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Felicidade pela Agricultura (Vol. I)

Chapter 3: ADVERTENCIA DOS EDITORES
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About This Book

A collection of essays and utopian meditations urging the improvement of rural life through agricultural reform and popular education. The author blends lyrical rural imagery, philosophical reflection, and autobiographical notes to argue that cultivating land, enlightening minds, and refining moral sentiment will foster public felicity. Practical recommendations alternate with visionary proposals; criticisms of contemporary policies appear alongside appeals to virtue and civic responsibility. The prose shifts between poetic exuberance and sober argument, using countryside metaphors to illustrate social aims and to propose gradual, humane paths to communal progress.

ADVERTENCIA DOS EDITORES


Pelos bons julgadores foi sempre considerada esta Felicidade pela Agricultura uma das obras mais cheias de estro e pujança, que sahiram do cerebro de Castilho.

João de Andrade Corvo costumava dizer:

—Em qualquer pagina que eu o abra, tem sempre este livro o condão de me entreter, e fazer-me pensar longamente.

Livro que faz meditar um homem da valia de Andrade Corvo, é bom.

Escreveu Castilho tudo isto aos poucos, entre outras variadas tarefas, para um periodico, que redigia em Ponta-Delgada: O Agricultor Michaelense.

Na solidão do seu viver, então muito incerto e cheio de saudades, entre um rancho de cinco filhos pequeninos a pedirem-lhe instrucção e educação, no meio de um povo amigo predisposto para o bem, e com a visinhança do mar, que tanto influe a pensamentos sérios, acordaram no antigo ermitão do Caramulo, no ex-redactor da Revista Universal, os pensamentos rasgadamente humanitarios, que o desvelaram e absorveram no resto da vida. Orientou-se, sem o suspeitar, no sentido pratico do bem; e toda a sua alma de homem bom e de poeta vibrou em anhelos de felicitação publica. Esses anhelos tomaram forma litteraria, e deram a presente série de artigos, dictados desde Janeiro de 1848 até Dezembro de 1849.

Via então Castilho a regeneração da Patria, d’esta Patria que elle tanto amou, consubstanciada n’uma ideia unica: o desenvolvimento da Agricultura, e da Instrucção popular. ¿Enganar-se-hia?

A campanha que nos annos proximos havia de sustentar, com a penna, com a palavra, com o amor, com a ira, e com annos de existencia, começou, a bem dizer, aqui. Este opusculo marca uma epoca da vida de Castilho.

Com os seus alti-baixos de forma, com a sua exuberancia opulenta, com as suas loucuras sérias tão sublimes, com o seu desalinho familiar, que por si mesmo consegue impôr-se, são estas paginas o acordado sonho de um vidente, que adianta tres seculos á sua era. As utopias do autor encapellam-se, como antecipação grandiosa e gloriosa, que lhe retrata a indole.

¿São lembranças irrealisaveis algumas para desde já? sel-o hão; mas dos devaneios e aspirações dos homens de alma tem a Humanidade lucrado sementes de muitos bens. Lançadas á terra intellectual, veem a final a germinar, e a desatar-se em flores e frutos.

Deixar devanear estes grandes sonhadores, cuja região se libra a meio-caminho entre o presente e o futuro, entre o real e o ideal, entre a terra e o ceo. Escutemol-os, que para algures, não sonhado de nós outros, nos levam estas sereias do bem:

Preciosas revelações auto-biographica: se nos deparam no livro a cada passo, aproveitadas já, e detidamente explicadas (quanto o podem ser) nas suas Memorias.

Pobre e desajudado, pugnou, quanto soube e poude, em favor de uma ideia, que o alimentou e o aniquilou: a civilisação da sua terra.

É um livro singular este, que se não pode ler sem respeito e commoção. O pensador transparece no poeta. O lyrico devaneador completa-se no philosopho. O patriota realça-se pelo christão.

Exhala-se de cada paragrapho um vago perfume campestre, que é verdadeira delicia: a mente do escritor foge, sempre que pode, para as solidões das hortas e dos casaes; as metaphoras são tomadas quasi sempre ao viver rural; a linguagem, portugueza de lei, sabe ao bom falar dos montanheiros.

Se elle tivesse refundido a obra, deixal-a-hia de certo mais perfeita; mais sincera não a podia deixar. ¿E que melhor prenda do que a sinceridade?