MÁ-LINGUA
A JOSÉ LEITE NOGUEIRA PINTO
{56}
{57}
MÁ-LINGUA
N'aquella mesa de bluff, era feroz a debinage... Apenas o Barros, que ganhava com uma veine espantosa, sorria beatificamente, cheio de indulgencia, e para as arrojadas arremettidas dos parceiros, tinha sempre a mesma phrase:
—Mais caridade, meus senhores...
Eram sempre occasiões em que o Leite mostrava «quatro cartas» ou «street flesh.»
O baile, na sala proxima, corria animado. As valsas, o pas-de-quatre e as quadrilhas martelladas ao piano, tinham concorrencia. E uma ou outra que fugia do calôr, para as salas de jogo, era apanhada na passagem, amarfanhada, esmiuçavam-lhe a chronica, apimentada de notas ineditas, calumnias talvez.
—A Gracinda Fortes!
O conde de Marvilla teve um sobresalto. Voltou-se para trás. A Gracinda vinha com um vestido de tonkin cinzento que mostrava toda a{58} graça fragil do seu corpo magro. O conde commentou, eriçando mais o bigode loiro, cortado á ingleza:
—Um cabide para vestidos!...
—Mais caridade!...
—Ah, já sei: tem pelo menos um flesh na mão... Passo!
Depois, olhando ainda a figura esbelta que sahia...
—Mas ella não é uma mulher—é uma boneca de Nuremberg!... Vejam o andar articulado, mechanico... Tudo aquillo se mexe por molas! E aquella cabeça d'arara a dar a dar, como se estivesse presa ás espaduas por um parafuso lasso? E depois, meus amigos, ella é toda postiça... O cabello loiro pertenceu já a tres cabeças... É uma mulher feita de collaboração por um cabelleireiro, um droguista e uma costureira. Tudo aquillo é sustentado por baleias e faixas, senão desabava, de lasso... Imaginam que o marido está arruinado por causa dos vestidos? Não: pelos cosmeticos... Á quantidade de drogas que anda por aquella pelle é inconcebivel. Já repararam em como se não decóta nunca, completamente, que o collo é sempre coberto por uma gaze ou uma renda? É que a pelle, estragada por uma pitiriasis qualquer, esfarella-se. Todas as manhãs a creada de quarto tira-lhe kilos de farellos da cama. E já não pode com o serviço de maquilhagem—tapar{59} buracos, concertar rugas, pés-de-gallinha, disfarçar sardas e signaes de variola—manda chamar um trolha...
—Seu amante?
—Talvez... Para a rebocar. Para que ande, é preciso dar-lhe corda. Anda sempre da mesma maneira, ás continencias, cabeça para cima e para baixo, como um d'esses bonecos movidos por relojoarias. Imagina que aquillo é o andar rythmico das parisienses, esse andar leve e airoso como o d'um passaro... É parisiense, é: tambem são parisienses as macacas que nascem no Jardin des Plantes... Ainda por cima, velha. Não tem frescura nem mesmo nos olhos parados, conçados do espelho. A pelle despega-se da carne e na cara faz papeiras em feitio de bambinellas. E toda aquella pintura, ás chapadas, faz sombras, augmenta-lhe as papeiras...
—Tens-lhe odio!...
—Não, tenho olhos. Não é preciso mais. Por causa d'ella lá me fez você um bluff sem eu dar por isso...—Conheço-a muito. Veiu da provincia e por ahi andou a mostrar ao Chiado e á Avenida as suas toilettes, como um manequim de loja de modas em furor de reclame. Ninguem a recebia, senão as casas em delirio de festas, onde a ida d'um conde, dos feitos ultimamente ás canastradas, enche de jubilo os amaveis donos da casa, como se diz nos jornaes.{60} Mas a sua ambição era do podre-de-chic, e não podendo suppôr-se com sangue azul—a mercearia do pae, ainda lá está a falsificar—imaginava-se com o chá das cinco horas nas veias... Um chá requentado como o espirito d'ella, estudado em velhos almanachs.
Emquanto não entrou na sociedade, vestia-se seis vezes ao dia, e nos intervallos injuriava o idiota do marido, essa bola de cebo com suissas brancas, que, atolambado, não lhe respondia que não tinha culpa de não convidarem uma amostra de cocotte do Maxim para casas de familias honestas. E era uma vida dura, atroz, n'aquella casa, ella de mau humôr, acre, dizendo horrores na voz impertinente, sem inflexões, monocorda, e elle angustiado, sempre em calculos diabolicos para saldar as contas monstruosas que lhe mandava o Goodefroy, dos cosmeticos e postiches com que se engalanava a mulher.
A vida n'aquella casa! Vocês não calculam a expressão dura, injuriosa, que se estampava n'aquella cara agora risonha, quando recolhia, á tarde, cançada de fazer a Avenida, quasi sem um chapeu a comprimental-a, sem meios para ter uma carruagem, olhando, gulosa, as pessoas chics que passavam, sorrindo ás saudações. E na mesa de jantar, silenciosa, apenas se ouvia o tilintar dos talheres e uma ou outra phrase grosseira ao Fortes, que abanava a cabeça,{61} todo elle se agachava, no receio, talvez, d'um prato ou d'um copo arremessado na furia.
Depois das refeições, separavam-se, elle para a rua tomar ar, fugindo da perigosa visinhança, ella a arrastar-se nos quartos, a enfeitar-se de joias, punha-as todas, enchia as mãos d'anneis, rodeava a garganta magra com todos os collares, enchia os braços de pulseiras quasi até o cotovello e via-se ao espelho estudando sorrisos, gestos de comprimento para os grandes bailes a que havia de ser convidada um dia.
—Para fallar d'esse modo é preciso ter sido éconduit...
O conde córou, encolheu os hombros:
—Ás vezes não se levantava da cama em dias de chuva em que se tornava impossivel fazer a parada nas ruas, troteuse á cata d'olhares: vestia uma camisa de noite de que cahiam valenciennes e cobria a cabeça com pentes e travessas d'oiro com pedras finas, e as mãos floriam-se de toda a collecção d'anneis. Era oiro por toda a parte, sem fallar nos dentes em que se combinavam todos os metaes e todas as massas. Ouvi que se lhe podia dirigir o epigramma de Marcial: Não te rias porque só tens tres dentes e esses mesmos são de buxo.
—Conheces tão intimamente?
—Pela creada do quarto... Agora, saracoteia-se, esqueleto feito manequim, arrebanhando os rapasolas inexperientes para flirts—ó{62} só flirts! não por virtude ou amor conjugal, mas porque a pitiriasis não permitte o desnudamento—flirts que acabavam logo que um mais affoito fallasse em beijar a pelle perfumada.
—Schiu! Lá vem ella!
