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Estrellas Propícias

Chapter 17: XI.
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About This Book

The narrative unfolds in a setting marked by social dynamics and personal relationships, exploring themes of love, hope, and societal expectations. Characters engage in discussions about marriage prospects and familial expectations, revealing the complexities of their interactions. The story reflects on the contrasts between aspirations and reality, as well as the influence of wealth and status in romantic pursuits. Through a blend of drama and social commentary, the work delves into the emotional landscapes of its characters, highlighting their desires and the societal pressures they navigate.

IX.

UMA CARTA DE CORINNA DA SOLEDADE A ANTONIO D'AZEVEDO BARBOSA.


«Na minha segunda carta lhe contei o que se passou até á morte do tio D. João. Agora é que eu bem comprehendo o desespero em que vive meu pobre pae. Quando elle me disse que iamos empobrecer, cuidei que se inventava um engano para eu consentir em ser a victima voluntaria da pobreza da nossa familia. Soube que a Emma fôra instada com as mesmas razões da pobreza: não a dissuadi; mas, em minha consciencia, julguei que era sacrificada ás ambições de continuar-se em Lisboa o fausto que tiveramos em Paris.

«É verdade o que meu pae me dizia. Os bens do vinculo, unicos que possuimos, estão em risco de se perderem. Imagine o meu querido amigo como será a nossa vida, ouvindo a cada hora o pae lastimar-se, enfurecer-se e lançar-nos injustamente em rosto que fomos nós a causa da sua ruina, porque dissipara os bens livres para nos dar em Paris uma vida brilhante com esmerada educação! Minha mãe, que não tem culpa de ter sido herdeira do dote que lhe tiram, faz-me muita compaixão, quando o pae lhe diz que foi atrozmente enganado para casar com ella.

«Que será de nós, passados alguns mezes? Para onde iremos quando nos expulsarem d'esta casa? Minha mãe já pediu a parentas, que tem em differentes conventos, que nos recebam. Eu creio que irei para Vianna e mais a mana Felismina; outra irá para Vairão; e as outras duas para S. Bento do Porto. O pae diz que vai a Lisboa requerer um emprego, com que possa sustentar-se a si e á mãe. De maneira que estamos em vesperas de nos dispersarmos para nunca mais nos reunirmos! E eu, entre todas as minhas irmans, sou a menos infeliz, porque ha muito suspiro pela solidão do claustro, e sei que lá terei comigo a imagem compassiva do meu querido irmão; porém, eu queria ir para o convento, deixando a minha familia contente e feliz, e não assim a braços com a dependencia, e Deus sabe com quantas desventuras peores que a dependencia!

«Aqui me tem, pois, bem digna do seu amor por minha pobreza. Já me lembrou se Deus me deu esta virtude para merecer aos seus olhos, meu amigo. Tenho momentos em que o futuro se me allumia; sou eu a unica pessoa da minha familia que vê a felicidade através d'esta escuridade. Todos se lastimam, e eu só me lastimo de os ver tão desanimados. Falta-lhes o amparo do amor, e talvez da fé na providencia divina. Eu rezo muito, e desafógo em consoladoras lagrimas; minhas irmans e meus paes abafam sem linitivo. Ás vezes quero consolar meu pae: o infeliz repelle-me, como se eu désse causa a seus desgostos, e não fosse capaz, para o salvar da queda, de me deixar esmagar no coração e na vida!

«Não estranhe que eu lhe diga tudo o que o coração me fôr dictando. Agora que eu estou assim pobre, e d'aqui a pouco obscura e esquecida n'um convento, haveria alguem que me quizesse para esposa? Poderia alguem invejar a sorte do homem que me acceitasse? Pois, é n'esta situação que eu mais confio do seu amor; é assim que eu me affoito a pedir-lhe que venha, que renuncie ao desejo de ser rico, e que... A riqueza para que a procurava? não era para poder ostentar o seu valimento aos olhos de meu pae? Era de certo; que, se fosse para valer em meu conceito, grande injustiça me fazia, meu caro amigo. Pois então faça de conta que estão cahidas as barreiras que só o ouro poderia arrazar. Ninguem me impedirá que eu seja sua mulher. Sejamos ambos pobres: não teremos que medir a desegualdade das nossas posições. A nossa fortuna principiará com a primeira moeda de cobre que empregarmos no primeiro pão. Depois eu lhe darei horas de alegria com a minha ditosa conformidade a tudo que os descontentes chamam infortunio.

«Não cuide que a vida de convento me assusta, e que eu procuro aligeirar o tempo do supplicio. Não, meu amigo. O convento é o unico estado que me quadra, e a mais proxima ventura que se offerece á minha sêde de solidão. Se voltar cedo, lá me encontrará; se, passados muitos annos tornar para Portugal, no convento me encontrará ou desfigurada pela velhice, ou confundida nas cinzas das bemaventuradas, que alli acabaram contentes e amantes de mais seguras esperanças que as minhas.

