Sala do locutorio em S. José da Penitencia. Portas lateraes.
Ao fundo uma grande janela d’onde se vê o claustro.
SCENA I
EVARISTA E SOROR DOROTHÊA
Evarista
(entrando com a freira) D. Salvador...?
Dorothêa
Chegou ha um momento: está no escritorio com a superiora e com a madre escrivã.
Evarista
Então Urbano lá irá ter com elle... Emquanto esperamos, dê-me noticias de Electra... Foi muito feliz a escolha que fizeram de si, irmã Dorothêa—tão sympathica e tão dôce—para a acompanhar, para viver com ella, para ser a sua amiga e a sua confidente...
Dorothêa
Electra não me quer mal, e é talvez certo que por essa razão algum tanto contribuirei para a socegar.
Evarista
(aponta para a cabeça) E como está ella de...?
Dorothêa
Bem. Recuperou inteiramente a razão, e não tem nenhum vestigio de delirio, a não ser ainda aquella ideia fixa de querer vêr a mãe, de lhe falar, de ter d’ella a solução das suas dúvidas. Todo o tempo que tem livre das obrigações religiosas, e todo o que póde alcançar, o passa no pateo do nosso cemiterio, e na horta contigua; e tanto ahi como no dormitorio, sempre a mesma preoccupação a absorve.
Evarista
E lembra-se de Maximo? fala d’elle?
Dorothêa
Fala: mas nas suas meditações e nas suas rezas a ideia que mais acaricia é de poder amal-o como um irmão, e, pelo que ainda hoje me disse, espera conseguil-o.
Evarista
Mas é uma ideia apenas! É preciso que a essa ideia se associe o coração... E bem poderia ser que assim succedesse se a desgraça de antes d’hontem não viesse alterar o seguimento dos factos...
Dorothêa
Uma desgraça!...
Evarista
Morreu o nosso velho amigo D. Leonardo Cuesta...
Dorothêa
Não sabia...
Evarista
Que immensa tristeza para todos nós! Ha dias que se sentia mal, e presagiava o seu fim. Sahiu na segunda feira muito cêdo, e na rua perdeu os sentidos. Levaram-o para casa, e ás tres horas da tarde estava morto.
Dorothêa
Pobre senhor!
Evarista
No testamento nomeia Electra herdeira de metade da sua grande fortuna...
Dorothêa
Ah!
Evarista
Mas coma expressa condição de que ella abandone a vida religiosa. Sabe se D. Salvador já terá conhecimento d’isto?
Dorothêa
Supponho que sim, porque elle tem conhecimento de tudo, e adivinha o que não conhece.
Evarista
E é verdade!
Dorothêa
(vendo chegar Urbano) O snr. D. Urbano.
SCENA II
AS MESMAS E URBANO
Evarista
Falaste-lhe?
Urbano
Sim. Deixei-o a trabalhar no escritorio, com um tino, com uma fixidez d’attenção, que me assombram. Que homem!
Evarista
Já teve noticia das ultimas disposições do pobre Cuesta?
Urbano
Já.
Evarista
Está contrariado?
Urbano
Se está não o mostra. Bem sabes que nem nos casos mais difficeis elle deixa transparecer as suas commoções...
Evarista
(interrompendo-o com enthusiasmo) É um espirito d’aguia, que paira acima de todas as tempestades da terra.
Urbano
Interrogando-o a respeito das esperanças que tinha de conservar Electra no convento, respondeu-me singelamente com uma serenidade pasmosa: «Confio em Deus».
Evarista
Que grandeza d’alma! E sabe que Maximo e o Marquez são os testamenteiros?
Urbano
Sabe mais. Recebeu ao meio dia uma carta d’elles annunciando-lhe que virão esta tarde, acompanhados d’um tabellião, inquirir a menina, para que declare se acceita ou se renuncia a herança.
Evarista
E á vista d’essa communicação...?
Urbano
Nada: imperturbavel, como sempre, repetindo a sua conhecida formula, que o pinta n’um traço: «Confio em Deus».
SCENA III
OS MESMOS, MAXIMO E O MARQUEZ (pela esquerda)
Marquez
Esperaremos aqui.
Maximo
(vendo Evarista) Adeus, tia. (Sauda-a com affecto)
Evarista
(respondendo ao cumprimento do marquez) Então, Marquez... Ha finalmente esperanças de ganhar a batalha?
Marquez
Não sei... Luctamos com féra de muito ardil.
Evarista
E a ti, Maximo, que te parece?...
Maximo
Que estamos em frente d’um terrivel mestre consummado no embuste. Mas eu confio em Deus.
