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Felicidade pela Agricultura (Vol. I) cover

Felicidade pela Agricultura (Vol. I)

Chapter 21: I
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About This Book

A collection of essays and utopian meditations urging the improvement of rural life through agricultural reform and popular education. The author blends lyrical rural imagery, philosophical reflection, and autobiographical notes to argue that cultivating land, enlightening minds, and refining moral sentiment will foster public felicity. Practical recommendations alternate with visionary proposals; criticisms of contemporary policies appear alongside appeals to virtue and civic responsibility. The prose shifts between poetic exuberance and sober argument, using countryside metaphors to illustrate social aims and to propose gradual, humane paths to communal progress.

DIGRESSÃO

SOBRE A

Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel


ADVERTENCIA

Entre o precedente Serão do Casal e o seguinte, falta o do mez de Maio. O autor estava ausente.

A 21 de Fevereiro partira para Lisboa, deixando promptos os d’esse mez e dos dois immediatos, esperando regressar a tempo de não haver interrupção. Mas os negocios, que tão empenhado o levavam á Côrte, só o deixaram tornar a 24 de Maio.

Eram estes negocios a approvação dos Estatutos da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel pelo Governo, e a concessão de um pouco de terreno nacional n’esta Ilha, a cerca do extincto convento da Conceição, desaproveitada, e as ruinas da contigua egreja de S. José, para a Sociedade ali edificar á sua custa uma casa para as suas escolas, sessões, exposições, concertos musicos, representações scenicas, etc.; tudo objectos de publico e manifesto interesse.

Fez o autor em ambas estas diligencias tudo quanto era humanamente possivel; e, apezar da santidade e generosidade de taes requerimentos, da optima sombra que de toda a parte os cercou desde a primeira hora, das formaes e reiteradas promessas dos que mais podiam influir no despacho, o que só logrou trazer foram os Estatutos approvados (ainda assim com suas restricções desconfiadas, que uma tão desambiciosa Sociedade por ventura não merecia), e uma esperança, já então muito vaga, de se obter o terreno; o terreno, condição tão substancial para a existencia da Sociedade, como a existencia da Sociedade provadamente o é para o progresso e lustre das Artes, das Lettras, e da sociabilidade n’esta paragem.

N’este livro, repositorio de sãos desejos, propostas e ousadias civilisadoras, entendeu-se não seria mal cabida uma singela memoria de taes factos, pois quando se lhe pôz por titulo Felicidade pela Agricultura, na palavra agricultura se abrangeram implicitamente, como até agora se tem visto, e se continuará a ver até ao fim, todos os outros verdadeiros interesses inseparaveis d’ella, quer os consideremos activa, quer passivamente; e para os quaes, Deputados e Ministros amigos da terra não poderiam deixar de olhar com amor principalissimo.

A mesma razão, que o autor no Prologo deu, de haver colligido n’este volume alguns dos seus artigos impressos no Agricultor Michaelense, lhe fez força para aqui lhes intercalar os seguintes, que, por andarem dispersos em periodicos, já hoje estavam sendo como se não existissem.

O amor-proprio nada fez para o caso. O autor sabe o pouco valor de forma litteraria, que ha em tudo isto; mas crê, em sua consciencia, que deixa a seus filhos um bom exemplo, e a outros cidadãos zelosos indicações uteis. Finalmente: pela publicidade, que muitas vezes é mãe da opinião, como esta quasi sempre o vem a ser dos factos, figurou-se-lhe que poderia, perante o Parlamento e o Throno, dar assim um derradeiro impulso á pretensão pendente.

¡Di faciant!

