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Entre o caffé e o cognac cover

Entre o caffé e o cognac

Chapter 16: PROGRAMMA
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About This Book

Coleção de folhetins e esboços jornalísticos de tom pessoal que reúne descrições minuciosas de interiores, objetos e retratos que evocam a vida íntima de escritores, além de anedotas e pequenas biografias literárias. O autor alterna observações cotidianas, comentários sobre práticas jornalísticas e reflexões culturais, oferecendo fragmentos ensaísticos que combinam memória, descrição material e apreciação estética para compor um painel sobre o ambiente literário e social que frequenta.

ANIMAES E VEGETAES

Outro dia ia eu passeando ao longo d'aquella extensa avenida do Prado do Repouso, quasi ao anoitecer, á hora em que os visitantes saem e o coveiro entra.

Fui andando, andando, com os vagos pensamentos que dá o estar entre tumulos, e mais d'uma vez me pareceu ouvir murmurar as grandes arvores que ladeiam a avenida pendidas aos sarcophagos.

E insensivelmente me occorreram os versos de Lamartine:

Tout parle. Et maintenant, homme, sais tu pourquoi
Tout parle? Ecoute bien. C'est que vents, ondes, flammes,
Arbres, roseaux, rochers, tout vit! Tout est plein d'ames.

E entrei de contemplar pensativamente as arvores a vêr se lhes encontrava coisa que fosse vestigio d'alma.{90} Murmurar, murmuravam ellas; ora se a gente falla porque pensa, claro está que os vegetaes teem sensibilidade e intelligencia.

Depois fui-me lembrando de que Lamartine havia descoberto outrosim que tudo n'este mundo tinha, alem de voz e alma, modo de vida:

... l'abime est un prêtre et l'ombre est un poête

e completei os meus pensamentos pela ideia de que,—assim como os vegetaes possuiam alguma coisa de gente humana, bem podia a gente humana ter alguma coisa de vegetal.

E fortifiquei-me na philosophia de Lamartine tentando averiguar que casta de planta ou arvore seriam algumas pessoas, das que a phantasia me ia configurando alli mesmo.

Ah! bem sei, disse-me eu, tu, uma rapariguinha corada, muito aceiadinha, com dois signaes pretos nas duas faces, tu, que podes ser mestra de meninas ou femme de comptoir nos bazares do Palacio, que nasceste mais para andar em cima d'um prato do que em cima dos tacões, tu, haverias nascido morango, sim, morango, d'aquelles de que se comem duas duzias, pela manhã, antes d'almoço.

E tu, ó rapariga que vendes os morangos, que nasceste na Magdalena, que tens a robustez das organisações retemperadas pelo mar e pelo acre salutar dos pinheiros,{91} tu, que tens perna de varina, que vens á cidade por baixo d'um sol abrasador, de modo que chegas á Ribeira cheirando a saude e a sol, tu serias fatalmente, irremessivelmente,—maçã camoeza.

E tu, ó morena de faces tostadas e pennugentas, de boas cores carregadas, cheia, refeita, tu, que não nasceste á beira do mar, mas nasceste á beira da serra, tu nascerias, se teus paes fossem vegetaes, tu nascerias pêcego.

E tu, ó camponeza quarentona, com as tuas enormes argolas a cahirem nos refegos do pescoço, tu, que vens á cidade em dias de romaria com os teus pesados grilhões d'ouro e as tuas grandes soletas de verniz e setim, tu, que és talvez mãe de dez ou doze raparigas-pêcegos, tu serias uma rotunda bolina, não das que os lavradores vendem, mas das que dão de presente ao administrador ou ao juiz de direito.

E tu—ó contraste!—tu, menina esverdeada, que tens escrophulas ou soffres do figado, tu que pareces sahir d'um banho de verdete e que tens uma mamã com o mau gosto de te dar vestido verde, e brincos de esmeralda, tu, pendida do teu camarote, para melhor ouvires o Santos ou a Emilia Adelaide, tu, n'essa mesma inclinação em que te vejo, tu haverias nascido, ó desventurosa menina—como isto é triste!—tu haverias nascido—vagem.

E tu, ó borracho encartado, que tens o unico modo de vida de passar os dias nos armazens, que trazes a cara colorida dum vermelho-roxo que dá o abuso do{92} vinho, tu, que és tão inutil para o mundo como o é a amora para o lavrador, tu apparecerias n'este mundo, se teu pae se chamasse Silva,—feito amora.

E tu, que nasceste fadado para seres caixeiro de teu pae, que poderias chegar a aperfeiçoar o artefacto com que elle se enriqueceu se não desses a escrever versos e a lêr poetas allemães, a pintar olheiras, a fazer-te triste, a andar com a cabeça pendida, a escrever o teu artigosinho para o jornal, tu, que andas curvado a procurar pelas ruas os pensamentos que os outros deixaram, tu, se não fosses o que és, meio litterato e meio negociante, tu serias o que devias ser—chorão.

E tu, que és alto, magro, escuro, que trazes bengalão e não bates em ninguem, que serves quando muito para fazer inflammar a gente, tu nascerias pinheiro, e darias pinhas, que são boas para atear o fogo.

E tu, ó calumniador insupportavel, que appareces entre os homens para aborrecel-os e para incommodal-os, tu, de quem todos fogem e que só serves para incommodar e aborrecer, tu, se nascesses n'um jardim, serias com toda a certeza—arruda.

E tu, ó feia de boas qualidades, mal feita de corpo e bem feita da alma, tu, que não tens graça propria e soccorres a desgraça alheia, tu nascerias marmello, fructo pouco sympathico, de que se faz a marmellada, que é realmente muito peitoral para os que soffrem.

