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Flores do Campo

Chapter 55: NÃO!
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About This Book

A obra reúne poemas líricos de curta e média extensão que meditam sobre o amor, a saudade, a natureza e a fé, alternando versos apaixonados e elegíacos com imagens campestres e florais. O texto percorre consolos íntimos e reflexões religiosas, incluindo leituras de salmos e do Cântico dos Cânticos, além de fragmentos narrativos e peças dirigidas a destinatários pessoais. A linguagem privilegia a simplicidade e o tom confessional, ora suave e ternurento, ora sombrio, e organiza-se em poemas independentes que, juntos, compõem um retrato emocional entre o doméstico e o espiritual.

A UNS OLHOS AZUES

Cahe a folha da rosa pudibunda,
Cahe a rosa da face virginal,
Cahe das nuvens a aguia moribunda,
Cahe o sol na montanha occidental.

Cahe a onda na praia, cahe do somno
O poeta na luz; e cahe das mãos
Dos despostas o sceptro, elles do throno,
Como a seus pés cahiram seus irmãos!

Cahe dos labios o riso; cahe dos olhos
A lagrima tambem, que d'alma sahe;
Cahe a rocha no mar, cahe nos abrolhos
A flôr de liz; de louro a folha cahe.

Cahe do céo a centelha incendiaria,
A nuvem cahe se um sopro Deus lhe dá,
Cahe ante o dia a noite solitaria
Como o falso Dagon ante Jehovah.

Cahe tudo, flôr! cahe tudo; eu só não cáio:
Mais do que um rei, que o sol, igual a Deus,
Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio
Se elle cahir do céo dos olhos teus!

Luso.

HERESTA

Que magua ou que receio
Dos olhos te desata
Aljofares de prata
No jaspe do teu seio?

Bem intima ser deve
A pena que te opprime,
Flôr tenra como o vime,
Flôr pura como a neve!

—Compunge-te isso, dóe-te
Vêr esmaltando o calix
Da erma flôr dos valles
O balsamo da noite?

Se aos olhos nos affluem
As lagrimas, parece
Que a dôr nos adormece,
E as maguas diminuem.

—Heresta! pois inclina
Na minha a tua face
E deixa me repasse
Teu balsamo, bonina!

Abraça-me, divide
Commigo esse consolo,
Enlaça-te ao meu collo
Como ao olmeiro a vide!

Ás vezes tambem quando
Os olhos se me estendem
Ás luzes, que se accendem
No templo venerando;

Tão intima saudade,
Tão intimo desejo,
D'um mundo, que não vejo,
Me inspira a immensidade...

Que o pranto se agglomera
Na palpebra, onde morre;
Sim, gela-se, não corre,
Tal é a dôr que o gera!

—É Deus que a si te aspira,
É Deus que ao céo te chama;
Que em tudo amor derrama,
A tudo amor inspira!

Canta-o, o justo, o santo!
E a flôr que o campo adorne
Thuribulo se torne
Mal te ouça o dôce canto.

—Inspira-o pois, inspira,
Virgem de intacto pejo!
Seja um teu riso o harpejo
E um teu cabello a lyra!


O sol já da montanha
Te disse adeus! adeus!
E a cupula dos céos
Ficou pallida e estranha.

E aquella, que a bondade
De Deus em si reflecte,
Em quanto ao sol compete
Mostrar-lhe a magestade,

Á luz extrema d'hoje
Ergueu livida a face
Com medo que avistasse
Quem busca, e de quem foge.

Fluxo e refluxo eterno
D'alma contradictoria,
Que após continua gloria,
Anda em continuo inferno.

Poeta! é copia tua,
Supplicio igual te inquieta.
Mas que alma de poeta
Teu seio arqueia, oh lua?

Amor, amor como este,
Visão timida e casta
Em giro eterno arrasta
A lampada celeste.

Como esse que a deshoras
A ti te ergue a cabeça
E aos ermos te arremessa
Em busca do que adoras.

Mas, ah! pallido globo!
É pio d'ave nocturna,
Echo em alguma furna
Do uivo d'algum lobo?

Ouço uma voz... escuta:
É ella a voz que se ouve?
Ou monge que inda louve
A Deus, n'alguma gruta!

Quem lá em baixo á escarpa
D'um ingreme penedo
No tremulo arvoredo
Entorna os ais d'uma harpa?

É ella a minha Heresta,
A minha branca ermida
Do ermo d'esta vida,
Mais erma que a floresta?

Tu, lua, que no val
D'Aialon paraste,
Já viste em sua haste
Suspenso lirio igual?

Não é, não é mais bella
A rosa entre os abrolhos,
Nem ha como os seus olhos
No céo nenhuma estrella!

É á luz d'uma alvorada,
Apenas desabrocha,
Nos angulos da rocha
Vêl-a despedaçada!

Vós, lobos! ide em bando,
Trepai pelo rochedo,
Uivai, mettei-lhe medo,
Levai-a recuando!

Que faz quem se aproxima
D'um precipicio, diz-m'o?
Que buscas tu no abysmo
Se o céo é lá em cima?

Não tarda muito, creio,
Que acabe esta ancia nossa,
E Deus unir-nos possa
No seu eterno seio.

