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Entre o caffé e o cognac cover

Entre o caffé e o cognac

Chapter 49: THIERS
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About This Book

Coleção de folhetins e esboços jornalísticos de tom pessoal que reúne descrições minuciosas de interiores, objetos e retratos que evocam a vida íntima de escritores, além de anedotas e pequenas biografias literárias. O autor alterna observações cotidianas, comentários sobre práticas jornalísticas e reflexões culturais, oferecendo fragmentos ensaísticos que combinam memória, descrição material e apreciação estética para compor um painel sobre o ambiente literário e social que frequenta.

S. JOÃO

(NO DIA 21 DE JUNHO DE 1873)

S. João é o Anacreonte do christianismo.

Eterna mocidade, inextinguivel alegria, olhar brilhante, faces rosadas, cabellos revoltos, sorriso nos labios...

É o das canções, dos bailaricos, dos amores, dos mysterios.

Na sua noite de tal modo sabe distribuir pelas alamedas os claros-escuros do luar, que parece haver uma sombra para cada segredo, um reflexo para cada alegria.

A festa é da mocidade.

Suspira a guitarra debaixo do arvoredo e a musica d'aquella noite tão docemente estonteia as raparigas, que chegam a perder o seu annel de noivado entre as folhas do serpão...{208}

Andam no ar derramados uns effluvios que parece darem á gente uma indolencia voluptuosa.

É sentar-se na relva, ouvir a guitarra, cantar, rir, e a noite lá se vae esquivando por entre os troncos das alamedas...

As trovas tambem contam que elle, o precursor, vivia no desleixo da felicidade.

De subito o colhia o somno, quando a aurora vinha descendo á terra, para reanimar as flores pendidas durante a noite...

S. João adormeceu
Nas escadas do collegio.

Depois, quando acordava, corria a procurar a sua felicidade ainda absorto nas visões do sonho...

O S. João, d'onde vindes
Pela calma, sem chapéo?

Outras vezes, porque o somno era mais breve ou o sonho era maior, despertava pouco depois de ter adormecido, e as moças, que ao entreluzir da manhã abriam as janellas do casal, iam-lhe perguntando de casa a casa:

O S. João, d'onde vindes,
Que tanto estaes orvalhado?

Viveu rodeado de mocidade, das alegrias da primavera e das maguas dos vinte annos,—maguas que são fecundantes como os chuveiros d'abril.{209}

Ora as moças lhe chilriavam em torno as alegrias dos seus desejos:

S. João, as moças hoje
Vos pedem que as caseis;

ora o procuravam para que lhes désse aquellas flores mysteriosas que trazem allivio a penas d'amor:

No altar de S. João
Ha um vaso d'açucenas,
Aonde vão os namorados
Dar allivio ás suas penas.

Perseguido pelas feias, que noite e dia lhe pediam noivo:

S. João, todas as feias
Vos pedem um casamento,

corria a esconder-se nos rosaes:

O Baptista no deserto
Entre as flores escondido,

certo de que ellas não ousariam, ellas,—as feias!—defrontar-se com as flores para encontral-o.

Poucas vezes, sim, mas lá vinha uma tristeza ao coração, quando alguma voz ia cantando na estrada:

Por causa de pretenções
Mulheres que não farão?

e então—ó horror!—receioso da colera das desilludidas,{210} e do resentimento das feias, procurava encantal-as a todas, e fazia brotar a agua da sua fonte de prata, para que umas e outras viessem narcisar-se ao espelho...

S. João por vêr as moças
Fez uma fonte de prata.

Todavia umas e outras, astutas por serem bonitas, astutas por serem feias, fugiam ao logro, e não levavam a sua bilha á fonte, para que todo se matasse de aborrecimento o santo...

As moças não vão a ella,
S. João todo se mata.

Estava porém escripto no livro dos destinos que lhe viesse a queimar a vida o fogo com que elle brincava...

Uma noite havia festa nos paços sumptuosos d'Herodes-Antipas.

Em derredor da aurea mesa estava reclinada Herodiades, a libertina que se rendera ao amor do irmão de seu marido, e Salomé, sua filha, e os cortezãos que libavam vinhos deliciosos em taças reluzentes de pedraria.

Não longe, no carcere, estava João Baptista, sepulto na silenciosa solidão das cadeias, porque elle havia levantado a sua voz contra a incestuosa união do tetrarcha e da barregã illustre, sua cunhada.

Depois do festim, Salomé tomou a harpa e cantou e bailou na presença de seu tio.{211}

Quiz elle galardoal-a e perguntou-lhe o que lhe aprazia.

Então Herodiades inclinou-se ao ouvido da filha e a moça respondeu:

—A cabeça do preso.

E continuou a tanger na harpa dos seus cantares.

Momentos corridos pendiam d'um taboleiro de prata, na sala do festim, os negros cabellos da inanimada cabeça.

E Salomé bailava, e Herodiades sorria, e os cortezãos applaudiam.

No paço tudo era alegria; na rua iam cantando melancolicamente as raparigas:

Por causa de pretenções
Mulheres que não farão?
Fizeram cahir S. Pedro,
Degolaram S. João.

Mas, ó prodigio! os olhos, apesar de mortos, tinham brilho, e nas faces inertes havia um raio de sol!

Era o brilho da eterna mocidade, o reflexo da alegria eterna...

