Irei apostolar o credo novo;
Direi ás multidoens verdades francas,
Será o meu jornal jornal do povo.
MINISTRO
Bem sei que da defeza é árdua a luta...
Odeia-me, sem causa, esta nação...
Embora! na grandeza dos serviços
Compete ao defensor môr galardão.
JORNALISTA
Bem sei quantas calumnias forja a intriga...
Já dellas foi manchado o grande Decio.
Quizeram macular Vossa Excellencia
Chamando-lhe espião, rival de
Mecio
!
MINISTRO
(Commovido, e esfregando os olhos com cebola).
Bemdito seja Deus! só elle sabe
As nobres intençoens de tal acção!
Por honra, por nobreza, e por caracter,
De certo fui, meu caro, um espião!
JORNALISTA
Não é lá grande feito de virtude;
Mas cumpre que eu me saiba haver na luta.
Convém negar o facto, ou confirmal-o?
Bem sabe que é de crêr haja disputa.
MINISTRO
(Limpando os oculos).
Eu lhe digo, senhor, a patria exige
Medidas uteis, providencias, factos.
Accusaçoens banaes, não lhes responda;
A pedra é livre em mãos desses
gaiatos
.
JORNALISTA
Pois bem! sou desse voto, ei-de julgal-as;
Accusaçoens banaes, pretr'idas, nullas;
Mas dado o caso infausto de citarem
Não sei que transacçoens com certas bullas?
MINISTRO
(Enternecido).
Responda-lhe que eu fui proscripto, errante...
E quando ao ninho caro alfim tornei,
Não só não tinha um pinto pr'a despezas,
Mas nem a livraria, em casa achei.
JORNALISTA
Pois bem, triumphará Vossa Excellencia...
Agora, se lhe apraz... sim... cada qual
Emprega neste mundo, como pode,
O seu... ou pouco ou muito cabedal...
MINISTRO
Intendo... quer dizer que não dispensa
Além do beneficio, uma pensão...
É justa, a quem trabalha a recompensa...
Quer cincoenta mil reis? pagos, serão.
Cinco mezes depois.
JORNALISTA
(Escrevendo).
Senhor ministro, eu não posso
Este jornal sustentar
Tenho esp'rado, em vão tres mezes,
Não me acabam de pagar.
Vossa Excellencia me disse,
A vinte e tres de Janeiro,
Que no Governo Civil
Recebesse o meu dinheiro,
Nem um chavo! e os assignantes
Abandonam-me o jornal,
Porque defendo um governo
Vergonha de Portugal.
Se não manda, quanto antes,
Senhor ministro, as mesadas,
Com pesar vou abraçar-me
Ás outras crenças passadas.
MINISTRO
(Só).
Á vista disto, não ha mais fugir-lhe...
Pouco me serve... mas é pobre moço!..
Fazem-me pena quando assim os vejo...
Não ha remedio senão dar-lhe um osso.
A D. EUSEBIA DA ASSUMPÇÃO,
ALMA DE VACA.
Noitebó que esvoaçaste
No meu ceo d'alva illusão;
E na chaminé pousaste
Deste ardente coração;
Que mal te fiz, pulga d'alma,
Que mordes, sem compaixão?
Dona Eusebia, gança amada,
Que picaste a minha flor,
Tão do intimo orvalhada
Pelos prantos desta dôr,
Dona Eusebia não me piques
Esta alcachofra d'amor!
Gata brava, não me bufes
Esta luz d'aspiração;
Por quem és, tu não me atufes
Dona Eusebia d'Assumpção,
Nos abysmos insondaveis
D'assanhada ingratidão!
Tu chamaste-me pangaio,
Quando eu quiz um riso teu!
Fulminou-me um impio raio,
Minha aspiração morreu!
Ai! Natercia de chinelos,
Serei eu
pangaio?
eu!!
Tens no peito ingrata, um chato
Coração de melancia.
Tanto tempo fui teu gato,
Gato d'amor e poesia!
Dona Eusebia, alma de vaca,
Morras tu de hydropesia!
AS LITTERATAS.
Paes de familia, hybridos caturras,
Escrevo para vós! Se tendes filhas
Com sestro massador de fazer versos,
Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!
Eu vejo serigaitas, mal lavadas
Do almiscar infantil de seus cueiros,
Fazerem relaçoens
c'os raios pallidos,
Da estrella matinal, do lago lympido,
Das auras ciciantes, e da aragem,
E d'outras semelhantes trampolinas,
Que vós não entendeis, nem eu, nem ellas.
Espevitam-se todas estas gaitas
Da musa melancolica das noutes.
Mal sabem onde tem a mão direita,
Não viram do nariz um palmo adiante,
E fallam de
paixoens intimas d'alma,
De crenças desbotadas, e de flores
Fanadas ao soprar da leda infancia.
Acaso comprehendeis, paes de familia,
Da nova geração destas piegas
A triste chiadeira que nos fazem?
Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!
Não tendes uns fundilhos nas cilouras?
Não tendes roto o calcanhar da piuga?
Não tendes uma estriga, um fuso, e roca?
Mandai-as trabalhar; dai-lhe a sciencia
Precisa para o rol da roupa suja.