Não quer o autor perder este lanço de agradecer, perante os contemporaneos e vindoiros, ás pessoas que mais sollicitas se teem havido em patrocinar o requerimento:

ao sr. D. Pedro da Costa de Sousa de Macedo, então dignissimo Governador Civil de Ponta-Delgada;

aos srs. Redactores do Açoriano, e do Correio d’esta mesma cidade;

ao da Revista Universal Lisbonense, e aos de outras folhas de Portugal, nomeadamente ao do Diario do Governo, o sr. Vilhena Barbosa;

ao sr. Mexia, benemerito Secretario da Camara electiva;

aos honrados Membros da Commissão de Fazenda da mesma Camara;

a um grande numero de Senhores Deputados e Dignos Pares;

ao mui distincto Presidente do Tribunal do Thesoiro;

ao sabio ex-Ministro da Fazenda, o sr. Franzini;

ao exemplar de Governadores Civis, o sr. José Silvestre Ribeiro, etc., etc., etc.

......não é premio vil ser conhecido
por um pregão do ninho seu paterno.

I

Carta ao Redactor da Revista Universal Lisbonense

Ill.ᵐᵒ collega e amicissimo snr. Ribeiro de Sá.

Lisboa 6 de Março de 1849.

Se a reconhecida modestia de V. S.ᵃ se oppozesse a que estas poucas linhas fossem incluidas na sua Revista, ficaria eu perante o Publico insanavelmente condemnado pelo mais vil de todos os ingratos; pois desde que V. S. se encarregou de tal redacção, com geral e manifesto proveito, até hoje ainda não perdeu a minima occasião de provar a sua extremada benevolencia, a sua devoção, o seu (¿ousarei dizel-o?) fanatismo de amisade para comigo.

Honrando me, como V. S. o tem feito, V. S. se tem sobretudo engrandecido a si mesmo. Exemplos de tão alta generosidade em tempos de egoismo tão profundo; linguagem tão do coração, quando a maledicencia se tornou moda, e se pavoneia como donaire; fidelidade assim para com a amisade velha, em terra onde as novas mesmo são apenas respeitadas; pagar todo o pouco louvor que se deve, ajuntando-lhe com alegria o que nunca chegará a ser merecido, mas que nem por isso deixará de produzir mui fecundos estimulos para o bem; e, para remate de singularidade, fazer tudo isto longamente, e com inalteravel constancia, a um homem desterrado pela fortuna para além-mar por anno e dia, que vale o mesmo que dizer, a um morto e enterrado sem cipreste nem epitaphio... eis aqui o que a V. S. o torna unico em merito, e unico a mim tambem em felicidade.

Forcejemos por nos conservar como Deus nos fez: corações sinceros e amantes, almas impermeaveis ás invejosas malevolencias, que tão boas coisas estragam por esse mundo.

O systema, que V. S. tem religiosamente seguido na nossa Revista, de exforçar e coroar todas as boas vontades, de animar e dirigir todos os principiantes, de restaurar brios a todos os desanimados, em summa de manter n’essa folha um honrado campo de exercicios, de emulações sem odio, e de premio para todos sem distincção, é quanto a mim o mais glorioso, o mais patriotico, e o mais eminentemente moral, de quantos systemas se podem adoptar em jornalismo. Para almas pequenas teria uma inconveniencia, que é a de semear ingratidões muito feias e ruins. Mas ¿onde estaria o merecimento do bem-fazer, se todos fossem agradecidos?

Como experimentado falo: o melhor travesseiro, onde uma cabeça, que já quer ir branquejando, se pode reclinar para bons somnos, melhores sonhos, e optimas vigilias, é o bem que se fez sem esperança de retribuição, e as amarguras passageiras, que maldosamente nos deram a tragar.

Continue pois V. S. no seu apostolado, baptisando, confirmando, e convertendo, principalmente a pobre gente moça e inexperiente, para a unica verdadeira religião terrestre, a illustração e a moralidade.