E nunca ninguem mais chorara o precursor, porque o cutello do algoz não lhe roubou a grande alma que enche de luz e felicidade a noite d'hontem e o dia de hoje.{212}

{213}


JUDAS NO PLURAL

(PASCHOA DE 1873)

Foram-se alguns mas ainda ficaram muitos. Ha-os de todas as idades, de todos os feitios e de todos os sexos. A vida seria um perpetuo sabbado d'alleluia se cada homem e cada mulher tivesse a consciencia do que é. Mas o grande erro do nosso barro é o querermos enganar-nos a nós mesmos. D'este erro nascem todos ou quasi todos os maus sentimentos,—a vaidade, o orgulho, a perfidia...

Na perfidia é que bate o ponto,—da perfidia é que hoje se tracta. Queimou-se hontem pelas ruas a figura do apostolo traidor, e a maioria das pessoas que eu encontrei tinha as faces radiosas d'alegria e não denotava arder na fogueira interior em que muitas vezes nos queimamos,—o remorso. Tudo por não nos querermos conhecer, tudo por não descermos ás profundezas de nós mesmos a tactear aquella costella de Judas que herdamos de nossa mãe Eva, quando no paraiso terreal seduzia{214} o esposo com blandicias conjugaes para tental-o a comer do fructo prohibido. No pomo da tentação foi toda a perfida maldade da fingida esposa. Adão comeu-o, digeriu-o, entrou-lhe muito da substancia na massa do sangue. Depois o sangue do primeiro homem correu para os grandes vasos da humanidade e levou comsigo alguma coisa da fatal maçã, alguma coisa de Judas. Succedeu porém que no corpo do discipulo traidor entrou maior dose do veneno; isto significa simplesmente que elle era mais traidor do que nós e não que, por elle o ser, não o sejamos tambem. Somos! Se somos! O que nós temos a nosso favor é a civilisação do nosso tempo e a suavidade dos nossos costumes. Judas fez uma acção má por maneira peior do que a acção. Nós fazemos o que elle fez,—mas sabemos fazel-o. Elle, com toda a rudeza dos seus babitos de pescador, envenenou com a sua traição a mais doce formula de exprimir a amisade,—o beijo.

O beijo ficou envenenado, e tanto assim é, que desconfiamos sempre do beijo, excepto quando elle desabrocha em labios de mãe.

É que o coração materno, profundo como o mar, é inviolavel como elle: rejeita qualquer corpo extranho á pureza dos seus sentimentos. Feita esta excepção, a primeira e unica,—o beijo continua a estar envenenado. O beijo tem sempre um fim, o beijo é simplesmente um instrumento. Parece impossivel que uma coisa que dura tão pouco possa fazer tanto mal, mas faz. Ah! é de noite, n'um quintalsinho de roseiras? Lá ao longe ha{215} montes, recortados por pinheiraes, e pinheiraes illuminados pela lua cheia?

Julieta está entre as suas roseiras, com os cabellos revoltos, o seio offegante? Um fremito! Foi uma folha que cahiu? Ah! não foi,—foi um beijo que poisou. Estás bem servido, desgraçado! Romeu piegas! esse beijo coou-te ao sangue a febre do casamento. Ó desgraçado!...

É uma noite d'inverno. A chuva é torrencial. A ventania abala as janellas. Tu estás sentado ao fogão, com o teu robe-de-chambre e o teu capote, com os pés no fender e a cabeça mettida dentro do barrete de velludo preto. Leste o teu jornal, e ficaste somnolento, ou fosse que o jornal te adormecesse ou que o calor te enervasse. Chegaste a um d'esses estados de espirito em que já se não pensa em nada; e se se pensasse em alguma coisa, era decerto em dormir. N'isto ouves entrar na sala tua mulher.

Abriste os olhos, conheceste-lhe o andar e deixaste cahir as palpebras. Ella vem, pé-ante-pé, debruçar-se do espaldar, bater-te uma palmada no hombro, e dizer-te maviosamente:

—Já são horas de me vestir, filho?

Estremeces, como se te rebentasse aos pés uma bomba Orsini.

—Vestir?

—São nove horas. Eu mandei vir a carruagem ás onze.

—Ó filha, mas eu estou constipado, não posso comigo,{216} tem paciencia, filha, mas com esta noite, não vamos, não podemos ir!... Atchi, atchi... olha como eu estou constipado!

—Ahi estás tu com as tuas phantasias, com a tua negregada imaginação! Dir-me-has ámanhã se peioraste com o baile. Imagina que desces as escadas muito embrulhado no teu capote, que te mettes na carruagem, que te deixas enterrar nas almofadas, que chegamos finalmente, que entras nas salas onde as luzes conservam uma temperatura confortavel, que o conselheiro e o doutor esperam por ti, que fazem a sua partida de voltarete, que dás seis codilhos e um geral, que vaes tres vezes á casca...

—Tudo isso é verdade, filha, mas hoje não póde ser. Estou indisposto, estou bruto, deixa-me dizer assim, estou bruto. Hoje, se jogasse o voltarete, não ia á casca, dava á casca com toda a certeza.

Ella, que n'esta esgrima conjugal tem guardado para o fim o bote decisivo, continua um pouco mysteriosamente, cada vez mais debruçada na cadeira:

—Pois sim, tu não queres ir... não vamos... por mim pouco me importa. Mas lembra-te que não jantaste ainda ha duas horas, que n'esta sala faz um calor excessivo, que o medico...

O marido, aprumando-se e esgazeando o olhar:

—Que o medico?

Ella perplexa:

—Deixemos isso. Vamos ao baile, filho, anda vestir-te...{217}

Elle:

—Ó Nini, mas que disse o medico? Não me enganes... Este fogão... este maldito fogão... eu bem sinto que isto é calor de mais.