«Póde ser que o meu irmão, n'essa outra sociedade, com outras relações, e com a mudança que fazem os annos, contra vontade mesmo de quem se transfigura, sinta diminuir-se a boa impressão que de mim levou. Não creio que me esqueça; mas póde ser que a distancia me vá descolorindo aos olhos da sua alma. Se tal acontecer, nem assim deixarei de esperar que em algum momento, entre as fugazes venturas d'este mundo, o seu espirito vá ver-me, no meu asylo, esperando-o ainda, e esperando sempre.

«Mas o meu coração lhe pede que não me esqueça, e que acceite as alegrias que elle lhe promette. Adeus, meu amigo, meu consolador. Sua C. da Soledade


A PRIMEIRA CARTA DE ANTONIO D'AZEVEDO A CORINNA, ESCRIPTA NO BRAZIL.


«21 de junho de 1843, onze horas da manhan.


«Aqui estou, minha querida Corinna. Cheguei ha meia hora. A minha tristeza tem uma negrura inexplicavel. Abafa-me mortalmente este ar. Estou como o desterrado que atiraram a uma praia onde não houvessem olhos humanos que me vissem chorar. Ó meu Deus, que atroz supplicio é a saudade! Que desolação em roda de mim, que terror me incute tudo isto que me vê com uma indifferença dolorosa como o escarneo! Sahirei eu d'esta febre que me está arrancando pedaços de vida a cada momento! Ó Corinna, eu não a vejo mais! Aqui é que sossobram as mais robustas almas... Eu não previra isto... É impossivel que haja piedade n'esta gente! A quem escrevo eu, meu Deus! Está a milhares de leguas distante, ó minha amiga! E esta carta só, passados quinze dias, sahirá d'aqui!




«Quatro horas da tarde.


«Sahi no afôgo de uma afflicção sem nome. Levei a minha carteira, e entreguei uma carta do Taveira a um negociante, que, apenas leu a carta, me disse que eu seria hospede na sua chacara, para onde vou ámanhan. Acolheu-me com muito bom rosto, e, apertando-me a mão, disse: «O senhor vem muito recommendado: ha de ter muitos amigos, e eu o mais dedicado de todos.»

«Fizeram-me grande bem estas palavras. A maior oppressão vai desapparecendo. Já a vejo a outra luz, minha Corinna. Já a torno a ver ao meu lado com a missão de anjo do alento e da paciencia. Os desamparados são unicamente aquelles que não tem nenhum amor puro na terra, nem confiança na graça divina. Ha de tudo em minha alma, bemdito seja Deus! Eis-me outra vez forte para a lucta, e envergonhado da minha fraqueza. Não rasgo a primeira pagina d'esta carta porque a minha alma ha de mostrar-se-lhe sempre nas suas intercadencias de força e desanimação. Assim lh'o prometti, e tenho necessidade de cumprir. Toda a gente ha de ignorar os meus desfallecimentos, menos a minha Corinna para me dizer: «Levanta-te, fraco, se queres ser digno de mim!» Vou sahir para entregar outras cartas, antes da minha ida para o campo.


«Nove horas da noite.


«Todos os portuguezes me recebem nos braços. Suppunha eu que os negociantes me acolheriam com a frieza da sua distancia d'um homem de tão diversa profissão. O que ahi se diz d'esta boa gente é uma calumnia. Os opulentos commerciantes a quem me apresentei parece que me estavam vendo nos olhos espelhadas as saudades da patria; e elles, tambem saudosos, sympathisavam mais com a minha dor, e queriam ouvir-me fallar das menores coisas de Portugal. Aqui é que se sabe o que é esse torrão de flores e alegrias. Em parte nenhuma a palavra «patria» tem tão doce, tão querida e esperançosa significação. Muitos ahi dizem que tem vergonha de serem portuguezes; aqui sente-se orgulho de ter lá nascido, e encontrar tão longe irmãos assim saudosos da mãe commum. Abençoados sejam estes homens que tem olhado compadecidos para mim! Devo-lhes esta serenidade com que lhe vou escrevendo... Mas o cansaço prostra-me, minha amiga. Até ámanhan.


«22 de junho, oito horas da manhan.


«O meu despertar foi afflictivo. Com os sonhos renasceram as saudades, e o descorçoamento. Assaltou-me a pusillanime ideia de voltar já para Portugal. Seduzia-me o receio de adoecer n'este clima, o terror das febres, a difficuldade de ser rico, onde nem todos são ricos, ainda os mais laboriosos. Adormecera pensando no caminho que devia encetar: todos se me afiguravam difficeis e escabrosos. Que fraqueza! que inconstancia miseravel a do homem mais fervoroso no trabalho! Eu tinha perguntado ao dono do hotel se os advogados enriqueciam depressa; e elle, enumerando todas as profissões que enriqueciam, não mencionou a minha. Instei encarecendo as vantagens que se offerecem a um bom e honrado advogado: ouviu-m'as encolhendo os hombros, e disse que os caminhos direitos eram os mais tortos para quem procurava enriquecer-se. Isto desconsolou-me, amargurou-me os sonhos, e deu-me a hora má que precedeu estas linhas. Deixar fallar o descrente da honra. Se é forçoso, renunciarei á riqueza; contento-me que as muitas fadigas e vigilias me dêem honesta independencia, e o respeito de mim proprio.


