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Flores do Campo

Chapter 34: FABULA
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About This Book

A obra reúne poemas líricos de curta e média extensão que meditam sobre o amor, a saudade, a natureza e a fé, alternando versos apaixonados e elegíacos com imagens campestres e florais. O texto percorre consolos íntimos e reflexões religiosas, incluindo leituras de salmos e do Cântico dos Cânticos, além de fragmentos narrativos e peças dirigidas a destinatários pessoais. A linguagem privilegia a simplicidade e o tom confessional, ora suave e ternurento, ora sombrio, e organiza-se em poemas independentes que, juntos, compõem um retrato emocional entre o doméstico e o espiritual.

N'UM ALBUM

Pedindo-se ao author uma poesia

Não me admira a mim que o sol, monarcha
De indisputavel throno, e throno eterno
        Em céo e terra e mar;
Que em seu imperio o mundo inteiro abarca
Abaixe á pobre flôr seu dôce e terno,
        Mavioso olhar.

Não me admira a mim que a crystallina,
Tão pura, onda do mar, que espelha a face
        Do astro creador,
Que essas asperas rochas cava e mina,
Á praia toda languida se abrace
        E toda amor!

Mas sendo vós um sêr mais precioso
Do que onda e sol—um anjo de poesia
        Inspirada e que inspira;
Que ás minhas mãos, das vossas, tão mimoso,
Delicado penhor descesse um dia
        É que me admira.

Quizera nos meus cofres de poeta
Ter as riquezas todas do Oriente,
        E com mãos liberaes
Expulsar esta duvida que inquieta
Um grato coração que apenas sente
        E... nada mais!

De limpido diamante e fio de oiro,
Quizera-vos tecer collar que á aurora
        Vencesse em brilho e côr;
Mas o poeta, o unico thesoiro
Que tem, ah! são as lagrimas que chora
        E o seu amor.

Eu vol-o dou. E lá do espaço immenso
Se amada estrella olhar piedoso envia
        A quem da terra a adora;
Se o sol aceita á flôr humilde incenso;
Ha no amor tambem muita poesia...
        Minha senhora!

Evora.

 

 

 

 

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
    Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
    Vá!

Um beijo é culpa
Que se desculpa:
    Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
    Vá!

Um beijo é graça
Que a mais não passa:
    Dá?
Teme que a tente?
É innocente...
    Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo...
    Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
    Dê!

Como elle é dôce!
Como elle trouxe,
    Flôr!
Paz a meu seio;
Saciar-me veio,
    Amor!

Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
    Flôr!
Deixa, concede
Que eu mate a sêde,
    Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
    Flôr!
A vida foge.
A vida é hoje,
    Amor!

Guardo segredo;
Não tenhas medo
    Pois!
Um mais na face
E a mais não passe!
    Dois...

Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
    Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
    Tres!

Tres é a conta
Certinha e justa...
    Vês?
E o que te custa?
Não sejas tonta!
    Tres!

Tres, sim. Não cuides
Que te desgraças:
    Vês?
Tres são as Graças,
Tres as Virtudes,
    Tres.

As folhas santas
Que o lirio fecham,
    Vês?
E que o não deixam
Manchar, são... quantas?
    Tres!...

 

 

 

 

Thuribulo suspenso inda fluctuo,
Em quanto a alma em incenso restituo;
Mas, quando como fumo que se esvai,
Minha alma! vás teu rumo... sobe e vai.
Vai d'estas densas trevas, d'esta cruz,
Levar-lhe... quanto levas, pobre luz!
Amor, que em mim não cabe, vai depôr
Em Deus, e Deus bem sabe se era amor;
Se d'outra flôr o calix mais libei
Por esses quantos valles divaguei;
Se um nome em igneo traço li no céo,
Nas ondas e no espaço, mais que o seu...
Deus sabe se eu dos montes vi tambem
Nos vastos horisontes mais alguem;
Nos tristes e risonhos dias meus,
Se alguem vi mais em sonhos, que ella e Deus.
Porém quem é que apanha o aereo véo
Da nuvem da montanha, se é do céo?
Se á terra a nuvem desce, quando vai
Tocar-se-lhe, desfez-se como um ai.

Coimbra.

 

 

 

 

Luz d'intima influencia,
Oh fugitiva luz!
Luz cuja eterna ausencia
É minha eterna cruz.

Podessem-te, ainda antes
Do meu extremo adeus,
Meus olhos fluctuantes
Vêr lampejar nos céos.