É lá que a alma falla,
Lá que o amor se mede,
Que em brilho o sol excede,
E em gloria a Deus iguala!

Na nuvem do futuro
Teus vagos olhos prega!
Depois de noite negra
Vem sempre um céo mais puro.


E agora, se o desejo
Te satisfiz, em premio
D'um canto d'alma gemeo,
Um gemeo e dôce beijo!

Coimbra.

FRAGMENTO

..........................................

Deixal-o: os olhos fecho á luz e quero...
Quero-te, oh sonho, se és doirado e lindo:
Mais que a teus fachos, pedagogo austero!
Que me condemnas em chorando e rindo.
Sempre olhos fundos, sempre esse ar severo...
Razão! não te amo; mas a ti, bemvindo,
Tu que os conselhos nunca, amor! lhe tomas;
Dás luz á lua, dás á rosa aromas.

Oh! ha tres vistas com que as coisas vemos;
Ha tres razões que as coisas determinam;
Uma a dos olhos; outra a que escondemos
N'isso ante que os alemos se inclinam;
Outra a que dentro no coração temos,
Que os limites do espaço só terminam:
Coube a primeira em sorte á borboleta;
A outra ao homem; a terceira ao poeta.

Mas será só poeta quem faz versos?
Não é a flôr poeta que o sol canta?
Não cabe aos ais tão intimos, dispersos
Do cantor triste nome e gloria tanta?
Esses aereos tão mimosos berços,
Que, excepto o homem, o furor quebranta
A quanto é fero e sanguinario, acaso
Cada um d'elles não é um parnaso?

Mais poesia em pobre margarida,
Que aos pés se pisa, enthesoirada vejo,
Que em muita madreperola polida
Que as cinzas guarda de finado harpejo.
Dize-me, pomba! que no ar sustida
Vens como a nuvem coroar d'um beijo
Quem teus desvelos maternaes comparte:
Camões excede-te em engenho e arte?

Vaidade humana! Do que é simples, claro,
Fazem mysterio; dão-lhe um nome e basta:
Como esse eunucho sacerdocio avaro
Que da verdade as multidões afasta...
Mas a verdade não é pedra d'ara
Nem arca-santa que só certa casta
Tem privilegio de levar ao hombro
Ou vêr de perto, sem morrer d'assombro.

Padre, ministro do Crucificado
É bom ferreiro afeiçoando o ferro
Com que ha-de prestes ir rompendo o arado
Os campos d'este secular desterro.
Melhor explicam um lugar sagrado
Bigorna e malho, que explica o berro
De bonzo inutil; que asperos abrolhos
Não viram nunca seus inchados olhos.

Apostolo é o pai que se afadiga
Só para que descance o filho amado;
Apostolo é a rocha em que se abriga
Ave agoureira e pobre desgraçado;
Apostolo é a lagrima que amiga
Cahe pela face em peito amargurado;
E esse monstro do céo que solitario
Correu o mundo á busca do Calvario.

E assim vós outros, falsos sacerdotes!
Que a mesma crença sustentar devêreis,
Poetas vos chamaes se em ôcos motes
Sabeis vasar combinações estereis?
Monges! tendes o habito; se os dotes,
Os doze dons do Espirito tivereis,
Crêreis que é mais poeta o dôce favo
Que a abelha fabríca em mato bravo.

Fechei a minha bocca largo espaço
Para vêr e pasmar; eu não podia
Tirar os olhos do tributo escaço
Que paga o albergue quando acaba o dia.
Pelo filhinho em maternal regaço
Como ave em ninho a balançar, medía,
Não essa Iliada a compasso austero,
Mas a de Christo, a do celeste Homero.

Lia esse livro que anda encadernado
Em pelle humana e embrulhado em pranto,
Mas para bençãos, para amor dictado
E quanto ha puro, quanto ha bello e santo:
Livro que o impio soletrou tocado,
Se o impio os olhos pôde erguer a tanto;
Mas que a moirama só conserva vivo
Porque não morre o immortal captivo.

Não morre: eterno como a fonte d'onde
Dimana a luz, a vida, amor e tudo,
Que amostra a terra, amostra o mar, e esconde
O céo, o espaço, o infinito mudo...
O mundo mudo! para quem? responde,
Valente martyr! que o pesado escudo,
Com que a verdade os olhos encobria,
Morreste mas quebraste á luz do dia.

«Existe um pai commum, que a todos ama
E d'elles só juiz a si reserva
Punil-os de seu mal; o sol derrama
Por cedro erguido e enterrada herva;
Desarma o laço que a perfidia trama,
Ou n'elle a prende e faz cahir; enerva
Braço que se ergue contra irmão; fecunda
Semente que não cahe de mão immunda.

«Diante d'elle as obras apparecem
Taes como as gera o intimo do peito:
Basta o amor do bem, se as mãos fallecem;
Sem esse amor é nada o grande feito.
Embora os homens de soltar se esquecem
Quem chora escravo; porque, em seu conceito
Deixe chorar quem purpuras arrasta,
Cante que é livre na verdade, e basta.»