O que havia de empregar comigo, já muito conhecedor, e muitissimo desencantado, das vaidades litterarias, dê o exclusivamente á geração nova, que, atravez de tropeços e quedas, vai caminhando para muito grandes destinos. Quanto a mim, presente de já pouco futuro, e passado que a fortuna desfloriu e quebrou antes do fruto, cá me ficarei sentado na pedra immovel do angulo da estrada, seguindo, com os meus votos de muito amor, esse bando juvenil que marcha para o futuro, por entre o qual vai por ventura mais de um que me ama, e muitissimos a quem eu amo.

Dia virá, em que o actual Redactor da Revista, depois de os ter fielmente acompanhado e dirigido, se ha-de tambem, lá a diante, assentar como eu hoje, e seguil-os só com as saudades. É para então, meu bom amigo, que o esperam as recompensas interiores, as unicas de que ninguem nos pode defraudar. Solitario então, como eu hoje, V. S. conversará, mão por mão, e horas largas, com a sua consciencia; porque emfim, como diz um excellente Poeta, o bem que fazemos perfuma nos a alma; sempre d’elle nos lembramos o nosso poucochinho.

Entretanto, meu caro e honestissimo escriptor, nem então deixará o seu distincto entendimento de pagar, de algum modo, á Patria e á Humanidade o que todos lhes devemos. Do escripto, V. S. passará a obras mais positivas: do desejar e do aconselhar, ao emprehender e ao conseguir; pois que eu mesmo, sem ter ainda inteiramente despedido a Musa, a quem devi a pouca fama que me deram; sem ter renunciado o meu logar no banquete commum dos escriptores conterraneos, já me acho, de feito, e com todas as veras, empenhado n’estas menos brilhantes, mas não menos uteis, tarefas do nosso seculo.

Os meus poemas hoje são as escolas, os methodos melhorados de ensino, a instrucção e civilisação dos operarios, a esmola da doutrina ás pobres almas infantis; porque a doutrina é moeda sem a qual esses pobresinhos nunca chegariam, em tempo algum, a poder mercar felicidade para si, nem para as suas mulheres, nem para os seus filhos, se Deus lh’os der, nem para a sua Patria.

Mas... este campo em que entrava agora é vasto; deixemol-o para outro dia. Eu lhe contarei, para os seus leitores e nossos amigos, o que n’este sentido já tenho feito com admiravel fortuna; e o mais, e muito mais, a que se estendem os nossos projectos, que a Providencia, segundo espero, ha-de continuar a favorecer.

De V. S. etc.
A. F. de Castilho


II

Segunda carta ao mesmo

Meu estimavel Amigo

Lisboa, 8 de Março de 1849

Fiel ao promettido, relatarei summariamente, por não consumir espaço largo em tão util folha, o que tenho feito e projectado relativo á Instrucção na nossa formosa Ilha de S. Miguel.

É aquelle, meu bom Amigo, um torrão bemdito quanto a fertilidade vegetativa, e não menos pelo que respeita a bons engenhos e mãos industriosas; mas de tão ruim estrella, e tão desamparado da ventura, que, podendo ter de tudo copiosamente, de quasi tudo carece ainda.

Attribuem muitos este desconcerto ao clima, que dizem entibiar, por sua molleza, a energia do querer; outros, ao modo como a propriedade lá se acha repartida; outros teem para si que injustiça, desfavor e esquecimento da Mãe Patria é que produziram, e teem conservado, aquelle atrazo. Eu por mim não rejeito explicação alguma d’estas, e deploro que, logo sobre uma das mais ricas joias da Corôa portugueza, assim houvessem de cahir, para a marear, tres influxos tão maleficos.

Quanto ao clima, que, por quente e humido, quebranta as vontades, ao mesmo passo que pucha e encorpa todo o genero de plantas, é mal que não tem remedio.

A divisão da terra, e a organisação da propriedade, não nos pertence a nós reformal-as.

Resta o desamparo da pobre enjeitada e desterrada no meio do Oceano. A esse respeito ha certamente muito e muitissimo, que se pode, e que por mil rasões se deve, fazer.

