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Estudo de Guitarra

Chapter 41: §. VI.
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About This Book

A obra oferece um método prático para iniciantes, combinando noções elementares de teoria musical — sinais, claves, linhas e espaços, acidentes e princípios de contraponto — com instruções específicas para execução da guitarra. Em seguida apresenta uma coletânea de peças curtas destinadas ao estudo (minuetos, marchas, allegros, contradanças e uma tocata), todas anotadas com acompanhamento de segunda guitarra. Inclui exemplos notados, orientação pedagógica e atenção a correções no acompanhamento para evitar erros frequentes entre estudantes.

ESTUDO DE GUITARRA.


PARTE II.

DAS REGRAS MAIS PRINCIPAES PERTENCENTES A' GUITARRA.

§. I.

Da Invençaõ, e Serventia da Guitarra.

A Guitarra, que segundo dizem, teve a sua origem na Gram-Bretanha, he hum instrumento, que pela sua harmonía, e suavidade tem sido aceito por muitos Póvos, que achando-a capâz de supprir por alguns instrumentos de maior vulto, como o Cravo, e outros; e assás sufficiente para entretenimento de huma Assembléa, evitando o incommodo, que poderia causar o convite de huma Orquesta, a adoptáraõ uniformemente, esmerando-se em a tocarem com toda a destreza: e vendo eu que a Naçaõ Portugueza a tinha tambem adoptado, e se empenhava em tocalla com a maior perfeiçaõ, desejando concorrer para a instrucçaõ dos meus Nacionaes, com esse pouco cabedal que possuo, por naõ haver Tractado algum que falle desta materia, compûs o presente Opusculo, e nelle ajuntei as Regras, que me pareceraõ mais proprias, e necessarias para se aprender a tocar com perfeiçaõ o dito instrumento, nas quaes mostro naõ só a sua Escala[53], a divisaõ dos meios pontos, e outras difficuldades; como tambem lhe ajuntei alguns Minuetes, Contradanças, Marchas, e Alegros, para desembaraçar o Principiante, tudo pelo Tom natural de C, proprio da Escala do mencionado instrumento; e logo depois seis Sonatas[54], com accompanhamento de hum Violino, e duas Trompas ad libitum, que por enserrarem algumas difficuldades nos Transportes, poderáõ servir de completa instrucçaõ para qualquer Curioso, que intente perfeitamente tocallo.

§. II.

De como deve ser construida a Guitarra, e das qualidades que nella se requerem para ser bem affinada.

Para que a Guitarra seja boa, requerem-se tres cousas, a saber: boa madeira na sua construcçaõ; proporçaõ nas suas partes, principalmente nas doze Divisoens d'arame, que ordinariamente atravessaõ o ponto[55]; e finalmente, que o cavallête esteja, em relaçaõ ao mesmo ponto, no seu competente lugar. A madeira da sua construcçaõ deve ser de Platano muito secca, isto se entende, naõ o tampo, porque este deve ser de Veneza, por ser madeira mais leve; e sendo ella de vêa fina, e rija, muito melhor, porque o som das Cordas reflecte mais, e faz hum excellente effeito, estando o bojo, ou cabaço[56] bem colligado, e de tal sorte unido, que nelle naõ haja boraco, ou frincha por onde lhe entre o ar: de mais, para a Affinaçaõ ser regular, e completa, deve procurar-se que da duodecima Divisaõ do ponto para a parte do cavallête, haja a mesma distancia de Corda, que ha da pestana[57] para a mesma Divisaõ; porque, segundo a Physica, e Mathematica Divisaõ de huma Corda, estando esta preza de ambos os extremos, e pondo-se-lhe bem no meio hum cavallête, de sorte que fique tanta Corda para huma, como para outra parte, dará em cada huma destas partes huma Oitava; dividindo-a da mesma sorte em tres partes iguaes, dará huma 5.a, Oitava acima da 5.a do som da Corda solta; dividindo-a em quatro, dará huma 4.a; e em cinco, dará huma terceira[58]; porque he huma verdade demonstrada, e geralmente admettida, que quanto mais pequena fôr huma Corda, mais vibraçoens ella ha de fazer em hum mesmo tempo, por exemplo: em huma hora, em hum minuto, em hum segundo,[59] etc.; e por tanto o som será mais agudo: e porque a maior parte dos Artifices, principalmente do meu Paiz, ignoraõ estes preceitos Physicos, e Mathematicos; he por esta razaõ, que as Guitarras lhe sahem taõ irregulares, e taõ desaffinadas nos distinctos sons das mencionadas Divisoens, que atravessaõ o ponto; circunstancia que se deve bem averiguar, pois que he o mais essencial, e necessario neste Instrumento: e porque para fazer a Musica o seu devido effeito, he preciso que o Instrumento seja, além de bem fabricado, bem affinado: attendendo-se bem ao que neste §. exponho, poderá qualquer sugeito comprar alguma Guitarra, que se lhe offereça, que estou certo naõ errará, mas antes tirará della o perciso effeito, qual he o deleitar-se com a suave harmonia dos seus regulares sons[60].