Se ainda n'esse espaço,
Tão longe onde tu vás,
Visse um reflexo baço
Da pura luz que dás;

Tornaram-se-me estrellas
As lagrimas de dôr;
E lagrimas são ellas...
Sim, lagrimas d'amor!

Vê n'esse espaço immenso
Os astros como estão
Bem como eu estou, suspenso
Por intima attracção.

Porque ha quem os attráia;
É essa eterna paz
Que a mim de praia em praia
A suspirar me traz.

Converte-me este inferno
Em azulado céo,
Ou quebra o laço eterno
Que a tua luz me deu;

Ou antes muda em espuma
De nunca estavel mar
Esta alma que alma alguma
Póde exceder em amar.

Em cinza, em terra, em nada,
Meu sêr converte, ó luz,
Mas sempre, sempre amada,
Deliciosa cruz!

Portimão.

RESPOSTA

A A. DO QUENTAL

Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando
Para as nuvens do céo, nuvens d'aquellas,
E parece-me ainda que mais bellas,
Anda a gente fazendo e desmanchando.

Dá-me uma saudade em me lembrando
O bello tempo que passei com ellas,
Por essa immensa abobada de estrellas,
Por esse mar de fogo viajando...

Andasse ainda eu lá, que não me havia
De vêr por estes charcos atolado,
Onde nem sol nem lua me alumia.

Andasse ainda eu lá, desenganado
Mesmo já como estou de achar um dia
A patria d'aonde ando desterrado.

 

 

 

 

Pois se o homem, se anjo e nume,
    Planta e flôr,
Dá seu canto, luz, perfume,
    Crença e amor;

Pois se tudo sobre a terra
    Que ame alguem,
Rosa ou espinho, quanto encerra
    Dá, se o tem;

Se os carvalhos, nus, medonhos,
    Veste abril;
Se inda a noite presta aos sonhos
    Graças mil;

Se onde ha ramo, voz uma ave
    Desprendeu;
Se onde ha folha, gotta suave
    Cahe do céo;

Se na praia, quando a onda
    Vem de lá,
Beijos, antes que se esconda,
    Mil lhe dá;

Tambem, anjo meu saudoso!
    Te hei de emfim
Ah! dar quanto de precioso
    Sinto em mim!

Dou-te o nectar, que me acalma;
    Toma-o tu!
Sim, meu pranto; mais uma alma
    Que eu possuo!

Dou-te os sonhos meus ardentes,
    Mas leaes;
Dou-te as notas mais cadentes
    Dos meus ais!

Do que ha lindo, tudo quanto
    Me seduz;
D'esta vida, riso e pranto,
    Noite e luz!

Dou-te o genio meu, que á sorte
    Vês fluctuar
Sem mais véla, sem mais norte
    Que esse olhar!

Dou-te a lyra, que me inspiras,
    Sonho meu!
Que suspira, se suspira,
    Flôr do céo!

Dou-te; aceita: tudo é santo,
    Tudo, flôr!
Dou-te uma alma toda encanto,
    Toda amor!

V. Hugo.

Coimbra.

FLÔR E BORBOLETA

Tu vôas, borboleta! e que eu não possa
          Voar, amor!
Diversa como é n'isto sorte nossa!
          Dizia a flôr.

No valle, ambas irmãs, nascidas fomos;
          És como eu sou;
E amamo-nos, e flôres ambas somos,
          Mas eu não vôo.

A ti leva-te o ar; prende-me a terra
          A mim; e eu
Como hei-de perfumar-te em valle e serra,
          E lá no céo!...

Mais longe inda tu vás, por outras flôres...
          Girar, talvez,
Em quanto a minha sombra, meus amores!
          Gira a meus pés!

E vens-me vêr depois, mas vaes-te embora,
          Sabendo, assim,
Que em lagrimas me encontra sempre a aurora!
          Pobre de mim!

Acabem-se estas mágoas, meu thesoiro
          E meu amor!
Cria raiz ou dá-me as azas de oiro,
          Celeste flôr!

V. Hugo.

Coimbra.

REMOINHO

Olha como embrulhado
Que está ainda o céo
E o chão, como ensopado
Da agua que choveu...

Foi um diluvio d'agua;
E o furacão, que fez,
Emilia! até dá mágoa
Tantos estragos: vês?

Esta infeliz víuva,
Foi-lhe o telhado ao ar;
Depois, já nem da chuva
Tinha onde se abrigar.

