TELHUDOS HISTORICOS
A telha é muito antiga.
Nos tempos heroicos vae o escalpello do historiador encontrar conspicuos telhudos como Orestes, Athamas, e Alcmeon, posto se dissesse simplesmente que viviam atormentados pelas Eumenides. Nos tempos historicos tornam-se notaveis pela telha Pythagoras, Socrates, Mahomet e Luthero. Em tempos menos remotos apparecem na historia uns celebrados telhudos que se chamam Swedenborg, Pascal e Voltaire.
É uma consolação...
Encosta-se a gente com a sua telha a estas cabeças-firmamentos da historia, que ora tinham relampagos de genio, ora negruras de sandice, e vae vivendo. Não se falla por ahi na historia a cada passo? Para se dizer que um sujeito é velho não se lhe chama Mathusalem? Nero para dizer que é mau? Job para dizer que é paciente? Pois muito bem. Desculpemo-nos da nossa telha{54} com a historia na mão, e vamos vivendo com o nosso mal, porque para mim é ponto de fé que, sendo telhudos os maiores genios, cuja memoria assombra o mundo, não ha por ahi sujeito que não tenha a sua telha. Os que são mais robustamente organisados sabem que a teem e procuram modifical-a, como se combate uma enfermidade; os que nasceram peior acabados vão vivendo sem se lembrar um unico dia de que nasceram com telha e com lombrigas.
A uns e outros desculpa a historia.
Pouco importa conhecer ou não conhecer a telha,—o caso é tel-a. Hyppocrates veio a dizer na sua que a telha estava na cabeça; Lacaze e Bordeu que estava no diaphragma, e Bichat no coração. Esteja ella onde estiver; o certo é que está dentro de nós e da historia. Isto mesmo de querer dizer onde a telha está, já é telha. O que estou vendo é que os sabios da velha antiguidade eram muito mais perspicazes que os sabios dos tempos modernos.
Nos tempos heroicos, se um sujeito tinha a telha de rinchar de cavallo, dizia-se logo que entrara n'elle o espirito de Neptuno; se a telha lhe dava para começar a cantar de passaro, era por alta vontade de Apollo. Agora a sciencia trata de enxotar a ideia do espirito ruim o apregoa que se o sujeito tem telha é porque nasceu tolo. Isto assim não vae bem. Em remotissimos tempos pagãos desculpava-se a telha de pythonissas e sibyllas com influição divina; agora vem a sciencia e diz que a telha procede de imperfeição do systema nervoso, chamando-lhe{55} monomania. Ser monomaniaco é não poder um homem andar e proceder por sua conta e risco. Tanto vale como matal-o. É preciso pois que façamos crusada e nos defendamos com a historia.
Os homens do passado constituem a historia que hoje lêmos, assim como nós constituiremos a historia de amanhã.
Pois folheemos a chronica do passado e ponhamos a nossa telha ao abrigo de censuras, escondendo-nos agachados contra o pedestal de preclaros homens que o mundo festeja, e deixemos assim aberta uma valvula de segurança para respirar a telha de nossos netos.
Comecemos.
O marquez Arouet de Voltaire...
Marmontel conta que fôra um dia, acompanhado pelo seu amigo Gaulard, visitar Voltaire. Encontrou-o na cama, recostado em travesseiras, de barrete de lã na cabeça.
—Encontram-me a morrer, disse com voz debil o philosopho. Venham receber o meu ultimo suspiro.
Mr. Gaulard commoveu-se, mas Marmontel, que já conhecia a telha, tregeitou a Gaulard para calmal-o.
Voltaire entrou de conversar e de animar-se progressivamente.
—Meu caro Marmontel, disse elle, folgo de vêl-o em occasião em que lhe posso apresentar um estimavel artista, mr. Ecluse! Como elle canta a canção de Remouleur.{56}
E Voltaire começou a imitar Ecluse cantarolando;
Je ne sais oú la mettre
Ma jeune fillette,
Je ne sais oú la mettre
Car on me la che...
Os hospedes riam estrepitosamente.
—Imito-o mal, bem sei, objectou Voltaire, é preciso ouvil-o a elle, ao proprio Ecluse. Oh! que voz aquella!
Telhudo!
La Fontaine, o meigo educador das creanças, pertence ao rol. Casou com Maria Hericard, uma formosa e intelligente mulher. Passados tempos, abalou para Paris esquecido de haver casado. Aconselharam-n'o porém alguns amigos a reconciliar-se com sua esposa. Partiu com esse intuito e, procurando madame La Fontaine em Chauteau-Thierry, disseram-lhe que estava na igreja. Recolheu-se a casa de um amigo, onde comeu e dormiu durante dois dias,—ao cabo dos quaes regressou a Paris.
—Então, reconcilias-te com tua mulher?
—Não a pude vêr: estava na igreja.
Certo militar convidou La Fontaine para banquete opiparo com o simples intento de o ouvir discretear á mesa. La Fontaine comeu, bebeu e apenas disse levantando-se:
—Tenho d'ir á Academia.{57}
—É ainda muito cedo...
—Não importa. Irei por onde fôr mais longe.
Telhudo!
D'Alembert...
Elle, o grande geometra, o chefe da seita encyclopedica, chegou a ser um escravo amoroso de mademoiselle Espinasse.
