WeRead Powered by ReaderPub
Flores do Campo cover

Flores do Campo

Chapter 82: II
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A obra reúne poemas líricos de curta e média extensão que meditam sobre o amor, a saudade, a natureza e a fé, alternando versos apaixonados e elegíacos com imagens campestres e florais. O texto percorre consolos íntimos e reflexões religiosas, incluindo leituras de salmos e do Cântico dos Cânticos, além de fragmentos narrativos e peças dirigidas a destinatários pessoais. A linguagem privilegia a simplicidade e o tom confessional, ora suave e ternurento, ora sombrio, e organiza-se em poemas independentes que, juntos, compõem um retrato emocional entre o doméstico e o espiritual.

NA FOLHA D'UM ROMANCE

Moldada ao bem nasci, mas debil planta
Verguei de vicio ao sopro pestilente;
D'entre o vicio porém minha alma ardente
Castos hymnos a Deus saudosa canta.

Ah! se um mentido affecto amor levanta
N'um pobre coração inexperiente,
D'elles a culpa é toda! uma innocente
Não consulta a razão, razões supplanta.

Cahi, verguei, Senhor! já pervertida
Graças, beijos vendi, vendi belleza,
Triste commercio de mulher perdida.

Oh! mas, Deus do amor! foi só fraqueza:
De impias mãos me arrancai, tirai-me a vida,
Alcance-me o perdão mortal tristeza!

Messines.

 

 

 

 

Lagrima celeste,
Perola do mar,
O que me fizeste
Para me encantar!

Ah! se tu não fosses
Lagrima do céo,
Lagrimas tão dôces
Não chorára eu.

Se nunca te visse
Bonina do val,
Talvez não sentisse
Nunca amor igual.

Pomba desmandada,
Que é dos filhos teus,
Luz da madrugada,
Luz dos olhos meus!

Meu suspiro eterno,
Meu eterno amor,
D'um olhar mais terno
Que o abrir da flôr,

Quando o nectar chora,
Que se lhe introduz,
Ao romper da aurora,
Ao raiar da luz,

Por entre a folhagem
Onde mal se vê,
Como a terna imagem
Da que eu adorei.

Que esta voz te enleve,
Que este adeus lá sôe,
Que o Senhor t'o leve,
Que Deus te abençôe.

Que o Senhor te diga
Se te adoro ou não,
Minha dôce amiga
Do meu coração!

Se de ti me esqueço,
Se já me esqueci,
Ou se mais lhe peço,
Do que vêr-te a ti;

A ti que amo tanto
Como a flôr a luz,
Como a ave o canto,
E o Cordeiro a cruz,

E a campa o cypreste,
E a rola o seu par,
Lagrima celeste!
Perola do mar!

Coimbra.

DESCALÇA!

Quem és, que ao vêr-te o coração suspira,
        E em puro amor desfaz-se!
Raio crepuscular do sol que nasce,
        De lampada que expira!

Como os teus pés são lindos! como é dôce
        A curva do teu peito!
Oh! se o meu coração fosse o teu leito,
        E o teu amado eu fosse!

Que preciosas perolas descobre
        Teu meigo humido labio!
E, virgem! como Deus foi justo e sabio
        Em te fazer tão pobre!

Não tens fofo velludo onde se atole
        Tua angelica imagem;
Mas quando é bello o céo, bella a paizagem
        E quando é bello o sol?

Limpo de nuvens, nú, derrete a neve
        E a aguia até desmaia.
Tu não tens mais do que uma pobre saia,
        E essa, curtinha e leve.

Onde o corpo te alteia, a saia avulta;
        Onde te abaixa, desce...
És como a rosa! A rosa nasce e cresce,
        Não para estar occulta.

O que te falta pois? os teus desejos
        Quaes são? de que precisas?
Ah! não ser eu o marmore que pisas...
        Calçava-te de beijos!

Coimbra.

ADEUS!

Adeus tranças côr de oiro,
Adeus peito côr de neve!
Adeus cofre onde estar deve
Escondido o meu thesoiro!

Adeus bonina, adeus lirio
Do meu exilio d'abrolhos!
Adeus oh luz dos meus olhos
E meu tão dôce martyrio!

Desfeito sonho doirado,
Nuvem desfeita de incenso,
Em quem dormindo só penso,
Em quem só penso acordado!

Visão sim mas visão linda!
Sonho meu desvanecido!
Meu paraiso perdido
Que de longe adoro ainda!

Nuvem, que ao sopro da aragem
Voou nas azas de prata,
Mas no lago que a retrata
Deixou esculpida a imagem!

Rosa d'amor desfolhada
Que n'alma deixou o aroma,
Como o deixa na redoma
Fina essencia evaporada!

Adeus sol que me alumia
Pelas ondas do oceano
D'esta vida, d'este engano,
D'este sonho d'um só dia!

No mesmo arbusto onde o ninho
Teceu a ave innocente
Se volta a quadra inclemente
Acha abrigo o passarinho:

Mas eu n'esta soledade
Quando em meus sonhos te estreito,
Rosto a rosto, peito a peito,
Acordo e acho a saudade!

Adeus pois morte! adeus vida!
Adeus infortunio e sorte!
Adeus estrella do norte!
Adeus bussola perdida!

Coimbra.

A VICTORIA COLONNA

Não sei que ha de divino, força é crêl-o
N'esses teus olhos d'uma luz tão pura
Que, ao vêl-os, tive logo por segura
Aquella paz que é meu constante anhelo.

Filha de Deus, nossa alma aspira a vêl-o;
Desprezando caduca formosura,
Ella, em seu giro eterno, só procura
A fórma, o typo universal do bello.

Não póde amar, não deve, uma alma casta
Fugaz belleza, graça transitoria,
Coisa que o tempo leva, o tempo gasta.

Nem tambem alma digna de memoria
Póde amar o prazer, que o bruto arrasta,
Em vez do puro amor—sombra da gloria.

Miguel-Angelo.

Coimbra.

N'UM CONVENTO

Como a agua em funda gruta
Gotta a gotta filtra e cái,
Sem saber quem isso escuta
O que lá por dentro vai:

Como ao longe incerta e baça
N'uma igreja alveja a luz,
Que da lampada esvoaça
E a vidraça reproduz:

Mal te vi, moira encantada!
Mas á luz dos olhos teus
Murcha a lampada sagrada
D'um altar do nosso Deus.

