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Entre o caffé e o cognac cover

Entre o caffé e o cognac

Chapter 30: Scena IV
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About This Book

Coleção de folhetins e esboços jornalísticos de tom pessoal que reúne descrições minuciosas de interiores, objetos e retratos que evocam a vida íntima de escritores, além de anedotas e pequenas biografias literárias. O autor alterna observações cotidianas, comentários sobre práticas jornalísticas e reflexões culturais, oferecendo fragmentos ensaísticos que combinam memória, descrição material e apreciação estética para compor um painel sobre o ambiente literário e social que frequenta.

A GIGANTA

(CARTA A JULIO CESAR MACHADO)

MEU JULIO:

 

D'esta vez o assumpto é... grande.

E, quem como o Julio sabe o que é ter de dar um folhetim em determinado dia, comprehende que é muito mais raro encontrar um assumpto grande do que uma mulher grande. D'esta vez apparecem simultaneamente os dois phenomenos,—uma mulher que é um assumpto, e um assumpto que é uma mulher, ambos grandes. Ora este folhetim é nada mais e nada menos que a Giganta;—ella é a que ha-de encher estas seis columnas, talvez com os bicos dos pés ainda de fóra por não caber perfeitamente n'ellas. Esta notavel mademoiselle Rose tem passado de paiz em paiz, e de folhetim em folhetim. O Julio escreveu d'ella o brilhante folhetim que n'este jornal reproduzi quarta-feira; hoje escrevo eu, não com pretenções a desbancar o Julio, mas a desbancar a Giganta. Eu lhe explico. Sendo certo que nós{128} todos devemos professar o mais profundo respeito pela tradição biblica, e ensinando ella que o pequeno David recebera o collossal Gollias com uma simples funda, eu quero tambem, segundo a santa lição, receber ao estylo apocalyptico esta illustre representante da familia gigantea: atirando-lhe com um folhetim.

Fui vel-a. Era á noite, á hora dos namorados, como o Julio disse. Desde que entrei a porta senti chilriar em francez, e eu mesmo, antes de procurar o dinheiro na algibeira, procurei no meu espirito recordações da grammatica do Albano e do diccionario do Fonseca. Comecei por ser francez, dando um franco pela entrada. Ainda quiz vêr se, como geralmente succede no commercio, me fariam o franco a 180. N'essa noite porém a sala estava cheia, sentia-se dentro a alegria franceza á mistura com umas ligeiras modulações no piano, e o cambio estava alto. Resignei-me a dar pela entrada o que até agora se dava por uma edição de Michel Levy. Em todo o caso sempre era um livro que eu ia lêr. Antes de correr a cortina vermelha, a tradicional cortina vermelha que empana todas as celebridades, disse para dentro, com voz que sobrelevou o murmurio, a madame que recebia as entradas:

Il y a du monde.

Esta phrase, que visivelmente se referia a mim, fez-me estremecer d'orgulho. Está a gente, n'estas agrestes lides da imprensa, tão costumada a vêr-se depreciada em jornaes e opusculos, que já teria por grande elogio chamarem-lhe microcosmo. Vae a madame da{129} porta e chama-me mundo, como quem diz: Entra o snr. Cosmos. Estava eu quasi a deixar cahir a cortina, para deitar uma falla á madame encarecendo-lhe a grandiosidade da sua lingua patria, quando me lembrei, por intervenção do José da Fonseca, que ella simplesmente quizera avisar para dentro de que entrava gente.

Era tarde para retroceder,—entrei.

Ao fundo da sala, erguidas sobre estrado, e ambas sentadas, deslumbraram-me duas mulheres. Ao nivel do estrado ondulavam as cabeças dos admiradores. O fumo dos charutos, que caprichosamente se derramava no ar, fez-me lembrar a vaporação d'uma pyra. Insensivelmente tirei o chapéo. Das mulheres, a mais alta, mandou-me cobrir em francez. Eu cobri-me em portuguez. A mais gorda mandou-me sentar, e, a esse tempo, já eu estava tão enleiado, que não sei bem se me mandou sentar em francez, se em portuguez. Eu sentei-me universalmente,—como todos.

Sempre lhe quero dizer, meu querido Julio, a razão do meu enleio. O Julio fallava apenas da Giganta, e eu fui encontrar, na saleta da rua de Santo Antonio, duas mulheres: a Giganta e a outra.

Foi uma agradavel surpreza o poder lêr dois livros pelo preço d'um só. Achei então que o Michel Levy estava sendo caro, vendendo o volume a duzentos e cincoenta. Esta litteratura viva, muito mais agradavel á vista, pareceu-me economica. Depois d'estas ponderações entrei de examinar as mulheres. Ergui o meu olhar{130} á altura de dois metros e quinze centimetros, e encontrei a cabeça da Giganta—mademoiselle Rose. Depois desci com a vista até encontrar as quatorze arrobas da outra,—mademoiselle Claire. Estive hesitando entre as arrobas e os metros, e decidi-me pelo systema decimal. Eu só acredito que uma mulher é franceza, sendo alegre. Ora mademoiselle Rose estava cantarolando com coquetterie o Orpheu nos infernos; e mademoiselle Claire desfolhava tristemente uma flôr. Esta circumstancia levou-me a perguntar-lhe se era franceza. Respondeu-me mademoiselle Rose que era sua irmã, e do mais que me disse deprehendi que eram ambas francezas, que tinham quinze irmãos, o mais novo dos quaes estava sentado ao piano.

Pedi logo para vêr os outros quatorze. Mademoiselle Rose sorriu do meu equivoco, e respondeu-me que eu teria de navegar o Atlantico para os ir vêr a França. Consultando o programma, que me deram á entrada, e o folhetim do Julio, vi que era verdade ser mademoiselle Rose uma mulher d'espirito. Depois, como mademoiselle Claire se zangasse com um admirador que lhe estava bulindo no pé, vi que o programma era tambem verdadeiro na parte que lhe dizia respeito: tem bellas maneiras e todas as qualidades proprias do bello sexo.