Quando bem se adverte em que a Ilha de S. Miguel se alistou na vanguarda do Exercito libertador, que generosa offereceu haveres e sangue pelo Codigo e pela Filha de Dom Pedro, e se vê ao presente quasi toda (ou toda) opposição, é impossivel desconhecer uma força-maior, que operou tal metamorphose; porque estes Insulanos nem são maus, como alguns os pintam, nem turbulentos, nem loucos; mas teem, como todos, o instincto da vida, e o da justiça.

Defenda-me Deus de fazer ao Throno a injuria de suppôr, quanto mais de acreditar, como alguns por lá dizem no accesso da sua melancolia, que, de proposito e a acinte, o Governo os tem querido conservar sempre na ignorancia e abjecção, pondo-lhes de industria magistrados maléficos ou nullos, difficultando-lhes a instrucção, expremendo-os, torcendo-os, exhaurindo-os do seu oiro, e não lhes deixando d’elle com que fazerem nenhuma das faceis obras publicas de que mais carecem.

A verdade é, todavia, que, por mal informado sobre as necessidades d’aquella Provincia longinqua, e por lhe não chegarem cá os seus clamores, o Governo (posto que sem imputação) tem commettido, deixado subsistir e crescer, o mal, até o ponto de não faltar por lá, mesmo no Povo infimo e rudissimo, mesmo na classe mais alta, e nos mais distinctos entendimentos, quem sonhe com as perigosas utopias de uma independencia.

Não digo bem; houve essas utopias; hoje um Governador Civil ás direitas, como sempre lá e por toda a parte os devêra ter havido, fez ver áquelle bom Povo que a Soberana, por quem se votou, não é ingrata; elle lhe promove, até onde pode, as commodidades; lança-lhes balsamo nas feridas, que flagellos continuos lhes abriram; administra justiça prompta e inteira; concilia os despeitados; acompanha-os e precede-os pelo caminho franco do progresso illustrado; é o medico de todas as dôres, o procurador de todas as minguas para que não basta a sua autoridade. Graças aos seus exforços, todas as parcialidades vão a convergir para o grande centro; todas as forças conspiram já para a luz, para o trabalho, e para a civilisação.

A Revista é extranha á Politica; tambem eu o sou; mas isto não é Politica; pelo menos não o é do genero, especie, e variedade, d’aquellas com que nada queremos; é um paragrapho singelo de Historia, util por mais de uma via, e que em resultados praticos pode ser fecundo. Julguei dever aproveitar-me da occasião de confial-o a um papel sincero e acreditado, não só para exemplo e incentivo, mas tambem para galardão e desafronta, pois me consta que já linguas mexeriqueiras andam por ahi no seu costumado officio de desacreditar e empecer ao que não podem imitar.

O que nenhuma voz se atreveria a proferir hoje em S. Miguel contra o chefe administrativo, pois em logar de eccos só provocaria indignação ou risadas, vem, cobarde e maldosamente, espalhal o aqui, por saberem que entre as suas calumnias e a verdade está um fosso de 212 leguas de Oceano. Ora, como os córos de milhares de bençãos, de tão longe, devem aqui soar menos que as invejinhas presentes, que por todas as abertas se insinuam, e quanto mais despreziveis mais vão zumbindo, julguei dever de consciencia levantar por cima d’esse sussurro, pequeno, anonymo, e ingratissimo, um brado forte e independente. Quem affirma e sustentará que San Miguel não teve ainda cabeça administrativa mais zelosa, mais energica, mais intelligente, nem mais bemquista, nem mais promettedora em tudo e por tudo de uma era nova, que o sr. D. Pedro da Costa de Sousa de Macedo, quem o affirma e sustentará, é quem assigna, com todas as lettras de seu proprio nome, esta carta.

Qualquer dos invejosos ou inimigos d’aquella Ilha, que houver dito o contrario, que levante a luva e descubra o rosto. Com esta condição, achar-me-ha na estacada prompto a dar-lhe razão do dito.