§. III.

Da Perfeiçaõ da Guitarra.

A Guitarra naõ se póde considerar, nem pôr no numero dos instrumentos imperfeitos; porque se me disserem que o he, bem facilmente lhe poderei provar, que naõ ha algum perfeito; porque v. g. a Rabeca do Bordaõ para baixo, já soffre sua imperfeiçaõ, pois naõ tem os pontos que tem o Rabecaõ, nem o Rabecaõ os pontos da Rabeca: se me disserem, que nem tudo se póde tocar na Guitarra, tambem direi, que nem tudo se póde tocar na Rabeca, senaõ só as Peças positivamente feitas, segundo a ordem da sua Escála; e em vantagem da Guitarra, digo, que quem souber bem as Regras do Accompanhamento, e dos Transportes da mesma Guitarra, facilmente poderá accompanhar qualquer Peça de Musica, naõ tendo o Basso passos de obrigaçaõ, nem muitas Notas cambiadas, e isto muito principalmente em Modinhas a duo, ou a solo, o que naõ se poderá facilmente fazer na Rabeca, ou outro qualquer instrumento d'arco.

§. IV.

Advertencia ao Curioso.

Depois que o Curioso tiver aprendido a Arte de Musica, e estiver bem instruido no Mechanismo della, muito principalmente no conhecimento da Clave de G, nos Signos que competem pela dita Clave ás Linhas, e Espaços; nos Tempos, e nas Figuras, que em cada hum delles entraõ no Compaço, e ultimamente em todos os demais caracteres, de que a Musica se orna; advertirá com toda a individuaçaõ nas Regras, que vou expôr, as quaes por breves, e resumidas, já mais deixaráõ de lhe dar huma noçaõ clara, e distincta do que pertence á especulaçaõ deste Instrumento.

§. V.

Das Cordas.

A Guitarra consta de seis Cordas, que saõ: Primas, Segundas, Terceiras, Quartas, Quinta, e Sexta. Destas, quatro saõ dobradas, e duas, singélas. As dobradas saõ as quatro primeiras, que vem a ser: as Primas, Segundas, Terceiras, e Quartas; e as singélas saõ as duas ultimas, que saõ: a Quinta, e a Sexta[61].

§. VI.

Do Numero das Cordas.

As Primas[62], devem ser de Carrinho n.o 8.o, e naõ n.o 7.o, como muitos querem, sem attenderem á proporçaõ da Corda.

As Segundas, devem ser de Carrinho n.o 6.o

As Terceiras, devem ser de Carrinho n.o 4.o[63].

As Quartas, seraõ dous Bordoens cobertos, chamados vulgarmente Bordoens de G-sol-re-ut.

A Quinta, será hum Bordaõ de E-la-mi; e a Sexta, outro de C-sol-fa-ut.

§. VII.

Do modo como se devem pôr as Cordas.

Eleito o competente Carrinho, se tirará delle a Corda necessaria, de sorte que fique pouco mais acima do comprimento da Guitarra, porém que venha sem defeito, ou signal algum de quebradura; e depois se dobrará quasi junto ás pontas, fazendo-lhe hum pequeno circulo em cada huma dellas para se prender, tanto no botaõ do pé, como no ferrinho, ou lingueta da sua competente tarracha[64]; e logo que estiver feito o dito circulo, se cingirá a Corda com os bocados dos seus extremos, de sorte, que fiquem muito colligados, e unidos, para assim naõ darem de si, nem tambem desandarem; e depois disto feito, se meterá nos seus competentes lugares,[65] e entaõ se affinará do modo, que relato no §. XII.