Mal te ouvi, mas as suaves
Melodias, que te ouvi,
São mais dôces que as das aves
Da aldêa onde nasci!

Quem teve, bella captiva,
Coração de te deixar
Aqui enterrada viva,
Sem amor, sem luz, sem ar!

Era cego e surdo, juro,
O miseravel algoz
Que não viu olhar tão puro,
Não ouviu tão pura voz!

Eu não tendo a faculdade
D'arrazar esta prisão,
Sacrifico a liberdade
Por tão dôce escravidão!...

Coimbra.

SONHO

Ha muitos sonhos de imaginação,
    De mera phantasia:
Outros, que são a voz da prophecia,
    A voz da intuição,
    A voz do coração.

Pões fé em sonhos taes, Maria?... Pões?
    E fazes bem, que ás vezes
Sonha a gente venturas e revezes,
    Que se tornam depois
    Bem certos! Ouve pois:

Sonhei que era n'um valle. Anoiteceu.
    Então duas estrellas.
(Tão lucidas, tão limpidas, tão bellas!)
    Vieram lá do céo
    Alumiar-me. E eu...

Não sabia e pergunto: o que buscaes,
    Alampadas celestes!
Vós, cá por este mundo... o que perdestes?
    Na terra não achaes
    Senão prantos e ais!

Respondem-me as estrellas (como a quem
    As tivesse captivas,
Tão tremulas! as bellas fugitivas)
    —Buscavamos alguem
    Que nos quizesse bem:

É sorte nossa, é nossa condição
    Dar luz, ser norte e guia;
Mas de mais boamente se alumia
    Na terra um coração
    Que nos tem affeição.—

—Pois e se vós do céo, lá onde até
    Se ignora o que são dôres,
Vindes á terra procurar amores,
      Estrellas! se assim é,
      Tendes-me aqui ao pé:

Que em summa a noite da minha alma é tal
      Que eu pobre viajante
Ando... se para traz, se para diante,
      N'este profundo val,
      Não sei nem bem mal.

Guiai-me pois, estrellas do Senhor!
      E a jura que vos faço
É que na terra não darei um passo
      Senão só por amor
      Do vosso resplendor!—

Ellas então sorrindo-se, que eu vi,
      Tão meigas e suaves!
Voaram como duas lindas aves;
      Indo poisar ahi...
      N'esse teu rosto... em ti!

Lisboa.

Á VISTA D'UM RETRATO

Amo-te, flôr! Se te amo, Deus que o sabe
Que o diga a teus irmãos, que o céo povoam,
E ebrios de gloria canticos entoam
A quem no mar, na terra e céos não cabe.

Se te amo, flôr! que o diga o mar—que expelle
Quanto é dominio, beija humilde a praia:
Se mal que a lua lá das ondas sáia
Nas rochas me não vê gemer com elle.

Amo-te, flôr! se te amo, o sol que o diga!
Quanto lá da montanha aos céos se eleva,
Se entre os vermes do pó que o vento leva,
Me banha a mim tambem na luz amiga.

Se te amo, flôr? Sem ti, que noite escura,
Meu céo, meu campo em flôr, meu dia e tudo!
Diga-te a noite minha se te illudo,
Se em vida já sem ti, sonhei ventura!

O anjo que a berço humilde e escasso
Do céo me veio alumiar piedoso,
E em lagrimas e riso, pranto e gozo,
Desde então me acompanha passo a passo;

És tu! Amo-te e muito! O que fluctua
Na fornalha que o sopro eterno accende,
Não beija a mão do anjo que o suspende
Com mais amor que eu beijo a sombra tua!

Coimbra.

A LUA

Esse olhar silencioso
Em que lingua se traduz?
Falla-me, oh astro saudoso,
Luz do céo, pallida luz!
  Que aereas visões me acordas,
Que imagem, lua, recordas
N'essa prateada côr?
Que ha em ti, que a dôr mitiga,
Que ha em ti, lampada amiga,
De meigo e consolador?

Escuta, pallida lua,
Dá-me um sorriso dos teus,
Dá-me uma lagrima tua,
Se és a pupilla de Deus!
  Vê que outros mimos não tenho,
Que em tua face desenho
A face do meu amor:
Uma só lagrima! fria,
Que ella me cáia... diria
Que uma lagrima cahia
Do céo ao menos na dôr!

Coimbra.

JOVEN CAPTIVA

Respeita a foice a espiga verde ainda;
Sem medo da vindima, o estio inteiro,
Bebe o pampano as lagrimas da aurora:
E eu verde como a espiga, tenra e linda
Como o pampano, hei-de morrer? não quero:
        Quero, mas não por ora!

Talvez que a outrem, morte, grata fosses.
Espero! Embora em lagrimas me lave,
Varre-me o norte a mim a face? inclino-a.
Se ha dias tristes, ai! ha-os tão dôces...
Sem amargo, que mel, por mais suave
        Que mar, em paz continua?

Benefica illusão meu seio habita.
Sepulte-me este carcere inhumano;
A aza nivea da fé não se agrilhôa.
Escapa ao laço da prisão maldita,
Mais viva e alegre, a esse aereo oceano,
        A alvéloa canta e vôa.

Hei-de morrer? porque? se não diviso
Em minha alma um remorso; durma ou vele,
Se eu velo e durmo em paz, na paz do justo!
Se em cada rosto a luz me abre um sorriso;
Aqui mesmo, onde a mágoa o riso expelle;
        E a luz assoma a custo!

O fim do meu destino é lá tão longe!
Quantos passei dos alemos que adornam
Esta bella viagem? Assentada
Ao banquete da vida apenas hoje,
A taça ainda cheia as mãos entornam,
        Dos labios illibada.

Estou na primavera, oh segadores!
E as mais quadras do anno havia agora
De não acompanhar o sol? havia?
Debruçada em meu pé, gloria das flôres,
Eu não vi mais do que raiar a aurora;
        Quero acabar meu dia.

Espera um pouco, oh morte! nada perdes.
Antes consola os que o remorso, o medo,
O desalento pallido devora!
Guarda-me ainda o campo grutas verdes!
As musas, cantos! e o amor... Segredo!
        Não morro, não, por ora!

Assim, encarcerada, o rosto lindo
E a vista alçando a regiões ignotas,
Minha musa entoou na fé mais viva:
E eu, as languidas mágoas sacudindo,
Moldei em dôce verso as dôces notas
        D'essa joven captiva!