Nem um, meu Amigo, nem um ha-de apparecer; afianço-lh’o eu; e se apparecer, tanto melhor; justiça e verdade não se acrisolam senão ao fogo[7].

A alguem parecerá que, para ser em materia incontroversa, e alheia, já tenho deixado correr o preambulo por fóra das medidas; mas não é assim, pois, por uma parte, a zizania que ás mãos cheias se espalha, e se rega convenientemente, ainda que de certo não será com chuvas de Danae, sempre a final damna o bom grão; e quanto a serem-me extranhos estes interesses, tambem o não são, porque defendendo o sr. Sousa de Macedo, não advogo simplesmente o interesse publico, não me limito em servir ao amigo como amigo, e, como escriptor, a um excellente engenho portuguez, se não que arrazôo pelo meu proprio credito. Sim, os nossos inimigos são communs; communs as accusações que nos fazem.

Segundo elles, quando escrevem e imprimem, ambos somos miguelistas; segundo elles, quando falam, ambos somos republicanos, communistas, sansimonistas, fourieristas, e não sei que mais. Segundo elles, por fora, ambos somos flagellos da Cólera Divina. ¿E porquê? porque, lá por dentro, bem sabem elles tão bem como nós mesmos, tão bem como toda a Ilha de S. Miguel, que, se temos ambição, é só de contribuirmos cada um com todos os seus meios, e com os que o outro lhe possa proporcionar, para a maior felicidade moral e physica do maior numero; para a educação e instrucção do Povo; para a prosperidade e esplendor da terra; para o restabelecimento da harmonia entre os visinhos, e entre os mais apartados dominios do mesmo Reino.

Os actos magnificos da sua, apenas encetada, carreira publica, o jornal verdadeiramente cartista de S. Miguel, A Verdade, os tem enthesoirado; o jornal mesmo da opposição n’aquella ilha os tem recebido com louvor; o Povo, com agradecimento; o Throno, com satisfação. Quanto a mim, homem obscuro, e quasi sem forças proprias além da boa-vontade, relevar-se-me-ha que n’um jornal, destinado a viver como livro, lance como um protesto contra calumniadores, a menção do pouco bem que desejei, e talvez consegui, fazer em terra portugueza. Não é por vangloria que me faço Homero da minha Iliada; é porque o curar do bom-nome é um dever religioso; e apresentar estimulos para que outros façam mais e melhor, um dever social; e o deixar exemplos de Patriotismo a filhos, um dever natural, o mais suave e o mais santo de todos os deveres.

Entre as lastimas, que em S. Miguel fui descobrir (bem contra o que de tal Ilha me haviam pintado), as que mais me doeram foram: a grande mingua de instrucção para o Povo, aliás aptissimo para toda a especie de boa doutrina; a carencia de estimulos, que de alguma sorte neutralisassem a perguiça natural; e a pouquissima, e quasi nenhuma, convivencia dos moradores.

A todos estes males me pareceu que poderia acudir uma Sociedade, se jámais se chegasse a organisar, que sinceramente posesse peito a crear escolas com bons methodos; a accender emulações entre artistas e artifices; e a pôr no possivel contacto as differentes classes.

Uma Sociedade de Agricultura, que já ali existia, prestantissima para o seu grande fim, era comtudo extranha a todos estes, que a mim se me representavam como de primeira necessidade e urgencia. Coadjuvando pois os empenhos d’essa Sociedade exemplar, como redactor que tive a honra de ser, do seu periodico, e com algumas propostas, que ella se dignou de me acolher benevola[8], comecei a tratar, ao mesmo tempo, com alguns poucos amigos, de instituir outra, e mais ampla, Sociedade de Lettras e Artes.