Ella o resto fará; porque a seu braço
Reis não resistem, não resistem povos:
Um raio a nuvem parte e deixa o espaço
Coalhado d'astros que parecem novos:
Põe ao sol, que o fecunde, o simples traço,
Como a grande avestruz os grandes ovos;
E quem depois no mundo a luz lhe apaga?
Ninguem apaga a luz que o mundo alaga.

Sacerdocio embusteiro as mãos lhe prega
Em tronco immovel que seus labios gele;
Á justiça profana o justo entrega
(Sua irmã gemea que a verdade expelle:)
Já das almas senhor o rosto alegra,
Já morto o canta, sepultado e elle
Só o consome o incendio que já lavra
De bocca em bocca, o incendio da palavra.

Nenhum de nós o viu andar prégando,
Nenhum seu olhar vago lhe notámos,
Nunca o vimos no ermo a Deus orando,
Nunca a mão estendida lhe apertámos;
E por todos seu nome vai passando,
Todos, os seus preceitos, decorámos...
E que vá vêr-lhe a campa ao Oriente
Quem os olhos da carne tem sómente.

Que é um tumulo acaso, esse tributo
Pago pela materia á vil materia?
Quem vai na campa alliviar o luto
Se a vista alonga á amplidão aerea?
Quem a copia de Deus rebaixa a bruto,
E a mais que bruto a immortal, etherea,
Celeste pomba, que em seu vôo a vida
Em factos deixa ás almas esculpida?

Não me embala inda Homero nos seus braços
E me pinta nas mãos a natureza?
Não lhe ouço eu inda a voz...como ouço a espaços
A voz da grande Fama portugueza...
Quando me apraz olhar para os pedaços
D'este grande gigante que a fraqueza
Expoz aos coices...leão moribundo...
O rei antigamente d'este mundo?

Eu não sou dos que a patria sua adoram
Como adora o seu deus o fiel crente.
Vejo que todos n'uma patria moram
E sobre todos vejo um céo sómente:
Mas ame cada qual; que se outros choram
Nas mãos dos tigres que só comem gente,
Tambem meus olhos choram seu tormento
D'onde quer que seus ais me traga o vento.

Deixai ir em seu transito divino
Desde a Cruz do Calvario na Judêa,
Té á ponta da espada d'aço fino
Desembainhada em Italia, o tempo, a idêa.
Deixai andar a vêr o peregrino
Onde a ventura abunda, onde escassêa
Para vos dar, no oiro (Fé e Esperança!)
Rei e pastor nas conchas da balança.

Ha-de vir esse dia; e se a figueira
Em abrolhando perto vem o estio,
Não longe está: a cobra carniceira
De mil roscas e lugubre assobio
Que terra come, e come a terra inteira,
Se á terra inteira se enrolar, despiu
A pelle enorme com bastantes dôres
Esfolada por tres imperadores...

Eu não sei qual mais chore; se essa sêde
De sangue insaciavel dos tyrannos,
Ou se é a escuridão vossa que eu hei-de
Antes chorar, oh miseros humanos!
Que solimão vos deram, loucos! vêde:
Não vale a gloria que vos faz ufanos
Um só pingo de sangue, um só, vertido,
Um gemido de mãi, um só gemido!

É do sangue e das mães que eu fallo; e certo,
Que ha na vida mais santo? O sangue é vida;
E as mães fonte da vida: eu nunca esperto
Esta lampada d'alma, suspendida
Na abobada eterna e que tão perto
Parece ter a origem............
................senão quando
Vejo essa cara imagem suspirando.

Eu amo as mães, seu nome é terno e dôce;
Sim, amo as mães: nossa alma d'ellas nasce:
Quem n'um collo de mãi cahiu, achou-se
D'um pulo ao pé de Deus: a alma pasce
Lirios celestes vendo-as; e seccou-se,
........................................
Do casto e candido a sagrada fonte,
Se ella no tumulo encostou a fronte.

Essa é a virgem-mãi, voz suavissima
D'esse cantico eterno—o Evangelho;
A Virgem... Mãi... de Deus! virgem purissima,
Cheia de graça e de justiça espelho.
Oh poesia, poesia altissima
Como o fecho do empyreo! eu me ajoelho
E beijo a tua base, harpa celeste!
O coração, a corda que nos déste.

Em que labios se bebem mais delicias,
Em que face de virgem se desatam
Rosas mais puras d'intimas primicias,
Que nas que por dar vida a nós se matam?
Sempre a bem nosso, a nosso amor propicias
Na menina dos olhos nos retratam;
E nunca premio vil em paga pedem
De quanto, tanto d'alma, nos concedem.

Na montanha da Fé, mulher formosa
Se ante mim a meus pés desenrolasse,
Como o demonio, a vastidão pasmosa
Que elle dava a Jesus se o adorasse;
E me pedisse em premio uma só coisa
—Ás mãos de minha mãi furtar a face;
Eu lançava-lhe o cuspo, essa tesoira
Que em mil bocados faz a vacca-loira.

Vêde-a ao berço, sofrega de vida,
Que a sua é pouca para a dar ao filho;
Ella em cama de espinhos, mal vestida;
Elle enfaxado, em berço de tomilho;
Ella em contínua, azafamada lida,
Elle vendo se apanha á luz o brilho...
Já descobrindo em tão tenrinha idade
Que toda a sua sêde é de verdade.

