O NATAL
Os chefes de familia, que logram contar vinte annos de praça conjugal, devem hoje chamar seus filhos á sala do jantar e dizer-lhes, indicando a meza:
—O Natal foi alli.
Que ss. ss.as os moços pennujentos oiçam reverentemente a voz de seus paes, e desçam olhos de commovido respeito ás mudas tabuas onde o Natal vaporou as mais succolentas iguarias, e caldeou a mais serena embriaguez do genero humano nas garrafas scintillantes de vinho e luz.
O Natal foi alli.
Tudo quanto de indigestamente pesado póde haver para o mais vigoroso estomago, aqueceu as loiças que se deixaram cahir de maguadas das mãos dos criados, quando souberam que certo dia o menino mais velho tivera uma gastrite por haver comido uma gemma d'ovo depois da meia noite. E tiveram rasão. A espada de D. Pedro IV prefere a inactividade do Museu de S. Lazaro{168} a lampejar ao reflexo do sol em dia de solemne patuscada militar no Campo de Santo Ovidio.
Viram o throno deserto dos cortezãos do seu tempo e não quizeram sobreviver á ruina do estomago portuguez. Os homens contemporaneos d'aquellas loiças comiam uma gallinha em dia de natal, e um perú em dia d'anno novo. Os filhos, que simplesmente herdaram o nome paterno, sentem-se affrontados com a digestão d'um ovo, e estão adoptando á meza os legumes porque a teia de aranha onde caiem os alimentos não consente mais que uma folha d'alface, e uma vagem de conserva.
Por isso se suicidaram as amplas terrinas de ha vinte annos, e não resta da primeira festa portugueza mais que este epitaphio na bocca dos velhos:
—O Natal foi alli.
Era alli. A mesa deslumbrava de candelabros e garrafas. Em derredor estavam as largas cadeiras de couro tauxiado. N'aquelles alterosos espaldares podia recostar-se uma cabeça impassivel á fermentação dos liquidos. Sabia-se que nenhum dos convivas cabecearia a ponto de fracturar o craneo na pregaria amarella. Aproveitava-se o encosto unicamente para se estar aprumado, de modo a facilitar a descida dos alimentos ao longo do esophago. Os criados entravam e sahiam para pôr os pratos; hoje o principal cuidado dos criados é dispol-os. N'aquelle tempo não havia symetria; a symetria foi creada e é observada exclusivamente por nós, que somos a geração mais artificial que tem vindo ao mundo.
A abundancia era a condição unica a attender. Ha{169} vinte annos dizia-se de uma mesa: Estava cheia; hoje diz-se apenas: Estava bonita. Dispensavam-se as flores. Para recrear os olhos bastava a variedade dos pratos; para deliciar o olfato era sufficiente o perfume dos cosinhados. Baralhavam-se as terrinas, as travessas e as taças. A luz passava d'umas ás outras como o reflexo de luar que atravessa as ondas. Era um mar agitado, amplo e alegre. De espaço a espaço, como ilha deleitosa, erguia-se a garrafa; já se sabia que se tinha de parar alli para fazer aguada. A prudencia do marinheiro está em não se demorar nos portos onde toca, de modo a atrazar a viagem. Assim observavam nossos paes á mesa. Faziam escala por todos os archipelagos de crystal, por ser vergonhoso a um maritimo não conhecer a mais insignificante ilhota. Saudavam na passagem o promontorio da gallinha, a bahia do arroz, a cordilheira dos paios, o isthmo do pernil, o cabo dos mexidos, os escolhos das rabanadas, e a frescura oleosa dos verdejantes oasis de grêlos que ensombravam os pequenos desertos das travessas.
Iam conhecendo o mappa palmo a palmo, vendo o mundo retalho a retalho, n'aquella noite. Corria a ceia na doce intimidade de bordo. Ria-se serenamente; fallavam todos e ouvia-se cada um. Á cabeceira da mesa estava o pae com os seus cabellos nevados, radeante d'alegria. Parecia o piloto á cana do leme. Dilatava-se n'aquelle suavissimo conchego a alma dos convivas como se dilata a alma dos passageiros na contemplação do infinito. Quando a tripulação saltava em terra, quer dizer,{170} quando pouco antes da meia noite se levantavam da mesa, iam em rancho á missa do gallo, com aquella religiosa solicitude de muitos marinheiros que vão orar á Senhora da Boa Viagem mal que descem a escada de portaló. Era uma festa! N'aquelle tempo o vinho não embriagava nem as comidas affrontavam. O estomago dilatava-se tanto como o coração... O somno fugia amedrontado da alegre voz do gallo. Estava-se bem toda a noite e ninguem pedia amoniaco nem soda Watter. O livro da felicissima gastronomia d'aquelle tempo era digno do prologo, e levava quinze dias a lêr-se. Só no dia de Reis se virava a ultima folha. E no dia 7 de janeiro ninguem se queixava de dyspepsia!
Hoje tudo é differente.
Os convivas introduziram os vinhos francezes porque são espuma que desce ao estomago, e que dá uma falsa alegria de momento. Todavia querem mostrar que são valentes, e arremettem contra uma garrafa de champagne, que durante meia hora os descompõe, a ponto de se supporem a ceiar com cocottes. Esquecem-se de que estão á mesa com suas irmãs e com sua mãe. Até para ellas precisam de pedir emprestada a alegria ás bebidas! Á meia noite ninguem os encontra em casa; estão no botiquim a tomar caffé, porque se sentem incommodados do estomago. Á ceia o unico que está sinceramente risonho é o pae, porque se alegra das suas recordações. Os filhos começam a fallar depois que salta a primeira rolha de champagne. Não distinguem aquella ceia das ceias ordinarias: não se lembram do irmão que{171} está no Brazil ou do irmão que está no cemiterio. Antigamente, se estava ausente uma pessoa da familia, punha-se-lhe o retrato na mesa.