—Mais uma rasão para o evitares.

—Ó filha, ó Nini, mas passar agora para o frio!

—Não passes já: arrefece primeiro. Em todo o caso livra-te do fogão, homem, livra-te d'este fogão, que hade dar cabo de ti... Bem o disse...

—O medico?

—Sim, o medico.

—Que disse elle, Nini?

—Que fizesse por arrancar-te ao fogão, porque este calor, depois de jantar, bem sabes que o teu temperamento...

—Ah! Já sei! A apoplexia!

E n'isto cae dos labios da esposa á face sanguinea do marido um beijo muito mais venenoso do que um frasco d'acido prussico. E que a esposa vende a tranquillidade do marido pelos trinta dinheiros do baile.

E as creanças, quando são inquietas como borboletas, e têem cabellos loiros como o sol, e olhos azues como o céo, que graciosos Judas que ellas são! Prohibe-lhes a gente que bulam no bouquet que poisamos em cima da mesa. E ellas a estenderem sorrateiramente a mão...

—Menina!

—Menino!

—Não bula ahi.{218}

—Deixe estar isso.

E d'ahi a segundos lá torna a creança a mexer com a mãosita, como um beija-flôr que estivesse abrindo uma aza para ir oscular uma rosa.

—Tu apanhas!

—Espera ahi!

E a creança, em vez de saltar ao bouquet, salta ao nosso collo, e afaga-nos, e pede-nos meigamente que lhe deixemos vêr o bouquet, que ella só o quer vêr, que só o quer cheirar. Beija-nos! O almasita de Judas em corpo de cherubim! Tu não sabes que o beijo foi a arma de Judas, mas o que tu já advinhaste é que o beijo é um veneno com que a gente facilmente mata uma opposição qualquer.

Os governos ainda se não lembraram d'este grande expediente, mas estou certo de que mais tarde ou mais cedo será incluido na longa lista das tricas parlamentares.

Supponhamos que um ministerio não tinha maioria. Um dos ministros entrava na camara, e estava fallando vehementemente um dos maiores oradores do parlamento. As accusações eram energicas, o ministro sentia-se abalado no pedestal do governo, via cavar-se-lhe aos pés o abysmo do nunca mais. Era preciso uma ideia salvadora, um pensamento luminoso. Pois bem. S. ex.ª o ministro levantava-se doidamente apaixonado, e corria a beijar freneticamente o orador da opposição. E s. ex.ª o deputado, affrontado d'aquella ancia de beijar, cahia na cadeira amavelmente asphyxiado, e afastava com um gesto carinhoso s. ex.ª o ministro.{219}

Já se tentou rehabilitar o beijo, mudando-lhe o nome. Começou-se a dizer osculo, não por ser mais elegante a dicção, mas por ser menos conhecida. Logo porém que se veio a saber o que era o osculo, entrou-se a desconfiar tanto do osculo como do beijo.

Diziam os namorados:

—Acreditas o juramento?

—Não acredito.

—E se o sellar com um osculo?

—Oh! não acredito. Não póde haver amor exdruxulo.

Nós não rompemos por entre a multidão, asperamente, apartando os grupos, para ir vender com um beijo; vendemos e compramos com um beijo, negociando com elle serenamente. A grande culpa de Judas foi falsificar a moeda e lançal-a falsificada na circulação. Nós não falsificamos, é verdade, mas negociamos com dinheiro falso.

Por isso hontem, quando a alleluia passava festivamente de torre em torre, e estralejava nas ruas, e os Judas de palha iam arder estoirando com grande applauso do rapazio, eu ouvi soar a meus ouvidos a grande voz da Rasão, d'esta Rasão que se escreve com letra maiuscula por ser da escola do Infinito, e dizer:

—Se só os que não fossem Judas devessem acender o rastilho, estes monos de palha, que tu ahi vês, não arderiam jámais.{220}

{221}


HISTORIA VELHA

Sou muito novo para não ter esperanças e muito velho para deixar de sentir o suave doer da saudade. Espero no futuro, na baixa das inscripções, nas bancarotas, nas dictaduras, espero em tudo o que nós podemos ter de bom em Portugal, e não posso deixar de lembrar-me saudoso do passado, das suas crenças, das suas obras, uma das quaes somos nós, das suas tolices tambem.

Se ponho olhos no futuro, refujo de medroso para o passado e apraz-me então conversar com os homens que foram, os quaes me contam coisas maravilhosas e graves. Ora succede tambem que muitas vezes me fico pasmado diante do estendal das relamborias semsaborias das sociedades extinctas, mas nem por isso deixo ainda de querer ao passado, que não nos deu os barões, nem os penicheiros, nem as companhias de caminhos{222} de ferro, innovações mil vezes mais causticantes que as supraditas semsaborias. Revivam pois as sinceras crenças e as ingenuas tradições de nossos avós, e conversemos d'elles e d'ellas emquanto a sociedade moderna applaude o espectaculo de si mesma.

O primeiro varão respeitavel que temos a conversar chama-se Antonio Cerqueira Pinto, cidadão da cidade do Porto e academico supranumerario da academia real da historia portugueza, o qual escreveu e estampou a Historia da prodigiosa imagem de Christo crucificado que com o titulo de Bom Jesus de Bouças se venera no lugar de Mathozinhos, na Lusitania.

