Evarista
Porque lhe não escreve directamente?
Pantoja
Porque tenho de acudir a outras coisas.
Evarista
Quer já?
Pantoja
O mais breve possivel...
Evarista
Bem. (Dirige-se para casa)
Pantoja
Peço-lhe que mande a carta sem perda de tempo.
Evarista
(olhando do alto da escada para o jardim) Creio que elles ahi vem.
Pantoja
Depressa a carta, minha cara amiga.
Evarista
Vae já... Deus nos inspire a todos. (Entra em casa)
Pantoja
Lá vou ter. (Áparte) Que me não vejam! (Esconde-se atraz do macisso da direita junto da escada)
SCENA VIII
PANTOJA, occulto; ELECTRA, URBANO, MARQUEZ, que voltam da missa—PATROS, que desce de casa.
Electra
(adeantando-se encontra-se com Patros junto da escada) Veio?
Patros
Não, senhorita. (Ouve-se o canto afastado dos meninos que brincam no jardim)
Electra
Morro de impaciencia. (Tira o chapeu e as luvas, que entrega a Patros com o livro de missa) Vou brincar com os pequenos emquanto espero... Não... Vou apanhar flôres. (Colhe algumas no macisso da esquerda)
Urbano
(a Patros) A senhora?
Patros
Em casa.
Marquez
Vamos ter com ella.
Urbano
Vamos a isso. (Entram em casa. Patros segue-os)
Electra
(admirando as flôres que acaba de cortar) Que lindos, que graciosos rainunculos! (Pantoja apparece e Electra assusta-se ao vêl-o) Ai!
SCENA IX
ELECTRA E PANTOJA
Pantoja
Assim te assusto, minha filha?
Electra
É verdade... Não posso evital-o... Que quer? Bem sei que não devia, e que não tenho de que ter medo... Perdôe-me por quem é, D. Salvador... Vou jogar ao côrro com os pequenos...
Pantoja
Um momento. Vaes aos meninos para que elles te dêem da sua alegria?
Electra
Não, hoje não; vou repartir com elles da que trasborda da minha alma. (Afasta-se o canto de roda dos meninos)
Pantoja
Já sei a causa d’essa grande alegria, já a sei...
Electra
Uma vez que sabe, não tenho então que lhe contar. Até logo snr. de Pantoja.
Pantoja
Ingrata! Concede-me um instante...
Electra
Um instantinho só?
Pantoja
Unicamente.
Electra
Bom. (Senta-se no banco de pedra. Colloca a um lado as flôres e vae escolhendo aquellas com que se touca, mettendo-as no cabello)
Pantoja
Não sei porque tens reservas commigo sabendo quanto me interesso pela tua felicidade e pela tua vida...
Electra
(sem olhar para elle, attenta ás flôres) Pois, se o interessa a minha felicidade, alegre-se commigo: sou a creatura feliz.
Pantoja
Feliz hoje. E amanhã?
Electra
Amanhã mais feliz do que hoje... E sempre mais, sempre o mesmo!
Pantoja
A alegria verdadeira e constante, o goso perenne e indestructivel só existem no amor eterno, superior ás inquietações e ás miserias humanas.
Electra
(adornado o cabello, põe flôres no seio e no cinto) Toca-me outra vez no antigo registro de que tenho de ser anjo... Sou uma pobre pessoasinha summamente terrestre, D. Salvador. Deus fez-me para mulher, e botou-me a este mundo. Já vê que, se estou aqui, é porque elle não precisava de mim para o ceu n’esta occasião.
Pantoja
Ha tambem anjos na terra, minha filha. Anjos são todos aquelles que no meio das desordens da materia sabem viver a pura vida do espirito.
Electra
(mostrando o collo e o busto ornados de florinhas. Ouve-se mais perto o coro dos meninos) Que tal? não lhe pareço um anjo?
Pantoja
Pareces, e quero que o sejas.
