WeRead Powered by ReaderPub
Felicidade pela Agricultura (Vol. I) cover

Felicidade pela Agricultura (Vol. I)

Chapter 8: NOTAS DE RODAPÉ:
Open in WeRead

About This Book

A collection of essays and utopian meditations urging the improvement of rural life through agricultural reform and popular education. The author blends lyrical rural imagery, philosophical reflection, and autobiographical notes to argue that cultivating land, enlightening minds, and refining moral sentiment will foster public felicity. Practical recommendations alternate with visionary proposals; criticisms of contemporary policies appear alongside appeals to virtue and civic responsibility. The prose shifts between poetic exuberance and sober argument, using countryside metaphors to illustrate social aims and to propose gradual, humane paths to communal progress.

III
Continuação do assumpto

SUMMARIO

O Jornalismo deve ser prégador da fraternidade agraria, exhortador e mestre de cultura, sendo o Diario do Governo quem dê o exemplo.—Como se formou a Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense, podem outras formar-se e imital-a.—Uma Sociedade Promotora para cada cidade em que houver centro episcopal e administrativo.—Sociedades filiaes fomentadas por ambos estes poderes.—Relações mutuas entre as primeiras e as segundas.—Quadro dos resultados provaveis de tal systema.—Para a sua realisação bastam os cidadãos, sem auxilio do Governo.—Desenho geral da proposta machina de Sociedades, e descripção do seu jogo.—Indicação de meios pecuniarios para a manutenção d’estas Sociedades.—Summa conveniencia de um Ministerio dos negocios da Agricultura.—O que se tornaria Portugal, realisados todos estes alvitres.—Deseja-se que no Parlamento se alevante um homem.

Antes de tudo, é necessario que a Imprensa, representante n’este caso da opinião publica, tome a si o excital-a ainda mais, o esclarecel-a sobre os meios, o alvitrar, o discutir, o convencer os incrédulos, o afervorar os tibios; emfim, que procure compenetrar-se de profunda fé, para a transmittir egualmente profunda a seus ouvintes; armar se de constancia, de pertinacia, de fanatismo (se é licito dizel-o) até ver consumada a regeneração.

O Jornalismo, que, podendo, deixa de ser missionario do Progresso, é alguma coisa peor que uma ociosidade: é um musgo, que devora á arvore multiforme da instrucção proficua, parte da seiva que a devia alimentar.

Em vez pois das questões futeis e ephémeras, saturnaes da Imprensa, que ás almas bem nascidas já repugnam; em vez das quotidianas batalhas dadas no campo das utopias, com descargas cerradas de impropérios; dêem os jornaes, uma e muitas vezes, parte das suas columnas, como expiação (quando mais não seja), á exhortação para a fraternidade agrária, exhortação que se tornará de tanto maior pezo, quanto elles proprios, os jornaes, discordes em todos os outros pontos, se apresentarão n’este unanimes e amigos.

Mais: alguma porção do espaço que por posse velha vão encher ás folhas estrangeiras, de novellas excusadas (quando não nocivas) de anecdotas ridiculas, de vanidades de toda a casta, franqueiem n-o a originaes, traducções, ou imitações, que, ensinando ao lavrador alguma novidade util, no tocante ao seu officio, lh’o ensoberbeçam aos seus proprios olhos, pela prova de que a Imprensa, os sabios, e as nações crescidas e policiadas, o não desprezam.


Dada e conservada aos espiritos, por via dos periodicos, esta saudavel e fecunda excitação, o arbitrio de se formarem Associações promotoras da Agricultura espontaneamente nasceria, se fosse possivel que a mesma Imprensa se houvesse esquecido de o suscitar, e aconselhal-o.

¿Presumimos nós demasiadamente dos nossos collegas, os escriptores publicos, quando para tal coadjuvação os convidâmos? Certo que não. O amor patrio, que todos elles professam, o egoismo que todos nós temos, a louvavel ambição de contribuir para um resgate, e depois tambem a precisão de refocillar a espaços a alma, fatigada de sobresaltos e pelejas, tudo nos afiança que a maior parte d’elles, pelo menos, acudirá ao chamamento: e primeiro que nenhum o Diario do Governo, pois por vinte rasões o deve, e por mil modos o pode mais que todos.


¿Como se formou a Sociedade promotora Michaelense?