E esses lobos que em duas patas andam
Para ter sempre em guarda as outras duas;
Que a monte sahem só, e só debandam
Como os ladrões, á noite, pelas ruas;
A empecer que os animos se expandam,
Que a luz se espalhe, e que as imagens tuas,
Bom Deus! de imagens passem: e que admira...
Sem o sopro que ao barro a vida inspira!

Já se iam vendo os campos relvejando
Cá da banda do sol n'este horisonte
Por onde já n'um mar se andou nadando
E onde apenas se encontra secca fonte;
E eil-os já os hypocritas minando,
Cortando ao povo hebreu na marcha a ponte
Só para que o manná que o céo lhe chove
No deserto dos reis jámais nem prove.

Retalhou-lhes o labio omnipotente
O habito comprido, a manga larga,
Olhar submisso mas lugar na frente;
E nem despido o monstro a presa larga.
«São sepulchros caiados, vêde, oh gente!
Por dentro podridão:» em voz amarga,
Em voz de grande horror, de grande abalo,
Christo clamou d'aquelles de quem fallo.

«Dizimam-te o coentro e a arruda,
Mas sua consciencia é generosa.
Chamam-se mestres... de sciencia muda,
A sciencia da cobra venenosa:
Olhai, não espia a fera, espreita, estuda
Toda a volta do dia, mais manhosa,
Que essa raça de viboras, que espalha
Veneno em todo o mundo, que coalha.»

Irmãs da Caridade! A Caridade
Tem só duas irmãs—a Fé e a Esperança:
Não traja as côres só d'uma irmandade,
Traja as côres do Arco-da-alliança:
Leva sósinha o pão da piedade,
Tira da roda essa infeliz criança...
Roda da vida, que anda de tal sorte
Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.

Bemdita sejas tu, victima triste
De um peito amante e d'um amante ingrato!
Que nunca á mesma loba lançar viste
Inda mamando o cachorrinho ao mato;
Bemdita sejas tu, que o que pariste,
Teu fructo, imagem tua e teu retrato
Conservas como espelho onde te vejas;
Bemdita sejas tu, bemdita sejas.

Pára suspensa a pomba no seu vôo
Ao vêr-te contemplando-o ajoelhada;
E dizendo-te, a pomba: eu te abençôo
Da parte do pai nosso, irmã amada!
Abriste o seio ao dia e fecundou-o
Aquella luz que o mundo fez de nada,
E deu ao campo a flôr, á flôr semente
Com que a mãi os filhinhos seus sustente.

Bemdita sejas tu. Quando se esconde
Debaixo da tua aza o que criaste,
Abraça e beija os anjos Deus lá onde
A jarra está da flôr de que és a haste;
E um dia que não tenhas pão avonde
Ou do céo te não chova agua que baste,
Lança-lhe á luz do dia a mão direita,
Mostra-lh'o; Deus os filhos não engeita.

Pai não tinha o filhinho de Maria
E ella o bercinho lhe arma de mil flôres,
Deixando entrar em casa a luz do dia
Que em perfume as derreta em seus amores;
E inda abrindo os olhinhos mal lhe via,
Já os pinceis preparam os pintores;
Que o pai d'esse menino... Oh maravilha!
Os que não teem pai Deus os perfilha.

Deixa passar de largo a desposada...
De cujo filho o pai quem é, Deus sabe!
Deixa-a roçar-te os fatos enfadada
Se comtigo na praça a par não cabe:
Talvez um dia a casa levantada
Sobre a areia solta ao chão desabe
E em ruinas se encontre este letreiro:
«Não era o pai dos teus mais verdadeiro.»

Quem é que nasce aos pares como a rola,
Ou como a pomba morre em viuvando,
Que pela vêr sósinha em lodo atola
Fresca vide que está do chão lançando?
Acaso é só dourada altiva estola
Que liga os corpos em as mãos ligando,
Confunde os corações, e faz em summa
Que a Deus se elevem duas almas n'uma?

Amor é a palavra, o brado eterno
Solto por Deus ao vêr já feito o mundo,
Que fez tremer os carceres do inferno
E o sol ficou da côr d'um moribundo:
A primavera, estio, outono, inverno,
Terra, céo, alma pura, bicho immundo,
Tudo ahi cabe á larga de tal modo
Que n'essa concha Deus se fecha todo.

Amor enrola a nuvem na montanha
E espalma a onda em praia que não sente,
Ata ao raio de sol o fio d'aranha
E humilha ao conductor o raio ardente.
Quanto na rede immensa a vista apanha.
Tudo que jaz e cresce e vive e sente,
De Deus brotou n'um jorro de bondade
E póde amar-se em espirito e verdade.

Amo á aurora a luz doirada e clara,
E ao crepusculo as nuvens da tristeza,
A solida montanha, a nuvem rara
Por invisivel fio aos astros presa;
Amo a ancia feroz, a sêde avara
Com que a loba parida engole a presa,
E os crystallinos ais d'ave innocente
Que comprimenta o sol ingenuamente!