Era para que não faltasse ninguem á ceia. Hoje não se colloca o quadro para não desmanchar a symetria. Mettemos a arte em tudo; até nos lembramos de a metter entre os pratos! Para tudo ha preceitos, tudo se faz por medida. Os criados andam collocando a loiça com a Arte de servir á mesa, do snr. João Matta, no bolço. Como se põe a mesa? O snr. Matta dil-o:
«A toalha convém que seja adamascada. Quando se estende, deve ficar bem posta, repartida com egualdade para todos os lados e sem rugas. A peça principal, para ornato ou serviço, colloca-se ao centro. Em torno d'ella, põem-se serpentinas com vellas; vasos de flores; grupos de figuras; pratos de doce de copa: pratos montados de porcelana, crystal, ou prata, com pastilhas, amendoas torradas, doces de ovos e de côco, foguetes e algumas flores artificiaes para embelezamento d'esses pratos. Se houver plateaus com grandes vazos de bronze dourado, devem collocar-se symetricamente na mesa, tendo cada vaso sua garrafa de vinho de Champagne rodeada de gelo, para contentamento da vista e ostentação da grandeza do dono da casa.»
Antigamente os criados não tinham compendio. O que se punha na mesa não era para se vêr mas para se comer. Em dezembro o que se queria na mesa para contentamento da vista e ostentação da grandeza do dono da casa era o vinho. O gêlo, por ser frio, deixavam-n'o á{172} vontade no topo do Marão e da Estrella. Hoje, para aquecer os convivas e os vinhos, põe-se gelo na mesa. Se uns e outros não hão-de estar frios! Ha vinte annos o que ostentava a grandeza do dono da casa era o diametro da vazilha. O vinho mais desejado era o quente; hoje querem o champagne bem nevado, frappé, como dizem os francezes. É tudo como os francezes dizem. O caso é que se lhes obedece, e que já se deixa passar a noite de Natal á franceza. Não sei como se chama em francez ás rabanadas e aos mexidos, que se fazem ainda em attenção á velhice de nossos paes. Hão-de ter um nome exquisito, para não parecerem portuguezes. Tudo nos tem levado a França,—até o feijão branco! (Já não é feijão branco: diz-se flageolets.) Deu-nos a arte, e podemos dizer que nos levou o Natal. Pois apezar de estar casquilha a mesa, cheia de insignificancias bonitas, de pastilhas, de amendoas torradas e de rosetas de gêlo, podeis dizer a vossos filhos, indicando a mesa, ó celeberrimos valentões da guarda velha:
—O Natal foi alli.{173}
OS BOHEMIOS
O fallatorio é este:
—Quando chegam?
—Quantos são?
—Devem vir muito moidos!
—Rijas pernas!
As donas de casa:
—Não sei como podem dispensar a loiça!
Os paes de familia:
—Prescindirem do sophá para dormir a sesta!
As meninas umas ás outras:
—Eu se fosse namoro d'algum não consentia!
—Nem eu!
—Porque?
—Porque não queria um marido com habitos de recoveiro...
Os leitores do Primeiro de Janeiro:
—Elles... quem são?
—De quem está fallando?{174}
—A quem se refere?
N'uma palavra,—todas as explicações. Estamos fallando dos cinco intrepidos cavalheiros lisbonenses, que se propozeram fazer a pé, em verdadeiras condições de bohemios, uma insignificante jornada de Lisboa a Braga,—resolução que importa o sacrificio de dar apenas alguns passos como quem vae da Praça Nova ao Palacio de Crystal para aproveitar a companhia de dois amigos que lembraram um duello a cerveja.
Mas, sendo um pouco mais profundo,—porque o folhetinista tem obrigação de fazer a anatomia das intenções—vejamos se não haverá porventura n'este caso, que denota á primeira vista bons pulmões, bom sangue e boas pernas, algum proposito recondito, algum plano philosophico, que revele, em segunda leitura, que os cavalheiros de Lisboa são tão intrepidos de espirito como de corpo.
Leriam ha pouco tempo o Roman comique de Scarron, o Diable à Paris de Eduardo Ourliac, L'Angleterre et la vie anglaise de Affonso Esquiros, o Grand homme de province á Paris, de Balzac, e enthusiasmar-se-iam com as comicas aventuras dos actores ambulantes e dos musicos das ruas?
Não é de suppôr que rapazes que se encostam ás vitrines do Chiado, que frequentam o Gremio, que vão a S. Carlos, que não faltam á espera dos touros, que costumam passar o verão em Cintra, que calçam bota de polimento, que se frisam no Baron, que se vestem no Keil, se aguentem, por mero capricho, n'uma caminhada{175} de sul a norte, que os obriga a viver entre montes, durante dois mezes, n'uma barraquinha de campanha, onde mal se póde lêr a Correspondencia de Portugal e onde seria impossivel desdobrar o Times.
E tanto isto não é provavel, que dois dos peregrinos do rancho desanimaram a meio da jornada com saudades do robe-de-chambre e do Martinho.
Se o intento fosse um simples devaneio d'espiritos moços, uma extravagancia dos vinte annos, haveriam retrocedido todos, e affogariam o seu desalento n'um copo de champagne, que é como os rapazes costumam enterrar ruidosamente qualquer ideia que lhes morre...
Mas tres d'elles, os snrs. A. C. da Silva Castro, Estevão Ribeiro da Silva e Pedro de Campos Menezes, avançaram sempre, chegaram ás Caldas da Rainha, demoraram-se em Coimbra, acampando no rocio de Santa Clara, e devem ter já partido do Bussaco.