O conde olhou para a porta, por onde entrára, fina e flexivel como haste florida, a Gracinda Fortes. A bocca pequena, que o cosmetico fazia sangrar, abria-se n'um sorriso fresco, que mostrava os dentes brancos. E de todo esse corpo magro exhalava-se, como um perfume que entontece, um encanto perturbante.
E seguiu-a com os olhos, commovidamente, até que desappareceu, como um sonho... {63}
A RAINHA DE SABÁ
A EUGENIO DE CASTRO
{64}
{65}
A RAINHA DE SABÁ
Balkis esperava. Entre as sumptuosidades do seu palacio de Mareb, a Rainha vivia, solitaria, escondida, só com a sua belleza.
Em vão os povos e os senhores, ouvindo fallar da immaculada formosura accorriam dos remotos reinos onde a sua lei governava, Sabá, Mareb e Yemen, e, defronte do palacio immenso e fechado, pediam para vêr a deslumbrante adolescente. Em vão os sacerdotes quizeram vêr os olhos puros. Ninguem o conseguiu.
Apenas uma velha ama a vira nua, quando menina. Era como um lirio o seu corpo.
Sete aposentos eram os da Rainha. E cada uma das sete portas uma chave d'oiro fechava. E no ultimo, a rainha vivia. Grandes espelhos de cobre mandavam-se uns aos outros, como écos, a imagem quasi divina. E Balkis, apenas vestida de joias, passava os dias na contemplação{66} dos intactos esplendores da sua adolescencia.
Entravam pela janella que abria sobre o jardim fechado e callado, os pavões brancos e os pavões polichromos. Aquelles formavam, estendendo as caudas, pequenas luas macias; estes faziam fulgir constellações, doçuras de velludos, coruscantes gemmas. E Balkis era mais branca do que os pavões brancos, mais brilhavam as suas cinturas e manilhas pesadas do que as caudas scintillantes.
Nas noites escuras sahia ao jardim. Deixava cair entre as moitas de flôres, a cintura, as manilhas, os anneis e o diadema. Soltavam-se-lhe os cabellos d'oiro, que eram, no ar azul escuro, como um cometa pallido; e nua, como uma flôr graciosa, dirigia-se para o tanque de marmore onde adormecera a agua perfumada. Os seus pés, ao entrar no tanque, eram como um raio de lua...
Deitada no tanque, os braços abertos, as mãos á tona d'agua, como dois lótos brancos, Balkis espreitava o ceu onde se movia o doirado formigueiro d'astros. As estrellas vinham reproduzir-se na agua, como molhadas flôres d'oiro, em indecisos contornos; uma lhe brincava no seio, quasi á flôr d'agua. Era como uma joia a correr, com o movimento do corpo. Ás vezes, n'um gesto mais largo, a gemma cahia, para outra vez voltar, n'uma festa, a percorrer{67} todo o corpo branco, que era, na agua escura, polvilhado de brilhos, como um nenuphar enorme, em que se agitassem grandes abelhas fulgentes.
Depois, quieta, ouvindo sómente, de quando em quando, o ruido ligeiro das flôres que tombavam, murchas, na areia discreta do jardim, os braços a appoiar a cabeça, como um diadema feito de duas hastes d'açucenas, a Rainha pensava.
E esperava...
Balkis esperava o noivo que havia de vir.
De todas as partes, chamados pela fama da sua belleza, dos seus thesouros ou dos seus exercitos, tinham acorrido os principes da Asia. Poetas uns, avaros outros, na maior parte guerreiros, todos vinham em cavalgadas surprehendentes, cobertos d'oiro e de joias. No seu throno altissimo d'oiro e prata, invisivel, mas a todos vendo, a Rainha ouvia as imagens aladas que fulgem e perfumam, a descripção dos poços profundos, abarrotados de barras d'oiro, de vasos de cobre, de moedas de todos os feitios, de pedrarias de todos os brilhos; diziam-lhe historias compridas de cruentas façanhas, batalhas mortiferas em que as flechas e as espadas, a bater contra os escudos, produziam chispas de incendio, contra os corpos, rios de sangue. Os guerreiros, com o desejo de augmentar os exercitos bellicosos, aprendiam{68} uma eloquencia calorosa. Eram os que mais fallavam, regosijando-se com a recordação das chacinas. Mas a um signal da Rainha iam-se, despedidos, os poetas com as lagrimas nos olhos, as cabeças curvadas, como sobre o peso das mithras, os avaros e os guerreiros batendo com força, nos ladrilhos polichromos, as sandalias ligeiras.
E Balkis voltava para o recuado aposento do seu palacio populoso. Alli, só, admirava nos espelhos a gracilidade do seu corpo esbelto e firme. Deixava cahir sobre o corpo branco, como uma flôr inundada de sol, o cabello loiro.
Depois de admirar toda a sua belleza, Balkis dizia-se:
—Aquelle que eu amar possuir-me-ha intacta, como uma flôr que vive no meio d'uma floresta guardada pelos Medos. Ninguem lhe aspirou o perfume, ninguem viu a côr deslumbrante, ninguem a maculou. N'esta terra cheia de sol, em que as côres não brilham, ardem, e as cassoletas não perfumam, estonteiam, eu sou branca, o sol nunca me viu. Entre os muros dourados dos meus sete aposentos, a vida é quieta e facil!
Balkis esperava.
Os mezes passavam ligeiros. No jardim fechado, as rosas desabrochavam, perfumavam e morriam. Outras vinham com egual brilho e egual frescura, enormes rosas escarlates, como{69} boccas em que os beijos deixam feridas, do desejo intenso. Balkis conservava, no seu corpo nubil, intactos, os esplendores d'uma adolescencia eterna. Untava-se com oleos, alisava com pentes d'oiro os seus cabellos d'oiro. Vestia-se apenas com joias, joia ella mesma. E nos seus olhos azues, largos e serenos, brilhava a mocidade.
Não a viam olhos humanos. Nenhum desejo maculou o seu corpo.
E quando Salomão, filho de David, que no seu palacio de Jerusalem tinha mais concubinas que de estrellas ha no ceu n'uma noite de lua, quando Salomão a veiu buscar, ella entregou-se-lhe, pura, radiosa e immaculada, como uma flôr crescida n'uma floresta insondavel, cujo perfume ninguem aspirou.
Virgens, guardae para o desconhecido Amado, o vosso corpo e a vossa alma,
como, se é verdade a lenda arabe, para Salomão, filho de David, guardou Balkis,
Rainha de Sabá!{70}
{71}
CHIARA LILIAM
A VICENTE D'ARNOSO.