André-Chénier.

Coimbra.

 

 

 

 

Mulher! quando nos braços
Te escuto uma canção,
Não vês em meus abraços
Profunda commoção?
  É que o teu canto á mente
Me traz vida melhor...
            Ah!
Cantai continuamente,
Cantai, oh meu amor!

Quando sorris, assume
Teu rosto uma expressão,
Que o mais feroz ciume
Se desvanece então.
  Sorriso tal desmente
Um coração traidor...
            Ah!
Sorri continuamente,
Sorri, oh meu amor!

Quando tranquilla e pura,
Te estou a vêr dormir,
Que vozes se afigura
Teu halito exprimir?
  Contemplo então contente
Teu corpo encantador...
            Ah!
Dormi continuamente,
Dormi, oh meu amor!

Letra de V. Hugo. Musica de Gounod.

Lisboa.

UM BEIJO

Seria o beijo
Que te pedi,
Dize, a razão
(Outra não vejo)
Porque perdi
Tanta affeição?

Fiz mal, confesso;
Mas esse excesso,
Se o commetti,
Foi por paixão,
Sim, por amor
De quem?... de ti!
Tu pensas, flôr,
Que a mulher basta
Que seja casta,
Unicamente?
Não basta tal.
Cumpre ser boa,
Ser indulgente.
Fiz-te algum mal?
Pois bem: perdôa!

É tão suave
Ao coração
Mesmo o perdão
D'offensa grave!
Se o alcançasse,
Se o conseguisse,
Quizera então
Beijar-te a mão,
Beijar-te a face...
Beijar? que disse!
(Que indiscrição...)
Perdão! perdão!

Lisboa.

FRANCISCA DE RIMINI

Disse eu então: poeta, vês aquelles,
Abraçados, velozes como o vento?
Desejava poder fallar com elles.

—Chamando-os com enternecimento,
Em cá passando mais do nosso lado,
São dois amantes, lograrás o intento.

Assim que o vento os aproxima, brado:
Oh almas d'uma eterna anciedade,
Vinde fallar-me, se vos isso é dado.

Como um casal de pombas, com saudade
Do ninho, vem no ar, d'aza espalmada,
Não mais que por impulso da vontade;

Rompendo aquella aragem empéstada,
Acodem lá do bando onde anda Dido
Á supplica tocante e magoada.

«Ah mortal generoso e condoído,
Que nos visita n'este escuro horrendo,
Deixando nós de sangue o chão tingido!

«Do Senhor impetráramos podendo,
Já que tens dó do nosso mal enorme,
O teu descanço eterno em fallecendo.

«Queiras ouvir-nos ou fallar, conforme,
É só dizer ou perguntar, mais nada;
Em quanto o vento, como agora, dorme.

«A terra, onde nasci, fica assentada
Na praia onde a final o Pó descança,
E os que o seguem na marcha arrebatada.

«Amor, que em nenhum moço acha esquivança
Prendeu este a um corpo... que roubado
Foi á minha alma em barbara vingança!

«Amor, que obriga amar quem é amado,
Poz-me com elle tão condescendente,
Que ainda, como vês, me anda abraçado.

«Amor nos deu a morte juntamente.
Quem nos matou irá para as Caínas.»
Disseram elles isto fielmente.

Depois d'ouvir as victimas mofinas,
Scismando cabisbaixo, em tal postura,
Pergunta-me o poeta: em que imaginas?

Começo respondendo: oh desventura!
Quanta esperança! quanta sympathia
A ambos não cavou a sepultura!

E voltando-me a quem me referia:
Olha Francisca! dó dos teus tormentos
Estas lagrimas tristes desafia.

Mas na quadra dos vagos sentimentos,
Conta-me: como foi que conheceste
Os amorosos languidos momentos!

«O desgosto maior d'um triste é este,
Fallar do tempo que passou, confesso:
Que o diga o proprio guia que trouxeste

«Mas desejando tu com tanto excesso
Conhecer de raiz esta amizade,
Entre vozes e lagrimas começo:

«Liamos ambos, por curiosidade,
Certa historia d'amores, que idearam,
Nós sós, um dia, livres de maldade.

«Muita vez nossos olhos se espantaram,
E descoramos, lendo a historia estranha;
Mas dos lances que mais nos abalaram,

«Foi quando em summa o terno amante apanha
O dôce beijo, por que andava ardendo:
Este, que eternamente me acompanha,

«Beija-me a bocca a mim, todo tremendo!
A culpa foi do livro que se lia!
Não se continuou o dia lendo.»

Em quanto assim Francisca respondia,
Chorava Paulo, a ponto, d'aterrado
Me vêr nas convulsões da agonia,
E cahir, como um corpo inanimado!

Dante.

Lisboa.

PAIXÃO

Suppõe que d'uma praia, rocha ou monte,
Com essa vista embaciada e turva
Que dá aos olhos entranhavel dôr;
Tinhas podido vêr transpôr a curva,
Pouco a pouco, do liquido horisonte,
A saudosa barca, que levasse
Aquelle, a quem primeiro uniste a face
    E o teu primeiro amor!

Depois, que toda mágoa e saudade,
Da mesma rocha ou alcantil deserto,
Olhando ávidamente para o mar;
Vias na solitaria immensidade,
Vagas ficções d'um pensamento incerto,
Surgir das ondas, desfazer-se em espuma;
Não alvejando, nunca, vela alguma
    E, sempre, a suspirar.

Até que á luz d'uma intuição sublime
D'alma arrancavas o gemido extremo
De saudade, desespero e dôr!...
Pois é assim que eu soffro, assim que eu gemo!
Que nuvem negra o coração me opprime;
Nuvem de mágoa, nuvem de ciume,
Em te não vendo á hora do costume,
    Meu anjo e meu amor!

Lisboa.

ESCREVE!