Segue-os uma carroça, puxada por um macho. Na carroça vae o chalet ambulante, dobrado em fórma de biombo, e sentado em cima da lombada do chalet o cosinheiro, que, precisando de trabalhar com os braços, se dispensa de trabalhar com as pernas. É o Sancho Pança da aventura, que se presume a assistir áquelle acto da Cora em que vae passando em frente do espectador o panorama do Mississipi, porque vae vendo regaladamente as margens do caminho mettido dentro da sua mitra d'algodão branco, do seu avental de linho e dos seus oculos de metal amarello.
Elle é o unico do rancho que se sente despreoccupado,{176} porque apenas tem uma ideia: a cosinha. Os patrões vem andando e pensando, porque esta viajata representa para elles uma lucta entre as velhas tradições e as ideias modernas, entre as forças do homem e as forças da machina, entre os artelhos e os rails, entre a vontade que manda mover e a locomotora que faz andar.
O empenho d'estes cavalheiros é naturalmente mostrar que o homem é mais completo do que o suppõem; que o progresso é uma simples mistificação de preguiçosos que querem viver na indolencia, e viajar sentados; que os caminhos de ferro são uma patarata engendrada para negocio d'uma companhia, e finalmente, que a raça latina tem ainda sangue rico, alma arrojada, altura de pensamentos, colorido nas creações, valentia nas empresas.
Querem pois supplantar as invenções modernas, dispensando-as, e tanto o conseguiram, que de Lisboa até Coimbra entretiveram-se a ensinar a andar o caminho de ferro.
Por um esforço pouco vulgar chegaram a dominar a propria curiosidade: ha um mez que não recebem cartas nem jornaes. Não sabem nada do que se passa no seu paiz, porque a direcção do correio é tão pouco intelligente que os não manda procurar onde estão. Mais um triumpho para elles! Então o correio foi feito para entregar as cartas a quem lh'as pede ou para as ir entregar a quem as deve receber? Nada sabem do que ha trinta dias acontece em Lisboa, nem siquer teem tido{177} noticias da cotação dos fundos hespanhoes. E fallar-se sempre da rapida transmissão do pensamento, de telegraphos electricos, de cabos submarinos, de paquetes a vapor! Ha um mez que inteiramente ignoram o que se pensa no Chiado, e, visto que já os incendios começavam quando partiram, não sabem ao certo se Lisboa ardeu, e se já se encommendou algum marquez de Pombal para reedifical-a.
Diz-se que o progresso tem levado commodidades a toda a parte, desbravando florestas, povoando desertos. No Cartaxo desejaram sorvetes e não os obtiveram; em Chão de Maçãs pediram toicinho do céo e alcançaram a certeza de que o céo em Chão de Maçãs era mahometano.
Apregoa-se a diffusão da instrucção publica, a creação de cadeiras primarias, e na Pampilhosa, querendo sentar-se a tomar a fresca, offereceram-lhes uma cadeira em tão mau estado, que de nenhum modo se podia considerar primaria. Em Alfarellos quizeram passar a noite a lêr, e estando Alfarellos a dois passos de Coimbra, e sendo Coimbra, segundo o pensamento de Heitor Pinto, a cidade d'onde irradiam as virtudes e as lettras para todo o reino, como do centro da esphera sahem as linhas para a circumferencia, apenas conseguiram haver em Alfarellos um reportorio de 1872.
Pois então, n'este seculo de extrema e assombrosa mobilidade, ha no mappa de Portugal uma terra que em agosto de 1873 se governava pela chronologia de 1872, dormindo um anno inteiro!{178}
Um dos nossos guapos viajantes sentiu-se no caminho um pouco embaraçado com um calo no dedo minimo do pé direito. Então ainda ha calos! E os jornaes a assoalharem que a pomada Galopeau é o verdadeiro pedicuro descoberto até hoje! Um pouco crestados pelo sol, desejaram refrigerar a pelle. Onde estava esse famoso Charles Fay, inventor do pó de arroz preparado com bismutho? Banharam as faces n'uma fonte, que serpejava por entre rochas, e saudaram enthusiasticamente mais uma vez o passado, porque a agua é tão antiga, que já o diluvio foi... d'agua! A frescura do liquido constipou-lhes os dentes. Reclamaram a presença do snr. de Vitry, chirurgien dentiste de leurs majestés trés fideles, e o snr. de Vitry não os ouviu chamar na sua casa da rua do Ouro em Lisboa! Pois se o pensamento se transmitte com a apregoada rapidez parecia que... Em Souzellas viram á porta de uma tenda, invadida por dous meirinhos, o pobre do logista que se lamentava da desgraça a que o ia redusir a penhora.
Perguntaram:
—O que tem aquelle homem?
—Quebrou.
E os jornaes de Lisboa a dizerem que o snr. Carvalho Junior inventou um efficaz emplastro para soldar as pessoas quebradas!
Ó suprema irrisão! Ó verdadeiro triumpho ganho pelo passado sobre o presente! indubitavel victoria do homem sobre a machina! E vós, illustres bohemios d'uma crusada santa, que ides dilatando a fé e o imperio,{179} dizei-me, sinceramente, intimamente, se este não é o verdadeiro fim da vossa rude jornada! Podeis, ao longo do caminho, ir cantando a velha canção dos actores ambulantes:
Veut-on savoir d'ou nous venons,
La chose est trés-facile;
Mais, pour savoir où nous irons,
Il faudrait être habile.
Sans nous inquiéter, enfin,
Usons, ma foi, jusqu'à la fin
De la bonté céleste!
Il est certain que nous mourrons;
Mais il est sur que nous vivons:
Rions, buvons!