«Cinco horas da tarde.


«Espera-me o amigo de quem vou ser hospede. Brevemente voltarei a dar começo á minha tarefa. Já me estão pezando as horas que vou passar de ocio sem prazer: parece-me que são horas que roubo á sua felicidade e á minha. A vontade energica é uma esperança meio realisada. Ha aqui n'este ar, n'este ceo, n'esta incessante labutação, um rumor mysterioso que eu escuto como o cantico victorioso dos que luctaram e venceram. Porque não hei de eu, a final, vencer tambem com esta ancia e força d'alma, com este amor e saudade, com esta voz prophetica promettedora de honrosos triumphos?...


«23 de junho, nove horas da manhan.


«A casa em que vivo, minha amiga, faz-me lembrar uma finissima e polida concha entre fofos de verdura e caules de gentis florinhas! As palmas, as tamarindeiras, os coqueiros, e muita especie de arvores do paraizo com sua explendida e agigantada folhagem, absorvem os raios abrazadores d'este sol, e elaboram-no em si, expedindo-o em frescura, que faz lembrar a da nossa terra, as auras das margens dos nossos rios, os salgueiraes do seu Lima, e os choupaes do meu Cávado! Mas que falta aqui da alegria dos nossos arvoredos, minha Corinna? Não sei: parecem-me tristes estas arvores; não me viram na infancia; não me conhecem; não me fallam. Que bello deve ser este diamante do mundo para os que nasceram aqui! Que abrasadas fantasias serão as dos poetas aquecidos a este vapor aromatisado por tantas urnas de florescencia peregrina! Que ar de primitiva magnificencia da creação tem isto tudo? Afigura-se-me que, á sahida do eden, este pedaço de mundo se desdobrou, com as entranhas arquejantes de riqueza, concitando o homem condemnado a trabalhar, a tressuar e a limpar mil vezes o rosto, calcinado sob os ardores do sol, á sombra d'estas arvores, que significam a misericordia divina ao lado da justiça inexoravel. É um como fantastico explendor que me está arrobando os sentidos; mas a minha alma está triste porque esta verdura macilenta não é a da minha patria; estas folhas hirtas, apontadas ao ceo como flexas, ou largas, immoveis e enormes, não me dão o murmurio tremente das nossas selvas. Não oiço o rumorejo dos regatos, nem o gemer dos carros, nem a cadencia melancolica dos pegureiros das nossas serras. Ai! a patria, Corinna! como é linda a nossa tão rica e tão pobre terra! Que copiosas bençãos verte Deus sobre a cabana do pobre jornaleiro que achou a felicidade sem a procurar, formando d'um rochedo e da sebe d'alguns arbustos o seu palaciosinho ás abas da serra da Tranqueira, onde eu, em criança, tantas vezes subi para contemplar as boleadas serras do seu paraizo, minha filha. Tudo agora me lembra quanto é pequeno e pueril ao pé d'estes gigantes de verdura, que me assoberbam com a sua magestade! Ainda vos verei, ó opulentas pobrezas da minha mocidade! Ainda lá recordarei, a sós com o anjo da minha alegria, estas melancolicas horas, este deslumbrante espectaculo, que parece estar-me dizendo que para gosal-o é preciso ter aqui gosado os brinquedos de irmãos, os carinhos de mãe; e, sobre tudo, ter aqui sentido o coração a formar-se, e a desentranhar-se em amor e esperanças




«25 de junho.


«Brevemente, ámanhan talvez, volto para o Rio. Vou praticar com um advogado portuguez de grandes creditos e fortuna, homem de muita idade, que reparte comigo os interesses, e me trespassa as obrigações muito lucrativas de defensor, em que está contractado com corporações commerciaes. Devo esta promettedora estreia ás cartas do pae de Felisberto Taveira, que d'aqui foi ha muitos annos, e deixou respeitado nome, e ainda grosso cabedal. Estou contente quanto, em minha situação, é possivel estar. Esta familia que me hospedou já me parece minha. A intimidade aqui é uma religião, como se um punhado de portuguezes, e não cincoenta mil almas, se encontrassem em torrão estrangeiro. Aqui é onde nós aprendemos o amor de conterraneos: lá, no seio da mãe, somos-lhe ingratos a ella, e maus uns com os outros; aqui suspiramos todos por ella, abençoamol-a, e religamos os corações de todos com vinculos da reciproca saudade.

«Espere, espere, minha querida Corinna, que havemos de ser felizes!



«27 de junho.