Sahia todas as manhãs para lhe fazer serviços, a comprar alfinetes ou ganchos, e, quando o seu rival Mora partiu de França, ia ainda como de noite esperar o correio á estrada para levar as cartas a mademoiselle Espinasse.
Telhudo!
Saint-Foix, author do Essais sur Paris, e varias obras...
Estava uma vez no caffé Procopio, a lêr o Mercurio. Era á noite. Entrou um sujeito e pediu capilé. Saint-Foix disse da sua mesa:
—O capilé é uma triste ceia!
O sujeito olhou e ficou-se. Torna Saint-Foix:
—O capilé é uma triste ceia!
O sujeito carregou o sobr'olho. Torna Saint-Foix:
—O capilé é uma triste ceia!
—Isso é commigo, senhor?
—Pois com quem? O capilé é uma triste ceia!
Foi immediatamente reptado, bateu-se no Luxemburgo,{58} e recebeu uma cutilada. Já em terra, banhado em sangue, apostrophou:
—Isto não prova nada. O capilé é uma triste ceia.
Telhudo!
Pugnani, compositor de musica e celebre violinista piamontez...
Estando uma noite tocando violino em meio de numerosa sociedade, parou subitamente e disse:
—Senhoras e senhores, rezem cinco Padre-Nossos pelo pobre Pugnani.
E ajoelhando começou elle proprio a rezar o Padre Nosso.
Telhudo!
Sua exc.ª o barão de Dangu...
Tinha a telha de querer ser almirante, e, como houvesse passado no mar os primeiros annos de sua vida, sabia um avultado numero de termos nauticos de que diariamente usava. O palacio em que morava tinha a configuração interior d'um immenso navio. Os criados vestiam de marinheiro e tractavam-n'o por almirante. O barão fazia quarto no terraço que chamava convez. Pela manhã dizia-lhe um dos criados:
—O mar foi muito esta noite!
Quando elle queria sahir, outro criado berrava pelo porta-voz:
—A chalupa do almirante ao mar!{59}
Isto queria dizer que pozessem as cavallos á carruagem.
Momentos depois, o barão subia ao convez, d'onde com o auxilio de cordas, descia á carruagem, que se abria pelo tecto.
Telhudo!
Mr. Berluguer, author de tres enormes volumes—Les farfadets. Ora os farfadets eram demonios que elle dizia vêr pendurados das arvores do jardim, do espaldar do catre e ás cabriolas sobre a mesa do jantar. Pensava que a melhor maneira de se vêr livre dos farfadets era mettel-os em garrafas ou atravessar-lhes o corpo com alfinetes. Tirante esta notabilissima pancada, era um homem alegre e amavel, que sabia conversar com senhoras. Basta porém lêr os farfadets para conhecer que era...
Telhudo!
O historiador Mezerai, membro da Academia Franceza...
Escrevia á luz da candeia, ainda que fosse meio dia, e pleno estio. Quando alguem o visitava, acompanhava-o ao corredor, de candeia na mão, e algumas vezes chegava á porta da rua:
—Olhe lá, não caia, dizia elle.
Telhudo!{60}
Sua magestade catholica, Filippe V, rei d'Hespanha...
Este soberano passava na cama seis mezes inteiros, sem cortar o cabello e as unhas, sem mudar de camisa. Umas vezes queria que o capellão do paço fosse á camara real dizer missa ás cinco horas da manhã, outras ao meio dia e outras ás oito horas da noite. No inverno mandava abrir de par em par as janellas; durante os ardores caniculares dormia com tres cobertores de papa. Muitas vezes, emquanto dormia, arranhava-se e, quando acordava, começava a gritar que o haviam mordido os vermes. Julgava-se então morto, mordia em si, em seus filhos e na rainha. Perguntavam-lhe o que tinha. Respondia:
—Não tenho nada!
E desatava a cantar.
Telhudo!
Sua ex.ª o marquez de Brunoy...
Quando morreu o marquez pae, mandou despejar em todos os tanques do palacio almudes de tinta d'escrever para que as aguas tomassem lucto; e cobriu de crepes todas as arvores do parque. Era o sachristão da igreja de Brunoy. D'uma occasião, em Conflans, pegou no cadaversinho d'uma criança debaixo do braço, e foi elle proprio sepultal-o. Ahi por 1775 projectava ir de sandalias e esclavina á Terra Santa, fazendo-se acompanhar por sessenta romeiros. A familia pôde estorvar-lhe{61} o plano e sua ex.ª o marquez desistiu de ser peregrino para continuar a ser...
Telhudo!
Esta é a grande lição da historia.
Quando alguem nos atacar, leitores, facilmente nos poderemos defender apontando para o enorme epitaphio da historia, que diz:
«Aqui jaz a telha de muitas gerações.»
Jaz e ha de jazer. Culpa é dos ministros portuguezes que fazem reformas na instrucção e não supprimem o estudo da historia. Mandam-nos estudar historia; estudemos. Admiremos os telhudos e sejamos tambem telhudos por nossa vez. Lá diz o conhecido verso:
Un sot trouve toujours um plus sot qui l'admire.
É fado. Iremos caminhando de telha em telha. O numero dos tolos é infinito, diz o livro santo, e é assim. Acho prudente o conselho de não sei quem que disse: quem os não quizer conhecer, não saia de casa e quebre o espelho...{62}
OS DOMINGOS
No Parocho, romance religioso de Roselly de Lorgues, ha um periodo que diz: «Newton, extasiado perante as maravilhas da creação, observou que de todos os dias do anno é o domingo aquelle em que os vapores da atmosphera nos encobrem menos o astro brilhante.»