Et moquons—nous du reste!
e eu guardarei ufano o diploma de—être habile—porque descortinei a vossa intenção recondita.
Até á vista, e felicidade!{180}
O RELOGIO...
É o meu relogio que me dá assumpto para este folhetim...
Aqui está o meu pobre amigo, tão esquecido por mim em horas de felicidade, e tão esquecido por todos os homens. Não tenho mais leal conselheiro, companheiro mais dedicado. É uma especie de consciencia que metti no bolço. Quando ella falla, é preciso attendel-a. E todavia, se uma nuvem de desgosto me enoitece o horisonte da vida, se um cuidado me preoccupa, se um sobresalto me traz perplexo, esqueço-te, pobre amigo, não chego a lembrar-me de que te trago conchegado a mim, e de que, obrigando-te ao silencio para que tu não foste feito, sou cruel para ti, porque te condemno a ouvir as palpitações vertiginosas do meu coração inquieto!
Não te dou movimento, porque inteiramente te esqueço. Condemno-te á ociosidade, e, privando-te de{182} trabalho, não reparo que é sobremodo doloroso estar a gente triste e calada! Que queres? É o egoismo dos homens; somos todos assim!
Temos de partir para uma viagem. Nossa mãe está doente, e chamou-nos pelo telegrapho, porque não quer morrer sem nos abençoar e beijar. Estamos sós, n'um quarto d'hospedaria. Os criados, que não comprehendem o que é a ancia de receber o ultimo beijo materno, deitaram-se, extenuados de trabalho, e nem siquer estão sonhando que teem ordem para nos chamar ao alvorejar da manhã. Nós estamos deitados sobre a coberta, já com o nosso fato de jornada, fumando, fumando, inquietos, rememorando os dias saudosos da infancia, em que nossa mãe, áquella mesma hora, nos ensinava a resar ao anjo da guarda, ou as noites em que acordavamos sobresaltados, e acudia ella a limpar-nos o suor da fronte, e a conchegar-nos a roupa aos hombros. Sobre a commoda arde tristemente a vela que ha já duas horas precisava de ser espevitada. A um canto está a nossa mala, com o chapéo de chuva em cima. Reina um silencio funebre no quarto. Nem ao menos se sente o palpitar do relogio no bolço. Todavia trabalha, mas parece que intencionalmente se reprime para nos não perturbar. N'aquella casa de gente desconhecida, o nosso unico amigo é o relogio. Está vigiando, trabalhando para nós. Consultamol-o. Ainda é cedo... Parece dizer-nos que estejamos tranquillos porque elle não adormecerá. Continuamos pensando. Agora nos lembra a pallidez orvalhada de lagrimas com que nossa mãe se{183} despediu ao partirmos. E ella, estamol-a vendo na heroica resignação das mulheres que sabem sacrificar o coração ao dever; é ella, que do topo das escadas de pedra, anciada, fazendo um esforço supremo, nos diz ainda:
—Parte, filho, é preciso!
Depois recolheu-se de golpe, porque já lhe faltou a coragem de nos advertir de que eram horas, muito horas...
No seu coração de mãe, relogio que só a morte póde emmudecer, havia soado a hora fatal da despedida. E nós partimos, sósinhos, guiados pelo rustico almocreve, sósinhos—com o nosso relogio. Não havia sol. Não poderiamos conhecer as horas pelas sombras das arvores. O almocreve, que se não podia orientar do curso do tempo, porque o céo estava escuro como o nosso coração, ia-nos perguntando de legua em legua que horas eram. Consultavamos então o relogio. «É meio dia»: «Pois olhe, volvia o almocreve, quando é meio dia, e o ar está claro, bate o sol n'aquelle cabeço.»
Meio dia! A hora em que nossa mãe se levantava da sua costura para resar comnosco emquanto se não extinguia o echo da ultima badalada no campanario da aldeia! Quem nos disse isto tudo? Foi a memoria? Não foi. Nós iamos entorpecidos pela dôr, não ouviamos horas que nos evocassem recordações, a solidão era immensa, ao longe serras, ainda mais ao longe serras... Foi o relogio, o pequenino coração que ia sentindo por nós. Se até o almocreve, que vive sempre só, no medonho{184} deserto das estradas, faz do cabeço das montanhas relogio, para que o caminho lhe vá fallando e dizendo: «Ante-hontem passaste aqui mais cedo! D'uma vez, á mesma hora, encontraste aqui aquella pegureira, espavorida com medo dos lobos»!
Até elle, aquella alma rude, precisa da companhia do relogio! Por isso o vae pendurando de serra em serra, fazendo do granito mostrador, e dos raios do sol ponteiros...
Mas emfim nossa mãe está agora doente, moribunda talvez. Que funda melancolia nos está dando a saudade! Facto inexplicavel! A ancia de partir foi vencida pela ancia de recordar. Iamo-nos esquecendo pelo muito que nos estavamos lembrando... Dormem todos no predio; melhor diriamos dorme tudo, porque os mesmos moveis parece conhecerem a noite... Engano! Não dorme tudo. Vela o relogio. Abrimol-o. «São horas de partir!» clama elle. Acreditamol-o como ao melhor amigo. Saltamos do leito. Gritamos pelos criados. Os criados dormiam. Só o relogio velava, é pois certo, porque nós mesmos estávamos atordoados pela somnolencia da saudade...
Mais um momento, e não chegariamos a tempo d'alcançar a diligencia. E ámanhã seria já tarde, talvez. Nossa mãe haveria morrido, quer dizer, a nossa falta havel-a-hia assassinado, mais cruel que... a doença.
Quando todos dormiam, foi o relogio que nos avisou...