Evarista
Tambem tu...?
Maximo
Naturalmente: em Deus confia todo aquelle que crê na verdade. Combatemos pela verdade. Como poderiamos suppôr que Deus nos abandone? Não poderia ser, querida tia.
Urbano
Não viste Electra quando atravessaste os claustros?
Maximo
Não vi.
Dorothêa
(approximando-se da janela) Vae passar agora. Vem do cemiterio.
Maximo
(correndo para a janela com Urbano) Que triste! e que bella! A brancura do habito dá-lhe o aspecto aereo de uma apparição. (chamando-a) Electra!
Urbano
Cala-te.
Maximo
Não posso. (Volta a olhar) É então certo que vive... É ella que vae ali na sua realidade primorosa, ou é uma imagem mystica que se despegou d’um retabulo d’altar para andar pela terra?... Lá volta para traz... levanta os olhos para o ceu... Se a visse diluir-se no ar, dissipando-se como uma sombra, não me admiraria... Põe os olhos no chão... Pára... Em que estará pensando? (Continua a contemplar Electra)
Marquez
(que ficou no proscenio com Evarista) ...Sim, minha senhora: falso, falsissimo!
Evarista
Olhe o que affirma, marquez...
Marquez
Affirmo que ou o veneravel D. Salvador se equivoca, ou que disse, sabendo-o, o contrario da verdade, movido de razões e fins, que não penetram as nossas limitadas intelligencias.
Evarista
É impossivel, marquez... Faltar á verdade um homem tão justo, de tão pura consciencia, de ideias tão altas!
Marquez
E quem nos diz, minha cara amiga, que nos arcanos d’essas consciencias exaltadas não ha uma lei moral, cujas subtilezas estão longe do nosso mesquinho alcance? Ha absurdos na vida do espirito como os ha na natureza, onde vemos inumeros phenomenos cujas causas não são as que se figuram.
Evarista
Não: não posso crer! Ha talvez casos em que a mentira aplana o caminho do bem. Mas não estamos n’um caso d’esses... Eu por mim, não acredito.
Marquez
Para que possa formar o seu juizo, ouça o que lhe vou dizer. A marqueza, Virginia, assegura-me que de Josephina Perret—sem que n’isto possa haver mistificação nem equivoco—nasceu este homem que ahi está... E Evarista, amiga intima de Josephina Perret, prova e demonstra esse facto da maneira mais simples, mais clara e mais positiva. Além d’isso, eu mesmo pude comprovar que Lazaro Yuste viveu longe de Madrid desde 1863 até 1866.
Evarista
Com tudo isso, marquez, não posso convencer-me de que...
Marquez
(vendo entrar Pantoja pela direita) Ahi vem elle.
Maximo
(descendo ao proscenio) Chega o abutre.
Dorothêa
Se me dão licença retiro-me. (Sae pela esquerda. Pantoja permanece um instante junto da porta)
SCENA IV
EVARISTA, MAXIMO, URBANO, MARQUEZ E PANTOJA
Pantoja
(adeantando-se vagarosamente) Meus senhores, desculpem-me tel-os feito esperar.
Maximo
Prevenido do objecto da nossa visita, creio que será inutil expol-o...
Marquez
(benignamente) Não o repetiremos para não mortificar o snr. de Pantoja, que deve a estas horas considerar perdida a sua inutil campanha.
Pantoja
(sereno, sem jactancia) Eu não perco nunca.
Maximo
Será adeantar muito.
Pantoja
E asseguro que Electra, tendo aprendido já a desprezar os bens da terra, não acceitará o legado.
Evarista
Já vês que este homem não se rende.
Pantoja
Não me rendo... nunca, nunca.
Maximo
Estou vendo. (Sem poder dominar-se) É então preciso matal-o?
Pantoja
Venha a morte.
Marquez
Não chegaremos a tanto.
Pantoja
Cheguem onde queiram. Hão de encontrar-me sempre impassivel e estavel, no meu posto.
Marquez
Confiamos na lei.
Pantoja
Eu em Deus. E digo aos representantes da lei que Electra, adaptando-se facilmente a esta vida de pureza, libando já as doçuras ineffaveis da oração e da paz em Deus, não abandonará esta santa casa.
Maximo
(impaciente) Podemos falar-lhe?
Pantoja
N’este momento, precisamente, não.
Maximo
(querendo protestar) Oh!
Pantoja
Socegue.
Maximo
Não posso.
Evarista
É a hora do côro. Quer D. Salvador dizer, por certo, que depois da hora...