Assim devia ser.
O domingo é o dia do repouso, da tranquillidade, do lar. «Ha sueto geral—diz ainda Roselly de Lorgue;—está suspensa a lei do trabalho.»
É portanto este o dia em que se lê, em que o povo procura o jornal, em vez do jornal ir procurar o povo, como acontece durante a semana. O jantar do artista tem ao domingo mais um prato e mais um copo. Urge pois que o homem de trabalho procure tornar-se digno da modesta opulencia da sua mesa. D'aqui procede a{64} ancia de se nobilitar, de se illustrar; de lêr ao domingo. Viveu na fabrica toda a semana; vive ao domingo no lar.
Ora a leitura é um laço que prende á familia, um prazer sereno que requer silencio. O operario senta-se a uma restea de sol, com o seu jornal debaixo do braço, com o seu cigarro na mão. O tabaco—embora o neguem pessimistas—torna a percepção mais clara. Fuma e lê. Quer encontrar o seu jornal variado, alegre, leve e crystallino. Entende. Um cerebro inculto é como um estomago fraco. Demanda alimento ao mesmo passo substancial e de facil digestão.
Pelo jornal se identifica o artista com a sociedade. Sabe o que se passa nas altas regiões de que elle vive esquecido toda a semana.
É então que trava conhecimento com os actos do governo. Ás vezes deprehende da leitura que tem de pagar mais. Fica triste. Tem filhos, e recebe pequeno salario. Mas desce com a vista ao folhetim, e o folhetim serena-o por isso mesmo que lhe não falla de impostos.
Lê com curiosidade, ás vezes sorri, e levanta-se para ir comer o seu guisado e beber o seu copito, supplementos domingueiros do jantar, mais lembrado do folhetim que do imposto.
Senta-se á meza, e como é força que o folhetim d'um jornal popular seja candido na ideia e singelo na fórma, o artista facilmente reproduz o folhetim á mulher que não sabe lêr.
Não adquiriu sciencia, nem elle estava intellectualmente preparado para recebel-a; o que adquiriu, e já{65} não é pouco, foi amor á leitura,—á leitura, este elemento de moralidade, quando prudentemente adoptado, porque preservera da orgia e affasta da ruina.
Estas foram as rasões que me levaram a escolher o domingo para o folhetim semanal,—conversação facil, que eu procurarei guiar sempre por caminho desatravancado d'espinhaes, sejam quaes forem os cataclismos da sociedade, e por mais brutalmente que escouceiem os onagros nas selvas visinhas.
É justo dar ao povo o que nasceu do povo,—o folhetim.
Preciso porém dizer-lhes que eu faço distincção entre o antigo folhetim e o moderno folhetim. Um é aristocrata; o outro democrata. O primeiro saiu dos palacios d'Athenas; o segundo dos theatros, dos botiquins de Paris.
O primeiro rojou-se aos pés de Aspasia e Lais quando os gregos as mandavam entrar ao dessert na sala do banquete, justamente ao contrario dos inglezes, que é ao dessert que expulsam as mulheres. O segundo saiu da caixa de rapé do abbade Geoffroy, uma noite, na Opera, quando elle a abria para offerecer uma pitada a mr. Bertin, que o tinha acompanhado. O primeiro recebeu ao nascer o baptismo dos vinhos de Corintho, de Samos, e de Chios. O segundo mergulhou na onda nacarada do Bordeus ou do Champagne.
No seu Grande diccionario de cosinha, recentemente publicado, escreveu Dumas pae: «Foi n'estes elegantes jantares (de Athenas) que se formou a conversação grega,{66} conversação ao depois copiada por todos os povos, e da qual a nossa era, asseguro-o, antes da introducção do cigarro, uma das mais vividas e mais rapidas copias. D'aqui a expressão sal attico.»
Assim foi que nasceu o folhetim aristocrata, passando de bocca em bocca, borboleteando entre os convidados, que eram ordinariamente sete, em honra de Pallas, rematado provavelmente com um beijo de Phryné ou com um sorriso d'Aspasia. Depois passou da Grecia para Roma. Os banquetes d'Augusto, conversados por Virgilio, Horacio e Pollion, deviam de ser folhetins delicadamente cinzelados como os cyathos imperiaes. Todavia o grande espirito de Augusto amava a publicidade, e permittia que circulassem em Roma as anecdotas dos seus opiparos folhetins. Conta-se, por exemplo, que certo dia, em que jantava com Virgilio e Horacio, se desculpara d'umas sombras de tristeza dizendo que estava entre os suspiros e as lagrimas, porque um d'estes escriptores soffria dos pulmões e o outro tinha uma fistula lacrimal.
No tempo d'Augusto já o povo romano conhecia a publicidade. Julio Cesar foi o verdadeiro creador do jornal. Nos primeiros tempos de Roma os pontifices escreviam dia a dia os acontecimentos do céo e da terra. Julio Cesar arrancou o privilegio aos pontifices fazendo redigir e publicar os actos quotidianos do senado e do povo. O que, segundo uma bonita phrase de Julio Janin, foi passar duas vezes o Rubicon, desvelando d'uma vez para sempre os tenebrosos mysterios do senado romano.{67}
Tão inveterado estava porém entre os patricios o habito do folhetim á mesa, tanto o banquete era mais uma recreação para o espirito que um prazer para o estomago, que Heliogabalo reunia á mesa anões, zarolhos e corcundas para os vêr da galeria e os ouvir conversar durante o jantar. Era um folhetim burlesco, como ás vezes por ahi apparecem alguns, o que Heliogabalo queria.