«O lettrado a quem vou associar-me é um ancião de semblante apostolico, viuvo, sem filhos, rico, muito esmoler e doente. Fallamos muito de Portugal, d'onde elle veio com D. João VI ha muitos annos. É filho de Lisboa, e está ha vinte annos com o projecto feito de ir morrer á patria; porém os medicos aconselham-o a gosar-se do clima a que está affeito. É que toda esta gente o venera, e carece além d'isso da sua muita sciencia, e probidade na sciencia. Já aqui teve comsigo dous sobrinhos, que elle amava como seus unicos herdeiros. Morreram ambos por causa da irregularidade da sua vida, e o ancião chorava fallando-me d'elles. Ámanhan começo a praticar e a estudar o direito brazileiro: ser-me-ha preciso naturalisar-me; que importa? Eu serei voluntariamente natural de toda a parte onde encontro irmãos que fallam a minha lingua, com tanto que me deixem o coração, lá, onde tenho tudo que é d'elle.

»


A carta é extensa de mais, e o leitor contenta-se com as paginas transcriptas.



X.



Gastão de Noronha valia ainda muito com homens de alta graduação, seus companheiros de exilio.

O litigio, perdido em primeira instancia, foi appellado para o Porto; e com quanto uma espantosa actividade, esporeada pelo ouro do brazileiro, instasse com os juizes de segunda instancia, os padrinhos do fidalgo valeram mais para que o processo paralisasse na mão do relator. Este, porém, com maravilhosa consciencia fez saber ao réo que a sua perda era inevitavel, cedo ou tarde, e que parte da imprensa estava a favor da prompta decisão do pleito.

Decorridos quatro mezes, os tres jornaes portuenses d'aquelle tempo, e alguns de Lisboa, depois d'um prefacio de dez e mais artigos ácerca da corrupção da magistratura, fulminaram o juiz relator, já alcunhando-o de vendido, já de subornado pelas fidalgas influencias que ladeavam Gastão de Noronha. Não houve remedio senão confirmar a sentença.

Recorreu de revista para o supremo tribunal o réo, acompanhando o processo, e cumulando embargos sobre embargos. Em Lisboa a presença de Gastão e a solicitude dos amigos promettiam um anno ou mais de esquecimento dos autos; mas as gazetas, ainda antes de tempo, já se mostravam espantadas da demora, e, por conta de seu espanto, lavraram logo alvará de corruptos a todos os juizes, pedindo ás leis, ao governo e ao universo que os esfollassem, como o tyranno de Siracusa fizera a um juiz venal.

Aproveitou Gastão o ensejo de requerer emprego em Lisboa, já mais que certo do resultado do pleito. Os seus amigos, que o julgavam rico, pasmavam de o verem com aquelle aspeito typico, immutavel, e unico de pretendente. Pedia elle a directoria d'uma alfandega de primeira ordem, posto que nenhuma estivesse vaga. O ministro achou absurdo o requerimento, e os amigos acharam importuno o requerente. Desceu Gastão de suas pretenções, e pedia um governo civil em Vianna, Braga ou Porto. Os funccionarios que exerciam taes commissões na provincia eram sujeitos affectos ao governo, e bons fabricantes de Fabricios e Codros sertanejos. O fidalgo foi esclarecido a este respeito, e azoou. Pediu ainda um logar de escrivão da mesa grande da alfandega de Lisboa; mas o ministro mostrou-se muito sentido de que o serventuario existente não tivesse dado causa a ser demittido.

Ora Gastão de Noronha algumas vezes, em Paris, dera a um dos ministros pares de botas, e muitos jantares a outro. Assim lh'o lançou em rosto, e elles, pelos modos, ouviram a injuria com muito receio de que o fidalgo minhoto fizesse uso dos pulsos não menos rijos que as phrases. Era homem para isso o atribulado pae de cinco meninas, em vesperas de não ter sombra de arvore sua que o cobrisse!

Desanimado, e com o pensamento do suicidio a empeçonhar-lhe a alma, desamparou o processo, e foi para os seus.

Que ia elle fazer alli? que destino ia dar ás filhas? que remedio esperava elle haurir das lagrimas da pobre Mafalda, que em seis mezes envelhecera vinte annos?

A sua entrada em casa denunciou, sem palavras, a desesperança e suprema desgraça que o trazia. As meninas cuidaram logo nos preparos para se recolherem ao claustro, e D. Mafalda, sem consultar o marido, resolvera entrar com Corinna no mosteiro de Vianna. No tocante a si, dizia Gastão de Noronha que as suas tenções estavam deliberadas.

As tenções do fidalgo eram incendiar o palacete no dia em que chegasse de Lisboa a noticia do ultimo arranco da sua fortuna. O que elle faria de si depois era segredo que não deixou transpirar dos seus furores recalcados no peito.

A noticia que o seu procurador lhe deu passados dias foi consolativa. O supremo tribunal annullara oprocesso desde a appellação por falta de intimação ao réo. Queria isto dizer que a demanda ia recomeçar desde a sentença de primeira instancia.

Recobrou-se Gastão; as meninas descontinuaram os preparativos de convento; aquietou-se o animo de todos, e volveram á casa das margens do Lima alguns parentes, que fugiam para não presenciarem as angustias d'aquella nobilissima familia. Boas almas, não tem duvida nenhuma!

De pouco tempo foi este repousar para maiores angustias. Os zelosos procuradores de Fernando de Athaide obtiveram despacho para embargo dos fructos pendentes, fundamentando sua justiça em artigos que o leitor curioso póde ver de seu vagar no codigo.