N'isto erguem-se ambas ao mesmo tempo, e annunciam explicação. Os espectadores da geral arregalaram os olhos. Mademoiselle Rose tomou a mão para fallar, e um espectador da superior atalhou do lado:

Parlez en français.{131}

Ella sorriu, e disse em francez:

«Mrs. e M.mes, nous sommes françaises, nées à Paris; ma soeur (Claire) est agée de dixhuit ans et moi (Rose) de vingt ans.

«S'il y a parmi l'honorable societé une persone qui desire connaitre la différence de taille, elle peut s'approcher. Vous pouvez voir que nous avons la main et le pied petits por être ma soeur aussi grosse, moi aussi grande, et le molet proportionné.»

(Reproduzo fielmente o francez... d'ellas.)

Mademoiselle Claire limitou-se a mostrar a mão, o pé e a perna, porque, realmente, aquella linguagem plastica era eloquente de sobra.

Não obstante, eu continuei a optar pelo systema decimal.

Como porem o publico da geral désse mostras de não ter entendido nada, tornaram a levantar-se e a fazer uma explicação em portuguez. Quando mademoiselle Rose chegou ao ponto de dizer: e a barrica da perna regular, eu tive tentações de observar:

C'est vrai: barrica.

Calei-me, porque ella estava fallando.

N'este comenos um lavrador da geral começou a rir e a apontar para a Giganta, que lhe perguntou o que elle queria.

O lavrador, com o mesmo sorriso alvar, tartamudeou:

—É que eu queria perguntar se o paisinho da menina era do mesmo tamanho.{132}

—Muito grande! muito grande! respondeu a Giganta abrindo as mãos e sorrindo em francez para os que entendiam aquella lingua.

A mulher do lavrador benzeu-se, e disse para o homem:

—Olha que ainda é maior do que o castanheiro de Quintães!

Começou então a sahir o publico da geral, e a madame da porta, que é cunhada da Giganta, a dizer de cada vez:

Il y a du monde.

D'uma vez olhei, e vi entrar um anão. Que mundo tão pequeno! Reconheci que não me devera ter orgulhado da phrase, e entrei de admirar a coragem do anão que, voluntariamente, se expunha a ser vencido por uma mulher. E eu, interposto áquellas antitheses, lembrei-me de que a humanidade era a rethorica da creação, e de que da variedade das figuras procedia o que no poema da vida ha de recreativo.

Em todo o caso achei muito melhor ser gigante, porque sempre se vae vivendo á custa dos... pequenos. E depois, aquelle estrado em fórma de solio dava a ideia de realeza. Realeza d'estatura, é certo;—com prós e contras, como todas.

Ella alli está, pensei eu, admirada, festejada, galanteada, recebendo flores e rebuçados, tão feliz, tão feliz, que tem sempre vinte annos! Mas tambem, horror! nascer uma mulher gentil, elegante, coquette, e viver sentada, entre os seus pannos vermelhos, sem poder espanejar-se{133} ao sol no verão, sem poder molhar os pés no inverno! Molhar os pés, digo eu, porque isso mesmo, que é para nós um desastre, seria para mademoiselle Rose uma deliciosa surpreza! Tem corrido a Europa sentada, e dizem-me que tenciona ir agora sentar-se á America. O mundo é para ella uma cadeira. Se algum dia quizer fazer exercicio, a conselho dos medicos, e subir ao pico do Himalaya, para admirar o mundo, ella, que tem sido admirada pelo mundo, e vir ao sopé da montanha uma tribu do Indostão ou uns pastorsitos de Thibet, dirá logo voltando-se para o irmão:

La chaise, mon frére, il y a du monde.

As mulheres vão ao theatro, passeiam, dançam, e ella, tendo talento, como realmente tem, vive sentada, a repetir sempre a mesma coisa, victima da sua propria realeza! Como não póde passear ella mesma, vae passeando em photographia, e espalhando o seu retrato.

Um dia bem póde ser que se sinta incommodada a ponto de ter inveja da sua photographia, que tenha um ataque nervoso por querer sahir, e que o medico declare que precisa d'andar durante vinte e quatro horas. N'esse dia estará perdida na terra onde estiver, porque todos a verão de graça, que é justamente a maneira porque ella não quer ser vista. A sua cadeira perderá todo o prestigio, e desde então a cadeira da Giganta ficará valendo tão pouco como a Giganta. Uma e outra perderão todo o mysterio. Mysterio, digo eu, porque seguramente a Giganta o tem.

Quando é que ella chegou? Quem a viu descer das{134} Devezas, atravessar a ponte, passar na rua de S. João, das Flores, subir finalmente a rua de Santo Antonio? Como é que ella entrou por aquella porta tão pequena,—tão pequena, que muita gente cuido eu que dará de vontade os dois tostões, não tanto para vêr a Giganta, como para averiguar o modo porque ella entraria? Quando partirá? Quem a verá? Não se sabe. Ella tambem pouco sabe do mundo, a não ser que no mundo ha dois tostões, e que o mundo gosta das photographias, e dos originaes tambem.

Recebe dinheiro e nunca viu um Banco. Recebe flores, e nunca viu os jardins.

Não obstante, a realeza de estatura tem suas vantagens para uma mulher. Quanto o marido lastima, se é casado, ter de vestil-a, folga ella com a certeza de não poder queimar as suas tranças. Eu vou, meu caro Julio, fazer-me perceber melhor. Sabe o Julio, sabe toda a gente, como as mulheres estimam as suas tranças, pretas ou loiras, avelludadas como a noite ou radiosas como o sol; com que fé não lhes prendem uma flôr, que sempre lhes fica bem, porque emfim as flores tanto são do dia como da noite. Pois bem, supponha o Julio que uma mulher está lendo o seu poeta favorito, á luz de stearina, muito curvada, tão curvada sobre o livro, que chega a crestar os cabellos! Sendo o cabello a força, a mulher perdeu muito da sua individualidade. É um cataclismo. Mas a Giganta, com os seus dois metros e quinze centimetros, por mais febril que seja a leitura, tão superior hade ficar sempre á luz, que póde viver inteiramente tranquilla{135} ácerca da inviolabilidade das suas tranças. Quando muito, poderá acontecer-lhe apagar a luz com a respiração, e ficar ás escuras.