Pela vontade de alguns poucos particulares amantes do seu torrão; sem prévia suggestão externa, sem mão que de cima se lhe estendesse. Nasceu por si, e de si; foi uma formação espontanea; e comtudo vingou, cresceu, e aqui a estamos já hoje citando por modelo.

Logo, onde quer que haja tres ou quatro cidadãos egualmente esclarecidos e zelosos, esses poderão o que estes poderam; e tanto mais facilmente ainda o poderão esses, quanto haverão, para os guiar, a experiencia dos seus predecessores, as lições do tempo para se amestrarem, e já maior favor publico para os influir.

Começadas por pequeno mas forte nucleo nos pontos do territorio mais bem situados, ou mais bem relacionados para servirem de centros, as Sociedades promotoras da Agricultura não tardarão em se encorpar e robustecer, absorvendo e assimilando em si quantos homens, quantas influencias, quantos meios de acção, se encontrarem ao seu alcance.

Estas Sociedades primordiaes, conviria talvez, que fossem tantas em numero, quantas são as terras, em que ha uma capital administrativa, e uma séde episcopal, ou mesmo uma só d’estas duas poderosas entidades. Sob a presidencia de taes cabeças, eil-as ahi podendo desde logo diffundir em torno de si, por toda a parte, Sociedades filiaes. Pelo Governador Civil, cada Administração de Concelho formaria a sua. Pelo Bispo, aggregar-se-hia uma á sombra de cada campanario.

Algumas, bem o antevemos, abortariam pelo desfervor, pela ignorancia, ou pela impopularidade de um ou de outro d’estes agentes subalternos; mas outras pululariam, não semeadas, no logar d’essas; e, quando mesmo ficassem na seára, aqui ou acolá, algumas rareiras, paciencia; o fruto da restante sobraria para consolar.

Por este systema, as luzes se diffundiriam dos grandes focos, por uma irradiação constante, para todos os pontos; e de todos os pontos convergiriam para os grandes centros as noticias dos resultados das tentativas, para ahi serem comparados, pesados, e formulados em regras; e o clamor das precisões locaes, para se lhes dar logo, ou se lhes sollicitar de mais alto, o competente remedio.


Imaginemo-nos já chegados ao tempo, em que taes votos sejam cumpridos.

¡Que movimento nos espiritos! ¡que actividade nos homens! ¡que producção na terra! ¡que aproveitamento do tempo, das forças, e dos cabedaes! ¡que duplicação na sociabilidade! ¡que fraternisação das cidades com os campos! Desappareceram os mendigos; todos os braços acham trabalho; todo o trabalho cria pão; o Thesoiro recebe sem sacrificios, paga sem tergiversações, resgata o passado, olha para o futuro sem pavor, ouve bençãos em vez de maldições; da sua voragem vulcanica rebentou uma fonte, que nunca mais ha-de seccar; todo o Paiz ri, floreja, e canta; todas as aldeias enxameiam em creanças, como todas as charnecas em frutas e casaes; os rios e as estradas carreiam abastanças; bandeiras de todas as Nações se esvoaçam em cardume nos portos, permutando com os productos do solo as obras das suas industrias variadas, e ainda parte do seu oiro.

Sim; a tamanho paraizo nos pode chegar a Agricultura, só com a mera protecção dos cidadãos; mas protecção crente, energica, regular, e inquebrantavel, sem até se necessitar de que o Governo directamente a coadjuve; basta que lhe não empeça, e lhe remova um ou outro estorvo grande e conhecido.


Desenhêmos agora em contornos as rodas d’esta machina de Sociedades, que tantos milagres ha-de perfazer, e indiquemos o seu movimento, e o seu jogo.

Cada Sociedade-mãe terá sempre em vista dois objectos capitaes:

infiltrar nos lavradores e operarios rusticos a possivel instrucção análoga, proporcionando-lhes, ao mesmo tempo, meios para aperfeiçoamentos; e

sollicitar dos poderes supremos do Estado a promulgação de boas Leis agrarias, a revogação ou emenda das damnosas:

O primeiro fim conseguil-o-hão:

estabelecendo e augmentando continuamente, com discernimento e desvelo, uma bibliotheca de Agronomia, Veterinaria, Historia natural, e mais sciencias accessorias;

dando ao publico, por via de catalogos impressos, uma noticia succinta de taes obras, facilitando o seu estudo a todos os interessados, quer sejam socios, quer não;

discutindo nas suas sessões todos os pontos agronomicos de interesse local;

recebendo, e até provocando, consultas sobre as materias duvidosas, procurando, por meio de estudo e debate, acudir-lhes com solução prompta;

publicando um Jornal de Agricultura, accommodado principalmente á natureza, condições, circumstancias, interesses, illustração, e costumes, do seu Districto;

por meio d’este Jornal aconselhando as sementeiras e plantações novas de vantagem bem averiguada, a importação de novos animaes uteis, ou de aperfeiçoadores das raças já existentes, bem como o uso dos instrumentos serviçaes, inventados ou aperfeiçoados;

encarregando-se de mandar vir qualquer d’esses objectos para qualquer cidadão que lh’os encommende, mediante uma segurança que responda pelo reembolso;

procurando ter, a par com a bibliotheca, um deposito de instrumentos e machinas, em grande ou em modelos, ou, quando menos, em estampas, e sempre franco;

de algumas das machinas ou instrumentos tendo mesmo para alugar ou emprestar áquellas pessoas, que para os comprarem não possuirem meios;

inserindo constantemente no seu periodico, em linguagem chan e sincera, o quadro das operações ruraes immediatas para o Districto agrario da sua residencia;

renovando de anno para anno este trabalho, sempre a melhor;

fazendo annualmente uma festa rural para distribuição de premios, tanto aos lavradores e creadores, como aos fabricantes de objectos de primeira necessidade, aos inventores e autores de alguma coisa util, aos mestres que mais fruto houverem produzido no ensino primario, e mesmo ao homem ou á mulher, que, por alguma excellencia moral, haja merecido um solemne testemunho de apreço e gratidão dos seus concidadãos;

estabelecendo emfim, que esta festa rural caia, se fôr possivel, na estação formosa, e coincida com a principal romaria, ou festa religiosa, ou feira, do seu Districto, procurando imprimir n’este acto a maior solemnidade religiosa e civil; para o que, os Prelados e os Governadores Civis com a melhor vontade coadjuvarão.

Quanto ao segundo fim, facilmente se desempenharão d’elle as Sociedades-mães, examinando, com circumspecção e madureza, por via de discussão nas suas sessões, e de publicidade no seu jornal, e em outros, os pontos carecentes de reformação legislativa ou executiva, quer em relação aos tributos e direitos, quer ás isenções, quer aos premios, quer aos tratados de commercio, quer ás communicações de terra e agua, etc.


Para quasi todas estas coisas necessitam de dinheiro as Sociedades mães; e nem é justo, nem prudente, pretender que sobre os homens zelosos que as compõem caia mais esse ónus; antes é nossa opinião, que de nenhum d’elles se deve exigir nem joia, nem mensalidade, nem quotisação. Pelo contrario: se fosse possivel, todos os que ás sessões concorressem, todos os que trabalhassem, haviam de ter direito a uma determinada remuneração, como em certas Academias Reaes e dotadas acontece. Fôra isso mais um penhor de estabilidade, mais um estimulo para acção.

¿D’onde porém ha-de vir o dinheiro? de uma loteria annual do Districto, autorisada pelo Governo, e cujos premios poderiam ser em bens de raiz, animaes, e instrumentos agrarios; premios muito mais prestadios que o dinheiro, em relação aos fins do instituto.

Poderia vir mais, de doações ou heranças (que não deixaria de as haver), logo que a experiencia houvesse demonstrado a firmeza e efficacia de taes institutos. Os documentos d’esta asserção acham-se em bom numero nas historias das Misericordias, Hospitaes, Albergarias, Casas-pias, Asylos de infancia e de velhice, e mais instituições de beneficencia, tanto dentro como fóra de Portugal.

Poderia vir de beneficios nos theatros, assemblêas, phylarmonicas e outras.

Poderia vir, e muito provavelmente viria, de christianissimas oblatas dos Prelados.

Poderia vir do producto dos alugueres de animaes para creação, e de instrumentos.

Poderia vir da venda dos jornaes, cathecismos, e mais obras uteis vulgarisadas pela mesma Sociedade.

Poderia vir, finalmente, de uma quinta, ou predio exemplar, propriedade que cada uma das Sociedades mães deveria ter, para as suas experiencias e demonstrações praticas, e com que, ao mesmo tempo que ensinasse mudamente aos seus visinhos, redobraria a fé e fervor nos seus consocios.

Em summa: tudo quanto concorresse para abastar, acreditar, influir, radicar, e perpetuar estas Sociedades, poderosissimos focos de fecundação, tudo seria para tentar e aproveitar.