Nunca jamais a fortuna sorrira tão benigna a projectos meus. Crescemos de semana para semana, até ao ponto de em minha casa não cabermos, ser-nos forçoso irmos celebrar no theatro as nossas sessões, e passarmos hoje de quatro centos, incluindo-se n’esta conta o Prelado, o Vigario geral, o Governador Civil, o Militar, o commandante da força armada, o Administrador do Concelho, o Presidente da Camara Municipal, o Presidente e outros Juizes da Relação, o Juiz de Direito, o Delegado do Procurador Regio, em summa, tudo que a cidade de Ponta-Delgada possue de mais alto, de mais illustre, de mais instruido, e de mais patriotico, sem falar em muitas senhoras respeitabilissimas, que promptamente se fizeram inscrever para esta cruzada de civilisação.

A Sociedade acha-se pois por sua parte constituida, e os seus estatutos já subiram á Real Presença para obterem approvação. Os beneficios que ella tem produzido, sendo apenas recem-nascida, se não egualam, nem ás publicas necessidades, nem aos nossos desejos, são já todavia attendiveis, e promettedores de muito maiores.

A Exposição da Industria Michaelense, desde o dia de Natal do anno proximo passado até muito depois dos Reis, foi mais que um espectaculo imprevisto e maravilhoso: foi um fomento efficacissimo ao trabalho e natural habilidade dos habitantes. Quatro grandes salas continham apenas os productos, que ahi se apinharam, offerecidos á admiração de cerca de vinte mil visitadores, incluindo n’esse numero os repetentes. Em todos os generos appareceram primores, e muitos em desenho e pintura, em gravura, em escultura, em flores artificiaes, de seda, de lan, de cabello, de pennas, de cera, de conchas; bordados, obras de ourives, de galvanisador, de doirador, de ferreiro, de serralheiro, de cuteleiro, de carpinteiro, de marceneiro, entalhador e torneiro, de machinismo, de tecelagem, de fiação de linho, de algodão, e de seda; de encadernação, etc., etc., etc.

A Ilha mesma ficou admirada das riquezas industriaes, que possuia sem o saber. Accenderam-se-lhe novos brios com este documento irrefragavel de suas forças; e tudo nos faz esperar, que a seguinte exposição não cederá a esta em esplendor. O que n’este momento as Ilhas Canarias estão forcejando por conseguir, já existe pois nas dos Açores, graças ao poder da associação.

As escolas são outro bem, menos brilhante sim, porém ainda mais sólido que o precedente.

As que no gremio da Sociedade se acham já trabalhando, são:

tres de Leitura;
uma de Doutrina christan;
uma de Arithmetica;
uma de Geometria applicada ás Artes;
uma de Desenho de figura e paizagem;
uma de Poetica e Declamação;
uma de Hygiene;
uma de Francez, para senhoras;
uma de Inglez, para homens;
uma de Geographia;
uma de Encadernação.

AULAS ABERTAS, MAS AINDA Á ESPERA DE DISCIPULOS

uma de Agrimensura;
uma de Desenho topographico;
uma de Dança;
uma de Torno;
uma de Pyrotechnia.

AULAS EM PROJECTO

uma de Economia politica;
uma de Historia;
uma de Gymnastica;
uma de Natação;
uma de Calligraphia;
uma de Musica.

Das aulas em actividade, as que teem dado mais satisfatorios resultados são: as de Leitura, a de Arithmetica, a de Geometria, e a de Desenho de figura e paizagem, que, por ter sido de todas a primeira fundada, e a que abriu tão nobre exemplo, merece especial menção. É regida pelo Director do Lyceu Açoriano, o snr. Pedro de Alcantara Leite.