Electra
Assim me adorno para divertir os meninos. Se visse a graça que elles me acham! (Com uma triste ideia subita) Sabe com que eu me estou parecendo agora? Com um menino morto. Assim se enfeitam os meninos quando os levam a enterrar.
Pantoja
Para symbolisar a ideal belleza do ceu para onde elles vão.
Electra
(arrancando as flôres) Não, isso não, não quero parecer menina morta. Dá-me a ideia de que vem o snr. de Pantoja para me levar á sepultura!
Pantoja
Oh! eu não te quero enterrada. Quereria rodear-te de luz. (Vae esmorecendo e cessa de todo o côro dos meninos)
Electra
Tambem se põem luzes aos meninos mortos.
Pantoja
Não quero a tua morte, quero a tua vida; não a vida inquieta e vulgar, mas dôce, livre, elevada, amorosa, com um eterno e puro amor divino.
Electra
(Confusa) E porque é que me deseja tudo isso?
Pantoja
Porque te quero muito, com um amor mais excelso que todos os amores humanos. Melhor comprehenderás a grandeza d’este affecto, dizendo-te que para evitar-te a mais leve dôr eu tomaria para mim os mais espantosos tormentos que se possam imaginar.
Electra
(estonteada, sem entender bem) É o cumulo da abnegação uma coisa d’essas.
Pantoja
Considera agora quanto soffrerei por não poder evitar um desgostosinho, um dissabor, que te vou dar.
Electra
A mim?
Pantoja
A ti mesma.
Electra
Um desgosto?
Pantoja
Desgosto que mais me afflige por ter de ser eu que t’o cause.
Electra
(rebelando-se, levanta-se) Desgostos! Não os quero. Não os acceito. Guarde-os. Que ninguem hoje me traga senão alegrias!
Pantoja
(condoído) Bem quizera dar-t’as, mas não posso.
Electra
Que terror que tenho! (Com subita ideia que a tranquillisa) Ah! já sei... Pobre D. Salvador!... É que me quer dizer mal de Maximo... Alguma coisa que lhe parece mal, mas que a mim me parece bem... Escusa de se cançar porque nem me convence nem o acredito. (Precipitando-se na emissão das palavras sem dar tempo a que Pantoja fale) Maximo é o maior e o melhor homem do mundo, é o primeiro, e todo aquelle que me disser uma palavra contraria a esta verdade, mente, e detesto-o pela mentira, e detesto-o...
Pantoja
Por Deus, minha filha! Não te arrebates assim... Ouve. Eu não digo mal de ninguem, nem dos que me odeiam. Maximo é bom, é trabalhador, é intelligentissimo... Que mais queres?
Electra
(satisfeita) Assim, continue assim... Vae dizendo muito bem.
Pantoja
Digo mais ainda: que podes amal-o, que deves amal-o...
Electra
(com alegria) Ah!
Pantoja
Amal-o entranhadamente... (Pausa) A culpa não é d’elle, não é...
Electra
(assustada outra vez) Querem vêr que ainda acaba por lhe attribuir maldades?
Pantoja
A elle não.
Electra
Então a quem? (Recordando-se) Ah! adivinho: o snr. de Pantoja e o pae de Maximo foram implacaveis inimigos. Tambem me disseram já que esse senhor de Yuste, honradissimo nos seus negocios, foi, talvez, um pouco demais galanteador e mundanario... Mas que me importa isso?
Pantoja
Pobre innocente! não sabes o que dizes.
Electra
Digo que esse excellente homem...
Pantoja
Lazaro Yuste, sim... Ao nomeal-o tenho de associar a sua triste memoria á de uma pessoa que já não vive... muito querida de ti...
Electra
(comprehendendo e não querendo comprehender) De mim!