Quizeramos nós ver já chegado o tempo, em que cada uma d’estas Sociedades promotoras ha-de reunir no seu gremio todas as illustrações agricolas e scientificas dos seus contornos, todos os proprietarios territoriaes e industriaes, os philanthrophos e caritativos, os ricos e os negociantes, as autoridades e as forças de todo o genero, os mundanos mesmo, e até os avarentos.

Tomáramos vel-a no meio de um torrão bem seu, bem cultivado, bem jardim e bem palmito; em casas suas bem suas, bem alegres, bem hospedeiras, bem convidativas; com a sua bibliothecasinha muito franca; com o seu deposito patente de instrumentos e machinas, arsenal de guerra contra a esterilidade.

Tomáramos vel-a, centro attractivo para os passeios dos domingos por entre as hortas frescas, os pomares avergados, as searas luxuriantes, e os jardins ridentissimos.

Ás conferencias de tão feiticeira corporação, ¿como deixariam de concorrer até as damas e os mancebos, com mais fervor que aos Parlamentos, quasi com tanto como aos theatros?


Eis collocadas as rodas grandes, ás quaes o juizo do Governo e o do publico hão-de servir de motor e mola real. Consideremos as pequenas rodas, as que, engranzadas com estas, e recebendo d’ellas o movimento hão-de ir actuar sobre cada pequeno lavrador, sobre cada palmo de terreno.

São as Sociedades filiaes.

Compôr-se ha cada uma d’ellas dos grandes ou pequenos cultores, proprietarios, e mais interessados da circumvisinhança, sob a presidencia do Parocho, do Administrador do Concelho, ou qualquer dos socios, preferido á pluralidade de votos.

Reunir-se-hão em dias e horas, em que a cessação, dos trabalhos ruraes lhes dê vaga para discutirem, e aos não socios occasião para assistirem á discussão, e illustrar-se.

O jornal da Sociedade-mãe subministrará a estas Sociedades-filhas assaz de pontos de sólido interesse, com que se occupem.

Quando porém assim não aconteça, as conveniencias locaes são em toda a parte um thema inexgotavel.

N’estas pequenas reuniões se elaborarão os projectos de melhoramento, e se procurarão os meios para se elles realisarem.

Os melhoramentos podem depender unicamente de boa vontade e exforços dos moradores da terra; podem depender de soccorros intellectuaes ou materiaes da Sociedade-mãe; ou podem ser taes, que só o Throno, ou só o Parlamento, lhes abra caminho. No primeiro caso, a Sociedade-filial, por si e pelos seus adherentes, tratará de os realisar; no segundo caso, recorrerá á Sociedade-mãe para que lhe acuda. No terceiro, recorrerá ainda a ella, para que requeira, apadrinhe, e faça apadrinhar o requerimento.

Cada uma das Sociedades filiaes estará pois em continua correspondencia com a respectiva Sociedade mãe, com mutua e manifesta utilidade; pois se, por um lado, as innovações e progressos podem vir das nações mais peritas em Agricultura até ao casal mais embrenhado nas serras, como, pela irrigação, as aguas, hauridas das entranhas da terra, vão desde o tanque que as recebe, até ao pé da plantinha mais afastada na fazenda, por outro lado, e em compensação, todas as phases e circumstancias das culturas parciaes, nas suas ultimas ramificações, convergirão, por que assim o digâmos, para o sensorio commum do Districto, habilitando-o d’est’arte a raciocinar, com exacção e segurança, sobre as necessidades e conveniencias de todos e de cada um.


A estas propostas, pede o rigor logico ajuntemos outra, que lhes valerá de complemento natural. Esta proposta, a mais importante de todas quantas se podem fazer, é a creação de um Ministerio dos negocios da Agricultura.

N’este Ministerio se centralisariam as luzes de todas as Sociedades-mães. N’elle, como em um espelho concavo, se reuniria, transmittido por ellas, o conhecimento preciso de todas as fracções topographicas do Paiz; e, como de um espelho convexo, d’elle se dispartiriam para os pontos mais remotos, como para os mais proximos, providencias salvadoras.

O Ministro da Agricultura, lavrador elle mesmo, comporia a sua Secretaría de homens da sua confiança, de reconhecida honra, patriotas, amantes da terra, agricultores, proprietarios ruraes, ou naturalistas.