É portanto elle que nos recorda os nossos deveres,{185} que nos diz quando havemos de entrar para o nosso escriptorio, que sustenta em grande parte a nossa harmonia domestica, advertindo o criado de que é chegado o momento de ter lustrosas as botas, e a criada de que já vão sendo horas de jantar...
Só elle nos falla verdade n'esta epoca essencialmente insidiosa. Insidiosa, é o termo. Pois não está recebendo o principe de Bismark, todos os dias, cartas perfumadas de almiscar e outras essencias irritantes para o systema nervoso? Pois em Palermo, onde canta actualmente uma prima-dona formosissima, não lhe arremessou outro dia aos pés certo admirador despeitado um bouquet que, ao chofrar no palco, rebentou como metralhadora? Querem maior insidia? Chegaram a envenenar as duas coisas mais graciosas da creação, as flores e os aromas; não exijam portanto lealdade na mulher.
N'este cataclismo ainda se não afundou o relogio: é a unica tabua que resta aos naufragos da sociedade. O relogio, a despeito da corrupção geral, representa e representará o dever. É por isso que no Memorial de familia, de Emilio Souvestre, o avô lega ao neto o seu relogio, escrevendo no testamento esta clausula: «Deixo a Leão o meu relogio d'ouro que nunca se desconcertou durante vinte annos. Quando elle attentar nos ponteiros, que, sempre obedientes ao impulso da machina, marcam fielmente as horas, recordará que a submissão e a observancia são a primeira condição do dever.»
O relogio é filho do egoismo do homem, e victima do mesmo egoismo que lhe deu vida. Nos tempos primitivos{186} bastava o quadrante solar para medir o tempo. Paulo e Virginia nem do gnomon se serviam. «São horas de jantar, dizia ella, porque as sombras das bananeiras já lhes dão pelo pé» ou então «É noite; os tamarindos fecham as folhas.»
As ampulhetas ou relogios d'areia remontam-se á mais nubelosa antiguidade egypcia. Na Grecia usavam-se os clepsydros, relogios d'agua. «Vós disputaes a minha agua» dizia Demosthenes, phrase que dá a entender que a duração dos seus discursos era marcada por um clepsydro.
Meado o terceiro seculo antes de Christo, Estésibius, d'Alexandria, construiu um clepsydro notavel por ser mais complicado que os primitivos, que se limitavam a um vaso com um orificio na parte inferior, por onde se coava a agua gotta a gotta. Depois o homem entrou de profundar os segredos da natureza, e de se querer apropriar de quanto n'ella havia de grandioso.
A ideia do relogio era innata á creação. Linneu comprehendeu-o organisando o relogio botanico pelas horas em que certas flores abriam e fechavam. Mas tanto isto é verdade, que os primeiros relogios eram construidos com os primitivos elementos da terra: com o sol, os gnomons; com a agua, os clepsydros; com a areia, as ampulhetas. Onde quer que faltassem recursos artisticos, ahi se podia medir o tempo: no mais alto da serra, com um raio de sol; nas solidões do deserto, com um punhado d'areia, e no deserto do mar com uma gotta d'agua.{187}
O espirito humano progredia. Chegou a vez do homem dizer á terra: «Até agora creaste tu; agora quero eu crear;» E trabalhou, e empenhou-se em dispensar o sol, a agua, e a areia; inventou o pendulo, conseguindo que a força motora fosse constante. Galileu ou Huyghens, a historia designa-os a ambos, deu este grande passo.
Mas ainda não estava completamente resolvido o problema. Era preciso inventar mais.
Em viagem, quem, por obra do homem, havia de indicar ao homem o curso do dia ou da noite? O sol ou as estrellas. Todavia nem o sol nem as estrellas as fez elle. Pensou, luctou de novo, e descobriu a molla em spiral, que substitue o peso motor pela elasticidade que tem. Ficaram portanto descobertos os relogios d'algibeira. Podes partir, peregrino; já conseguirás saber nas solidões do teu caminho se a noite vae adiantada!
E és tu que o dizes a ti proprio...
Realisaste, finalmente, o teu sonho. Conseguiste roubar ao relogio a individualidade que a natureza lhe deu, e reflectir n'elle a tua propria individualidade.
Não é verdade que a estructura do coração é uma, e que não ha sentimentos, por mais similhantes que se affigurem, que sejam completamente irmãos? Tambem o relogio tem o seu coração, o seu machinismo, igual em todos, e abri quatro relogios ao mesmo tempo, que difficilmente combinarão na indicação dos minutos. Cada{188} um tem a sua maneira de trabalhar; como cada homem tem a sua maneira d'escrever.
E o estylo; é a differente maneira de ser. Ahi temos a individualidade homem e a individualidade relogio fundidas n'uma só. É o relogio-homem, e o homem-relogio. O relogio mede as horas; o homem os annos. Eu tenho doze annos, diz a creança; é meia noite, diz o relogio. Um nasceu d'um pedaço de barro; outro d'uma gotta d'agua. A alma é o pendulo do homem-relogio; o pendulo é a alma do relogio-homem. O relogio é o coração que sente o tempo; o coração é por sua vez o relogio que marca as horas solemnes da vida, como diz a trova:
A uma hora nasci,
Ás duas fui baptisado;
Ás tres andava d'amores,
Ás quatro estava casado.