Pantoja
Que morreu, e a quem tu muito queres. (Pausa. Olham um para o outro)
Electra
(com terror e em voz apenas perceptivel) Minha mãe! (Pantoja faz um signal affirmativo) Minha mãe! (Attonita, desejando e temendo uma explicação)
Pantoja
Chegaram os dias de perdão. Perdoemos.
Electra
(indignada) Minha mãe, a minha pobre mãe! Não falam d’ella senão para a deshonrar, para a denegrir... E ultrajam-a aquelles mesmos que a envilleceram! Pudesse eu tel-os a todos na mão para os desfazer, para os destruir, para não deixar d’elles nem uma migalha assim!
Pantoja
Terias que principiar por Lazaro Yuste.
Electra
O pae de Maximo!
Pantoja
O primeiro depravador da desgraçada Eleuteria.
Electra
Quem é que o diz?
Pantoja
Quem o sabe.
Electra
E... (Fixam-se nos olhos. Electra não se atreve a expôr a sua ideia)
Pantoja
Triste de mim!... Não deveria falar-te d’isto. Dera para o esconder todos os dias que me restam de vida. Comprehenderás que não podia ser... O meu amor por ti ordena-me que fale.
Electra
(angustiada) Meu Deus! e ter eu de ouvil-o!
Pantoja
Disse eu que foi Lazaro Yuste...
Electra
(tapando os ouvidos) Não quero, não quero ouvir.
Pantoja
Tinha então tua mãe a edade que tens agora: desoito annos...
Electra
Não acredito, não acredito...
Pantoja
Era uma jovem senhora encantadora, quasi uma creança, que supportou com a mais corajosa dignidade o horror d’aquella vergonha...
Electra
(rebelando-se com energia) Cale-se! Cale-se!
Pantoja
A vergonha do nascimento de Maximo.
Electra
(apavorada, com o rosto demudado, recua cravando os olhos em Pantoja) Ah!
Pantoja
Procurando com discrição attenuar a affronta da sua victima, Lazaro occultou o menino e levou-o misteriosamente comsigo para França.
Electra
A mãe de Maximo foi uma senhora franceza: Josephina Perret.
Pantoja
Mãe adoptiva.
Electra
(tapando os olhos com ambas as mãos) Divino Jesus! É o ceu que desaba...
Pantoja
(condoído) Filha da minha alma, volve para Deus os teus olhos.
Electra
(demudada) É um sonho... Tudo o que estou vendo é illusão, é mentira. (Olhando espantadamente para uma parte e para outra) Mentira estas arvores, esta casa, este ceu... Mentira tu! tu! tu, que não existes, monstro d’um pesadelo horrivel!... (Com os punhos na cabeça) Acorda, desgraçada, acorda!
Pantoja
(tentando socegal-a) Electra, querida Electra! Pobre innocente!
Electra
(com um grito d’alma) Mãe, minha mãe!... A verdade, dize-me a verdade... (Fóra de si percorre a scena) Onde estás, mãe?... Quero a morte ou a verdade... Minha mãe! minha mãe!... (Sae pelo fundo, perdendo-se na longinqua espessura das arvores. Ouve-se proximo o canto dos meninos jogando ao côrro)
SCENA X
PANTOJA, URBANO, MARQUEZ, vindos de casa, á pressa. Depois d’elles BALBINA E PATROS
Urbano
Que é?
Marquez
Ouvimos gritar Electra.
Balbina
Foi a correr pelo jardim.
Patros
Por aqui. (As duas creadas assustadas correm e internam-se no jardim)
Marquez
(olhando por entre as arvores) Lá vae correndo... Continúa a gritar... Pobre Electra! (Adeanta-se para o jardim)
Urbano
Que foi isto?
Pantoja
Eu lh’o direi... Um momento... Providenciemos antes de mais nada...
Urbano
O quê?
Pantoja
(procurando coordenar as suas ideias) Deixe-me pensar... Trazel-a para casa já... Ir buscal-a... Vá!
Urbano
(olhando para o jardim) Lá está já o meu sobrinho...