Fallemos agora do folhetim democrata, nado e creado em Pariz, teudo e manteudo pelo abbade Geoffroy. Nominalmente o folhetim data de 1789, do nascimento do jornal politico em França. Chamava-se assim o espaço em que o jornalista escrevia, na parte inferior da pagina, a resenha dos trabalhos que a Assemblêa deixára indicados para o dia seguinte. Mas o folhetim só começou a existir de facto no fim do seculo XVIII. Um homem de letras havia a esse tempo, ao mesmo passo escriptor e clerigo, o abbade Geoffroy, que, entediado das noitadas do caffé Procope, voluntariamente se desterrou de Pariz. Um certo dia, porém, mr. Bertin, que comprara aos irmãos Baudonim a propriedade do Journal des Debats, lembrou-se de ir procurar o espirituoso abbade ao seu remoto escondrijo. Foi e arrastou-o.
—Que quer de mim, Bertin? perguntou-lhe o abbade.
—Que venha jantar commigo a Pariz, que vá á noite commigo á Opera, e que ámanhã me escreva um artigo para o primeiro numero do Journal des Debats.
O abbade lembrou-se dos seus tempos, e foi.
As palmas, os bravos, as acclamações espiritaram-n'o.{68} Ao outro dia fez a critica da opera na parte interior de duas columnas, e a terceira encheu-a Bertin com anunncios de theatro.
O artigo, occupando o logar do folhetim, chamou-se folhetim. O povo leu e gostou. Correu a comprar o jornal, chegou a disputal-o, o successo foi ruidoso, e Geoffroy não só fez a sua celebridade senão que tambem tornou celebre o Journal des Debats.
Geoffroy d'alli em deante applaudia, acclamava, pateava e assobiava no folhetim. O povo seguia-o, acompanhava-o, o povo pensava com Geoffroy e Geoffroy pensava pelo povo. Foi o povo que lhe deu nome, a elle e ao folhetim, e era para o povo que Geoffroy escrevia. Não havia trova popular, caricatura, retrato e lanterna magica—até lanterna magica!—que não reproduzisse o abbade folhetinista. Quando elle morreu, annunciou-se nos collegios a sua morte depois do Benedicite. Geoffroy festejado! Geoffroy applaudido! Geoffroy... cantado!
O successor de Geoffroy no folhetim foi Charles Nodier. Não o excedeu mas não o deshonrou.
Depois de Nodier vieram Etienne Bêquet, Duvicquet, e outros, sempre acclamados e sempre attendidos pelo povo, até que chegámos á revolução litteraria de 1830. Então appareceram Sainte-Beuve, Dumas, Janin e Gautier. O dia que o movimento litterario do romantismo designou ao folhetim foi a segunda feira. D'ahi o chamar-se ao folhetim causerie du lundi, e aos folhetinistas les rois du lundi. Os reis da segunda-feira! Reis,{69} porque? Porque empunhavam elles o sceptro da opinião? Porque eram os soberanos absolutos da critica?
Nada d'isto. Porque cada folhetinista da segunda-feira tinha sua côrte d'admiradores, seus salamaleques, e seus subditos. Alexandre Dumas chama a Sainte-Beuve um poeta; a Janin um phantasista, e a Gautier um esmaltador. «Sainte-Beuve,—continua a escrever Dumas pae,—não se quer indispor com ninguem.» «Janin é um escravo do seu estylo.» «Gautier o Benvenuto Cellini do periodo».
Era-lhes o folhetim vitrine onde estadeavam as pompas da sua linguagem finamente rendilhada. Os aulicos da sua côrte eram as mulheres da Opera, os academicos e os virtuoses. Janin pertence actualmente ao numero dos quarenta da academia franceza. Como havia o povo de entender um escriptor que traduzia Horacio e dispunha de recursos para chegar a ser academico?
O folhetim, aristocratisado, era para os erudictos, para as salas, e para os gabinetes. Vestia casaca, lenço branco, e trazia flôr na boutonnière. O povo, que comprehendia Geoffroy, não entendia Janin.
Mas como o jornal depende essencialmente do povo, começou o jornalismo a folhetinisar o noticiario, a fazer espirito, a contar anecdotas, de sorte que o povo comprava o jornal, não por causa do folhetim, como no tempo de Geoffroy, mas por causa do noticiario.
Isto foi, e isto é ainda em França.
Ora eu que não posso ser academico, que não cinzelo a phrase, que não disponho de recursos para ser{70} Janin e Gautier, escreverei n'um jornal do povo unicamente para o povo. O folhetim veiu do povo; é preciso portanto que elle vá para o povo, quando o povo o póde receber,—ao domingo. Que vá, que lhe falle de assumptos que elle conhece, que não seja nubloso na phrase, impuro na ideia, que não tenha subtilezas, mas que se faça lêr, que se faça applaudir se poder, e que uma vez por outra nobilite a caixa de rapé do abbade Geoffroy.{71}
AS ITALIANAS
A esta hora fogem as que estiveram entre nós. Deixem-me porém fazer uma observação.