{72}
{73}
CHIARA LILIAM
Barcelona e o seu porto com incendiados espelhamentos de sol nas aguas que se agitam em pequenas ondas, aguas-fortes de mastros a distancia, toda a geometria do horizonte cinzento cortado pelos perfis dos vapores! Ha dorsos vermelhos de navios, nodoas negras das barcaças de carvão, até a florescencia d'um yacht que emerge entre a poeira negra da fumaraça, e os fardos, e as pipas, como uma delgada flôr de prata...
Para alem da cinta da docka, ao rez do mar, o ceu toma tons brancos que se esbatem e degradam na ascenção, accentuando-se na cupula um azul fino. E os vapores passam, pequeninos, carregados de vagas multidões para Barcelonete.
Para alem da formidavel estatua de Colombo, as Ramblas sacodem os ramos verdes dos platanos e o Tibidabo recorta-se, escalvado.{74}
—É ámanhã o vapor para Mallorca, informam-me.
Volto para traz, deixando o ruido dos guindastes e das sereias, a bulha dos catraeiros e descarregadores, para entrar n'outro bulicio tão grande, o zumbido dos milhares de boccas que cruzam a Rambla, as campainhadas dos tranvias, a buzina dos automoveis, com gritos diversos, pragas, pregões, injurias guturaes dos catalães furiosos.
Sentira desejos de vêr Palma de Mallorca em que me fallára Teixeira Gomes, as suas egrejas caladas, os seus palacios antigos. Por elle sabia que a cidade conservára-se immovel, tipica, como no principio do seculo XIX. E a sua conversa luminosa e pittoresca acirrara-me o desejo de visitar uma terra que, na convulsa marcha do seculo industrial, immobilisára-se nos seus antigos sonhos de pedra.
Aborrecera-me já Barcelona, commercial, trabalhadora, respirando pelas mil boccas das suas chaminés; parecia que a alma da cidade andava triturada pelos poderosos engenhos das suas fabricas. Vira os seus theatros, os seus museus, Santa Maria de la Mar perdida entre o casario; mas em toda a parte o commercio abria ruas, estendia fazendas, crusavam-se os camions.
Ah! Salamanca parada e quieta, a morrer n'uma agonia d'oiro! As saudades que tive da{75} paz das suas ruas bordadas de egrejas e de palacios, das cathedraes sumptuosas e desertas, das pequeninas parochias, onde se descobrem ainda, atravez dos vandalismos, curvas d'arcos romanicos, flores de capiteis graciosos; de Santo Esteban e o seu claustro que a hera invadiu, do balneario, antigo claustro de convento e do Monterrey maravilhoso, da Universidade quasi sem estudantes!
Aborrecia-me Barcelona, toda entre arvores, Barcelona e o soturno Monjuich com a lenda dos supplicios dos anarchistas.
Ainda um dia! Era preciso depois de jantar subir á Gran Via e ir ao tumultuoso café ouvir a gritaria ensurdecedora, passear pelas Ramblas entre uma multidão compacta que espairece, vêr as caras angustiosas dos operarios, sempre na vespera d'uma revolta, e os pobres que nos perseguem pela esmola, e as raparigas sujas, enrugadas, que se offerecem, n'um chale rôto.
Ao entrar no «Paseo de la Aduana» para esperar um tranvia que me levasse ao Parque, vi passar n'uma carruagem, fresca, toda vestida de branco, como um ramo de goivos brancos, Chiara Liliam, a cantora italiana que mezes antes conhecera em Genebra, no Kursaal, e com quem passeára no Leman, pelas tardes quietas de agosto e pelas noites de luar, ouvindo-a cantar, não as operas transcendentes com{76} que regalava os suissos e inglezes, mas ligeiras canções napolitanas, que tomavam na sua bocca uma voluptuosidade mais fina e adormeciam, envenenando-as, as nossas Almas.
Ah! Chiara Liliam! As tardes limpidas e serenas em que vimos a paisagem doce, fecunda, do cantão de Genebra, no vapor da carreira, alheiados das inglezas de Cook, de dentes monumentaes e canotiers ridiculos! E as noites frias, em que deixavamos o Kursaal e os petits chevaux e iamos, costeando o caes illuminado, n'um pequeno bote que o ruivo barqueiro conduzia serenamente, respirar a delicia do luar pastoso, que parecia ter em si um pouco da neve do Monte Branco!
Lord Carnehan, o seu amante, acompanhava-nos. A tristeza da sua face, de todo o seu corpo cançado! Parecia ter sentido, aquelle rapaz de trinta annos, todo o travo da vida, visto desfolhar-se, uma a uma, todas as illusões, as ambições murchar, como quem assistisse ao incendio de todos os seus haveres e dos proprios castellos no ar que a sua mente creára.
Nem alcoolico, nem etheromano, abominando a morfina e a cocaina, tomando uma leve taça de café, apenas, resignára-se na vida, «deixava-se morrer», dizia.
Andava com Chiara, porque era preciso ter uma amante, como uma ecurie, um palacio em{77} Londres, um castello na Escocia e uma villa na Riviera, decorada por Burne Jones.
Chiara Liliam era a sua vontade. Ia para onde ella quizesse, para fazer alguma coisa e não ficar, no hall do Metropole Hotel, de olhos pasmados para os decotes largos das ladies, que liam jornaes.
Mas nenhum amor, nem mesmo sabia, talvez, se era macia a pelle da cantora. E assim viviam, ella feliz pela liberdade, risonha como um galho d'eglantines, elle, com uma razão de viver: acompanhar Chiara.
Chiara, que viu o meu cumprimento, mandou-me subir para o trem.
—Venha comigo ao parque... se não tem melhor...
—Ia justamente para lá aborrecer-me...
—Então venho a proposito...
Perguntei-lhe por lord Carnehan.
—Ó meu Deus! Lord Carnehan tornou-se para mim uma obsessão. Era como um vidro negro que me punham nos olhos para eu vêr a vida. Nada me parecia claro, luminoso, florido. Julgava olhar sempre para dentro d'um poço secco. Essa creatura estragou-me alguns mezes de existencia. A principio ainda eu ria, pelo movimento adquirido. Mais tarde, porém, o riso desappareceu. Sempre aquelle somnolento homem que só abria a bocca para perguntar pelas horas, como se tivesse pressa{78} d'alguma coisa, elle que não fazia nada, ou para dizer alguma sentença, um aphorismo de Schopenhauer ou d'alguns dos fulminantes catholicos, á maneira hespanhola, sombrios, repulsivos. Comecei a olhar para o espelho, a vêr se sabia rir. Não sabia. Vinha uma careta ao contrahir a bocca; parecia-me de pedra os labios, ao querer abril-os n'um sorriso. Quiz mortifical-o, fazer com que, atraz de mim, os amorosos corressem; empreguei, ante os seus olhos pardos, o requinte do coquetismo; mostrei todo o artificio de mulher e de actriz. Nada. Sempre lord Carnehan indifferente, a cabeça sobre o peito, as mãos pendidas, a perguntar-me periodicamente:—Que horas são? De quando em quando, sem lhe dizer aonde ia, deixava-o todo o dia; ás vezes, aborrecida, nem ia á rua. Ficava no meu quarto, as lagrimas nos olhos, a vêr o movimento dos bateaux-mouches a atravessar o Leman; os raros automoveis que passavam pela rua e alguns ranchos de forasteiros arregimentados pelas agencias. Arrastava-se o tempo; defronte de mim, o lago que á esquerda se curva, limpido, transparente. Na outra margem, o parque Jean Jacques, alinhado e limpo, como um desenho do concurso. E era alli, á direita, a arvore que dera sombra, na tarde criminosa, em que o anarchista matára a Imperatriz Isabel. Pensava no fim tragico que ali procurara, sob um pequeno platano viçoso,{79} a alma aventureira e poetica, a dama de todas as viagens, que vira tantos ceus ensolados e tantos mares em procella... Quando voltava, de proposito despenteada, com muito rouge na face, a fingir córada, lord Carnehan levantava com esforço os olhos para mim e perguntava-me, na voz pausada, sem um estremecimento:
—Que horas são?