Foi, para este effeito, citado Gastão de Noronha. Era de mais: foi uma faisca que atiraram áquella alma cheia de rancor, que ameaçava explosão! O fidalgo chamou os criados, armou-os, postou-os ao portão da quinta, e sentou-se no muro para capitanear a defeza.

Os officiaes de justiça, idos de Vianna, quando avistaram os homens armados, retrocederam. Os criados, vencedores sem consumo de polvora, deram-lhes uma bateria de apupos e assovios, que nunca a justiça d'estes reinos foi tão ridiculamente escorraçada.

Gastão preparou-se para mais pugnaz arremettida. Chamou os caseiros em grande numero, armados de foices, enxadas e escopetas vesadas a matar uma andorinha no ar.

Sahiram de Vianna os mesmos esbirros e outros mais afoitos, com doze soldados e um sargento. As inculcas do fidalgo anticiparam-se com a noticia. Gastão fechou toda a sua familia n'uma sala interior da casa nova, e postou-se com trinta homens nas janellas do edificio solarengo.

A diligencia viu aberto o portão, e receou cilada. Os aguazis incitaram o exercito a ir na dianteira. O bravo sargento, direito como um Giraldo-sem-pavor, entrou com o dedo no gatilho, bradando: «preparar!» com voz tão marcial, que fazia lembrar os bons tempos de Nuno Alvares e João de Castro. Os soldados compassaram-se em atiradores ao longo das alas de cilindras e acacias.

As avesinhas, que se aninhavam calorosas por entre a folhagem, crepitavam em bandos, e fugiam para o lado da casa, como a pedirem abrigo ás cinco meninas, suas unicas visitas áquelles pacificos caramancheis.

Parou a tropa no terraço fronteiro á casa. O sargento viu uma cabeça entre as duas columnatas mosarabes d'uma janella, e disse:

—Cuidado! que lá está um!

—É o fidalgo!—disse o escrivão, aventurando uma espreitadella por entre as franças de uma olaia—Está sósinho?

—Está, pelo menos não vejo mais ninguem—disse o sargento.

Animou-se o executor a sahir em claro, e cortejou de baixo Gastão.

—Que quer vossê?—perguntou o fidalgo.

O escrivão tartamudeou palavras inaudiveis. Sahiu á frente um official de chibança, e disse stentorosamente:

—Vimos a fazer embargos nos fructos a requerimento de Fernando d'Athaide, e com mandado do senhor doutor juiz de direito. Está vossa excellencia citado na presença de todas estas testemunhas. Agora vamos cumprir a diligencia: somos mandados. Vossa excellencia, se quizer, ponha embargos ao embargo.

—Eu não lhe tolero conselhos, su miseravel!—bradou Gastão—Já, e sem perda de tempo, meia volta á direita, e fóra da minha quinta, quando não vão debaixo de fogo!

—Auto de resistencia!—exclamou o escrivão, desentarrachando um tinteiro de osso negro, e examinando na unha do pollegar esquerdo os bicos da penna.

Mal o scriba proferira a bombastica exclamação, o fidalgo deixou ver o cano de um bacamarte, e vinte se não mais bocas de fogo romperam das differentes janellas. O escrivão escoou-se ao longo d'um massiço de murtas e acocorou-se. Os esbirros tomaram a retaguarda do exercito, e o sargento, em vez de arengar á tropa enfiada de pavor, sahiu do seu posto de honra e foi perguntar ao agachado escrivão se devia dar voz de fogo.

O escrivão ouviu a sibylla do medo, e disse que o melhor seria não haver sangue, e retirarem-se a lavrar o auto de resistencia.

—Meia volta á direita, rodar!—bradou o sargento. Os soldados voltaram costas ao inimigo, e obedeceram ás vozes «braço-arma!» e «marcha!»

A victoria, posto que incruenta, seria uma ridicula derrota para as armas e para as lettras juridicas, se alguns dos caseiros de mais rópia e chulice, como lá dizem, não sahissem por portas travessas contra vontade do amo, e não cortassem por atalhos a retirada á corrida justiça. Mal precatada ia esta, quando o tiroteio lhe rompeu á frente e pelo flanco direito, com grande algazarra de gritos, e de balas, cujo assovio encrespava de horriveis titilações as orelhas do escrivão. Os soldados viam, a intervallos, surgirem umas cabeças por detraz das moitas, ou deslizarem rapidos os vultos sobre uma clareira de dois troncos seculares do escuro arvoredo. Um soldado mais afoito rompeu ao bosque, e voltou de lá a manquejar com um raspão de bala n'um artelho. O esbirro chibante, que queria dar o exemplo da bravura, viu-se de repente na boca d'uma clavina, e metteu a coragem debaixo dos joelhos, que poz em terra, pedindo misericordia.