E tu, ó parasita, que andas sempre encostado aos outros, que te vaes mettendo á viva força por entre os que teem um vintem de seu, que nos vaes perseguindo{93} á medida que te vamos enxotando, tu bem sabes o que serias, ó parietaria social, tu serias—hera.

E tu, que és anguloso, que trazes sempre o casaco a dançar nas protuberancias osseas e os joanetes a luctar com as botas, tu, que és uma pessima figura e talvez uma boa alma,—tu nascerias pêra de sete cotovellos.

E tu, ó languido Romeu, que estás sempre doente, que não pensas em ganhar a vida porque teu pae tem bom emprego, que precisas de muito resguardo, segundo diz a mamã, e que passas quasi todo o anno mettido no mar, a conselho do medico, tu és para a sociedade o que a alface é para a mesa,—uma coisa molle e transparente, que não fortalece o estomago e que se come por luxo—portanto tu serias—alface.

E tu, ó aborrecido grosseirão, que nos deixas sempre indigestos da tua presença, que só és supportavel quando estás ao pé de tua irmã, que são uns bons trinta annos, e de tua filha, que são uns bons vinte contos, tu serias pepino, sim, tu serias pepino, fructo que só se póde tolerar, em salada, com azeite e vinagre á mistura.

E tu, ó pequenina graciosa, que pareces contar eternamente vinte annos, que dás á gente vontade de te passear ao collo em vez de te passear pelo braço, que tens não obstante a elegancia da tua pequenez, tu serias forçosamente, pequenina e gentil como és,—tu serias—avellã.

E tu, ó conductor de mala-posta, queimado e musculoso como um athleta, tu, que atravessas serras e serras{94} ao pino do meio dia, e estás sempre apto para o serviço, tu és a uva da humanidade, porque a uva tambem vive entre fragas, e recebe côr do sol que apanha, e tem o prestimo que tu lhe costumas utilisar muitas vezes ao dia,—e por isso, ó conductor de mala-posta, tu, a seres vegetal, serias—uva!

E tu, ó menino que cursaste sete annos o lyceu, e incommodaste os professores com grandes empenhos e teus paes com grandes despezas, para ao cabo de sete annos de luctas e dispendios alcançares unicamente certidão de exame de francez, tu, ó inutilsinho, ó pedantesinho, que te dás a importancia da tua ignorancia, sabes como se chamaria teu pae, se fosse arvore, e como te chamarias tu, a seres filho de teu pae? Pois bem, eu t'o digo, para que o fiques sabendo, d'uma vez para sempre, entende bem,—d'uma vez para sempre,—elle chamar-se-ia Carvalho e tu serias—bugalho.

E tu, ó eterno pretendente, que vives aos pés dos ministros, que te dás bem na humidade das secretarias, que encaras como modo de vida o ser pretendente, que não serves senão para seres o que és,—que te parece que serias se a philosophia de Lamartine não fosse apenas um devaneio poetico? Tu serias tortulho.

E tu, ó agiota, ó fraca figura que tens a força do dinheiro, que és preciso para tudo, que tens o que dá luz ao homem e sabor á vida, que tens na tua algibeira o azeite com que se tempéra e allumia a existencia, tu nascerias—azeitona.

E tu, ó irascivel, ó atrevido, ó petulante, que pareces{95} arder e fazes arder a gente, que te dás a conhecer em toda a parte pela rudeza agreste de teus gestos e palavras, tu, a não seres o petulante, o atrevido, o irascivel que és,—tu serias malagueta.

E tu, ó espirito lucido e malicioso, que tens graça, que tens alegria, que dás colorido e relevo ás mais relamborias semsaborias, tu que és a animação e a vida, que desembotas o paladar e abres o apetite, tu nascerias—pimento.

E tu, ó alma angelica, ó pallida enfermeira do filho moribundo, ó nobre coração que enthesouras todas as riquezas n'esse cofre em que se torna o coração da mulher quando chega a ser mãe, ó santa, ó mãe, tu serias o que de mais delicado póde haver entre as flores,—tu serias—lyrio.

E tu, ó irmã carinhosa, formosa e boa, terna e gentil, mixto de innocencia e formosura, ó pura amiga, ó doce amparo, que te escondes do mundo se nós soffremos, e que lhe sorris se o sol da felicidade nos doira a vida, tu serias, porque o és,—sensitiva.

Ó insipida menina, que dizes não meu senhor, sim meu senhor, que não sabes sorrir, que não sabes fallar, que não sabes viver—tu serias—lima.

Mas teu primo, aquelle azougado rapaz, que é a alegria da tua casa, que está sempre a metter-te á bulha, e que parece ter sido dado á luz por tua tia para compensar o disparate que tua mãe fez gerando-te, teu primo, que deve ter um appellido similhante ao teu, teu primo seria—limão.{96}

E tu, ó filha do burguez, que não vaes ao theatro, porque teu pae só gostava da Degolação dos innocentes, e acha estes dramas modernos pataratas, tu, que não és gentil, mas que pezas cincoenta contos de reis, tu, que tens muito que comer em... dinheiro, tu, ó invejavel burgueza!—tu serias melancia.{97}


Á ACADEMIA DE COIMBRA

Se no organismo das nações, como no organismo do homem, é indispensavel um coração que alimente a vida publica, deve o sangue portuguez jogar em systole e diastole, ahi, onde vós estaes, nos paços da Universidade.

Coimbra é o coração de Portugal.

Para ahi confluem as veias cavas cujo sangue negro da mocidade inculta ahi vae ser purificado no pulmão da eloquencia, e d'ahi é que nasce a aorta que revigora os vasos capillares d'este grande homem collectivo chamado Portugal.