Pantoja
Está claro que sim. E para que se convençam de que nada temo, podem trazer além do tabellião, o snr. delegado do governo. Mandarei abrir a portaria... Permittirei que falem emquanto queiram com Electra. E se depois d’isso ella quizer sahir, que sáia...
Marquez
Cumprirá o que diz?
Pantoja
Como não? se é em Deus unicamente que confio.
Marquez
Voltaremos logo. (Toma o braço de Maximo)
Pantoja
E nós para a egreja. (Saem Urbano, Evarista e Pantoja)
SCENA V
MARQUEZ E MAXIMO, que percorre a scena muito agitado, impaciente, receioso
Marquez
Que diz a isto, Maximo?
Maximo
Que este homem, de tão superior talento para fascinar os debeis e para zombar dos fortes, nos enlouquecerá a todos. Eu não sou para isto. Em luctas de tal ordem, vontade contra vontade, sinto-me arrastado á violencia.
Marquez
E que faz tenção de fazer?
Maximo
Leval-a embora. A bem ou a mal. Por vontade ou á força. Se não tiver bastante poder para isto, adquiril-o, compral-o; trazer amigos, cumplices, um esquadrão, um exercito... (Com crescente fervor) Renascem em mim os rancores dos antigos bandos, com toda a ferocidade romantica do feudalismo.
Marquez
Assim pensa, e assim o diz, um homem de sciencia!
Maximo
Os extremos tocam-se. (Exaltando-se mais) Para esse homem, para esse monstro não ha argumentos, não ha raciocinios... É preciso matal-o.
Marquez
Nem tanto, nem tanto, meu querido! Imitemol-o, sejamos como elle astutos, insidiosos, perseverantes.
Maximo
(com brio e eloquencia) Não: sejamos como eu... sinceros, claros, valorosos. Marchemos de cabeça alta e de cara descoberta para o inimigo. Destruamol-o, ou deixemo-nos destruir por elle... Mas d’uma vez, de uma só investida, de um só golpe... Ou elle ou nós.
Marquez
Não, Maximo. Temos de ir com tento. Temos de respeitar a ordem social em que vivemos.
Maximo
A ordem social em que vivemos envolve-nos em uma rede de mentiras e de argucias, e n’essa rede morreremos estrangulados, sem defeza alguma... presos de garganta, e de pés e mãos, nas malhas de milhares e milhares de leis capciosas, de vontades fraudulentas, aleivosas, subornadas, corrompidas.
Marquez
Socega. Preparemo-nos para o que esta tarde nos espera. Temos de prever os obstaculos para pensar com tempo no modo de os vencer... Que succederá quando dissermos a Electra que a mãe do seu noivo é com effeito e fóra de toda a dúvida Josephina Perret e não Eleuteria Dias?
Maximo
Que ha de succeder? Que não o acreditará, porque na sua mente se petrificou o erro e será já tarde para o desarraigar. Pois não se sabe o que pode a suggestão contínua? O que póde o insinuante e invasivo ambiente de uma casa como esta sobre as ideias dos que a habitam?
Marquez
Empregaremos meios efficases.
Maximo
(com violencia) Quaes? Deitar fogo ao convento, deitar fogo a Madrid...
Marquez
Não divagues. Se Electra não quizer sahir, leval-a-hemos á força.
Maximo
(muito vivamente até o fim) Ou uma força triumphante, ou uma desesperação de vencido... morrer eu, morrer ella, morrermos todos.
Marquez
Morrer não. Vivamos todos, e preparemo-nos para a peor solução. Tenho uma chave para entrar no claustro pela Rua Nova, e a irmã Dorothêa pertence-me... Caluda!
Maximo
Violencia!
Marquez
Subtilesa e astucia!
Maximo
Adeante, de pronto, e pelo caminho direito!
Marquez
Não, homem, de vagar, com geito, e pelo atalho enesgado! (Tomando-lhe o braço) E vamo-nos d’aqui, que estamos a tornar-nos suspeitos... (Levando-o)
Maximo
Sim, vamo-nos.
Marquez
Confia em mim.
Maximo
Confio em Deus.
MUTAÇÃO
Claustro de S. José da Penitencia. Á direita uma asa da egreja, com frestões envidraçados, pelos quaes transluz a claridade interior. Á esquerda grande portada por onde se passa a outro claustro, que se suppõe communicar com a rua. Ao fundo, entre a egreja e as construcções da esquerda, grande arco abatido, para lá do qual se vê em ultimo plano o cemiterio da congregação. É noite escura.
SCENA VI
ELECTRA E SOROR DOROTHÊA
Dorothêa
Tão certo como ser noite, vieram dois sujeitos ao convento com proposito de te arrancar d’aqui e de te levar para o mundo. Não o crês?