As italianas de que vou fallar não são as mulheres de Italia,—são as mulheres da Opera. Não nasceram para viver,—nasceram para cantar. Por isso andam cantando de paiz em paiz, e chegam no inverno, quando a natureza emudece, partindo na primavera, quando as andorinhas regressam... São ricas, opulentas, e todavia o mais que guardam na sua mala são os seus anneis de cabello, as suas fitas e as suas rendas, coisas tão leves que o vento póde agital-as. O thesouro d'ellas está na garganta; lá é que guardam as notas, que trocam em qualquer paiz, sem desconto, antes com o premio das palmas e dos applausos. Cantando atravessam o mundo, as tempestades sociaes, os cataclismos da humanidade. Cabe-lhes perfeitamente a anecdota que se{72} conta do guitarrista Phillis, pae da celebre cantora do mesmo nome. Uma vez, durante o Terror, um magistrado chamou-o e perguntou-lhe:
—Como se chama?
—Phillis.
—Que faz?
—Toco guitarra.
—Que fazia no tempo do tyranno?
—Tocava guitarra.
—Que vae fazer pela republica?
—Tocar guitarra.
Ellas tambem atravessam todos os regimens, a republica, a monarchia, a propria tyrannia, cantando, sempre cantando, sem que o imperador Guilherme recuse ouvil-as por haverem cantado na presença de Grant ou de Thiers. Constituem ellas mesmas a unica realeza perduravel, porque lá está a Sass em Madrid sendo rainha, victoriada, festejada, acclamada, e todavia a Hespanha acaba de emergir a fronte do baptismo republicano. O certo é que a nobreza lhes é instinctiva, que se habituam a reinar, a viver baloiçadas nos seus briskas, deslisando sobre tapetes, roçagando sedas, colhendo flores e joias, revendo-se em espelhos, e admirando-se tanto de receber o bouquet d'um burguez como um bracelete que lhes envia um monarcha. Uma rainha parece haver alienado a delicada sensibilidade dos seus nervos quando atravessa as multidões que se precipitam sobre o coche saudando-a doidamente; a cantora domina com um sorriso a tempestade dos applausos, sem{73} chorar de commoção, sem tremer d'alegria, sem se desvairar d'orgulho. Rasão de sobra tinha madame de Pompadour quando disse depois de ouvir cantar Sophia Arnauld:
—D'aqui havia com que fazer-se uma princeza.
Parece que é de todas ellas a legenda das pastoras que ao depois foram czarinas. Nascera da obscuridade, o destino atira-as aos braços da gloria,—é por via de regra um empresario que as ouve cantar uma tonadilha e as aggremia logo á sua troupe—chegam a ser muito ricas, como se houvessem encontrado thesouros encantados, e já fiam tanto da sorte, que esperam encontrar collares e braceletes por toda a parte sem se darem o incommodo de procural-os.
Ainda outro dia, na Russia, na noite em que a Nilson se despedia cantando o Fausto, lhe fizeram a surpreza de encher de preciosos brindes o cofre que devia abrir ao cantar a aria das joias, e ella, sem se admirar, sem se agitar de commoção, foi examinando-as e cantando, cantando sempre, até chegar a repetir toda a aria, porque uma cantora de verdadeiro talento bem sabe que a sua voz é a vara de condão que faz surgir os thesouros. No quarto acto, depois da scena da igreja, deram-lhe um annel todo liso, do qual pendia uma grossa lagrima, formada d'um só diamante. Felizes mulheres, para as quaes a saudade do publico se desentranha em lagrimas de... diamantes! Quando acabou o espectaculo, tiraram-n'a nos braços para a carruagem, que rodou vagarosamente, escoltada por gentis cavalleiros, á luz{74} de fachos, cujos reflexos vivissimos permittiam vêr a diva. Ás vezes, como as pastoras da legenda, chegam a ser esposadas por titulares, como a Patti, hoje marqueza, e ainda algumas vezes chegam a enamorar os principes. Frederico II quiz a todo o custo reter na Prussia a Mara, e, quando ella tentou fugir das algemas da admiração real, expediu emissarios para lhe tomarem o passo e reconduzil-a á capital.
A poesia desde muito tempo que reconhece a realeza das italianas. Depois que no Porto se introduziu o costume de espalhar versos no theatro lyrico, em todos elles encontro eu, revolvendo as collecções, alguma coisa que denuncia vassallagem. Ha quarenta e oito annos dizia um poeta anonymo á Varesi:
Harmonia, ó Deidade encantadora,
Da naturesa magico thesouro,
Legisla aos corações teu sceptro d'ouro,
Incenso universal teu throno escora.
Ha vinte e nove annos outro poeta anonymo cantava á Rossi Caccia:
Rainha das canções! ó nobre filha
Do portentoso Lacio, onde inda ovante,
Em mil padrões de fabrica pujante,
A gloria dos Heroes avulta e brilha.
Cento e onze annos vão decorridos desde que o governador general João d'Almada e Mello inaugurou o theatro lyrico do Corpo da Guarda fazendo ouvir aos{75} seus governados a primeira italiana, a Giuntini, na opera Trascurato. Desde então para cá quasi todas ellas têm atravessado o theatro do Porto calcando tapetes de flores, rompendo florestas de applausos, colhendo nos loureiraes da scena as corôas que para ellas pendem, e sentindo esvoaçar sobre a fronte o bando alado dos versos, muitas vezes com azas de setim, como aconteceu á Laura Geordano e á Luisa Ponti.