Gastão, logo que ouvira o tiroteio, mandou chamar os seus bravos, mas não a tempo de aggravar a resistencia com o ferimento do soldado. Cessou o fogo. Os escaramuceiros recolheram á cidadella com um chapeo de aguazil arvorado no gancho d'uma foice, e o escrivão com os seus chegaram a Vianna com aspecto livido como aquelle soldado unico dos trezentos de Leonidas que foi annunciar a Sparta a morte de todos os seus camaradas nas Thermopylas.

O regimento de infanteria aquartelado em Vianna, quando viu o soldado ferido, quiz sahir em pezo a vingar a affronta. Conteve o commandante a soldadesca, promettendo em nome da justiça mais legal e solemne vingança.

Póde dizer-se, sem injuria ao fidalgo, que a pobre cabeça d'elle estava perdida. Era aquillo tudo um cavar abismos em abismos. De hora a hora mandava atalaiar a estrada, em quanto recolhia gente armada das aldeias proximas, munições de guerra e vitualhas. Aquella casa, tão quieta dias antes, a remirar-se no crystal do Lima, estava sendo um castello de antigo barão em guerra com rei, ou senhor feudal inimigo de velhos odios de raça. As pallidas meninas e sua mãe aconchegavam-se umas das outras, e tremiam a cada estrondo de cronha d'armas no sobrado ou tinnir de varetas no cano das espingardas.

Mafalda ia supplicar ao marido que fugisse e as deixasse a ellas recolher aos conventos para se pouparem á desgraça de o verem a elle morto ou preso.

Gastão enfurecia-se contra as lagrimas; e, no auge de sua demencia, chegava a bradar que elle e sua familia morreriam no incendio da casa para não sobreviverem ao opprobrio da indigencia.

Os espias, ao terceiro dia de providencias para formal assedio, foram avisar o fidalgo de que vinham na estrada tres cavalheiros com um lacaio.

Momentos depois apearam no pateo os pacificos invasores da fortaleza, passando por entre fileiras de homens armados.

Gastão da sua janella-guarita reconheceu um parente de Vianna e Felisberto Taveira, já então visconde da Cruz, cujo era o lacaio.

Felisberto abraçou effusamente o pae de Corinna, maravilhando-se do aspeito bellicoso do castello, e pedindo licença para cumprimentar as damas castellans.

Appareceram as meninas com sua mãe. Corinna não se teve que não abraçasse expansiva e lagrimosa o amigo de Antonio d'Azevedo.

Ditos os logares communs, que eram para pouco em lances tão extraordinarios, o visconde da Cruz disse que lêra no Periodico dos Pobres do Porto uma correspondencia contando com negras cores a primeira resistencia que o fidalgo fizera á acção judiciaria, e os motivos que promoviam o embargo. Ajuntou que resolvera desde logo sahir caminho de Vianna para, como bom amigo de tão sympathica familia, offerecer o seu valimento. Accrescentou que chegara a Vianna quando se tomavam violentas medidas para vingar o aggravo feito á justiça e á força armada; e então, de accordo com o cavalheiro parente da casa, e advogado d'um tal Fernando de Athaide, conseguira, mediante um deposito equivalente ao rendimento dos bens litigados, cancellar os processos crimes instaurados e mandados de prisão.

Não ficou assim mesmo Gastão de Noronha extremamente satisfeito de tal serviço; mas agradeceu-o com um sorriso, e as meninas com lagrimas.

A parecer do visconde, os caseiros depozeram as armas e os criados voltaram ao seu trabalho. O chapeo do aguazil, em testemunho de alegria, foi arcabusado e sacudido em farrapos aos quatro ventos do ceo.

O restante do dia e noite correu tranquillo e alegre. Corinna recebeu furtivamente a segunda carta de Antonio d'Azevedo, e sentiu ancias de oscular a mão do visconde, que lh'a entregou com estas palavras:

—O nosso Antonio está n'um largo caminho de venturas. Ha de vel-o em Portugal dentro em pouco, e rico. Tenha orgulho de ser amada por tal homem.

—Tenho! Deus sabe que tenho!—murmurou ella.



XI.



O incansavel estudo, auxiliado pelo muito saber e prática do doutor Valentim da Costa, habilitou Antonio d'Azevedo a grangear renome em poucos mezes de exercicio.

O velho presava o praticante com mais que a vulgar estima captada pela probidade. Quantos ganhos podia declinar em lavor do laborioso moço todos lhe dava, não exceptuando mesmo os resultantes de seu proprio e exclusivo trabalho. Os clientes não distinguiam entre os dois, e alguns iam mais contentes da linguagem e escripta concisa e vigorosa do doutor novo.

—Já póde o senhor Azevedo, quando quizer, estabelecer-se sobre si—lhe disse o velho um dia—Ha de sobejar-lhe clientela, e está na carreira que leva á consideração e á fortuna. De mim é que já não precisa, meu caro amigo.

—E vossa senhoria assim me dispensa da sua companhia?—atalhou Azevedo—Fiz sempre quanto pude por que esta sociedade lhe não fosse onerosa.

—Ora ahi está! Eu a cuidar que o senhor desejava estar sósinho em seu escriptorio, como todos desejam, e vai agora sae-me o Azevedo o contrario de toda a gente! Pois, em sua boa verdade, o senhor quer ficar na minha companhia?