Eu era o relogio, para elle! N'essa terra fria, geometrica, regular no andamento como uma machina—a alma de Genebra é um relogio—eu não era nada mais do que um chronometro em que se tem confiança. Um dia, furiosa, comprei um relogio e offereci-lh'o. Imagina que acabou a historia? Não. Comecei a fazer-lhe scenas, a dizer-lhe improperios em calão dos bairros infimos de Londres—uma artista conhece tudo e o resto—phrases de marujo; elle ouvia, ouvia, e depois tirava o relogio da algibeira e dizia-me:
—Por força que este relogio atraza! Que horas são?
Quiz matal-o. Uma noite entrei no seu quarto. A lamparina envolvia tudo em penumbra. Até a dormir tinha o ar cançado. Levava uma mascara de cloroformio... Conhece o conto de Lorrain sobre as mascaras de Londres? foi n'elle que me inspirei... Ia para lh'a pôr na cara e acabar com elle. Tropecei n'uma cadeira.{80} Carnehan acordou sem sobresalto. Olhou para mim:
—O quê? já manhã? Que horas são?
Não! Não era possivel! Pensei em atirar-me da janella abaixo. Não podia mais com a vida. O diabo é que estragava o penteado! Resolvi fugir. Fiz as malas, guardei joias e dinheiro, rompi a escriptura com o emprezario, perguntei por minha vez que horas eram a Carnehan—a cara que elle fez!—e metti-me n'um comboio e vim para a Hespanha, onde ha sol, ha muito sol e não quero nunca saber que horas são!»
A sua face parecia uma flôr de perola, e na bocca fortemente pintada um sorriso brilhou...{81}
A MARCIA
A SILVA GRAÇA.
{82}
{83}
A MARCIA
Aquella velha encarquilhada e ignobil que encontrei na estrada de Cascaes, pelo crepusculo suave, tinha uma historia.
Estava bebeda. A bocca onde dois unicos dentes se mostravam, careados, no gargalhar, a bocca de beiços finos e roxos, sabendo a alcool e a podridão, tinha gritado dores, tinha tambem beijado.
Contou-me tudo, como n'um vomito. Caiu-lhe d'um jacto toda a sua historia e toda a sua alma; e pareceu-me que o crepusculo que fazia de perola o horizonte longiquo e trazia a calma á ligeira inquietação do Mar, se enchia de gangrenas, extravasava lodo, manchava o Ceu purissimo em que nem um farrapo de nuvem a esgarçar-se perturbava o estranho socego.
No mar azulado, pairavam, sem velas, as faluas da pesca. Ao longe esfumavam-se as{84} montanhas que correm para o Espichel, mais acentuadas na poeira de cinza e de perola do horisonte. A baixo da estrada corre a fita d'oiro fosco do areal, que nas angras se alastra, para desapparecer nos cachopos violaceos. É toda debruada d'oiro a larga curva da Cidadella ao Hospital de Parede. As pequenas ondas, na tarde quieta, vinham franjar de renda branca a seda do areal.
Eu seguia do Estoril para Cascaes. Queria vêr ainda o mar, fixar em imagens subtis a palpitação dos ultimos brilhos solares na agua, conhecer como vivem e estremecem, sob a agua azul, as longas petalas de luz multicôr e fina em que desabrocha o poente; diluir toda a minha alma na Paz da tarde, que, por ser tamanha, dava a illusão de ser eterna. E a velha não me deixava! Ia atraz de mim a gargalhar, desfiando, por entre os labios resequidos, palavras desconexas, chamando-me a attenção.
O velho trapo! Na cabeça calva a cuia á banda era grotesca. E no movimento sacudido da embriaguez e do delirium-tremens, as vestes esgarçadas pareciam agitar bandeirolas, saia de farrapos, corpo de lona.
E não me deixava! Comigo cruzou a linha ferrea, parando para, as mãos abertas sobre os olhos, espreitar se vinha algum comboio.
Como sombra minha atravessou as ruellas{85} de Cascaes, o passeio Maria Pia. Passámos a villa Arnoso e a villa O'Neill.
A noite caía do Ceu resignadamente. O mar escurecia.
Por certo que o ar fresco da tarde diminuira a embriaguez, porque as palavras formavam serie, embora as dissesse n'uma toada de cantilena.
Sentei-me nos rochedos da Boca do Inferno. Ouvia-se o confuso lamento do mar na cova onde se agachava uma sombra mais densa.
A velha não podia suster mais tempo a sua historia. Sentou-se ao pé de mim e contou-m'a. Ha pessoas que teem a alma pequena. As imagens intensas e poderosas não podem viver lá dentro. É preciso que as deitem para fóra. É por isso que os bebedos são em geral loquazes e indiscretos. A capacidade psychica conservando-se a mesma e engrandecendo-se as imagens pelo poder ampliatorio do vinho, elles fallam, confessam-se, vão sós pela rua a dizer os seus segredos; foi por isso que a velha me contou a historia, como a podia ter contado a um poste do telegrafo ou a um pedregulho da praia.
—Se me visse quando eu era nova! Ih! Ih! Não tinha esta cara, não, nem só estes dois dentes—e um d'elles já abala! Era bonita! Era loira. Tinha os olhos azues. Que elles agora, de chorar pelas desgraças e de chorar com o{86} vinho, já não teem côr. Olhe para elles, não tenha medo!
Não tinham côr os olhos. Dentre as palpebras vermelhas e sem cilios eram deslavados e estupidos.
—E os meus cabellos louros e finos! Tenho só algumas mechas brancas, porque começaram a cair aos punhados d'uma doença que tive. E fiquei assim com a cabeça... E embranqueceram-se os que ficaram...