  Não sei o que suppôr
Do teu silencio. Escreve!
Quem é amado deve
Ser grato ao menos, flôr!
  Se eu fosse tão feliz
Que te fallasse um dia
De viva voz, diria
Mais do que a carta diz.
  Mas, olha, tal qual é
Não rias d'esse escripto
Que, pouco ou muito, é dito
Tudo de boa fé.
  Ha n'esse teu olhar
A dôce luz da lua,
Mas luz que se insinua
A ponto de abrazar...
  Pareça n'elle sim
Que ha só doçura, embora:
Ha fogo que devora...
Que me devora a mim!
  Que mata, mas que dá
Uma suave morte;
Mata da mesma sorte
Que uma arvore que ha:
  Que ao pé se lhe ficou
Acaso alguem dormindo
Adormeceu sorrindo...
Porém não acordou.
  Esse teu seio então,
Que encantadora curva!
Como de o vêr se turva
A vista e a razão!
  Como até mesmo o ar
Suspende a gente logo...
Pregando olhos de fogo
Em tão formoso par!
  Oh seio encantador,
Delicioso seio!
Que jubilo, que enleio
Libar-lhe o nectar, flôr!
  Eu tenho muita vez
Já visto a borboleta
Na casta violeta
Poisar os leves pés:
  E n'um enlevo tal,
N'uma avidez tamanha,
Que a gente a não apanha
Com dó de fazer mal!
  Pegada á flôr então
No pé curvinho e molle,
As azas nem as bole
Toda sofreguidão!
  Poisou... adormeceu!
Só vê, só ouve e sente
O calix rescendente
D'aquelle mel do céo!
  Pois vê com que prazer
E com que ardente sêde
Te havia... (que não hei-de!...)
Tambem beijar, sorver!
  Mas eu só peço dó,
Só peço piedade!
Mata-me a saudade
Com duas linhas só!
  Eu, a não ser em ti
Achar allivios, onde?
Escreve-me! responde
Á carta que escrevi!
  Cançado de esperar
Ás vezes quando sáio,
Pensas que me distraio?
Pois volto com pezar!
  Concentra-se-me em ti
A alma de tal modo
Que esse bulicio todo
Nem o ouvi, nem vi!
  Ninguem te substitue,
Porque só tu és bella!
Que estrella a minha estrella,
E que infeliz que eu fui!
  Mas devo-te suppôr
Sempre indulgente e boa,
Escreve-me e perdôa
Meu violento amor!
  Respeita uma affeição
Inutil mas sincera.
Tu és mulher, pondera
O que é uma paixão.
  Com sangue era eu capaz
De te escrever; portanto,
Tinta não custa tanto!
E não me escreverás?
  Uma palavra, sim,
Que me não amas... Queres?
Em quanto me escreveres,
Tu pensarás em mim!
  Só essa idéa, crê,
Encerra mais doçura
Que as provas de ternura
Que outra qualquer me dê!

Lisboa.

MALMEQUER

Talvez em eu morrendo a teus ouvidos
Chegue a noticia, que hoje os factos vôam,
E oiças então os intimos gemidos
        Que exhalo e te não sôam.

Talvez então, embora me não ames,
Com esses olhos humidos de fito
Na minha sombra: «Desgraçado! exclames;
         Amava-me, acredito.

«Levou a vida amando-me: que prova
Me podia alguem dar de mais ternura,
Ingrata como eu era! Abri-lhe a cova,
        Cavei-lhe a sepultura!

«Hei-de regal-a de meu pranto. Julgo
Do meu dever... agradecer-lhe agora!
Purificar-me em lagrimas! O vulgo
          Que me censure embora.

«Hei-de ir dispôr um pé de saudade
Na terra onde elle descançou da lida;
Mostrar-lhe amor, mostrar-lhe piedade,
          Que não mostrei em vida!»

Se fôres, meu amor! uma perpetua,
E uma saudade ser-me-hia dôce!
Mas só perpetua ou saudade, aceito-a,
          E um malmequer que fosse.

Lisboa.

VIRGINIA

Para se recitar no theatro do Príncipe-Real

Senhores! vêde o sol; diariamente
Nasce, cruza esse espaço e, no poente,
        Acaba de brilhar.
É util, é preciso, é necessario,
Não é pois inconstante, não é vario;
        É certo, é regular!

Hervas que nutrem, animaes que comem,
E a imagem de Deus—que falla—o homem,
        Sem essa luz, dizei:
Vegetavam acaso, existiriam?
Os echos d'esses valles repetiam
        Alguma voz? O que!...

Seria tudo um ermo escuro e mudo;
Tudo insensivel, solitario tudo!
        Mas Deus cria essa luz;
E um mar sem praias de silencio e morte,
Sêres de toda a casta—toda a sorte,
        Produz e reproduz!

Sim, essa luz benefica converte,
Por mysteriosa alchimia, frio, inerte,
        Imperceptivel grão
Em tenras hastes, em botões mimosos,
Folhas, flôres e fructos saborosos
        Que recamam o chão!

Mas julgaes vós agricola sómente
A mão do creador omnisciente?
        Pergunta singular!
Basta só vêr a ondeada trança
Com que elle adorna a virgem que vos lança
        O seu primeiro olhar!

A terra é de côr varia, a planta, verde:
Porque e para que? O que se perde
        Em ter tudo uma côr?
O que se ganha em ser tão bem pintada,
Symetrica, mimosa, perfumada
        Uma ephemera flôr?

É que Deus é artista! e noite e dia
E céo e terra e mar o denuncia...
        Vêde nascer o sol!
Pôr-se alta noite a lua encantadora...
Em quanto ao mesmo tempo canta e chora
        Ao longe o rouxinol!

Deus é artista, sim; Deus ama o bello,
Mais talvez do que o util. O desvelo
        Com que elle trata a flôr!
Antes de abrir... que mãi tão carinhosa
Resguarda, mais solicita que a rosa,
        Um seu botão d'amor!

Nem podia sahir obra incompleta
Das mãos de Deus: geometra e poeta
        Em summo grau, traçou
A compasso a abobada celeste;
Mas de que lindas nuvens a reveste
        Que ao vento tomam vôo!

Creou, de fogo, o sol—o grande astro!
E creou, não de fogo, d'alabastro
        A sua bella irmã
—Sombra apenas do sol, desnecessaria,
Luz phantastica, vaga, solitaria,
        Inutil, fátua, vã...

Mas luz intima! luz do sentimento!
Luz d'amor e de fé! que inspira alento
        A nossos corações!
Unica luz, á qual se mede o fundo
D'esse concavo mar... d'esse outro mundo...
        D'esse mundo de soes!

Porque se ao sol deveis fructos e flôres,
Á lua deveis mais, deveis amores...
        Deveis... como direi?
Esta entranhavel, vaga saudade
De não sei que melhor realidade,
        Que o mundo que se vê...

