X
Carta ao redactor da «Verdade,» semanario michaelense
Snr. Redactor
Permitti, que eu tome na vossa folha um pequeno espaço para um acto de gratidão; dal-o á primeira de todas as virtudes não é perdel-o. Entendimento superior, vós comprehendeis que os interesses materiaes, e intellectuaes, que a vossa folha se encarregou de promover, não são os unicos de que depende a felicidade publica. Tanto, pelo menos, como esses, contribuem para ella o desempenho dos deveres moraes, e os affectos nobres.
Arrojou-me a adversidade (¡se por ventura o era!) para esta Ilha com tudo que eu mais amava. Cheio de boa fé, e com a minha illimitada benevolencia, mas sob os mais ruins auspicios, desembarquei n’ella; vinha precisado de amar, e não vi a quem; de trabalhar, e não achei em quê. A diante de mim tinha vindo a mentira preparar-me o ruim gazalhado.
Anoiteceu-se-me, de todo, o coração, e esmoreci; era mais um desencantamento, depois de tantos; era a ultima folha verde das minhas esperanças, a cahir. Onde cuidára que viria renascer entre irmãos, para uns a outros nos amarmos muito, dei com a peor das solidões, que tal é sempre a que se encontra entre homens, e que falam a nossa lingua.
Perdôe Deus a quem, sem nenhuma rasão para me querer mal, me calculou, urdiu, e teceu essa teia de dias perdidos e noites veladas. Por mim lhe quizera eu tambem perdoar; mas n’esses maleficios tão gratuitos havia um quinhão, e largo, para entes que eu amava mais que a mim proprio.
¡E, ainda por cima, se veio ao cabo a extranhar-me que eu não agradecesse o haver-se especulado com a nossa fome e ignomínia! e porque arranquei as azas do visco com que se me tinham querido prender, declararam-me guerra peor que de morte, que assim se pode qualificar a da calumnia. Emfim, perdôe-lhe Deus, já que em mim a natureza humana não pode tanto.
Mas n’um dia de festa para o coração, como este hoje o é para mim, devo dar de mão a todas essas coisas feias e desconsoladas, ou antes, hei-de agradecer a quem, por isso mesmo que então me fez curtir tamanhas penas d’alma, concorreu (ainda que sem o querer) para dar mais realce ás delicias que hoje desfruto. São os jejuns do coração os que fazem as Paschoas do amor.
Passados aquelles primeiros tempos, em que me parecia ter naufragado para aqui, como para uma praia ou erma ou inimiga, começaram de me alvorecer dias mais claros. As falsas ideias que de mim se tinham mandado a diante, foram-se desvanecendo. Conheceu-se, e reconheceu se, que eu não viera para a terra alheia para genero algum de malevolencia, quanto mais para a mais perigosa e peor de todas as guerras, a dos Guelphos e Gibellinos do seculo XIX; que, pelo contrario, toda a minha precisão era a Poesia e o Amor, corporificados no trabalho, que illustra e civilisa. Então os amigos começaram, a um e um, a apparecer-me; e (posso dizel-o, sem que m’o hajam a vaidade) tudo quanto por ahi havia de melhor em entendimento e vontade, e não era pouco, se me foi unindo em espirito e trato. Ressuscitei no meu cemiterio, e vi-o cidade. Na terra do desterro respirei a peito cheio ares de Patria. Tornei a achar no interior a alma, e n’ella a esperança, que murcha e não séca. Reaccendi a lampada da minha fé social; e tal e tanta encontrei, em torno de mim, a boa gente desejosa, como eu, das coisas do porvir, e da felicitação do mundo pelo trabalho, que, sem sabermos como, nos vimos de repente Sociedade poderosa, activa, descrente em impossiveis, e por isso mesmo capaz dos maiores milagres. Se tal Sociedade os tem feito, muito mundo o sabe já hoje. Se para o provar não bastassem as obras, os odios dos ruins o demonstrariam.
Quando, para sollicitar do Governo a approvação d’esta mesma Sociedade, e do Parlamento um pouco de chão em que ella deitasse raizes, me pareceu conveniente ir eu a Lisboa, e fui, não levei unicamente saudades de mulher e filhos; S. Miguel toda era já familia minha; todos aqui nos queriamos já muito, porque emfim, chegaramos a conhecer-nos de parte a parte, desfeitas as preoccupações e aleives, que, tambem de parte a parte, se haviam arteiramente disseminado.