§. VIII.

Do Modo como se devem ferir as Cordas.

As Cordas da Guitarra, a que chamaõ Corpo sonoro[66], para causarem o seu preciso effeito, devem-se ferir com a polpa dos dedos, e tambem com as pontas das unhas: isto se entende, naõ se tocando piano, que a tocar-se, será unicamente com a polpa dos dedos, e nunca com as unhas, por fazer mais grato, e brando o som que das mesmas exigimos.

§. IX.

Do Som solto.

Como a vibraçaõ de cada huma Corda da Guitarra, dura em quanto ella treme, quando se quizer supitar o seu competente som, se porá immediatamente o dedo, que a serio, em cima, que desta sorte se dará o Som solto[67], e cessará por tanto a vibraçaõ[68].

§. X.

Dos Signos, que competem a cada huma das Cordas.

Os Signos, que competem ás ditas Cordas, começando da parte dos Bordoens; saõ da maneira seguinte.

O Signo C, que se assigna no primeiro C abaixo da Clave, he o Signo que pertence á 6.a Corda, que he o Bordaõ mais grosso.

O Signo E, que se assigna no primeiro E abaixo da Clave, he o Signo que pertence á 5.a Corda, que he o outro Bordaõ acima.

O Signo G, que se assigna na segunda Linha, que he a posiçaõ certa da Clave, he o Signo que pertence ás 4.as Cordas, que saõ os dous Bordoens acima.

O Signo C, que se assigna no primeiro C acima da Clave, he o Signo que pertence ás 3.as Cordas, que saõ as duas Cordas n.o 4.o

O Signo E., que se assigna no primeiro E acima da Clave, he o Signo que pertence ás 2.as, que saõ as duas Cordas n.o 6.o

O Signo G., que se assigna no primeiro G acima da Clave, he o Signo que pertence ás 1.as, que saõ as duas Cordas n.o 8.o, como tudo se póde vér no seguinte

EXEMPLO.

§. XI.

Das doze Divisoens d'arame, a que chamaõ Trastes, as quaes dividem todos os meios pontos, que se achaõ no braço da Guitarra; e da Numeraçaõ de todos os Signos, assim naturaes, como accidentáes, que competem a cada huma das Cordas deste Instrumento.

Quem divide todos os meios pontos, que vaõ do C. da 6.a Corda, ou Bordaõ; até o G. Oitava acima do G. das Primas, saõ os Trastes, que saõ as doze Divisoens d'arame, que atravessaõ o braço da Guitarra; e por tanto, carregando-se com firmeza com a polpa de hum competente dedo, no meio[69] de cada huma das mesmas Divisoens, se attenderá, a que do meio de huma para o de outra immediata, ha sempre o augmento de meio ponto; isto se entende, vindo da parte das cravelhas para o cavallete; e pelo contrario haverá diminuiçaõ de meio ponto, vindo da parte do cavallête para as cravelhas; e porque cada huma Corda, dentro do ambito das referidas Divisoens, naõ encerra mais que a distancia de huma Oitava, a qual se fórma apreciavelmente com as mesmas Divisoens, que commummente naõ passaõ de doze; por tanto deve-se saber, que como a Corda solta he C natural, como já se disse, o qual se assigna na primeira Linha accidental, que fica abaixo da primeira natural; carregando-se bem no meio da primeira Divisaõ d'arame será C♯, ou D♭: carregando-se acima[70], será D natural; mais acima, D♯, ou E♭; mais acima, E natural, ou F♭; mais acima, E♯, ou F natural; mais acima, F♯, ou G♭; mais acima G natural; mais acima, G♯, ou A♭; mais acima A natural; mais acima A♯, ou B♭; mais acima, B natural, ou C♭; mais acima, B♯, ou C natural.