De mais a mais sósinha,
Sem ter nenhum dos seus
Aqui ao pé; ceguinha...
Bemdito seja Deus!

Além n'aquelle serro
Parece que raspou
Com uma pá de ferro
A terra que encontrou.

Nem um só pé de trigo
És lá capaz de vêr.
Já eu disse commigo:
Como póde isto ser?

As arvores arranca
O vento muito bem;
Serve-lhe de alavanca
A rama que ellas tem.

Vem de lá elle e, topa
N'uma arvore, o que faz?
Enrola-se na copa
E, tronco e tudo, zás!

Que as folhas não são nada,
Uma por uma, não;
Mas já uma pernada...
Tão poucas ellas são?

Vê lá se o teu cabello
É para comparar;
Mas, possa alguem sustel-o,
Levanta-te no ar.

Aqui um loureirinho,
Que era o que havia só,
Encontra-o no caminho,
Ia-o fazendo em pó.

D'aqui passa, á maneira
Assim d'um caracol,
Áquella farrobeira
Põe-lhe a raiz ao sol.

Aquelle enorme tronco
Quiz resistir, depois,
Ouviu-se um grande ronco,
Quando o eu vejo em dois.

Andava a rama toda,
Emilia! assim, vês tu?
Á roda, á roda, á roda,
Eis senão quando, rhuh!

Foi quando veio o outro
Urrando como um boi,
Oh que horroroso encontro!
Então é que ella foi.

Vês uma cobra enorme
Á calma, quando está
Grande calor, conforme
As tenho visto já?

Que não tem ar avonde,
Falta-lhe já o ar,
Quer sangue ou agua onde
Se possa refrescar;

Anceia-se, sacode
O corpo todo a vêr
Se vôa, mas não póde;
Voar não póde ser;

E como não supporta
Já o calor do chão,
Ao vêr-se quasi morta
De raiva e afflicção,

Apenas finca a ponta
Do rabo em terra, e sái;
E faça-se de conta
Que é a voar que vai

N'aquellas roscas todas
Que, olhando-se-lhes bem,
São outras tantas rodas
Em cima d'onde vem;

N'aquelle parafuso
—Aquelle rodopio,
Á roda como um fuso
Suspenso pelo fio;

Com a cabeça chata,
Aquelle olhar feroz,
Aquelle olhar que mata
Sempre de fito em nós?

Assim d'essa maneira
É que elle vinha, o tal;
Salta-lhe á dianteira
Este de força igual;

E assim que se avistaram,
Não sei o que lhes dá;
Ficam suspensos, param,
Como com medo já;

Aquelles sorvedouros,
Em vez de remoinhar,
Parecem-se dois touros
Jogando a terra ao ar;

Ouvia-se a oliveira
Zunir no ar, então,
D'um para o outro inteira,
Nem bala de canhão;

E assim se vão chegando
Cada vez mais, até
Que eu ólho, eis senão quando
Vejo... mas vejo o que?

. . . . . . . . . . . . . . .

Messines.

AMORES, AMORES...

Não sou eu tão tola
Que cáia em casar;
Mulher não é rola,
Que tenha um só par:
  Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra côr,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.

Que mal faz um beijo,
Se apenas o dou
Desfaz-se-me o pejo,
E o gosto ficou?

  Um d'elles por graça
Deu-me um, e depois,
Gostei da chalaça,
Paguei-lhe com dois.

Abraços, abraços
Que mal nos farão?
Se Deus me deu braços,
Foi essa a razão.
  Um dia que o alto
Me vinha abraçar,
Fiquei-lhe d'um salto
Suspensa no ar.

Amores, amores.
Deixál-os dizer;
Se Deus me deu flôres,
Foi para as colher.
  Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra côr,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.

FABULA

Um dia os deuses, cada qual uma arvore,
Á sua guarda consagraram: Jupiter
Esse o carvalho, a murta Venus, Hercules
Lá esse o alemo, e o loureiro Apollo.
Vendo-as Minerva todas infructiferas:
Que é isto? exclama. Jupiter acode-lhe:
Senão, diriam, filha! que as guardavamos
Só pelo fructo.—Que me importa digam-no;
É pelo fructo que a oliveira escolho.

Minerva! brada o pai d'homens e deuses,
És quem, de todos, sabes mais sem duvida;
No que não luza... mal fundada gloria.

Honra sem proveito
Faz mal ao peito.

Phedro.

Coimbra.

BOAS NOITES

Estava uma lavadeira
A lavar n'uma ribeira,
Quando chega um caçador.