E digo grande, porque sois vós que fazeis mover as valvulas do coração portuguez, vós, a intelligencia de quatrocentos homens, garantia de existencia futura, vós o futuro mesmo.{98}

Ahi aprendeis a deletrear o passado da vossa patria nos traços architectonicos do paço das Alcaçovas, na contemplação dos retratos dos illustres varões que revestem as paredes da sala dos actos grandes, e d'alli aprendeis a amar o futuro embalados nas santas aspirações que mutuaes no desenfadado conversar da via latina ou no suave bordejar do vosso Mondego.

Sois, vós todos os que passaes por esse grande chrysol, duas vezes portuguezes: portuguezes pelo passado, portuguezes pelo futuro.

E para ser nobre, e generoso, e digno, basta haver nascido portuguez.

Mas vós quereis mais, deixaes os vossos lares, a vossa familia e a vossa aldeia para vos irdes juramentar no exercito do futuro, cuja cazerna se levanta como reducto venerando a dominar a vossa Coimbra, a praça do militarismo intellectual, onde a intelligencia faz sentinella, e se aprende a manejar armas nos combates incruentos do espirito.

Tinheis a serenidade lareira das vossas arvores, e ides procurar a sombra menos consoladora dos claustros do vosso annoso baluarte. Tinheis a aldeia e os seus remanços, e quereis a lucta e os seus alvoroços. Tinheis a familia que é o ocio, e procuraes a patria que é a grande batalha, onde todos combatem.

Vós sois os defensores e a causa, os soldados e a bandeira.

Defensores, porque ahi estaes retemperando as armas do combate; a causa, porque sois a geração nova,{99} e a geração nova é o amanhã, e a patria depende do amanhã.

Soldados, porque tendes a vossa bandeira; bandeira, porque combateis por vós mesmos.

Hoje sois a academia; amanhã sereis a sociedade.

Hoje vestis a batina; amanhã cingireis a toga do magistrado, os talares do sacerdote, a opa do tribuno, a banda do militar, os arminhos do ministro.

Hoje sois a nau do futuro; amanhã sereis o leme.

Hoje ides na tolda cantando ao luar os poemas das vossas navegações amorosas; amanhã estudareis á luz da bitacola os contornos coloridos do atlas.

Hoje sois a almenara do acampamento; amanhã sereis o pharol da sociedade.

Hoje ouve-vos o Mondego; amanhã ouvir-vos-ha o mundo.

D'ahi sahireis apostolos e soldados: apostolos da religião do bello e do bem; soldados das tradições gloriosas da patria.

A vossa palavra fecundará o solo portuguez, e vossos filhos recolherão no celleiro nunca exhaurido das memorias gloriosas a colheita que vós lhes preparardes em cinco annos de suado e ininterrompido agricultar nos campos do pensamento.

A charrua é o instrumento da fecundação, e vós conduzireis a charrua, que é a mãe da abundancia universal.

De vós, que sois o futuro, provirão os destinos do{100} futuro, e assim vos perpetuareis nas idades porvindoiras da patria.

Vós sois a madrugada do vosso dia; e se a aurora repontar rosada e loira, o vosso dia será ameno e tranquillo.

Se agricultardes a terra, a terra fructificará.

É preciso portanto que derrubeis os velhos preconceitos, as antigas usanças da vossa vida academica, nocivas a vós e á patria.

O agricultor, que, ao alvorejar da manhã, sae do tugurio, d'enxada ao hombro, primeiro derruba as parietarias que lhe comem o pomar do que desbrava os matagaes que lhe ensombram a sementeira.

Sêde como o agricultor, e primeiro extirpae as tradições anachronicas da academia do que as tradições anachronicas da sociedade.

A troça é um velho habito da vida escholastica da Universidade.

Vós, que vos estaes preparando para defrontar os mais nublosos problemas do futuro, retrocedeis ao passado pelas chacotas truanescas da troça.

Troçar é ridicularisar.

Fundi a estatua da humanidade, não traceis a caricatura do homem.

No caloiro ha o embryão que póde ser flôr, a chrysalida que se volverá borboleta.

É uma recruta que vem procurar o vosso regimento.

Recebei-o, não o amedronteis.{101}

Aquella alma não está tão vasia que não tenha uma aspiração.

Não é tão cega, que não procure a vossa luz.

Não é tão inerte, que não queira lidar comvosco.

Dentro dos muros da vossa praça d'armas todos devem de ser soldados; a divisa é una, e uno o exercito; una a bandeira, e uno o triumpho.

Hoje sois irmãos; amanhã sereis homens.

Hoje viveis na communidade da vossa aspiração; amanhã vos apartareis para os vossos destinos.

A vossa Universidade é o tabernaculo onde desde o reinado d'el-rei Diniz se archiva a taboa da lei.

Ahi aprendeis vós a respeitar o direito, a observar o dever.

A troça é uma offensa ao direito primittivo; por tanto, vós, almas generosas e nobilissimas, extinguireis a velha tradição academica.

Conheceis, melhor que eu, o artigo 2383 do Codigo.

Breve sereis chamados a pedir nos tribunaes justa punição á violação dos direitos adquiridos. Breve tereis de sahir a propugnar pelos interesses materiaes externos dos vossos clientes.

Começae pois por defender os direitos primitivos de vós mesmos; por impôr respeito á personalidade physica e moral da vossa numerosa familia universitaria.

A troça abriu recentemente, no seio da academia, a sepultura de Antonio de Barros Coelho de Campos.

Não caveis sepulturas entre vós.{102}

A morte é a saudade, e vós sois a esperança.

A morte é o occaso e vós sois a aurora.

A morte é o passado e vós sois o porvir.

A morte é a quietação e o silencio; vós sois o movimento e a vida.

Sobre o vosso arraial não deve pairar a morte, porque as vossas lides são incruentas.