Como a 5.a Corda solta he E natural, o qual se assigna na primeira Linha; carregando-se com firmeza no meio da primeira Divisaõ d'arame, será E♯, ou F natural; carregando-se acima, será F♯, ou G♭; mais acima, G natural; mais acima G♯, ou A♭; mais acima, A natural; mais acima A♯, ou B♭; mais acima, B natural, ou C♭; mais acima, B♯, ou C natural; mais acima, C♯, ou D♭; mais acima, D natural; mais acima, D♯, ou E♭; mais acima, E natural, ou F♭.

Como a 4.a Corda solta he G natural, o qual se assigna na segunda Linha; carregando-se com firmeza no meio da primeira Divisaõ d'arame, será G♯, ou A♭; carregando-se acima, será A natural; mais acima, será A♯, ou B♭; mais acima, será B natural, ou C♭; mais acima, B♯, ou C natural; mais acima, C♯, ou D♭; mais acima, D natural; mais acima, D♯, ou E♭; mais acima, E natural, ou F♭; mais acima, E♯, ou F natural; mais acima, F♯, ou G♭; mais acima finalmente, será G natural; e porque as outras tres Cordas saõ affinadas em Oitavas destas que deixo designadas; por tanto, a mesma Divisaõ, e Signos que competem á 6.a Corda, seráõ os mesmos que competiráõ á 3.a; os da 5.a, os mesmos que competiráõ á 2.a; e os da 4.a, os mesmos que competiráõ ás Primas; com a differença, de que os consideraremos Oitava acima: e para mais facilitar aos Principiantes neste conhecimento, tracei a seguinte Estampa, na qual poderáõ vêr com toda a individuaçaõ, quanto neste §. deixo referido, a saber: naõ só os Signos que saõ Sustenidos, vindo da parte das cravelhas para a do cavallête, como pelo contrario os Signos b-molados, vindo da parte do cavallête para as cravelhas; circunstancia esta, que he muito necessaria, naõ só para o perfeito conhecimento dos Transportes, como juntamente para bem decifrar tudo o que pertence ao Mechanismo deste Instrumento.

Advirta-se que todos os signos que levaõ este signal ♮, saõ naturaes.

§. XII.

Da Affinaçaõ.

Retezado naturalmente o Bordaõ de C., e considerado na sua propria consistencia, isto he, que nem esteja demaziadamente retezado, nem lasso, para se affinar a 5.a Corda, ou Bordaõ, que he E., procure-se este Signo na 6.a Corda, no meio da 3.a, e 4.a Divisaõ, e ferindo-se com a maõ direita esta 6.a Corda, logo que sentirmos o seu som, uniremos o som da 5.a com o que der a referida 6.a, e logo que estiver affinada, se pasará a 4.a.

Para se affinar a 4.a Corda, que he G, procure-se este Signo na 5.a Corda, no meio da 2.a, e 3.a Divisaõ, e ferindo-se com a maõ direita esta 5.a Corda, logo que sentirmos o seu som, uniremos o som da 4.a com o que der a referida 5.a, e se passará á 3.a, 2.a e 1.a, que se affinaráõ, ou procurando os Signos, que lhes competem nas Cordas antecedentes, ou affinando-as em Oitavas das tres primeiras, o que tudo vem a ser o mesmo, e facilmente se poderá colligir pela experiencia, e pelos seguintes[71]

EXEMPLOS.

§. XIII.

Da Posiçaõ, e Numeros dos dedos.

Posta a Guitarra, naõ muito junta ao peito, com o braço para a parte esquerda, algum tanto levantado para o ar, e o bojo, ou cabaço, que fica na parte direita, mais baixo, quero dizer, sustida desta sorte a Guitarra no pulso da maõ direita, e no meio da chave da maõ esquerda, se observará, que os dedos que lhe competem, se numeraõ, e haõ de entender deste modo: como o dedo polex, chamado vulgarmente polegar, naõ faz figura na maõ esquerda, por estar fóra da posiçaõ de ferir as Cordas, por isso se deve entender, que o primeiro dedo da maõ esquerda, he o que fica logo acima do polegar, chamado index; e pela sua ordem os outros, sendo o minimo, chamado vulgarmente mendinho, o 4.o, ou ultimo. Na maõ direita porém, os dedos que competem, e devem ferir as Cordas, saõ os tres primeiros, que vem a ser o polegar, o 2.o, e 3.o; e os demais só em casos extraordinarios se usará delles.

§. XIV.