Quantas vezes, depois da lida insana
D'um dia, n'este mar da vida humana,
        Vendo surgir no céo
Essa luz melancolica e suave,
Eu acho então, e com que allivio, a chave
        D'este mysterio meu!...

D'este amor por phantasticos amores...
Comtudo mais leaes e duradores
        Que os d'esse mundo são!
D'este mundo de sombras... até prestes,
Sombra tambem, á sombra dos cyprestes
        Achar satisfação!

E eu digo, digo á lua scismadora
Com os olhos risonhos de quem chora
        Pranto consolador:
Se pois Deus te creou porque eras bella...
O que vale o sol mais do que uma estrella?
        Um rei do que um pintor?

Ao vêr-te, dôce lampada, suspensa
De vaporosa nuvem, n'essa immensa
        Abodada dos céos,
Pareces-me o thuribulo sagrado
Com os rolos de incenso evaporado
        Em tua honra, oh Deus!

E a minha vista sofrega acompanha
Esse clarão phantastico á montanha
        Ou da terra ou do mar,
Onde, acabada a obra do seu dia,
Astro d'amor e de melancolia,
        Se deita a descançar.

E eu descanço tambem; filha da arte...
Cumpre-me a mim, oh lua, contemplar-te!
        E pergunte-me alguem:
—Tu que fazes no mundo, mulher futil?
—O que Deus faz... na flôr, na lua inutil...
        Sou artista tambem.

Lisboa.

PRIMEIRO PSALMO DE DAVID

Bemdito o que não cahe em se guiar
Por conselhos de gente depravada;
E em vendo que vai mal, muda de estrada,
E nunca se demora em mau lugar;

Que o seu empenho é só unicamente
A lei de Deus, que estuda noite e dia.
Como a arvore ao pé d'agua corrente,
Dá a seu tempo o fructo que devia.

Nunca lhe cahe a folha; empresa sua
Sahe por força conforme o seu intento;
Em quanto o impio, o mau trabalha e sua,
E é sempre como o pó, que espalha o vento!

No tribunal, onde ha-de ser ouvido,
Não conte com sentença a seu favor;
Que não entra no numero escolhido
Dos justos, dos amigos do Senhor.

O justo, Deus bem sabe o seu caminho,
E guia-o, não o deixa andar sósinho:
E o caminho do mau, pelo contrario,
É beco sem sahida e solitario.

Messines.

SEGUNDO PSALMO DE DAVID

Porque anda o mundo todo enfurecido,
Se esforços contra Deus são todos vãos?
Os grandes, mais os reis, deram as mãos
Contra o Senhor, contra o seu Ungido,

—Estas correntes, é despedaçal-as,
Este jugo atirar com elle fóra!
E lá cima no céo, o que lá mora
Não faz mais que sorrir-se de taes fallas.

Mas em lhe dando a ira, aonde então
Se hão-de metter, com medo, os desgraçados!
Coroou-me rei no alto de Sião,
Cumpre-me publicar os seus mandados.

«Tu és meu filho; disse-me o Senhor:
Gerei-te hoje; pedir com confiança!
Verás o mundo todo ao teu dispôr,
Terras e povos, como propria herança.

«Vara de ferro para os ir guiando,
E fazel-os guardar-te obediencia;
E elles de barro mal cozido e brando
Que os partas em te oppondo resistencia.»

Agora pois vós outros, reis, juizes,
Reparai no que eu digo, e vêde lá;
Servi a Deus, e dai-vos por felizes
Cumprindo á risca as ordens que elle dá.

Tomai os meus conselhos; ou, senão,
Tende já como certa a perdição.
Que em se elle irando, é como um raio; aquelle
Que o despreza e não crê, infeliz d'elle!

Messines.

CANTICO DOS CANTICOS DE SALOMÃO

Para os corações puros tudo é puro.

S. Paulo a Tito.

I

CHEGADA

A SULAMENSE

—Tomára já ter o gosto
De o sentir beijar-me o rosto!

CORO DE VIRGENS

—E onde ha mulher que te exceda?
Só esse collo embebeda.
O aroma que elle exhala,
Nenhum balsamo o iguala.

2.º CORO

—O teu nome, fallar n'elle,
Só fallar n'elle é tão dôce
Como se um oleo nos fosse
Escorrendo pela pelle.

SALOMÃO

—Olha como todas ellas
Te estimam tanto, as donzellas.

A SULAMENSE

—Sou tua, leva-me, vamos.

CORO

—E nós, que te não largamos,
Te iremos correndo atraz
Pelo rasto de perfume,
Que deixas por onde vás,
Das pomadas com que dás
No corpo, como é costume.

A SULAMENSE

—Já el-rei me manda entrar
Para a sala do jantar.

CORO

—Para saltar de alegria
E festejar este dia,
A nós basta-nos lembrar
Que esse teu seio embebeda;
Nem ha mulher que te exceda.

2.º CORO

—Quem te vê seja quem fôr
Fica bebado d'amor.

A SULAMENSE

—Sou trigueira mas formosa,
Moças de Jerusalem!
Senão vêde o pavilhão
Que arma em campo Salomão,
Se ha coisa mais preciosa,
E por fóra a côr que tem;
Vêde as barracas dos moiros,
Por dentro tantos thesoiros,
Por fóra negras tambem.

Não vos dê pois isso pena,
Ter assim a côr morena:
Minha mãi mandou-me pôr,
Por culpa de meus irmãos,
De guarda á vinha, o calor
Queimou-me o rosto e as mãos:
E eu, a vinha, é escusado
Dizer-vos que nem eu tinha
Senão agora o cuidado
De estar a guardar a vinha.

Ah! para que banda vás
Com o gado, meus amores!
E pela folga onde estás!
Bem vês os outros pastores,
E a gente não adivinha.
Eu não hei-de andar atraz
D'esses rebanhos sósinha.

SALOMÃO

—Ah rainha das mulheres!
Olha como tu te enganas,
Que medo tens das cabanas,
Que medo tens dos rebanhos,
Que medo tens dos estranhos?
Não te dê isso cuidado,
Anda por onde quizeres
Tambem guardando o teu gado.
Em te vendo, mesmo só,
Toda a gente se desvia,
Como da cavallaria
Dos carros de Pharaó.