—Boas tardes, lavadeira!

—Boas tardes, caçador!

—Sumiu-se-me a perdigueira
Alli n'aquella ladeira,
Não me fazeis o favor
De me dizer se a bréjeira
Passou aqui a ribeira?

—Olhai que d'essa maneira
Até um dia, senhor,
Perdereis a caçadeira,
Que ainda é perda maior.

—Que me importa, lavadeira!
Aqui na minha algibeira
Trago dobrado valor.
Assim eu fôra senhor
De levar a vida inteira
Só a vêr o meu amor
Lavar roupa na ribeira...

—Talvez que fosse melhor,
Vêr... coser a costureira!
Vir, de ladeira em ladeira,
Apanhar esta canceira
E tudo só por amor
De vêr uma lavadeira
Lavar roupa na ribeira...
É escusado, senhor!

—Boas noites... lavadeira!

—Boas noites, caçador!..

Messines.

GASPAR

Ora se não sei eu quem foi teu pai!
Fidalgo: sei perfeitamente bem.
O que eu não sei, Gaspar! é o que vem
N'esta vida fazer quem já lá vai.

Já se vê que é aos paes que a gente sái.
Tal pai, tal filho; sim, duvída alguem
Que um pai se é como o teu, homem de bem,
Tu és homem de bem como teu pai?

D'isto não ha quem possa duvidar.
Mas queres um conselho que eu te dou?
Não mexas n'isso... cala-te, Gaspar!

Que eu, cá por mim, bem sabes como eu sou,
Mas é que outro talvez mande tirar
Certidão de baptismo a teu avô.

Coimbra.

 

 

 

 

Deixa que ao romper d'alva o cravo abrindo,
        Á rosa envie o aroma;
E lá quando alta noite a lua assoma,
        O rouxinol carpindo!

Que pela face a lagrima resvale
        De quem no exilio geme;
E quando a propria sombra o homem teme,
        Que a mãi seu filho embale.

Deixa que ao espaço immenso os olhos lance
        O sol antes que expire;
Que pelo norte a bussola suspire
        E nelle só descance.

Amam leões e tigres. Não ha nada,
        Anjo! que a amor se esconda.
Beija a pomba o seu par; e abraça a onda
        A rocha inanimada.

Deixa que a nuvem negra tolde a lua
        Se a leva a tempestade;
Deixa que eu te ame a ti, cara metade,
        D'esta alma toda tua!

Coimbra.

CARTA

Maria! vêr-te á porta a fazer meia,
Olhando para mim de vez em quando,
É o que n'esta vida me recreia.

Acordo até de noite suspirando
Por que rompa a manhã e tenha o gosto
De te vêr já tão cedo trabalhando.

Desde pela manhã até sol-posto
Que não tens de descanço um só momento;
Por isso tens tão bella côr de rosto.

E eu pallido, Maria! O pensamento
Não é trabalho que nos dê saude,
Esta imaginação é um tormento.

Que bello tempo aquelle em quanto pude
Levar, como tu levas, todo o dia
N'essa vida chamada ingrata e rude!

Nunca soube o que foi melancolia,
Nunca provei as lagrimas salgadas
Com que a nossa alma as penas allivia;

Andava sim por essas cumiadas
Ao sol, á chuva, muita vez, sósinho,
Vendo os valles, das rochas escarpadas;

Descendo pelo córrego estreitinho,
De pontal em pontal, cortando o matto,
Pelas chapadas, fóra de caminho;

Mas não era que já o teu retrato
Me andasse a mim no coração impresso,
Onde hoje o trago no maior recato,

E um desengano teu que não mereço
Me tivesse tirado a fé tão dôce
D'alcançar algum dia o que appeteço.

Não foi, não, a paixão que assim me trouxe
Tão erradio a mim, digo a verdade
E nem eu te negava se assim fosse.

É que a gente na sua mocidade
Não cabe em si, não pára de contente,
E assim fui eu na flôr da minha idade.

Tu eras n'esse tempo simplesmente
A flôr que vai nascendo e mais valia
Seres tão tenra ainda e innocente.

Já esse lindo pé que tens, Maria!
Esse quadril tão largo, e cinta estreita,
Me não vinha á idéa noite e dia;

Esses encontros de mulher perfeita,
Esse peito redondo e arqueado
Como o de pomba farta e satisfeita.

Talvez vivesse então mais socegado,
Ou já que minha sorte é sempre triste
Ao menos não andasse enfeitiçado.