A ampulheta, que regula a vossa vida, deve medir o tempo; não deve descançar na eternidade.

Uma sepultura é uma coisa inutil entre vós.

Amaes os salgueiraes do Mondego, porque n'elles remurmura o ecco dos vossos cantares.

Amaes a onda limpida do vosso Pactolo, porque ella deslisa sobre a areia doirada do álveo.

A sepultura é muda a todas as interrogações.

O unico movimento que a sepultura permitte é o ondular das hervagens que a cobrem.

Onde havia uma intelligencia e um coração, ha agora um comoro e uma cruz.

A morte não admitte exforços: é o irreparavel.

Luctar com a morte é esgrimir com o silencio e com o pó.

A vossa rasão é lucidissima, para que queiraes luctar com o impossivel; o vosso animo valorosissimo para que tenteis bater-vos com phantasmas.

Vós deveis estar n'um polo, e a morte no outro.

Que a cinza esteja no cemiterio, e o fogo na Universidade.{103}

Que o chorão abrigue a urna, e o loureiro ensombre o livro.

Que descance o nada, e que o germen elabore.

Tudo é festa em derredor de vós, e a saudade é inimiga da festa.

O lucto é triste: reservae-o para a velhice.

E todavia vós estaes de lucto.

Ha um cadaver e não houve assassinio.

Ha victima e não houve algoz.

Houve apenas uma grande fatalidade.

Correu sangue, e não raivou odio.

Eram tudo irmãos, e morreu Abel sem haver Caim.

A logica dos acontecimentos é terrivel.

Foi ella, e só ella, que comprimiu a academia nos rostros d'este dilemma: Carcere e Sepultura.

Foi ella, e só ella, que abriu o carcere, a sepultura da vida, e lhe atirou para dentro um corpo vigoroso e uma alma innocente; que descerrou a sepultura, o carcere da eternidade e deixou cahir no fosso um corpo inanimado, viuvo d'uma alma sonhadora.

D'um lado o cemiterio; do outro a prisão.

Ambos frios, calados, tenebrosos, vastos, medonhos.

N'um o repouso dos vivos, n'outro o repouso dos mortos: em nenhum a liberdade.

E, sepultos na frialdade, no silencio e nas trevas,—dois corpos.

Sob a abobada um corpo que desejara a morte; sob a terra um corpo que tinha direito á vida.

Quem os matou a ambos?{104}

Foi a troça.

A troça é homicida.

Dispensae a intervenção da policia academica.

Onde ha intelligencia, é a intelligencia que governa.

Pouco importa abolir de direito a troça; vós a abolireis de facto.

Fazei dos vossos peitos muralha para oppôr á logica terrivel dos acontecimentos.

A vossa poderosa vontade esmigalhará para sempre o fatal dilemma; não é preciso intervir a alabarda do archeiro.

Eu quizera vêr abolida a troça não pela Universidade mas pela Academia.

E assim ha-de ser.

Sabereis vingar com a vossa provada grandeza o irmão que está no carcere e o irmão que está na sepultura.

A abolição da troça ficará para sempre vinculada á memoria por igual pungente e sublime da catastrophe de 3 de maio.

Triste, porque foi uma dupla desgraça.

Sublime, porque se as lagrimas da academia inteira nobilitaram a memoria do morto, o perdão do pae inconsolavel, antecipando-se á decisão piedosa da justiça, nobilitou a desgraça do vivo.

Quando o coração de pae não achou culpa, Themis não achará peso na balança.

O coração de pae, ferido por tão excruciante dôr, é o verdadeiro ideal da justiça.{105}

E a justiça do pae perdoou.

A justiça do tribunal perdoará tambem, esperemol-o.

Porque, vós o sabeis melhor que eu, a justiça é para a sociedade o que o pae é para a familia: o poder supremo.

A vara, que representa a auctoridade, é cajado e látego: o mesmo na familia que na sociedade.

E sendo esta dupla auctoridade uma personalidade moral, que póde symbolisar-se em Jano, o deus bifronte, não esperemos vêr umas faces illuminadas pela luz evangelica do perdão e outras avincadas pelas rugas sinistras da severidade.

E esta grandissima catastrophe ficará para sempre archivada na tradição de Coimbra, com justos applausos da historia, porque ella porá a descoberto a grandeza de muitas almas: da victima que morreu sem odio; do encarcerado que chora o arrependimento de culpa que não teve: do pae que perdoou; e de vós todos, que não consentireis mais que dentre vós saiam desgraçados para o carcere e cadaveres para o cemiterio.{106}

{107}


OS ANNUNCIOS

O annuncio é o seculo.

Saber annunciar é saber viver. Quem melhor annuncia mais ganha. Dize-me se sabes annunciar, dir-te-hei quem tu és. Ha por ahi algumas raras pessoas a quem repugna a vaidade de se dizer no annuncio o que se não devia dizer, e mais do que se devia dizer. São os retrogrados, os que ficaram parados no caes quando o progresso partiu a explorar mundos desconhecidos, os pagãos da antiguidade que só conheciam como meio de publicidade a trombeta da fama, são finalmente os que vivem no seculo e não comprehendem o seculo. Suspiram ainda pelas epistolas do Braz Tizana, acendem a véla com lumes de pau, e preferem o mysterio do logogripho ao pregão do annuncio. Detestam todas as modernas manifestações do pensamento—o annuncio, a reclame, a abundancia de jornaes e a alluvião de lumes promptos de phosphoro. De lumes promptos de phosphoro! Sim, senhores.{108}

Lá disse Moleschott que sem phosphoro não ha pensamento; Couerbe que a ausencia de phosphoro no encephalo, reduz o homem ao estado de bruto, e Paulo Janet que o phosphoro se tornou o grande agente da intelligencia, o estimulante universal, a propria alma. O annuncio progrediu com o jornal, como o lume-prompto progrediu com o phosphoro. Jornal e phosphoro são irmãos: o jornal é a ideia; o phosphoro é a luz.