Posto isto como apresentação indispensavel, vamos direito ao assumpto e oiçamos o Cerqueira n'uma das paginas do seu livro:

«Consiste pois o principal d'este admiravel successo, em que voltando S. Thiago de Hespanha a Jerusalem, com os sete discipulos, que na provincia interamnense da Lusitania convertera, e havendo triunfado em martyrio n'aquella mesma cidade, em que Christo remira o mundo, emprehenderam os mesmos discipulos, tanto por anterior recommendação do santo, como por divino impulso, reconduzir o seu sagrado cadaver a esta parte, para ter o jazigo, na em que fôra missionario apostolico.

«Embarcados com elle em Jope, porto maritimo da Palestina, e navegado em breves dias para o Occidente, o Mediterraneo, costeando pelo oceano a Lusitania, com rumo direito a Galiza, parou como em calmaria a{223} embarcação, á vista do venturoso logar de Mathosinhos, não por faltar-lhe o vento, pois vinha celestialmente equipada, e tanto de divinas auras favorecida, que lhe levou brevissimos dias a derrota sendo d'extensão bem dilatada; mas por permittir o céo, que n'esta escala tivesse S. Thiago por refresco uma salva real, como teve na conversão do copioso gentilismo, que n'aquella praia se achava então celebrando os regios desposorios referidos (uns que se celebravam n'esse dia em Mathosinhos) em justas, torneios, lanças, e outros applausos ao antiquado uso, que n'estas partes haviam introduzido os primeiros adventicios dominantes gregos.

«E sendo n'este festejo um dos jogos celebrados, o a que chama o Flos sanctorum antigo de Alcobaça, andar bafordando[3] porque os cavalleiros na praia em concertados meneios entravam pelas candidas espumas, que ao mar costumam servir de crespo bordado ao ceruleo adorno, com que gallea; succedeu por alto mysterio, que do noivo o cavallo desperando do domante freio os regulados preceitos, se arrojou ás ondas, intrepido, com tanto fogo, que julgavam magoados os circumstantes ao cavalleiro desgraçadamente perdido; porém elle prodigiosamente venturoso chegou sem perigo a abordar á nau, em que com os seus discipulos estava o corpo de S. Thiago, e lhe serviu de segura tabua a salvar-se, e a todo o logar do naufragio gentilico, por ir Deus assim dispondo aquelle especioso terreno para{224} soberano deposito da veneravel imagem de Christo Crucificado.

«Junto da nau, entre os confusos assombros de vêr-se na fluida inconstancia das anfuas, como em terra firme, seguro, notou e advertiu o cavalleiro, que não só chegava de maritimas conchas matisado: mas que no mesmo perigo achava quem o livrasse do susto na milagrosa exposição do Mysterio e instruido nos da Fé, recebido o sagrado baptismo por um dos santos discipulos administrado, impresso bem tudo no seu conceito com prazer inexplicavel convertido, e por aquelle sacramento illustrado; advertido finalmente do mysterioso final, que as conchas haviam de ficar representando feito missionario apostolico, triumphante da culpa, e dos mares para elle já todos de graça, voltou em airosa carreira pela liquida torrente ao mesmo sitio, d'onde tinha sahido naufragante.»

Não cuidemos de saber como Sam Thiago se refrescava com uma salva real, nem commentemos os pasmos do cavalleiro ao vêr-se matisado de maritimas conchas. Esmiuncemos que regios desposorios eram esses que se celebravam na praia da villa de Mathosinhos.

Parece que a palavra regios se não quer referir unicamente ao fausto das bodas, que foram sobremodo lusidas como inculca o citado Flos sanctorum antigo de Alcobaça, cujo texto vem citado no Catalogo dos bispos do Porto[4], de D. Rodrigo da Cunha, a pag. 20,{225} part. 1.ª «... e a Cavalaria, e as Donas, e a gente moita, e cada um fazia o que sabia, que pertencia á boda: e os huns lançabão ao tavoado, e os outros bafordabom, mas entre estes que bafordabom, bafordava hi o noivo.» Hoje não se ostentam nas bodas proezas de cavallaria: os convidados esgrimem contra os taboleiros, e os noivos esperam que os convidados devastem os podins para se verem livres dos importunos parasitas de luva branca.

Mas, tornando ao conto, escreve ainda D. Rodrigo da Cunha: «Não é só o Flos sanctorum de Alcobaça o que faz menção d'este milagre, que deu occasião a se converterem tantas almas n'este nosso Bispado, e em lugares tão visinhos ao Porto. No Breviario antigo da Sé de Oviedo, se acha um hymno, que se costumava a resar na festa de Sanct'Iago aos 25 de julho, em que claramente se faz allusão a elle. Dizem os versos do hymno:

Cunctis maré cernentibus:
Sed á profundo ducitur;
Natus Regis submergitur;
Totus plenas conchilibus.

Chama ao cavalleiro, que se recebia filho d'El-Rei, porque sem duvida o seria d'algum regulo, a quem os Romanos soffriam estes nomes de dignidades, em quanto lhe não impedia a subjeição a seu imperio.»

Como d'aqui se deprehende, conjectura-se nas passagens citadas a fidalguia do noivo, natus regis, e por isso adjectivaram de regias as bodas.{226}

Não obstante divergem as opiniões sobre a qualidade e nome dos nubentes. Não os nomeia o Flos sanctorum do mosteiro de Alcobaça, copiado por D. Rodrigo da Cunha e outros doutos varões, com quanto circumstanciadamente conte do milagre. D'esta lacuna procede todo o embaraço, porque o padre frei Luiz dos Anjos os nomeia Cayo Carpo, natural da Maya, e Claudia Loba, do Porto; e D. Pedro Seguino, bispo d'Orense, escreveu que o cavalleiro se chamava Rivano e a dama Valeria.