Todavia bastará uma caixa de phosphoros para proseguir na sua recreação; e, para ella, os phosphoros são tão baratos, que qualquer pessoasinha, por mais pequena que seja, valendo dois tostões, vale vinte caixas de phosphoros.

E nós, meu caro Julio,—olhe que differença!—valemos tão pouco, que sahindo de casa com a nossa caixa de phosphoros, levamos apenas comnosco a vigesima parte d'uma Giganta.{136}

{137}


O ALBUM DO GYMNASIO

(POR OCCASIÃO DA ESTADA DA COMPANHIA DO THEATRO DO GYMNASIO, DE LISBOA, NO PORTO)

Oiço dizer que vamos ter muita coisa: as campanas dos niños que estão actualmente na Corunha, o violoncello do snr. Casella, o reportorio do Santos, as tragedias da Ristori, e as guitarras dos fadistas.

Seria opportunidade de me dispender em pontos d'admiração, n'este conjuncto de surprezas que medeiam entre a campainha e a guitarra, entre o campanologo de poucos annos e o fadista de muitos, mas reservo esse luxo ortographico para depois que vir e ouvir os artistas cuja chegada se annuncia para breve.

E isto por duas rasões: por que me será mais facil copiar do cartaz, e porque não quero servir gratuitamente as empresas fazendo os cartazes... eu mesmo.

Portanto, na espectativa do que virá, volto-me para o que providencialmente já temos, e digo providencialmente, porque não... tinhamos.

Quero fallar-lhes do Gymnasio, perdão, quero fallar-lhes{138} unicamente do album do Gymnasio, que tenho presente n'este momento, e cujas photographias estou passando entre os dedos, suppondo que a minha cadeira de braços é um camarote, e que a minha jardineira é o palco.

Estou vendo-os, a elles e a ellas, sem a interposição do binoculo, que é muitas vezes mentiroso, e que realmente tem um terrivel e perigoso rival na photographia.

Elle é a illusão, o cosmetico, a cabelleira; ella é o nariz defeituoso, a bocca desgraciosa, as rugas da velhice.

Elle tem o prestigio da mentira; ella a eloquencia da verdade.

Quando um admirador se apresenta a uma actriz por este modo:

—Minha senhora, eu já tive hontem a felicidade de a conhecer por intermedio do meu binoculo,

 

ella, que está para entrar em scena, segreda á sua alma:

 

—Bem; então não me viu.

Quando porém lhe diz:

—Minha senhora, eu já tinha a felicidade de a conhecer em photographia,

 

a actriz fica desgostosa e menos coquette, porque seria inutil simular.{139}

Ora sendo a photographia a verdade, optemos por ella.

Bem. Aqui temos o album: folheemos e conversemos.

Na primeira pagina... Taborda.

A gente tem vontade de gritar logo, como se encontrasse em Paris uma gravura representando a proeza da padeira d'Aljubarrota:

—Bem sei: é uma lenda da minha patria,—a lenda do Homem-Gargalhada.

D'uma valentona que em vez de espancar o homem pretende espancar a humanidade, costuma dizer-se: «Que Brites d'Almeida!» D'um sujeito que é a alegria em pessoa, que faz rir todos os grupos, não quero já n'uma visita de pesames, que é justamente onde tudo dá vontade de rir, mas n'um casamento, que é a coisa mais seria que eu conheço, costuma dizer-se: «Que Taborda!»

Este é conhecido e está definido: é a legenda do Homem-Gargalhada.

Na segunda pagina... Izidoro.

Parece um commerciante que vae á praça com o seu bengalorio e com a sua gordura,—a gordura passou a ser tão desejada que é prudente defendel-a com um bengalorio—e é um actor distinctissimo, que só negoceia á noite com as palmas e com os bravos.

Tão conhecido é, que já Julio Cesar Machado, o primeiro photographo portuguez do folhetim, o retratou na sua pequena galeria dos grandes actores nacionaes.{140}

Portanto é procurar a photographia na casa Moré. Não tem que saber: atelier de Julio Cesar Machado, Lisboa, retrato do actor Izidoro, com biographia: preço 200 reis.

Terceira pagina... Maria das Dores.

Ah! um gentil talento, creado no theatro desde os quatro annos! Tão pequenina era quando appareceu em D. Maria na Condessa de Sennecey, que adormeceu em scena, e foi preciso acordal-a para completar o seu papelinho. Depois, estreiou-se a valer no mesmo theatro, no Anjo da reconciliação, no tempo em que a esplendida aurora do talento de Manuela Rey deslumbrava o publico lisbonense. Era sobremodo difficil fazer-se notar n'aquella epocha, pela simples rasão de que a intensidade da luz chega a cegar. E Manuela foi realmente um meteoro que só appareceu no céo do theatro portuguez para se amortalhar nos seus proprios esplendores, e deixar saudades. Maria das Dores estudou, luctou, fez magistralmente o Gaiato de Lisboa, substituiu Manoela Rey no papel de Bertha da Mulher que deita cartas, o que podia considerar-se uma incontestavel victoria, e hoje é essa grande actriz que todos temos admirado,—a Silvana da Filha unica, a Valentina, e a viscondessa do Como se enganam mulheres!

Quarta pagina... Rosa Junior.

