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Folhas cahidas, apanhadas na lama por um antigo juiz das almas de Campanhan cover

Folhas cahidas, apanhadas na lama por um antigo juiz das almas de Campanhan

Chapter 15: I
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About This Book

This collection of poetry reflects on themes of nostalgia, loss, and the passage of time, as the author reminisces about his youth and the beauty of his homeland. The verses explore the contrast between past joys and present sorrows, using vivid imagery to evoke the natural landscape and personal memories. The work also critiques societal changes and the decline of noble values, employing humor and satire to address contemporary issues. Through a blend of personal reflection and social commentary, the poetry captures the essence of a bygone era while lamenting the loss of innocence and simplicity.

Irei apostolar o credo novo;

Direi ás multidoens verdades francas,

Será o meu jornal jornal do povo.
MINISTRO
Bem sei que da defeza é árdua a luta...

Odeia-me, sem causa, esta nação...

Embora! na grandeza dos serviços

Compete ao defensor môr galardão.
JORNALISTA
Bem sei quantas calumnias forja a intriga...

Já dellas foi manchado o grande Decio.

Quizeram macular Vossa Excellencia

Chamando-lhe espião, rival de
Mecio
!
MINISTRO

(Commovido, e esfregando os olhos com cebola).

Bemdito seja Deus! só elle sabe

As nobres intençoens de tal acção!

Por honra, por nobreza, e por caracter,

De certo fui, meu caro, um espião!
JORNALISTA
Não é lá grande feito de virtude;

Mas cumpre que eu me saiba haver na luta.

Convém negar o facto, ou confirmal-o?

Bem sabe que é de crêr haja disputa.
MINISTRO

(Limpando os oculos).

Eu lhe digo, senhor, a patria exige

Medidas uteis, providencias, factos.

Accusaçoens banaes, não lhes responda;

A pedra é livre em mãos desses
gaiatos
.
JORNALISTA
Pois bem! sou desse voto, ei-de julgal-as;

Accusaçoens banaes, pretr'idas, nullas;

Mas dado o caso infausto de citarem

Não sei que transacçoens com certas bullas?
MINISTRO

(Enternecido).

Responda-lhe que eu fui proscripto, errante...

E quando ao ninho caro alfim tornei,

Não só não tinha um pinto pr'a despezas,

Mas nem a livraria, em casa achei.
JORNALISTA
Pois bem, triumphará Vossa Excellencia...

Agora, se lhe apraz... sim... cada qual

Emprega neste mundo, como pode,

O seu... ou pouco ou muito cabedal...
MINISTRO
Intendo... quer dizer que não dispensa

Além do beneficio, uma pensão...

É justa, a quem trabalha a recompensa...

Quer cincoenta mil reis? pagos, serão.
Cinco mezes depois.
JORNALISTA

(Escrevendo).

Senhor ministro, eu não posso

Este jornal sustentar

Tenho esp'rado, em vão tres mezes,

Não me acabam de pagar.


Vossa Excellencia me disse,

A vinte e tres de Janeiro,

Que no Governo Civil

Recebesse o meu dinheiro,


Nem um chavo! e os assignantes

Abandonam-me o jornal,

Porque defendo um governo

Vergonha de Portugal.


Se não manda, quanto antes,

Senhor ministro, as mesadas,

Com pesar vou abraçar-me

Ás outras crenças passadas.
MINISTRO

().

Á vista disto, não ha mais fugir-lhe...

Pouco me serve... mas é pobre moço!..

Fazem-me pena quando assim os vejo...

Não ha remedio senão dar-lhe um osso.

A D. EUSEBIA DA ASSUMPÇÃO,

ALMA DE VACA.

Noitebó que esvoaçaste

No meu ceo d'alva illusão;

E na chaminé pousaste

Deste ardente coração;

Que mal te fiz, pulga d'alma,

Que mordes, sem compaixão?


Dona Eusebia, gança amada,

Que picaste a minha flor,

Tão do intimo orvalhada

Pelos prantos desta dôr,

Dona Eusebia não me piques

Esta alcachofra d'amor!


Gata brava, não me bufes

Esta luz d'aspiração;

Por quem és, tu não me atufes

Dona Eusebia d'Assumpção,

Nos abysmos insondaveis

D'assanhada ingratidão!


Tu chamaste-me pangaio,

Quando eu quiz um riso teu!

Fulminou-me um impio raio,

Minha aspiração morreu!

Ai! Natercia de chinelos,

Serei eu
pangaio?
eu!!


Tens no peito ingrata, um chato

Coração de melancia.

Tanto tempo fui teu gato,

Gato d'amor e poesia!

Dona Eusebia, alma de vaca,

Morras tu de hydropesia!

AS LITTERATAS.

Paes de familia, hybridos caturras,

Escrevo para vós! Se tendes filhas

Com sestro massador de fazer versos,

Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!


Eu vejo serigaitas, mal lavadas

Do almiscar infantil de seus cueiros,

Fazerem relaçoens
c'os raios pallidos,

Da estrella matinal, do lago lympido,

Das auras ciciantes, e da aragem,

E d'outras semelhantes trampolinas,

Que vós não entendeis, nem eu, nem ellas.


Espevitam-se todas estas gaitas

Da musa melancolica das noutes.

Mal sabem onde tem a mão direita,

Não viram do nariz um palmo adiante,

E fallam de
paixoens intimas d'alma,

De crenças desbotadas, e de flores

Fanadas ao soprar da leda infancia.


Acaso comprehendeis, paes de familia,

Da nova geração destas piegas

A triste chiadeira que nos fazem?

Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!


Não tendes uns fundilhos nas cilouras?

Não tendes roto o calcanhar da piuga?

Não tendes uma estriga, um fuso, e roca?

Mandai-as trabalhar; dai-lhe a sciencia

Precisa para o rol da roupa suja.

Se lhe virdes romance, ou essas cousas

Chamadas folhetins, sobre a
toilette
,

(A
toilette
, meu Deus! por causa d'ellas

Perverteu-se a dicção do nosso Barros!)

Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!


Quem é o parvo que espozar-se queira

Com litterata alambicada e chocha?

Sentada n'um sophá, sapho saloia,

Em languida postura requebrada,

Se eu visse a minha Antonia! ai que panasio,

Que revez de careca eu lhe pregava!


Paes de familia! não achaes bem triste

Entrar um cidadão em sua casa,

Cansado de lavrar o pão da vida,

E vêr sua mulher repotreada

Na othomana gentil, lendo romances?

Pobre marido quer fallar d'uns frangos

Que baratos comprou, e a litterata

Pergunta-lhe se leu
Kossuth e os hungaros
!

O parvo franze a testa aborrecido,

Procura entre os lençoes um refrigerio;

Mas, no excesso da dôr, rasga as cilouras,

E no mundo não tem mulher ou anjo

Que lh'as saiba coser!.. ai do mesquinho!


Onze horas já são. O bom do homem

Tres vezes já pediu café com leite,

Apertam-no negocios; mas em balde

Pediu com desespero o tardo almoço.


A litterata esposa inda ressona,

Pois vira despontar a estrella d'alva

Nos rubros arreboes dos horisontes,

E, inspirada, fizera quatro quadras,

Ardentes de ideal romantecismo.


«Café com leite!» brada em vão tres vezes,

O bode expiatorio dos romances...

«Café com leite» os eccos lhe respondem,

Que a Stael d'agua doce inda ressona!


Maridos imbecis! eu vos lamento!

A culpa não foi vossa! Aos pais a imputo.


Madame Podestá dizem que ensina

Grammatica, rethorica, hidraulica,

Mecanica, gymnastica, estetica,

E chymica, e botanica, e plastica,

O arabe, o sanskrit, a geographia,

A prosodia, a syntaxe, industria e canones,

E muitas cousas mais, como th'rapeutica.


Será tudo mui bom; mas eu aposto

Que o remate de tantas luzes juntas

É capaz de fazer perfeitas tolas

As muitas que lá vão com seu Juizo!

Paes de familia! tendes filhas d'estas?

Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!


Um pai eu conheci, que nunca soube

O seu nome escrever sem quatro asneiras,

E mandou ensinar francez á filha.

A filha conseguiu, passados annos,

Uma cousa fallar mui duvidosa

Que os francezes, talvez, diriam tartaro!

Mas seria francez, o caso é este:


Um dia estava o pai, e ella, e um outro

Janota almiscarado, conversando.

De improviso a menina a lingua solta

Em barbaros grasnidos que atarantam

A cabeça do velho. O «petimetre»

Responde em algarvia semelhante.

O pai, no centro delles, era um parvo

Gemendo sob o peso do ridiculo...

Mas lá vai o peor do caso infausto!

Ao dar da meia noute desse dia

Cumpria-se a promessa contratada

Na presença d'um pai, que bem podera

Embargos de terceiro inda intentar

Se fosse em portuguez organisada

A injusta petição do supplicante.


Pais de familia, vossas filhas fallam

Italiano, francez, gallego, ou turco?

Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas.

UM JANTAR DE BAROENS.

INVOCAÇÃO.

Musa da sopa e do cosido, inspira-me!

Pandega musa, que sorris ao vate

Em môlho d'açafrão, e de tomate,

Um cego adorador... achaste em mim.

Transforma o estro meu em lombo assado,

Da minha inspiração faz um podim.


Tu filha dos baroens, musa do unto,

Nasceste na cosinha entre caçôlas;

Saudaram-te no berço alhos, cebôlas,

Do cominho tiveste uma ovação.

Depois, trajando gallas de toucinho,

Eu vi-te nas bochechas d'um barão.


Namorado de ti, fiz-te meiguices,

Por de traz d'um pirum, e tu de lá

Sorriste-me atravez da nedea pá

De vitella gentil, rica de arroz!

Ai! era!.. e nem eu sei se foi mais linda

Aquella gorda pata... que te poz!


Tu fizeste de mim novo Claudio,

Inspiraste-me fé no rodavalho.

Traguei indigestoens, arrotos d'alho,

Bernardas
na barriga supportei.

Tomei chá de marcella... e, em premio d'isto.

O teu auxilio, ó musa, não terei?!


I

Dentro e fóra illuminado

O palacio d'um barão,

Fulgurante representa

Um enorme lampião.

Jorram lympidas vidraças

Sobre as populosas praças

Ondas tremulas de luzes.

Vai lá dentro grande goso,

Nesse alcaçar radioso

Do barão dos Alcatruzes.


D'Alcatruzes é chamado,

Porque, sendo ainda moço,

Muitos baldes d'agua fresca

Dizem que tirou d'um poço.

Nenhum outro mais destreza

Revellou na ardua empreza.

De puchar acima um balde.

Um que seja tão robusto

Ha-de vir mui tarde e a custo,

Do concelho de Ramalde.


É barão; não vale a pena

Discutir-lhe os nobres feitos.

É barão dos Alcatruzes

Já tem pagos os direitos.

Inda é mais; pois além d'isto

É commendador de Christo

Com bastante indiscripção.