Auxiliado pelas luzes de taes empregados, pelas luzes e communicações da Imprensa, e pelas representações das Sociedades-mães, elle poderia não só dar quotidianamente mil providencias importantes comprehendidas nas suas attribuições, mas ainda apresentar ao Parlamento grandes projectos para Leis salvadoras, que não tardariam a ser sanccionadas.


Resumâmos-nos, e terminemos.

Portugal está pobre; não tem para pagar as dividas; não tem para se manter; e de anno para anno se deteriora a sua sorte. O presente é um martyrio: o futuro, que deve resultar da continuação de tal presente, horrorisa a imaginação.

Portugal está desatado; ha insociabilidade, ha odios mutuos e acerbos, e que, herdados e transmittidos pela educação, se tornarão ainda mais implacaveis.

Portugal (consequencia legitima das duas verdades precedentes) tem a sua moralidade relaxada, ou perdida. O instincto de vida lhe está aconselhando Agricultura, como riqueza, como vinculo, como civilisação.

Portugal tem terras, que pedem braços e população, e tem muitos milheiros celibatarios ociosos, que folgariam de as cultivar; tem um Exercito, que o devora, tanto quanto o podia opulentar, e cuja existencia se não abona por nenhuma sincera consideração de independencia, de paz, ou de ordem publica.[1]

A philosophia, que festejou a abolição total das Ordens religiosas, a despeito de tão fortes argumentos moraes e juridicos, requer, sob pena de flagrante inconsequencia logica, a secularisação d’estes conventos militares.

Quem expulsou os Frades, do claustro para a fome, ¿por que não convidaria os Soldados, do quartel para a lavoira? O paralello entre os Soldados e os Frades poderia ser extenso, e conteria um grande poder de argumentação a fortiori; mas é obvio; qualquer por si o fará em querendo.

Portugal tem, afóra o Exercito, um crescido numero de individuos e de familias, que definham, que, litteralmente falando, morrem á fome. ¿Qual d’essas familias, qual d’esses individuos, recusaria um torrão, fosse onde fosse, se todo o torrão, com a boa vontade, é meza posta?

Dados á Agricultura operarios, que existem, e que lhe falecem, ella mesma pela sua energia vital intrinzeca se desenvolveria, pois vemos que assim mesmo, ao acaso e desajudada, lá começa a revolver-se para se querer alevantar. As Sociedades promotoras augmentariam e dirigiriam essa mesma energia, chegando com a sua acção, de um lado pelas Sociedades secundarias, até aos casaleiros; do outro lado, pelo seu crédito, pelas suas relações, pelo seu valimento, até ás Camaras legislativas e ao Governo. O Ministerio dos negocios da Agricultura daria unidade aos movimentos d’este vasto e bello corpo.

Então o futuro estaria conquistado, as dividas mortas, os males sanados e esquecidos. Então haveria força publica, porque haveria fé; haveria em todos os corações amor da Patria, porque haveria a todos os olhos uma Patria para amar. A guerra interna seria impossivel. A guerra externa, se podesse jamais accommetter-nos, veria rebentar da terra exercitos invenciveis, porque defenderiam as suas lareiras, as suas hortas, e os seus filhos. O Thesoiro trasbordaria para todas as artes preciosas da paz, porque haveria fontes perennes e copiosas para a sua alimentação.


¿Será isto uma utopia?

¡Utopia!... A utopia, a chymera, o absurdo, é pretender colher fruto de arvore sem raiz e carcomida de musgo; é presumir, que a um edificio arruinado se acode remendando lhe com barro, aqui e acolá, as paredes exteriormente; é cuidar, que se ressuscitará um afogado calcando-o para o fundo do lodo, e lançando-lhe penedos para cima. A utopia, a desgraça, e a miseria, é crer que as palavras, as estenographias, os algarismos, são capazes de crear coisa alguma. Creadores, abaixo de Deus, não os ha senão o campo, e o amor. O senso commum o sabe, e a Historia não sabe outra coisa.

Feliz o Deputado, que entrasse pelas salas do Parlamento com um projecto de organisação agricola, egual ou semelhante a este, e, levantando o por cima da sua cabeça, exclamasse:

«Por amor de vós e da vossa descendencia, salvemos a Patria, hoje que ainda é tempo. Adiemos, por consenso unanime, todas as outras questões alcunhadas maximas. Decidida esta, todas se haverão n’ella resolvido.»

Setembro de 1848

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Na Revista Universal, artigo 1378 do 2.ᵒ volume p ponderámos falando no orçamento do Ministerio da Guerra.