Quando este rapaz nasceu (1844) já o pae estava farto de saber para o que elle nascia. Para pintor, dizia na sua boa fé o velho Rosa. N'esse proposito, foi o rapaz iniciar-se no curso de bellas-artes, e quando terminava{141} o curso declarava ao pae que não queria ser pintor. É que realmente a gente nasce com a sua estrella, e, muitas vezes os paes tão cegos estão da sua amorosa ufania de serem pilotos da barca do nosso destino, que chegam a imaginar possivel a navegação sem olharem para o céo onde estão as estrellas...

Ha ainda alguns desenhos de Rosa Junior, ha, mas elle suppôz—e suppôz bem—por intervenção da sua estrella, que o maior atelier do mundo, sem ser o mundo, era o theatro, e voltou-se para o desenho dos caracteres moraes, a que só um verdadeiro talento póde dar colorido.

Estreiou-se no Porto, em 1862, nas Joias de familia e appareceu em Lisboa, um anno depois, no theatro de S. Carlos, no Ricardo III.

N'esse mesmo anno foi escripturado por Francisco Palha para D. Maria II, onde se estreiou na Sophia Mopin, versão de Rebello da Silva. Foi contando os triumphos pelos papeis: na Nobreza, nos Fidalgos de Bois Doré, nos Nobres e plebeus, na Patria e na Lucrecia Borgia.

Se o publico se não se encarregasse de lhe dizer que a sua estrella tinha rasão, bastaria a corôar a sua resolução o silencio do pae que nunca se atreveu a dizer-lhe:

—Diabo! porque não foste tu pintor!

O seu maior elogio é o silencio do pae.

Quinta pagina... Cesar Polla.

Eu não sei realmente como elle chegou a ser actor! Foi empregado publico, e, o que é mais esterilisador{142} ainda, metteu-se em politica. A burocracia teve-o nas garras até 1864, e deixou-o escapar! Chegou a saber o processo de fazer e desfazer deputados. Sondou as profundezas revoltas da urna eleitoral. E, caso raro! pôde salvar-se a si e á sua intelligencia, fugir á comedia dos homens, enganar o cerbéro da politica para que o deixasse passar e, quando muito, fazer deputados á bocca da scena, o que é mais glorioso do que fazel-os á bocca da urna.

Estreiou-se em 1865, em D. Maria, nos Diffamadores, na noite do beneficio do Tasso. Esteve em D. Maria até 1870, e durante esses cinco annos revelou-se o grande artista que hoje é, mórmente quando, incumbido do papel de barão de Lambech, no Anjo da meia noite, ao tempo que José Carlos dos Santos o estava fazendo na rua dos Condes, logrou confirmar o enthusiasmo das primeiras saudações. O publico lisbonense festejou-o delirantemente no Pomerol da Fernanda, no Bevalan da Vida d'um rapaz pobre, no Mirabeau da Maria Antonietta, no Gil Paes de Lima da Côrte n'aldeia, no medico do Juiz...

Verdade é que se perdeu um burocrata! O orçamento não lucrou com isso, mas quem com certeza lucrou foi o theatro portuguez.

Sexta pagina... Emilia dos Anjos.

É uma discipula do Conservatorio, de faces morenas e olhar vivo, expedita e intelligente, já conhecida do publico portuense, que em mais d'uma época a tem festejado na comedia. Representou no Porto, com Pinto{143} de Campos, a Familia Benoiton, e o nosso publico ficou estimando-a.

Voltemos folha: Pinto de Campos.

Filho d'uma familia de lavradores de Villa Franca, começou por ser typographo. Certo dia lembrou-se porém de que não conhecia ainda todos os typos—os do drama e da comedia—e fez-se actor. Estreiou-se no Gymnasio em 1855 e passou depois a D. Maria. Com estas andadas esqueceu-se da typographia, mas em compensação ficou conhecendo optimamente a topographia... do theatro.

Fez admiravelmente o Krig da Cora, o piloto dos Homens do mar e, no Porto, os galans com Emilia das Neves.

Artista consciencioso e boa alma. Ouro sobre azul.

Temos na setima pagina... Maria Adelaide.

No theatro e na sociedade é uma coquette. Alguem, vendo-a no Afilhado de Pompignac, disse que ella tinha nascido para amazona. Diz com graça, e tem ás vezes a travessura d'um rapaz.

Ora, pela coquetterie, é bom passar a gente depressa.

Folheemos as paginas restantes.

Bayard, se não se póde considerar um artista de primeira ordem, é todavia um actor apreciavel, em que os outros podem ter confiança, porque não desmancha, como se diz em linguagem de theatro.

Luiza Candida tem uma especialidade—os typos populares,—em que vae muito bem, o que não quer dizer{144} por modo algum que não tenha intelligencia para outras creações.

Jesuina é uma soubrette engraçada e distincta.

Ora tambem não é bom demorar-se a gente onde ha graça e distincção...

Carlos d'Almeida é um actor comico, que se adivinha pelo seu casaco azul de botões amarellos, pela sua badine, e pelo seu chapéo.

No Afilhado de Pompignac está constrangido, mas ainda outro dia, n'aquella bagatella Entre casados, fez rir a bom rir.

Na ultima pagina do album está Leopoldo, discipulo do Conservatorio, e ensaiador da companhia. Apparece pouco, mas em compensação todas as noites apresenta a sua obra.

É tempo de fecharmos o album do Gymnasio, e, como n'esta vida anda sempre a illusão a par da realidade, bom será que o publico, que viu a photographia, veja á noite pelo binoculo... a companhia.{145}


ESBOÇO DE COMEDIA

O pessoal d'esta comediasinha é inferior ao de todas as secretarias, mas, ao contrario do que acontece nas secretarias, todo o pessoal faz alguma coisa. Declaro, para evitar pedidos d'empresarios, que ha de ser posta em scena por curiosos, evitando-se outrosim as tolices dos actores, e que se nomeará no cartaz:

HISTORIA D'UM COLLAR

PERSONAGENS

Raymundo Savedra—leão.

Dolores—leoa.

Baroneza de Faiães—ex-leoa.