Esse bello pescoço, não existe
Outro assim torneado: o rosto é lindo
E a tão meiga expressão ninguem resiste.

A bocca é tão vermelha que, em te rindo,
Lembra-me uma romã aberta ao meio
Quando já de madura está cahindo.

Esses olhos azues... que olhar! Receio
E desejo estar sempre a contemplal-o;
Não ha mais dôce e mais custoso enleio:

Eu não oiço fallar então, nem fallo
De enlevado que estou e, juntamente,
Gemendo e abafando os ais que exhalo.

Oh nuvem da manhã resplandecente,
Manto real de sêda delicada,
Cada fio um grilhão que prende a gente.

Bem podias, Maria! andar tapada
Só com o teu cabello, á semelhança
Do sol em nuvem de manhã doirada.

É tudo encantador. A gente cança,
Cança de estar olhando e sempre vendo
Um novo encanto a cada olhar que lança.

E se essa linda voz nos sái dizendo
As mimosas palavras que costuma,
Sente-se a gente logo derretendo;

Que além d'um rosto tão perfeito, em summa
Coube-te em sorte um coração perfeito
E em ti não ha, Maria! falta alguma.

Oh que ditoso, alegre e satisfeito
Não viverá o homem que algum dia
Sentir pular-te o coração no peito,

E que em deliciosissima agonia,
Vendo-te já os olhos desmaiando
Como desmaia o céo á luz do dia,

Nas azas da ventura atravessando
Os espaços d'um extasi ineffavel
Abraçado comtigo fôr voando
Lá para onde tudo é bello e estavel!

Messines.

 

 

 

 

—Dá-me esse jasmim de cera,
      Minha flôr?
—Mas e depois se lh'o dera,
      Meu senhor?

—Depois? era uma lembrança.
      —Mas de quê?
—D'uma tão linda criança,
      Já se vê.

—Oh tão linda! Mas, parece,
      Sendo assim,
Que inda quando lhe não désse
      Tal jasmim...

—Não me esquecia, de certo.
      —Nunca já?
—Nunca.—Nunca, é muito incerto,
      Mas... vá lá.

—E a rosa, que bem lhe fica,
      Dá-m'a, flôr?
—Oh a rosa, a rosa pica,
      Meu senhor!

Messines.

MARGARIDA

Oh que formosos dias, Margarida!
Esses da tua vida;
E que nublados
Meus dias desgraçados!

Nasci tambem assim risonho e meigo,
Mas hoje apenas chego
O calix da ventura
Á bocca ancioso,
Torna-se a agua impura
E o liquido que bebo
Venenoso,
Sim, venenoso o liquido que bebo.

Nem eu concebo
Como Deus me creasse
Para tormento eterno;
Elle que tão affavel, meigo e terno
Te beija a ti a face
E te embala no collo, Margarida!
A mim dar-me esta vida...

Mas vejo á sombra d'altos edificios
Miudissimas flôres
De tão subtís e delicadas côres
Que se o sol lhes chegasse
Talvez que nem resquicios
Lhes ficasse.
  Com uma d'essas azas, estendida,
Me tapavas tu todo,
E d'esse modo,
Com esse escudo,
Eu ria-me de tudo
E levava esta vida alegremente.
Tenho essa fé.

Vejo tambem a flôr que nasce ao pé
D'agua corrente,
Ir tão suavemente
Levada pela agua!
Talvez até sem magua
De deixar sua mãi.
  D'esse modo tambem,
Amparando-me tu a mim nos braços,
Eu seguia-te os passos,
Fosse por onde fosse;
E d'essa sorte
Até a morte
Me seria dôce.

Messines.

NO LEITO NUPCIAL

Dorme, estatua de neve,
Vergontea de marfim!
Tocar que impio se atreve
No que é sagrado assim?

Dois são: o mais, mysterio
Vedado á terra. Deus
Talvez do solio ethereo
Nem baixe os olhos seus.

Respeita-os, tapa-os, como
Japhet e Sem, o pai...
Pende, sagrado pomo!
A vista ergue-se e cai.

Ergue-se e cai, conforme
A lei, que o manda assim.
Ergue-se e... Dorme, dorme,
Vergontea de marfim!

Mas dize: o espelho a imagem
Te estampa mal te vê;
Beija-te o seio a aragem,
Doira-te o sol; porquê?

Não segue acaso a sombra
Teu corpo sempre, flôr!
E pois, porque te assombra
Meu insensato amor?