Ao noivo uns o dão como liberto de Augusto Cesar, e outros como filho d'algum poderoso regulo das Hespanhas. Ora a nobreza da mulher, suppõe Cerqueira Pinto,—que persiste em chamar a elle Cayo Carpo e a ella Claudia Loba,—que era das primeiras e melhores: «no conselho da Maya, que he, e foy sempre contiguo á mesma Cidade, (do Porto) e onde está situado o lugar de Matosinhos, havia cavalheiro capaz de casar com mulher daquella nobre familia...» Pelo que se vê, a villa de Mathosinhos era alfobre de preclara nobreza em que floreciam varias fidalguissimas Claudias. Hoje, se Claudias ha em Mathosinhos, trazem saia pelo joelho e seguram vigorosamente contra a ressaca as esgrouviadas banhistas que vão molhar no mar os nervos doentes.

Ó decadencia das Claudias, e outras!

Não vae o nosso amor pela antiguidade até averiguarmos cabalmente o verdadeiro chamadoiro e nascimento dos noivos de Mathosinhos, e até, para conciliarmos{227} os consultissimos historiadores, não temos duvida em matrimoniar Valeria com Cayo Carpo e Rivano com Claudia Loba. D'esta maneira, ficariam por igual comprazidos os chronistas que divergem sobre o nome do cavalleiro que sahiu ao mar, e da noiva que ficou em terra.

Do prodigio resultou a total conversão do logar de Mathosinhos á fé catholica, e, segundo diz Cerqueira Pinto, de toda a nobreza do Porto e da Maya, que estava presente. Tambem lembra o historiador que o nome de Leça, dado ao rio, poderia derivar da alegria devida á aproximação da nau que conduzia S. Thiago ou á plenaria conversão d'aquellas gentes.

É pois certo que o logar de Mathosinhos, onde o leitor descuidosamente passeia o seu aborrecimento em mezes de banhos, é por mais d'um respeito celebre, porquanto no 1.º de abril do anno de 44 se operou o prodigio que vimos historiando, e d'ahi a oitenta annos aportou áquella praia a imagem cuja historia Cerqueira Pinto particularmente escreveu no livro de que havemos extrahido estes apontamentos.

A par da tradição religiosa, que deriva das bodas de Cayo Carpo com Claudia Loba, corre a tradição nobiliaria, como se os homens, ciumentos das glorias da Igreja, quizessem sequestrar-lh'as em grande parte para satisfazer sua vaidade.

Conhecel-o-ha o leitor, se me quizer acompanhar a Benavente, districto de Evora, onde encontraremos n'uma das torres da matriz as armas dos condes d'aquelle{228} titulo, as quaes armas representam cinco conchas em escudo liso.

Este é o ponto em que a tradição religiosa prende com a tradição nobiliaria.

Do cavalleiro de Mathosinhos, predestinado para tamanhos prodigios, qual foi o de galopar por sobre as ondas muito melhor do que nós pelas nossas estradas, procede a familia dos Pimenteis, de Traz-os-Montes, aos quaes Pimenteis appellida de nobres um chronista. Não sei se todos os ramos de Pimenteis teem iguaes fóros de nobreza e motivos de prosapia. Os Pimenteis de que eu descendo foram homens honrados e obscuros, que nem com titulos litterarios se podem abonar, o que prova que os meus antepassados tiveram mais juizo que eu.

Do fidalgo matisado de maritimas conchas procedeu João Affonso Pimentel, senhor de Bragança e primeiro conde de Benavente, o qual as tomou por brasão assim como pudera adoptar o corcel miraculosamente subjeito ás rebeldias do oceano.

Consta tambem que as mesmas armas estão gravadas na torre do castello de Bragança, mas se o leitor não as vir lá, nem na torre da parochia de Benavente, fique sabendo que eu fui muito menos feliz n'estes vagalhões de grossa erudicção do que o cavalleiro da chronica nos mares aparcellados da praia de Lessa.{229}


THIERS

Mac-Mahon veio substituir Thiers na presidencia da republica franceza. Alguem disse: Acabou a dictadura da palavra; começa a dictadura da espada.

E porque?

Porque Mac-Mahon é um general francez, e Thiers é um estadista e um historiador.

Porque um deu os primeiros passos da vida na Escola militar de Saint-Cyr, e o outro na Academia d'Aix.

Porque um saiu da escola para o campo de batalha, e o outro saiu da Academia para a lucta politica.

Porque um começou a militar no cerco d'Anvers ás ordens do general Achard, e o outro estudou o plano das primeiras campanhas no gabinete do velho Talleyrand.

Dictadura da palavra e dictadura da espada!{230}

Vejamos.

O estadista e o historiador foi chamado a governar a nova republica franceza depois da sangrenta guerra franco-allemã.

É sempre difficil dirigir uma creança, mórmente uma creança, cujo berço fluctua sobre sangue nas ruinas d'um paiz inteiro.

O sangue era francez: as ruinas eram as da França.

O vencedor era a Allemanha.

Pela eterna rivalidade que reina entre as duas nações, a França julgava-se duas vezes vencida por succumbir ás mãos da Allemanha.

Thiers foi o medico chamado á cabeceira da França no momento em que as feridas do corpo nacional sangravam dolorosamente sobre as ultimas purpuras encontradas nas Tulherias.

Comprehende-se o que seria governar assim.