As tribus selvagens, que não conhecem o phosphoro, desconhecem o jornal. Á descoberta da imprensa andam ligados dois nomes: Guttemberg e Fust; á descoberta do phosphoro outros dois: Brandt e Kunckel.

Estes quatro homens, irmãos pelo genio, descobriram a luz que a todos nos alumia e aquece.

Uma caixa de phosphoros é um pequeno jornal illustrado: as caixas do snr. Melchior Sola fazem circular os retratos de Bismark, de Castelar e D. Amadeu; os phosphoros inglezes, conhecidos pela designação de flamns, espalham os retratos de Gladstone, do marquez de Lorne e do doutor Livingstone. Os mesmos vendilhões que pregoam de manhã os jornaes populares vendem de tarde caixas de phosphoros.

O annuncio desenvolveu-se com o jornal, e o lume-prompto completou-se pelo phosphoro. O annuncio começou por ser laconico, serio, conciso. Tinha a principio uma pollegada de capacidade. Depois dilatou-se e desenvolveu-se. Hoje o annuncio póde ter um palmo de largura e é-lhe permittido alargar-se até occupar uma pagina inteira do jornal. Traz vinhetas, medalhas, tarjas,{109} e muitas vezes—versos. O antigo lume-prompto era uma esquirola de pau com as extremidades empapadas em enxofre derretido. Para inflammal-o urgia pôl-o em contacto com um corpo já em ignição.

O annuncio teve um periodo similhante, quando precisava de que o espalhassem; hoje espalha-se elle per si mesmo. Vieram depois os lumes-promptos chamados chimicos que appareceram em 1809. Para acendel-os era preciso mergulhal-os em acido sulfurico. Havia tanta demora em annunciar como em fazer luz.

Em 1832 foram substituidos os lumes oxygenados pelos lumes de fricção. Só um anno mais tarde se completou o lume prompto juntando-se-lhe o phosphoro.

Começou então o pensamento a invadir o mundo; o annuncio a espalhar as invenções modernas; o phosphoro a derramar a luz e a divulgar os retratos dos grandes homens; o jornal a contar dia a dia os passos e as proezas dos homens cujo retrato nos havia custado dez réis. Por toda a parte nos persegue o annuncio, o phosphoro e o jornal.

Em Madrid, no Prado, andam enxames de rapazes, á hora do passeio, a espalhar tudo isso: atiram os annuncios para dentro das carruagens, mettem-os no bolso do paletot de quem vae andando, e em vez de gritarem como antigamente—La candêla, señoritas, esbofam-se a apregoar—Cirillos, señoritas.

É a febre da publicidade.

Está a gente no theatro a assistir a um espectaculo;{110} de repente sente um papel nas mãos: é já o annuncio d'outro espectaculo.

Vae a gente pela rua e parece cahir das nuvens sobre o chapéo o annuncio d'um perfumista, d'um luveiro ou de um domador de féras. Annuncios de todas as côres, de todos os feitios, de todas as fórmas geometricas. Deixem negar Paulo Janet que o pensamento seja um movimento. Que elle pergunte se já se viu um pensamento em spiral, um pensamento circular ou um pensamento rectilineo. A nós compete respondermos que já temos visto pensamentos circulares nas etiquetas das garrafas, e que a quarta pagina do nosso jornal nos traz todos os dias pensamentos rectos, pensamentos curvos, e pensamentos quebrados. O annuncio espalha a litteratura, a gravura e a geometria. O annuncio é uma philosophia, e a synthese do annuncio está no Almanach da Agencia Primitiva. Do alto d'aquelle livro vê-se o mundo todo. O snr. Braun Peixoto é o Atlante dos tempos modernos. Sustenta sobre os hombros a machina gigantesca dos homens e das coisas.

Eu acho tão indispensavel o snr. Braun Peixoto como mr. Du Barry; tão indispensavel o annuncio como a Revalescière. Ella restitue a saude do corpo, elle restitue a saude do espirito. Ou illustra ou diverte. Uma pessoa está triste, e não se póde alegrar com champagne, porque tem mau estomago. Procura no jornal um annuncio tolo, e consegue rir-se. Ahi vão trez specimens d'annuncios, que fazem cocegas:{111}

RUA TAL, NUMERO TANTOS

Continua a ir pentear senhoras, assim como pentea caracoes.


Vende-se um piano de manivella por pouco dinheiro. O motivo da venda é o proprietario não entender da materia.

PROGRAMMA

1.º Symphonia.

2.º Jogos Icarios por mr. Bergonsini e sua familia.

3.º Variados trabalhos por outros cães intelligentes.


VENDE-SE

Uma cabra e um violão, e algumas missas n'esta redacção.

 

Este annuncio mereceu as honras de segunda edição, e sahiu de novo com as seguintes correcções e emendas:

ATTENÇÃO

Diz-se n'esta redacção quem vende uma cabra, algumas missas, e um violão.{112}

 

Ou finalmente este:

 

Quem nas immediações de Lamego perdesse um albardão pela romagem dos Remedios de 1867, etc., etc.

 

Annuncios ha, porém, que se impõem pela extensão, pela gravidade, pela elegancia, e até pela pureza do dizer, acrescendo a tudo isto, que já não é pouco, serem verdadeiros. Haja vista o annuncio da frasqueira dos snrs. Castro & Leão, publicado n'este jornal e em outros.