Tirou a cuia. Metia nojo essa bola em que luziam chagas. Raras mechas de cabello a enfeitavam. A velha tornou a rir-se, o mesmo ih! ih! contrafeito em que abria a bocca putrida.
—O meu corpo era lindo, delgado e forte. Os seios eram brancos e firmes. Olhe como ficaram!
Tirou, n'um sacão, da bluza encardida e rota, os seios murchos que bambolearam como dois figos a desprender-se d'um galho. E depois contou, atropellando as palavras, a querer acabar a historia, para se vêr livre d'ella, como se se esquecesse, m'a transmitisse, com o encargo da sua angustia, e podesse, sem esse pezo, caminhar mais ligeira, ferindo menos os pés descalços nas pedras das estradas e nas silvas dos atalhos.
O pae era um pequeno lavrador, que vivia feliz entre as suas vinhas e os seus milhos.{87}
Um dia casou com a mãe, uma pobre rapariga da cidade, que cozia a dias. Louçã, fresca, de grandes olhos claros, gostava dos vestidos de seda, dos brincos d'oiro e das rendas. Depois do primeiro anno, tiveram Marcia, que poz no lar contente um ponto de luz. Em volta d'ella os carinhos adejaram. E as mãos habeis da mãe cançaram-se a arranjar-lhe touquinhas, camisinhas, pequenas coisas de linhos finos que iam á cidade comprar. Parecia uma filha de gente rica, tão garrida andava.
E linda, com o seu cabellito loiro e os olhos azues muito largos, sempre abertos como a querer aprehender toda a vida, todo o mundo.
Aos sete annos adoeceu gravemente. O medico ia duas e tres vezes a casa, cada dia. E á noite, depois de vêr a pequena, ficava ali, emquanto o pae somnoleava, a conversar com a mãe. O medico era novo, janota, tinha os bigodes pretos retorcidos e dizia versos. A mãe caiu-lhe nos braços, uma noite em que Marcia ficára livre de perigo.
—O que eu vi! Vocemecê não acredita, mas vejo ainda! É como se estivesse diante d'elles na minha caminha! Elles punham-se aos beijos e aos abraços, pensando que eu dormia. Eu não dizia nada, nem sabia o que era. O pae ficava fóra, a dormitar, na salla de meza. Uma noite elle entrou e apanhou-os abraçados. Voltou{88} sem fazer bulha para dentro. Trouxe uma foice comsigo. E degolou-os ali, o medico primeiro, a mãesinha depois.
«Agarrou-o pelo cabello e foi como quem monda herva, só d'uma vez. E atirou para o chão a cabeça, de que escorria sangue. A mãe nem pôde gritar. Nem eu, que sentia um peso aqui, na garganta. Tambem degolou a mãe e atirou para o chão com a cabeça. A mãe custou mais. Foi aos sacões que a acabou. Depois poz as cabeças e os corpos fóra a pontapés. A pontapés! E então? Parecia doido! E o quarto parecia-me todo vermelho, e meu pae, e eu mesma sentia o sangue escorregar-me pelas mãos. E queria limpal-as e não podia. Parecia que tinha as mãos atadas e sangue na bocca! Depois, meu pae, que pensava que eu dormia, veiu lavar a casa, muito devagar, para não fazer bulha. Depois chamou os creados. Então todos choraram. Mas meu pae não chorou. Veiu para o pé de mim e passou toda a noite a vêr ao candieiro se tinha sangue nas mãos. Chegava-se muito á luz para vêr as unhas. Depois lavava as mãos e sentava-se, punha-se a olhar muito para ellas, a esfregal-as, e ia laval-as mais!
A velha calou-se por momentos. Depois proseguiu:
—É tal e qual! Vejo como se fosse vocemecê! As barbas do pae, que eram pretas, pareciam{89} encarnadas. E tudo, tudo estava tingido de encarnado!
«O pae foi preso, mas d'ahi a mezes saiu livre.»
Olhou para mim, e com terror:
—Parece que podia matar!
«Fiquei em casa com a mulher que me servira d'ama e melhorei. Antes Deus me tivesse matado, que não tinha soffrido tanto! Lembro-me de tudo! De tudo! É por isso que bebo. Quando bebo muito, parece-me que os casos se deram com outros; parecem coisas que me contaram. E bebo muito, bebo sempre, mas nada me esquece, senão quando cáio na estrada a dormir!»
E voltou á historia dolorosa da sua vida, sempre apressada, a querer acabal-a quanto antes.
Ficára com o pae, sombrio sempre, que lhe dizia palavras severas d'uma moral cruel e sanguinaria. Foi crescendo sem alegria na casa de crime e de amor. Um dia alguem a possuiu tambem. Sentiu os beijos que são vermelhos como o sangue e como sangue embriagam, nas boccas amorosas. Sentiu os abraços que apertam como uma cadeia de flores venenosas. Não me disse o nome do amante, não me deu uma unica indicação. Tratava-o por «alguem», sem odio.
Um dia sentiu que uma vida estranha se agitava dentro d'ella; confusa e alarmada, disse-o ao amante.{90}
—«Nunca mais appareceu. Escrevia-lhe, mas as minhas cartas ficavam sem resposta. Até que soube que «alguem» tinha abalado da terra.»
Referiu-me com terror os mezes angustiosos que passou a querer esconder o seu «peccado», como ella dizia. Eram sobresaltos continuos. Não o queria confessar a ninguem, não queria confidentes. Mesmo na quaresma fingiu-se doente e não foi á desobriga. Até do padre tinha medo, não fosse elle dizel-o ao pae. Este não via nada, absorvido sempre, ensimesmado, como quem tinha dentro de si imagens sufficientes para não recorrer ao mundo exterior. Vivia do passado, enlisado na noite vermelha em que matára os amantes que se beijavam.
Uma noite, no quarto escuro, onde não se atreveu a acender um candieiro, o filho nasceu entre estertores, ralos que Marcia mordia, para não despertar ninguem, para que ninguem suspeitasse do seu segredo. E n'essa noite, emquanto as dores do parto lhe rasgavam todas as fibras, estorciam todos os nervos e punham-lhe nos olhos a figura da morte horrivel, outras imagens se levantavam, nitidas, deante d'ella: o pae com a foice, os amantes que se abraçavam, e as cabeças decepadas a rolar no chão, com esguichos de sangue. O quarto era todo vermelho, outra vez, apezar da noite escura. E Marcia rasgava com os dentes os lençoes, mordia{91} os travesseiros, e o linho tinha um gosto a sangue dos proprios labios, mas dos outros, pensava.
O filho nasceu, n'um vagido. Marcia beijou-o, para o calar. Apezar de se sentir desmaiar, pegou n'elle amorosamente e embalou-o. Mas outro gemido saiu da massa informe. Parecia-lhe que era estridente, enchia todo o quarto, acordaria, talvez, a villa, como os sinos quando tocam, anciosos, a rebate.