Vêde bem que exforço titanico não requer subir ao Vesuvio, quando elle muge em convulsões precursoras d'erupção, debruçar-se á cratera, despreoccupado da escuridão sinistra que fecha a montanha, escutar o surdo ruido das entranhas de pedra agitadas pelo fogo, sentir affluir ao enorme local d'aquella pyra enorme o turbilhão vertiginoso das lavas, e suster com um dedo a massa candente que irrompe de dentro, e reprimir com uma palavra a torrente impetuosa d'um niagára de chammas.

Assim estava a França: isto fez Thiers.

Foi elle, o dictador da palavra, que provou ao mundo{231} que para os cadaveres das nações como para os cadaveres dos homens tinha a physica descoberto o galvanismo.

Foi elle que estendeu o seu braço obstando a que a plebe desenfreada sepultasse no grande tumulo das nações que foram o cadaver da França, amortalhado nos fragamentos das suas esphaceladas bandeiras.

Apagados os fogos sinistros da batalha, ergueram-se vorazes os fogos da Communa.

Depois da derrota,—o incendio; depois da guerra extrangeira, a guerra civil.

Era preciso combater a França para salvar a França, porque o peior inimigo da França era a França.

A derrota tinha alastrado de cadaveres o chão.

Eram as cinzas dos heroes, que se bateram com o eterno denodo francez.

Cumpria veneral-as no mais sagrado culto devido aos que perecem pela patria.

Mas o facho da Communa tentava queimar em Paris os corpos dos heroes nas fogueiras que no Industão espalham no ar as cinzas das viuvas brahmines.

Era uma profanação immensa.

Cumpria respeitar a desgraça da patria, salvar ao menos a quilha da nau desarvorada, que desde tempos immemoriaes estava costumada a despejar as suas hostes conquistadoras nas praias da Europa inteira.

Pois bem, Thiers estava ao leme, e queria morrer abraçado á ossada do seu navio, quando desesperasse de salval-o.{232}

N'estes momentos de suprema agonia todos os olhos e todas as esperanças estão concentrados no capitão.

Se elle desanima, desanima a equipagem.

E cada vez mais referviam em derredor as ondas populares d'aquelle immenso mar de fogo que dava ás aguas do Sena uma ardentia sinistra.

Thiers salvou a França, suffocando a Communa, e fazendo cahir o braço fratricida armado para a guerra civil.

Isto ainda o não conseguiu a Hespanha, que manda as legiões de Madrid combater as guerrilhas da Navarra.

A Communa era o incendio, o saque, o fusilamento, e, para vencer todas estas calamidades, claro está que era preciso oppor-lhes pelo menos outra: a morte.

Era preciso fazer justiça: correu sangue.[5]

Dado porém que na presidencia da republica franceza estivesse a essa hora não o dictador da palavra, mas o dictador da espada, um intrepido militar costumado a oppôr a força á força, lembrado de haver pelejado em Africa no assalto de Constantina, de haver tomado em Sebastopol as fortificações de Malakoff, e de ganhar na Italia a victoria de Magenta, esse militar, dizemos, impellido pela sua destemida coragem, haveria atulhado de francezes os carceres e os cemiterios para{233} salvar a patria que a sua espada tão gloriosamente por mais d'uma vez nobilitara.

Dictadura da palavra!

Dictadura da palavra foi o governo de Thiers.

Luctas, se as houve, foram parlamentares unicamente, e a assemblêa de Versalhes o campo de batalha.

Assim requeria ser tratado um enfermo illustre, que tinha ainda nos labios um timido sorriso de esperança.

E esse enfermo era a França, o paiz das tradições gloriosas, e a medicina foi a palavra, a discussão, o parlamento.

É impossivel rehabilitar-se um paiz com maior dignidade.

Á ruina da guerra com o extrangeiro succede um governo republicano d'ordem, que, logo aos primeiros passos, tem de supplantar a Communa armada em ambas as mãos com o ferro de Caim e o facho d'Omar.

O inimigo da familia depois do inimigo da França!

Ameaçado o lar depois de retalhada a patria!

Era preciso salvar o berço em que fluctuavam os Moysés do futuro, e o cemiterio onde dormia toda a immensa familia de Clovis.

Isto conseguiu Thiers, e mais ainda.

Reorganisou o exercito.

Satisfez a imperiosa avidez do erario allemão deixando-o cogulado do muito oiro da contribuição de guerra que pesa ainda menos do que o sangue das victimas de Metz, Borny, Mars-la-Tour, Gravelotte e Sedan.{234}

Levantou dois emprestimos que provam que o credito da França bastaria a encher todos os thesoiros da Allemanha.

E reergueu os edificios derrubados pelo inimigo ou pela Communa e, o que é mais, reergueu a patria, sustentando um difficilimo equilibrio politico nas frequentes e perigosas oscillações d'um governo provisorio.

Isto fez Thiers: isto fez a dictadura da palavra.

Vejamos agora como se pagou ao velho Noé que depôz, sã e salva, nas faldas do Ararat, a nau desconjunctada pelo imperio francez.

A eleição de Buffet para presidente da assemblêa franceza, por uma maioria de 70 votos, contra Martel, candidato do governo, recomposto nas fileiras do centro esquerdo, era um mau prenuncio de imminente tempestade parlamentar.

E, de feito, a tempestade rebentou.

Na sessão do dia 19 de maio deu-se o signal de rebate, que não póde ter outro nome a apresentação da interpellação firmada por quasi todos os membros do centro direito e da direita.

Venha o documento. Precisamos de vêr claramente como Thiers, o dictador da palavra, succumbiu dignamente ás unicas armas cujo combate aceitava,—a palavra.