—Desejo-o; e nunca me lembrou que havia de sahir.

—Pois fique, Azevedo, fique, se o não move o interesse de mais algum punhado de oiro no fim de cada anno. Bem vê como este meu trabalho é interrompido pela gota, pelo rheumatismo e por outros achaques, contra os quaes não tenho que allegar nos nossos reinicolas. Isto está acabado, e acabada estava ha muito a minha tarefa, se não fossem velhos amigos que me tiram da cama para a cadeira, e ás vezes conseguem arrastar-me, em holocausto á amizade, aos tribunaes. Agora os novos que trabalhem, e cá se avenham com o seculo, com o qual eu já me não entendo. Tome o Azevedo conta das minhas procurações, dos meus livros, dos meus amigos, e, se quizer, do meu rheumatismo e da minha gota.

O velho doutor era mui faceto, e mettia sempre a riso a sua gota e o seu rheumatismo.

Estavam elles n'uma d'estas feriadas praticas, quando entrou um cliente de Valentim da Costa.

—Muito bem apparecido seja—disse este—o senhor Fernando de Athaide, fidalgo em Portugal e fazendeiro no Brazil. Vem-me dizer que está de posse dos seus vinculos de S. Torquato, de Alvites e de Ameixoal? Parabens!

—Quaes parabens, meu caro senhor doutor!—disse Fernando de Athaide—Aquillo tem dente de coelho! Tenho gasto o valor dos bens; tenho cinco sentenças a favor, e ainda pelo ultimo barco recebi uma carta do advogado e outra do procurador. Veja lá vossa senhoria o que por lá vai!

Leu o doutor mentalmente, e interrompeu-se em meio com esta exclamação:

—Magnifico bruto é o seu advogado, e o seu procurador outro bruto magnifico! Pois não deixam de intimar ao réo a primeira sentença! Esta, esta é das que desbancam a propria estupidez!...

—Pois olhe que tenho pago a rios de oiro essas brutalidades—disse Fernando.

—Não que ellas valem-no pela raridade!—disse o doutor limpando os oculos e proseguindo na leitura mental.

—Isto agora é que tem graça!—exclamou o velho, arfando em risadas—Está-se lá em Portugal na edade media. Recebem a justiça a fogo e ferro! Ó Azevedo, oiça lá isto, que é perdido em pouca gente.

E leu:

«A diligencia que sahiu de Vianna, retirou apupada e não fez o embargo; a outra que foi com a tropa, retirou debaixo de fogo, e recolheu com um soldado ferido. Á hora que lhe escrevo consta-me que mais de cem homens armados fazem sentinella ao palacio artilhado de Gastão de Noronha....»

—Como? de quem?—exclamou Azevedo.

—De Gastão de Noronha—disse o velho—Conhece-o?

—Conheço!—disse mui alvoroçado e pallido Antonio d'Azevedo—Mas que tiros são esses?

—É muito simples—respondeu Fernando d'Athaide, eu sou o directo successor dos vinculos que retem D. Mafalda de Athaide, mulher de Gastão de Noronha e minha prima. Ha muitos annos que tracto de senhorear-me do que é legitimamente meu. Tenho vencido em todas as instancias; obtive despacho para embargo nos fructos até á final decisão do pleito, annullado por um estupido descuido; e quando os officiaes de justiça vão cumprir a lei, o senhor Gastão dá-lhe fogo, e diz que a casa é sua. Ora vejam o que é Portugal! que civilisação aquella! Com que então o senhor doutor conhece meu primo Gastão de Noronha?

Azevedo, de abstrahido que ficou, não ouviu a pergunta. Fernando encarou em Valentim, como perguntando-lhe se era surdo o praticante.

—Diz o senhor Fernando se o meu amigo conhece Gastão de Noronha—tornou o velho.

—Conheço, creio que já disse.

Esta resposta foi dada com enfadado franzimento de sobr'olho, estranho ao velho.

Azevedo, vencido insolitamente de sua nobre paixão, fitou em cheio o rosto de Fernando, e perguntou:

—O senhor é pobre?

—Graças a Deus, não.

—É rico?

—Assim, assim.

—É muito rico—accrescentou o doutor Valentim.

—E não carece dos bens de sua prima D. Mafalda para ser feliz?—tornou Azevedo.

—Os bens são meus; não são de minha prima Mafalda—redarguiu Fernando com desabrimento.

—Convenho que são seus. Os bens que legitimamente possue sua prima são cinco filhas. Se o senhor tirar áquella familia as terras de que viviam, sua prima e seu primo e cinco meninas terão fome; ao passo que o senhor Fernando de Athaide não saberá que fazer d'essa parcella, que accrescenta á sua abundancia.

—Pode ser que assim seja—disse Fernando descommovido—mas a pobreza não é orgulhosa. Eu escrevi duas cartas a Gastão de Noronha, quando elle estava em Paris, propondo-lhe uma conciliação, e elle nem sequer desceu do seu orgulho a responder ao filho natural de Fernão de Athaide. Ora o filho natural quer desforçar-se como seu pae se desforçaria lançando fóra de sua casa os miseraveis que o não reconhecem como dono, nem sequer como parente. Colloque-se lá na minha posição, e diga-me o que faria?