Ás vezes passas tremula
Como sagrada luz;
E os olhos dizem: vemol-a
Como no alto a cruz.

Perdoa se isto exprime
Maldade aos olhos teus;
Perdoa-me se é crime...
Amo tambem a Deus.

E á tarde quando o albergue,
No solitario val,
Incenso queima e se ergue
D'Abel o fumo igual;

Da pomba solta o vôo,
Baixa-me um olhar teu
E dize-me: perdôo;
Sim, tudo aspira ao céo!

Coimbra.

A MINHA MÃI

Patria! berço d'amor, que a alma embala
Em quanto a luz vital nos illumina,
E onde só descançado se reclina
Quem, longe d'ella, dôr contínua rala...

Se n'essa essencia, mãi! que a flôr exhala
Na essencia d'uma flôr d'essa collina,
Vês lagrimas d'amor que dentro a mina,
Com saudades de quem do céo lhe falla:

Se quando, o céo buscando, o fumo ondeia,
Quando esse valle o sol deixa indeciso,
Vês como fumo e flôr aspira, anceia

Um pai, um Deus, um céo, um paraiso,
Ah! tendo eu tudo, tudo, em minha aldeia,
Vê tu se labio meu desfolha um riso!

Coimbra.

BEATRIZ

Tu és o cheiro que exhala
Ao ir-se abrindo uma flôr,
Tu és o collo que embala
Suas primicias d'amor.

Tu és um beijo materno,
Tu és um riso infantil;
Sol entre as nuvens do inverno,
Rosa entre as flôres d'abril.

Tu és a rosa de maio,
Tu és a flammula azul,
Que atam á flecha do raio
As nuvens negras do sul.

Tu és a nuvem d'agosto,
Meu alvo vello de lã!
Tu és a luz do sol-posto,
Tu és a luz da manhã.

Tu és a timida corça
Que mal se deixa avistar;
Tu és a trança que a força
Do vento leva no ar.

És a perola que salta
Do niveo calix da flôr;
És o aljofar que esmalta
Virgineas rosas d'amor.

És a roseira que a custo
Levanta os cachos do chão,
És a vergontea do arbusto,
Anjo do meu coração!

Tu és a agua das fontes,
Tu és a espuma do mar,
Tu és o lirio dos montes,
Tu és a hostia do altar.

És o pimpolho, és o gommo,
És um renovo d'amor;
Tu és o vedado pomo...
Tu és a minha Leonor...

Tu és a Laura que eu amo,
E a minha Taboa da Lei,
E a pomba que trouxe o ramo,
E a margarida que achei.

És o lirio, és a bonina
Dos valles do meu paiz;
És a minha Catharina...
És a minha Beatriz!

Coimbra.

INNOCENCIA

Encolhe as azas, que te abrazas, louca!
O fogo mata a quem o gera, attende;
Foge e, se a vida te aborrece, estende
Um braço aos anjos, que a distancia é pouca.

Porque uma nuvem, onda transitoria
Do mar immenso, vem pousar na serra,
Não fica a nuvem pertencendo á terra:
Tu és o anjo que desceu da gloria.

Estranhas forças para ti me attrahem;
E ás vezes cedo, tua cinta enleio;
Teus olhos beijo; mas, contemplo o seio,
Tua alma dorme, e os meus braços cahem...

Desfallecidos, flôr celestial!
Como ante um berço cahe a foice erguida,
Se ha n'elle mais do que uma simples vida,
Se ha innocencia que mil vidas val.

Oh! não: teus labios o meu fel não provem:
Outros os lirios d'essa face esmaguem;
D'outros mãos impias teu sorriso apaguem,
Em quanto os labios tuas graças louvem.

Já no meu berço d'innocencia pude
Pesar as joias, que hoje em vão te invejo:
Provei os favos de illibado pejo,
Sei o que perde quem o vicio illude.

Alcantil ingreme, onde o raio é certo,
Contém mais seiva, que inda o musgo cria:
Quanto de fertil em nossa alma havia
Só deixa o ermo da saudade aberto.

Cahir no abysmo de intimos pezares
D'essas alturas onde mal te vejo,
O ponto estava derreter n'um beijo
O fio de oiro que te manda aos ares.

N'esses dois cofres, n'esse collo aonde
Tantas riquezas enterrei ciumento
(E que alta noite vela o pensamento
Pelo crystal que o coração te esconde)

Em oiro em barra, fina prata e quanto
Coalha o vasto e opulento Oriente,
Fôra em ruinas encontrar sómente
Carvão, se um dia te quebrasse o encanto.