«Os abaixo assignados, convencidos de que a gravidade da situação exige á frente dos negocios um gabinete cuja firmeza tranquilise os espiritos em todo o paiz, pedem para interpellar o ministerio a respeito das{235} ultimas modificações que acabam de fazer-se n'elle, ácerca da necessidade de que prevaleça no governo uma politica resolutamente conservadora, e propõem que se destine a proxima sexta feira para se realisar a interpellação.»

O governo, pela bocca do ministro Dufaure, pediu um praso de vinte e quatro horas para se entender com o presidente da republica.

Era esse o dia em que deviam ser apresentados os projectos da lei constitutiva dos poderes publicos.

A esquerda da assemblêa pediu que fossem lidos.

A direita oppôz-se violentamente.

Era a primeira refrega, depois do signal de combate.

Estava patente a impossibilidade d'acordo entre o presidente da republica e a direita, unida ao centro direito da assemblêa.

A politica de partido levantava-se para combater a politica nacional; começava a referver a escumalha da paixão nas aguas que deveram anilar-se na doçura d'uma discussão serena.

A direita foi intransigente, violenta, aggressiva.

Thiers, o dictador da palavra, cujos actos e discursos procuraram sempre alliar todas as vontades por meio d'um espirito liberal e conservador, prudentemente sustentado em todas as luctas, quiz ainda responder á direita com o seu verbo fluente, sereno e limpido:

«Não solicitei o poder, offereceram-m'o e exerci-o{236} no meio de muitos desgostos e difficuldades: as vossas censuras não as dirijaes aos leaes ministros aqui presentes: dirigi-as a mim, que para mim as tomarei.

O momento é solemne; imperiosas as circumstancias: vós ides decidir os destinos do paiz.»

Mas era preciso dizer a verdade toda:

«Entre os republicanos ha alguns que querem ir mais longe e que instigam os outros a seguil-os: são os que querem a republica para os republicanos.

N'esta situação, precisa-se de um governo inexoravel para com a desordem, e que, depois de assegurar a tranquilidade, inicie uma politica de pacificação; tal é a nossa politica.»

Todavia a direita, como dizia a interpellação, queria uma politica resolutamente conservadora, e Thiers desceu da cadeira da presidencia, certamente deslembrado das ostentações do poder, se bem que naturalmente desalentado como todos os grandes obreiros que são chamados a receber a féria da ingratidão...

Finalmente, Mac-Mahon substituiu Thiers.

A historia registrou o passado, e a espectativa europea nada alcança pelas trevas do futuro a dentro.

Irá inaugurar-se uma dictadura verdadeiramente militar?

São tudo perguntas.

Governará a direita?

Restaurar-se-ha a monarchia?

Continuará a situação provisoria?

Não se sabe.{237}

Todavia, já vol-o disse, alguem profundamente sabido em coisas dos homens e da politica, sentenciou: Acabou a dictadura da palavra; começa a dictadura da espada.

Tambem sabeis que Thiers é o author da Historia do consulado e do imperio, e da Historia da revolução franceza, e Mac-Mahon o vencedor de Constantina, de Malakoff e de Magenta.

Em todo o caso a França é governada por uma espada.

Ora uma espada, depois d'uma guerra fatal, e quando se sonha em outra guerra diversamente fatal, a revanche, lembra o sangue que correu e o sangue que póde correr...

A espada vence, e a palavra convence.

E a França precisava convencer-se de que deve, primeiro que tudo, coroar a trabalhosa obra da sua rehabilitação.{238}

{239}


Á HESPANHA

(AGOSTO DE 1873)

Tu eras o menestrel da peninsula, o trovador de capa traçada, que dedilhavas o bandolim dos teus cantares sob a janella illuminada pelo formoso luar das serenatas.

Tu eras a madrilena, de mantilha de rendas, olhos de fogo, que passeava á tarde no Prado, agitando a ventarola, os olhos e o mundo...

Tu eras o torero, de jaqueta azul constellada d'estrellas d'ouro e prata, que te erguias no meio da arena, de pé como os triumphadores, victoriado pela multidão.

Tu eras o amor ardente que descanta ao luar, o salero que justifica a serenata, a força que vence os obstaculos.

Eras um paiz que mantinhas o esplendor da tua individualidade sem fechares a porta á invasão dos progressos moraes e materiaes do seculo.{240}

Tinhas o teu idioma, as tuas danças, os teus cantares, os teus espectaculos.

Tinhas reis como S. Fernando, poetas como Campoamor, pintores como Murillo, campeadores como o Cid, oradores como Castelar...

Um dia, porém, uma d'estas grandes fatalidades, que pesam sobre todas as nações, avergou a tua nobre cerviz, e um rei estrangeiro, não podendo conter a impaciencia das ambições, desceu do throno a que fôra chamado, depondo nas tuas mãos a corôa que de ti havia recebido.

E como são sempre os clarões nascentes da aurora que succedem aos clarões moribundos do occaso, como é sempre a flôr que succede ao cahir das folhas mortas, tu quizeste levantar sobre as ruinas da monarchia a bandeira vermelha da ideia nova.

Havia n'essa tua aspiração, ó Hespanha, um tributo nobilissimo á memoria do teu ultimo rei.

Elle descera do throno com a magnanimidade com que Codro se expozera á morte, e a Hespanha, como Athenas, queria deixar para sempre devoluto o solio por não haver rei mais nobre que viesse occupal-o um dia.

Não rolaste pelas ruas da capital, cuspindo-lhe as injurias da canalha, a corôa da monarchia.