Por traz d'aquelle annuncio enxergam-se dois rapazes elegantes, que principiam a negociar em vinhos tambem elegantemente, e que para redigirem o annuncio calçaram luvas do Sertori. Escrevem para o publico como escreveriam para um amigo, por exemplo: «Não se especialisam mais vinhos como branco do Porto, Carcavellos, Chably, Mansanilha, Madeira e muitos outros para não tornar a lista mais longa, e por isso talvez fastidiosa.» Isto é delicado. Annunciantes ha que fatigam o publico, porque entendem que o publico só afflue quando se vê impertinentemente rodeado d'annuncios e reclames.

Tudo quanto se diz alli, é verdade. Vae a gente em bacchica peregrinação á frasqueira da rua do Rosario e encontra abundancia, riqueza, bom gosto e, digamol-o, bom tom. Plantas, crystaes, candelabros e porcelanas. O Baron Latour sorri amavelmente; o Chateau d'Yquem cumprimenta; o Sparkling atira-nos um beijo d'espuma{113} iriada e, ó tentação, venha a taça, Evohé! e em derredor o Bourgogne, o Hochheimer, o Forestier, o Venoge e o Medoc começam a bailar nas prateleiras e a entoar ruidosamente um dythirambo.

Quem nos levou lá? Foi o annuncio. O annuncio falla, o annuncio chama, o annuncio fascina. Rasões tinha o meu querido Julio Machado para dizer: «Annunciae, annunciae! Sempre d'ahi se tira alguma coisa!» Annunciar é armar o barco para sahir á pescaria. Convém que seja bonito o batel, e que vá alegre o pescador, cantando uma barcarola, para que o fundo do mar o oiça e de terra o vejam.

Eu conheço annunciantes tristes, que fazem annuncios tristes, com dizeres tristes, e que muitas vezes vendem objectos tristes. O resultado é que as pessoas de temperamento nervoso, e hoje é o predominante, não lêem segunda vez o annuncio, nem vão á loja, nem compram os objectos. E o annunciante, se annuncia tristemente, tristemente vive e tristemente morre. Um homem póde vender sapatos de defunto com tanto que se saiba annunciar. Se elle disser:

 

«Fulano tem grande sortimento de sapatos de defunto para cadaveres de todas as idades»

 

diz mal, e a gente não lhe quer passar pela porta com receio de que lhe cheire a cemiterio. Mas caso annuncie:{114}

 

«Quem esperar que eu lhe dê o que costumo vender, toda a vida andará descalço»

 

diz bem, é mysterioso, tem novidade, e faz espirito com a coisa mais triste d'este mundo, perdão, com as duas coisas mais tristes, porque o annunciante não venderá um sapato só.

Quando se não poder ser elegante no annuncio, seja-se ao menos mysterioso. E fazer como aquelle cavalheiro d'industria que chegou a uma feira, armou barraca, e pregou á porta este distico:

Quem quizer vêr a ardina,
Deite dez reis e corra a cortina.

Ardina é um provincianismo; tanto vale como ardil. Deitavam-se os dez reis á caixa, corria-se a cortina, e que se via? Um burro velho preso á mangedoura pela cauda. Era o ardil. Ninguem se queixava do annunciante porque elle tinha prevenido no annuncio. E depois ninguem queria dizer o que tinha visto para não confessar que fôra enganado. Ia toda a gente vêr a ardina; sahia a rir, e não dizia nada.

Quando acabou a feira, o cavalheiro d'industria tinha os seus vintens. E a quem os deveu? A elle proprio, que soube ser mysterioso.

Supponhamos que o snr. Costa Braga, fundador da chapelaria a vapor, fornecedor da casa imperial do Brazil e da casa real de Portugal, precisava de annunciar{115} os seus excellentes chapéos. Se dissesse simplesmente que vendia chapéos finos, lustruosos como setim, ninguem recordaria que o snr. Costa Braga gastara cem contos de reis para montar a sua fabrica. Se, porém, annunciasse:

 

«Delicadas estufas de feltro para os pensamentos, redomas de sêda e cartão para perseverar das intemperies as mais mimosas ideias»

 

o snr. Costa Braga teria de fechar as suas portas por não ter tempo de vender a todos os compradores chapéos altos e chapéos baixos, artisticamente annunciados.{116}

{117}


INDUSTRIA DAS RUAS

Industria das ruas é a arqueta do belfurinheiro, o urso que maneja um pau, o macaco que toca pratos, o garrano que conta as horas, a harpa, o realejo, a gaita de foles, o sabonete que tira as nodoas, o cosmorama, a loteria, o arranca-dentes, o arlequim, o compõe-louça, o pick-pocket, e mais ainda.

Todos os homens são como os passaros: teem seu ninho. Voar voam ás vezes, e para longe, mas é no seu ninho que descançam, é no seu ninho que dormem. Os negociantes da rua, que constituem para assim dizer uma humanidade á parte, são como as borboletas; voar, sempre voar! E assim como os naturalistas atravessam com um alfinete o corpo das borboletas para as fixarem n'um cartão, usam alguns escriptores fazer da penna alfinete para apresentarem á humanidade das salas, em livros e jornaes, a humanidade das ruas.{118}

Em França os typos populares teem tido por photographos habilissimos talentos. Bastará citar dois ou tres livros, porque são numerosos os que tractam do assumpto. Eu conheço o Ce qu'on voit dans les rues de Paris e Les espectacles populaires et les artistes des rues por Victor Fournel; Enigmes des rues de Paris por Eduardo Fournier e Célébrités de la rue de Charles Yriarte. Em Portugal apenas um ou outro escriptor se tem occupado em artigos de jornal—lembro-me agora do snr. Alexandre Herculano e de Julio Cesar Machado—dos typos populares. E todavia esse immenso mundo das ruas tem, como todos os mundos, seus mysterios, suas lagrimas, seus sorrisos, seus romances,—o que lhe dava direito a ter tambem a sua litteratura. Estude-o porém quem se julgar com forças para o fazer; eu limitar-me-hei hoje a pregar n'este cartão volante duas ou tres borboletas, das que se andam espanejando nas ruas, á luz do sol de Deus, e que podem constituir, quando muito, outras tantas paginas da epopêa do povo.