Pantoja
(contrariado) Em que má hora!
Urbano
Correm para elle os meninos... Parece que o informam... Electra foge-lhe... Não o quer vêr... Mette-se na gruta... O Marquez intervem... Pobre Maximo!
Pantoja
Vá! vá ter com elles!... Não deixe que Maximo intervenha...
Urbano
Que balburdia! (Interna-se no jardim)
Pantoja
Se eu podesse... (hesitante em ir e não ir)
Balbina
(voltando pressurosa do jardim) Pobre menina! Chama aos gritos pela sua mãe... Sentou-se agarrada aos meninos á porta da gruta, e ninguem a tira d’ali...
Pantoja
E Maximo?
Balbina
Muito inquieto, sem saber o que ha de fazer, como todos nós... Vou chamar a senhora...
Pantoja
Não, não vá. Já chegaram a senhora superiora e as irmãs de S. José?
Balbina
Já, sim senhor, chegaram agora.
Pantoja
Não diga nada á senhora. Vá para casa e espere por mim.
Balbina
Sim, senhor. (Sobe para casa)
Pantoja
(indeciso e como assustado) Não sei que faça... Pela primeira vez na minha vida hesito... Irei?... Esperarei aqui? (resolvendo-se) Vou. (A poucos passos encontra-se com Maximo, agitado e colerico, que vem do jardim e o detem)
SCENA XI
PANTOJA E MAXIMO
Maximo
(ardentemente em toda a scena) Alto!... Diz-me o marquez de Ronda que d’aqui, depois de uma demorada conversação comsigo, sahiu Electra no delirio em que está.
Pantoja
(perturbado) Aqui... de certo... falamos... A senhorita Electra...
Maximo
Foi mordida pelo monstro.
Pantoja
Talvez... mas o monstro não sou eu. É um mais terrivel, que se alimenta de factos e que se chama a Historia. (Querendo ir-se) Adeus.
Maximo
(agarrando-o fortemente por um braço) Espere. Primeiro vae repetir aqui, já, immediatamente, o que foi que disse a Electra esse seu monstro da Historia...
Pantoja
(sem saber que dizer) Eu... convém assentar préviamente que...
Maximo
Nada de preambulos... Quero aqui a verdade, concreta, exacta, precisa... Electra foi offendida de um modo tão profundo que lhe alterou a razão... Com que palavras, com que suggestões? Preciso de sabel-o prontamente. Trata-se da mulher que é tudo para mim no mundo.
Pantoja
Para mim é mais: é o ceu e a terra.
Maximo
Quero saber, n’este mesmo instante, que horrivel maquinação foi esta, urdida por si, contra essa menina, contra mim, contra nós ambos eternamente unidos pela effusão das nossas almas. Com que baba se envenenou aquella a quem eu posso e devo chamar desde já a minha legitima mulher? Que responde?
Pantoja
Nada.
Maximo
(acommette-o explodindo em colera) Pois por esse infame silencio, mascara impudente e abjecta de um egoismo tão grande que não cabe no mundo; por essa virtude não sei se falsa, se verdadeira, que da sombra desfere o raio que nos aniquilla; (agarra-o pela garganta e derriba-o no banco) por essa doçura que envenena, por essa suavidade que estrangula, Deus te confunda, homem grande ou miseravel reptil, aguia, serpente, ou o que sejas!
Pantoja
(recobrando alento) Que brutalidade! que infamia! que demencia!
Maximo
Bem sei. Estou doido... (Recompondo-se) E quem é que dispõe assim do poder diabolico de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me a esta colera insensata, fazendo-me o estupido aggressor de um ente debil e mesquinho, incapaz de responder á força com a força?
Pantoja
(tomando aprumo) Com a força te respondo. (Voltando á sua condição normal, exprimindo-se com serenidade sentenciosa) Tu és a força do musculo, eu a força da alma. (Maximo olha para elle, attonito e confuso) Posso mais do que tu, infinitamente mais. Duvídas?