Principia ás 9 horas para haver tempo de preparar a jaula.{146}

Scena I

Boudoir de Dolores.—Tapetes de Susa, espelhos de Veneza, e uma bilha d'Extremoz. Raymundo e Dolores.

RAYMUNDO—Amo-a!

DOLORES (despeitada)—O senhor ama todas as mulheres!

R.—Não confunda os fogos-fatuos d'uma noite canicular, estiva, apopletica com a chamma do sol, intensa, continua, deslumbrante, esplendida.

D. (bocejando)—Que estylo!

R.—Não faço estylo. Eu fallo assim.

D.—Oh! então o nosso amor é impossivel, atroz. O senhor, se alguma coisa ama, é... os adjectivos.

R. (carinhoso)—Perdão, Dolores, a minha eloquencia é filha do meu amor. O rouxinol da balseira só descanta quando a primavera enflora os prados. O carneirinho...

D.—Não sabe que embirro tanto com os carneirinhos como com os bachareis! Que está o senhor a bacharelar!

R.—Perdão. Entre bacharelar e ser bacharel medeia a distancia da reprovação. Eu não tenho cartas.

D.—Com que então não joga! Virtuoso moço!

R.—É implacavel, Dolores!

D.—N'esse caso peça treguas.

R.—Pedirei.

D.—Com a condição de me satisfazer um capricho, uma velleidade. Preciso dum collar. Estou doidamente{147} namorada d'um que vi esta manhã em casa do meu ourives. Vá comprar-m'o.

R. (pegando no chapéo)—Voltarei em breve. O collar será seu, e a felicidade será minha. (Sae.)

Scena II

DOLORES (cahindo no sophá)—Puff! Que xarope de morphina o estylo d'este homem! Como elle me aborrece, me adormenta! Me adormenta, é phrase d'elle! E não se lembrar este doido de que é casado, de que tem filhos...

UM CRIADO, que podia ser de papelão, se alguem fallasse por elle entre scenas:—A snr.ª baroneza de Faiães.

Scena III

BARONEZA—Minha senhora!

D. (erguendo-se)—Senhora baroneza!

B. (sentando-se a convite de Dolores)—Eu espero que a justiça da minha causa me absolverá da ousadia da visita.

D. (para a frisa do lado direito)—Que quererá ella? Não sei que me adivinha o coração!

B.—Ha realmente assumptos tão melindrosos, que eu não sei se deva...

D.—Minha senhora!

B.—Peço toda a sua benevolencia para a justa defensa dos direitos de minha cunhada...{148}

D.—Mas...

B.—Sim, eu sei que ama delirantemente meu irmão, que o verdadeiro amor é cego para todas as conveniencias sociaes, mas é ao coração doente que eu venho trazer o cauterio da piedade. Lembre-se, Dolores, de que meu irmão é casado com uma senhora nova e extremosa, e pae de cinco filhos.

D.—Mas... eu queria dizer a v. ex.ª que não amo seu irmão.

B. (admirada)—Como!

D.—Que o não amo.

B.—Pois será possivel! Meu irmão suppõe-n'o, acredita-o, jural-o-ia.

D.—Eu creio que o snr. Raymundo Savedra é facil em acreditar tudo: o espirito simples é, por via de regra, credulo. Agora lhe pedi eu um collar de preço fabuloso para vêr se conseguia que o sacrificio lhe fosse lição.

B. (áparte)—Piedosa lição! Esta mulher! (para Dolores)—Muito bem! Está, pois, concluida a minha missão. Saio d'aqui com a felicidade na alma, e creia que jámais me esquecerei da nobre franqueza que encontrei nas suas palavras (comprimentando).

D. (correspondendo)—Senhora baroneza!

Scena IV

RAYMUNDO (entrando açodado)—Que veio aqui fazer minha irmã? Ouvi-a fallar n'esta sala, e escondi-me no corredor. Que disse ella?{149}

DOLORES (com indifferença)—Perdão! E o meu collar?

R.—Oh! O seu ourives só sabe propôr negocios leoninos! Pede uma quantia fabulosa!

D. (no mesmo tom)—Quanto?

R.—Um conto de reis!

D.—Ah! Acha muito!

R.—É que realmente eu tenho dispendido comsigo, Dolores, loucamente, e receio que um dia a pobreza vá encontrar meus filhos amaldiçoando o tumulo do seu pae.

D. (tocando a campainha)—Que entranhas paternaes as suas! (Ao criado) Diga a este senhor que estou incommodada. (Sae.)

R. (fulo de colera)—Eu me vingarei, infame! Ficará sem collar! (Sae.)

Scena V

DOLORES (entrando pela mesma porta porque saira)—Não ficarei sem collar, não. Eu serei infame, mas tu és... parvo. (Escrevendo) Duas linhas ao meu ourives: «Snr.: Queira aceitar a offerta, qualquer que seja, feita pelo snr. Raymundo Savedra. Eu completarei o preço da compra do collar. Exijo absoluto segredo.» (Tocando a campainha; ao criado) Leve esta carta ao meu ourives. (Erguendo-se) É preciso que elle fique inteiramente derrotado. É uma fonte de receita que se vae eliminar do meu orçamento, e convém não{150} prescindir da ultima verba. Tu receberás a correcção devida a todos os parvos.

Scena VI

Raymundo entra timidamente. DOLORES (sentindo-lhe os passos)—Que amor o d'aquelle homem, que recua deante d'uma velleidade! Vão lá fiar-se no amor! (RAYMUNDO avançando)—Não faça esse conceito de mim, Dolores, bem sabe se a amo, doidamente, perdidamente, mas é que...

D.—É que talvez nem mesmo agora saiba ser cavalheiro. O meu ourives acaba de avisar-me de que resolvera acceder á offerta do senhor.

R.—N'esse caso...

D.—Quanto offereceu o senhor?

R.—Quinhentos mil reis.