CORO

—Dás no rosto certo ar
D'aquella graça da rola,
Que até encanta, arrebata.

A garganta pódes pôl-a
Ao pé do melhor collar.

2.º CORO

—Um te havemos de nós dar
De oiro, ás pintinhas de prata,
Que é lindo, e has-de gostar.

A SULAMENSE

Já não sei pelo que aguardo
Que estando el-rei a jantar
Lhe não entorno por cima
Esta redoma de nardo
Que é um balsamo de estima.

Mas ha outro mais perfeito,
E com o qual me perfumo:Eu a myrrha que costumo
Trazer aqui em meu peito,
É mesmo aquelle a quem amo.
Nunca apanhei outro ramo
Nem outro alcanfor colhi
Nas hortas dos arredores
Da cidade de Engaddi.

SALOMÃO

—Como és bella, minha amante!
Terá a pomba esse olhar?
Outro não ha semelhante.

A SULAMENSE

—E quem mais bello e galante
Mais formoso, meus amores!
E mais de se cubiçar?

SALOMÃO

—Vês, o nosso leito é este,
Armado todo de flôres:
E olha o tecto é de cypreste,
Portas de cedro, tambem;
Aqui não entra ninguem.

A SULAMENSE

—Sou a rosa de Sarão,
A açucena do val.

SALOMÃO

—Amada do coração,
Entre as mais és tal e qual
Uma açucena entre espinhos.

A SULAMENSE

—E entre os mais o meu amado
A que ha-de ser comparado?
Vês tu no bosque a maceira?
És assim d'essa maneira.
Por lograr os teus carinhos
E boa sombra ha já muito
Que eu andava a suspirar:
Com effeito sombra e fructo
Nada deixa a desejar.

Elle deu-me do melhor
Que tinha na sua adega;
Mostrando-me assim primeiro
Como faz quem tem amor.
Trazei-me flôres de cheiro,
Que estou como tonta e cega...
Algum pomo, que esmoreço...
Já um braço me elle passa
Pelos hombros e me abraça
Pela cinta... desfalleço...
Ah desfalleço d'amor!

SALOMÃO

—Pela corça e o veado,
Moças de Jerusalem!
Não a acordeis, cuidado!
Deixar dormir o meu bem,
Um somno bem socegado.

II

ENTREVISTA

A SULAMENSE

—Quem é que eu oiço bradando?
Oiço uma voz e por força
Que é a voz d'elle esta voz:
Ah! lá vem além saltando
Montes e valles, nem corça
Nem veado é mais veloz.

Eil-o detraz da parede
Além já da outra banda
E o que elle faz, como elle anda
A vêr no vallado todo
E na cancella se ha modo
De me pôr olho: ora vêde.

SALOMÃO

—Oh minha amada! depressa
Vem vêr o campo, anda, vem:
Mettida em casa, meu bem!
Que demora tua é essa?

Foi o inverno passando,
Até que a chuva acabou:
Veio a herva rebentando,
Revestiu a terra toda,
Chegou o tempo da poda,
Ouviu-se a rola arrulhando,
O figo vem já inchando
E a vinha está já em flôr:
Pelo que estás esperando?

Quando has-de tu, meu amor!
Andar então passeando?
Ouve lá que estamos sós,
E aqui não ha quem nos oiça:
Vês esta fresta? é um gosto
Até pela pedra ensossa
Vêr assomar o teu rosto,
Ouvir essa linda voz.

A SULAMENSE

—Toda em flôr, como está bella!
Mas lá o ter flôr que monta?
Se as boas das raposinhas
A tomam á sua conta,
Depois a uva que é d'ella?
Bons laços se lhe hão-de armar,
Que ellas dão cabo das vinhas
Se ninguem as apanhar.

Tu és meu; e eu tambem
Sou tua, de mais ninguem.
Nós somos como um casal
De corcinhas, com effeito;
Andamos sempre a vêr qual
Guarda ao outro mais respeito
E lhe ha-de ser mais leal.
Logo ali de manhãsinha,
Ou pela fresca, á tardinha,
Quando a corça e o veado
Volta aos valles de Belher,
Cá ficas sendo esperado:
Não te esqueça, haja cuidado,
Vê lá o que has-de fazer.

III

SONHO

A SULAMENSE

—Não sei bem que sonho tive
Esta noite, que acordei
Sobresaltada, e que estive
Ainda apalpando a cama
Á busca de quem me ama
E a quem ama; não achei:
Levantei-me, rodeei
A cidade toda em roda,
Corri a cidade toda,
Busquei tudo, não achei.
Na rua pergunto á ronda:
O meu amante que é d'elle?
Não ha ninguem que responda.
Vou andando; a poucos passos
Vi vir um vulto: é aquelle.
Chega e digo-lhe depois
De o apertar nos meus braços:
Quem se ama como nós dois,
Só em mudando de estado
É que vive descançado.
Anda d'ahi, vamos pois
Ao quarto mesmo onde dorme
Minha mãi que me gerou
(Que eu tua ainda não sou,
Nem tu és meu, meu amigo!)
A pedir a nossos paes
A sua benção, conforme
Costumam fazer os mais,
E é já um costume antigo.

SALOMÃO

—Pela corça e o veado,
Moças de Jerusalem!
Não a acordeis, cuidado,
Deixai dormir o meu bem
Um somno bem socegado.

IV

NOIVADO

CORO

—Oh que mulher tão perfeita
A que vem além andando!
Vem espalhando um perfume
E é tão airosa a andar!
Parece quando se deita
Incenso e myrrha no lume
Que se vai desenrolando
Aquella nuvem no ar.

2.º CORO

—Realmente é de invejar;
Mas haja alguem que se afoite...
Sessenta homens armados
Dos mais desembaraçados
Manda Salomão ficar
De vigia toda a noite.

CORO

—É tudo á satisfação
E gosto de Salomão.
O andor onde elle sai,
De tudo de que é composto,
Cedro do Libano, olhai,
É a coisa mais barata:
Pernas e braços de prata,
De oiro o mais fino o encosto;
Onde põe os pés velludo:
Não fallando em diamantes
E pedras as mais brilhantes
Que lá isso excede a tudo.

2.º CORO

—Além vem já Salomão:
Lá vem elle já coroadoCom a corôa do noivado
Que a mãi lhe poz na cabeça
Pela sua propria mão.
Hoje é o dia fallado:
Moços, moças de Sião!
Assomai-vos já depressa.