Não, archivaste-a na sancta-sanctorum das tuas gloriosas tradições, porque essa corôa a cingira D. Amadeu, e D. Amadeu fôra o omega da realeza hespanhola.

Não a consideravas escarneo; veneraval-a como reliquia.{241}

Então, ó Hespanha, os teus poetas, os teus pintores, os teus dramaturgos, os teus campeadores, os teus heroes ficaram supplantados por um homerico vulto cuja eloquencia jorrava em catadupas scintillantes pela bocca d'oiro do teu João Chrisostomo.

A voz do teu grande orador apostolisava o evangelho d'uma nova religião politica. Não era o inimigo dos reis que se levantava a insultar-lhes as cinzas depositadas nos tumulos soberbos do Escurial. Elle queria vencer sem sangue, combater sem ferir, semear sem revolver a terra!

Impossivel!

Santa aspiração que não póde traduzir-se em facto, sonho de fraternidade angelica sem realidade entre os homens, onda crystalina que não chega a banhar todos os corações porque encontra no caminho obstaculos e barreiras.

As auroras da terra não esplendem apenas como as do céo. São chamma. Cospem centelhas, e muitas vezes a centelha é o pollen luminoso que gera o incendio.

A luz tornou-se labareda.

Acordaram, sacudindo as tranças enleiadas de viboras, as Meduzas da ambição, as Furias do socialismo, os Omares dos fachos incendiarios.

Mobilisaram-se tropas, rodaram carretas, soaram clarins.

Caim armou-se para derrubar Abel.

Jacob vestiu no braço a pelle do anho para enganar a cegueira de Izaac.{242}

A insurreição vendeu o Messias da nova ideia pelos trinta dinheiros de Judas.

O luar da Hespanha, o doce confidente das serenatas, volveu-se sanguineo, como o reflexo d'uma forja.

O templo, onde porventura existia uma Virgem de Murillo, ficou devoluto, abertas as portas, e as aves de rapina entraram para os saquear depois que o pastor espiritual saiu para combater.

O bandolim do menestrel emmudeceu sob a ventana; os echos do Prado não repetiram mais o chalrar das morenas da mantilha.

A bandeira hespanhola nunca mais foi reverenciada na solidão das aguas com o culto que se deve ás côres nacionaes d'um paiz livre.

Que importa que fosse aquella bandeira a mesma que acompanhou Christovão Colombo ás regiões ignoradas do mundo novo?

Os descobridores morreram; ficaram apenas os piratas.

O descobridor era saudado pela artilheria; o pirata é aprisionado por ella.

Ruinas d'uma nacionalidade, petalas d'uma grinalda desfolhada, recordações horriveis d'um sonho vago...

E ainda de pé o vulto gigantesco, que sobrevive á sua propria ideia, o sonhador que subsiste á sua aspiração, o jardineiro que não estremece ao perpassar do tufão que lhe arrebata o jardim do seu ideal!...

A sua voz sobranceia os rumores da tempestade; é ainda o verbo da paz no meio da lucta, ouve-se na Europa{243} inteira a palavra do Lazaro immortal que desperta nas profundezas do tumulo:

«Nós, os republicanos, temos muito de prophetas, pouco de politicos. Sabemos muito do ideal, pouco da experiencia; abrangemos todo o céo do pensamento, e caimos no primeiro fosso que ha no nosso caminho. Assim succede e tem succedido sempre na historia, que os inimigos dos partidos progressivos fundam as ideias progressivas, como o judeu S. Paulo fundou o christianismo: como o monarchico Washington fundou a republica do Norte da America; como Rivadavia, outro monarchico, fundou a confederação das republicas do sul da America; que nem o Baptista na egreja, nem Rosseau na revolução, nem nenhum dos prophetas consolidou a propria reforma por elles annunciada e trazida; do mesmo modo que Moysés guiou para a terra promettida, e não chegou a entrar na terra promettida; do mesmo modo que Colombo descobriu a America sem saber que a tivesse descoberto para que uns guerreiros andaluzes e extremenhos a conquistassem e uns obscuros pilotos italianos a baptizassem; porque os que concebem e presentem as grandes ideias, não as realisam nem consolidam em nenhuma época da historia.»[6]

E não obstante referver ainda o cahos á hora em que o Moysés da Hespanha se preparava para escrever o{244} genesis da nova creação, e atiçarem-se as labaredas do incendio geral, e despirem-se os altares; não obstante fugir a Hespanha da Hespanha espavorida de sua propria crueza, e demandar o tecto hospitaleiro dos Euryalos estrangeiros, e a bandeira da patria despertar contra si a aggressão dos paizes extranhos,—elle, o gigante ferido no coração pela funda de David, quer morrer ou renascer abraçado aos escombros do seu berço:

«Eu quero ser hespanhol e só hespanhol; quero fallar o idioma de Cervantes, quero recitar os versos de Calderon; quero colorir a minha phantasia com os matizes que tiravam das suas palhetas Murillo e Velasquez; considerar como pergaminhos meus de nobreza nacional a historia de Viriato e de Cid; quero ter no escudo de minha patria as naves dos catalães que conquistaram o oriente e as naves dos andaluzes que descobriram o occidente; quero ser de toda esta terra, que ainda me parece estreita, sim, de toda esta terra que se estende dos Pyreneos ás ondas do gaditano mar; de toda esta terra ungida e santificada pelas lagrimas que custara a minha mãe a minha existencia; de toda esta terra redimida, resgatada do estrangeiro pelo heroismo e pelo martyrio de nossos immortaes avós.»

É que só elle é maior que a Hespanha toda.

 

FIM.