Pois apesar de tudo isto—do homem a tal ponto haver conseguido identificar-se com o relogio, sendo preciso mergulhar na onda escura da antiguidade para lhe ir buscar a origem, porque elle nada conserva da sua fórma primitiva, apesar d'esta camaradagem leal, que o relogio mantém como dedicado amigo, estamos habituados a tractal-o como escravo, exigindo-lhe a maxima fidelidade quando carecemos do seu auxilio, e despresando-o, obrigando-o ao silencio e á quietação, esquecendo-nos de lhe dar corda como nos esquecemos de calçar as luvas.{189}
Por isso é que elle ás vezes, despeitado, adoece, sendo preciso mandal-o ao relojoeiro, porque emfim, como tambem diz a trova:
... amar sem ser amado
Faz perder a paciencia.{190}
ÁS SETE HORAS DA MANHÃ
Um d'estes dias aconteceu-me como á rainha Christina da Joanna do Arco: tive saudades da Aurora.
Levantei-me alvoroçado e resolvi ir procural-a, não aos reportorios, em que eu já vou perdendo muito a fé, mas nas ruas, onde uma pessoa já não póde perder a fé, porque, quando sae, a deixa em casa.
E sahi a procurar a aurora, ás sete horas da manhã.
Infelizmente não a encontrei senão nos cartazes que annunciavam a Joanna do Arco e diziam:
Aurora, filha do rei Faz-Tudo e da rainha Christina Amina—snr.ª Amelia Menezes.
Ora as auroras dos cartazes são como tudo o que é do theatro: só se vêem á noite.
E, como d'ahi até poder vêr amanhecer no palco do theatro Baquet medeavam muitas horas, decidi aproveitar{192} o meu tempo o melhor possivel, vendo tudo quanto apparecia, ouvindo o que se dizia.
Vi e ouvi.
Na loja da primeira esquina poisava um gallego o seu copo d'aguardente sobre o balcão, com attitude de quem se despedia.
Mas, ao contrario dos olhos de quem se despede, que estão quasi sempre humidos, o copo estava enxuto.
Tambem podera! É que a aguardente é um combustivel para o carrejão. Quer armar-se pela manhã, porque o seu combate começa quasi logo com o dia.
Aquella é a sua polvora;—com ella fará fogo. Depois de abastecido o paiol, não receiará succumbir; e se ás vezes, durante o dia, houver suada refrega, irá beber tantos copinhos quantos cartuxos requisitaria um soldado em lance identico.
O que reconheci é que todos pela manhã, quando saiem á rua, o mais que procuram é—a força.
Ora hoje a força já não está, como nos tempos pagãos, nos cabellos de Sansão.
Hoje a força é a aguardente, a revalesciére, o oleo de figados de bacalhau, o bife, e, apesar de se chamar frango a uma pessoa fraca, a força tambem está no frango.
Eu digo isto porque encontrei uma velhinha, tão curvada, que parecia ir procurando já a sepultura, a embrulhar no seu capote um frango que provavelmente fôra comprar ao mercado.
Elle, o franguito, ia muito quieto, como se conhecesse{193} que era cobardia luctar com a velhice. Para que podia servir-lhe, sem mais nada, porque ella não levava realmente mais compra alguma?
Para deitar á panella, com uma pouca d'agua e sobre uma pouca de lenha, e para depois o comer, ella, que precisa de força para esperar pela morte, ou para o dar a um neto, que está provavelmente com variola, e precisa de força para resistir á morte.
Em todo o caso eu desconfio que fosse para o neto, pela pressa que a velhinha se dava.
Não olhava para ninguem, e ia encostada ás casas como se quizesse evitar encontros e demoras.
Provavelmente levava na algibeira a chave da casa, e a criança havia ficado fechada, em quanto ella fôra comprar ao mercado o franguito com uns restos de dinheiro abençoado que lhe esmolára o anonymo Y.
E ia com seu receio de que o neto precisasse d'alguma coisa, e desse pela sua falta, sem se lembrar de que, quando acabar de velhice, ninguem certamente dará pela falta d'ella.
Isso não lhe importa.
Morrer, morre ella se lhe faltar o neto. É um peso, é, mas a vida, que é tambem um relogio, precisa d'um peso para regular, como os relogios.
O peso de mais uma bocca é para ella uma consolação.
Naturalmente o rapasinho já ganhava o seu vintem a vender jornaes. Não era tanto pelo dinheiro, que a{194} avó gostava do modo de vida, como pelas novidades, que o neto contava á noite...
Tudo isso estava provavelmente em risco d'acabar,—as novidades, a vida do neto e a alegria da avó. Por isso ella ia tão afadigada—coitadinha!—com a sua velhice e com a sua compra...
Agora começo eu a encontrar o rancho dos criados, com as amplas cestas enfiadas no braço.
De todas as cestas, a que mais me deu na vista foi uma que ia completamente cheia de alfaces.
—Familia de grilos! pensei eu.
E depois ratifiquei, porque o criado, referindo-se decerto a algum dos patrões, ia dizendo para o companheiro:
—E elle está-me sempre a cantar!
Uma criada dialogava com outra:
—Hoje prego-lh'a...
—Bem me fio eu n'isso!
—Ora tu verás.
—Então que fazes?
—Não me ha-de tornar a deixar fechada: hoje perco a chave da porta da rua.
Eu disse para os meus botões:
—Trabalho escusado, o de te fechar a porta! As criadas, como aves de rapina que são, em poucas gaiolas cabem, de modo que têem sempre a cabeça de fóra...
Á porta do Anjo cantavam dois cegos o Noivado do sepulchro; o povo fazia circulo:{195}
Vai alta a lumha na mansão di a morte,
Já meia noite com bagar zoou.
Não fui philosophando sobre a deturpação dos formosos versos do poeta portuense. Pensei mais nos cegos que no poeta, Deus me perdôe! Como são cegos, não podem vêr distinctamente a prosodia e a ortographia; isso já se sabe. No que eu pensei foi n'este continuo andar divertindo os outros, sem siquer terem tempo de se lembrar de que são cegos. Lá vão chorando na viola as suas maguas, mas tão disfarçadamente, que á gente parece-lhe que estão cantando, e elles estão talvez chorando. Passam no mundo sem vêr o mundo, e isso pouco lhes importa; o que lhes custa mais decerto é não verem o dinheiro...