Amo o sopro que parte, esmaga, estala
Esses corvos que aos bandos vem das ondas
N'essas noites que o impio até se cala
Receando, trovão! que lhe respondas...
E amo o bafo subtil que a flôr embala
Pedindo-te, botão, que dentro o escondas,
E as primicias lhe dês que leve áquelle
Que te fez a ti flôr e vento a elle.

Tu só, que horror! a ti oh não te amo!
Cheiras-me a sangue tu; teus olhos baços
Olham, não vêem; tu tens bocca, chamo,
Não me respondes; tens como eu dois braços,
E não me abraças; brado afflicto, clamo,
Tens duas pernas, e não dás dois passos:
Ris, mas teu riso é d'enrilhados dentes;
Mettes-me medo; tu, cadaver! mentes.

Ninguem (prohibe-o Deus) o braço córte
Que lhe roubou o espirito divino;
Deus a Cain apaga sul e norte
E condemna a viver o assassino:
Mas tu, mentira! symbolo da morte...
Hypocrisia! teu sorrir felino
Te deixe arreganhada a bocca aberta,
Gele-te a morte a mão que a minha aperta.

..........................................

Evora.

 

 

 

 

Se ao enlaçal-a no peito
Me cahe desfeita uma flôr,
Lembras-me, sonho desfeito!
      Sonho d'amor!

Se a borboleta do calix
D'um lirio aos ares se ergueu,
Lembras-me, estrella dos valles!
      Lirio do céo!

Se inda um affecto em mim vive
Entre os que mortos possuo,
Lembras-me, sonho que eu tive!
      Lembras-me tu!

Coimbra.

 

 

 

 

Nunca me ha-de esquecer (ingrata! escuta)
Não tendo eu mais talvez que os meus dez annos
Esses olhos crueis, esses tyrannos
Commigo em porfiada aberta lucta.

Se eu fôra voraz lobo ou fera bruta
D'entranhas más, instinctos deshumanos,
Talvez o fructo então de teus enganos
O não colhesses tu de face enxuta.

Mas eu perdôo-te o mal que me has causado;
A culpa não é tua e só devia
Vingar-me em quem tão bella te ha formado.

E hei-de vingar-me, crê; mas isso um dia
Depois d'um beijo teu me pôr em estado
De disputar a Jove a primazia.

Evora.

DINHEIRO

O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça o maldito,
Tem tanto chiste o ladrão!
O fallar, falla d'um modo...
Todo elle, aquelle todo...
E ellas acham-no tão guapo...
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
         Tlim!
         Papo.

E a cegueira da justiça
Como elle a tira n'um ai!
E sem pegar n'uma pinça;
É só dizer-lhe: ahi vai...
Operação melindrosa
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata! tome conta:
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
        Tlim!
        Prompta.

N'essas especies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquelle diabo faz.
Sem saber nem patavina
De grammatica latina,
Quer-se a gente d'alli fóra?
Vai elle com taes fallinhas,
Taes gaifonas, taes coisinhas...
        Tlim!
        Ora...

Aquella physionomia
E labia que o diabo tem!

Mas n'uma secretaria
Ahi é que é vêl-o bem!
Quando elle, de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a occasião:
Conhece este amigo antigo?
—Oh meu tão antigo amigo!
       (Tlim!)
       Pois não!

Coimbra.

DUVIDA

Amas-me a mim! Perdôa;
É impossivel! Não,
Não ha quem se condôa
Da minha solidão.

Como podia eu, triste,
Ah! inspirar-te amor,
Um dia que me viste,
Se é que me viste... flôr!

Tu, bella, fresca e linda
Como a aurora, ou mais
Do que a aurora ainda,
Mal ouves os meus ais!

Mal ouves porque as aves
Só soltam de manhã
Seus canticos suaves;
E tu és sua irmã!

De noite apenas trina
O triste rouxinol:
Toda a mais ave inclina
O collo ao pôr do sol.

Porquê? porque é ditosa!
Porquê? porque é feliz!
E a que sorri a rosa?
Ao mesmo a que sorris!

Á luz doirada e pura
Do astro creador.
Á noite, não, que é escura,
Causa-lhe a ella horror.

Ora uma nuvem negra,
Uma pesada cruz,
Uma alma que se alegra
Só quando vê a luz

De que elle, o sol, inunda
O mar, quando se põe!
Imagem moribunda
D'um coração... que foi!

Uma alma semelhante
Não póde captivar
Um rosto tão galante,
Um tão galante olhar!

E eu vi os caracteres
Que a tua mão traçou:
Mas vós... ah! vós, mulheres,
Quem já vos decifrou!

Mal te sustinha o pulso
A delicada mão!
Sentia-te convulso
Bater o coração!

Via-te arfar o seio...
Corar... mudar de côr...
E embora, ah! não, não creio...
Tu não me tens amor!

Portimão.

CATURRAS

Ah! compadre, a gente foge,
Desabelha com calor;
Aqui faz fresco na loge,
É onde se está melhor;
Mas que calor que fez hoje!

—Pois, olhe, assim eu me désse
De inverno quando faz frio,
Como agora que elle aquece.
Tome dois banhos no rio,
Logo vê como arrefece.

—Compadre, nunca me traga
Taes coisas á collação;
Lembra-me a maldita draga,
Compadre do coração!
Não me falle n'essa praga!