Depois, porque ellas são como as aves migrantes—deixam após si o rastro brilhante do seu talento, e vão levar a Italia aos gelos da Russia, aos nevoeiros da Inglaterra ou aos lagos da Suissa. Vão, algumas vezes desprotegidas, sós com a sua Italia, com a recordação dos explendidos horisontes da patria, das gondolas do seu Adriatico, da sua lingua pittoresca e harmoniosa, que não podem fallar em todo o longo caminho. Vão passando de festa em festa, de theatro em theatro, e ás vezes, depois do espectaculo, algumas d'ellas se sentirão tristes na sua pavorosa solidão, ainda ao pé das flores que lhes atiraram, e das joias que lhes offereceram. É por isso talvez que muitas casam com artistas, para terem um coração que as defenda e um braço que as proteja. Procuram talvez mais um coração que as defenda do que um braço que as proteja. A Schmoehling casou com o violoncellista Mara, cujas faces eram hediondas de variola, perdeu o appellido de seu pae para acceitar o appellido d'este homem, ella, a formosa captiva de Frederico II, só porque o Mara era musico e{76} podia entender-lhe as tristezas sem causa, os desconfortos do triumpho...
Uma noite, ao entrar no camarim para poisar os seus bouquets e as suas corôas, recebe uma d'ellas um telegramma de Napoles, porque os talentos mais doces são talvez os de Napoles. Até já um escriptor notou que em Italia parece haver um dialecto para cada classe de gente. O de Veneza convém á sensualidade das cortezãs, o de Florença á elegante nobreza dos grandes senhores, o da Sicilia ás graças simples e rusticas dos pastores de Teocrito, o de Roma á bonhomia maliciosa dos burguezes, mas o dialecto de Napoles é o dos artistas, do povo-poeta, da população que nasce a cantar e que vive a cantar sem saber lêr nem escrever. O que era o pae da italiana? Por ventura um pescador ou então um canta-storie, um canta-historias, a quem os lazzaroni faziam circulo, sempre que elle apparecia na praça.
A diva tem ainda de cantar o final da opera, mas deseja mais partir para Napoles, porque o telegramma lhe diz que o pae está moribundo, do que subir ao proscenio. Não ha transigir com o dever. Vae cantar, a sua voz tem lagrimas, é admiravel, é sublime, e só o empresario sabe talvez que ella está cantando e sentindo dilacerar-se o coração fibra a fibra. E que se está lembrando de que na véspera da festa da Piedigrotta, reunidos na gruta de Pausilippe, o pae cantara para o povo a Finestra bassa, no seu pittoresco dialecto:
Finestra bassa e padrona crudele,
Quanti sospiri m'hai falto gettare,{77}
e de que ella mesma cantára com a sua voz infantil e vibrante aquella formosa aria napolitana Te voglio ben'assage, e de que os guaglioni a applaudiram, os guaglioni que em Paris, com o nome de gamins, lhe venderam algumas vezes jornaes á sahida do theatro.
Quem lhe dera a ella encontrar ainda vivo o pae, vel-o com a sua jaqueta azul e o seu collete vermelho, como na noite da Piedigrota, mas o publico chama-a, e acclama-a, e ella sente deslisar-lhe nas faces a chuva das petalas, algumas das quaes rolam humedecidas com uma lagrima! Finalmente a ovação extinguiu-se, é livre, e sae do theatro sosinha, cantando e suspirando ao mesmo tempo:
Finestra bassa e...
Quer chegar a tempo de receber a benção paterna, e vae chorando, chorando, porque se lembra de que se o pae a chamou para lhe assistir ao passamento, ella não terá por quem chamar no leito da morte...
Pois a gloria? Oh! a gloria é só para a vida, é a illusão, a embriaguez, o delirio, e a morte é a realidade, a pedra do sepulchro, o silencio do cemiterio, e o mysterio da eternidade...
A gloria deixou-a ella com as flores que ficaram no camarim, sobre as corôas de louros que dentro em pouco estarão ressequidas...{78}
E todavia, á hora em que ella vae chorando sosinha pelo caminho, correm o mundo as italianas, e toda a gente diz—Chegaram!—Viu-as?—Eil-as! e ella vae já muito perto de Napoles, e só com vêr o céo da sua terra teve coragem para enxugar as lagrimas e soluçar:
Finestra bassa e padrona...{79}
EMILIO CASTELAR
Sabeis o que é ir correndo mundo, com os olhos fitos n'uma esperança, vencendo todos os obstaculos, dormindo á sombra d'uma arvore á espera da aurora, que é o pharol dos que navegam no mar da vida, deixando-se bater dos temporaes que passam mugindo e alastrando a estrada de folhas e flores? Os viandantes apenas relanceiam um olhar de surpreza ou desdem ao peregrino que vae absorto no seu pensar, e logo desviam a vista a procurar horisonte, sem se importarem mais com a sombra que se afastou, d'olhos baixos, porque o horisonte que procura ainda está longe, porque o céo coberto de nuvens sinistras não côa ainda os fulgores iriados do sol...