SALOMÃO

—Que enlevo, que formosura!
A pomba não tem de certo
No olhar tanta doçura:
E fóra o que anda encoberto.

O cabello, em quantidade
E tamanho, é singular;
E não me lembra senão
Das cabras de Galaad
Que lhes rola pelo chão
Em ellas indo a andar.

Os dentes, em tu abrindo
A tua boca, que lindo!
Nem um rebanho d'ovelhas
Todas brancas e parelhas
Quando, em sendo tosquiadas,
Veem saindo do banho
D'uma em uma, enfileiradas,
E atraz d'ellas, cada uma
Seus dois gemeos d'um tamanho,
Sem ser maninha nenhuma.

Pois a bocca é comparada
A uma fita encarnada.
A voz ouvil-a é um gosto:
Parte a romã pelo meio
Verás as rosas do rosto;
E fóra no que eu receio
Fallar que me não é dado.

O pescoço, pensa a gente,
Em o vendo de collares,
Que é a torre exactamente
De David, n'esses ares,
De baluartes, e toda,
Lá cima, escudos á roda.

Os peitos é um casal
De corcinhas, que o seu pasto
São açucenas do val:
Nada mais timido e casto.
E deitam um cheiro á goma,
Da myrrha mais do incenso,
A ponto que ás vezes penso
Que elles são duas collinas
Por onde aquellas resinas
Espalham aquelle aroma.

És formosa sem senão,
Amada do coração!
E que fazias tu lá
Pelo Libano, pombinha!
Deixa o Libano, anda cá.
Vaes ser coroada rainha
No mais alto d'Amaná
Ou d'Hermão ou de Sanir,
Onde ha leões e onde ha
Leopardos... deves vir.

Trespassou-me o coração
O teu olhar; o cabello
Prendeu-me como um grilhão.
O teu peito, basta vêl-o,
Para embebedar d'amor.
E só o cheiro que exhala
O teu corpo, não ha flôr,
Não ha rosa, não ha cravo
Capaz de cheirar melhor.

A tua bocca é um favo
De doçura quando falla;
A tua lingua, uma sopa
De leite e mel; essa roupa
Cheira a incenso, regala.

Não ha nada comparado:
Agua a mais pura e suave
De fonte fechada á chave,
Não é mais suave e pura.
Esse rosto, essa figura...
E só o bem que tu cheiras!
Não me parece senão
Um jardim todo plantado
De romeiras e maceiras,
Canfora, nardo, assim como
Açafrão, canna de cheiro
Aloes, myrrha e cinnamomo:
O que ha no Libano em fim;
Não ha fruta nem aroma,
Que se ahi não cheire e coma.
És a fonte d'um jardim
Toda pureza e frescura:
Torno d'agua que rebenta
Inda mais viva e mais pura
Lá no Libano, e ninguem
Lhe tem mão nem aguenta
A força com que ella vem.

Fizesse já sul e norte
No meu jardim, de tal sorte
Que alegretes e pomares
Andasse tudo nos ares.

A SULAMENSE

—É natural que tu comas
Da fruta do teu jardim.

SALOMÃO

—E que duvida que sim?
Vamos primeiro aos aromas;
O mel em favo depois
E mais o vinho e o leite.
Hoje é dia de banquete,
Amigos do coração!
É comer-lhe por quem sois
E beber-lhe até mais não.

V

SURPREZA

A SULAMENSE

Estava a dormir... que importa?
Velava o meu coração.
Oiço o meu amado á porta:

—Ah formosa sem senão,
Minha pomba, minha amada!
Trago a cabeça molhada,
E os anneis do meu cabello
Todos escorrendo orvalho,
Estou mais frio que um gelo.

—Dá-me isto agora um trabalho...
Despi-me, lavei os pés,
Estou na cama deitada,
E é uma pena, bem vês,
Vestir-me agora outra vez,
Andar inda levantada.

Vai elle empurra o postigo,
E eu assusto-me de modo
Que, na verdade vos digo,
Tremia-me o corpo todo.

Salto da cama exhalando
Um cheiro delicioso:
Eu tinha-me estado untando
Com um oleo precioso
E inda as mãos me iam pingando.

Abro a porta, eis senão quando
Elle foge de repente...

Eu só de lhe ouvir a falla
Fui ás nuvens de contente.
E em paga de tudo, abala;
Bradei-lhe, não me acudiu,
Vou por essas ruas fóra
Á busca d'elle, até'gora:
Parece que o chão se abriu...

Encontro a ronda, espancou-me;
Um dos da guarda á entrada
Da cidade, esse, roubou-me
A capa onde ia embrulhada.

Peço-vos isto por bem,
Moças de Jerusalem!
Contai tudo ao meu amado,
Que elle é por amor de quem
Estou n'este triste estado.

CORO

—O teu amado... responde,
Formosura sem igual!
Ha tantos onde escolher
Que é necessario um signal.
Qual é o signal por onde
Havemos de o conhecer?

—Eu vos digo: o meu amado,
D'aquellas côres no mundo,
Estou que não ha segundo;
É muito branco e córado.
A cabeça é um thesoiro
Do que ha de mais principal;
Que a sabedoria vale
Mais do que a prata e o oiro.

De negro que é o cabello,
Vêr um corvo, é mesmo vêl-o.

Os olhos, aquelle olhar,
Ha n'elles uma doçura,
Que não sei a que os compare;
Só sendo a um casalinho
De pombas, que estão no ninho,
Todas pureza e candura.

As suas faces rosadas,
Rescendem como um canteiro
D'aquellas plantas de cheiro
De que fazem as pomadas.

A bocca, digo a verdade,
Que a açucena mais pura
Cheia da myrrha melhor
Não apresenta a doçura,
Pureza e suavidade
Das fallas do meu amor.

Aquelles dedos, vereis,
São uns canudos de anneis!

O ventre d'elle é assim
Como um cofre de marfim.
As pernas, de musculosas,
São columnas magestosas
E de marmore inteiriço
Em bases de oiro maciço.
É o Libano em altura,
É como um cedro na matta
A sua bella figura.

É tão suave, tão pura
A sua voz, que arrebata.

Todo elle é singular
E todo de cubiçar.
Eil-o ahi retratado,
Moças de Jerusalem!
E não só o meu amado;
O meu amante tambem.