N'uma barraca do mercado, um soldado da guarda municipal offerecia morangos a uma criada de servir.
Que delicado amor aquelle, que elles iam mettendo na massa do sangue! O morango é a fructa mais innocente, mais saborosa, talvez a mais agradavel, e este facto, que eu presenciei, depõe realmente muito a favor da educação do nosso exercito. Podiam amar-se com peixe frito, e amar-se-iam assim ha vinte annos; agora o exercito ama comendo morango, fructa que parece haver nascido para se comer de luvas, tão pequenina e rosada é!
Quando recolhia, vinham adeante de mim dois pequenitos, com os seus livros sobraçados.
Pelo que diziam, deprehendi que entravam n'aquelle dia o exame d'instrucção primaria.{196}
—Levas medo? perguntava um.
—Eu não. E tu?
—Eu! nenhum!
E, coitadinhos, iam tremulos como passarinhos quando a gente péga n'elles.
—Infelizes! pensei eu, lá vos espera o visco.
Sabeis a origem da palavra districto? Sabeis qual a fórma geometrica do reino de Portugal?
Não sabeis? Pobresinhos de vós, que lá ficareis a esvoaçar infructifera e desastradamente no visco da reprovação! Pois então ides fazer exame d'instrucção primaria, ó pequenos scelerados, e não sabeis tudo!
Estive capaz de dizer que retrocedessem.
Todavia deixei-os ir, entregues ao seu destino, e ás orações das mães, que em sua extrema bondade pensam que hão de vencer todas as difficuldades com padre-nossos.
Santas creaturas—as mães!
Coitaditos! os pequenos lá foram andando...
Subo finalmente, com a cruz da minha ociosidade, a ladeira da rua de Santo Antonio. Ociosidade digo, se bem que o meu animo não ande nunca tão despreoccupado, que não chegue a lembrar-se de que o domingo é o dia do folhetim. Por conseguinte, eu, jornaleiro do jornalismo, descanço do labor quotidiano procurando... assumpto. E sabendo eu que ha pessoas tão felizes que ás vezes encontram dinheiro pelas ruas, reputo-me tão infeliz que, sem achar dinheiro, poucas vezes encontro assumpto.{197}
Todavia d'esta vez até na rua de Santo Antonio o encontrei! Já agora quero ser verdadeiro até ao fim, e fallar-lhes d'um quadro que estava em exposição na loja dos snrs. Martins & Peres, e que havia sido comprado por um cavalheiro de Villa Nova de Gaya.
Imaginem o mais formoso idyllio d'este mundo, o verdadeiro consorcio da poesia com a pintura, e terão o quadro que se intitulava a Morte d'um passarinho, copia de Eugene Lejeune.
É n'aldeia, e suppõe-se provavelmente que n'um largosito, onde ás crianças costumam brincar.
Qualquer d'ellas havia engaiolado, no tempo, um ninho de melros, de que só escapara um. Vivia á principesca o melro, tractado pelos pequenos, que muitas vezes se esqueciam do velho cão, para encherem os comedouros á ave. Mas, pois que até os principes morrem, o melro morreu. Era preciso fazer um enterro condigno, e tractou-se d'isso. Emquanto uma criança abre a cova e outra sustenta uma cruz de pau, formam as restantes o funebre cortejo do passarinho.
O feretro vae deposto n'um carrosito de pau, o melhor que se póde arranjar. Umas pequenitas tiram pelo carro, em direcção á cova, que se está abrindo. Apoz o feretro vae um rapasinho lacrimoso, suspendendo a gaiola vasia, e a par do rapasinho o cão, tão triste como qualquer das crianças.
O quadro é isto,—e o mais que se não póde dizer e constitue a alma da pintura.—Ainda não vi assumpto tão ligeiro mais habilmente tractado, d'onde se infere{198} que, se Eugene Lejeune tivesse visto os meus dois rapasinhos, que iam fazer exame, com os seus livros, o seu medo e a sua esperança tambem, haveria desenhado um quadro digno de figurar a par da Morte d'um passarinho.{199}
Á MEZA DO CHÁ
(POR OCCASIÃO DA VISITA DO SHAH DA PERSIA Á EUROPA)
—Estou summamente aborrecida, primo!
—Confesse, o que não é nada lisonjeiro para mim!
—O primo não me julga divindade para me fazer o sacrificio das suas palavras... d'oiro!
—Perdão, é que eu estava provando o chá.
—Cuidado. Então não escalde a eloquencia. Ainda se não póde tomar.
—N'esse caso...
—N'esse caso?
—Esperemos que o chá arrefeça.
—Agora é impossivel!
—Impossivel?
—Sim, porque o shah já não está na Russia.
—Bravo! A prima faz espirito! Repta-me; atira-me{200} a sua delicada luva gris-perle. Está aceite. Conversemos.
—Pois conversemos.
—Dizia eu...
—O que dizia o primo?
—Nada. Eu ia dizer que esta chavena é do tamanho da Europa.
—Que disparate, primo!
—Perdão, é que tem dentro o shah...
*
As mães dos primos, exportando maledicencia e importando fatias pela bocca:
—Lá estavam hontem no theatro!
—Estavam. Elle e Ella. É gente da primeira sociedade...
—Ora o que tu quizeres, Gertrudes! Fidalguia que sahiu da quinquilheria e do fundo d'um chapéo. Elle tolo: ella filha de criada!
—Mas fazem figura...
O filho mais novo, que estuda geometria no lyceu:
—Figura de... cylindro.
As mães:
—Cala-te, Luizinho!