Electra
Sem que me digas quem são, o meu coração o adivinha: Maximo e o marquez de Ronda... Se é certo que projectam levar-me é enorme a perturbação que me causam. Desde que entrei n’esta santa casa emprehendi, como sabes, a grande batalha do meu espirito. Procuro, humildemente e com a ajuda de Deus, transformar em amor fraternal o amor de uma natureza bem diversa que arrebatou a minha alma... Converter o ardente fogo do sol numa fria claridade da lua... O constante meditar, lento mas progressivo, o desmaio do coração, e as ideias submissas e dôces que Deus me envia vão-me dando forças para vencer.
Dorothêa
Querida irmã, se em ti sentes a fortaleza d’esse novo amor, porque tens mêdo de te encontrar com D. Maximo de Yuste?
Electra
Porque, vendo-o, sinto que todo o terreno ganho o perderia n’um só instante.
Dorothêa
(incredula) E achas, em tua verdade, que tenhas algum terreno ganho?...
Electra
Oh! sim, algum... não muito por emquanto.
Dorothêa
Talvez, irmã Electra, que o vêr essa pessoa te demonstre se effectivamente podes...
Electra
(vivamente) Oh! não m’o digas, que não posso!... No estado em que me sinto, n’este principio de lucta, se o visse, se o ouvisse, eu perderia toda a esperança de paz... Não vês que em minha consciencia eu me estou debatendo contra dois impossiveis: não poder amal-o como esposo; não poder amal-o como irmão? (Aterrada) Que supplicio, meu Jesus!... Para o mundo não, não... Prefiro estar aqui, n’esta solidão de morte, n’este laboratorio da minha alma, junto do cadinho divino, em que estou fundindo um viver novo.
Dorothêa
Não esperes que as tuas ideias te deem a paz. Confia em Deus e n’aquelles que Deus te envia... (Resolvendo-se a falar mais claramente) Não te amedrontes assim perante o que suppões teu irmão. Alguem talvez negará que o seja.
Electra
(em grande excitação) Cala-te! Cala-te! Em assumpto de tão grande melindre toda a palavra que não contenha a certeza é inutil e cruel... Póde levar-me á loucura. O que eu peço a Deus é a morte, ou a verdade inteiramente indubitavel e definitiva.
Dorothêa
Socega, pobre Electra...
Electra
(exaltando-se cada vez mais) Todas as confusões que me atormentaram ao vir para aqui estão renascendo no meu espirito... Atropelam-se-me no pensamento anjos e demonios... Deixa-me... Eu quero fugir de mim mesma... (Corre a scena em grande agitação. Soror Dorothêa segue-a procurando acalmal-a)
Dorothêa
Tranquillisa-te, por Deus!... Esse tormento vae ter fim. (Olha com anciedade para a porta da esquerda)
Electra
(parecendo-lhe ouvir uma voz longinqua) Ouve... Minha mãe que me chama.
Dorothêa
Não delires... Outras vozes, vozes de pessoas vivas, te chamarão.
Electra
É minha mãe... Silencio!... (Escutando. Entra Pantoja pela direita)
SCENA VII
ELECTRA, PANTOJA E DOROTHÊA
Pantoja
Minha filha, como sahiste da egreja sem que eu te visse?
Dorothêa
Sahimos para respirar ao ar livre. Electra asfixiava. (Áparte) Approxima-se a hora... Deus nos ajude!
Pantoja
Sentes-te mal, minha filha?
Electra
(com voz assustada e sumida) A minha mãe chama por mim.
Pantoja
(pegando-lhe carinhosamente na mão) A dôce voz da tua mãe, falando-te em espirito te dará conforto, prendendo-te com piedade e amôr a este sagrado refugio. (Ouve-se passando na egreja o côro das noviças) Ouve, Electra... É a voz dos anjos que te chamam do ceu.
Electra
(delirante) É o côro dos meninos a brincar. E entre essas vozes ternas, distingo a de minha mãe chamando-me da sepultura.
Pantoja
Estás allucinada. É o divino côro dos anjos.
Electra
Não, não ha anjos... Ouço o meu nome, ouço o bulicio dos meninos, que revolve toda a minha alma. São os filhos dos homens que fazem a alegria da vida. (Continua a ouvir-se mais apagado o côro das noviças)
Pantoja
(inquieto) Irmã Dorothêa, diga á irmã porteira que vigie a porta da Rua Nova e a da Ronda. (Á esquerda e á direita)
Dorothêa
Sim, meu senhor...