A sombra que perpassou por vós, ó caminheiros da vida, levava uma ideia comsigo, um proposito, um desejo, uma esperança.{80}
Vós ides com a vossa ideia; elle vae com a sua. Vós procuraes um horisonte; elle procura outro. Vós quereis aproveitar o dia; elle quer esperar a alvorada. Ris-vos! Pois se o sol desencadea das alturas torrentes de luz, dizeis vós, se tudo é azul e oiro no céo, elaboração e abundancia na terra, como é que o peregrino vae a procurar a aurora que se illumina apenas de palidos diluculos, e não aquece o mundo, e não fecunda a gleba, e não doira as aguas? Toda a gente vos dará rasão, porque a humanidade costuma legislar para as circumstancias normaes da vida, para as temperas vulgares que seguem a rotina do vicio ou da virtude, para as abelhas que volitam em inalteravel rotação em derredor da grande colmea do mundo, e não vos obrigam a suppôr o caso extraordinario de desertar uma do enxame e ir procurar em jardins remotos os sucos com que ha-de encher de mel o seu favo. Ah! não riaes. É que o espirito d'elle não foi vasado nos moldes communs do vosso; é que a sua alma não se póde medir pela bitola que põe limites ao vulgar dos homens; é que o peregrino que passou tem o seu ideial n'umas alturas que só a aguia com a sua vista audaz e penetrante logrará devassar. Ride pois.
Chamae-lhe devaneador, utopista, poeta, visionario... Notae porém que nobreza a sua! Vós não vos contentaes com o vosso riso banal, e chegaes ao insulto; elle vae com a sua ideia e com o seu silencio, á procura do seu sol. Vós transigis com todos os accidentes da jornada para vos dardes repouso e conforto; elle não{81} entra ás pousadas, porque lá dentro ha rumor de vozes, e cada um dos convivas ha de ter uma opinião que póde não ser a sua. Senta-se pois á sombra de uma arvore, por entre cujas frondes descem as fitas do luar ou as ondulações do sol, porque a arvore póde dar sombra a todos, e porque sobranceiro á arvore fica o céo que é o abrigo universal... Alli tem as suas visões, as suas luctas, alli se retemperam as suas esperanças, e ainda o horisonte tão vasto e tão limpido, sem um contorno que denuncie a architectura dos castellos sonhados na phantasia!
Não importa. Bastará uma hora de descanco physico para reanimal-o. Depois, lá irá pela estrada deserta, rompendo as trevas, expondo a fronte ao açoite dos vendavaes, á procura da sua luz. É o peregrinar continuo do sonhador que não encontra, dizeis vós, a realidade, porque o seu ideal não terá realidade. Ah! vós sabeis lêr no futuro, escrutar os segredos do amanhã, sondar o destino que é intangivel? E elle, o peregrino, tambem se podia rir de vós, porque elle bem sabe que muitas vezes na nuvem rosada do occaso referve latente a tempestade da noite.
Não se ri, não vos insulta: caminha. Mas sabei, porém, que o sonhador que vós chasqueaes é o audaz Colombo que vae á procura d'um mundo novo; o velho Noé que anda recolhendo madeiras para construir a arca em que se ha de salvar no diluvio sonhado; o inquebrantavel Demosthenes que erra de montanha em montanha para afinar pela orchestra das tempestades a{82} revolta eloquencia com que ha de oppôr uma enorme barreira ás hostes conquistadoras de Philippe. Todos tres pareciam devaneadores, e todavia a visão de Colombo abrange um hemispherio, e a arca de Noé depõe nas faldas do Arará a familia que ha de ser humanidade, e Demosthenes com um só decreto lucta contra os exercitos de Philippe.
Se o visseis, tambem vos ririeis do louco que andava acordando os echos dos fragoedos para domar as rebeldias da palavra, que devia de ser a primeira espada hellenica. E todavia o devaneador solitario das montanhas mereceu aos athenienses seus irmãos este epitaphio: «Ó Demosthenes, se a tua força fosse igual á tua eloquencia, jámais o Marte da Macedonia haveria submettido a Grecia!»
Demosthenes dos tempos modernos, Emilio Castelar, o sonhador da republica hespanhola, errava desde os primeiros annos na indefessa peregrinação do seu ideial. Quando mais brilhavam de clarões festivos os paços de Castella, e o throno de S. Fernando se recamava de custosos brocados, ia elle mundo alem, de capital em capital, ouvindo os homens e estudando os acontecimentos para tirar horoscopos com a credulidade do sonhador que só vive do seu phantasiar.
Quem no caminho o encontrava, ficava-se dizendo aos companheiros: Visionario! E os companheiros repetiam: Visionario!
E elle caminhava, caminhava, medindo-se com a voz da tempestade, como Demosthenes, e expondo a{83} ampla fronte ao turbilhão que arrastava na passagem o sceptro de Napoleão III, a corôa d'Izabel, o manto de Maximiliano, folhas soltas da arvore da realeza...