O leitor perfeitamente conhece os meus typos, de os vêr todos os dias, de manhã, em frente da igreja dos Congregados,—um com o seu cosmorama, o outro com os seus canarios. O do cosmorama estava fazendo fortuna, mórmente em dias de feira, mas vae senão quando apparece-lhe um rival temivel na feira de S. Lazaro, com um cosmorama muito mais variado, porque tem vistas sacras e profanas, e com o que é mais,{119} com um voseirão capaz de suffocar a voz de todos os expositores de cosmoramas.

Occupemo-nos em primeiro logar do parvenu da feira de S. Lazaro, e do seu cosmorama mixto. Typo de cigano, olhar e linhas de invencivel velhacaria;—jaqueta, chapéo de lavrador e calças d'almocreve. A mulher, um pouco gibosa, e zombeteira como todos os gibosos, está sentada, emquanto o homem falla, n'uma das travessas do X de pau, que sustenta o cosmorama,—sempre a rir um risinho... Eu não pude averiguar se ella se ri da velhacaria do homem, se da credulidade dos espectadores. O certo é que ri sempre. O homem ronca de pé, com a precipitação d'um jorro d'agua, dando ao pescoço o geito d'um cysne que levanta a cabeça. Começa a funcção, e a mulher a rir, alapada entre o cosmorama e o chão, como um satyro feminino n'uma gruta...

Começa o espectaculo e o discurso:

 

«Vamos, senhores, cheguem-se para vêr as grandes guerras da França e Prussia. Isto é baratinho, custa apenas 10 reis, ainda temos dois vidros. (Para um espectador: Dê cá 10 reis.)

«Passamos a vêr a primeira vista. Ahi tendes, senhores, a grande cidade do Rio de Janeiro, aquella grandiosissima cidade com a sua barra por onde entram e saem embarcações e grandes naus: olhae, senhores, para o vosso lado direito, e vereis o grande palacio do imperador de quatro andares. Olhae ao centro{120} e vereis a grande ilha das Cobras; á esquerda lá se avista a grande torre da Candelaria onde o imperador vae á missa.

(O orador enxota com a vergasta um gatuno que tenta espreitar por cima do hombro d'um espectador.)

«Passamos agora, senhores, a vêr o grande exercito prussiano a bater o exercito francez: olhae ao centro que lá vereis já 12:000 francezes prisioneiros; á esquerda lá se vêem sahir os prussianos debaixo d'umas arvores. Pela direita...

(Um espectador, desorientado, volta subitamente os olhos para a esquerda, e, reconsiderando, vira logo o pescoço para a direita. O orador:)

«Pela direita lá chegam os carros dos feridos francezes; mais adiante lá se vê Napoleão III na batalha de Sedan com o seu braço esquerdo no cachaço do cavallo, dando o seu braço direito á Prussia.

«Lá vem Bismark a toda a brida; lá rebentam as metralhadoras, lá se vê ao centro a grande explosão de polvora.

«Passamos a vêr agora Paris. Olhae, senhores, á vossa esquerda e lá se verão as balas ardentes a sahir das boccas dos canhões; mais ao centro lá se vê o balão a fugir para fóra dos muros da cidade. Triste desgraça é esta, senhores!

«Agora vae apparecer o inferno. Lá estão as alminhas penando, lá está uma a levantar a cabeça, e o diabo a mergulhar-lhe a cabeça na lavareda.

«Vereis agora, senhores, o purgatorio: o lugar onde{121} estão as almas antes de subir para o céo. Lá está o padre santo e seus companheiros, e todos os bispos e alcebispos.

«Passamos agora, senhores, a vêr a ultima vista, que é o inferno, onde os maus são castigados pelos crimes que fizeram cá n'este mundo.»

A velhacaria d'este homem attrae, mais talvez que o seu voseirão. Faz dinheiro, junta muita gente, mas ainda assim o seu rival dos Congregados, que tambem foi á feira, tem suas sympathias e sua clientella certa. Representa os seus quarenta annos; traz calças antigas, casaco velho e bonnet decrepito; chama-se Joaquim de Almeida, e é natural de Villa Nova de Gaya.

Anda emparceirado com o homem dos canarios, que veste pelo mesmo theor, e que poderia ter a mesma cara, se não fosse trazer a barba crescida. Chama-se José Maria Alves, e é natural de Valença. O cosmorama está sempre collocado a par da gaiola, se bem que os espectaculos poucas vezes sejam simultaneos, porque o homem dos canarios toma a peito fazer a policia do recinto emquanto o cosmorama funcciona. Joaquim de Almeida falla em cima de uma cadeira. Estão as lentes todas occupadas: é uma enchente. Principia a explicação:

«Vamos a vêr, senhores, a paixão e morte de N. S. Jesus Christo.