Pantoja
Mas não; irei eu mesmo... Não me fio de ninguem... Vou eu mesmo vigiar todo o claustro, todas as passagens, todos os recantos da casa. (Assustado, julgando ouvir ruido) Escute... Não ouvio?
Dorothêa
Quê?... Não ouvi nada... É illusão.
Pantoja
Pareceu-me ouvir um rumor de vozes... e bater n’uma porta ao longe. (Escuta)
Dorothêa
De que lado? (Olhando para o fundo á direita)
Pantoja
Na direcção da enfermaria... Não estou socegado... Quero vêr eu mesmo... Electra, volta para a egreja... Leve-a, irmã Dorothêa... Esperem-me lá... (Dando-lhes pressa) Andem... (Acompanha-as até á porta da egreja. Sae pressuroso, inquieto, pelo fundo, á direita. Dorothêa vê-o afastar-se, pega na mão de Electra, e vivamente volta com ella ao centro da scena. Electra, sem vontade, deixa-se levar)
SCENA VIII
ELECTRA E SOROR DOROTHÊA
Dorothêa
Vem commigo... Para a egreja não.
Electra
Aqui... Deixa-me respirar, deixa-me viver.
Dorothêa
(aparte, inquieta) É a hora dada pelo marquez de Ronda... Aproveitemos os minutos, os segundos, ou tudo está perdido. (Olhando para a esquerda) Vou dar-lhes entrada para este claustro... (Alto) Irmã Electra, espera-me aqui.
Electra
(assustada) Onde vaes? (Pega-lhe no braço)
Dorothêa
(com decisão, defendendo-se) Tratar de ti, dar-te a saude e dar-te a vida... Prepara-te para sahir d’este sepulcro, e leva-me comtigo.
Electra
(tremula) Irmã Dorothêa... não me deixes.
Dorothêa
Este momento decide da tua sorte... Volverás ao mundo... verás Maximo.
Electra
Quando?
Dorothêa
Já... Vaes vêl-o entrar por ali... (Esquerda) Animo!... Não me estorves... Não te movas d’aqui. (Sae correndo pela esquerda)
Electra
Meu Deus! Virgem Santissima!... Será certo?... Por aqui... por aqui virá... (Julga vêr Maximo na escuridão) Ah! é elle... Maximo! (Falando como em sonhos, desviando-se como d’um ser real) Pára... Deixa-me... Não posso amar-te como irmão, não posso... Está no fogo o cadinho em que quero fundir um coração novo... Não vês que não posso levantar os olhos para ti?... Para que me fitas d’esse modo, se me não pódes levar comtigo?... É aqui que eu procuro a verdade. Minha mãe chama por mim... (Com accento desesperado) Mãe! mãe! (Volta-se de frente para o fundo. Ao soarem as ultimas palavras de Electra, apparece a sombra de Eleuteria, formosa figura em habito de monja. Electra de costas para o publico, contempla-a com os braços cruzados no peito) Oh! (Grande pausa)
SCENA IX
ELECTRA E A SOMBRA DE ELEUTERIA, que vagamente se destaca na obscuridade do fundo. Electra adeanta-se para ella. Ficam as duas figuras frente a frente, á menor distancia possivel uma da outra.
A Sombra
Sou a tua mãe, e venho a aplacar a angustia do teu coração amante. A minha voz dará á tua consciencia a paz. Nenhum vinculo da natureza te prende ao homem que te escolheu por mulher. O que te disseram foi uma ficção carinhosa destinada a trazer-te á nossa companhia e á doçura d’esta santa casa.
Electra
Oh! mãe adorada, que consolação me dás!
A Sombra
Dou-te a verdade, e com ella a fortaleza e a esperança. Acceita, minha filha, como provação em que se retemperou a força da tua alma, esta reclusão transitoria, e não maldigas quem a promoveu... Se o amor conjugal e as alegrias da familia solicitam a tua alma deixa-te de boamente levar da suavidade d’essa atracção, e não procures aqui uma santidade que não é para ti. Deus está em toda a parte... Eu não pude encontral-o fóra d’este abençoado refugio... Procura-o tu no mundo por vereda differente d’aquella em que eu me perdi... (A sombra cala-se e desapparece no momento em que se ouve a voz de Maximo)
SCENA ULTIMA
ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ, PANTOJA E SOROR DOROTHÊA
Maximo
(á porta da esquerda) Electra!
Electra
(correndo para elle) Ah!
Pantoja
(pela direita) Minha filha, onde estás?
Marquez
Comnôsco.
Maximo
Commigo.
Pantoja
Foges-me, Electra?
Maximo
Não foge... Resuscita.
FIM