Maximo
De que póde mais?
Pantoja
A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho. Eu, injuriado e escarnecido, recobro a serenidade. Tu não. Tu tremes. Tu, que te julgas a força, tu, Maximo, tremes!
Maximo
É a ira. Não a provoque.
Pantoja
Nem a provoco nem a temo. (Cada vez mais senhor de si) Tu maltratas-me. Eu perdôo-te.
Maximo
Que me perdôa a mim! (iracundo) Mas é para o homicidio que assim me empurra!
Pantoja
(com serena e fria gravidade, sem jactancia) Enfurece-te, grita, bate-me... Aqui me tens inabalavel e indifferente... Não ha força humana que me dobre nem poder nenhum da terra que me afaste do meu caminho. Injuria-me, fere-me, mata-me: não me defendo. O martyrio não me repugna. Póde a violencia destruir o meu pobre corpo, que nada vale. Mas o que está aqui (na sua mente) é indestructivel. Na minha vontade só um poder impera: o de Deus. E se a minha vontade se extinguir na morte, a ideia que sustento lhe sobreviverá, triumphante e eterna.
Maximo
Não póde ter ideias grandes quem não tem grandeza, nem piedade, nem ternura, nem compaixão.
Pantoja
O meu fim é mais alto que todos os raciocinios. Para elle me dirijo por qualquer caminho que se me depare.
Maximo
(aterrado) Por qualquer caminho!? Para ir para Deus não ha senão um: o da Bondade Humana. (Com exaltação) Deus do ceu! tu não pódes permittir que ao teu reino se chegue por lobregas e tortuosas alfurjas, nem que á tua gloria se suba calcando os corações que te amam... Não; Deus não permitte isso. Vêr tal absurdo seria vêr toda a Natureza em ruina, toda a maquina do Universo destruida e aniquillada.
Pantoja
Estás offendendo Deus com as tuas palavras blasphemas.
Maximo
Mais o offendes tu com os teus actos sacrilegos.
Pantoja
Basta. Não disputo comtigo. Não tenho mais que dizer-te.
Maximo
Não tem mais? Se ainda me não disse nada! (Segura-o vigorosamente por um braço) Vamos d’aqui ter com Electra, e, na presença d’ella, ou esclarece as minhas dúvidas e me tira da anciedade horrivel em que estou, ou ahi morre, e morro eu, e morreremos todos trez. Assim lh’o juro pela memoria de minha mãe.
Pantoja
(depois de o encarar fixamente) Vamos. (Ao darem os primeiros passos sae Evarista de casa)
SCENA XII
OS MESMOS, EVARISTA E PATROS. Atraz d’Evarista a superiora e as duas irmãs de S. José
Evarista
Que succedeu, Maximo?... Que colera é essa?
Maximo
É este homem que me enlouquece... Venha, tia, venha tambem comnosco... (Vendo a superiora e as irmãs, amedrontado) Que mulheres são aquellas? Que querem essas senhoras? (Chega Patros do jardim, correndo)
Patros
(pesarosa, choramigando) Minha senhora, a senhorita enlouqueceu... Corre, foge, desapparece, chamando em gritos por sua mãe... Não quer que a consolem... não ouve, não vê ninguem, não conhece ninguem!
Evarista
(caminhando para o jardim) Filha da minh’alma!
Maximo
(olhando para o jardim) Ahi vem. (Larga Pantoja e dirige-se a ella)
Patros
O senhor e o snr. Marquez conseguiram convencel-a e trazem-a para casa... (Apparece Electra conduzida pelo marquez e por Urbano. Junto d’elles, Maximo. Ao vêr os que estão em scena Electra oppõe alguma resistencia. Suave e carinhosamente a obrigam a approximar-se. Traz o cabello e o seio adornado de flôrzinhas)