Lá, nem o tráfego dos negocios, nem as multiplices occupações do espirito, nem o brilho de tamanha cidade, nem o affecto que expiram de si os sitios conhecidos da nossa puericia e adolescencia, nem os emboras e cortejos da Imprensa obsequiosa, nem mesmo os testemunhos tão solemnes de apreço, que á porfia me davam todos esses mancebos, esperanças e já ornamentos da Litteratura e Poesia nacional, nada me poude entibiar as saudades da minha Ilha, d’este benigno e pacifico torrão, em que eu fizera mais e melhor que nascer, pois renascêra n’elle.
Mais que nenhuma outra coisa, estes tres mezes de ausencia me descobriram quanto lhe eu queria.
¡Oh! se de mim dependesse o tão facil melhoramento dos seus destinos! A voz, e a penna, essas sim que as empreguei eu incessante em lhe advogar os interesses da fortuna e do credito; em quanto, por ventura ou por desgraça, filhos seus, deslembrados do solo com quem nascimento e uso os travaram em parentesco, empregavam a occultas todos os empenhos e valimentos para lhe empecer (e Deus sabe se em parte o não conseguiam), era eu, extranho e obscuro, quem, servindo á verdade e á justiça, lhe pagava, como podia, a minha divida de gratidão.
Ao regressar, os dias me pareciam não acabar nunca, e os sonhos das noites me vinham todos povoados de imnumeraveis e cordeaes abraços, de emboras, perguntas e respostas de bons amigos, de caricias domesticas, de escolas vicejantes, de salas de industria, da musica do trabalho, de toda a poesia das esperanças.
Se metade d’isso, que eu vim gosando embalado pelas ondas, por baixo da immensidade do Ceo, e não me afastando de uma Patria, senão para me aproximar a outra, se a metade d’esses sonhos se realisar, S. Miguel dentro em poucos annos será visitada de toda a parte com admiração e encantamento, que para tudo, mesmo para a realisação das mais altas utopias do bem, são a sua terra, os seus haveres, e as almas dos seus moradores.
Nem lisonjeio, snr. Redactor, nem cuido que o bem-querer me desvaire. As provas do futuro que antevejo, já todos as palpâmos no passado, e sobretudo no presente.
Apoz dez dias levados no ocio, a sós com a minha alma, n’estas suaves cogitações, imaginae, snr. Redactor, qual não seria o meu enlevo, quando, ao aportarmos aqui, pelo sol de uma formosa tarde, que é tambem esperança, me vi de repente cercado de saudações e festejos, entre os braços de tudo que mais amo, recebido em verdadeira ovação de amisade, conduzido pelo braço de minha esposa, entre os meus filhos e os meus consocios, ao som do Hymno da Industria, ao estrépito de foguetes, por baixo de flores, e atravez do nosso bom Povo apinhado pelas ruas, até dentro de minha casa!
Eis aqui, snr. Redactor, o que eu para desafogo de tantos affectos accumulados no peito, carecia de escrever.
¡Agradecer!?....¿Como hei-de eu agradecer o que apenas cabe em expressão?
A benevolencia de uma grande cidade, ¿como pode retribuil-a quem, por uma parte, só possue os bons desejos, e por outra, se sente confundido e aniquilado com a grandeza mesma do obsequio?
Sr. Redactor, se eu não tivesse já antes consagrado a esta generosa terra tudo quanto em mim ha de amor e querer, agora lh’o consagrára para todo sempre, e ficaria ainda empenhado.
Snr. Redactor, o dia 25 de Maio de 1849 foi o mais bello dos meus quarenta e nove annos. Egual ou superior a este, só poderá alvorecer para mim, quando eu a vir tão prospera quanto ella o merece, e o pode ser.
Vosso, etc.
Antonio Feliciano de Castilho
Ponta Delgada 25 de Maio
á meia noite.
N. B. Á precedente carta fizeram varias folhas de Portugal a honra de a reproduzirem, liberalisando por esta occasião ao autor testemunhos de benevolencia, que para toda a vida o empenharam em agradecimento.
¡É tão suave para um homem o sentir-se amado! ¡e amado por espiritos distinctos! ¡e amado, até ao ponto de lhe supporem mais de virtudes e meritos do que em realidade possue, e ha-de nunca possuir!
Ainda a risco de ser havido por vaidoso, o autor succumbe á tentação de apresentar aqui a seus leitores, isto é, a muitos outros amígos seus, uma das mais floridas e ricas mostras de tão parcial e enternecedora benevolencia; é o preambulo que á predita carta pôz O Pharol, folha verdadeiramente notavel por sua litteraria elegancia, pelo fogo e independencia de seus juizos, pela sua aspiração forte e constante para o Bello.
A proverbial severidade das criticas do Pharol faz ainda sobre-sahir para a gratidão o preço do que se vai ler. ¡Quantas feridas e penas d’alma se não suavisam e curam com o balsamo de expressões taes!