«A primeira estação representa Jesus preso deante de Pilatos para ser sentenciado á morte. Pilatos, não encontrando crime nem delicto em Jesus, mandou que{122} sentenciasse Caifaz, e elle lavava as mãos do bem e do mal. Como Jesus caminha de casa de Pilatos para casa de Caifaz. A sentença que le deu Caifaz é que Jesus caminhasse com toda a brevidade ao monte Calvario com a cruz ás costas para n'ella ser crucificado. E a primeira cahida que deu Jesus. Jesus caminhando para o monte Calvario eram tantos os golpes que le davam os judeus, que Jesus cahiu rendido por terra com o peso da Cruz. Agora vamos a vêr o encontro que teve Jesus com sua mãe Maria Santissima pelas ruas da amargura. Sahiu Sua Mãe Maria Santissima ao encontro para se despedir de seu amado filho, mais Jesus não se podendo despedir de Sua Divina Mãe le disse: «Mãe, não choreis, pois por minha morte vos glorificarei». Ahi se vê como fica a Virgem triste chorando atraz de seu amado filho. Jesus caminha arrastado pelos algozes sem se poder despedir de Sua Divina Mãe. Agora vamos a vêr como Jesus foi ajudado do Cyreneu. Jesus caminhando para o monte Calvario, sem forças e sem alentos, pediu a Simão Cyreneu que le ajudasse a levar a cruz ao monte Calvario. Tambem se vê ao lado direito como está Simão Cyreneu ajudando a levantar a cruz ao Senhor, e ao lado esquerdo se vê como caminha o menino Isaac com a cesta dos pregos e com a escada deante de Jesus, mostrando o caminho do monte Calvario aonde Jesus ia a padecer e a ser crucificado. Agora o santo sudario. Jesus caminhando para o monte Calvario em agonias e suor de morte sahiu Santa Varonica ao encontro. Ao lado direito lá se vê como está a Santa Varonica com o{123} lenço branco estendido e o santo sudario do Senhor escripto.»

Este discurso é expectorado com verdadeira rapidez de manivella, erguendo o orador o rosto para os espaços, e interrompendo-se, a cada vista nova, o tempo preciso para acompanhar com os olhos o movimento que a mão tem de executar para a mutação de scena, operação que se resume em puxar por um cordão.

«Agora a segunda cahida que deu Jesus caminhando para o monte Calvario. Eram tantos os golpes que le davam os judeus, que cahiu Jesus segunda vez por terra com o peso da cruz dizendo: «Os maus cargam meus hombros e meu corpo cae rendido de afflicções.» Jesus caminhando para o monte Calvario com o peso da cruz, sahiram as filhas de Jerusalem ao encontro com palmas e ramos para recebel-o, mas Jesus olhando para ellas le disse: «Filhas, não choreis sobre a minha morte; chorae sobre vós mesmas e sobre vossos filhos.» Agora é a terceira e ultima cahida. Jesus caminhando para o monte Calvario, eram tantos os golpes e a pressa que le davam os judeus, que Jesus cahiu desfallecido a terceira e ultima vez por terra. Caifaz vendo que Jesus não tinha forças nem alentos, se apresenta a cavallo dirigindo á guarda que apromptamente apressasse com Jesus para vir a ser crucificado.»

 

Nós paramos aqui;—o orador não pára, vae repetindo o seu discurso até á ultima scena. Annunciado o{124} fim, os espectadores debandam, ordinariamente calados, rompendo a multidão com a sobranceria de quem acaba de vêr o que a muitas é defeso.

O homem dos canarios tem quatro, que se chamam: Isabel, Dolores, Branca Flor e Garibaldi. Tres femeas e um macho, o que equivale a dizer que tem menos musica do que podia ter se fossem tres machos e uma femea.

Como se sabe, por excepção aos costumes do sexo feminino, as femeas dos canarios cantam menos que o macho. Foi por isso que já um poeta francez extranhou á natureza o

... priver les meres des serins
Du caquet si commum aux femmes des humains!

Todavia elle não quer que lhe dêem musica,—quer que lhe dêem pão. Ha cinco annos que os possue. Não lhes dará commodidades, porque trabalham todo o dia, não lhes dará mesmo limpeza, porque, ou velhice ou falta d'esmero, a plumagem não está setinosa, mas com a sua ração d'agua e painço não lhes falta. Ainda assim, apesar do seu fadario, são alegres, teem nos olhos a vivacidade que os caracterisa e a delicadeza e graça de fórmas propria dos canarios, admiravelmente intelligentes.

Chega uma pessoa que quer tirar sorte. Aproximada da gaiola a caixa dos bilhetinhos coloridos, o homem{125} dos canarios abre a porta d'arame, e chama por um:

—Vem cá, Isabel!

O canario dá duas voltas na gaiola antes de sahir.

—Tira uma sorte a este cavalheiro.

O canario tira com o bico um papelinho.

—Dá-lhe quatro voltas.

O canario obedece. Esta operação é para que o vaticinio leve toda a virtude. Ás vezes, como se o papelinho, permittam-me a expressão, não estivesse ainda bem impregnado de futuro, diz o homem:

Izabel, dá-lhe mais duas voltas. Uma por este cavalheiro...

O canario executa.

—Outra pela sua familia.

Obedece ainda.

Então é que o homem entrega o papelinho, e que a gente vae saber o seu destino por um vaticinio como este, influenciado pelo signo de piscis, que no papel apparece mudado em pricis:

«Estás tranquillo por o temor de não sahirem bem de tuas emprezas. Tranquillisa-te; os teus desejos se cumprirão dentro em pouco tempo, terás muito breve noticias que te darão alegria. A educação de teus filhos será a tua mais doce occupação. Alguns annos depois do teu casamento, encontrarás um thesouro e comprarás muitos terrenos, tens de fazer favores e a paga é a má recompensa; a ideia de cumprires tem de privar-te d'alguns{126} prazeres; terás uma herança que te proporcionará um bem estar.»

Depois affastam-se as pessoas que tiraram a sorte, algumas rindo do disparate, outras pensando—as mais sonhadoras—que hão de achar algum dia um thesouro, ainda que não seja senão o Thesouro de... meninos.{127}