As suas mãos magras apertaram a garganta do pequenino ser. Nem um ai. O filho devia estar morto. Levantou-se, a cambalear. As pernas dobravam-se. Com o pequeno n'um braço, de rastos, os olhos cheios de sangue da allucinação, rojou-se pelo quarto, abriu a porta, desceu as escadas ás arrecuas, saiu á rua.
Era uma noite clara, sem lua. As estrellas formigavam no ceu. A via latea, no azul escuro e transparente, era uma poeira de mica. As arvores faziam pastas de sombra na paisagem. Uma fonte doloridamente se lamentava, n'um tanque de pedra. Lembrava-se de todos os promenores. Na abegoaria mugiu uma vacca. E o cão veiu apressado e contente lamber-lhe as mãos. Ninguem sentira. Mas Marcia pensava ouvir passadas no estalido seco das folhas murchas que caíam e na brisa pelas ramadas, o mexer de vestes de pessoas a perseguil-a.
Em cada canto mais denso de sombra, via{92} olhos a espreital-a. E, em camisa, quiz correr, sem forças. De onde em onde, sentava-se, forçada, porque as pernas não podiam mais. Ouvia gritar a morta. E as suas unhas cravavam-se desvairadamente na garganta do innocente. Chegou ao fundo da quinta, um terreno de trigo já ceifado. Verão seco, a terra chistosa era dura.
—Foi com as minhas mãos que cavei a terra. Como era dura! Parecia que eram pedras que eu partia com as mãos. E ellas encheram-se de sangue. E eu, no meio d'aquelle trabalho feroz, ainda ouvia o innocentinho gritar. E apertava-lhe mais a garganta. E voltava a cavar, queria cavar fundo, para que não dessem com o corpinho quando lavrassem a terra para semear de novo. E não havia maneira! Não tinha força nem coragem para ir procurar uma enxada, um ferro, qualquer coisa com que podesse abrir a terra tão dura, que me fazia doer tanto as mãos. Sentia que rasgava os dedos. E tinha medo de que amanhecesse. Olhava para o Ceu, a vêr se já despontava a claridade. E parecia-me sempre vêr o ceu mais claro, ás vezes até pensava que havia sol de meio dia. E voltava a cavar, os olhos fechados, com raiva, sem saber bem o que fazia!»
Conseguiu fazer uma cova. Grande? Pequena? Não sabia dizel-o. Deitou terra por cima do cadaver ensanguentado, calcou-o com raiva, e então poude correr, por entre as arvores, a{93} bater nos galhos e nos troncos, a rasgar a camisa e as carnes, até casa. Ia amanhecendo. Um traço alaranjado corria na nascente. Metteu-se na cama e dormiu.
Calou-se. Estendeu-se nas pedras, de borco, a olhar fixamente para o mar. Era já noite. As estrellas palpitavam no céu transparente. O mar enchera-se de sombra. Os barcos tinham recolhido já. Ouvia-se apenas o quebrar das vagas na Bocca do Inferno.
Marcia levantou-se e estendeu-me a mão, supplicante:
—Dá-me um tostão para aguardente?!{94}
{95}
O CEGO
A ALBERTO D'OLIVEIRA.
{96}
{97}
O CEGO
O Pintor, que vivera intensamente na luminosa communhão das coisas bellas, no culto da Fórma e da Côr, sorvendo a Belleza religiosamente, como se aprecia um vinho velho, de repente cegára.
E no tumulo do seu atelier de que haviam fugido os modelos, errava angustiado, querendo com a mão sentir a linha das figuras que o seu divino pincel traçara, nas manhãs claras, entre tapetes que amorteciam os passos e ás vezes a queda dos corpos dos divans acolhedores.
Sentava-se no mesmo escabello veneziano, marchetado, tendo diante de si, no cavallete, uma tela. E vagarosamente ia traçando linhas, julgando ainda desenhar figuras, compôr peitos firmes, contornar curvas musicaes de quadris,{98} illuminar olhos abertos, cheios de sonho e de volupia.
Mas o pincel empastava tintas, inexperiente na mão do grande mestre, como na d'uma creança de peito.
Depois do inutil esforço, não podendo vêr, lançava ao chão, com raiva, a tela, e punha-se a passear, cambaleante, hesitante, como um ebrio, as mãos estendidas, como se da ponta dos dedos nascessem olhos, a guial-o.
E vivia apenas com um velho servo. O atelier morria ao abandono. Para quê a molleza dos tapetes persas, os brilhos dos espelhos de Veneza, os marmores das estatuas e a radiosa formosura dos seus proprios quadros divinisando a Vida? Para quê? Se tudo adormeceu sob a cinza que se acumulára nos seus olhos d'antes d'um tamanho brilho, esses olhos leaes, sem ironia, cheios d'amor por tudo o que tivesse uma particula de Belleza?
Fôra um grande pintor afamado. Retratára as mais elegantes senhoras da côrte, em vestidos sumptuosos que mostravam, n'um decóte largo, o cóllo nu, como uma enorme flôr. E nos seus quadros punha tanta voluptuosidade que a marqueza de Bouro, devota e pudica, recusára com horror o retrato; apesar do pequeno decóte, da garganta alva pareciam nascer rubras florescencias de desejos.
E nunca mais pintou retratos. Ideou quadros{99} em que a mulher e a vida eram divinisados. Fez bacchanaes, em que as sacerdotisas nuas agitam tirsos enramados, coroadas de flôres, numa loucura divina. Compôz uma scena das vindimas em que as mulheres comem as uvas, sob as latadas viçosas, das boccas dos amantes. Fez Leda e o cysne, em que, n'um lago transparente, as virgens descuidosas se banham. Um cysne apparece, airoso, vagaroso, o macio pescoço n'uma curva larga. E ellas querem apanhal-o á porfia.
E esses quadros d'uma athmosphera tão clara, d'um ceu tão luminoso, com carnaduras frescas, admiraveis seios que exhalavam, como uma flôr de tropico, um perfume estonteante, tinham-lhe dado a riqueza e a gloria.
A multidão apontava-o, nas ruas, com reverencia. As mulheres lançavam-lhe ternamente cobiçosos olhares. E o pintor gosava a vida, sem se prender, beijando as bôccas, aspirando o aroma das cabelleiras fartas, que caiam sobre as nucas, sobre as costas, como mantos finissimos.
Até que um dia cegou. Fechou a sua casa, como se tivesse partido para uma longa viagem, não querendo deixar vêr a ninguem o espectaculo turturante da sua angustia. E continuava a querer pintar, ainda o cerebro povoado pelas risonhas imagens, concupiscentes seios, rios translucidos, gemas coruscantes,{100} dobras sensuaes de sedas, sobre o ambar da pelle das morenas, sobre a magnolia das epidermes branquissimas.