Da Pestana postiça, que se atarracha nos boracos da Guitarra, para augmentar o Tom.

Quando se quizer tocar algum Minuete, Marcha, ou outra qualquer Peça, por algum Tom mais alto, que o Tom natural de C, por evitar o fazer Pestana com o dedo index, póde usar-se da Pestana postiça, a qual he huma travessa pequena de marfim, ou d'osso, correspondente á largura do braço da Guitarra, que por baixo traz hum bocado de camurça, ou pelica collada, com que cobre o seu extremo inferior, que assenta sobre as Cordas, e que tem hum boraco no meio, pelo qual se mete hum perafuso, que atravessando naõ só a referida Pestana, como tambem o braço da Guitarra, que para isto mesmo tem pelo braço acima quatro boracos; em cada hum destes, atarrachada que seja a dita Pestana, se poderá formar o Tom que se pertender, os quaes saõ do modo, que relato no §. seguinte[72].

§. XV.

Dos Tons accidentaes, que se fórmaõ com a Pestana postiça.

Como os boracos, que as Guitarras ordinariamente trazem, naõ passaõ de quatro posta a travessa, que serve de Pestana, bem atarrachada no primeiro boraco, formará o Tom de D, com 3.a Maior: no segundo, formará o Tom de D♯♯, (que raras vezes se encontra) com 3.a Maior; ou o Tom E♭, chamado vulgarmente d'E-la-fa, com 3.a Maior: no terceiro, formará o Tom de E, chamado vulgarmente d'E-la-mi, com 3.a Maior: e finalmente no quarto, formará o Tom de F, com 3.a Maior[73].

§. XVI.

Da Ordem dos dedos, que devem carregar as Cordas, e Notas dos Tons accidentaes, estando o index servindo de Pestana.

Como os dedos da maõ esquerda saõ, e se devem considerar, como cavallêtes moveis, por meio dos quaes sentimos os differentes sons de qualquer Peça, deve-se por tanto saber, que os dedos que competem ás differentes Notas de cada Tom, na distancia de hum Diapasaõ, segundo a ordem da sua Escála Diatonica, estando o dedo index servindo de Pestana, se entenderáõ do modo seguinte.

A 1.a Nota do Tom, diz-se nas 3.as Cordas soltas.

A 2.a Nota, diz-se nas mesmas Cordas, carregando-se com o dedo immediato ao mendinho no meio que fica entre a 1.a, e 2.a Divisaõ[74].

A 3.a Nota, diz-se nas 3.as Cordas soltas.

A 4.a, diz-se nas mesmas Cordas, carregando-se com o dedo grande no meio que fica entre o dedo que fórma a Pestana, e a 1.a Divisaõ.

A 5.a, diz-se nas Primas soltas.

A 6.a, diz-se nas mesmas Cordas, carregando-se com o dedo immediato ao mendinho no meio que fica entre a 1.a, e 2.a Divisaõ.

A 7.a, diz-se nas mesmas Cordas, carregando-se com o dedo mendinho no meio que fica entre a 3.a, e 4.a Divisaõ.

A 8.a finalmente, diz-se tambem nas mesmas Cordas, carregando-se com o mesmo mendinho no meio que fica entre a 4.a, e 5.a Divisaõ, como na pratica melhor se poderá entender[75].

§. XVII.

Da Posiçaõ dos dedos na Guitarra com Teclas.

Como algumas Guitarras trazem por esquipaçaõ, hum pequeno Teclado com seis Teclas, no fim, ou na parte inferior do bojo da mesma Guitarra[76]; deve-se advertir, que a posiçaõ dos dedos da maõ esquerda he a mesma, como se naõ tivesse Teclas; porém a da maõ direita he differente, pois se póde tocar com todos os dedos; e muitas vezes com hum só dedo se póde tocar em duas Teclas.

§. XVIII.

Dos Transportes.

Chama-se Transporte, á elevaçaõ que se faz do Tom natural de C, para outro accidental, em que para o formar nos servimos de huma Pestana postiça, ou do dedo index, que atravessado com firmeza, bem no meio de duas Divisoens d'arame, suppre pela mesma Pestana.