—Deixa fallar o rapaz. Eu não entendi o que elle disse, mas póde ser que tivesse graça...
—Pois eu estou pelo meu dito. Parecem da primeira sociedade.
—Parecem, começando pelo fim.{201}
*
Um dos pequenos:
—Ó mamã, então sempre vamos para a Foz?
—O papá vae amanhã alugar casa.
O pequeno sahindo da sala a correr:
—Ó Jucá! o papá vae amanhã alugar casa!
As mães:
—Não ha remedio, Leocadia, eu tenho uma filha. É preciso vêr se tractamos de casal-a.
—Que pressa!
—Tenho cá uma rasão; não digo bem, temos cá uma rasão.
—Aquillo em Hespanha está mau...
—Que tem a Hespanha com tua filha?
—É que meu marido anda com a mania de comprar fundos hespanhoes, e, se a Hespanha fizer bancarota...
—Percebo. O marido que se aguente, e fique com a mulher sem dote...
—Tal e qual. Nós cá... pensamos assim.
*
O pae da menina lendo o Jornal do Commercio, e interrompendo-se para chamar o sobrinho;
—Ó Arthur?
—Meu tio!
—Tu já leste esta biographia do shah da Persia?
—Eu não, meu tio.{202}
—Pois olha que tem sua graça! Lendo pausadamente: «Mal subiu ao throno reformou o shah os costumes do palacio, redusindo as despesas do serralho a limites mais equitativos. Seu tio, a quem succedeu, como já indicamos, tinha nada menos de quinhentas mulheres, das quaes houve cento e um filhos e cento e sessenta filhas, o que constitue regular prole.
«O monarcha actual tem unicamente quinze esposas e é pae só d'uma duzia de filhos. Na sua viagem levou algumas d'aquellas até S. Petersburgo; faziam parte da criadagem e costumavam alojar-se com os cavallos e os palafreneiros; na capital da Russia, o shah mandou-as embora, obrigando-as a voltar para Téhéran.»
As mães poisam as chavenas e dão attenção.
O pae poisando o jornal:
—Pois, senhores, sempre é um shah muito forte!
As mães:
—Ah! ah!
A menina:
—Ó primo, vamos fazer paciencias depois do chá?
—Como a prima quizer.
O pae:
—Deixem a paciencia para o shah: com quinze mulheres!
*
O primo, levantando-se da mesa, abre a carteira e começa a escrever para evitar que a prima o force a ir fazer paciencias.{203}
A mãe do primo:
—Lá está o rapaz a tombos com os versos!
—Aquillo não lhe faz mal nenhum!
—Sim, mas é que já tem impresso tres volumes á minha custa e estão para lá as aguas-furtadas cheias de livros.
A prima levantando-se surrateiramente:
—São para mim. Não dá o braço a torcer, mas ama-me com toda a certeza.
O primo fechando a carteira e erguendo-se:
—Com toda a metrificação.
—Que dizia, primo?
—Que fiz um milagre. Ha um mez que não faço versos, e escrevi tres quadras com toda a metrificação recommendada nas poeticas!
—Póde saber-se qual foi a inspiração?
—Oh! uma loucura, prima, uma extravagancia minha.
A menina, á parte:
—São a mim. Não se atreve a dizer-m'o!
Em voz alta:
—Diga sempre...
—Olhe que não valem nada...
—Mas porque não lê? São...
—A mr. Du Barry.
—A quem? O primo está-me enganando!
—Acredite. São a mr. Du Barry, author da Revalescière.{204}
A prima ainda desconfiada de ser a inspiração;
—Ora leia!
—Ahi vão:
Meu Deus! eu vi suar os bons pedreiros
A encastelar as pedras calcinadas
Com que armaram alfim uns pardieiros,
Pendurados de rochas empinadas.Certo dia nefando a tempestade
Rugiu, rolou, desceu em turbilhões,
Lascando a rocha, arremeçando a herdade
Do vendaval aos rábidos baldões.Então, ó Du Barry, obreiro ingente,
Que reconstrues as raças com farinha,
Pensei em ti, que vês morto o doente
Quando a R'valescièr' salvado o tinha!
A prima:
—Ora!
O primo:
—Du Barry é um grande homem!
A prima agastada:
—E o primo um grande ingrato!
*
A mãe do primo;
—Ó mano, que diz a folha do que vae por Hespanha?
—A folha diz que os internacionalistas descubriram agora uma nova especie de banhos.
—Uma nova especie de banhos?!
—Já havia os do mar, que estão desacreditados desde que muitas meninas vem de lá solteiras. Havia{205} os de chuva, que já não faziam effeito a ninguem. Havia os russos, e ha-os agora de petroleo...
—De petroleo!
—Mana e senhora—de petroleo, diz a folha.
A mãe do primo:
—Aquelle meu rapaz metteu por força a cabeça em algum banho de petroleo!
*
A prima:
—Então vamos fazer paciencias?
Elle:
—Ó prima, eu estava com vontade de fazer mais versos. Ainda tinha tenção de cantar esta noite o dr. Paterson, author das pastilhas americanas, e o Melchior Sola, fabricante de lumes promptos. Dois grandes homens, prima! Um dá a saude; o outro a luz. A pastilha é o colorido das suas faces; o phosphoro é a alma do meu charuto. A prima come uma pastilha e sente-se forte; eu acendo um charuto e sinto-me poeta.
Procurando o chapéo:
—Ó Paterson! Ó Sola! Ó pastilha! Ó phosphoro!...
A prima:
—Então vae-se embora?
O primo, já do patamar:
—Vou ao theatro ainda.
A mãe do primo:
—É o que eu digo, é: o rapaz toma banhos de petroleo!{206}