D.—(á parte) É muito! Tenho de dar outros quinhentos. (Alto) Não lhe convém ainda? Acha cara a felicidade que lhe custa quinhentos mil reis! Que largueza d'animo a sua!

R. (apaixonado)—Não, vou já, Dolores. Á noite fulgirá o collar no seu seio, e as estrellas desmaiarão no céo. Não será mais formosa a huri quando as exhalações calidas da noite...

D. (com aborrecimento)—Quer que lhe faculte o adresse do meu ourives? É de suppôr que a imaginação lhe anniquille a memoria.

R.—Até já, Dolores. Vou buscar as estrellas para completar o meu céo de felicidade. (Sae.).{151}

Scena VII

DOLORES (olhando para a porta)—Bonita figura... a do homem! O amor dá azas. Voará. Dentro em pouco estará aqui. O collar será meu. Deital-o-hei ao pescoço. Mirar-me-hei ao espelho, e intimarei o snr. Raymundo Savedra a que saia para nunca mais voltar. E depois um collar d'um conto de reis não é caro por metade do preço. (Chegando á janella) Já desappareceu. Não tardará. O caso é que estou impaciente pelo desfecho d'esta pequena comedia. (Tocando a campainha; ao criado) Já vieste ha muito? Ficou entregue? (O criado bole affirmativamente a cabeça) Está bem; vae-te. Mal persintas o snr. Raymundo Savedra, avisa-me. Não sei o que hei-de fazer! Ah! o meu piano! (Senta-se arpejando e monologando) E dizerem que a felicidade é isto! Quantas vezes m'o não teem dito! Se soubessem como estou aborrecida agora! E as minhas canções! Vamos, Marcó, desafia-te a ti mesma; vence o teu proprio fastio. Póde ser que venhas a amar um dia; entôa o teu cantico d'esperança! Não, não posso! Que demora!

Scena VIII

O CRIADO (com uma carta)—Da snr.ª baroneza de Faiães.

DOLORES (impaciente, levantando-se do piano)—Vejamos. Que terá a baroneza ainda que dizer-me!{152} «Snr.ª Acabo de escrever a meu irmão desenganando-o. Antecipei-me, porque lhe seria menos doloroso o golpe vibrado por mim.» (O criado: Chega o snr. Raymundo Savedra) DOLORES: Ah! (escondendo a carta).

Scena IX

RAYMUNDO (entrando de chapéo na cabeça, com uma caixa na mão esquerda e uma carta na mão direita. Ameaçador, tetrico)—Sei tudo. Minha irmã teve a feliz ideia de me deixar esta carta em casa do seu ourives, minha senhora. Esteja tranquilla. Não será preciso que o sacrificio me seja lição. Esta carta desvendou-me; chamou-me á realidade. O sorriso da amante não vale o coração da esposa.

D.—O que?

R.—Oh! socegue! As pedras falsas inventou-as o homem para as falsas mulheres. Mas estas, as que são realmente preciosas, creou-as a natureza para as mulheres honestas. Adeus. Vou offerecer este collar a minha mulher. (Sae.)

D. (cahindo fulminada no sophá)—E os meus quinhentos mil reis! Ó castigo! (Cae o panno.){153}


AS COLHEITAS

Eia, ceifeiros! Começam a arroxear os pampanos e a loirejar as messes...

Vá de limpar a eira, e preparar a adega; de varrer o lagar e ventilar o celeiro.

Ri no campo a conta amarella do milho, na vide o bago roxo da uva.

Foi Deus que da primavera ao outomno os preparou no mysterioso laboratorio da terra.

A ambos deu côr, e fórma, e prestimo: no interior d'uma pôz o cereal que ha-de ser pão; no interior do outro a gota que ha-de ser vinho.

E d'estas pequenas coisas vae sair a fartura, a abundancia, a alegria, a festa, a riqueza!

Tão contingente é a felicidade do homem, que um sopro de vento póde prostrar os milheiraes, e um insecto, tão pequeno como a uva, inutilisar o cacho...{154}

Mas se Deus vos protegeu o campo e o vinhedo, se loirejam n'um os cabellos de Daphne, e no outro vergam os sarmentos com os pêsos côr da amethista, vá de azafamar para a colheita, de afinar a viola do descante, de phantasiar as alegrias da esfolhada, de escolher corpo gentil onde caia o abraço do milho-rei.

Quem não conhece agora a aldeia, quando

Abre a romã, mostrando a rubicunda
Côr com que tu, rubi, teu preço perdes;

quando

Entre os braços do ulmeiro está a jucunda
Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;

quando mais se amacia o velludo do

...pomo, que da patria Persa veio,
Melhor tornado no terreno alheio

e

Mil arvores estão ao céo subindo
Com pomos odoriferos e bellos

e

... a tapeçaria bella e fina
Com que se cobre o rustico terreno,
Faz ser a de Acheménia menos dina,
Mas o sombrio valle mais ameno!

É agora que desce dos montes o pregão de festa, e que fogem da cidade para as sombras do bosque, como aves a procurar abrigo, as almas entediadas da vida ruidosa das cidades.

Borboletas, cuja vida irá queimar-se na chamma fatal, querem povoar os campos, cujos fulgores illuminam{155} mas não matam, porque descem do céo, e ou são do sol ou do luar.

Á tarde, desencalmado o ar, vão os ranchos festivos ribeira abaixo, pela relvosa alea ladeada de arvores que vergam ao pezo dos pomos.

Vão charlando os moços, rindos os velhos, doidejando as crianças.

Haverá por ventura no enxame quem leve seu livro para meditação?

Qual será elle?

Livro puro e são, como as aguas, como o ar, como tudo alli.