Na Guitarra pódem haver tantos Transportes, quantos saõ os meios que ficaõ entre as Divisoens, que circulaõ o ponto do braço da mesma Guitarra; porque assim como no meio de cada duas Divisoens, ou com a Pestana atarrachada, ou com o supplemento do dedo index, se póde formar hum Tom accidental, como já se disse no §. XVI.; da mesma sorte tantos pódem ser os seus Transportes[77].

§. XIX.

Do modo como se deve formar a Pestana com o dedo index, para dedilhar.

Como as Cordas deste instrumento saõ affinadas em 3.a, deve-se advertir, que como em qualquer parte que se atravesse o dedo index, servindo de Pestana, se fórma hum Tom de 3.a Maior, com tudo, como a largura do braço da Guitarra he grande, e muitas vezes o dedo da Pestana, por enfraquecer, naõ póde bem abranger a sua extensaõ; e além disto, porque as Cordas d'arame serem mais os dedos, do que as de tripa, por esta causa, para dedilhar em qualquer dos Tons accidentaes, bastará atravessar o dedo index da Pestana nas tres primeiras Cordas agudas, ou nas tres ultimas, sendo a Musica grave, como tudo melhor se observará nas seis Sonatas, que compûz.

§. XX.

Do modo como se devem tocar algumas Posturas chêas de vozes.

Quando algumas vezes se quizer tocar com a maõ aberta, em algumas Posturas chêas de vozes, nunca será fincando primeiramente as costas das unhas, mas sim correr-se-haõ rapidamente todas com a polpa do segundo dedo da maõ direita, dando a pancada sempre debaixo para cima, isto he, das Primas para as outras Cordas; porém quando se quizer fazer maior estrépito, ou restulhada, poder-se-ha fazer com as costas das unhas dos quatro dedos, sem o polegar, dando a pancada de cima para baixo, isto he, dos Bordoens para as demais Cordas.

§. XXI.

Do modo como se devem tocar as Figuras que tiverem duas, tres, e mais cabeças pegadas em differentes distancias, ou duas caudas.

Quando duas, tres, ou mais cabeças das Notas, ou Figuras, estaõ perpendicularmente unidas em diversas distancias, devem-se ferir, ou tocar todas juntas, com dous, ou tres dedos, que de ordinario devem ser o primeiro, segundo, e terceiro. Quando porém, alguma Figura tiver duas caudas, huma para a parte superior, e outra para a inferior, he para se dar dobrada em duas differentes Cordas, como v. g. o Signo G. do Espaço acima da 5.a Linha, se tivesse duas caudas, era para se dar tambem o mesmo Signo na 2.a Corda E.

§. XXII.

Do Estylo, e de quando se deve usar de Apojos de Capricho.

Para se tocar qualquer Peça com flexibilidade, bom modo, e gosto; e finalmente com huma viva, e tocante expressaõ, a que chamaõ Estyllo; se attenderá muito aos Apojos de Capricho, que o mais das vezes, e quasi sempre se devem suppor, e entender, ainda que naõ venhaõ expressos; porque a Musica sendo (se possivel for) toda Apojada, nunca já mais será defeituosa, o que pelo contrario succederá, usando-se de outros quaesquer signaes, como por exemplo, muitos Trinos, Portamentos, e outros deste genero, sem que positivamente venhaõ expressos no papel; e para isto se fazer com a precisa regularidade, se observaráõ as seguintes Regras.

REGRA I.

Todas as vezes, que do ponto, ou Signo de huma Corda solta se passar para o ponto, ou Signo da Nota superior, por exemplo: do G das Primas para A; ou do E das Segundas para F; deve-se ferir antes a Corda solta com a maõ direita, e logo sem demora cobrir com o dedo, ou dedos da maõ esquerda o ponto, ou pontos, que vierem notados no papel; e esta mesma Regra se observará tambem pelo contrario, descendo da Corda carregada para a solta.

REGRA II.

Vindo escritas no papel tres Figuras, que desçaõ gradatim com 3-Que-altera expressos, ou sub-entendidos; ou ainda mesmo huma Colchêa com duas Semi-Colchêas pegadas, e consecutivas, sempre antes da primeira Figura se poderá dar hum Apojo, que será sempre o Signo superior em distancia de hum, ou meio ponto, segundo o pedir a formaçaõ, ou composiçaõ do Tom por onde se toca: e vindo seis Figuras com 6-Que-altera, o referido Apojo se poderá dar antes das tres Figuras ultimas.

REGRA III.

Quando o Andamento da Musica naõ for muito apressado, e as Figuras descerem gradatim, póde-se dar em cada huma dellas hum Apojo, que será sempre a Nota superior.

REGRA IV.

Se duas, tres, quatro, ou mais Figuras estiverem notadas em hum mesmo Signo, na ultima se poderá dar hum Apojo; porém se vier alguma ligada, se dará o dito Apojo na Figura, que vier depois da Ligadura.

REGRA V.

Finalmente toda a Figura, que vier escrita antes de qualquer Pausa, naõ vindo notada com este signal, que serve, como já se disse, para se dar solta, sempre antes della se poderá dar hum Apojo.

Estes preceitos sendo arbitrarios, naõ deixaõ de ser observados na praxe; porque como os Apojos, a que chamo de Capricho[78], servem de tanto ornamento á Musica; e porque com elles esta nunca já mais he desagradavel; segue-se, que huma vez que se tire do Instrumento hum bom som, que naõ seja suffocado, nem surdo; sendo assim, em qualquer Peça que se houver de tocar com estes signaes de expressaõ, estou certo, que se faráõ expectaveis naõ só dos Sabios, e inteligentes Professores, como inda mesmo dos que nada entendem de Musica.

§. XXIII.

Do modo como se devem dizer as Figuras Ligadas.

Quando o Principiante vir sobre duas, tres, quatro, ou mais Figuras, huma Linha curva, a que na Musica chamamos Ligadura, indica este signal, que a maõ direita deve ferir a Corda que pertence ao Signo da primeira Figura, e as demais devem dizer-se debaixo da mesma pancada; pondo os dedos da maõ esquerda nos Signos das Figuras que vierem Notadas.

§. XXIV.

Da Escála Diatonica.

Depois de instruido o Principiante nestes documentos, passará á seguinte Escála, que exponho, numerando por cima de cada Nota as Cordas soltas, que demonstro com hum s, e as que devem ser feridas, com o numero dos dedos que lhes competem.

§. XXV.

Dos trinta e dous Intervallos, que se achaõ na extençaõ do braço da Guitarra.

Contando successiva, e Diatonicamente os pontos, e meios pontos que a Guitarra encerra dentro dos seus limites, isto he, contando do C do primeiro Bordaõ, até o G, ultimo ponto das Primas, he certo que encerra trinta e duas distancias, ou Intervallos, como se póde vêr no seguinte

EXEMPLO.

§. XXVI.

Entoação primaria, em que se mostraõ numericamente os dedos, que competem aos Signos na distancia de duas Oitavas, contando do C da 6.a Corda até o C que fica acima das Primas.

Valor das Minimas com Vozes.

Valor das Seminimas.

Valor das Colchêas.

Valor das Semicolchêas.

Valor das Minimas, e Seminimas.

Valor das Seminimas, e Colchêas.

Valor do Ponto de augmentaçaõ.

FIM.


INDEX

DO QUE SE CONTEM NESTE VOLUME.


PARTE I

§. I. Da Musica. Pag. 9
§. II. Dos Signos. ibid.
§. III. Das Linhas, e Espaços. ibid.
§. IV. Das Claves. 10.
§. V. Do Conhecimento dos Signos. ibid.
§. VI. Dos Accidentes. 11.
§. VII. Da Ordem de assignar os Accidentes. ibid.
§. VIII. Dos Accidentes Originais, e Accidentaes. ibid.
§. IX. Dos Tempos. ibid.
§. X. Do Compaço. 12.
§. XI. Das Figuras. ibid.
§. XII. Do Valor das Figuras. 13.
§. XIII. Da Sincopa, ou Contra-tempo. ibid.
§. XIV. Da Derivaçaõ dos Tempos Numerarios. ibid.
§. XV. Da Numeraçaõ das tres primeiras Pausas nos Tempos Numerarios.   ibid.
§. XVI. Dos Andamentos. 14.
§. XVII. Dos Signaes Significativos. 15.
§. XVIII. Dos Signaes Expressivos. 16.
§. XIX. Do Tom. 17.
§. XX. Da Divisaõ do Tom. ibid.
§. XXI. Do Conhecimento do Tom. ibid.
§. XXII. Do Accompanhamento. 18.
§. XXIII. Do como se numéraõ os Intervallos, e Notas de cada Tom. 19.
§. XXIV. Da Differença das Especies. ibid.
§. XXV. Das Especies, com que se accompanhaõ as Notas de cada Tom. 20.
§. XXVI. Da Reducçaõ dos Acordes antecedentes nas posturas da Guitarra. 21.
§. XXVII. Da Analogia, e Transiçoens ordinarias dos Tons de 3.a Maior. ibid.
§. XXVIII.  Da Analogia, e Transiçoens ordinarias dos Tons de 3.a Menor. 23.

PARTE II

§. I. Da Invençaõ, e serventia da Guitarra. 25
§. II. De como deve sêr construida a Guitarra, e das qualidades que nella se  
  requerem para sêr bem affinada. 26.
§. III. Da Perfeiçaõ da Guitarra. 27.
§. IV. Advertencia ao Curioso. ibid.
§. V. Das Cordas. ibid.
§. VI. Do Numero das Cordas. ibid.
§. VII. Do Modo como se devem pôr as Cordas. 28.
§. VIII. Do Modo como se devem ferir as Cordas. ibid.
§. IX. Do Som solto. ibid.
§. X. Dos Signos, que competem a cada huma das Cordas. 29.
§. XI. Das Doze Divisoens d'arame, a que chamao Trastes, ibid.
   as quaes dividem todos os meios pontos, que se achaõ  
   no braço da Guitarra, e da Numeraçaõ de todos os Signos,  
   assim naturaes, como accidentaes, que competem a cada
   huma das Cordas deste Instrumento. ibid.
§. XII. Da Affinaçaõ. 31.
§. XIII. Da Posiçaõ, e Numeraçaõ dos dedos. ibid.
§. XIV. Da Pestana postiça, que se atarracha nos boracos da Guitarra para  
  augmentar o Tom. 32.
§. XV. Dos Tons accidentaes, que se fórmaõ com a Pestana postiça. ibid.
§. XVI. Da Ordem dos dedos, que devem carregar as Cordas, e Notas dos  
  Tons accidentaes, estando o index servindo de Pestana. 33.
§. XVII. Da Posiçaõ dos dedos na Guitarra com Teclas. ibid.
§. XVIII.  Dos Transportes. 34.
§. XIX. Do Modo como se deve formar a Pestana com o dedo index para dedilhar. ibid.
§. XX. Do Modo como se devem tocar algumas posturas cheias de vozes. ibid.
§. XXI. Do Modo como se devem tocar as Figuras, que tiverem duas, tres, e mais  
  cabeças pegadas em differentes distancias, ou duas caudas. 35.
§. XXII. Do Estylo e de quando se deve usar dos Apojos de Capricho. ibid.
§. XXIII. Do Modo como se devem dizer as Figuras ligadas. 36.
§. XXIV. Da Escála Diatonica. 37.
§. XXV. Dos Trinta e dous intervallos, que se achaõ na extensaõ do braço  
   da Guitarra. ibid.
§. XXVI. Entoaçaõ primaria, em que se mostraõ numericamente os dedos, que  
  competem aos Signos na distancia de duas Oitavas, contando do  
   C da 6.a Corda, até o C que fica acima das Primas. ibid.

Segue-se huma Collecçaõ de alguns Minuetes, Marchas,
Contradanças, etc. para uso, e desembaraço dos Principiantes.


FIM.


ERRATAS.

Na pagina 20., linhas 5., onde se lê: a Septima póde tambem ser Maior, Menor, e Superflua, deve-se lêr: a Septima póde tambem ser Maior, Menor, e Diminuta; e o que seja septima Diminuta, póde-se vêr na Nota 3 da mesma pagina.

Na mesma pagina, linhas 10., onde se lê: os exemplos, que ponho nestes Tons, deve-se lêr: os exemplos, que ponho neste Tom.

No Epigraphe da Collecçaõ dos Minuetes, Marchas, Contradanças, etc., aonde se lê: in somnes, deve-se lêr: insomnes.