Um dia, soube-se. Vagamente correu na cidade que o pintor magnifico cegára. A curiosidade durou tres dias. Os possuidores dos quadros viram com prazer a sua valorisação. Os collegas secretamente exultaram pelo desapparecimento do rival vencedor... E tudo caiu, tudo esqueceu.
Uma apenas se lembrou d'elle. Carinhosa, amorosa, forçou a porta teimosamente fechada. E entregou-se ao cego.
Dias passaram cruzados de angustias e de intensos prazeres. Até que um dia o pintor lhe disse:
—Eu tinha que coroar de rosas—a minha mão inutil nem para isso serve—a tua cabeça. Devia ajoelhar diante de ti e dar-te todo o meu sangue, pois que te dei já todas as minhas lagrimas. Vieste accender uma aurora no crepusculo eterno da minha cegueira. Permittiste que eu revisse a Belleza da Fórma. Com os meus dedos pude sentir como é pura a curva do teu seio, a linha das tuas espaduas e lindos os teus dedos. Trouxeste-me o aroma da carne moça, como uma brisa benefica leva a um prisioneiro o cheiro do feno. Senti outra vez a musica deliciosa das palavras de amor. E no teu corpo pequeno e flexivel, o teu rosto deve{101} ser como o luar d'um lirio sobre a sua haste...
Calou-se. Hesitou alguns momentos. Pareceu encher-se de coragem e continuou:
—Mas não posso vêr-te! Vivo comtigo, como n'uma somnolencia—um pouco de realidade e um pouco de sonho. Pode ser que os annos tenham feito brancos os teus cabellos compridos; que alguma doença má tenha esverdeado a tua pelle macia. Nas palavras que dizes, oiço ás vezes uma promessa, outras um retraimento. Não posso vêr nos teus olhos palpitar a tua alma. É como se todos os dias me apparecesses, ás escuras, com uma mascara na cara, um dominó a velar-te o corpo. Entrevistas em jardins frondosos, ás escuras. Tudo silencio, mesmo na minha alma. Chegaria até nós, lugubremente, o adormecimento da vida. E não serias inteiramente minha, apenas uma parte de ti me pertenceria, e a outra, uma promessa vaga. «Penso que nos encontraremos, dirias... Etheromana em busca de excitantes, romantica, caçando aventuras, feia sem remedio a esconder aleijões e a querer ouvir palavras que nunca ouviu, sou mais que tudo isso, acredita, e menos que uma illusão!» Que importariam as tuas palavras? No arroubamento dos beijos sentir-se-hia o travo do prazer incompleto. E beijo-te um pouco como se beija um phantasma. Se eu te podesse vêr, dir-te-ia que arrancasses a mascara,{102} ou que te fosses para sempre. Quereria ver-te, ou realidade inteira, deliciosa na pureza da atmosphera, ou sonho puro, como sei sonhar. Não posso com a tortura do meio mysterio que a nevoa dos meus olhos cegos cria... Podesses ser toda minha, conseguisse eu deitar abaixo a mascara, vêr-te na gloria da tua formosura, mesmo na miseria de alguma incuravel doença, fixaria na tela, com estrellas fulgentes, com sucos magicos de flôres desconhecidas, essa radiosa Belleza, ou essa deformidade, que se illuminaria, subiria aos ceus, como S. Julião quando beijou a bocca gangrenada do leproso. Apparecesses tu! Mas não. Ficas na meia luz como um phantasma!
E o cego, em passadas incertas, as mãos estendidas, saiu do atelier, onde a unica nota de vida era o soluçar da amante.{103}
A GLORIA
A CARLOS MALHEIRO DIAS.
{104}
{105}
A GLORIA
Qu'est-ce que ça fait que je sois une grande artiste, si je ne suis pas heureuse?
Anatole France—Histoire Comique.
Gonçalo Freire, o escriptor que um romance intenso tornára celebre, estava triste e desanimado no seu gabinete de trabalho.
Os candelabros Luiz XV brilhavam nas multiplas velas brancas, faziam saltar faiscas dos cobres doirados, das faianças onde corriam idilios em jardins frondosos. O seu studio era sempre luminoso, quer de manhã, com as largas janellas abertas sobre o rio, quer de noite com as resplandecencias das luzes. Dizia que assim a imagem surgia mais precisa, mais clara, mais latina.
Gonçalo não gostava do nevoeiro que os escriptores do Norte deixam entre os seus periodos. Amava o sol e os ceus macios, o mar{106} incendiado, as praias do Algarve d'areia doirada, os rios transparentes, onde, á tarde sómente, boia um fumo tenue.
Esse romance, «A Face do Homem» revelava esse amor da clareza e do equilibrio. Pondo de parte os intuitos sociaes que prevertiam a literatura moderna, ligára quadros d'uma emarcessivel belleza por um enredo forte, interessante e commovido.
Pessimista á feição de Nietzche, descrevera a miseria da face humana, depois de arrancada a mascara; puzera o homem diante de si, n'um espelho, e o homem sentira-se asqueroso. Mas, crendo no culto dionisico, esperava pela Arte cobrir a fealdade da vida. E, perto do homem, a mulher, florida pelo amor, representava o Sonho, a Illusão que cobre com um veo azul, a distancia, os montes escarpados.
O publico gostára. Seis edições successivas se tinham esgotado, entre aclamações, em dois mezes. Os jornaes tinham publicado o seu retrato com artigos encomiasticos, comparando-o a Camillo, pela riqueza e propriedade do vocabulario, a Eça pela ironia, a Fialho pelo vigor do descritivo, sendo superior a todos pelo interesse e pela suprema Belleza do seu ideal de latino.
Era um d'Annunzio com mais sinthese.
Todas as revistas e jornaes sollicitavam a preciosa colaboração; o Suisso chamára-lhe{107} plagiario e idiota, apontára-lhe seis erros de concordancia, descobrira que em Coimbra roubára versos a Anthero do Quental, n'um poemeto que correra impresso, Sunt lacrimae rerum, em que Gonçalo Freire acreditava no Inconsciente, segundo Hartman e na Vontade, segundo Schopenhauer.
Quasi todos os dias o editor lhe mandava molhos de cartas de admiradoras, umas apenas a dizer a palavra quente da sua admiração, outras pedindo autografos e uma ou outra marcando, misteriosa, uma entrevista, n'um coupé, em sitio escuso.