Casta innocencia, de Deus filha e bella
Entre as mais bellas! virginal aroma!
Rosa ineffavel, que, se á luz assoma,
Haste e raiz apodreceu com ella!

Sol, que uma vez em nossa vida passas!
Flôr, que uma e neutra, como Deus, não gera;
Que se abre morre, mas sem prole, inteira
Com todo o côro das virgineas graças:

Ao vêr-te, embora meu olhar te envia
O impio incenso de Nadab, ajoelho...
Rosa da face e, não só rosa, espelho
Da face occulta de quem espalha o dia!

Se por teus membros orvalhadas flôres
Prodigas mãos da formosura entornam,
Flôres mais bellas o teu seio adornam...
Vós, lirios d'alma, virginaes amores!

O céo me encanta, como encanta o inferno.
Mysterio... espaço... mente exploradora!
Morre nas mãos o que a nossa alma adora
—Vago, impalpavel, infinito, eterno!

Evora.

 

 

 

 

A Escriptura Sagrada
Lá diz que uma mulher má
Não ha fera, não ha nada
Peor no mundo: e não ha.

Uma lá da minha aldeia,
Que era muito impertinente,
Muito má (e muito feia)
Morre um dia de repente.
Morreu; desgraçadamente
Mais tarde do que devia;
Mas em summa toda a gente
Teve a maior alegria.

Passados annos (é boa!)
Foi-lhe preciso ao coveiro
Abrir a cova, e achou-a
Ainda de corpo inteiro,
Ainda rosas na face,
Ainda signaes de vida...
Milagre! coisa sabida;
Pois mais fresca que uma alface
Ha tanto tempo enterrada,
Devendo estar reduzida
A pó, terra, cinza e nada...

Vem dar parte; e corre a vêl-a
O povo atraz do prior;
E passam logo a trazel-a
Em cima do seu andor
E a pol-a n'uma capella
De grande veneração;
(Elles ás costas com ella,
E elle a cantar canto-chão;)
Mas seja lá o que fôr,
O que é certo e mais que certo
É que santa como aquella
E nem de mais devoção,
Não ha por alli tão perto.

E dizem que não ha santos
Como nos tempos passados!
E cá opinião minha
Que muitos (quantos e quantos!)
Que ahi morrem desprezados,
Se não são canonisados
É que está cheia a Folhinha.

Messines.

A UM NUNO

Provando a existencia de Deus a pobres camponezes

Ora a provar que ha Deus, Nuno! isso é teima:
Pois ha alguma ovelha no rebanho
Que não saiba que só a mão suprema
Creava um animal d'esse tamanho!

A ***

Pois se como sempre fomos
      Somos
Pétalas da mesma flôr,
E o que eu sinto, ou eu me illudo,
      Tudo
Tambem sentes, gosto e dôr;

Que te arraza os olhos d'agua?
      Magua
Em que eu não deva tocar?
Oh! mas se ha quem a suavise,
      Dize,
Vou-lhe um suspiro levar.

Não se alcança, não se avista,
      Dista
D'aqui muito o allivio, ou não?
Dos teus olhos muito; e pouco,
      Louco!
Pouco do teu coração.

Sei o que vai em teu seio;
      Sei-o
Porque em materia d'amor,
Debalde os labios se calam!
      Fallam
Ainda os olhos melhor!

Batalha.

LUZ DA FÉ

Tu, sol! já não me alegras
Como alegravas, não:
Vós, sim, ó nuvens negras,
Relampago e trovão!

Quando o trovão me aterra,
Recordo-me de Deus;
Abalo cá da terra
E vou por esses céos:

E lá n'essas alturas,
Por onde só a fé,
Em regiões tão puras,
Nos deixa tomar pé;

Voar, pairar nos ares
Como uma aguia cá,
De lá só vejo os mares,
E é porque a luz lhes dá.

O mais como se apanha
E empolga com a mão,
Seja a maior montanha,
Seja a maior nação;

O mais fica no fundo
D'esse infinito mar;
O mais pertence ao mundo,
É escusado olhar.

Deus deixa ás creaturas
Cá baixo a sua cruz,
E fecha as almas puras
N'um circulo de luz.

As chagas, as miserias
Cá d'este lamaçal,
Nas regiões ethereas,
Lá não se avista tal.