—Tenho-lhe a mesma amizade
Que o meu compadre lhe tem,
Ás vezes dá-me vontade
Até de a tragar tambem...
Digo-lhe isto com verdade.

—Ha-de isto chegar a pontos
Que quem viver ha-de vêr!
Já lá vão setenta contos,
E a draga a apodrecer,
E trabalhos nenhuns promptos.

—Setenta, diz o compadre?
Dão-lhe elles esse verniz...
Lá como a sua comadre...
Mas eu cá o que ella diz
É como o que diz o padre...

—Pois inda isso continúa?
—Eu sei lá, compadre, eu sei!
Ora canta, ora se amua...
Eu é que já me lembrei
De a pôr um dia na rua!

—Compadre, tenha miolo,
Isso não se faz assim;
Eu não me tenho por tolo,
E ponha os olhos em mim...
Sirva-lhe isso de consolo.

—Pois bem sei que é ninharia,
Mas o compadre o que quer?
Estimo a minha Maria,
E isto de homem com mulher...
Mas vamos á vacca fria:

Com que a draga...—É empregada,
Coisa que nunca se viu,
Sendo uma peça aceada,
A tirar lama do rio!
Parece isto caçoada...

—E caçoada indecente
Porque outra coisa não é.
Mais economicamente
Quando vasasse a maré
A tirava mesmo a gente.

—E depois aquillo é lodo
Que nunca póde prestar.
Veja aterrar o caes todo
Quando não ha-de importar...
É gastar dinheiro a rodo.

—Haja decima e derrama;
Por causa do quê? do caes,
Da draga ou como se chama,
E outras coisinhas que taes
Que tudo a final é lama.

Pois sendo tudo bem feito
Como á antiga, vá lá!
Mas olhe, o caes não tem geito;
De tudo quanto alli ha,
A meu gosto, o parapeito.

—Sim, senhor, obra segura,
Obra como deve ser;
Feio e forte; é o que dura:
Foi sempre o que ouvi dizer
A quem está na sepultura...

—Mas era tudo escusado;
N'esta, compadre, é que estou;
E isto dá-me algum cuidado,
Que o que meu pai me deixou
Não foi nada mal ganhado.

—Pois e, se quer que lhe conte,
Já se ahi falla outra vez
Em mandar fazer a ponte:
Cuida esta gente talvez
Que temos alguma fonte...

—E havendo então uma barca...
Como a Arca de Noé!
Lá porque a gente se enxarca
E não póde andar a pé
Quando embarca e desembarca.

—Escarranchem-se ao cachaço
Dos marujos: pois então?
Cá em taes obras nem passo
Que pernas minhas darão;
É gosto que lhes não faço.

—Nada! havemos de ir agora
Vêr ambos o que lá vai;
Que a nós aquillo por ora
Bem sei que nos não distrahe;
Mas temos pouca demora.

—Pois vamos, compadre, vamos.
Sentamo-nos nos poiaes,
Alli mesmo conversamos
Ambos sósinhos no caes,
E depois logo voltamos.

Portimão.

 

 

 

 

Cosi trapassa, al trapassar d'un giorno,
Della vita mortale il fiore e 'l verde,
Nè, perchè faccia indietro april ritorno
Si rinfiora ella mai, nè si rinverde.

Tasso.

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que n'esta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do tumulo descendo.

Em se ella anuveando, em a não vendo,
Já se me a luz de tudo anuveava;
Despontava ella apenas, despontava
Logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gemea da minha, e ingenua e pura
Como os anjos do céo (se o não sonharam...)
Quiz mostrar-me que, o bem, bem pouco dura.

Não sei se me voou, se m'a levaram,
Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que inda em vida não choraram.

Ah! quando no seu collo reclinado,
—Collo mais puro e candido que arminho,
Como abelha na flôr do rosmaninho
Osculava seu labio perfumado;

Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os,
E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)
Lia na sua bocca a Biblia Santa
Escripta em letra côr dos seus cabellos;

Quando a sua mãosinha pondo um dedo
Em seus labios de rosa pouco aberta,
Como timida pomba sempre álerta,
Me impunha ora silencio ora segredo;

Quando, como a alveloa, delicada
E linda como a flôr que haja mais linda
Passava como o cysne, ou como, ainda
Antes do sol raiar, nuvem doirada;

Quando em balsamo d'alma piedosa
Ungia as mãos da supplice indigencia,
Como a nuvem nas mãos da Providencia
Uma lagrima estilla em flôr sequiosa;

Quando a cruz do collar do seu pescoço
Estendendo-me os braços, como estende
O symbolo d'amor que as almas prende,
Me dizia... o que ás mais dizer não oiço;

Quando, se negra nuvem me espalhava
Por sobre o coração algum desgosto,
Conchegando-me ao seu candido rosto,
No perfume d'um riso a dissipava;

Quando o oiro da trança aos ventos dando
E a neve de seu collo e seu vestido
—Pomba que do seu par se ia perdido,
Já de longe lhe ouvia o peito arfando;

Tinha o céo da minha alma as sete côres,
Valia-me este mundo um paraiso,
Distillava-me a alma um dôce riso,
Debaixo de meus pés nasciam flôres.