N'essa noite, ao entrar em casa depois d'uma bridge party, fora sentar-se, a querer trabalhar n'uma novella, de que esboçara já o plano. O creado levou-lhe a correspondencia que Gonçalo abriu, aborrecido. Uma carta d'um editor que lhe pedia um livro para lançar a sua livraria; uma actriz nova e elegante, que lhe lembrava a vaga promessa d'uma peça, duas amorosas a pedir-lhe entrevistas e um escriptor hespanhol que solicitava auctorisação para traduzir «A Face do Homem». A lapis azul, no summario do Mercure de France, chamavam-lhe a attenção para um longo artigo de Philéas Lebesgue, em que o critico entoava um hymno em seu louvôr, enaltecendo a harmoniosa belleza do romance, «mais subtil, como psychologia do que Bourget, mais moderno que Jean{108} Lorrain, e tão puro de estylo como Anatole France». Recommendava-o a Herelle, como sendo a obra d'um Annunzio mais intenso.
Era a gloria, vinda do anonymo, não a celebridade feita pelos amigos.
Moço ainda, trinta annos, rico, representante d'uma casa antiquissima com o brazão registado muito antes de D. João III, parecia um d'aquelles principes que as fadas assistem no baptismo, dando-lhes todas as venturas.
Mas, triste, Gonçalo foi á janella e rasgou cada uma d'aquellas cartas, lançando ao vento os pedaços de papel, que baixavam, pareciam hesitar e sumiam-se no escuro.
Na noite sem lua pareciam nascer no espaço as luzes dos navios, que punham na agua um reflexo de estrella. Encostado ao parapeito, Gonçalo muito tempo olhou para a escuridão que enchia o rio. Um ou outro ruido de carro chegava até elle, sem o despertar; de quando em quando na rua, ao longe, brilhava por um instante um electrico, como um meteóro.
E Gonçalo poz-se a pensar no amor que dentro de si trazia, sem esperanças, um amôr que tivera uma demorada cristalisação. Essa mulher surgia, luminosa e florida, deante d'elle, no escuro. Via o seu corpo magro e esbelto, a florescencia clara do rosto um pouco duro, o olhar indiferente. Era sempre assim. E, ensimesmando-se, a figura aparecia-lhe, como uma{109} obsessão, para acentuar o alheiamento, atormental-o mais.
Muitas vezes, quando compunha, largava a pena, porque a mulher vinha para defronte d'elle e não havia maneira de fechar-se no seu pensamento, continuar o periodo interrompido pela visita.
E punha-se a recordar de como nascera aquelle amôr. Vira-a muitas vezes nas festas, nas ruas, nos theatros, indiferentemente. Uma mulher elegante e nada mais, feita talvez pelas costureiras que dispõem de espartilhos, de faixas que apertam os quadris, de bouffants que disfarçam chatezas de peito, de tecidos leves, que dão a aparencia de ligeireza aos corpos.
Não a conhecia. Nunca fôra forçoso conhecel-a e como não o interessava, não se aproximou. Era a Maria do Amparo. Quando ella passava pelo Turf, alguem dizia, ou o proprio Gonçalo:
—A Ampáro vae hoje bem.
—É uma mulher interessante.
—Veste-se bem, principalmente.
E tanto tempo a vêl-a, outras o chamaram, trouxe o seu coração envolvido em outros amores risonhos, quasi sem se prender. E a Maria do Amparo continuava a aparecer em toda a parte, elegante, um pouco preciosa, viva, um sorriso na boca fina que mordia para avivar o traço roseo dos labios.{110}
Uma noite, em S. Carlos, n'uma visita a um camarote, Gonçalo encontrou-a. Amparo falou-lhe nos artigos que Gonçalo publicara n'um jornal, chronicas vivas sobre o Culto da Belleza, a belleza na cidade, nos monumentos, nos jardins e nas praças, belleza no lar cheio de flores, com moveis elegantes e comodos, belleza na mulher, artificialmente rectificada, por maquilhagens habeis e vestidos sabiamente confeccionados por mãos peritas. Attraiu-o a conversa. Amparo tocou com intelligencia e tacto nos pontos mais originaes, mostrou comprehender e sentir a Belleza, rodeou-o de frases amaveis, em que havia, ora no sentido, ora na entoação, alguma coisa de carinhoso, poz em campo toda a seducção de mulher elegante, chamando-o a si, lançando-lhe a perturbante luz dos seus olhos claros. A conversa, apesar de curta, um entreacto e o começo d'um acto, acabara n'um flirt.
Gonçalo procurou vêl-a. Esperou-a attento e ancioso no Chiado, frequentou as casas onde poderia encontral-a. E as tardes de recepções, os raouts, as sauteries, e mesmo as empertigadas recepções diplomaticas, eram leves flirtations, que o deixavam absorto, andando pelas ruas sem attender a nada, sorrindo-se ás vezes de alguma palavra dita por ella, de um gesto mais expontaneo.
Todos os elementos de seducção foram postos{111} em pratica por Amparo. E na alma de Gonçalo começara a cristalisação; a rede ia-o apertando, avassalava-o a mulher deliciosa, como os antigos retiarios os seus adversarios nos circos romanos.
Gonçalo já não pensava em mais nada. Logo depois do almoço, em vez de sentar-se á meza, a trabalhar, ia para a rua sem destino, com a vaga esperança de a encontrar, de a vêr na carruagem. E em todas as festas se aborrecia até chegar a Amparo. No Gremio pedia todos os jornaes, sem poder lêr nenhum, porque se alheava, recordava os momentos felizes, idealisava impossiveis sonhos, uma fuga para algum paiz onde ninguem o conhecesse, e Amparo vivesse só para elle, esquecida do hediondo marido, de todas as caricias, de toda a vida interior. Se por acaso lhe passava pela mente a ideia justa de que Amparo nunca deixaria a vida mundana, a «consideração», a «situação», logo Gonçalo a sacudia por importuna, e enlevava-se no sonho.
Era uma vida feliz, apesar do pouco que ella dava—olhares, commovidas palavras, promessas n'um futuro remoto e impreciso, e, um ou outro beijo nas mãos que tinha macias, palidas, mãos entre sensuaes e misticas da Gioconda, sem a aristocracia das mãos de Velasquez ou Van Dick, sem a luxuria que rosea os dedos das figuras do pintor de Verona.{112}
De repente, porém, começou a esquivar-se a Amparo. Houve palavras dubias, falou de consciencia e de dever; prometeu um amor eterno, mas ideal, sem pecado, um amor que lhes cubrisse a vida com uma gaze leve, como um zaimpho. E mais e mais se foi esquivando, emquanto em Gonçalo o amôr se tornava mais forte, enchia-lhe o peito de desespero, amachucava-lhe todas as energias e dava-lhe a sensação de ter, dentro de si a alma, como o chapeu alto d'um clown.
E diante da noite, rasgando as cartas d'amor das outras e as aclamações do publico, Gonçalo, a chorar, repetia a frase da heroina da Histoire Comique:
—Que importa que eu seja um grande artista, se não sou feliz?{113}