Em realidade, meu bom Amigo, ha já, n’aquelle nascente complexo de estudos uteis, alguma coisa que para o nosso mesmo Portugal poderia servir de exemplo. A ordem e a boa policia das classes; o canto religioso, com que os alumnos se preparam para o trabalho, invocando a Graça Divina[9]; o amor que manifestam aos seus generosos mestres, sem prejuiso do respeito e da attenção; o contentamento com que ás lições assistem; o fruto que tiram dos methodos simplices, racionaes, e aprasiveis, que ahi se empregam; tudo isto é já muito, e não é senão um começo; pois somos de hontem, se pode dizer.

O que os Amigos das Lettras e Artes, que já por ahi algum velhaco semsabor, por ter talvez ouvido falar de phalansterios, acoimou de phalansterianos, o que os Amigos das Lettras e Artes, digo, teem já concorrido para desenvolver o espirito de sociabilidade, nem os mais pirronicos o poderiam negar.

O oitavario de Santa Cecilia[10], por elles celebrado, com poesia e musica, no theatro de S. Sebastião; as tres noites de saráu artistico, no decurso da Exposição; as proprias sessões ordinarias; são documentos incontroversos d’esta verdade. Ahi se teem visto, e se vêem, reunidos, misturados, com a mais irreprehensivel decencia, com perfeita satisfação mutua, os artifices, os artistas, os nobres, e os litteratos; o morgado, e o operario que sua e véla para sustentar os filhos; os magistrados mais consideraveis, as damas das melhores familias, e o mechanico sem nome, mas não sem virtudes. ¡Feliz commercio, em que todos lucram! os pequenos, aprendendo, no trato das pessoas educadas, as maneiras faceis, elegantes, decentes, que lhes faltavam; os grandes, educando assim indirectamente o povo, com quem é forçoso viverem, e forrando-se por consequencia, para o futuro, o dissabor de muita grossaria.

Se d’estes phanlasterios se pode alguem queixar, não serão senão os apologistas da taberna, e certas outras casas não menos moraes e honestas.

O amor do trabalho tem recebido notavel impulso do complexo de tudo isto, e de outra causa ainda, que fará rir os nescios, mas que nenhum espirito dotado de philosophia deixará de entender: falo do Hymno do trabalho[11], brilhante composição musica de um dos Socios, o snr. Moraes Pereira.

Este Hymno tornou se de repente o mais popular dos cantos em toda a superficie da Ilha; as vozes, os instrumentos, o assobio, o repetem de continuo pelas ruas, pelas salas, pelas officinas, na lavoira, no theatro, nas escolas, em toda a parte. Áquella constante exhortação

Trabalhar, meus irmãos, que o trabalho
é riqueza, é virtude, é vigor.
D’entre a orchestra da serra e do malho
brotam vida, cidades, amor.

tem-se visto muito braço, que desfallecia com a perguiça, reforçar-se para a tarefa. O malho e a serra mesmos, como que se magnetisam. Se eu tivesse uma officina de qualquer industria, quereria que os meus obreiros cantassem, em côro e a miudo, aquelle Hymno. Se a grave Allemanha me ouvisse isto, não me negaria a rasão.

Aqui tem, meu bom Amigo, o que é já hoje a incalumniavel Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel. ¿Os seus destinos ulteriores, quem os calculará? Avivente-a Deus, que teem de ser immensos; ¡tantos, tamanhos, e tão esperançosos são os bons engenhos, habilidades, e desejos d’aquelles nossos optimos irmãos insulanos!

Para assegurar, do possivel modo, força e estabilidade a tal instituto, em terra tão necessitada, e tão propria d’elle, pareceu-me que devia a Sociedade radicar-se, e tornar-se independente de inconstancias e entibiamentos de vontades. Para isto, duas coisas eram, a meu ver, necessarias: grangear-lhe casa, e dote.

De um e outro alvitre me riram a principio, como de utopia rematada. Nem por isso descoroçoei. Puz-me á capa aguardando monção, e não tardou.