Deus era inda meu pai. E em quanto pude
Li o seu nome em tudo quanto existe
—No campo em flôr, na praia arida e triste,
No céo, no mar, na terra e... na virtude!

  Virtude! Que é mais que um nome
Essa voz, que em ar se esvái,
Se um riso que ao labio assome
N'uma lagrima nos cái!

Que és, virtude, se de luto
Nos vestes o coração?
És a blasphemia de Bruto
—Não és mais que um nome vão.

Abre a flôr á luz, que a enleva,
Seu calix cheio d'amor,
E o sol nasce, passa e leva
Comsigo perfume e flôr!

  Que é d'esses cabellos d'oiro
Do mais subido quilate,
D'esses labios escarlate,
        Meu thesoiro!

Que é d'esse halito, que ainda
O coração me perfuma!
Que é do teu collo de espuma,
        Pomba linda!

Que é d'uma flôr da grinalda
Dos teus doirados cabellos,
D'esses olhos, quero vêl-os,
        Esmeralda!

Que é d'essa alma que me déste!
D'um sorriso, um só que fosse,
Da tua bocca tão dôce,
        Flôr celeste!

Tua cabeça que é d'ella
A tua cabeça d'oiro,
Minha pomba! meu thesoiro!
        Minha estrella!

  De dia a estrella d'alva empallidece;
E a luz do dia eterno te ha ferido.
Em teu languido olhar adormecido
Nunca me um dia em vida amanhecesse.

Foste a concha da praia. A flôr parece
Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,
Meu calix de crystal, onde hei bebido
Os nectares do céo... se um céo houvesse!

Fonte pura das lagrimas que choro!
Quem tão menina e moça desmanchado
Te ha pelas nuvens os cabellos d'oiro!

Some-te, vela de baixel quebrado!
Some-te, vôa, apaga-te, meteoro!
É n'este mundo mais um desgraçado.

  E as desgraças, podia prevel-as
Quem a terra sustenta no ar,
Quem sustenta no ar as estrellas,
Quem levanta ás estrellas o mar.

Deus podia prevêr a desgraça,
Deus podia prevêr e não quiz;
E não quiz, não... se a nuvem que passa
Tambem póde chamar-se infeliz!

A vida é o dia d'hoje,
A vida é ai que mal sôa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que vôa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvái:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cái!

A vida é flôr na corrente,
A vida é sôpro suave,
A vida é estrella cadente,
Vôa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida—penna cahida
Da aza d'ave ferida—
De valle em valle impellida,
A vida o vento a levou!

Como em sonhos o anjo que me afaga
Leva na trança os lirios que lhe puz,
    E a luz quando se apaga
    Leva aos olhos a luz;

Como os ávidos olhos d'um amante
Levam comsigo a luz d'um dôce olhar,
    E o vento do levante
    Leva a onda do mar;

Como o tenro filhinho quando expira
Leva o beijo dos labios maternaes,
      E á alma que suspira
      O vento leva os ais;

Ou como leva ao collo a mãi seu filho,
E as azas leva a pomba que voou,
      E o sol leva o seu brilho,
      O vento m'a levou.

E tu és piedoso,
Senhor! és Deus e pai!
E ao filho desditoso
Não ouves um só ai!
Estrellas déste aos ares,
Dás perolas aos mares,
Ao campo dás a flôr,
Frescura dás ás fontes,
O lirio dás aos montes
E tiras-m'a, Senhor!

Ah! quando n'uma vista o mundo abranjo,
Estendo os braços e, palpando o mundo,
O céo, a terra e o mar vejo a meus pés;
Buscando em vão a imagem do meu anjo,
Soletro á froixa luz d'um moribundo
      Em tudo só—talvez...

Talvez é hoje a Biblia, o livro aberto
Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando
Vou pelo mundo vêr se a posso vêr;
E onde, como a palmeira do deserto,
Apenas vejo aos pés, inquieta, ondeando
      A sombra do meu sêr.

Meu sêr, voou na aza da aguia negra
Que, levando-a, só não levou comsigo
      D'esta alma aquelle amor!
E quando a luz do sol o mundo alegra,
Chrysalida nocturna, a sós commigo,
      Abraço a minha dôr!

Dôr inutil! Se a flôr, que ao céo envia
Seus balsamos, se esfolha, e tu no espaço
Achas depois seus atomos subtis;
Inda has-de ouvir a voz que ouviste um dia,
Como a sua Leonor inda ouve o Tasso!...
      Dante... a sua Beatriz!

—Nunca; responde a folha que o outono,
Da haste que a sustinha a mão abrindo,
      Ao vento confiou:
—Nunca; responde a campa onde, do somno,
E quem talvez sonhava um sonho lindo,
      Um dia despertou.

—Nunca; responde o ai que o labio vibra;
—Nunca; responde a rosa que na face
      Um dia emmurcheceu:
E a onda, que um momento se equilibra
Em quanto diz ás mais: deixai que eu passe!
      E passou e... morreu!

Coimbra.

MÃI E FILHO

Primicias do meu amor!
Meu filhinho! do meu seio
Tenro fructo que á luz veio
Como á luz da aurora a flôr!