—Tinha commiseração—respondeu Azevedo, e fingiu-se occupado a folhear uns autos.

—Commiseração com o senhor castellão que manda despejar balas sobre os executores do meu direito!—volveu Fernando—Olha em que postas eu era talhado se vivesse lá n'aquellas serras, em que os ladrões fidalgos se acastellam!

Antonio d'Azevedo pegou do chapeo, e disse que ia jantar e voltaria depois. Ao sahir cortejou urbanamente Fernando, como a pedir-lhe desculpa no sorriso.

—Este homem é exquisito!—disse Fernando ao doutor.

—É um modêlo de honra e virtude—tornou o velho—Não imagina que puro oiro é o d'aquella alma! Foi a commiseração que o excitou a tal estranheza de phrases. Desculpe-o, que o pobre moço, no fim de tudo, disse-lhe uma augusta verdade. Olhe que é triste coisa um homem que educou cinco filhas com todo o mimo e regalias de fidalgas, vel-as privadas de pão e de respeitos sociaes.

—Então que quer o senhor doutor?—atalhou Fernando.

—Eu de mim não quero senão absolver a compaixão de Antonio d'Azevedo, e lembrar ao senhor Fernando, que a caridade e o perdão são as virtudes fundamentaes do doutrinamento de Jesus Christo.

—E achava vossa senhoria acertado—acudiu Fernando—que eu perdesse contos de reis, que tenho gastado n'este capricho, e deixasse os meus vinculos na posse e direitos de minha prima?

—Eu não aconselho, senhor Fernando. Isto de bem fazer não se lê nem se ensina: está dentro do coração, é foro intimo, é materia de tractar com Deus. Faça o que bem quizer; mas de modo se haja que nunca venha a sentir-se mal comsigo proprio.

—A minha consciencia está tranquillissima—retorquiu Fernando.

—Quantas vezes a consciencia está quieta, e o coração inquieto? A consciencia é a inspiradora dos deveres; e o coração da piedade, da humanidade, e d'outras virtudes menos pautadas que os meros deveres e obrigações de uma recta razão. Faça o que quizer, senhor Fernando...

—Como eu me enganei!—atalhou Athaide.

—Enganou-se!? Com quê e com quem?

—Com o seu socio de escriptorio.

—Ora essa! pois...

—Eu lhe digo, senhor doutor. Disseram-me que este Antonio d'Azevedo era um advogado esperto.

—Não lhe mentiram.

—Será; não duvido. Ora, como eu queria acabar com isto á custa de mais alguns contos de reis, vinha com o fito posto em offerecer tres ou quatro contos ao doutor Azevedo para elle ir a Portugal tomar posse dos vinculos em meu nome, removendo todos os embaraços com a sua esperteza. Vinha n'esta ideia, e, quando menos o cuido, acho um prégador de caridade...

—Gratuito...—accrescentou, sorrindo, o velho.

—O que faltava era ter de lhe pagar o sermão que não lhe encommendei!

—Pois olhe que valeu dinheiro! Vossa senhoria, se for scismar no que ouviu, ámanhan está melhor de coração que hoje. Acha que não vale dinheiro um melhoramento moral? Oh! se vale! Até eu lhe devo, a elle mui salutares conselhos para a caduquez, e quando o escuto estou como pezaroso de não ter sido o que elle é. Pois que lhe disse o meu Antonio d'Azevedo? Cifra n'isto: «O senhor é muito rico: deixe essas migalhas que está disputando á familia, que não tem mais nada: faça de conta que pegou de sete pessoas pobres de sua familia, e deu a cada uma sua subsistencia.» Não lhe sôa bem isto ao animo desassombrado, senhor Fernando de Athaide? O seu bom sangue de fidalgo não se azedaria nas veias, se lhe cá viessem dizer que uma porção tão chegada de seus parentes andava lá por Portugal arrastada sobre os espinhos da pobreza, da miseria, e talvez da deshonra? Tem o senhor em Portugal cinco primas. Onde cuida vossa senhoria que as póde levar a indigencia?...

Valentim, fallando d'este theor, tinha os olhos embaciados de lagrimas. Fernando olhava-o em certa estupefacção, que umas vezes é dureza de sentimento, e muitas encendimento de renascida sensibilidade. O velho calou-se, e o primo de D. Mafalda, tomando o chapeo, sahiu sem proferir palavra, cortejando o doutor com um aceno.

—Adeus, meu amigo—disse o velho—Pense no fim da vida. Lembre-se que, no inverno d'ella, costumam os velhos lembrar-se das flores d'alma, que esmagaram na primavera.

Fernando ouviu, no patamar da escada, as ultimas palavras, e sahiu tanto ou quanto abalado.

Pouco depois entrou Antonio d'Azevedo. Viam-se-lhe nos olhos os residuos das lagrimas. É que elle acabava de escrever a seguinte lauda d'uma carta a Corinna: