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Felicidade pela Agricultura (Vol. I)

Chapter 15: VII Primeiro serão do casal
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About This Book

A collection of essays and utopian meditations urging the improvement of rural life through agricultural reform and popular education. The author blends lyrical rural imagery, philosophical reflection, and autobiographical notes to argue that cultivating land, enlightening minds, and refining moral sentiment will foster public felicity. Practical recommendations alternate with visionary proposals; criticisms of contemporary policies appear alongside appeals to virtue and civic responsibility. The prose shifts between poetic exuberance and sober argument, using countryside metaphors to illustrate social aims and to propose gradual, humane paths to communal progress.

VII
Primeiro serão do casal

Propriedade territorial

SUMMARIO

Vantagens do escrever.—Vantagens do ler.—O autor não pode por ora dizer o que tratará n’estes seus serões d’aqui avante, mas tenciona il-os empregando na sua ideia querida da felicitação da Patria pela Agricultura; para o que, vai proseguindo nas suas utopias.—A propriedade territorial não é um direito natural, mas é um dos direitos da sociedade permanente.—No direito de possuir terra não se contem o poder deixar de cultival-a.—Apontamentos para uma Lei importantissima a este respeito.—A theoria pode-se estender dos predios rusticos aos urbanos.

¡Que bella coisa, meus amigos camponezes, não é o escrever e o ler!

Uma folha de papel, que a principio não foi mais que umas hervinhas verdes, depois umas febras seccas e pardas, nos dias da sua maior gloria talvez uma camisa, e a final um trapo despresado e esquecido; uma folha de papel póde ser uma origem de delicias e venturas.

Por meio d’ella, um homem desconhecido, e fechado no seu cantinho, logo que Deus lhe lança na alma um reflexo passageiro da Verdade e do Summo Bem, prende esse raio de luz celeste, liberalisa-o para toda a parte, solidifica-o, bem como de um gaz, que se não vê nem palpa, se faz no fundo das minas um diamante; lança-o assim para o thesoiro commum dos conhecimentos humanos; e, quando ninguem mais lh’o diz, diz-lhe baixinho a sua consciencia:

«¡Oh! ¡Bem hajas, que déste a esmola da alma á alma! ¡Bem hajas, que as horas que podéras gastar no ocio, ou em gosos futeis, em dissipar ou em adquirir haveres, ou em me envenenar a mim, que sou a tua boa consciencia, empregaste-as em proveito dos teus semelhantes! ¡Bem hajas! ¡e bem haverás por certo! Os teus exforços não serão perdidos, nem para o Céo nem para a terra. Lá em cima, o Liberalisador de toda a verdade te coroará; e já, cá no mundo, uma especie de immortalidade e de omnipresença será a tua partilha. Sobreviver-te-has em parte a ti mesmo. O teu nome e os teus pensamentos estarão ao mesmo tempo em muitos logares, graças a esta folha de papel; e os annos, que hão-de destruir o teu corpo, deixarão a tua honrada memoria a crescer para os seculos.»

Mas, se tal é a boa sorte do escritor de veras; se os seus deleites lhe descontam o trabalho e penas que o acompanham; se da sua miseria elle se consola com a lisonjeira certeza de afortunar aos outros; se no silencio do seu albergue desguarnecido ouve já a sua futura fama, e na sua enxerga de palha riem sonhos, que nunca visitaram os colxões de plumas de soberbões inuteis; a mesma folha de papel, que, a baixo de Deus e do estudo, o tornou venturoso, multiplicada pela Imprensa vai fazer por elle muitos outros venturosos.


¡A leitura, meus amigos! ¿Sabeis vós bem o que é a leitura?! É de todas as artes a que menos custa, e a que mais rende.

Ha livros, que, semelhantes a barquinhas milagrosas, incorruptiveis e innaufragaveis, nos levam, pelo Oceano das edades, a descobrir, visitar, e conhecer todo o Mundo que lá vai....

Os povos antigos revivem para nós com todos os seus usos, costumes, trajos, feições, crenças, ideias, vicios, virtudes, interesses, e relações.

A Historia é a mestra da vida, e as suas lições ampliação e complemento ao nosso juizo natural. No que foi, aprendemos o que deve ser. ¡Dizem que mente ás vezes! tambem na seára ha joio, e nem por isso deixais vós de ceifar com alegria. Mas, apesar das suas mentiras, fica ainda sendo a Historia uma das mais verdadeiras coisas do mundo.

Os contemporaneos de cada um dos homens notaveis, heroes ou monstros, dos tempos antigos, talvez os não vissem tão ao natural como nós cá de longe. ¿Porquê? por isso mesmo que eram vivos; cercavam-n-os um estrondo confuso, e vozes contradictorias, que para nós emmudeceram. O amor e o odio, o terror e o enthusiasmo, tingiam nas suas cores os feitos e os ditos: o espectador, muito de perto, e distrahido com os seus proprios negocios, não podia abranger a totalidade de uma scena ás vezes immensa e complicada. Não é nem ao-pé em demasia, nem em demasia longe, que os objectos se julgam com exacção.


Mas não é só a Historia, meus amigos, que nos encanta instruindo-nos. Desde a Mathematica, que péza e mede os astros, até ao officio mais humilde, não ha sciencia, arte, nem mistér, que os livros nos não ensinem divirtindo-nos.

Vós, se lêdes ao serão, cultivais melhor e mais lucrativamente no dia seguinte; sabeis conservar melhor os vossos frutos administrar com mais interesse os vossos haveres. Outro tanto acontece aos vossos visinhos, ferreiro, carpinteiro, surrador, tintureiro, tecelão, etc.

A povoação onde se sabe ler, e se lê, floresce mais, é mais pacifica e morigerada, mais unida e rica, mais poderosa, mais contente, mais amavel, e mais amada.

Porque haveis de saber, meus amigos, que tudo quanto os homens teem descoberto e inventado para augmentar as suas forças, os seus cabedaes, a sua saude, as suas virtudes, as suas relações de amor, e o numero das horas suaves e alegres, tudo, de muitos seculos para cá, se tem ido guardando nos livros. É um patrimonio de sciencia e bondade, que vai sempre a crescer de paes a filhos, onde cada um pode tomar ás mãos cheias o que lhe convém, e para onde a cada um é licito, e até mesmo é dever muito agradavel, levar o pouco ou muito que o seu juizo lhe subministra. É um commercio mutuo de todos os tempos e de todas as almas, do qual ninguem sai lesado, e no qual mesmo dando se recebe.

Quanto a mim, meus bons visinhos, estou muito satisfeito com a minha tarefa litteraria. Outros, mais capazes de vos instruir na Agricultura, teem a bondade de tomar a si esse encargo, para o qual eu mesmo vos confessei já que me não sinto habilitado. Á minha conta está procurar desenfadar-vos algum serão do domingo. ¿Que quereis? quem nasceu para pouco... Um poeta é como um d’estes passarinhos, que Deus creou para recreação do lavrador na força dos seus trabalhos.


Se eu ao menos podesse dizer-vos desde já o em que havemos de entreter-nos.... mas ¡adivinhae-o lá! ¿O passarinho, um minuto antes de abrir o bico, sabe por ventura o que vai gorgear? é a verdura, é a viração, é o sol ou a estrella do momento, que o inspira; a sua hypocrene é muitas vezes a ultima gotta de orvalho, que bebeu no calix de uma flor por onde passou.

Mas, assim como nos cantares do plumoso poeta dos bosques ha sempre o que quer que seja de bom e affectuoso conselho, de revelação do Céo, com o qual elle parece tratar mais de perto do que nós; assim o meu espirito, que mora todo cá dentro no coração, e por elle vale alguma coisa, só praticará comvosco, segundo espero em Deus, em algum dos seus sonhos de felicitação para o genero humano.

Porque haveis de notar, boa gente, que, se o que está feito é muito, muito mais é ainda o que está para fazer. Cada geração adianta um passo; os netos sabem mais que os avós; cada anno floreja ideias, que os seguintes convertem em frutos, e outros, além, amadurecem e colhem. Nos ares andam sempre ideias de todas as edades (sem falar nas que vão cahindo mortas); umas decrépitas; outras recemnascidas, que ainda se não atrevem a voar; outras adultas e robustas; e nenhuma das que se chegam a transformar em obras, deixou de ser na origem muito extranhada, e muito havida por impossivel ou perigosa, e de padecer perseguição da parte de nescios e ruins.

Ora eu, que (Deus louvado) de ruins me não temo, e a escutar nescios me não detenho, parece-me que não poderia, por em quanto, empregar melhor a minha folha de papel, e o vosso serão no casal, do que em vos relatar os meus sonhos ou devaneios solitarios sobre a salvação da Patria pela Agricultura; axioma este já hoje comprehendido por todos os que a Natureza não condemnou a viver e morrer sem comprehenderem nunca nada.

E como é possivel que d’entre vós outros algum, ou muitos, vão um dia deputados áquelle bemdito Parlamento de lavradores, de que eu ha dois mezes vos falava, consentir-me-heis que, ao lume da vossa lareira, exponha aos vossos juizos, naturaes e não pervertidos, mais alguns alvitres para então.

¿Quem nos pode prohibir governarmos o mundo em sêcco o nosso poucochinho? Não só toda a gente o faz, e quasi que se não faz outra coisa, se não que a maior e talvez melhor parte das Leis, primeiro que fosse promulgada por legisladores, tinha sido inventada por homemzinhos obscuros como nós, e d’elles passada á consciencia geral.


Se alguns chamarem politica e ruindade a este uso que nós fizermos do pouco ou muito entendimento, que Deus nos deu para amarmos os nossos semelhantes, não vos haveis de agastar, nem eu tornar-lhes resposta; que, por mais que thesoirem, não nos descozem o saio,—como lá diziam os nossos velhos.

¿Vêdes vós? acostumaram-se áquillo de ver em tudo politica, e de chamarem politica a tudo; e depois, teem um medo, que se finam, até das verdades velhas, ¡quanto mais das novas! Lá se entendem; e assim é bom, para se não irem d’este mundo totalmente desentendidos.

Não, meus amigos, politica, no sentido estreito que elles dão a esta palavra, politica do soalheiro e do mexerico, de acreditar a Pedro e desacreditar a Paulo, de velhacar Leis e receitar venenos, d’essa não fazemos nós, que nos regala andar com o nosso rosto descoberto, e dormir as nossas noites de um somno e com as portas e janellas abertas em não fazendo frio.

Agora: se ás questões de philosophia social, que elles nunca leram, ou, se leram, não entenderam, ou que, se as entenderam, lhes não cahiram a elles em graça; se ao exame dos fundamentos da felicidade publica, sem referencia a tempos nem a pessoas, chamam politica, essa temol-a feito, e (por mais que lhes pése) havemos de fazel-a sempre, que não somos nenhuns Esaús da Liberdade, que vendessemos o nosso morgado, como por si dizia outro poeta chamado Lamartine, respondendo a um satyrico damnado da sua terra.


Mas.... para nos não parecermos com aquelle parvo do conto, que sabeis, que em logar de adiantar caminho, para chegar á feira a horas e negociar, se deteve todo o dia com o carapuço na mão diante de um pilriteiro, pedindo á sombra movediça licença para passar, eis aqui já, meus futuros Legisladores, um objecto, que assás me parece digno da vossa consideração.

A propriedade sobre o terreno, claro está não ser um direito natural; mas nem por isso podemos dizer que não seja direito, e muito respeitavel. Sem elle não existiria Agricultura. Sem Agricultura, não existiria sociedade fixa e civilisada.

Com a sociedade nasceu pois, assim como outros muitos direitos; confirmou-se com a posse; identificou-se com as ideias e consciencias, como com os interesses, e ficou sendo, por que assim o digamos, um direito natural relativo, e secundario. A philosophia, tanto como as Leis e a força, o deve proteger. Não é quanto a elle que vos lembro reformações, mas só quanto ao modo de regular o seu uso.


Adquiri eu uma terra por qualquer titulo legal; é minha, não ha duvida. Posso arrendal-a, posso doal-a, vendel-a, emprestal-a, edificar n’ella, cultival-a a meu sabor, etc. É corrente.

¿Mas posso eu por ventura, por ser minha, deixal-a estar improductiva?

O senso commum, quanto a mim, responde instantaneamente que não.

¿E porquê?

Porque haveria n’isso lesão de terceiro, que é a sociedade, para cujo beneficio extra-natureza, se não contra a natureza primitiva, se instituira e santificára este direito.

O avarento poderá ainda ter as suas preciosidades em inercia, e portanto perdidas; porque em realidade o oiro e a prata, posto que fecundantes, não são natural e essencialmente productivos. ¡Mas o torrão, que Deus fez para nos trazer, nos albergar, e nos alimentar! ¡o torrão, que por si reverdece todas as primaveras, que as nuvens e o sol andam regando e aquecendo todo o anno! ¡o torrão que é parte do solo patrio! ¡o torrão ficar dando ortigas e silvas, por indolencia de um homem estupido, quando á roda d’elle muitos braços carecem de trabalho, e muitas boccas pedem pão sem o obter!! Eis ahi o que, por mais velha que seja a posse, nunca jamais poderá chegar a ser bom direito.

Folgára de explanar comvosco este ponto, que é tão facil e abundante em considerações, quão momentoso para a felicidade commum; mas levar-nos hia longe.

Seria pois a Lei, que eu propozesse, substancialmente isto:

—O proprietario que passar um anno sem cultivar algum dos seus terrenos, pagará de multa tres vezes o valor do fruto que esse terreno, bem tratado, houvera podido produzir.

—O que o deixar dois annos de poisio perdel-o-ha, para ser dividido pelos pobresinhos da freguesia, ou do concelho, que não tiverem terra.

Meus amigos, se alguem lá por fora nos impugnar o alvitre, que é bom e santo, e que, adoptado, augmentaria de repente o trabalho, a riqueza dos particulares, e os recursos nacionaes; se alguem, digo, nol-o vier assoviar á porta e injuriar-nos sandiamente, pôl-o-hemos tão claro, que até esses o entendam; e ainda o accrescentaremos com algumas indicações sobre predios urbanos, que são tambem um dos usos, e podem ser um dos abusos, da terra.

Janeiro de 1849