Na tua face, innocente,
De teu pai a face beijo,
E em teus olhos, filho, vejo
Como Deus é providente.

Via em lamina doirada
O meu rosto todo o dia
E a minha alma não se havia
De vêr nunca retratada?

Quando o pai me unia á face,
E em seus braços me apertava,
Pomba, ou anjo nos faltava
Que ambos juntos abraçasse!

Felizmente, Deus que o centro
Vê da terra e vê do abysmo,
Que bem sabe no que eu scismo,
Na minha alma um altar viu dentro:

Mas com lampada sem brilho,
Sem o deus a que era feito...
Bafeja-me um dia o peito,
E eis feito o meu gosto, filho!

Como em lagrimas se espalma
Dôr intima e se esvaece
D'alma o resto quem podesse
Vasar n'um beijo em tua alma!

Mas em ti minha alma habita!
Mas teu riso a vida furta...
Mas (que importa!) morte curta!
Se um teu beijo resuscita!

Coimbra.

 

 

 

 

Toca a capello, vou vêl-o
E vejo de toda a côr,
Não doutores de capello,
Mas capellos de doutor.

Coimbra.

 

 

 

 

Amas, pobre animal! e tens tu pena?...
Sim, póde na tua alma entrar piedade?
Se póde entrar, eu sei! Negar quem ha-de
Amor ao tigre, coração á hyena!
    Tudo no mundo sente: o odio é premio
Dos condemnados só, que esconde o inferno.
Tudo no mundo sente: a mão do Eterno
A tudo deu irmão, deu par, deu gemeo.
    A mim deu-me esta gata, a mim deu-me isto...
Esta fera, que as unhas encolhendo
Pelos hombros me trepa e vem, correndo,
Beijar-me... Só não vivo! amado existo!

Evora.

NÃO!

Tenho-te muito amor,
E amas-me muito, creio;
Mas, ouve-me, receio
Tornar-te desgraçada.
O homem, minha amada!
Não perde nada, goza;
Mas a mulher é rosa...
Sim, a mulher é flôr!

Ora e, a flôr, vê tu
No que ella se resume...
Faltando-lhe o perfume,
Que é a essencia d'ella,
A mais viçosa e bella
Vê-a a gente e... basta.
Sê sempre, sempre, casta!
Terás... quanto possuo!

Terás, em quanto a mim
Me alumiar teu rosto,
Uma alma toda gosto,
Enlevo, riso, encanto!
Depois, terás meu pranto
Nas praias solitarias...
Ondas tumultuarias
De lagrimas sem fim!

Á noite, que o pezar
Me arrebatar de casa,
Irei na campa rasa
Que resguardar teus ossos,
Ah! recordando os nossos
Tão venturosos dias,
Fazer-te as cinzas frias
Ainda palpitar!

Mil beijos, dôce bem!
Darei no pó sagrado,
Em que se houver tornado
Um corpo tão galante!
Com pena, minha amante,
De me não ter a morte
Cahido a mim em sorte...
Cahido a mim tambem!

Já exhalando os ais
Na lugubre morada
Te vejo a sombra amada
Sahir da sepultura...
A tua imagem pura,
Fiel, mas illusoria...
Gravada na memoria
Em traços tão leaes!

Então, se ainda alli
Teus vaporosos braços,
Poderem dar abraços
Como dão hoje em dia,
Peço-te, sombra fria!
No mais intimo d'elles
Que a mim tambem me geles,
E fique ao pé de ti!

Mas, ai! meu coração!
Tu porque assim te affliges,
E tremula diriges
A vista ao céo piedoso!...
O quadro é horroroso,
A scena triste e feia,
Basta encerrar a idéa
D'uma separação...

Mas, ouve, existe Deus.
Ora e, se Deus existe,
Tão horroroso e triste
Que pódes temer? Nada!
Desfruta descançada
O extasi, o enleio
Em que eu já saboreio
O jubilo dos céos!

Deixa-me n'esse olhar
Vêr como a lua assoma...
Sim, deixa no aroma,
Que a tua bocca exhala,
Vêr como a rosa falla
Quando a aurora a inspira...
Vêr como a flôr suspira
Por vêr o sol raiar!

A morte para amor
É exito sublime.
A morte para o crime,
É que é amarga e feia.
A morte não receia
O verdadeiro amante;
Por ella a cada instante
Implora elle o Senhor.

É juntos, tu verás,
Que nós expiraremos!
Sim, juntos, que os extremos
Olhares cambiando,
Iremos despegando,
Do involucro terreno,
O espirito sereno
Como a eterna paz!

Vê, só porque suppuz
Chegado esse momento,
Já esse olhar mais lento...
As vistas mais serenas...
Bruxuleando apenas,
Em languido desejo,
Symphatico lampejo
D'uma ineffavel luz!

Ha, n'este triste valle
De lagrimas, a imagem
De dois n'essa passagem
Para a eternidade...
A nevoa, a anciedade,
O jubilo que mata,
Dão uma idéa exacta
Do transito fatal.

Mas essa imagem, flôr!
É tão fiel, tão viva
Que á sua luz activa
Se cresta a flôr mimosa!
E nem o homem goza:
Se goza é um momento!
Depois... o desalento!
Depois... o desamor!

Portimão.