Manon Lescaut e Margarida Gauthier não entram ao santuario d'aquellas sombras, porque as flores silvestres dos vallados lhes diriam:

—Aqui não ha camelias, peccadoras. Os vossos ramos banharam-se no champagne das ceias, e crestaram-se; nós florimos banhadas no orvalho da manhã, e perpetuamo-nos. Somos pequenas e singelas. Enchemos apenas o nosso canteirinho rustico; vós encheis o mundo com a cauda roçagante dos vossos ricos vestidos. Olhae bem e procurae camelias... Não as ha. Eu sou a madre-silva, aquella é a violeta branca, aquell'outra é o malmequer. Riquezas para a pastora, que vive para colher a laranjeira! É a sua ultima flor. Não lh'a venhaes empestar com as vossas camelias, que trazem veneno como os vossos labios.

Werther tambem lá não entra, porque lhe diz o{156} camponez ancião, sentado á porta da cabana com o neto nos joelhos:

—Elá, poltrão! Os nossos lares são tranquillos e sagrados,—não se invadem. Eu sei que esta criança é filha de meu filho, e por isso a amo. Não conhecemos cá o desespero do amor illicito que leva á morte. Aqui vive cada um o tempo das arvores que plantou. Por isso eu tenho estes cabellos brancos, e é porque me não aborrece a vida, que os vês, ainda confundidos com os cabellos loiros d'esta criança.

O santo reitor, que serviu porventura de modelo ao evangelico personagem do primeiro livro de Julio Diniz, encontra no caminho a sombra de Voltaire, e entre sereno e austero lhe falla:

—Não ha quem te comprehenda aqui; vae-te, sabio peior que o rustico. São tudo camponezes. Nem a minha palavra rude e clara elles entendem, porque não precisam entendel-a. Deus conhecem-n'o de o vêr n'estes campos que ora fructificam, e que na primavera riem. Estão estas serranias tão habituadas ao silencio, que não encontrarias pelas quebradas echos para as tuas tempestades. Vae-te em paz, e adeus.

É preciso que os livros, na aldeia, tenham alguma coisa do chilriar dos passarinhos: que sejam candidos e bons.

Servem os Contos do tio Joaquim, porque na alma de Thomaz, o philosopho amoroso da estrella phantastica, não modilhavam só os passarinhos, a que do coração queria,—chilreava uma primavera perpetua.{157}

Servem os Serões da provincia, que se diriam outras tantas flores perfumadas pela alma de Julio Diniz. Não teem mau feitiço os novellos da tia Philomena, nem os versos do doutor Jacob queimam como as estrophes de Byron...

Esses livros cabem á solidão, porque é no despovoado que se rememora, e ambos elles valem hoje duas saudades redivivas.

Do rancho urbano uns lêem, outros fallam, e nenhum está triste.

Vae descendo o sol.

Passam no caminho as ceifeiras, contentes do lidar d'um dia inteiro. Na voz d'algumas canta-lhes a alma; nas faces de todas alvoreja, áquella hora do entardecer, a alegria do descanço. Metade da noite, a seroam: outra metade, dormem-n'a.

Sol nado, toca a encastelar os cestos da ceifa e da vindima, e partem cantando. No palacete de gradarias de ferro acorda ao matinal concerto uma das formosas do rancho que na vespera estava lendo A flôr d'entre o gelo. E, lembrada de ter lido n'um poeta portuense esta quadra, sorri ao primeiro raio de sol que lhe brinca nas rendas do leito, e abençoa:

Ide ceifar! Deus vos encha
Os açafates d'espigas.
Deus vos dê boa colheita,
Rapazes e raparigas.

E o serão!{158}

As rumas de milho no meio da eira; raparigas d'um lado, rapazes do outro; a requinta a distancia. Ao longe, presentidos já pela turba, os mascarados.

Emquanto não chegam, o desafio:

—Não penses em ser esquiva,
Que se eu estender os braços,
Tu vaes ficar prisioneira
N'uma cadeia d'abraços.

—Que se me dá de cadeias!
Sempre um élo é menos forte...
Cadeias que se não quebram
São as do amor e da morte.

Chegam os mascarados.

Irrompe a vozeria:

—É elle!

—É ella!

—Não é elle nem ella: é outro!

Sempre me ha de lembrar o caso da menina do Pedregal, que tinha amores contrariados.

Na noite da esfolhada obteve licença para ir dançar na festa vestida de camponeza.

Foi, e disse falseando a voz:

—O primeiro abraço é meu!

Respondeu um camponez:

—Pertence-me!

Era senha. E depois? Depois a menina do Pedregal não voltou a casa, e o capitão-mór, apesar de vêr a filha radiosa da felicidade do casamento, nunca mais deixou andar mascarados nas esfolhadas.{159}


S. BARTHOLOMEU

Per signum crucis...

Sempre é bom acautelar n'este dia!

Vamos lá para a Foz, com toda a gente, depois de persignados.

Encontramo-nos uns com os outros pela rua de Ferreira Borges abaixo:

—Para a Foz?

—Pois!

—Almoçar?

—E jantar!

—Mais um copito por minha conta!

—Mais dous por minha!

—A D. Rosalia não vem?

—Foi de vespera; dormiu lá!

—Que soffreguidão!

—A D. Rosalia não quer perder uma festa!{160}

—Então é como as esposas ciumentas...

—Maganão!

No caminho de ferro americano. Dous gordos:

—Esta romaria mette muita gente!

—O poder do mundo!

—Você passa o dia?

—Eu vou almoçar a casa do cunhado.

—Mas você vae de palito na bocca?

—Isto foi para experimentar os dentes.

Duas magras, que valem por seis tagarellas:

—De ponto em branco!

—Sim... a polonaise é nova...

—Catita d'uma vez!

—O mesmo posso dizer de ti!

—Ah sim... o chapéo.

—Está muito fresquinho! Eu gosto dos chapéos arranjados com pouca coisa...

—Não disse isso a Ravoux, que me pediu oito mil e quinhentos...

—Ellas pedem sempre muito.

—Tu lá sabes quanto te pediram pela polonaise...

Um sujeito, pondo a cabeça fóra da carruagem, para outro que desce a rua de Ferreira Borges:

—Ó Bernardo! Ó Bernardo! Anda p'r'aqui!

