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Felicidade pela Agricultura (Vol. I) cover

Felicidade pela Agricultura (Vol. I)

Chapter 29: VI Requerimento á Camara dos Senhores Deputados
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About This Book

A collection of essays and utopian meditations urging the improvement of rural life through agricultural reform and popular education. The author blends lyrical rural imagery, philosophical reflection, and autobiographical notes to argue that cultivating land, enlightening minds, and refining moral sentiment will foster public felicity. Practical recommendations alternate with visionary proposals; criticisms of contemporary policies appear alongside appeals to virtue and civic responsibility. The prose shifts between poetic exuberance and sober argument, using countryside metaphors to illustrate social aims and to propose gradual, humane paths to communal progress.

VI
Requerimento á Camara dos Senhores Deputados

Senhores:

Existe hoje nos confins dos estados Portuguezes uma Sociedade, talvez sem exemplo, que nasceu grande, possante, auspiciosa, e, em poucos mezes de existencia, apresenta já momentosos, copiosissimos, e incontestaveis resultados para a illustração e ventura do Publico. Esta Sociedade é a dos Amigos das lettras e artes em S. Miguel, cujos Estatutos já em 3 do corrente Abril foram confirmados por S. M. F.

Quando se vê, Senhores, o que uma tal organisação germinalmente contém de sciencia de moralidade, de prosperos fados para as gerações que teem de vir, e já mesmo para esta, é impossivel não a abençoar, desejando-lhe vida sem limite. Para o fim de a conseguir, ella pôz no remate dos seus Estatutos, como chave de abóbada, a declaração de que era immortal, como o sentimento de beneficencia que a produzira; e, para realisar esse nobre sonho de ambição humanitaria, determinou fundar para si, isto é: para suas escolas, bibliotheca, museu, representações scenicas, exposições, etc., uma formosa casa, e uma dotação sufficiente; com a expressa condição de que, se por algum imprevisto concurso de circumstancias, a sua benefica existencia cessasse de se manifestar, dotação e casa passariam ipso facto para o usufructo do Hospital de Ponta-Delgada, o qual, a todo o tempo que a mesma Sociedade recomeçasse os seus trabalhos, ficaria obrigado a fazer-lhe de tudo fiel e promptissima restituição; providencia esta, que mereceu a approvação de S. M. F., como sem duvida obterá tambem a vossa.

A Sociedade não se dissimula, Senhores, que uma casa e uma dotação assim, tanto não são empreza facil, que á primeira vista devem parecer um puro sonho de devaneadores philanthropicos. Entretanto não ha já hoje n’aquella Cidade e Ilha, quem não esteja convencido da mais que probabilidade da realisação certa de tal desiderandum, só pelo meio dos donativos, esmolas, e serviços gratuitos, tanto dos Socios, como de extranhos á Sociedade; ¡graças aos milagrosos frutos, que todos teem visto brotar da nossa Exposição da Industria michaelense, e das nossas incançaveis Escolas, de ler, de arithmetica e geometria applicada ás Artes, de Doutrina christan, de desenho de figura e paizagem, de francez, de inglez, de poetica e declamação, de musica, de hygiene, etc..

A perguiça, doença esporádica em toda a parte, mas ali peste geral e antiquissima, tem já singularmente diminuido com esta maravilhosa excitação dada a todas as coisas uteis pela Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes; o Hymno do trabalho canta-se já em toda a superficie da Ilha, e o seu amor vai-se filtrando do canto para as obras.

¿Como poderia pois a população deixar de contribuir gostosa com esmolas, que a final não são dadas senão a ella mesma e a seus filhos? Com esmolas de cobre se fundaram e dotaram conventos, como palacios de Monarchas, nos seculos de Fé. ¿N’esta edade de interesses materiaes, e de illustração, poderia o bom senso fazer menos em favor do nosso Instituto?

A Sociedade vem pois, Senhores, á vossa respeitavel presença supplicar lhe coadjuveis a projectada edificação do seu Solar de Lettras e Artes, cedendo á mesma Sociedade a pequena cêrca do extincto convento da Conceição d’aquella Cidade, hoje palacio do Governo Civil, com a adjacente área e ruinas da egreja de S. José.

A planta, que, junto com este requerimento se offerece á vossa consideração, bem claramente mostra não haver excesso no pedido, pois n’aquelle pouco terreno se teem de erigir salas, escolas, basar, officinas, e theatro, de que não ha um unico publico, n’uma Cidade de tanta importancia; devendo ficar ainda sufficiente espaço descoberto para exercicios gymnasticos, tão conducentes para a boa creação physica.

O informe que o Ex.ᵐᵒ Governador Civil do Districto de Ponta-Delgada dirigiu ao Governo sobre esta pretenção, deve necessariamente concordar com o exposto, e dar a conhecer, por outra parte, ser aquelle um terreno, que se acha ha annos devoluto. Nunca propriedade nacional haverá sido mais util, nem mais louvavelmente empregada, do que esta, que em menos de um anno, a datar da concessão, estará convertida em um manancial de instrucção, de moralidade, de affecto para com um Governo, que não perde occasião de felicitar os povos.

Lisboa 24 de Abril de 1849.

O Presidente da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel

A. F. de Castilho.