É só a luz, que foge,
Mais uma irmã que tem
—A alma, que até hoje
Não a prendeu ninguem;

São essas duas luzes
(Qual d'ellas tão subtil
Que ás forcas e ás cruzes
Do despota mais vil,

Se escapam de tal modo
Que é de o fazer raivar)
Cá d'este mundo todo
O que se vê brilhar!

Porque uma e outra aspira
Continuamente ao céo,
A alma que suspira,
E a luz que Deus nos deu.

Porque uma e outra é pura,
Perpetua e immortal;
E a sua formosura,
Não ha nenhuma igual.

Quem é, ó luz formosa,
Ó minha bella irmã!
Quem é que faz a rosa
Abrir pela manhã?...

Eu amo-te e (as trevas
Não teem esplendor!)
Tu só é que me levas
O tempo e o amor.

Mas eu estimo o raio
E gósto do trovão,
Por vêr que quando cáio
É que me elevo então.

Por vêr que em tendo medo
Mais se me aviva a fé;
E a fé, não ha rochedo
Firme como ella é.

Por cima da desgraça
Ou seja do que fôr,
Ella, não olha, passa
De fito no Senhor!

A essa luz divina,
Ó luz! é que tu és
Tão pura e crystallina
Como o Senhor te fez.

Por isso a noite escura,
Ah! se eu a preferi
Á tua luz tão pura,
É por amor de ti!

Messines.

RESPOSTA

A A. DO QUENTAL

Tal é a confiança que te inspira
Estes reis, estes povos, esta gente,
Que é para o céo que appella e se retira
Tua alma já de triste e descontente.

Mas Deus então seria ou impotente
Ou seria um Deus barbaro: mentira!
Não póde suspirar eternamente
Quem ha já tantos seculos suspira.

Vai ganhando terreno a luz brilhante,
Luz toda liberdade e toda amor
Que ha-de salvar o mundo agonisante.

A idéa, esse Verbo creador
Ha-de fazer que um dia e não distante
Só o nome de imperio inspire horror.

Messines.

 

 

 

 

Meu casto lirio,
Terno delirio,
Gloria e martyrio
Do meu amor!
Amo-te como
A haste o gomo,
O labio o pomo
E o olho a flôr.

Se ao meu ouvido
Sôa um rugido
Do teu vestido,
Que ouço roçar;
Que som me vibra
Não sei que fibra
Que me equilibra
A mim no ar!

E que harpa santa
É que me encanta
E enche de tanta
Consolação,
Quando uma falla
Terna se exhala
D'onde se embala
Teu coração!

Quando te vejo
D'um simples beijo
Córar de pejo,
Mudar de côr,
Que susto é esse
Que me parece
Te empallidece,
Rosa d'amor!

Quando no leito,
Teu niveo peito
Sonho que estreito
E aperto ao meu;
Vendo tão perto
O céo aberto,
Porque desperto...
Anjo do céo!

Não fujas, rosa!
Não fujas, goza
Manhã mimosa,
Manhã d'amor;
De folha em folha
A flôr se esfolha
Bem cedo, e olha
Que és como a flôr!

Coimbra.

VENTURA

O sol na marcha luminosa vôa
Lançando á terra magestoso olhar;
Passa cantando quem o ar povôa
E a praia abraça venturoso o mar.

No bosque o vento dôce canto entôa,
Ouvem-se em côro as multidões cantar;
Que a um só triste o coração lhe dôa,
Que eu seja o unico a soffrer, chorar...

Por ti, saudade... de quem vai tão perto
E a quem dos olhos e das mãos perdi
N'este tão ermo lugubre deserto!

Por ti, ventura... que uma vez senti;
Por ti, que ás vezes a meu peito aperto
E... o peito aperto sem te vêr a ti!

Evora.

 

 

 

 

Arida palma
Tem seu licôr,
Tem como a alma
Tem seu amor;
Tem como a hera
Tem seu abril,
Tem como a fera
Tem seu covil.

Tem toda a planta
Que o sol queimou
Lagrima santa
Que a orvalhou,
E o passarinho
Que hontem nasceu
Lá tem seu ninho
Que a mãi lhe deu.

Só eu na magua
Do meu penar
Sou como a agua
Que anda no mar,
Sou como a onda
Que á busca vem
D'onde se esconda,
E onde, não tem!

Folha revolta
Que anda no chão,
Lagrima solta
Do coração;
Corpo sem vida,
Haste sem flôr,
Folha cahida
Do meu amor.

Coimbra.