O outro agitando os braços:

—Olé! Ahi vou!

Uma velha rabugenta:

—Que gordura d'homem! Vamos aqui morrer de calor! Por isso é que eu gostava dos carroções...{161}

O gordo, atravancando a portinhola, e produzindo um breve eclypse no interior da carruagem:

—Vamos lá a esse S. Barthalameu!

O que o chamava:

—Ora o Bernardo! O Bernardo!

Um petit-crevé para um crevé-petit, atravez do fumo do charuto:

—Palpita-me que vamos ter bernardices.

Uma creança esmagada pelo Bernardo, que se sentou:

—Ai!

O Bernardo, cuja sensibilidade está embotada pelo habito de trilhar pessoas:

—Não é nada!... Ora coitadinha! Isto fez-me lembrar a anecdota da melancia e da avellã...

Abala o trem.

A velha, estremecendo:

—Nos carroções não havia isto!

Lá vae aquella fluctuante colonia de romeiros povoar a Foz durante vinte e quatro horas. Vão á romaria! disseram elles. Pois que vão. Chegarão lá, percorrerão todas as cangostas, todas as ruas, irão ao adro, á praia, a Carreiros, procurando, sempre procurando, e não encontrarão a... romaria.

O que elles encontrarão será:

Na igreja—Duas cortinas vermelhas e seis velas acesas, no altar de S. Bartholomeu. Um homem sentado a uma mesa, a vender registos e a receber esmolas. Algumas mulheres, que se ajoelham deante da mesa{162} para beijar a imagem e beijam o diabo, que a imagem tem aos pés...

No adro—Quatro mesas com bonecada. Um grupo d'homens de guarda-soes abertos.

Na praia—Muita gente sentada e muita gente de pé.

Em Carreiros—Algumas pessoas que vão á procura dos lavradores, os quaes lavradores não apparecem.

Pelas ruas—Muita gente que vae e que vem.

N'uma encrusilhada—Um sujeito da provincia perguntando a uma pequenita:

—Onde é a romagem, menina?

A rapariga com cara de lorpa conscienciosa:

—Cá não ha essa rua.

Nas casas particulares—Algumas meninas sentadas na sala das visitas. Ao centro, quatro velhos a jogar a bisca sueca. Tudo á espera do... jantar.

Na cosinha—A dona da casa a apressar a cosinheira. A cosinheira a dizer ao criado que se apertarem muito com ella deixa o jantar por fazer e vae-se embora.

Nos hoteis—A mesa redonda cheia. A mesa quadrada, idem. A mesa triangular, idem. Mais quatro familias a perguntar se não ha mais mesas.

Á porta do castello—Dois veteranos a comer melancia, e outro a dormir com o lenço vermelho estendido sobre a cara.

Nos bilhares—Dois caixeiros que jogam o bilhar toda a tarde, porque elles foram á Foz, não procurar a romaria, mas divertir-se.

No pharol da Luz—Um pae a explicar ao filho a{163} espheroicidade da terra pela curva que vae descrevendo um vapor. O menino: Ó papá, mas se o mundo fosse redondo, aquelle vapor cahia agora! O pae: Cala-te, cala-te, tu não sabes o que dizes!

E a romaria?

Procuraram-n'a, rebuscaram, vascolejaram tudo, e não poderam encontral-a...

E os lavradores a tomar banho?

Os lavradores tomam banhos todos os dias, menos hoje. Teimavam em farpeal-os; elles teimam em não dar sorte.

Diz-se que costumavam tomar sete banhos na manhã de S. Bartholomeu.

Eu acho que tomarão sete, em qualquer dia, se tiverem muita pressa d'ir para a terra. Dois tomam elles todos os dias: um de madrugada outro de tarde. Acontece por lá a cada passo demorar-se um camponez quinze dias e retirar-se com trinta banhos. Já houve um, meu conhecido, de Castello de Paiva, que esteve quinze dias na Foz e tomou trinta e quatro banhos. Perguntou-me se eu queria alguma coisa para os seus sitios.

—Então já vaes?

—Esta noite.

—Quantos dias estiveste?

—Quinze.

—Quantos banhos tomaste?

—Trinta e quatro.

—Como fizeste isso?

—É que aos domingos tomava quatro.{164}

Um anno por outro acontece que alguns d'elles tanta pressa teem de acabar com o remedio, que tomam um unico banho. Isto é, morrem depois do jantar, no mar, com uma apoplexia.

O pretexto d'ir vêr os lavradores é um mau pretexto, porque, ainda que elles se banhassem, como dizem que se banhavam antigamente, n'este dia,—não prestava aquillo para nada, de certo.

Eu vou explicar como os lavradores tomam banho na Foz.

Vão para as praias da Luz com a sua trouxa sobraçada, aos ranchos, por que um lençol chega para quatro. Elles entendem por um acertado instincto suino, que quanto mais salgados ficarem, melhor. Mettem-se entre os fragoedos. Homens e mulheres vão de branco, ligeiramente vestidos; a côr da roupa faz com que deixem no banho o ligeiramente e saiam sem adverbio e sem decencia.

Esperam a onda, de bruços na areia, com a cabeça virada para a terra, e a parte opposta para o mar. Isto poderia offender os peixes, se os peixes tivessem brios. Mergulham sete vezes, porque, para elles, de sete em sete ondas, vem uma que traz grande virtude curativa.

Depois vão a correr para entre as fragas, cheios d'areia e d'agua, e limpam-se ao lençol a que já se limparam tres.

Isto é invariavel.

E o diabo, que anda ás soltas n'este dia?{165}

A respeito d'este bicho eu sou exactamente da opinião do padre Antonio Vieira:

«O diabo já não tenta no povoado, nem é necessario, porque os homens lhe tomaram o officio, e o fazem muito melhor que elle.»

Ora é este mais um motivo, vista a substituição, para eu acabar como principiei:

Per signum crucis...{166}

{167}