Hoje, nem na Sociedade nem fóra d’ella ha já quem não acredite firmemente em que de donativos e esmolas, esmolas em dinheiro, em generos, e em trabalho, havemos de levantar um dote e uma casa á Sociedade, assim como os Frades erigiram conventos, e para os conventos grangearam rendas. Os Frades pediam em nome do Ceo, eram acreditados, obtinham; nós havemos de pedir em nome da humanidade, e do Ceo tambem, e havemos de obter egualmente, porque o nosso pequeno passado é já, aos olhos de toda a gente, o fiador do nosso prestimo.

A casa que meditamos, e que eu já d’aqui antevejo feita em menos de um anno, é para as nossas escolas, para o nosso theatro de declamação, para as nossas sessões, para a nossa bibliotheca, para o nosso museu, para as nossas exposições, para os nossos concertos musicos, para o nosso basar de productos industriaes, em summa: para toda a especie de bons serviços publicos. ¿Como poderia o Publico deixar de nos favorecer na edificação, até lhe pôrmos a ultima telha, o ultimo prego, e o ultimo vidro? Elle e nós havemos de acarretar, todos, pessoalmente, a pedra a areia se fôr preciso. Nós por entre elle havemos de ir de povoação em povoação, de casal em casal, sem vergonha e com alegria, a pé e de sacco ás costas, mendigando para a obra santa.

Quando nós e o povo assim estamos determinados a cumprir o nosso dever ¿poderiam o Governo e o Parlamento, que são a providencia grande do Reino, deixar de nos coadjuvar? Não podiam nem podem.

É por isso que, a par dos Estatutos para a Real approvação, eu já fiz subir ao Throno a petição com que, em nome e como presidente da Sociedade, supplico se nos conceda um pequeno terreno nacional, ha já annos devoluto, sobre que edifiquemos. Grande, pingue, rendosissimo que elle fosse, nol-o deveriam outorgar, pois nenhum uso se poderia jámais d’elle fazer mais proveitoso e abençoavel do que este.[12]

¡Oxalá que em muitas partes do Reino se levantassem institutos eguaes, sollicitando e obtendo eguaes ou ainda maiores concessões!

Para mais facilitar a graça que sollicitamos, e ao mesmo tempo para nos adstringir mais á observancia dos nossos deveres, eis aqui uma clausula do requerimento, consignada não menos nos Estatutos:

Se em algum tempo (o que Deus não permitta) a Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes deixar de existir, isto é, se algum dia deixarem de apparecer as suas obras beneficas, a sua casa e bens passarão para o usufruto do Hospital do Districto, e lá ficarão até que, ou com os mesmos individuos ou com outros, mas com os mesmos estatutos, e para os mesmos fins, a Sociedade reappareça.

Meu caro e incançavel obreiro de civilisação, apadrinhe com a grande autoridade da sua philosophica e eloquente folha, esta petição, a mais justa, a mais desinteressada, a mais nobre, que em nenhum tempo se fez; não para que a despachem, que para ahi não cabem duvidas, mas para a maior brevidade do despacho.

Cada dia que se perde para as obras de instrucção e moralisação é um mal, e são males infinitos que se não ressarcem.

De V. S. etc.
Antonio Feliciano de Castilho.

NOTAS DE RODAPÉ:

[7] De feito, nem um appareceu; mas os mexericos sollapados progrediram, e por derradeiro triumpharam.

Castilho.

[8] Acham-se impressas no 2.ᵒ tomo do Agricultor Michaelense.

Castilho

[9] Este canto no fim da presente carta se pode ver.

[10] Foi uma esplendida festa. A 2.ᵃ das tres peças de poesia que se acham depois d’esta carta é o Hymno de Santa Cecilia, que o autor para esse fim compoz.

[11] No fim d’esta carta se publica apoz o Hymno de Santa Cecilia.

Castilho.

[12] Pelo Ministerio do Reino nada foi possivel conseguir-se; rasão por que, perdidas d’aquella parte as esperanças, se recorreu ao Parlamento, com a petição que ao diante se lerá.

Castilho.