Corria o mundo, visitava Paris, estudava Roma, e a peregrinação não tinha ainda acabado, e havia tantos annos que partira! D'onde partira elle, o visionario? Da praia do seu pensamento, das regiões da liberdade, da sancta sanctorum onde guardava este evangelho da sua religião politica:
«A liberdade, a igualdade, prégadas no Golgotha, selladas com o sangue de Christo, verdades religiosas no Evangelho, vieram a ser na austera Suissa, n'esses Estados Unidos que se sacrificam pelo escravo, grandes verdades sociaes. O mundo moderno, a civilisação moderna, não farão mais que estender essas verdades e applical-as á vida. São como a lei definitiva da historia. Passarão ás gerações arrastadas pela corrente dos seculos, e não darão de si ideal superior ao ideal da liberdade.»[2]
Para onde ia elle, o sonhador das Hespanhas? Ia para o futuro que devia chegar fatalmente, para a realisação do seu ideal, para as paragens sonhadas que o seu espirito procurava. Acabava de vibrar o seu grito de liberdade no Atheneu de Madrid e ia para a Republica de Hespanha. E, nem por affrontado do caminho, levava o coração cheio d'odio contra os reis. Amava os principes, quando fossem magnanimos; o que elle{84} não queria era a corôa, o throno e o sceptro, porque a corôa averga a fronte, porque o throno eleva o homem e o homem é uno, e porque o sceptro fatiga o braço que o sustenta. Queria liberdade, e até para os principes a queria. Por isso, quando a generosa alma do filho de Victor Manoel, espavorida dos horrores da grandeza, quiz sacudir de si os arminhos da magestade, e aspirou á liberdade do seu principado, do seu lar, da sua patria, Emilio Castelar, redigindo a resposta á mensagem d'el-rei Amadeu, generosa como a renuncia do monarcha, fez votos porque a liberdade, que o principe deixára nos seus jardins de Italia, voltasse a sorrir-lhe de novo, deposta a corôa que comprime a fronte...
Quando elle viu descer do throno o ultimo rei d'Hespanha, não parou para dizer—Emfim!—mas antes o ficou abençoando, porque comprehendeu a alma do principe, que não tivera uma palavra d'azedume para os que o elegeram e o desampararam, e porque o julgava tão feliz como elle proprio, porque para ambos havia terminado a trabalhosa peregrinação, a de um pelas regiões do poder, a do outro pelos dominios da phantasia.
E a visão convertera-se em realidade, e a Hespanha, o paiz das tradições monarchicas, patria de reis que chegariam para occupar muitos solios, a Hespanha, dizia eu, deixava vazio o unico throno que tinha, e sem dar tempo a que resfolegasse a ambição dos pretendentes á realeza, arvorava a bandeira da republica sem havêr derramado uma gota de sangue nos despojos da magestade...{85}
E os que tinham gritado: Visionario! ficaram olhando estupefactos para o horisonte que no céo da peninsula apparecia refulgente dos clarões matinaes da ideia nova.
E o peregrino despia a esclavina do caminho e lançava ao povo hespanhol, da tribuna do poder, construida pelo povo, as primeiras palavras do crédo republicano, porque, como disse Fenelon d'um periodo analogo da historia grega, «tudo dependia do povo e o povo dependia da palavra».
Se a eloquencia é chamada a representar um papel activo nos destinos d'um paiz, se ella tem necessidade de ser uma instituição do estado e um meio de governo, é de certo quando se desencadeam todas as forças vivas d'uma raça que readquire a consciencia da sua individualidade e do seu poder. Então á torrente infrene da vontade popular, da seiva que rebenta em cachões do coração do povo, é preciso oppôr a torrente da eloquencia reflectida, a luz d'um grande espirito, que desempenhe a missão do sol, e aqueça a seiva, para que possa fructificar e revigorar todas as sinuosidades do organismo nacional.
A Grecia, no periodo fecundo que seguiu o grande movimento das guerras médicas, quando a alma popular respirava desopprimida do jugo de Pisistrato, teve Pericles que appareceu ao mundo como a mais completa encarnação da força nova, dirigindo com a palavra, durante vinte annos, os destinos do paiz. «Pericles, fallando, diz um historiador francez, tinha a força{86} e a serenidade do Jupiter homerico, tal como o cinzel de Phidias acabava de creal-o. O que dominava no orador era um sentimento profundo da gloria de Athenas e do papel que ella lhe havia confiado.»
A Hespanha d'este que póde ser periodo fecundo, á similhança da Grecia, tem tambem o seu Pericles, digno como elle do cognome de Olympiano, cuja palavra alternadamente poderá servir de barreira e de leme, de sol e de tufão, de correcção e de guia.
O mundo antigo costumava vencer com a espada; o mundo moderno deve convencer com a palavra. Convencer é vencer duas vezes: vencer-se a si e vencer aos outros.
Esta dupla missão pertence ao nosso seculo; seja pois a palavra que derrube, a palavra que construa, a palavra que persuada, que arraste, que conquiste. E a Hespanha, no por emquanto breve periodo da sua fórma republicana, já por mais d'uma vez tem carecido da força e da serenidade do Jupiter homerico, já comprimindo a impaciencia popular n'este dilemma pungente: Ou rei ou dictador, já serenando as facciosas tempestades parlamentares, como na sessão do dia 14 de março, com o seu verbo incisivo, pensado e ardente.
Elle tem, como Pericles, o sentimento profundo da gloria d'Hespanha, e é sobre as aguas da democracia que pretende estender a sua vara de Moysés apontando a liberdade nascente.
Trabalhará, fallará, persuadirá. O que elle pede é a liberdade collectiva, a felicidade da sua patria, mas se o{87} destino lhe fôr adverso, contentar-se-ha com a liberdade individual, volverá á modesta posição de escriptor, aos seus jornaes americanos, á sua velha propaganda até que resurja de novo a aurora, porque Emilio Castelar morrerá republicano, sorrindo á liberdade.{88}