Se lhe virdes romance, ou essas cousas
Chamadas folhetins, sobre a
toilette
,
(A
toilette
, meu Deus! por causa d'ellas
Perverteu-se a dicção do nosso Barros!)
Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!
Quem é o parvo que espozar-se queira
Com litterata alambicada e chocha?
Sentada n'um sophá, sapho saloia,
Em languida postura requebrada,
Se eu visse a minha Antonia! ai que panasio,
Que revez de careca eu lhe pregava!
Paes de familia! não achaes bem triste
Entrar um cidadão em sua casa,
Cansado de lavrar o pão da vida,
E vêr sua mulher repotreada
Na othomana gentil, lendo romances?
Pobre marido quer fallar d'uns frangos
Que baratos comprou, e a litterata
Pergunta-lhe se leu
Kossuth e os hungaros
!
O parvo franze a testa aborrecido,
Procura entre os lençoes um refrigerio;
Mas, no excesso da dôr, rasga as cilouras,
E no mundo não tem mulher ou anjo
Que lh'as saiba coser!.. ai do mesquinho!
Onze horas já são. O bom do homem
Tres vezes já pediu café com leite,
Apertam-no negocios; mas em balde
Pediu com desespero o tardo almoço.
A litterata esposa inda ressona,
Pois vira despontar a estrella d'alva
Nos rubros arreboes dos horisontes,
E, inspirada, fizera quatro quadras,
Ardentes de ideal romantecismo.
«Café com leite!» brada em vão tres vezes,
O bode expiatorio dos romances...
«Café com leite» os eccos lhe respondem,
Que a Stael d'agua doce inda ressona!
Maridos imbecis! eu vos lamento!
A culpa não foi vossa! Aos pais a imputo.
Madame Podestá dizem que ensina
Grammatica, rethorica, hidraulica,
Mecanica, gymnastica, estetica,
E chymica, e botanica, e plastica,
O arabe, o sanskrit, a geographia,
A prosodia, a syntaxe, industria e canones,
E muitas cousas mais, como th'rapeutica.
Será tudo mui bom; mas eu aposto
Que o remate de tantas luzes juntas
É capaz de fazer perfeitas tolas
As muitas que lá vão com seu Juizo!
Paes de familia! tendes filhas d'estas?
Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!
Um pai eu conheci, que nunca soube
O seu nome escrever sem quatro asneiras,
E mandou ensinar francez á filha.
A filha conseguiu, passados annos,
Uma cousa fallar mui duvidosa
Que os francezes, talvez, diriam tartaro!
Mas seria francez, o caso é este:
Um dia estava o pai, e ella, e um outro
Janota almiscarado, conversando.
De improviso a menina a lingua solta
Em barbaros grasnidos que atarantam
A cabeça do velho. O «petimetre»
Responde em algarvia semelhante.
O pai, no centro delles, era um parvo
Gemendo sob o peso do ridiculo...
Mas lá vai o peor do caso infausto!
Ao dar da meia noute desse dia
Cumpria-se a promessa contratada
Na presença d'um pai, que bem podera
Embargos de terceiro inda intentar
Se fosse em portuguez organisada
A injusta petição do supplicante.
Pais de familia, vossas filhas fallam
Italiano, francez, gallego, ou turco?
Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas.
UM JANTAR DE BAROENS.
INVOCAÇÃO.
Musa da sopa e do cosido, inspira-me!
Pandega musa, que sorris ao vate
Em môlho d'açafrão, e de tomate,
Um cego adorador... achaste em mim.
Transforma o estro meu em lombo assado,
Da minha inspiração faz um podim.
Tu filha dos baroens, musa do unto,
Nasceste na cosinha entre caçôlas;
Saudaram-te no berço alhos, cebôlas,
Do cominho tiveste uma ovação.
Depois, trajando gallas de toucinho,
Eu vi-te nas bochechas d'um barão.
Namorado de ti, fiz-te meiguices,
Por de traz d'um pirum, e tu de lá
Sorriste-me atravez da nedea pá
De vitella gentil, rica de arroz!
Ai! era!.. e nem eu sei se foi mais linda
Aquella gorda pata... que te poz!
Tu fizeste de mim novo Claudio,
Inspiraste-me fé no rodavalho.
Traguei indigestoens, arrotos d'alho,
Bernardas
na barriga supportei.
Tomei chá de marcella... e, em premio d'isto.
O teu auxilio, ó musa, não terei?!
I
Dentro e fóra illuminado
O palacio d'um barão,
Fulgurante representa
Um enorme lampião.
Jorram lympidas vidraças
Sobre as populosas praças
Ondas tremulas de luzes.
Vai lá dentro grande goso,
Nesse alcaçar radioso
Do barão dos Alcatruzes.
D'Alcatruzes é chamado,
Porque, sendo ainda moço,
Muitos baldes d'agua fresca
Dizem que tirou d'um poço.
Nenhum outro mais destreza
Revellou na ardua empreza.
De puchar acima um balde.
Um que seja tão robusto
Ha-de vir mui tarde e a custo,
Do concelho de Ramalde.
É barão; não vale a pena
Discutir-lhe os nobres feitos.
É barão dos Alcatruzes
Já tem pagos os direitos.
Inda é mais; pois além d'isto
É commendador de Christo
Com bastante indiscripção.