CORO

—Ah rainha das mulheres!
Se sabes para que banda
Elle iria o teu amigo,
Anda d'ahi, vamos, anda:
Nós imos todas comtigo
Á busca d'elle se queres.

A SULAMENSE

—Elle parece-me a mim
Que ha-de andar no seu jardim,
A apanhar açucenas,
Que é do que elle gosta apenas.

SALOMÃO

—Oh que formosa, meu bem!
Não ha cidade afamada,
Nem Thirsa ou Jerusalem,
Mais bella que a minha amada.

Mettes mais respeito andando,
Que um exercito avançando.

Os olhos faiscam fogo.
Tira de mim essa vista,
Que ao depois fugi eu logo
Porque não ha quem resista.

O cabello, em quantidade
E tamanho, é singular!
E não me lembra senão
Das cabras de Galaad,
Que o arrastam pelo chão,
Em ellas indo a andar.
Os dentes, em tu abrindo
A tua bocca, que lindo!
Nem um rebanho d'ovelhas,
Todas brancas e parelhas,
Ao vir sahindo do banho
D'uma em uma, e cada uma
Seus dois gemeos d'um tamanho,
Sem ser maninha nenhuma.
As faces não ha de certo
Assim casca de romã
De cor tão linda e tão sã.
E fóra o que anda encoberto.

És tão formosa, vê lá,
Que as rainhas são sessenta,
As concubinas oitenta,
Donzellas, quem é que as dá
Todas contadas? ninguem.
Pois e de quantas possuo,
A minha pomba, o meu bem,
A minha mimosa, és tu.
E o mesmo dizia já
Lá em casa tua mãi,
Com tantas filhas que tem.

Quando chegaste, as donzellas,
Concubinas e em summaAs rainhas, todas ellas
Sem excepção de nenhuma,
Gritaram todas á uma:
Viva a rainha das bellas!

VI

PASSEIO

CORO

—Que linda mulher aquella!
Nem a aurora lhe ganha.
A lua não é tão bella
Nem a luz do sol tamanha;
Mette mais vista só ella
Que um exercito em campanha.

A SULAMENSE

—Nunca tive um susto igual!
Ia á horta das nogueiras,
Ia passear ao valle,
Vêr se tinha flôr a vinha
E já romãs as romeiras;
Mas a multidão que vinha
Atraz de mim era tal
Que não vi nada, e tão cedo
Apanho tamanho medo.

CORO

—Oh não fujas, anda cá,
Sulamense! deixa vêr
Belleza como não ha
No mundo nem póde haver.

SALOMÃO

—Arrebata na verdade,
Mas como um canto de guerra,
Porque ao mesmo tempo aterra
Este ar e magestade.

O teu andar, que nobreza!
E tem o pé uma graça
Assim calçado, princeza!

Os joelhos, que perfeitos!
Não ha ourives que faça
Eixos de oiro mais bem feitos.
Umbigo, qual é a taça,
D'estas taças pequeninas
Por onde a gente costuma
Beber bebidas mais finas,
Tão redondinha? Nenhuma.

É o ventre de tal modo
Casto e fecundo, que apenas
Um monte de trigo, todo
Rodeado de açucenas
Me parece haver no mundo
Assim tão casto e fecundo.

O teu seio é um casal
De corcinhas, que o seu pasto
São açucenas do val:
Nada mais timido e casto!

Lembra-me o pescoço a mim,
Uma torre de marfim
E os olhos, esses então
Os dois lagos de Hesebão.

Vês a torre que apparece
Lá no Libano, e que diz
Para Damasco? parece
Na lindeza esse nariz.

A cabeça vêl-a toda
Por cima das mais, é bello,
Como a serra do Carmelo,
Toda collinas á roda.

O cabello é tal e qual
Um grande manto real!

É tudo uma perfeição,
Amada do coração!

Vêr-te é vêr uma parreira
Armada n'uma palmeira;
E lá em cima os teus peitos,
No tamanho e no feitio,
Dois cachos d'uvas perfeitos
Que a parreira produziu.
E eu disse d'esta maneira:
Dois cachos d'uvas tão bellos
Hei-de ir lá cima colhel-os;
Que bem se vê que a doçura
Corresponde á formosura;
E que a tua bocca é pura
E a respiração é sã
Como o cheiro da maçã
Quando se apanha madura.

—Como é suave e me encanta
O que me estás a dizer!
A voz da tua garganta
Embebeda como o vinho,
D'esse que a doçura é tanta
Que se costuma beber
Aos sôrvos, devagarinho.

És só meu e eu tambem
Sou tua, de mais ninguem.
Anda com a tua amada
Morar para o campo, amor!
Iremos de madrugada,
Logo ao romper da manhã,
Em se a gente levantando,
Vêr se a vinha já tem flôr,
Se está em flôr a romã
E se a fruta vai vingando.
Alli é que eu hei-de então
Abrir-te o meu coração.

Estamos na primavera,
A mandrágora já cheira,
E em minha casa, estar lá,
É como estar n'uma horta:
Mesmo ao pé da nossa porta
Temos quanta fruta ha.
E o teu quinhão, meu amado!
Assim do anno passado
Como da que vem agora,
Esse está sempre guardado.

Ouvisse-te eu n'esta hora
Chamar mãi á minha mãi!
Como se tu com effeito
Fosses criado ao seu peito
Assim como eu fui tambem:
Então já eu te beijava
Ás claras e te abraçava
Sem vergonha de ninguem.

Vamos aonde ella dorme,
A pedir a nossos paes
A sua benção, conforme
Costumam fazer os mais,
E depois seja o que fôr
É só mandar, meu amor!

Verás como te hei-de dar
D'um vinho delicioso
E d'um licor precioso,
De romã, que has de gostar.
.........................
Um braço já me elle passa
Pelos hombros... e me abraça
Pela cinta... o meu amado!
—Deixai-a dormir, cuidado,
Moças de Jerusalem!
Deixai dormir o meu bem
Um somno bem socegado.
......................

Messines.

 

 

 

 

Ouviste-me não sei quê
Trincolejar n'algibeira,
Acudiste mui lampeira,
Que me amavas. Já se vê.

Tens amado mais de mil,
Não era agora o primeiro.
Mas pensas que era dinheiro?
É a pedra e o fuzil.

Messines.

FIM